13 junho 2026

Guardemos Lealdade (115)

"Além disso, requer-se nos despenseiros que cada um se ache fiel." - Paulo. (I CORÍNTIOS, 4:2.)


Vivamos cada dia fazendo o melhor ao nosso alcance.

Se administras, sê justo na distribuição do trabalho.

Se legislas, sê fiel ao bem de todos.

Se espalhas os dons da fé, não te descuides das almas que te rodeiam.

Se ensinas, sê claro na lição.

Se te devotas à arte, não corrompas a inspiração divina.

Se curas, não menosprezes o doente.

Se constróis, atende à segurança.

Se aras o solo, faze-o com alegria.

Se cooperas na limpeza pública, abraça na higiene o teu sacerdócio.

Se edificaste um lar, sublima-o para as bênçãos de amor e luz, ainda mesmo que isso te custe aflição e sacrifício.

Não te inquietes por mudanças inesperadas, nem te impressione a vitória aparente daqueles que cuidam de múltiplos interesses, com exceção dos que lhe dizem respeito.

Recorda o Olhar Vigilante da Divina Providência que nos observa todos os passos.

Lembra-te de que vives, onde te encontras, por iniciativa do Poder Maior que nos supervisiona os destinos e guardemos lealdade às obrigações que nos cercam. E, agindo incessantemente na extensão do bem, no campo de luta que a vida nos confia, esperemos por novas decisões da Lei a nosso respeito, porque a própria Lei nos elevará de plano e nos sublimará as atividades no momento oportuno.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

06 junho 2026

O mais que anônimo

O mais que anônimo anda pelas antologias e viveu no Egito vinte séculos antes de Cristo. Certo, dia, a essa distância de quarenta séculos, alguma coisa lhe aconteceu, profundamente desesperadora. E apenas a morte lhe pareceu boa, bela e feliz. E escreveu, o mais que anônimo, um poema imortal.

A morte pareceu-lhe boa, como, para o inválido, a saúde, como para o doente, poder deixar o quarto de tratamento. Pareceu-lhe a morte agradável como o perfume da mirra, ou como estar-se, num dia de vento, ao abrigo de um toldo. Como o perfume do lótus. Como estar sentado à margem da embriaguez. Como o fim da chuva. Como a volta, para casa, depois de uma campanha ultramar. Como o céu que sai das nuvens. Como o desejo de um homem de rever sua casa depois de anos sem fim de cativeiro. Assim lhe pareceu a morte. E assim o disse em seu poema.

Quarenta séculos depois, os nossos olhos percorrem as palavras do poeta anônimo, sentindo-as uma por uma, sem desgaste, malgrado tantas traduções, tanto tempo, e as variações do mundo, do tempo, dos aspectos humanos.

O mais que anônimo não nos deu o nome de sua aflição. Por que sofreu tanto? Houve uma injustiça? Uma traição? A sombra de um amor? Uma ofensa? A rivalidade mesquinha que às vezes atravessa uma vida? Perseguições? O despotismo dos poderosos? Tenebrosos enredos de inveja? Os conluios da vaidade? Armadilhas sutis de partidos, grupos, grêmios?

Uma grande dor oprimiu o mais que anônimo. Viu passar a morte sobre os seus sonhos? Um desengano abriu-lhe de repente os grandes muros da mentira? Encontrou de repente a vida como um fato execrável? Desejou não participar mais de sua condição humana?

Não se permitiu a mais breve confissão. O mais que anônimo está envolto em faixas de mistério, com seus enigmas de múmia. Não se queixa. Não aponta nada nem ninguém. Anda-se em redor de seus versos sem se descobrir coisa alguma a não ser esse potencial de dor, esse coração desesperado e contido. É altivo e secreto. No apogeu do sofrimento, quem acredita ser jamais compreendido ou consolado? Quem já sofreu algum dia como quem está sofrendo naquele instante?

O mais que anônimo não diz por quem sofre. Por que sofre. Nem diz que sofre. Seu coração completamente fechado como uma pedra soa apenas para falar da morte. Para suspirar pela morte. Sem explicação, completamente secreto. Cego, imóvel, como em escultura, o poeta não vê nem mostra, não procura, não acusa, nem sequer se lamenta. Só a morte lhe parece boa, bela, feliz, em comparação com o que está sentindo e não revela.

Há quarenta séculos, um dia, foi assim. Foi assim, no Egito, um grande poeta. Uma grande dor. Mais que anônimo, ele está nas antologias com uma grandeza incomparável. Sem ter dito o que sofria, legou-nos uma dor que já tem quarenta séculos e não passa. Sem nos ter deixado o seu nome, ficou mais presente que ninguém; nosso irmão, nosso retrato. Homem eterno, o mais que anônimo.


Crônica de Cecília Meireles retirada do livro Ilusões do Mundo, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1976.

05 junho 2026

O Anjo da Noite

Às dez e meia, o guarda-noturno entra de serviço. Late o cãozinho do portão no primeiro plano; ladra o cão maior do quintal, no segundo plano: de plano em plano, até a floresta, grandes e pequenos cães rosnam, ganem, uivam, na densa escuridão da noite, todos sobressaltados pelo trilar do apito do guarda-noturno. Pelo mesmo motivo, faz-se um hiato no jardim, entre os insetos que ciciavam e sussurravam nas frontes: que novo bicho é esse, que começa a cantar com uma voz que eles julgam conhecer, que se parece com a sua, mas que se eleva com uma força gigantesca?

Passo a passo, o guarda-noturno vai subindo a rua. Já não apita: vai caminhando descansadamente, como quem passeia, como quem pensa, como um poeta numa alameda silenciosa, sob árvores em flor. Assim vai andando o guarda-noturno. Se a noite é bem sossegada, pode-se ouvir sua mão sacudir a caixa de fósforos, e até adivinhar, com bom ouvido, quantos fósforos estão lá dentro. Os cães emudecem. Os insetos recomeçam a ciciar.

O guarda-noturno olha para as casas, para os edifícios, para os muros e grades, para as janelas e os portões. Uma pequena luz, lá em cima: há várias noites, aquela vaga claridade na janela: é uma pessoa doente? O guarda-noturno caminha com delicadeza, para não assustar, para não acordar ninguém. Lá vão seus passos vagarosos, cadenciados, cosendo a sua sombra com a pedra da calçada.

Vagos rumores de bondes, de ônibus, os últimos veículos, já sonolentos, que vão e voltam quase vazios. O guarda-noturno, que passa rente às casas, pode ouvir ainda a música de algum rádio, o choro de alguma criança, um resto de conversa, alguma risada. Mas vai andando. A noite é serena, a rua está em paz, o luar põe uma névoa azulada nos jardins, nos terraços, nas fachadas: o guarda-noturno para e contempla.

À noite, o mundo é bonito, como se não houvesse desacordos, aflições, ameaças. Mesmo os doentes parece que são mais felizes: esperam dormir um pouco à suavidade da sombra e do silêncio. Há muitos sonhos em cada casa. É bom ter uma casa, dormir, sonhar. O gato retardatário que volta apressado, com certo ar de culpa, num pulo exato galga o muro e desaparece: ele também tem o seu cantinho para descansar. O mundo podia ser tranquilo. As criaturas podiam ser amáveis. No entanto, ele mesmo, o guarda-noturno, traz um bom revólver no bolso, para defender uma rua...

E se um pequeno rumor chega ao seu ouvido e um vulto parece apontar na esquina, o guarda-noturno volta a trilar longamente, como quem vai soprando um longo colar de contas de vidro. E recomeça a andar, passo a passo, firme e cauteloso, dissipando ladrões e fantasmas. É a hora muito profunda em que os insetos do jardim estão completamente extasiados, ao perfume da gardênia e à brancura da lua. E as pessoas adormecidas sentem, dentro de seus sonhos, que o guarda-noturno está tomando conta da noite, a vagar pelas ruas, anjo sem asas, porém armado.


Crônica de Cecília Meireles retirada do livro Ilusões do Mundo, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1976.

30 maio 2026

Embainha Tua Espada (114)

 "Embainha tua espada..." - Jesus. (JOÃO. 18:11)


A guerra foi sempre o terror das nações.

Furacão de inconsciência, abre a porta a todos os monstros da iniquidade por onde se manifesta. O que a civilização ergue, ao preço dos séculos laboriosos de suor, destrói com a fúria de poucos dias.

Diante dela, surgem o morticínio e o arrastamento, que compelem o povo à crueldade e à barbaria, através das quais aparecem dias amargos de sofrimento e regeneração para as coletividades que lhe aceitaram os desvarios.

Ocorre o mesmo, dentro de nós, quando abrimos luta contra os semelhantes...

Sustentando a contenda com o próximo, destruidora tempestade de sentimentos nos desarvora o coração, ideais superiores e aspirações sublimes longamente acariciadas por nosso espírito, construções do presente para o futuro e plantações de luz e amor, no terreno de nossas almas, sofrem desabamento e desintegração, porque o desequilíbrio e a violência nos fazem tremer e cair nas vibrações do egoísmo absoluto que havíamos relegado à retaguarda da evolução.

Depois disso, muitas vezes devemos atravessar aflitivas existências de expiação para corrigir as brechas que nos aviltam o barco do destino, em breves momentos de insânia...

Em nosso aprendizado cristão, lembremo-nos da palavra do Senhor:

- "Embainha tua espada..."

Alimentando a guerra com os outros, perdemo-nos nas trevas exteriores, esquecendo o bom combate que nos cabe manter em nós mesmos.

Façamos a paz com os que nos cercam, lutando contra as sombras que ainda nos perturbam a existência, para que se faça em nós o reinado da luz.

De lança em riste, jamais conquistaremos o bem que desejamos.

A cruz do Mestre tem a forma de uma espada com a lâmina voltada para baixo.

Recordemos, assim, que, em se sacrificando sobre uma espada simbólica, devidamente ensarilhada, é que Jesus conferiu ao homem a bênção da paz, com felicidade e renovação.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

28 maio 2026

A Lealdade Linguística

 A EMPRESA FALA POR MEIO DO SENSO DE COMUNIDADE COMPARTILHADO PELOS EMPREGADOS


A entrada de um profissional na empresa ocorre formalmente em seu primeiro dia de trabalho. Ainda é registrada em um instrumento chamado Carteira de Trabalho, que os arqueólogos no futuro custarão a identificar.

Há um tempo decorrido entre começar a trabalhar e se sentir parte da empresa. Esse tempo é curto em empresas que são verdadeiramente ótimos lugares para trabalhar, apesar desta denominação imprecisa. Quanto pior o lugar, maior esse tempo. Em organizações nas quais a conduta em gestão de pessoas é débil, profissionais saem sem jamais ter se sentido parte delas. Em tal ambiente não há tempo nem interesse, de ambos os lados, de discutir a relação, de participar. Um relacionamento recíproco, enfim.

Como perceber se uma pessoa está integrada ao espaço organizacional? Há sinais diversos. Um deles, muito valorizado, é a participação dos novos colegas de empresa em atividades sociais fora do trabalho, particulares, familiares. Isso é cada vez mais raro.

Um outro sinal destaca o nível de aculturação: grupos sociais diferentes usam formas de falar diferentes. Se pertenço ao grupo, adoto a forma de falar do grupo. A chamada "lealdade linguística" é uma consciência de comunidade, ainda que imaginária. O falar organizacional dita não somente acrônimos, mas também as expressões e o tom. Ressalto que as formas de comunicação não são portadoras neutras de informações. Por isso há de se perceber que mensagens essas formas trazem, o quanto de cultura traduzem.

As variedades da fala têm importância social. Há registros de que foi no século 16, na Itália, que a Língua passou a ser considerada um fenômeno destacadamente social. Um sociolinguista da época, Vincenzo Borghini, observou que os camponeses toscanos conversavam menos com estrangeiros do que os citadinos e que, por esse motivo, mudavam menos.

Os sociolinguistas usam a noção de diversidade para tecer relações entre as Línguas e as sociedades nas quais são faladas ou escritas. Oferecem aos historiadores uma conscientização sobre "quem fala qual Língua, para quem e quando".

Para os historiadores continua o desafio de explicar de que forma algumas Línguas se difundiram, tanto geograficamente como socialmente, e outras não.

Um falar comum pode existir com conflitos sociais. Católicos e protestantes da Irlanda têm o mesmo sotaque, além do mesmo bom gosto para cerveja. Mas se as questões seculares não promoveram a harmonia, quem poderá?


Texto de Luís Adonis Valente Correia retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano I, Número 11, Setembro de 2006, Editora Segmento, São Paulo.

Uma longa Idade Média

A VIDA PORTUGUESA MEDIEVAL LEVOU A UM DADO USO DAS PALAVRAS QUE ESTÁ MUITO LIGADO À ADEQUAÇÃO CRIATIVA DA LÍNGUA A PADRÕES CADA VEZ MAIS INTERNACIONAIS


É comum imaginarmos o milênio correspondente à Idade Média como uma fase muito mais curta e homogênea do que de fato foi. Mesmo quando queremos ser específicos e restringimos nossas afirmações para um século, esquecemo-nos de que em cem anos muita coisa ocorre.

Se escolhermos arbitrariamente o ano de 1385, por exemplo, verificaremos que muita coisa ocorreu nessa data, que tem ligações diretas com a Língua Portuguesa. Quase 50 anos antes, já havia iniciado a Guerra de Cem Anos. Em 1385, em Portugal, D. João I (filho de Inês de Castro) vencia o exército de outro João I, de Castela, na batalha de Aljubarrota, pondo fim à guerra civil que se arrastava fazia três anos.

Rapidamente as Cortes de Coimbra mostram a legitimidade dessa nova Dinastia de Avis, que punha fim a mais de 200 anos da Dinastia de Borgonha. Adiava, assim, a fusão de Portugal e Espanha, que ocorreria 200 anos depois.

Havia, na época, dois papas rivais: Urbano VI e Clemente VII. Em Constantinopla, reinava João V; na França, Carlos VI, antes de seu enlouquecimento; na Inglaterra, Ricardo II; no Sacro Império, o rei Venceslau; em Aragão, Pedro IV. Em toda a Europa, uma crescente participação da burguesia nas decisões do Estado. O então rei de Portugal ficaria 48 anos no poder. Casaria com a filha do duque de Lancaster, cuja família destronaria o rei inglês, iniciando os contratos entre Portugal e Inglaterra. A catedral de Milão ainda não havia sido construída e Chaucer já era famoso em vida. Wycliffe acabara de morrer. A pressão para a conversão dos judeus se sentia cada vez mais presente na Península Ibérica.


Navegação

O dicionário Houaiss diz que foi nessa data que a palavra navegação passou para a Língua Portuguesa. Nada de estranho, pois foi o próprio João I quem iniciou as navegações portuguesas rumo à África, tomando Ceuta e ocupando as Canárias.

Em francês, a palavra navigation já era usada desde 1265, quase cem anos antes, quando o contexto social era outro: o rei de Portugal era Afonso III e o de Castela era Afonso X, o Sábio; o papa Clemente IV; na Alemanha, Henrique III; em Constantinopla, Miguel VIII. Anos de fé intensa, que tinham São Luís na liderança da França; o catalão Ramón Llull tem visão de Cristo crucificado; nascia Dante; São Tomás de Aquino escreve sua Súmula Teológica; os cavaleiros teutônicos lutam contra os prussianos pagãos.

O papa era poderoso, coroava o Conde d'Anjou como rei de Nápolis e Sicília, aproveitando o Grande Interregno após a morte da surpreendente figura de Frederico II. Nota-se que era a França nesse período que navegava, tentando dominar o comércio do Mediterrâneo promovido pelos árabes.


Convertimento

É nesse ano de 1265 que temos a primeira abonação da palavra convertimento. Esse clima religioso do século XIII era, portanto, cem anos antes de D. João I, muito distinto do clima comercial instaurado pela burguesia recém-poderosa do século XIV.

Saltemos mais cem anos depois da subida da Dinastia de Avis: em 1485, reinava o segundo rei João em Portugal. O para era Inocêncio VIII. Na Inglaterra, Ricardo III era assassinado por Henrique VII, apoiado pelo rei francês Carlos VIII, dando fim à Guerra das Duas Rosas. Constantinopla estava no poder dos turcos havia mais de 50 anos. Os espanhóis, sob a liderança de Isabel, a Católica, cercavam Granada já havia cinco anos.

Portugal navegava: Diogo Cão chegava a Cabo Cruz, atual Namíbia. No final de sua regência, com tantas modificações ocorridas na Língua, encontramos, em Português, o primeiro testemunho da palavra grega antártico, que os franceses já empregavam 150 anos antes. De fato, os portugueses foram os primeiros europeus a atravessar a temida Zona Tórrida do Equador e entrar nessa terra imaginária dos gregos.


Alfabeto

Convertimento, navegação, antártico: três palavras escolhidas dentre as milhares que estão nos dicionários. Mostram, nessa sequência, o desprendimento da Língua Portuguesa de seu molde criativo inicial para padrões cada vez mais internacionais. A Língua Portuguesa, sempre à margem da globalização medieval promovida sobretudo pela França desde a criação das universidades, abandonava suas criações lexicais abraçar formas mais próximas de outras Línguas de cultura.

A palavra convertimento, tão parecida com o provençal convertimen, Língua com a qual o Português tem estreita ligação cultural nos primeiros séculos, é abandonada no século XV para conversão, mais em concordância com o francês conversion, cujo primeiro testemunho remonta a 1190.

Nesse ano, aliás, 200 anos antes da Dinastia de Avis, Portugal estava ainda no seu segundo rei, o trovador Sancho I. O papa era Clemente III e o poderoso Inocêncio III ainda era cardeal; na Alemanha reinava Frederico Barba-Roxa; na Inglaterra, Ricardo Coração-de-Leão; na França, Felipe Augusto. Os três empreendiam a Terceira Cruzada. A Igreja de Notre-Dame de Paris começava a ser erigida. Na futura Espanha havia três Afonsos: em Leão, Afonso IX; em Castela, Afonso VIII; em Aragão, Afonso II. Entre as muitas palavras que eram escritas em Português, nessa época, pois se desgarrava do Latim, a mais marcante é, sem dúvida, alfabeto. Não é criação portuguesa, uma vez que remonta ao grego, via latim tardio, mas, sem dúvida, é emblemática para o início de uma Língua.

E quando nesse momento, Portugal apenas despontava, tempo que parece tão distante, já fazia 600 anos que havia iniciado esse período chamado Idade Média.


Texto de Mário Eduardo Viaro retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano I, Número 9, Editora Segmento, São Paulo, Julho de 2006.

17 maio 2026

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.


Crônica de Clarice Lispector retirada do livro Para Não Esquecer, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2020.

Confusão com São Pedro

Você vai neste avião, eu vou no próximo - decidiu ela de súbito, no último instante, quando o alto-falante já convocava os passageiros: queiram apresentar suas despedidas e boa viagem.

Ele deu um suspiro desalentado. Já fora um custo convencer a mulher de viajarem de avião. Ela dizia que tinha medo, por que não vamos de trem? E passara a noite toda naquela conversa, olha, meu bem, tenho um pressentimento ruim... Quando já estavam praticamente embarcados, vinha com novidade.

- Que bobagem é essa?

- Eu vou no outro - insistiu ela, aflita: - Tem outro avião daqui a meia hora.

- Mas por que isso assim de repente?

Ela olhava nos olhos como se se despedisse dele para sempre:

- Não podemos correr tanto risco juntos, meu bem, seja razoável. Temos nossos filhos, imagine se acontece alguma coisa.

- Não vai acontecer nada, mulher.

- Eu sei que não tem perigo, que é o transporte mais seguro do mundo, e as estatísticas, e essa coisa toda, você já me explicou. Mas pense um pouco nos nossos filhos, é uma chance de pelo menos um de nós dois escapar.

- Olha aí, já estão chamando de novo. Vamos embora, mulher.

Ela fincara pé, irredutível. Sem mais tempo para argumentar, ele acabou cedendo:

- Está bem, seja como você quiser! Mas então vai nesse, eu vou no outro. Se eu deixar você aqui, você acaba não indo.

Despediu-se dela, aborrecido, e foi tratar da transferência de sua passagem.

A mulher entrou no avião como um túmulo, o coração aos pulos. A porta se fechou, desligando-a para sempre do mundo. A seu lado, viajava um padre, alheio a tudo mergulhado no breviário.

De súbito o avião, já em pleno voo, começou a jogar. Eu não disse? Eu não disse? Entraram numa nuvem escura e nunca mais que saíam dela.

Em pânico, chamou o comissário: não é nada, minha senhora, uma pequena tempestade, estamos fazendo voo cego.

Voo cego! Sentindo-se perdida, voltou-se para o padre:

- Estou com tanto medo, seu padre.

O padre a olhou, desconfiado:

- Reza, que é melhor.

E voltou ao seu breviário. Rezar? Não, ela não sabia rezar. Lembrou-se de São Pedro, que era quem devia manobrar chuvas e tempestades - juntou as mãos e pediu-lhe auxílio:

- São Pedro, piedade de mim. Tenho meus filhos para criar. Fui criada sem mãe, o senhor não imagina a falta que uma mãe faz. Todos na minha família ficaram assim feito eu, só porque não tiveram mãe. Que será dos meus filhos sem mãe, São Pedro, mãe faz muito mais falta que pai, por favor me protege, se for preciso transfere essa tempestade para o avião dele, mas me salva desta que noutra eu nunca mais hei de me meter.

A falta de mãe não lhe abalara o prestígio junto a São Pedro - tanto assim que em pouco o avião deixava para trás a tempestade e saía para um céu azul, e logo descia no aeroporto sem mais novidades. Estava salva!

Comprou uma revista, sentou-se num canto e pôs-se a esperar o avião do marido. Esperou meia hora. Como ele nunca mais chegasse, correu, já aflita, a informar-se no balcão. Soube que não havia nada de especial: as más condições do tempo às vezes ocasionavam algum atraso.

- Más condições do tempo?

Não tinha dúvida, era a tempestade que mandara para ele. Roída de remorsos, juntou as mãos ali mesmo, em frente ao funcionário assombrado:

- São Pedro, essa não! Não faça isso comigo. Era mentira, o senhor não vai me levar a sério. O pai faz muito mais falta que a mãe, quem é que foi meter uma bobagem dessa na minha cabeça? Ele trabalha para sustentar a família, eu não faço nada que preste. E logo ele, tão bom que é, tão carinhoso, por favor, São Pedro, não faça isso com ele, joga essa tempestade para cima de outro que não tenha filhos, para cima dele não!

Em pouco São Pedro voltava a atendê-la, fazendo o marido desembarcar no aeroporto, são e salvo:

- Que cara é essa? Você está parecendo um fantasma! Aconteceu alguma coisa?

Ela se abraçou a ele, ansiosa:

- Você está bem? Você me perdoa?

- Eh, que novidade você vai inventar agora? Perdoar o quê, mulher?

- Tudo por minha culpa - choramingou ela. - Mas graças a Deus você está salvo. Fiz uma confusão enorme com São Pedro, você nem imagina. Da próxima vez, quer saber de uma coisa? Vou com você, morreremos juntos, nossos filhos que se danem.

Ele a olhou, francamente apreensivo. "Acho que essa minha mulher está ficando maluca", pensou.


Crônica de Fernando Sabino retirado do livro Para Gostar de Ler - Volume 2 - Crônicas, Editora Ática, 4ª Edição, 1980.

16 maio 2026

Busquemos o Melhor (113)

 "Por que reparas o argueiro no olho de teu irmão?" - Jesus. (MATEUS, 7:3.)


A pergunta do Mestre, ainda agora, é clara e oportuna.

Muitas vezes, o homem que traz o argueiro num dos olhos traz igualmente consigo os pés sangrando. Depois de laboriosa jornada na virtude, ele revela as mãos calejadas no trabalho e tem o coração ferido por mil golpes da ignorância e da inexperiência.

É imprescindível habituar a visão na procura do melhor, a fim de que não sejamos ludibriados pela malícia que nos é própria.

Comumente, pelo vezo de buscar bagatelas, perdemos o ensejo das grandes realizações.

Colaboradores valiosos e respeitáveis são relegados à margem por nossa irreflexão, em muitas circunstâncias simplesmente porque são portadores de leves defeitos ou de sombras insignificantes do pretérito, que o movimento em serviço poderia sanar ou dissipar.

Nódulos na madeira não impedem a obra do artífice e certos trechos empedrados do campo não conseguem frustrar o esforço do lavrador na produção da semente nobre.

Aproveitemos o irmão de boa-vontade, na plantação do bem, olvidando as nugas que lhe cercam a vida.

Que seria de nós se Jesus não nos desculpasse os erros e as defecções de cada dia?

E, se esperamos alcançar a nossa melhoria, contando com a benemerência do Senhor, por que negar ao próximo a confiança no futuro?

Consagremo-nos à tarefa que o Senhor nos reservou na edificação do bem e da luz e estejamos convictos de que, assim, agindo, o argueiro que incomoda o olho do vizinho, tanto quanto a trave que nos obscurece o olhar, se desfarão espontaneamente, restituindo-nos a felicidade e o equilíbrio, através da incessante renovação.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Fuga

Mal colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal.

- Para com esse barulho, meu filho - falou, sem se voltar.

Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho, estava só empurrando uma cadeira.

- Pois então para de empurrar a cadeira.

- Eu vou embora - foi a resposta.

Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas, enrolando-as num pedaço de pano. Era a sua bagagem: um caminhão de plástico com apenas três rodas, um resto de  biscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave da despensa? - a mãe mais tarde irá dizer), metade de uma tesourinha enferrujada, sua única arma para a grande aventura, um botão amarrado num barbante.

A calma que baixou então na sala era vagamente inquietante. De repente, o pai olhou ao redor e não viu o menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:

- Viu um menino saindo desta casa? - gritou para o operário que descansava diante da obra do outro lado da rua, sentado no meio-fio.

- Saiu agora mesmo com uma trouxinha - informou ele.

Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabisbaixo ao longo do muro. A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, o pedaço de biscoito e - saíra de casa prevenido - uma moeda de 1 cruzeiro. Chamou-o, mas ele apertou o passinho, abriu a correr em direção à Avenida, como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia a distância.

- Meu filho, cuidado!

O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no asfalto. O menino, assustado, arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço como a um animalzinho:

- Que susto você me passou, meu filho - e apertava-o contra o peito, comovido.

- Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.

Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe dar umas palmadas:

- Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai.

- Me larga. Eu quero ir embora.

Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala - tendo antes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave, como ele fizera com a da despensa.

- Fique aí quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando.

- Fico, mas vou empurrar esta cadeira.

E o barulho recomeçou.


Crônica de Fernando Sabino retirado do livro Para Gostar de Ler - Volume 2 - Crônicas, Editora Ática, 4ª Edição, 1980.