08 agosto 2026

A Madre de Ouro

 Poço da Roda. Arredores de Bonfim.


Bonfim é uma das cidades mais antigas de Goiás. Como suas irmãs mais velhas, Meia Ponte e Vila Boa de Goiás, guarda ainda, sob muitos aspectos, o cunho dos núcleos coloniais do século XVIII, com a sua inconfundível arquitetura reinol, estilo barroco, de feição pesada, simplória e, ao mesmo tempo bonachona, hospitaleira - aspecto esse que se vai aos poucos apagando dos burgos e vilórios progressistas mais próximos da linha férrea.

Ficou-lhe

Assim Será (120)

 "Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus." - Jesus. (LUCAS, 12:21)


Guardarás inúmeros títulos de posse sobre as utilidades terrestres, mas se não fores senhor de tua própria alma, todo o teu patrimônio não passará de simples introdução à loucura.

Multiplicará, em torno de teus pés, maravilhosos jardins da alegria juvenil, entretanto, se não adquirires o conhecimento superior para o roteiro de amanhã, a tua mocidade será a véspera ruidosa da verdadeira velhice.

Cobrirás com medalhas honoríficas o teu peito, aumentando a série dos admiradores que te aplaudem, mas, se a luz da reta consciência não te banhar o coração, assemelhar-te-ás a um cofre de trevas, enfeitado por fora e vazio por dentro.

Amontoarás riquezas e apetrechos de conforto para a tua casa terrena, imprimindo-lhe perfil dominante e revestindo-a de esplendores artísticos, contudo, se não possuíres na intimidade do lar a harmonia que sustenta a felicidade de viver, o teu domicílio será tão-somente um mausoléu adornado.

Empilharás moedas de ouro e prata, à sombra das quais falarás com autoridade e influência aos ouvidos do próximo, todavia, se os teus haveres não se dilatarem, em forma de socorro e trabalho, estímulo e educação, em favor dos semelhantes, serás apenas um viajor descuidado, no rumo de pavorosas desilusões.

Crescerás horizontalmente, conquistarás o poder e a fama, reverenciar-te-ão a presença física na Terra, mas, se não trouxeres contigo os valores do bem, ombrearás com os infelizes, em marcha imprevidente para as ruínas do desencanto.

Assim será "todo aquele que ajunta tesouros para sí, sem ser rico para com Deus".


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

01 agosto 2026

A Repartição dos Pães

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. 

Eia Agora (119)

 "Eia agora, vós que dizeis... Amanhã..." - (TIAGO, 4:13.)


Agora é o momento decisivo para fazer o bem.

Amanhã, provavelmente...

O amigo terá desaparecido.

A dificuldade estará maior.

A moléstia terá ficado mais grave.

A ferida, possivelmente, mostrar-se-á mais crescida de extensão.

O problema talvez surja mais complicado.

A oportunidade de ajudar não se fará repetida.

A boa semente plantada agora é uma garantia da produção valiosa no porvir.

A palavra útil, pronunciada sem detença, será sempre uma luz no quadro em que vives.

Se desejas ser desculpado de alguma falta, aproxima-te agora daqueles a quem feriste e revela o teu propósito de reajustamento.

Se te propões auxiliar o companheiro, ajuda-o  sem demora para que a bênção de teu concurso fraterno responda às necessidades de teu irmão, com a desejável eficiência.

Não durmas sobre a possibilidade de fazer o melhor.

Não te mantenhas na expectativa inoperante, quando podes contribuir em favor da alegria e da paz.

A dádiva tardia tem gosto de fel.

"Eia agora" - diz-nos o Evangelho, na palavra apostólica.

Adiar o bem que podemos realizar é desaproveitar o tempo e furtar do Senhor.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

28 julho 2026

Quem eram os deuses do Olimpo?

Na antiguidade grega, a religião e a mitologia eram constituídas por um casal supremo - Zeus e Hera - e outros doze deuses, que eram seus pares complementares. Havia duas maneiras de entendê-los:

A primeira, mais simples e concreta, era a chamada visão de Homero, que encontramos na Ilíada e na Odisseia. Nessa visão, os deuses só se diferenciavam dos homens por serem mais poderosos e imortais. Tinham, além da forma humana, paixões, rancores, ciúmes, preferências, enfim, todos os atributos humanos.

27 julho 2026

O dia que Urano entrou em Escorpião

Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela ou parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, ou mesmo Júpiter saindo de Aquário. Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estreias e sessões da meia-noite e gente se encontrando e motos correndo - difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento, lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma coisa nas sobras da galinha do meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali, ouvindo baixinho um velho Pink Floyd para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar de vez com aquele antro (eles não gostavam da palavra, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros e almofadas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa horrível) - renunciado ao sábado, pois, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume da vitrola e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, pois se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então, olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha, parado no meio da sala. E não disseram nada.

O que tinha saído da janela fez como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele pedacinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava querendo mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto uma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e os violinos ficava imaginado um guerreiro montado num cavalo branco, correndo contra o vento, tipo Távola Redonda assim, a silhueta dum castelo sobre uma colina ao fundo - e que o guerreiro era medieval, o castelo também, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros e um crepúsculo, talvez um quarto crescente, quem sabe um lago, quando a moça que estava com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que tinha erguido para a testa quando o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:

"Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura - loucura assumida -, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura".                                         (Ernest Becker: A Negação da Morte)

Quando ela parou de ler

25 julho 2026

O Saci

Por aquele tempo O Saci andava desesperado. Tinham-lhe surrupiado a cabaça de mandinga. O moleque, extremamente irritado, vagueava pelos fundões de Goiás.

Pai Zé, saindo um dia à cata dumas raízes de mandioca castela que sinhá dona lhe pedira, topou com ele nos grotões da roça.

O preto, abandonando a enxada e de queixo caído, olhava pasmado o negrinho que lhe fazia caretas e trejeitos, a saltar no seu único pé, e fungando terrivelmente.

- Vancê quer alguma coisa? perguntou pai Zé admirado, vendo agora o moleque rodopiar como o pião do ioiô.

- Olha negro, respondeu o Saci, vancê gosta de Sá Quirina, aquela mulata de sustância; pois eu lhe dou a mandinga com que ela há de ficar enrabichada, se vancê me arranjá a cabaça que perdi.

Pai Zé, louco de contentamento, prometeu. A cabaça, ele sabia-o, fora amoitada pelo Benedito Galego, um caboclo sacudido que, cansado das malandrices do moleque, a tinha roubado das grimpas do jatobá grande, lá nas roças do ribeirão.

Pai Zé fora um dos que o tinham aconselhado, para obstar que o Saci, como era o seu costume quando incomodado, tornasse a levantar as árvores da derrubada que o Benedito fizera nessas terras.

Arrastando as alpercatas de couro cru pelas terras de Sô Feitor, pai Zé capengava satisfeito e inchado com a promessa do Saci.

Desde Santo Antônio que ele rondava Sá Quirina, procurando sempre ocasião de lhe mostrar que, apesar dos seus sessenta e cinco anos e meio, um olho de menos e falta de dente na boca, não era negro pra se desprezar assim por um canto não - que sustância ainda ele tinha no peito para aguentar com a mulata e mais a trouxa de Sá Quitéria, sua mulher, se ele tinha!

Mas a cafuza era dura da gente convencer. Toda a eloquência que ele penosamente engendrara em seu bestunto de africano e que lhe tinha despejado pela festa de S. Pedro, não teve outro resultado senão a fuga da roxa quando o encontrava.

- Mas agora, gaguejava o preto, eu lhe mostro, que o Saci é mesmo bicho bom pra deitar um feitiço.

Com a rica dádiva dum quartilho de cachaça e meia mão do seu fumo pixuá, pai Zé alcançou do Galego a cabaça desejada.

Sá Quitéria, porém, não via com bons olhos o afã de seu velho pela posse da milonga. E ela também sabia deitar e tirar quebranto, se sabia! - Perguntassem à bruxa da Nhá Benta, que desde vésperas de Reis estava entrevada na trempe do jirau; e não era o zarolho e cambaio do seu homem que a enganasse.

Por isso, a velha ciumenta estava de tocaia, desejosa por saber do seu intento. Lá ia pai Zé, arrastando novamente as alpercatas de couro cru pelas terras de Sô Feitor, à entrevista do Saci. Atrás dele, sorrateira, lá ia também Sá Quitéria.

O negro chegou aos grotões e chamou pelo Saci, que de pronto apareceu.

- Toma lá a sua cabaça de mandinga, seu Saci, e dá-me cá o feitiço pra Sá Quirina.

O moleque desbarretou-se, tirou uma pitada grossa da cumbuca, fungou, e, entregando o resto a pai Zé, disse:

- Dá-lhe a cheirar esta pitada, que a crioula é sua escrava.

E desapareceu, fungando, pulando no seu único pé, nos grotões e covoadas da roça.

- Ah, negro velho dos infernos, que conheci a tua tramoia, gritou Sá Quitéria furiosa, saindo do bamburral e segurando-o pelo papo.

E, na luta do casal, lá se foi o feitiço que o pobre pai Zé adquirira com o sacrifício dum quartilho de cachaça e a meia mão do seu bom fumo pixuá.

Desde então, nunca mais houve paz no casal, que se devorava às pancadas; e pai Zé arrenegava sem descanso o maldito que introduzira a discórdia no seu rancho.

- Porque, Ioiô, concluiu o preto velho que me contava esta história - a todo aquele que viu e falou com o Saci, acontece sempre uma desgraça.


Conto de Hugo de Carvalho Ramos publicado no livro Tropas e Boiadas, Rio de Janeiro, Revista dos Tribunais, 1917; retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos anos Dez aos Sessenta, organização de Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, Goiânia. CEGRAF/UFG, 1993.

Em Nossas Tarefas (118)

 "... não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes." - Paulo. (ROMANOS, 12:16.)


"Não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes" - recomenda o apóstolo, sensatamente.

Muitos aprendizes do Evangelho almejam as grandes realizações de um dia para outro...

A coroa da santidade...

O poder da cura...

A glória do conhecimento superior...

As edificações de grande alcance...

Entretanto, aspirar só por si não basta à realização.

Tudo, nos círculos da Natureza, obedece ao espírito de sequência.

A árvore vitoriosa na colheita passou pela condição do arbusto frágil.

A catarata que move poderosas turbinas é um conjunto de fios d'água no nascedouro.

Imponente é o projeto para a construção de uma casa nobre, no entanto, é indispensável o serviço da picareta e da pá, do tijolo e da pedra, para que a arte e o reconforto se exprimam.

Abracemos os deveres humildes com devoção ao nosso ideal de progresso e triunfo.

Por mais árdua e mais simples a nossa obrigação, atendemo-la com amor.

A palavra de Paulo é sábia e justa, porque, escalando com firmeza as faixas interiores do monte com facilidade lhe conquistamos o cimo e, aceitando de boa-vontade as tarefas pequeninas, as grandes tarefas virão espontaneamente ao nosso encontro.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

24 julho 2026

Nego Rei

Desencostando-se do tanque, Benedita atirou uma olhada para o marido deitado na cama. Avistou-o dos pés a cintura, pijama sungado nas pernas entrelaçadas. Resmungou com azedume:

- Esbranquicento de uma figa!

Enxugou o suor na testa, voltando a esfregar a roupa pensando:

"Para pegar um lugar de onde pudesse ver Nego Rei de perto, teria que correr com o serviço. Era estender a roupa no arame, lavar os trens de cozinha, tomar banho, aprontar a Neuza... Muita coisa por fazer ainda! Seria melhor arriscar um pedido de auxílio."

Galgou o degrau da porta para poder avistar o rosto do seu homem e falou decidida:

- Você bem podia dá uma dimãozinha... Receio chegar lá atrasada.

Como de costume, a resposta veio negativa:

- Sou lá mulher pra andar fazendo serviço de casa?! Deixa tudo aí, na volta você arruma.

Benedita suspirou:

"Com esse não precisava contar pra coisa nenhuma! Só pra fazer filho... O jeito era mesmo correr com o serviço. Pensando bem, as vasilhas poderiam ser lavadas quando voltasse. Era amontoar num canto da pia. A roupa é que precisava ir para o arame. Logo mais, deveriam estar também passadas. A entrega ao freguês seria logo no outro dia e cedinho."

Neusa veio interromper o pensamento de Benedita. Rodou sobre os calcanhares, exibindo o vestido branco engomado, cheio de babadinhos:

- Tá bonito?!

A mãe surpreendeu-se:

- Se vestiu sozinha?!

- Num instantinho!

A alegria deixava o branco dos olhos da menina mais branco e as pupilas pretas lançando chispas. A mulher contemplou a filha com gosto:

"Era um encanto o diabo da bichinha! Foi preciso nascer e crescer aquela coisinha encardida pra ela ir tomando amor na sua raça."

Sorriu ao responder:

- Está uma beleza! Agora senta lá na sala e vai alisando o pincha.

A pequena fazendo beiço estrilou:

- Pincha não, mãe, cabelo! Sentar eu não vou não! Amassa o vestido.

- Então alisa em pé mesmo.

A garota saiu e logo voltou para junto da mãe. Ela ralhou:

- Falei pra você ir pentear lá na salinha...

- Quero ficar junto da senhora.

O pente escorrendo pela carapinha ia chiando. Benedita encheu-se de ojeriza:

"Perder a vergonha antes de casar pra poder agarrar aquele esbranquicento duma figa por desejar ter filhos branquinhos e eles todos evinham saindo escuros. Raça danada de forte essa sua!"

Sentiu pena da menina. A mão miúda não conseguia ajeitar aquele monte de coisa. Tomou o pente e fez o arranjo ordenado:

- Agora vai me esperar lá na salinha. E já nóis vamos descendo.

Acabou de estender a roupa, amontoou as vasilhas e, depois de banhar-se, foi para o quarto envolta em uma toalha. Remexeu na gaveta da cômoda procurando um porta-seios. Contemplando-se no espelho, mudou de intenção.

"Pra quê usar essa bobagem? Seus peitos eram firmes como os de uma mocinha. Ninguém diria que haviam amamentado meia dúzia de filhos".

Contemplou o resto do corpo com alegria:

"Uma beleza!"

Pelo espelho deu com os olhos do marido em cima dela, incendiado de desejo, braços estendidos num convite. Cobriu-se ralhando de testa franzida:

- Que coisa é essa?! Não vê que lá vou saindo quase de corrida?!

Vestiu-se, pensando com ironia:

"Esbranquicento duma figa! Só presta mesmo é pra isso."

Antes de deixar o quarto, recomendou:

- Vigia os meninos que a Neusinha vai comigo.

Ainda inflamado, esfregando os pés um no outro, o marido respondeu com azedume:

- Pra quê levar a menina? Ela não entende disso...

No espelhinho da sala voltou a mirar-se para acabar de ajeitar o cabelo. João com aqueles olhos por cima dela, tirava-lhe o jeito.

"Pra quê levar a menina? Ora! Então o dinheiro quem ganhava não era ela? Foi preciso sofrer bastante para ir aprendendo muito da vida. Pra quê levar a Neusinha! Pra ir ensinando a ela que neste mundo não é só branco que é gente! Nego não era Rei? Rei de futebol mas era! O mundo inteiro não vivia encantado com ele? Nego bonito, cheio de força, ágil como um gato! Neusinha precisava ver esse Nego de perto pra ir aprendendo a dar valor na sua raça."

Na pressa de caminhar, ia arrastando a menina. Atolando o sapato branco na poeira, encheu-se de ojeriza:

"Não pudera tomar condução, porque o dinheiro mal chegou para as entradas. Casar com branco e depois ser cachorro dele? Trabalhar como burro pra sustentar casa, filhos, marido?! Qual! Antes tivesse casado mesmo com um escurinho. Com Neusa tinha que ser diferente. Teria que casar era com um da sua raça."

Agora quase corria. A menina reclamou, ela não prestou sentido. Ao passarem junto da construção que ia sendo erguida na praça, alguém gritou...

- Vai descendo pra ir ver o Rei, Benedita?

Olhou para cima. Esgarranchado no andaime, Sebastião acenou-lhe. Os dentes brancos brilhando no negrume da cara.

"Graças a Deus ela tinha bons dentes e também a Neusinha".

Sorriu ao responder:

- Vou. Você não vai?

- Estou dando mais umas marteladas e já eu desço.

- Então até logo.

- Até.

"Nego bom era esse! Escuro como tição mas um orgulho da raça. Não fosse por amor aos filhos, vergonha da Neusinha, estaria era vivendo com ele. Aquele esbranquicento bem que merecia". Benedita suspirou comprido. A filha forçou-a a prestar atenção no que lhe dizia:

- Que quer dizer Rei, mãe?

- Rei... Rei... - Embaraçou-se por não saber explicar. Neusa ajudou:

- Rei é uma coisa ou uma gente melhor que todo mundo?

- Isso mesmo. Sorriu ao pensar: "Essa menina faz cada pergunta!"

- Esse Rei que nóis vamo é Rei de jogá bola?

- É.

- Então ele joga bola mais bem que todo mundo?!

- Isso mesmo.

- E ele é preto, mãe?

- É.

- Que nem a gente?

- É.

A pequena caminhou um pouco em silêncio e então perguntou:

- Preto é gente, mãe?

Benedita zangou-se e respondeu com aspereza:

- Claro que é, burra!

O adjetivo magoou a menina. Sua voz veio sentida:

Mas preto é gente feia...

A mãe deu com força um tapa na filha:

- Preto não é feio coisa nenhuma, ouviu?! Tem muito branco que é mais feio que a gente. O preto que nóis vamo vê é um preto forte, liso, bonito! Você também é uma negrinha alinhada!

Procurando conter o pranto, Neusa foi dizendo de maneira ritmada:

- A Maria falou que nego nunca foi gente! Que lá na nossa casa, só o pai é que vale uma coisinha...

Benedita explodiu:

- Aquela Maria é uma burra! Uma cretina! Qualquer dia desses, quero lhe partir o focinho! - Benedita fechou a mão em ameaça e sacudiu o braço da filha: - Não quero mais você falando com ela, tá entendendo?

Notando o braço da menina todo ralado, quase sangrento, passou da ira à preocupação indagando aflita:

- Você caiu?!

A pequena sacudiu a cabeça em negativa:

- Então o que qui foi isso?!

Neusa não deu resposta. A mãe engrossou a fala:

- Diz o que qui foi senão apanha aqui mesmo!

A pequena respondeu baixinho, como se estivesse cansada:

- Esfreguei com um caco de telha...

- Está ficando louca?! - Benedita sacudiu a menina e erguei a mão em ameaça: Fala ou apanha...

Procurando sufocar os soluços, Neusinha respondeu:

- Queria ver se raspando, a pele da gente ficava branquinha...

A pequena agora chorava. Benedita suspirou comprido, pensando:

"Qual! Nego traz essa bobagem é no sangue! Só Deus, assim mesmo com muito jeito, talvez conseguisse consertar essa estultice".


Conto de Ada Ciocci Curado publicado no livro Nego Rei. Goiânia, Livraria Brasil Central Editora, 1966.  Retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos Anos Dez aos Sessenta, Organizado por Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, CEGRAF/UFG, Goiânia, 1993.

O que viveu sem nascer

Naquele dia o casal desceu a escadaria, com exagerada cautela. Seu Manuel segurava firme o braço de D. Maria. Os olhos de ambos irradiavam completa felicidade. Riam à toa. Seu Manuel falou:

- Hoje mesmo ajustei uma criada.

- Não há necessidade, meu velho. Preciso fazer exercício. Não foi o que o médico recomendou?

- Sim, sim, mas não dessa natureza. Nada de excesso. Nos levantaremos cedo e faremos longas caminhadas, repetindo-as às tardes. Quero que nosso filho seja forte e bonito. Estes anos de ansiosa expectativa me bastaram. Agora que ele nos chega, é preciso ter todo cuidado.

Pobre seu Manuel! Parece que estava a adivinhar...

Lá foram os dois rumo a casa, abraçadinhos, achando o sol mais lindo que de costume, verdes, muito mais verdes as matas, a água do lago mais azulínea, as flores mais belas e mais perfumadas, os passarinhos mais cantadores e ligeiros que nunca.

D. Maria passou a ser tratada como criança mimada. Os menores desejos lhe eram satisfeitos.

Ia pelo sétimo mês de gravidez quando, apesar da criada, apesar dos cuidados excessivos de seu Manuel, apesar de caminhar cauteloso, D. Maria caiu. Caiu e que tombo... Ficou desacordada meia hora, e, três dias depois, adeus pimpolho tão desejado! Era uma vez um Joaquinzinho... Esse seria o nome dado à criança, em homenagem ao avô paterno.

O casal ficou desolado e sua tristeza atingiu o auge quando o médico afirmou que D. Maria jamais seria mãe.

Choraram desesperados, um abraçado ao outro. Os dias foram passando e como acontece sempre, os dois acabaram se consolando. D. Maria começou a dizer:

- Pela lua, hoje nosso filhinho viria ao mundo.

- Justo, justo. Como seria belo e fortinho. Que pena!

E seu Manuel suspirou fundo, tornando-se pensativo.

Uma semana mais tarde, D. Maria falou:

- Hoje Joaquinzinho completaria oito dias.

Seu Manuel respondeu:

- Justo, justo. Já estaria começando a ficar clarinho. Como seria lindo e perfeito.

Assim continuaram.

Joaquinzinho fez um, dois, três meses. Veio o primeiro dentinho, o segundo... Fez um ano, dois, três... Sofreu sarampo, catapora, coqueluche e todas as espécies de doenças infantis...


Quando Joaquinzinho estava com cinco anos de idade, grassou crupe na cidade. Seu Manuel, alarmado, falou para D. Maria:

- Minha velha, arrume as malas. Vamos passar uns dias fora, até passar a epidemia. Era o que faríamos se Joaquinzinho vivesse.

E foram. Joaquinzinho cresceu. Estudou. Nos exames foi sempre o primeiro. Formou-se. Fez o Serviço Militar, saindo com uma caderneta invejável.

Quando o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália, lá foi Joaquinzinho defender a Pátria. Ouvindo pelo rádio as mensagens que os pracinhas enviavam aos seus, D. Maria e seu Manuel choravam, fazendo pena a quem os visse.

D. Maria tricotava incansavelmente pulôveres, cachecóis, meias, despachando-os pelo Correio. Um dia o agente perguntou-lhe:

- Seu filho guerreia no estrangeiro, madame? D. Maria, embaraçando-se, respondeu:

- Sim e não.

O agente quis perguntar o sentido de tão estranha resposta, mas ela não lhe deu tempo, saindo apressada.


Quando terminou a guerra, em casa de D. Maria festejou-se o acontecido durante uma semana, bebendo-se vinho à vontade.

Joaquinzinho lutara como um bravo.

Ao aportar no Rio de Janeiro o primeiro navio, trazendo de volta os combatentes, o casal lá estava, esperando pelo filho. Chorava abraçados, comovendo até as pedras. Uma senhora indagou:

- Seu filho chega agora, madame?

Olhando enleada para seu Manuel, D. Maria falou:

- Se nosso Joaquinzinho vivesse, como herói, seria o último a chegar, não é, meu velho?

- Justo, justo. E como viria garboso com as medalhas no peito! Santo Deus! Seu Manuel suspirou fundo, tornando-se pensativo.

Permaneceram no Rio, até que o último navio proveniente da Europa atracasse, depois retornaram para casa, satisfeitíssimos.

Hoje Joaquinzinho está casado. Moram todos juntos. Sua esposa é boníssima. Combina muito com a sogra... Espera já o terceiro filhinho...


Conto de Ada Ciocci Curado publicado no livro O Sonho do Pracinha e Outros Contos. São Paulo, Revista do Tribunais, 1954.  Retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos Anos Dez aos Sessenta, Organizado por Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, CEGRAF/UFG, Goiânia, 1993.