COMO UMA PALAVRA IMPORTADA DANÇA CONFORME A MÚSICA DO NOSSO IDIOMA
Ao entrar no léxico de uma Língua, o estrangeirismo abre nesse idioma um capítulo especial da gramática no que toca à flexão de número e à referência ao gênero.
Em relação à indicação do plural dos estrangeirismos ainda não adaptados ao Português, o primeiro impulso é assinalar a flexão com o pluralizador - s, qualquer que seja a procedência do estrangeirismo: films, leaders, dandys, lieds, leads, revolvers, pennys, sportsmans, curriculuns, etc.
Alguns desses plurais acima coincidem com os plurais de Língua de origem: films, revolvers, leaders, leads. Outros apresentam flexão diferente: os de fonte inglesa dandy, lady, penny, sportsman fazem o plural dandies, ladies, pennies ou pence, sportsmen; o alemão lied (pron. lid) faz o plural lieder, enquanto leitmotiv faz leitmotive e blitz faz blitze.
O italiano confetti já é plural de confetto; o latinismo curriculum, neutro, tem o plural curricula, como campus o tem na forma campi. O grego logos faz o plural logoi.
À medida que vai aumentando o conhecimento de Línguas estrangeiras, vão os escritores e falantes procurando respeitar a flexão dos idiomas originais.
Gênero Estrangeiro
No que se refere ao gênero a ser atribuído aos estrangeirismos que entram no Português, o princípio recomendado também é o mesmo, isto é: o respeito à gramática do idioma originário.
É bem verdade que também aflora aqui ou ali a analogia com o gênero da palavra correspondente no Português, critério que se assenta em algumas reais coincidências existentes entre o vernáculo e o idioma estrangeiro. É o que ocorre com o Italiano e o Espanhol libro, o Francês livre, o Alemão buch, o Inglês book, o Latim líber, todos regulados analogicamente, ao masculino Português livro, sabendo-se que, nas Línguas em que há o gênero neutro, nosso idioma o trata como de gênero masculino. Daí os Portugaliae Monumenta Histórica, plural neutro.
Quando não há semelhança material como nos exemplos anteriores, há tendência para se regular pelo equivalente gênero da palavra subentendida em Português. Assim, o Latim quercus, que é feminino nessa Língua, como representa o Português carvalho, poderia ser tratado como do gênero masculino, o que é influenciado por se subentender carvalho, masculino.
Tal como fazemos com a palavra rádio: se a usamos para designar o aparelho, dizemos o rádio está desligado; se, entretanto, aludimos à estação, dizemos a rádio está fora do ar. O exemplo de quercus, lembrado por Leite de Vasconcelos (Lições de Filologia Portuguesa), é oportuno para deixar, é oportuno para deixar patente que não é segura a escolha do gênero do estrangeirismo em Português padrão para guiar-se pelo correspondente vernáculo que se subentende na operação gramatical; porque quercus pode corresponder tanto ao Português carvalho, masculino, quanto ao Português carvalha, feminino, criando um elemento perturbador para a uniforme atribuição do gênero, distribuído entre o quercus e a quercus.
Femininos e masculinos
A melhor solução será o que já se fez para a flexão do plural dos estrangeirismos em Português, isto é, a obediência às lições dos idiomas originários. Desse modo, quercus, feminino em Latim, será feminino em Português: a quercus, sem necessidade de subentendidos.
Étude, em Francês, é palavra feminina, enquanto o Português estudo é masculino. Se quiséssemos fazer alusão ao livro do filósofo e filólogo francês Émile Littré Études et Glanures consoante o princípio dos subentendidos, oscilaríamos entre livro e obra: o (livro) Études et Glanures ou a (obra) Études et Glanures.
Melhor será adotar o princípio de respeitar o gênero em francês e dizermos as Études et Glanures. Aplicando o mesmo princípio, dizemos os Mélanges Ferdinand de Saussure, a Banque de France.
Poder-se-á, em caso de dúvida ou para variar o estilo, empregar expressões do tipo "o livro (ou a obra) Études et Glanures"; "a coletânea (ou a publicação) Mélanges Ferdinand de Saussure"; o estabelecimento Banque de France", ou semelhantes.
A questão fica mais complexa em se tratando de Línguas de menor circulação entre nós, como o Alemão. A melhor solução nos parece estar na proposta de Leite de Vasconcelos acima exposta e que coincide com a lição de outro notável filólogo, o italiano Giorgio Pasquali. Em dois livros tão pequenos quanto preciosos (Língua Nuova e Antica e Conversazioni Sulla Nostra Lingua), condenava a distribuição em italiano do gênero que praticavam pessoas de pouca instrução e até jornalistas, tais como la Ballplatz, il Postdamer-Brücke, la Führerban, simplesmente porque em italiano piazza é feminino, ponte é masculino, e o último porque talvez se conecte com casa, feminino. Também nesses casos, melhor seria empregar o Ballplatz, a Postdamer-Brücke e o Führerban.
Sem distinção
Ainda mais complexa é a situação quando se trata de idiomas que já não contam, no seu sistema gramatical, com a distinção entre substantivos masculinos e femininos, restrita a oposição do gênero a alguns remanescentes nomes fossilizados, ou, ainda, a outras que fundiram os dois gêneros, subsistindo apenas o neutro.
Quando o nome se aplica a seres que apresentam a distinção de sexo ou gênero natural, desaparece a dificuldade porque, em se tratando do Inglês miss, ninguém dirá senão uma miss. Mas, quando a distinção pelo sexo não ocorrer, mais vale aplicar o critério analógico do gênero pelo correspondente em Português. Assim, como exemplifica Pasquali para o Italiano e nós aqui para o Português, adotaremos em history, story e novel o gênero feminino levado pelos correspondentes femininos em Italiano e Português. Já, por nossa conta, em relação a work e word, pelo mesmo princípio, ousaríamos dizer o work e a word, por nos regularmos pelos vernáculos o trabalho e a palavra, sem deixarmos de reconhecer a arbitrariedade da solução, diante dos possíveis concorrentes a obra (work) e o termo (word). Ou voltaríamos aos circunlóquios referidos por Leite de Vasconcelos: "a palavra work", "o termo word", ou equivalentes.
Texto de Evanildo Bechara retirado da Revista Língua Portuguesa, Número 5, Ano1, Editora Segmento, São Paulo, Março de 2006.