22 março 2026

Brincando com o Folclore

Pense na palavra folclore. O quem vem à sua cabeça? Saci-pererê, mula-sem-cabeça, bumba-meu-boi... Parece algo ligado à vida nas fazendas e cidades do interior, distante do dia-a-dia das grandes cidades, não é? Ou então, faz lembrar aquele livro empoeirado que fica lá no alto da estante e que ninguém lê e só se recorda dele uma vez no ano. Mas será que é isso mesmo?

A palavra

Renovemo-nos dia a dia (107)

 "...Transformai-vos pela renovação de vossa mente, para que proveis qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." - Paulo. (ROMANOS, 12:2.)


Não adianta a transformação aparente da nossa personalidade na feição exterior.

Mais títulos, mais recursos financeiros, mais possibilidades de conforto e maiores considerações sociais podem ser simples agravo de responsabilidade.

Renovemo-nos por dentro.

É preciso avançar no conhecimento superior, ainda mesmo que a marcha nos custe suor e lágrimas.

Aceitar os problemas do mundo e superá-los, à força de nosso trabalho e de nossa serenidade, é a fórmula justa de aquisição do discernimento.

Dor e sacrifício, aflição e amargura, são processos de sublimação que o Mundo Maior nos oferece, a fim de que a nossa visão espiritual seja acrescentada.

Facilidades materiais costumam estagnar-nos a mente, quando não sabemos vencer os perigos fascinantes das vantagens terrestres.

Renovemos nossa alma, dia a dia, estudando as lições dos vanguardeiros do progresso e vivendo a nossa existência sob a inspiração do serviço incessante.

Apliquemo-nos à construção da vida equilibrada, onde estivermos, mas não nos esqueçamos de que somente pela execução de nossos deveres, na concretização do bem, alcançaremos a compreensão da vida, e, com ela, o conhecimento da "perfeita vontade de Deus", a nosso respeito.


 Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

21 março 2026

O mito da criação da noite.

Antigamente não havia noite. Era sempre dia. O Sol brilhava esquentando a Terra. A Lua e as estrelas eram como o Sol. Tudo era luz e claridade na aldeia e na floresta. Os homens caçavam sem cessar e as mulheres trabalhavam sem descanso, pois era sempre  dia, noite não havia.

O Sol fazia seu percurso até o poente para então retornar pelo caminho inverso de volta ao nascente. Mauá controlava o Sol, a Lua e as estrelas, não permitindo que ninguém deles se aproximasse.

Certa vez, um homem quis saber como o Sol funcionava. Esperou que Mauá saísse para caçar e aproximou-se do Sol. Ao tocá-lo, o Sol quebrou, o mesmo acontecendo com a Lua e as estrelas. E a noite surgiu engolindo tudo. Os homens que caçavam na mata ficaram perdidos na imensidão do escuro. As mulheres mal conseguiam encontrar suas redes dentro da maloca. Crianças e idosos lamentavam-se do fundo da noite sem luz.

Mauá voltou para consertar o Sol. Ao ver o homem que o havia quebrado, Mauá lançou-se sobre ele e o atirou longe. Quando caiu, o homem transformou-se no macaquinho-mão-de-ouro, escuro como a noite e com as mãos douradas como o Sol que havia tocado.

Não foi possível consertar o Sol para que funcionasse como antes. O Sol caminhava para o poente mas não conseguia retornar, sumindo no horizonte e deixando a Terra na escuridão. Mauá então fez com que a Lua e as estrelas surgissem na ausência do Sol para iluminar um pouco a noite. E é assim até hoje.


Este é o mito da criação da noite dos índios Waimiri-Atroari, que habitam Amazonas e Roraima, na região norte do Brasil. Mauá, para eles, é o ser criador que transforma os homens em animais e cuida dos elementos da natureza: quando está zangado, sopra a ossada da cabeça de uma onça para fazer o trovão. É o guardião da vida: ao nascer uma criança, Mauá está sempre por perto. Mauá protege, mas também se vinga. É um guerreiro como o povo Waimiri-Atroari. O macaquinho-mão-de-ouro que aparece no mito é respeitado pelos índios por acreditarem que ele já foi gente e porque, graças a ele, hoje existe a noite.


Texto de Edith Lacerda (educadora que compartilhou durante quatro anos o cotidiano desse povo atuando como professora, recolheu este mito e escreveu esta adaptação), retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 12, Número 94, Agosto de 1999.

Contando os Dias

Já pensou se cada pessoa tivesse sua própria maneira de contar os dias? O mundo seria uma loucura! Afinal de contas, o dia 20 para você poderia ser o dia 31 para o seu amigo ou o dia 12 para a sua professora ou o dia 10 para... Epa! Se ninguém estivesse no mesmo dia, como seria para marcar uma festa de aniversário ou a data de uma prova? Estar em sintonia com o tempo é tão importante para os compromissos do cotidiano e também para as comemorações que fica impossível imaginar nossas vidas sem o calendário. O texto que você vai ler agora conta a história dessa figura especial quase sempre esquecida na gaveta ou atrás da porta.


Antes que existissem calendários, antes mesmo que fosse estabelecida a duração dos meses e dos anos, o homem já procurava alguma forma de se orientar no tempo. Dois ciclos da natureza, o lunar e o solar, começaram a ser usados há milhares de anos e ainda hoje servem como base para a nossa contagem dos dias.

O primeiro refere-se à  passagem das quatro fases da lua (nova, crescente, cheia e minguante) e dura 29,5306 dias ou seja, 29 dias e 13 horas, aproximadamente. Já o ciclo solar é o período equivalente à passagem das estações do ano (primavera, verão, outono e inverno), que é de 365,2422 dias ou 365 dias completos e cerca de 6 horas.

Tanto o ciclo lunar quanto o solar podem servir para estabelecer calendários. Mas essa história do número de dias do ano não ser inteiro já deu muita confusão.


O calendário que veio de Roma

Diz a lenda que o calendário romano foi criado por Rômulo, o primeiro rei de Roma, no ano 735 antes de Cristo. Ele se baseava no ciclo lunar e tinha 304 dias divididos em 10 meses - seis com 30 dias e quatro com 31. Naquela época, a semana tinha oito dias e só passaria a ter sete no ano 321 depois de Cristo por ordem de Constantino, outro imperador romano.

Mas vamos voltar a Rômulo. Foi ele quem nomeou os primeiros quatro meses do calendário romano de martius (em homenagem ao deus da guerra), aprilis (provavelmente se referindo à criação de porcos), maius (para uma deusa italiana local) e junius (para a rainha dos deuses latinos). Os meses seguintes foram simplesmente contados em latim: quintilis, sextilis, septembre, ocotobre, novembre e decembre.

Como esse calendário não estava alinhado com as estações do ano, que têm duração aproximada de 91 dias cada uma, por volta do ano 700 antes de Cristo, o rei Numa, que subiu ao trono depois de Rômulo, decidiu criar mais dois meses: janus (em homenagem à deusa romana do nascer e do pôr-do-Sol) e februarius (que significava o mês das purificações). Embora as estações estejam ligadas ao ciclo solar, o novo calendário romano continuou seguindo o ciclo lunar, mas passou a ter 354 dias, resultado de seis meses de 30 dias e seis meses de 29 dias.

Durante o império de Júlio César, por volta do ano 46 antes de Cristo, o calendário sofreu mais mudanças. Os senadores romanos mudaram o nome do mês quintilius para julius, como forma de homenagear o imperador. Mais tarde, Augusto, que ocupou o trono depois de Júlio César, também foi homenageado e o mês sextilius passou a se chamar augustus. Mas não foi só isso.


Um ano de confusões

Ainda no império de Júlio César, o calendário passou a se orientar pelo ciclo solar, com 365 dias e 6 horas. O chamado calendário juliano foi uma tentativa de entrar em sintonia com as estações. Para ajustar a questão das horas, foi criada uma rotina em que por três meses seguidos o calendário deveria ter 365 dias. No quarto ano, ele passaria a ter 366 dias, porque depois de quatro anos as 6 horas que sobravam do ciclo solar somavam 24 horas, isto é, mais um dia. Estava assim estabelecido o ano bissexto.

O calendário juliano trouxe ainda mais novidades. Além dos meses alternados de 31 e 30 dias (exceto fevereiro que tinha 29 dias ou 30 em anos bissextos), passou-se a considerar janeiro, e não março, como primeiro mês do ano. A implantação de todas essas alterações fez com que o ano 46 antes de Cristo fosse bastante confuso. Até que tudo fosse ajustado, o ano teve três meses a mais, num total de 445 dias. Por conta de todas essa bagunça, o próprio imperador Júlio César o batizou de "ultimus annus confusiones". O povo o chamava simplesmente de "annus confusionis".

Anos mais tarde, quando

14 março 2026

Mitologia na história em quadrinhos

Uma das mais famosas histórias em quadrinhos dos anos 50 tinha os irmãos Billy e Mary Batson como principais personagens, ambos dotados de poderes extraordinários concedidos por uma mago egípcio chamado Shazam. Ao pronunciar a palavra Shazam! Billy transformava-se no capitão Marvel. Sua irmã também, embora com menos poderes.

A palavra Shazam é formada das iniciais de nomes históricos. Salomão, representando a sabedoria; Hércules, a força; Atlas, o vigor; Zeus, o poder; Aquiles, a coragem; e Mercúrio, a velocidade. Para uso de Mary Marvel, Shazam vinha das iniciais de deusas gregas e seus respectivos atributos: Selene, a graça; Hipólita, a força; Ariadne, a destreza; Zéfiro, a velocidade - não havia deusa iniciada pela letra Z...; Aurora, a beleza; e Minerva, a sabedoria.

Os dois irmãos lutavam contra o terrível doutor Silvana, versão daquele tempo para o Coringa, que hoje azucrina a dupla Batman e Robin. Sem sucesso, é claro, pois aí acabaria a ilusão dos antigos leitores e atuais telespectadores, convencidos de que o bem sempre vence o mal, lição que a vida nem sempre confirma...


Texto de Márcio Cotrim retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 8, Editora Segmento, São Paulo, Junho de 2006.

Sirvamos ao Bem (106)

 "A luz resplandece nas trevas..." - (JOÃO, 1:5.)


Não te aflijas porque estejas aparentemente só no serviço do bem.

Jesus era sozinho, antes de reunir os companheiros para o serviço apostólico. Sozinho, à frente do mundo vasto, à maneira de um lavrador, sem instrumentos de trabalho, diante da selva imensa...

Nem por isso o Cristianismo deixou de surgir, por templo vivo do amor, ainda hoje em construção na Terra, para a felicidade humana.

Jesus, porém, não obstante conhecer a força da verdade que trazia consigo, não se prevaleceu da sua superioridade para humilhar ou ferir.

Acima de todas as preocupações, buscou invariavelmente o bem, através de todas as situações e em todas as criaturas.

Não perdeu tempo em reprovações descabidas.

Não se confiou a polêmicas inúteis.

Instituiu o reinado salvador de que se fizera mensageiro, servindo e amando, ajudando sempre e alicerçando cada ensinamento com a sua própria exemplificação.

Continuemos, pois, em nossa marcha regenerativa para a frente, ainda mesmo quando nos sintamos a sós.

Sirvamos ao bem, acima de tudo, entretanto, evitemos discussões e agitações em que o mal possa expandir-se.

Foge a sombra ao fulgor da luz.

Não nos esqueçamos de que milhares de quilômetros de treva, no seio da noite, não conseguem apagar alguns milímetros da chama brilhante de uma vela, contudo, basta um leve sopro de vento para extingui-la.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

08 março 2026

O misterioso mundo por trás da frase feita

ENCANTADO COM SUA EXPRESSIVIDADE, DIFICILMENTE QUEM USA UMA LOCUÇÃO PROCURA AS RAZÕES QUE MOTIVARAM SUA EXISTÊNCIA


Elas afloram constantemente na fala das pessoas sem que seus usuários se incomodem em descobrir-lhes as origens: contentam-se estes com a expressividade e com a força comunicativa que elas imprimem à expressão de suas mensagens. O emprego delas é hoje mais raro do que antigamente, e o fato se explica porque a modernidade, diminuídos o gosto e o contato da leitura, recebe menos a influência do texto escrito sobre o texto oral. Daí também se explica o emprego das locuções ser mais frequente entre os idosos.

A toda hora se ouve: dizer cobras e lagartos de alguém, ele é cheio de nove horas, isso são favas contadas, achar-se em camisa de onze varas. Dificilmente quem as usa para e procura a razão ou a origem delas; contenta-se com a força expressiva que empresta a seus dizeres.

E, realmente, é tarefa complicada investigar as razões que as motivaram. Na busca da etimologia - ou origem de uma palavra -, conta o investigador, quase sempre, com o testemunho direto ou indireto do idioma de onde procedeu o termo. Para a busca de explicação de uma dessas locuções, abre-se diante do pesquisador um largo panorama de possíveis soluções.

As locuções se originam em associações psicológicas, em fatos históricos, em alusões literárias ou mitológicas, em comparações com todos os reinos da natureza, em etnologia e em muitos mais recantos do saber, da criatividade e da imaginação humana revelados pelo folclore.

Por tudo isso, o campo do estudo dessas locuções, expressões, frases feitas, sentenças proverbiais - Paremiologia ou Fraseologia - requer profunda cultura, como demonstraram os estudos dos primeiros investigadores portugueses e brasileiros, entre os quais merecem lugar especial Adolfo Coelho, Leite Vasconcelos, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, João Ribeiro, Alberto Faria, Lindolfo Gomes, Câmara Cascudo.

Dizer cobras e lagartos de alguém talvez deva sua origem a cobra, variante fonética de copla, que servia de denominação para vários tipos de estrofes de poesia. Assim, dizer de alguém copla satírica era o mesmo que falar mal de alguém; cobra por copla teria dado a expressão dizer de alguém cobra. Esquecida a primitiva significação de cobra como variante de copla, entendida agora como o conhecido réptil, logo se associou à locução a ideia de palavras "venenosas" contra alguém, próprias de uma língua viperina (de serpente).

Abria-se o caminho para a entrada de lagarto na locução (dizer de alguém cobras e lagartos), cumprindo a tendência de construção de frases populares com arredondamento binário do tipo a ferro e fogo, são e salvo, aos trancos e barrancos, de seca a meca, a trouxe-mouxe e tantíssimos assemelhados.

Outros estudiosos, como Leite de Vasconcelos, não acreditam numa explicação pela história literária, mas no campo do folclore. A vivência do povo atribui a tais animais a propriedade do veneno. Daí a explicar a locução como expressão máxima da maledicência. Comecemos pela alusão da maldade ao enganar Eva, no paraíso. Como lagarto é companheiro constante nas malvadezas da serpente, isso explica a sua presença na expressão dizer de alguém cobras e lagartos.

Estão aí duas soluções plausíveis para estabelecer a origem da frase feita.

Se nossa curiosidade recai na locução ele é cheio de nove horas, a lição de Câmara Cascudo nos parece perfeitamente válida quando a relaciona à época, da Idade Média até o século 19, em que era de bom-tom entre as famílias o recolher-se à intimidade do lar. Era a hora do término das visitas educadas, do procurar a casa para o descanso do dia ou da folgança noturna. Respeitar as nove horas era sinal de boa educação e da boa convivência entre cidadãos. Desse conceito facilmente se passa à ideia da pessoa de extremada educação, chegando às raias de pessoa sestrosa, seguidora e ditadora de regras infalíveis e rígidas lições de comportamento a segundos e terceiros: um autêntico cheio de nove horas.


Texto de Evanildo Bechara retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 6, Editora Segmento, São Paulo, Abril de 2006.

Por que as aranhas fazem teias?

Elas estão por toda parte. Nos cantos da parede, em algum móvel velho, embaixo da cama, no jardim... Seus fios formam desenhos que encantam nossos olhos. Procure atentamente e você deve encontrar uma teia! Que elas são feitas por aranhas todos já sabem. Mas por que as aranhas fazem teias?

A resposta está na barriga da aranha. Bem na ponta no abdome dela, existe um par de órgãos que produzem fios de seda, que formam a teia. Assim, ela solta o fio e vai tecendo, com a ajuda de algumas de suas oito pernas, um emaranhado que pode ter muitos formatos. Cada espécie faz uma teia diferente.

As teias têm várias utilidades para as aranhas. Caçar, proteger seus ovos ou mesmo fazer abrigos. As aranhas que produzem teias para caçar são as mais observadas. Você já deve ter visto algum bicho grudado em uma teia. É que ela é coberta por uma substância grudenta. Assim, o inseto que voa desavisado pode esbarrar em uma delas e ficar preso em seus fios. Se isso acontecer, já era! Ele certamente será devorado, pois todas as aranhas são predadoras, nenhuma é vegetariana!

As aranhas utilizam suas teias até para armazenar os alimentos. Se algum bicho fica grudado e ela está com fome, não o dispensa. Guarda o petisco bem enroladinho em um casulo de seda para comer mais tarde.

Existem, ainda, as aranhas que usam sua seda para escapar de animais que adoram comê-las, como pássaros, sapos e, até mesmo, alguns insetos. Para se livrar do perigo, entre outras artimanhas, algumas espécies fazem uma teia em forma de funil, que tem uma dupla função: a ponta maior serve para caçar e a ponta menor para se esconder; assim, ela tem cozinha e quarto na mesma teia.

Até mesmo os filhotes das aranhas usam seu fio. Algumas espécies, principalmente as que vivem em áreas mais abertas, como nos cerrados do centro do Brasil, utilizam suas teias de maneira espetacular. Assim que deixam os ovos, fazem um fiozinho e prendem a ponta em um pedacinho de folha ou, até mesmo, em outro fio. Aí, as pequenas aranhas soltam uma ponta e seguram a outra. Como a seda é muito leve, o vento pode levá-las para longe, como se estivessem viajando num balão. É assim que essas aranhas encontram novos alimentos  para comer e outros lugares para fazer suas teias!


Texto de Felipe Bandoni de Oliveira (Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo), retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 144, Março de 2004.

07 março 2026

Sois a Luz (105)

 "Vós sois a luz do mundo." - Jesus. (MATEUS, 5:14.)


Quando o Cristo designou os seus discípulos, como sendo a luz do mundo, assinalou-lhes tremenda responsabilidade na Terra.

A missão da luz é clarear caminhos, varrer sombras e salvar vidas, missão essa que se desenvolve, invariavelmente, à custa do combustível que lhe serve de base.

A chama da candeia gasta o óleo do pavio.

A iluminação elétrica consome a força da usina.

E a claridade, seja do Sol ou do candelabro, é sempre mensagem de segurança e discernimento, reconforto e alegria, tranquilizando aqueles em torno dos quais resplandece.

Se nos compenetrarmos, pois, da lição do Cristo, interessados em acompanhá-lo, é indispensável a nossa disposição de doar as nossas forças na atividade incessante do bem, para que a Boa Nova brilhe na senda de redenção para todos.

Cristão sem espírito de sacrifício é lâmpada morta no santuário do Evangelho.

Busquemos o Senhor, oferecendo aos outros o melhor de nós mesmos.

Sigamo-lo, auxiliando indistintamente.

Não nos detenhamos em conflitos ou perquirições sem proveito.

"Vós sois a luz do mundo" - exortou-nos o Mestre -, e a luz não argumenta, mas sim esclarece e socorrer, ajuda e ilumina.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Quando crescer, vou ser... primatólogo!

De repente, ela começou a sentir dores. Ia ter um bebê. Estava fraca. Aos poucos, os parentes percebiam a situação complicada. Aproximavam-se e tentavam dar apoio. Após alguns minutos de apreensão e muito esforço, o bebê nascia saudável e, em pouco tempo, já estava no colo da mãe.

Essa história aconteceu há alguns anos no Centro de Primatologia do Rio de Janeiro. Graças ao trabalho de uma equipe de primatólogos, tudo não passou de um susto. Primatologia? Primatólogos? Mas o que isso tem a ver? Muita coisa, afinal, quem acabara de ter o filho não era uma mulher, mas uma macaca. Então é isso! Primatólogo é o profissional que estuda os primatas!

O nascimento de um macaco é mesmo muito parecido com o do homem. E as semelhanças não param por aí. "O cuidado na criação dos filhotes, a reação dos pais, a forma física, muita coisa se parece", diz Alcides Pissinatti, um dos primeiros primatólogos brasileiros, atualmente, presidente do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro.

Quem acha que trabalho de primatólogo é comparar macaco com homem está enganado. A ressalva é de Luiz Dias, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Quando criança, ele morava perto de um parque estadual em Belo Horizonte e volta e meia via um macaco diferente. Então, decidiu estudar Biologia. "Minhas maiores emoções até hoje foram quando vi um macaco-muriqui, espécie muito rara, cair em cima do meu ombro e quando entrei em uma reserva pela primeira vez."

Mal sabia que a aventura estava apenas começando. Imagine que o Luiz já ficou mais de um ano acampado em uma reserva ecológica para observar os macacos! Longe de casa, do barulho dos carros e da fumaça da cidade. Agora, ele se prepara para mais um desafio: ficar um ano e meio dentro da reserva!

Luiz vai fazer o chamado trabalho de campo, que é a observação das espécies em local aberto. Outro tipo de atividade é a pesquisa em lugar cercado, o cativeiro. "Lá, estimulamos a inteligência e agilidade do animal. Escondemos a comida, fazemos gangorra de pneus e colocamos cordas para brincarem. Com isso, avaliamos o comportamento deles", diz Luiz.

Mas não pense que é fácil se tornar primatólogo. Lembra que o Luiz se formou em Biologia? Pois é. Como não há especialização em primatologia no Brasil, é preciso repetir nos estudos o que os macacos costumam fazer tão bem: pular de galho em galho. "Somos profissionais que se formam por conta própria. Desde que iniciamos essa atividade no Brasil, nos anos 70, nunca existiu um curso de formação em primatologia. Então, tem de ser na prática mesmo", diz Alcides Pissinatti.

Prática, aliás, é o que não falta para o Alcides. Ele tinha acabado de se formar em veterinária quando seu amigo, o professor Adelmar Coimbra, fez o convite para montarem um local de estudos de primatas no Rio de Janeiro. Nascia ali o primeiro  Centro de Primatologia do Brasil. "Percebia que muita gente matava ou vendia micos-leões-dourados. Isso me motivou a trabalhar pela conservação dos primatas."

Como não há especialização em primatologia, a primeira coisa para quem quer se tornar primatólogo é escolher uma profissão que tenha a ver com animais. Pode ser biólogo, como o Luiz, veterinário, como o Alcides, antropólogo, ecólogo, médico, farmacêutico. Aí, é só colocar a mão na massa, porque o que não falta é trabalho!

O primatólogo pode estudar a fisiologia dos primatas (funcionamento do seu organismo), sua anatomia (característica do corpo), genética, demografia (quantidade de macacos em determinada região) ou hábitat (moradia). Isso, só para citar alguns exemplos!

Para trabalhar, os locais são: institutos de pesquisa, fundações de preservação de animais e universidades.

Apesar das dificuldades para se tornar um profissional e de se tratar de uma área ainda pouco conhecida, a primatologia tem tudo para crescer. Afinal, quem nunca ficou com o olhar perdido nos macacos do zoológico, pensando como seria bom conhecê-los mais de perto e entender por que eles se parecem tanto com a gente?


Texto de Rafael Barros retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 144, Março de 2004.