Desencostando-se do tanque, Benedita atirou uma olhada para o marido deitado na cama. Avistou-o dos pés a cintura, pijama sungado nas pernas entrelaçadas. Resmungou com azedume:
- Esbranquicento de uma figa!
Enxugou o suor na testa, voltando a esfregar a roupa pensando:
"Para pegar um lugar de onde pudesse ver Nego Rei de perto, teria que correr com o serviço. Era estender a roupa no arame, lavar os trens de cozinha, tomar banho, aprontar a Neuza... Muita coisa por fazer ainda! Seria melhor arriscar um pedido de auxílio."
Galgou o degrau da porta para poder avistar o rosto do seu homem e falou decidida:
- Você bem podia dá uma dimãozinha... Receio chegar lá atrasada.
Como de costume, a resposta veio negativa:
- Sou lá mulher pra andar fazendo serviço de casa?! Deixa tudo aí, na volta você arruma.
Benedita suspirou:
"Com esse não precisava contar pra coisa nenhuma! Só pra fazer filho... O jeito era mesmo correr com o serviço. Pensando bem, as vasilhas poderiam ser lavadas quando voltasse. Era amontoar num canto da pia. A roupa é que precisava ir para o arame. Logo mais, deveriam estar também passadas. A entrega ao freguês seria logo no outro dia e cedinho."
Neusa veio interromper o pensamento de Benedita. Rodou sobre os calcanhares, exibindo o vestido branco engomado, cheio de babadinhos:
- Tá bonito?!
A mãe surpreendeu-se:
- Se vestiu sozinha?!
- Num instantinho!
A alegria deixava o branco dos olhos da menina mais branco e as pupilas pretas lançando chispas. A mulher contemplou a filha com gosto:
"Era um encanto o diabo da bichinha! Foi preciso nascer e crescer aquela coisinha encardida pra ela ir tomando amor na sua raça."
Sorriu ao responder:
- Está uma beleza! Agora senta lá na sala e vai alisando o pincha.
A pequena fazendo beiço estrilou:
- Pincha não, mãe, cabelo! Sentar eu não vou não! Amassa o vestido.
- Então alisa em pé mesmo.
A garota saiu e logo voltou para junto da mãe. Ela ralhou:
- Falei pra você ir pentear lá na salinha...
- Quero ficar junto da senhora.
O pente escorrendo pela carapinha ia chiando. Benedita encheu-se de ojeriza:
"Perder a vergonha antes de casar pra poder agarrar aquele esbranquicento duma figa por desejar ter filhos branquinhos e eles todos evinham saindo escuros. Raça danada de forte essa sua!"
Sentiu pena da menina. A mão miúda não conseguia ajeitar aquele monte de coisa. Tomou o pente e fez o arranjo ordenado:
- Agora vai me esperar lá na salinha. E já nóis vamos descendo.
Acabou de estender a roupa, amontoou as vasilhas e, depois de banhar-se, foi para o quarto envolta em uma toalha. Remexeu na gaveta da cômoda procurando um porta-seios. Contemplando-se no espelho, mudou de intenção.
"Pra quê usar essa bobagem? Seus peitos eram firmes como os de uma mocinha. Ninguém diria que haviam amamentado meia dúzia de filhos".
Contemplou o resto do corpo com alegria:
"Uma beleza!"
Pelo espelho deu com os olhos do marido em cima dela, incendiado de desejo, braços estendidos num convite. Cobriu-se ralhando de testa franzida:
- Que coisa é essa?! Não vê que lá vou saindo quase de corrida?!
Vestiu-se, pensando com ironia:
"Esbranquicento duma figa! Só presta mesmo é pra isso."
Antes de deixar o quarto, recomendou:
- Vigia os meninos que a Neusinha vai comigo.
Ainda inflamado, esfregando os pés um no outro, o marido respondeu com azedume:
- Pra quê levar a menina? Ela não entende disso...
No espelhinho da sala voltou a mirar-se para acabar de ajeitar o cabelo. João com aqueles olhos por cima dela, tirava-lhe o jeito.
"Pra quê levar a menina? Ora! Então o dinheiro quem ganhava não era ela? Foi preciso sofrer bastante para ir aprendendo muito da vida. Pra quê levar a Neusinha! Pra ir ensinando a ela que neste mundo não é só branco que é gente! Nego não era Rei? Rei de futebol mas era! O mundo inteiro não vivia encantado com ele? Nego bonito, cheio de força, ágil como um gato! Neusinha precisava ver esse Nego de perto pra ir aprendendo a dar valor na sua raça."
Na pressa de caminhar, ia arrastando a menina. Atolando o sapato branco na poeira, encheu-se de ojeriza:
"Não pudera tomar condução, porque o dinheiro mal chegou para as entradas. Casar com branco e depois ser cachorro dele? Trabalhar como burro pra sustentar casa, filhos, marido?! Qual! Antes tivesse casado mesmo com um escurinho. Com Neusa tinha que ser diferente. Teria que casar era com um da sua raça."
Agora quase corria. A menina reclamou, ela não prestou sentido. Ao passarem junto da construção que ia sendo erguida na praça, alguém gritou...
- Vai descendo pra ir ver o Rei, Benedita?
Olhou para cima. Esgarranchado no andaime, Sebastião acenou-lhe. Os dentes brancos brilhando no negrume da cara.
"Graças a Deus ela tinha bons dentes e também a Neusinha".
Sorriu ao responder:
- Vou. Você não vai?
- Estou dando mais umas marteladas e já eu desço.
- Então até logo.
- Até.
"Nego bom era esse! Escuro como tição mas um orgulho da raça. Não fosse por amor aos filhos, vergonha da Neusinha, estaria era vivendo com ele. Aquele esbranquicento bem que merecia". Benedita suspirou comprido. A filha forçou-a a prestar atenção no que lhe dizia:
- Que quer dizer Rei, mãe?
- Rei... Rei... - Embaraçou-se por não saber explicar. Neusa ajudou:
- Rei é uma coisa ou uma gente melhor que todo mundo?
- Isso mesmo. Sorriu ao pensar: "Essa menina faz cada pergunta!"
- Esse Rei que nóis vamo vê é Rei de jogá bola?
- É.
- Então ele joga bola mais bem que todo mundo?!
- Isso mesmo.
- E ele é preto, mãe?
- É.
- Que nem a gente?
- É.
A pequena caminhou um pouco em silêncio e então perguntou:
- Preto é gente, mãe?
Benedita zangou-se e respondeu com aspereza:
- Claro que é, burra!
O adjetivo magoou a menina. Sua voz veio sentida:
Mas preto é gente feia...
A mãe deu com força um tapa na filha:
- Preto não é feio coisa nenhuma, ouviu?! Tem muito branco que é mais feio que a gente. O preto que nóis vamo vê é um preto forte, liso, bonito! Você também é uma negrinha alinhada!
Procurando conter o pranto, Neusa foi dizendo de maneira ritmada:
- A Maria falou que nego nunca foi gente! Que lá na nossa casa, só o pai é que vale uma coisinha...
Benedita explodiu:
- Aquela Maria é uma burra! Uma cretina! Qualquer dia desses, quero lhe partir o focinho! - Benedita fechou a mão em ameaça e sacudiu o braço da filha: - Não quero mais vê você falando com ela, tá entendendo?
Notando o braço da menina todo ralado, quase sangrento, passou da ira à preocupação indagando aflita:
- Você caiu?!
A pequena sacudiu a cabeça em negativa:
- Então o que qui foi isso?!
Neusa não deu resposta. A mãe engrossou a fala:
- Diz o que qui foi senão apanha aqui mesmo!
A pequena respondeu baixinho, como se estivesse cansada:
- Esfreguei com um caco de telha...
- Está ficando louca?! - Benedita sacudiu a menina e erguei a mão em ameaça: Fala ou apanha...
Procurando sufocar os soluços, Neusinha respondeu:
- Queria ver se raspando, a pele da gente ficava branquinha...
A pequena agora chorava. Benedita suspirou comprido, pensando:
"Qual! Nego traz essa bobagem é no sangue! Só Deus, assim mesmo com muito jeito, talvez conseguisse consertar essa estultice".
Conto de Ada Ciocci Curado publicado no livro Nego Rei. Goiânia, Livraria Brasil Central Editora, 1966. Retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos Anos Dez aos Sessenta, Organizado por Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, CEGRAF/UFG, Goiânia, 1993.