A VIDA PORTUGUESA MEDIEVAL LEVOU A UM DADO USO DAS PALAVRAS QUE ESTÁ MUITO LIGADO À ADEQUAÇÃO CRIATIVA DA LÍNGUA A PADRÕES CADA VEZ MAIS INTERNACIONAIS
É comum imaginarmos o milênio correspondente à Idade Média como uma fase muito mais curta e homogênea do que de fato foi. Mesmo quando queremos ser específicos e restringimos nossas afirmações para um século, esquecemo-nos de que em cem anos muita coisa ocorre.
Se escolhermos arbitrariamente o ano de 1385, por exemplo, verificaremos que muita coisa ocorreu nessa data, que tem ligações diretas com a Língua Portuguesa. Quase 50 anos antes, já havia iniciado a Guerra de Cem Anos. Em 1385, em Portugal, D. João I (filho de Inês de Castro) vencia o exército de outro João I, de Castela, na batalha de Aljubarrota, pondo fim à guerra civil que se arrastava fazia três anos.
Rapidamente as Cortes de Coimbra mostram a legitimidade dessa nova Dinastia de Avis, que punha fim a mais de 200 anos da Dinastia de Borgonha. Adiava, assim, a fusão de Portugal e Espanha, que ocorreria 200 anos depois.
Havia, na época, dois papas rivais: Urbano VI e Clemente VII. Em Constantinopla, reinava João V; na França, Carlos VI, antes de seu enlouquecimento; na Inglaterra, Ricardo II; no Sacro Império, o rei Venceslau; em Aragão, Pedro IV. Em toda a Europa, uma crescente participação da burguesia nas decisões do Estado. O então rei de Portugal ficaria 48 anos no poder. Casaria com a filha do duque de Lancaster, cuja família destronaria o rei inglês, iniciando os contratos entre Portugal e Inglaterra. A catedral de Milão ainda não havia sido construída e Chaucer já era famoso em vida. Wycliffe acabara de morrer. A pressão para a conversão dos judeus se sentia cada vez mais presente na Península Ibérica.
Navegação
O dicionário Houaiss diz que foi nessa data que a palavra navegação passou para a Língua Portuguesa. Nada de estranho, pois foi o próprio João I quem iniciou as navegações portuguesas rumo à África, tomando Ceuta e ocupando as Canárias.
Em francês, a palavra navigation já era usada desde 1265, quase cem anos antes, quando o contexto social era outro: o rei de Portugal era Afonso III e o de Castela era Afonso X, o Sábio; o papa Clemente IV; na Alemanha, Henrique III; em Constantinopla, Miguel VIII. Anos de fé intensa, que tinham São Luís na liderança da França; o catalão Ramón Llull tem visão de Cristo crucificado; nascia Dante; São Tomás de Aquino escreve sua Súmula Teológica; os cavaleiros teutônicos lutam contra os prussianos pagãos.
O papa era poderoso, coroava o Conde d'Anjou como rei de Nápolis e Sicília, aproveitando o Grande Interregno após a morte da surpreendente figura de Frederico II. Nota-se que era a França nesse período que navegava, tentando dominar o comércio do Mediterrâneo promovido pelos árabes.
Convertimento
É nesse ano de 1265 que temos a primeira abonação da palavra convertimento. Esse clima religioso do século XIII era, portanto, cem anos antes de D. João I, muito distinto do clima comercial instaurado pela burguesia recém-poderosa do século XIV.
Saltemos mais cem anos depois da subida da Dinastia de Avis: em 1485, reinava o segundo rei João em Portugal. O para era Inocêncio VIII. Na Inglaterra, Ricardo III era assassinado por Henrique VII, apoiado pelo rei francês Carlos VIII, dando fim à Guerra das Duas Rosas. Constantinopla estava no poder dos turcos havia mais de 50 anos. Os espanhóis, sob a liderança de Isabel, a Católica, cercavam Granada já havia cinco anos.
Portugal navegava: Diogo Cão chegava a Cabo Cruz, atual Namíbia. No final de sua regência, com tantas modificações ocorridas na Língua, encontramos, em Português, o primeiro testemunho da palavra grega antártico, que os franceses já empregavam 150 anos antes. De fato, os portugueses foram os primeiros europeus a atravessar a temida Zona Tórrida do Equador e entrar nessa terra imaginária dos gregos.
Alfabeto
Convertimento, navegação, antártico: três palavras escolhidas dentre as milhares que estão nos dicionários. Mostram, nessa sequência, o desprendimento da Língua Portuguesa de seu molde criativo inicial para padrões cada vez mais internacionais. A Língua Portuguesa, sempre à margem da globalização medieval promovida sobretudo pela França desde a criação das universidades, abandonava suas criações lexicais abraçar formas mais próximas de outras Línguas de cultura.
A palavra convertimento, tão parecida com o provençal convertimen, Língua com a qual o Português tem estreita ligação cultural nos primeiros séculos, é abandonada no século XV para conversão, mais em concordância com o francês conversion, cujo primeiro testemunho remonta a 1190.
Nesse ano, aliás, 200 anos antes da Dinastia de Avis, Portugal estava ainda no seu segundo rei, o trovador Sancho I. O papa era Clemente III e o poderoso Inocêncio III ainda era cardeal; na Alemanha reinava Frederico Barba-Roxa; na Inglaterra, Ricardo Coração-de-Leão; na França, Felipe Augusto. Os três empreendiam a Terceira Cruzada. A Igreja de Notre-Dame de Paris começava a ser erigida. Na futura Espanha havia três Afonsos: em Leão, Afonso IX; em Castela, Afonso VIII; em Aragão, Afonso II. Entre as muitas palavras que eram escritas em Português, nessa época, pois se desgarrava do Latim, a mais marcante é, sem dúvida, alfabeto. Não é criação portuguesa, uma vez que remonta ao grego, via latim tardio, mas, sem dúvida, é emblemática para o início de uma Língua.
E quando nesse momento, Portugal apenas despontava, tempo que parece tão distante, já fazia 600 anos que havia iniciado esse período chamado Idade Média.
Texto de Mário Eduardo Viaro retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano I, Número 9, Editora Segmento, São Paulo, Julho de 2006.