27 janeiro 2026

Gigante entre as araras

Você sabia que a maior arara do mundo voa pelos céus do Brasil? E é bonita que só ela! A arara-azul-grande tem penas de um azul muito escuro, tanto que, de longe, elas parecem pretas. Além disso, sua cabeça é cheia de detalhes em amarelo: há um anel em torno dos olhos e, perto deles, na parte inferior do bico, uma faixa em forma de meia-lua.

Os machos e as fêmeas da arara-azul-grande são muito parecidos. Por conta disso, é difícil dizer quem é quem. Mas não se engane: a semelhança só é problema para nós. Para as aves, ela não causa confusão. Na hora de se reproduzir, quem disse que a arara-azul-grande se confunde? Machos e fêmeas se encontram e... Iniciam o namoro!

No Pantanal do Mato Grosso, o período

26 janeiro 2026

Viva em um mar de energia e luz!

Ao observarmos nosso mundo e tudo o que nos cerca, podemos considerar que vivemos mergulhados em um mar de energias e assim, tudo tem um campo de energia à sua volta: objetos, lugares, plantas, animais e seres humanos. Estes espaços de energia estão associados ao nosso padrão vibracional definindo o nível de saúde e bem-estar. Nos ambientes em que vivemos, vamos deixando impregnados os nossos padrões vibracionais: nossa casa, nosso armário ou mesa de trabalho são reflexos de nosso estado interior e de harmonia ou desarmonia física, psíquica e espiritual.

Imaginando o "astral" do ambiente de uma casa, na qual a família que ali habita, vive em clima de discussões e brigas ou lamentações e desânimo, compreendemos o quanto poderia ser agradável "curar" não só as angústias pessoais, como também os desconfortos impressos no ambiente. Isto explica porque nos sentimos bem ou mal quando entramos em um lugar. Nossa sensibilidade ativa o campo das percepções através de nossos sentidos. Sem ver ou ouvir, cheirar ou tocar, sentimos algo que nos anima ou invade nossa zona de conforto vibratório. Assim, estamos contagiados pelo otimismo ou por um súbito mau humor!

Nas empresas, o clima mental dos funcionários, a disposição vital e os fatores emocionais irão interferir nos resultados levando a um melhor desempenho de suas competências ou à estagnação de ideias e do próprio sucesso. O ambiente de trabalho dá claramente a visão de dupla mão: tanto o local interfere no rendimento quanto os funcionários interferem na alma do local das atividades. Escritórios entulhados ou escuros não podem gerar o mesmo tipo de sensação que os organizados.

O estado emocional e mental das pessoas de uma família ou funcionários de uma empresa vai "carimbando" o ambiente em um contágio progressivo, assim, anos de mágoas e ressentimentos pela vida, de palavras mal direcionadas, contextos de desânimo e falta de perspectivas podem gerar um ambiente depressivo, de fracasso e profundamente incômodo. Fazer uma boa limpeza em nossas casas ou ambiente de trabalho no aspecto físico é só o primeiro passo para criar um ambiente sadio e um espaço sagrado para quem ali trabalha ou vive. A etapa seguinte é a higienização do campo vibracional dos habitantes e do próprio campo energético do lugar.

Neste trabalho utilizo vários recursos fundamentados em uma visão holística assim como Essências Florais, Óleos Essenciais da Aromaterapia Terapêutica, Cromoterapia e princípios do Feng Shui. Primeiramente, procuro conhecer o local e seus habitantes. Um diagnóstico que conte com a conscientização e ponderação do estado a ser transformado permite avaliar o estado no qual encontra-se o ambiente. Ao tratá-lo, pessoas, animais, plantas e objetos captam essa nova atmosfera vibracional e passam também a ser assistidos pelas propriedades curativas dos instrumentos utilizados em seu campo energético.

A escolha, portanto, das essências florais, dos óleos essenciais, das cores e sons deve ser orientada de modo apurado, para que se alcance o objetivo desejado: alguns são considerados de uso comum para o bem-estar diário, enquanto outras serão determinadas de acordo com o quadro avaliado no diagnóstico.

Assim, considerando a cura dos aspectos físico, emocional, mental e espiritual passamos a uma observação do ambiente físico, tal como faríamos no corpo físico quando apresenta um sintoma: o ambiente pode ser frio demais, ou qu8ente demais, ou ter falta de luz; ter os objetos cheios de pó e esquecidos ali por algum tempo; ter plantas secas ou mortas. O som do ambiente é um convite a ficar ou a sair dele. A sua estrutura está são ou danificada. As cores atribuídas à decoração e os elementos presentes, texturas, nuances e sensações contribuem ou não para o equilíbrio complementar Yin/Yang.

Do mesmo modo, vamos avaliar os sintomas emocionais e mentais do ambiente: é um ambiente no qual há frequentes discussões, tristezas, sofrimentos, mau humor, disputas, ideias e sintomas negativos, pensamentos fixos de revolta, desamor, fracasso vingança? O tipo de atividade ali realizada: trabalho, estudo, alimentação também dá o tom dos aspectos a serem observados. O uso das essências florais e óleos essenciais em sprays é uma forma prática de aplicação. Pode-se borrifá-la pelo ambiente algumas vezes ao dia ou quando necessário. As sugestões do Feng Shui, ativando as áreas indicadas, são utilizadas em paralelo após o mapeamento do local.

Tudo o que nos cerca está ali por alguma razão, por alguma emoção e para ser cuidado por nós. Ao aspergir gotículas das essências florais, emantar um aroma renovador, deixar fluir os sons da natureza ou dar cor a nossos ambientes estaremos impregnando de amor tudo a nossa volta e então poderemos concluir que estaremos mergulhados em um mar de energia e luz!


Texto de Márcia Cristina Fernandes retirado da Revista Vida em Equilíbrio, Edição 6, Casa Dois Editora, São Paulo, Abril de 2002.

25 janeiro 2026

A Força do Equilíbrio

A partir da década de sessenta, a civilização ocidental descobriu a cultura do oriente. Em meio a protestos contra as guerras, queimas de sutiãs em praças públicas e a descoberta da pílula anticoncepcional, incorporamos muitos valores de nossos amigos do outro lado do mundo. O principal deles foi a necessidade do cuidado com o corpo, a mente e o espírito.

Passadas quatro décadas, agora também nos conscientizamos de que a casa onde vivemos também merece cuidados e atenções. Mais do que simples abrigo e local de descanso, o lar reflete de forma clara e inequívoca da nossa personalidade e estilo de vida. Guarda as lembranças de nosso passado e deveria ser o nosso cantinho no mundo, trazendo aconchego e até proteção, não só dos males físicos mas também psicológicos e espirituais.

Todas as culturas apresentam uma série de rituais, rezas e símbolos para proteção e equilíbrio do lar, mas a vanguarda dessas técnicas está nas mãos dos chineses. Há cerca de quatro mil anos esse novo povo vem se dedicando à prática do Feng Shui, cujo objetivo principal é deixar fluir livre e equilibradamente pela casa as  energias positivas que nos trazem saúde, bem estar e prosperidade material e afetiva. São analisados todos os cômodos, cada canto, objeto, cores e  disposição dos móveis.

Terminada a análise, o Feng Shui propõe sempre  soluções simples e baratas, como a instalação de um espelho, uma pequenina esfera de cristal, um sino de vento, um móbile, a troca de um móvel de lugar, um quadro, um vaso de flores, uma cor.

Mais do que atrair bons fluídos para nosso lar, temos todas condições de criá-los no interior do próprio ambiente. O conjunto de pensamentos, sentimentos, estados de espírito, condições físicas, anseios, atos e intenções dos moradores fica impregnado no ambiente, criando o que se chama de egrégora.

Você, com certeza, já esteve numa residência ou ambiente onde sentiu um profundo bem-estar e sensação de acolhimento, independente de beleza, luxo ou qualquer outro fator externo. Essa atmosfera gostosa, sem dúvida, era dada principalmente pelo estado de espírito positivo de seus moradores.

Infelizmente, é muito mais corriqueiro entrarmos em ambientes que nos oprimem ou nos dão a sensação de falta de paz e, às vezes, até de sujeira, mesmo que a casa esteja limpa. A vontade é de ir embora rapidamente, mesmo que sejamos bem tratados.

O que poucos sabem é que as paredes, objetos e a atmosfera da casa têm memória e registram as energias de todos os acontecimentos e do estado de espírito de seus moradores, ficando impregnados com essas energias. Por isso, quando você pensar na saúde energética de sua casa, tome a iniciativa básica e vital de impregnar sua atmosfera apenas com bons pensamentos e muita fé. Evite brigas e discussões desnecessárias.

Observe seu tom de voz: nada de gritos e formas agressivas de expressão. Não bata portas. Tente assumir gestos harmoniosos, cuidando de seus objetos e entes queridos com carinho. Não pense mal dos outros, praga nem pensar! Selecione muito bem as pessoas que vão frequentar sua casa. Festas, brindes e comemorações alegres são bem vindas, porque trazem alegria e muita energia para sua casa. Mas cuidado com os excessos, nada de bebedeiras e muito menos o uso de drogas, que atraem más energias e espíritos de baixo nível.

Se você nutre uma mágica profunda ou mesmo um ódio forte por alguém, corra e procure ajuda para alimpar essas energias densas de seu coração e lembre-se que sua casa também pode estar contaminada. Aprenda a  fazer escolhas e determine o que quer para sua vida e ambiente onde mora. Alegria, amor, paz, prosperidade, saúde, amizade, beleza já estão bons para começar, não é mesmo?


Texto de Vera Caballero retirado da Revista Vida Em Equilíbrio, Edição 02, Casa Dois Editora, São Paulo, Agosto de 2001.

24 janeiro 2026

Regozijemo-nos Sempre (102)

 "Regozijai-vos sempre." - Paulo. (I TESSALONICENSES, 5:16.)


O texto evangélico não nos exorta ao júbilo somente nos dias em que nos sintamos pessoalmente felizes.

Assevera com simplicidade - "regozijai-vos sempre."

Nada existe no mundo que não possa transforma-se em respeitável motivo de trabalho, alegria e santificação.

E a própria Natureza, cada dia, exibe expressivos ensinamentos nesse particular.

Depois da tempestade que arranca raízes, mutila árvores, destrói ninhos e enlameia estradas, a sementeira reaparece, o tronco deita vergônteas novas, as aves refazem os lares suspensos e o caminho se coroa de sol.

Somando o homem, herói da inteligência, guarda consigo a carantonha do pessimismo, por tempo indeterminado, qual se fora gênio irado e desiludido, interessado em destruir o que lhe não pertence.

Ausência continuada de esperanças e de alegria na alma significa evolução deficitária.

Por toda parte, há convites à edificação e ao aprimoramento, desafiando-nos à ação no engrandecimento comum.

Ninguém é tão infeliz que não possa  produzir alguns pensamentos de bondade, nem tão pobre que não possa distribuir alguns sorrisos e boas palavras com os seus companheiros na luta cotidiana.

Tristeza de todo instante é ferrugem nas engrenagens da alma. Lamentação contumaz é ociosidade ou resistência destrutiva.

É necessário acordar o coração e atender dignamente à parte que nos compete no drama evolutivo da vida, sem ódio, sem queixa, sem desânimo.

A experiência é o que é.

Nossos companheiros são o que são.

Cada qual de nós recebe o quinhão de luta imprescindível ao aprendizado que devemos realizar. Ninguém está deserdado de oportunidades, em favor da sua melhoria.

A grande questão é obedecer a Deus, amando-O e servir ao próximo de boa-vontade. Quem solucionou semelhante problema, dentro de si mesmo, sabe que todas as criaturas e situações da senda são mensagens vivas em que podemos recolher as bênçãos do amor e da sabedoria, se aceitamos a lição que o Senhor nos oferece.

Nesse sentido, pois, não nos esqueçamos de que Paulo, o intimorato batalhador do Evangelho, sob tormentas de preocupações, encontrou recursos em si mesmo para dizer aos irmãos de luta: - "Regozijai-vos sempre."


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

23 janeiro 2026

Na Seara da Linguagem

 GRAMÁTICA É UM SABER FALAR, INSTRUÍDO POR UMA TRADIÇÃO. NÃO É A MERA DESCRIÇÃO DA FALA, NEM COMPÊNDIO, MAS UMA TÉCNICA QUE PERMITE A DUAS PESSOAS ENTENDEREM UMA A OUTRO.


É curioso que, sendo a linguagem uma faculdade inerente aos humanos, dela tenhamos ainda um conhecimento muito imperfeito. Quero referir-me à linguagem propriamente dita, e não ao uso do termo em aplicações ou de sentido extensivo, quando nos referimos à linguagem dos gestos, das cores, dos sinais de trânsito e correlatos.

O primeiro engano é o que nos leva a reduzir a linguagem ao domínio da Língua, isto é, penetrar nos domínios da linguagem é limitar-se a saber uma Língua.

Desde cedo, precisamos nos convencer de que não falamos só com a Língua; há a necessidade de cultivar outros saberes, tão importantes e necessários para cumprir a função primeira da linguagem, que é a comunicação entre pessoas, presentes ou ausentes.

Não existe os diferentes saberes um mais importante que o outro, já que todos concorrem para a perfeita comunicação, traduzindo conhecimentos, notícias, desejos, sentimentos, ordens e o que nos vai no espírito e na alma.

Está claro, e os antigos já a punham em primeiro lugar na grade curricular mais antiga do Ocidente - que a  gramática é a que precisamos dominar antes das demais, não porque seja a mais importante, mas sim a que serve de instrumental, de matéria-prima para a exteriorização dos outros saberes. Por gramática não me refiro ao compêndio gramatical, a uma descrição do falar, e sim a uma técnica, a um saber falar, instituído por uma tradição.


Os três saberes

Essa técnica do saber falar é a que se patenteia quando duas pessoas se comunicam mediante sua Língua, independentemente de ela já ter essa técnica descrita num registro gramatical e seu léxico levantado num dicionário. Por isso, é fácil entender que ainda há grande número de Línguas faladas não descritas em tratados gramaticais e dicionários. E enriquece-se esse saber idiomático com a leitura de uma gramática e um dicionário.

Ao lado do saber idiomático, temos de dominar as regras elementares do pensar, e conhecer o mundo em que estamos inseridos, para que possamos falar "com sentido", isto é, com congruência, com articulação do nosso pensamento. Não é por causa do idioma que não precisamos declarar que uma pessoa tem pernas ou duas pernas, pois isso já nos está dado pelo nosso saber do mundo, pelo nosso conhecimento das pessoas de nosso mundo. Ao dizer que vemos uma pessoa com pernas ou com duas pernas não cometemos um erro de Língua, mas algo desnecessário. Já não será desnecessário dizer que vemos alguém com pernas longas, ou curtas, feias ou bonitas, direitas ou tortas, pois as pessoas do nosso mundo apresentam essas diferenças que, numa descrição, precisam ser assinaladas.

Nesse saber entra a nossa cultura geral das coisas, já que falamos sobre algo, ou melhor, sobre algo que conhecemos. E enriquece-se a cultura geral pela leitura e pelo estudo.

Outro saber importante é o saber construir o texto, falado ou escrito. Não basta saber o que dizer nem saber dizer algo com auxílio do idioma; é preciso saber "construir" o texto, isto é, adequá-lo ao assunto, à(s) pessoa (s) a quem se dirige, ao assunto e à situação. Há um texto adequado para falar a crianças e a adultos, há outro para falar numa excursão ou na sala de aula; há outro para falar, ainda que de um mesmo tema, para crianças do ensino fundamental, para jovens universitários, para professores pós-graduados. E enriquece-se esse saber expressivo com a leitura reflexiva dos grandes escritores.


Texto de Evanildo Bechara retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 2, Editora Segmento, São Paulo, Outubro/Novembro de 2005.

22 janeiro 2026

A ciência da invenção

 A curiosidade sobre a história das palavras levou a étimos obtidos pela ciência e a suspeitas vindas da cultura, mas é preciso intervir no conflito entre ambas para melhor aproveitá-las


Etimologia é terreno a ser lipoaspirado. Muitas das controvérsias sobre a origem das palavras padecem de o étimo ser visto como patrimônio tributário tanto da ciência como da cultura. O litígio se instala ali onde a verificação não anula necessariamente a imaginação, e quando se sabe que a especulação raramente tem papel mais confiável que o da pesquisa, mas nem por isso é menos significativa.

Parte da semântica, do estudo das significações (no caso, históricas), a ciência etimológica investiga, de forma objetiva, o motivo de uma palavra assumir uma aparência e um sentido numa dada Língua. Essa ciência das origens chegou a um requinte de precisão notável, a uma sondagem cada vez mais próxima da reconstituição refinada e a progressivamente capaz de contornar as debilidades de base contidas em sua amostra.

Os estudos etimológicos conseguiram isso ao priorizarem a explicação fonética por trás das mudanças, e não apenas as formas antecedentes de um vocábulo. Foi preciso muito trabalho suado para isso, cruzando-se informações sobre as características fonéticas, os contextos históricos ou sociais e os intercâmbios diversos mantidos pelos povos. Os avanços, contudo, não tornaram a etimologia especialmente imune a aproximações nem sempre confiáveis e ilações a partir de vestígios frágeis.

Citemos alguns problemas correntes para filólogos e etimologistas profissionais, não meros palpiteiros da linguagem. Embora a base do nosso vocabulário seja latina, suas origens remontam a época anteriores à influência do império romano. E sabemos que, nas Línguas Indo-Europeias, o nome abstrato tem quase sempre origem concreta: de saída, o esforço está em distinguir a realidade das inúmeras camadas de ilusão.

Uma Língua Românica por vezes passa a usar uma palavra de origem latina em um sentido específico, transmitindo-a a outra. O Francês, o Espanhol e o Italiano fizeram muito isso com o Português, papel agora exercido também pelo Inglês. Com relativa frequência, há sobreposição de formas homônimas, mas de étimos diferentes, o que leva a sentidos divergentes. E, não raro, um mesmo étimo traz variantes formais e semânticas. Tudo depende do rumo que tomou e da época em que o termo passou, por exemplo, de uma Língua anterior para outra mais moderna.

Tal caldeirão de gorduras pode confundir o pesquisado e passa ao largo das preocupações do leigo sobre a origem das palavras. É preciso tirar o excesso, lipoaspirar a sobra, não só para fazer ciência mas para aproveitar melhor o que a cultura oferece à trajetória de uma dada palavra.

Os problemas de pesquisa são tão contundentes que fariam esmorecer o pesquisador menos empenhado. Por isso, perdoe Euclides da Cunha, um etimologista é antes de tudo um forte. Sabe que sua procura se apoia em resíduos, o que reduz o ritmo das passadas dadas a cada avanço.

Como, por princípio, não temos acesso à efetiva maneira como as palavras eram ditas e usadas no cotidiano antigo (o chiste anacrônico sobre a falta que fez um gravador digital no império romano), quem se intriga com a trajetória de um termo ou o fluir histórico de uma linguagem se vê obrigado a uma contínua adequação de objetos e métodos..

As relações entre ciência e cultura etimológica têm sido sinuosas e excludentes. Há um saber da ciência que nos vacina de "chutes bem intencionados" sobre o antepassado de uma palavra. Mas há também um saber da cultura que seria uma pena desprezar. Pois há cultura etimológica até em certezas insustentáveis (e alguns chutes descarados) no Crátilo, de Platão, no século 5 a.C.; no Etimologias, de Isidoro de Sevilha (560-636 d.C.); e mesmo em pesquisadores século 20, como o Antenor Nascentes de Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1932) ou o Silveira Bueno de Semântica Brasileira (1965).

Idealizadas com  esforço, mas nem sempre com tanto critério e rigor, suas etimologias não contavam com informações sobre características fonéticas e traços evolutivos dos  idiomas obtidos há relativo pouco tempo pelos filólogos. Quando o faziam, nem sempre cotejavam de forma sistemática o estado de uma Língua ao de outras com que porventura ela tenha, de algum modo, se relacionado.


Sabedoria intelectual

Mas, mesmo em seus delírios mais extravagantes, os pensadores da linguagem projetaram imagens que obedeciam a razões muito particulares. Cada falsa etimologia pode, assim, dizer muito pouco sobre a linguagem, mas pode dizer muito sobre a vida em sociedade que a fez circular, assim como sobre a visão de mundo e o sujeito que a imaginou.

As palavras ganharam muitos sentidos e formas até chegarem a nós, e as usamos com tanta familiaridade que nem prestamos muita atenção nelas. No entanto, essa experiência de mundo acumulada pelas culturas anteriores à nossa está contida nas palavras, em sua trajetória, em sua evolução, nas entrelinhas dos significados mais reveladores, nos detalhes da pronúncia que nos são mais característicos.

Está contida até nas grandes narrativas sobre palavras, ficcionalizadas pelos  antigos, uma sabedoria intelectual que por vezes se consolida como etimologia popular, que não é de ninguém em particular, mas de todos em especial. Uma sabedoria que constitui ela mesma história própria, trajetória de pensar que não faz sombra às descobertas da ciência, mas tampouco deveria ser desconsiderada, sem mais - quando mais instigante seria incorporá-la à trajetória dos conhecimentos acumulados sobre uma dada palavra ou formulação expressiva.

É preciso ciência para nos alertar da etimologia popular, mas também invenção para anestesiar (desculpe o exagero da fórmula) a perda de ilusões pelas conquistas da etimologia científica. Se cada palavra contém um insight sobre a realidade, que terminou incorporado à linguagem de toda uma cultura, mesmo a falsa etimologia se agrega ao "currículo" da palavra, por mais efêmera que tenha sido sua circulação e consistência. Se não deve ser encarada como a "verdade" da história de uma palavra, uma construção cultural pode nos explicar muito do que passou pela mente daqueles que por ela apelam - no limite, pelo que passa por uma comunidade inteira de falantes e usuários de um idioma.


História viva

A cultura etimológica parte de uma inquietação tão antiga quanto recorrente, sobre se é possível entender algo do nosso cotidiano pelo passado das palavras que marcam a  nossa vida. Hoje já se sabe que seria imprudente crer que as palavras não passam de ferramenta da comunicação, quando na prática passaram  séculos de boca a boca, carregando por onde passaram a experiência de povos anteriores, muitos dos quais extintos. A etimologia popular não será jamais capaz de nos convencer de forma consistente ou nos enganar por muito tempo. Mas tampouco a etimologia científica está perto de dar a última palavra.

O estudo da história das palavras se tornou, assim, um campo com história própria, que se pode incorporar à trajetória do vocábulo. O cachorro morde o rabo. Há um tanto de petulância e muito de insolvência sistêmica em tal propósito: o conjunto de elementos conteria o conjunto maior que os incorpora.

Pois a etimologia é muito mais que a busca pela origem de palavras. É talvez a procura, hesitante e por vezes duvidosa, por uma narrativa maior. Não é só a história dos vocábulos, mas da humanidade que se fez linguagem. Por isso, investigar a evolução de um vocábulo talvez seja um caminho mais rico em possibilidades do que resgatar apenas a origem sustentável de um termo - assim como exige confiar no dado provado, que nos vacina do mito etimológico.

A própria ideia de que podemos desvendar uma origem, é preciso relembrar, é ela mesma um mito, e ancestral. A curiosidade que o passado das palavras desperta talvez seja, no fundo, correlata da tentativa de saber o que somos e de onde viemos. E permite mostrar o quanto se vê de modo diferente o mundo se deixarmos a linguagem nos contar um pouco de suas andanças por povos e eras distintas.

Na investigação etimológica, convergem o traço fonético e a afinidade semântica. Porque há leis fonéticas, é preciso ver a relação entre os fonemas de origem e das palavras derivadas. Mas com a rede de significados que afetaram a história de uso e as mutações de uma palavra, não se dá o mesmo. Desconhecer a cultura (de outros povos e do nosso)  mina o projeto de almejar o sentido e a evolução de uma palavra.


Leis e ordens

As mutações fonéticas ocorrem de forma até regular, mas as semânticas não, seguem rumos não raro imprevistos. Os filólogos Kurt Baldinger e Bruno Fregni Basseto (este da USP, autor de Elementos de Filologia Românica, prêmio Jabuti em 2002) professaram em mais de uma ocasião a necessidade de, em lugar de verbetes com datas e étimos frios, os etimologistas criarem genuínas biografias das palavras, que focassem tais trilhas imprevisíveis. O futuro dos estudos etimológicos é buscar não só as origens, mas a trajetória que torna um vocábulo vivo para a cultura. E isso implicará resgatar as pegadas dessa trajetória, alertando para os passos dados com informes seguros ou infundados.

O resgate da etimologia para a vida cotidiana é talvez o caminho mais fértil para uma tomada de consciência sobre a nossa Língua, convém sempre repetir. Se soubermos o que repetirmos do passado ao nos expressar, talvez percebamos que o mundo nem sempre foi assim e não há motivo para mantê-lo como é.


Texto de Luiz Costa Pereira Júnior retirado da Revista Língua Portuguesa Especial Etimologia, Editora Segmento, São Paulo, 2011.

21 janeiro 2026

Para ler um outro mundo

 PROCURAR A TRAJETÓRIA DAS PALAVRAS É ESTABELECER RELAÇÕES DE SENTIDO ESTIMULANTES COM TUDO O QUE SE LÊ


Ler bem é ouvir o que as palavras nos dizem. E, para ouvi-las melhor, um dos recursos é a etimologia.

O que dizem as palavras quando as despimos, quando perscrutamos seu passado, suas reentrâncias, seu parentesco? Não dizem tudo, é verdade. Sempre falta à palavra outra palavra que a complemente e que a explique. Nathalie Sarraute, no livro O Uso das Palavras, imagina as palavras produzindo inúmeras ondulações. Captar essas ondulações, ler as entrelinhas, e as entreletras, é instrutivo, divertido e trabalhoso. Captá-las com outras palavras é o exercício de quem quer ler para valer. Tal esforço se renova infinitamente.

Como defendia Mário de Andrade, quem lida com palavras lida com elementos de consciência. Nas palavras, tomamos ciência e consciência do que somos, do que pensamos, do que pensam os outros, do que os outros são. Na leitura que ouve com atenção, as palavras iluminam nossa consciência. Mas pouco dizem os dicionários sobre o que as palavras dizem! Por isso os exercícios etimológicos atraem a atenção dos que esperam, em sua convivência com a linguagem, algo mais do que definições convencionais.

Palavras as mais desbotadas podem recuperar seu brilho e contundência. A palavra "importante", por exemplo. Uma palavra tão corriqueira é muito mais sugestiva do que pensamos. "Importante" ganha grande importância e nos aguça a consciência quando a ela associamos a ideia de "importação". Importare, no latim, é trazer de fora para dentro, trazer para si o que interessa é "comprar" o que consideramos

O escritor, o professor, o comunicador exportam. E, se exportam o importante, as pessoas se interessam! Recuperar o colorido da palavra "importante" é redescobrir o que diz a palavra, mesmo quando já emudecemos para ela. Ou melhor, dialogando com a palavra ouviremos o que ela diz... ou apenas sussurra. Mais ainda: suscitaremos que ela diga outras coisas importantes.

Nossas leituras podem ser mais criativas se, entre outros recursos, empregarmos com mais frequência esse instrumento que busca o étimo, garimpando, tocando os vestígios que remontam à origem. Lembrava o medievalista Étienne Gilson: "Na origem sempre reside o mistério." E o mistério (como explicam os etimólogos) é aquilo que se encontra silenciado (ou silencioso...), e requer um rito iniciático para ser conhecido.

Etimologizar no ato da leitura é iniciar-se nos mistérios da palavra, descerrar os lábios das palavras para ouvir seus sagrados segredos. A etimologia contribui para revelar o velado, descobrir o coberto. O leitor empenhado em procurar a origem das palavras poderá estabelecer relações de sentido estimulantes!


Perguntas sem resposta

Vamos à crônica de Clarice Lispector Eu sou uma pergunta, do livro A Descoberta do Mundo. São inúmeras interrogações sem resposta: "Por que escrevo?", "por que minto?", "Por que digo a verdade?", "Por que há o infinito?", "Por que há o tempo?", "Por que há uma galinha?" - e as perguntas de fundo são: o que significa ser um ser que vive a perguntar?

A pesquisa sobre as origens da palavra "pergunta" remete a praecuntáre, do latim popular, proveniente do clássico percontáre, referindo-se por sua vez a contus. Contus era uma vara, bastão ou lança com inúmeras utilidades. Poderia servir como arma de combate ou instrumento de caça, mas também para finalidades menos agressivas. O contus era usado pelo mestre de qualquer tipo de embarcação para ir tocando o fundo de um rio a fim de evitar o encalhe. E era utilizado pelos cegos. Em geral um bastão vigoroso, com ele os cegos podiam sondar o entorno para evitar obstáculos, buracos e encontrar seu rumo.

O prefixo "per-" indica movimento para todos os lados, como em "perquirir" (buscar com cuidado, procurar por toda a parte). Tanto o barqueiro como o cego lançam mão do contus para descobrir perigos e definir trajetos. Precisam conhecer o que existe ao seu redor e à sua frente. Perguntam porque desconhecem.

Deduzo que Clarice se vê como alguém que pergunta porque caminha e necessita caminhar. Ela é a própria pergunta em busca de seus caminhos. Mas quem pergunta admite não ver. E quem não vê pode tropeçar, encalhar, espatifar-se. Perguntar, ato de humildade, curiosidade urgente. Habitantes num mundo repleto de obstáculos e perigos, nossa função primordial é essa: perguntar sobre a realidade circundante

E não só a que nos circunda, mas também a que nos constitui. Ao  perguntar, e perguntar-se - "Por que escrevo?" - a escritora investiga sua própria essência, indaga a respeito da sua "navegabilidade" nos rios e mares da escrita. E assim, o texto de Clarice deixa de ser um rol de perguntas mais ou menos interessantes. Torna-se, à luz da etimologia da palavra "pergunta", um visível esforço por ver o invisível.


Pergunta viva

Afirmará alguém que a autora do texto  não tinha em mente a origem das palavras e a leitura pode ser mais fantasiosa do que rigorosa. No entanto, está aqui, precisamente, a força da consciência etimológica. O leitor interroga-se sobre significados e sentidos que a palavra ainda carrega em suas camadas, conheçamos ou não o teor dessa preciosa presença.

Mergulhando nessas camadas verbais, o leitor se dá conta de que ninguém escreve impunemente. As mutações sofridas pela palavra, no plano fonético e semântico, não aboliram as motivações profundas do seu surgimento. Embora "perguntar" nada mais tenha a ver com a materialidade de um bastão, esse bastão interrogante encontra-se, por assim dizer, embutido no verbo.

A propósito, o leitor que pesquisa a origem etimológica das palavras é também ele uma pergunta viva. Com seu bastão etimológico, envereda pelos caminhos que as palavras percorreram antes de chegar até nós. Atravessa as planícies dos idiomas modernos, entra na floresta do latim medieval, escala as montanhas do idioma grego, bebe na fonte do indo-europeu.

A etimologia como instrumento de leitura permite interpretar com novos olhos as palavras mais "inocentes", pois inocente nenhuma palavra é.


Texto de Gabriel Perissé, retirado da Revista  Língua Portuguesa Especial - Etimologia, Ano 1, Editora Segmento, São Paulo, Janeiro de 2006.


A leitura que não lê

A ideia do ato de ler para além da superfície do texto está expressa na própria evolução das palavras "ler" e "leitura". Legere, ancestral latino do verbo "ler", significava "colher" frutos nos mais remotos registros da antiga Roma. Várias palavras ligadas a "ler" denunciam sua origem agrícola. O verbo colligere descreve a ação de coletar e resumir ao mesmo tempo, reunir em coleção, e nos legou "coligir".

Entre o ato de ler e a leitura, no entanto, há uma sutil distância etimológica. "Leitura" surgiu já quando o sentido de ler passou a ser a ser o de percorrer, por meio da vista, algo escrito. "Ler" um texto, não colher uma hora, está registrado em Português desde o século 13. A palavra "leitura" surgiu, assim, do latim tardio lectura (comentário), veio do latim clássico lectio, lectionis, o derivado de legere, que deu em "lição" (no século 13 tinha a forma "liçon", em Português).

Ler é colher com os olhos, é capturar com a vista. A leitura seria um ato além, o de comentar. Há quem leia sem fazer, de fato, uma leitura, sem usar o ato de ler para captar as possibilidades do texto. A execução privada do ato de ler, a leitura seria então de algum modo diferente de ler, exigiria uma conduta mais ativa, enfatizando a autonomia de quem lê. (Luiz Costa Pereira Júnior)

20 janeiro 2026

Com a casa poluída

Quando descobrem uma nova espécie de animal ou planta, os pesquisadores costumam dar a ela um nome associado às características físicas que a espécie apresenta ou homenagear quem a descobriu, ou, ainda, reverenciar alguém famoso no trabalho com aquele tipo de ser vivo. No caso do cágado-de-hogei (pronuncia-se "róguei"), vale a terceira opção. O nome reverencia o belga Alphonse Hoge, um herpetólogo - isto é, um especialista em anfíbios e répteis - famoso em sua área de pesquisa.

O cágado-de-hogei diferencia-se dos demais por ter a cabeça pontiaguda de cor marrom na parte superior e creme, na parte inferior. A carapaça, como é chamada a parte de cima do casco, também é marrom e um pouco achatada. Já o plastrão, a parte de baixo do casco, é amarelo com manchas em tom ferrugem.

Outra característica marcante do cágado-de-hogei são as unhas, usadas para escalar as bordas do rio. Até hoje, o animal só foi encontrado em rios que ficam a até 500 metros de altitude, localizados na bacia do rio Paraíba do Sul - do estado do Rio de Janeiro ao sul de Minas Gerais - e também no Espírito Santo, na bacia do rio Itapemirim.

E o que come um cágado? Bem, essa espécie é onívora, isso significa se alimenta tanto de animais quanto de vegetais. Seu cardápio inclui vermes, insetos, moluscos, frutos e verduras encontrados pelo animal na vegetação que existe ao longo das margens dos rios.

Mas em que meses o cágado-de-hogei costuma se reproduzir? Quantos ovos põe a fêmea desse animal? Em que locais os ovos são colocados? Quem são os predadores da espécie? Quanto tempo vive esse réptil? Infelizmente, essas perguntas ainda não puderam ser respondidas pelos pesquisadores por causa da dificuldade que têm de encontrar o cágado-de-hogei para estudar.

O pior é que a espécie agora está ameaçada de extinção e o motivo é a destruição do seu habitat pelo homem. O desmatamento das matas ciliares - aquelas ao longo dos rios, onde o animal busca alimento - e a poluição das águas com o despejo de substâncias tóxicas das indústrias e de esgoto não tratado podem levar o cágado-de-hogei a desaparecer. Reverter essas ações é o que se pode fazer para que essa e outras espécies de cágados continuem existindo.

Nome científico: Phynops hogei

Nome popular: cágado-de-hogei

Tamanho: até 34 centímetros de carapaça

Habitat: rios localizados até 500 metros de altitude nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.


Texto de Henri M.A. Mendes e Monique Van Sluys - Departamento de Biologia Animal e Vegetal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Retirado da Revista Ciência Hoje para Crianças, Ano 14, Número 115, Julho de 2001.

19 janeiro 2026

Por que o ouvido produz cera?

Amigas da aparente limpeza, as hastes flexíveis podem ser arqui-inimigas da sua saúde auditiva. Por quê? Porque a cera produzida pelas chamadas glândulas ceruminosas não é sujeira, é proteção!

A cera é produzida pelo ouvido para impedir que partículas estranhas e micro-organismos entrem no canal auditivo e causem infecções. Ela também protege o revestimento desse canal - que é a porta de entrada dos sons que ouvimos.

Em geral, o ouvido cuida da sua própria limpeza. Quando há um excesso de cera, ele trata de expulsar. Logo, é só a cera que vemos do lado de fora da orelha que devemos limpar, mas... Com todo o cuidado!

Quem usa hastes flexíveis ou outros tipos de instrumentos prejudica a autolimpeza do canal auditivo. Aliás, muitas vezes esses instrumentos até empurram a cera para dento do canal e isso faz com que ela se acumule. O resultado pode ser uma otite, isto é, uma dor de ouvido resultante de uma infecção.

Mas é bem verdade que assim como há pessoas que transpiram mais do que outras, há aquelas que produzem uma quantidade de cera além do normal. Em alguns desses casos, é necessário que o médico que o médico otorrinolaringologista - especialista em ouvido, nariz e garganta - realize a lavagem do canal auditivo.

A limpeza consiste em injetar água dentro do canal usando uma seringa metálica. Não precisa se espantar porque não dói nada. Esse procedimento é muito importante, pois o excesso de cera pode se transformar num obstáculo à passagem das ondas sonoras e provocar a diminuição da audição.

Com os ouvidos obstruídos pelo excesso de cera, a pessoa tem dificuldades de entender palavras faladas com fraca intensidade, ou seja, em volume baixo. Às vezes, mesmo as palavras faladas em intensidade de uma de uma conversação normal podem não ser totalmente compreendidas. Isso acontece porque o nosso idioma - o Português falado no Brasil - possui sons, como os do 'v', do 'f', do 'b' e do 'p', que são de fraca intensidade.

Entender todos os sons do idioma com perfeição é muito importante, principalmente para as crianças. Afinal, aquilo que ouvimos interfere diretamente no nosso rendimento na escola.


Texto de Carla Queiroz e Carlos Augusto Ferreira de Araújo - Escola de Reabilitação, Universidade Católica de Petrópolis. Retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 14, Número 115, Julho de 2001.

18 janeiro 2026

Idioma e Identidade

Na clássica história de Babel o que mais chama a atenção é, claro, a confusão dos idiomas que se instala quando Deus pune este projeto arrogante. O que fica num segundo plano é o projeto propriamente dito, o projeto da torre. É a materialização de uma blasfêmia, como a Bíblia bem claro, mas é, reconheçamos, um projeto arrojado e que, aparentemente, unia toda a humanidade. Concluída, a torre de Babel representaria uma mensagem universal, uma mensagem que todos os  homens entenderiam. Mensagem abominável, do ponto de vista de Jeová, mas mensagem, de qualquer modo, como é mensagem todo monumento. Essa mensagem unificadora nunca foi concluída, por causa exatamente do caos linguístico; e foi então substituída por um novo projeto comum, menos ambicioso e mais lógico; o projeto de um idioma universal de que o Esperanto do doutor Zamenhoff é o grande exemplo.. Dito projeto não chegou a decolar, mas caracterizou como válida a aspiração humana de união. De fato, unidade e diversidade são dois polos da nossa sociedade cotidiana, como o são a globalização e a regionalização. Correspondem a duas necessidades básicas da pessoa, a necessidade de uma identidade pessoal e grupal e a necessidade de dissolver-se no todo em que se constitui a condição humana.

O Brasil é um exemplo disso. Por causa de sua extensão classicamente é conhecido como um país continental. E, sendo do tamanho de um continente, poderia ter vários idiomas, como acontece em regiões, aliás muito menores, da Europa. Não, o idioma é um só. Mas é um só diferenciado de acordo com as regiões. O linguajar do gaúcho é muito diferente do linguajar do nordestino, ou do paulista, ou do carioca. Dei-me conta disso quando escrevi o prefácio para um livro de contos do grande escritor rio-grandense-do-sul Simões Lopes. Quando recebi da editora o livro, fiquei impressionado com o tamanho do glossário, que daria até um volume à parte. O que é explicável: pouca gente fora do Rio Grande do Sul sabe, por exemplo, o que é um tirador, aquele avental de couro que o gaúcho usa para conter a rês. E, pouca gente usa o "tu" como pronome da segunda pessoa.


O Efeito TV

A situação poderia permanecer assim por muito tempo, talvez indefinidamente. Mas então surgem as redes de TV, e o Brasil, de sul a norte e de leste a oeste, começa a ouvir um idioma único. O resultado é a homogeneização, que chega a todo o país e põe em xeque as nuances regionais.

No Rio Grande do Sul o "tu" começa a dar lugar ao "você", primeiro nos programas de rádio e TV, logo na conversa informal. O "tu" ainda permanece nos lares e nos bares, mas quem sabe por quanto tempo? E quem imaginaria, por outro lado, a quantidade de anglicismos que, por causa do papel hegemônico dos Estados Unidos, tem penetrado na linguagem corrente?

Caprichosos e às vezes imprevisíveis são os caminhos do idioma, como caprichosos e à vezes imprevisíveis são os caminhos da humanidade, que ora levam à identidade individual/grupal ora à identidade universal. E caprichoso e imprevisível é o destino dos projetos nessa área. Os construtores da torre de Babel que o digam.


Texto de Moacyr Scliar retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.