28 agosto 2026

Beto

O desgosto do velho Tobias é o filho: a medonha carinha vermelha do mongoloide.

- É tarado - desculpa-se e corrige. - Doente de nascença.

Um bicho em criança, andava de quatro, a língua de fora; aos pulos, subia na árvore com a agilidade do mico. Amarrado com os cachorros no fundo do quintal. Escapando, arrastava a coleira pela rua - uma correria entre as crianças. Cabeça bem pequena, nariz purpurino, um guincho selvagem. Aos vinte anos, engrola as palavras - a língua uma ostra que não engolia.

- A omba oou...

A pomba voou. Mais

Hera, a maior das deusas - A força da fecundidade e da consolidação

É par complementar de Zeus (e ele, dela), tendo os dois atributos do feminino por excelência: a fecundidade e a dedicação para conservar e fortalecer toda a obra criada. E, realmente, de nada adianta o esforço da criação se não houver proteção e dedicação à obra criada. É preciso cuidar e proteger para que a obra possa vingar. Assim, Hera é, por excelência, o princípio materno que cuida e consolida tudo o que é criado. Sem cuidado e dedicação, não há criação que sobreviva e se consolide. Sem criação, não há o que cuidar e consolidar, pois tudo cai num vazio que beira a dissolução do caos.

Na visão popular de Homero, Hera é fiel, virtuosa, intocável e insensível à corte dos celestes. É uma torre de marfim inexpugnável e seu amor é possessivo e exclusivo. Não se cansa de perseguir as paixões ilícitas de seu esposo Zeus, procurando a vingança.

Recebeu de sua avó Gaia (a grande Terra) as romãs de ouro como presente de casamento. Eram o símbolo e o auspício da fecundidade eterna. Vemos assim que Zeus e Hera são os pares complementares dos quais surge e se consolida a obra criada, sendo os arquétipos masculino e feminino por excelência. Ele é a potência que se expande e se multiplica infinitamente. Ela é a potência que contém, pondo à prova, consolidando e fortalecendo a criação, que somente assim é possível, e tudo que é passível de existir no universo deverá submeter-se a essas leis. Seu animal sagrado é o pavão, símbolo de seu encanto e de sua beleza.

Assim, esse casal é um exemplo a seguir para nós humanos e mortais, cabendo a cada um encontrar dentro de si - seja homem ou mulher - sua porção Zeus e sua porção Hera, cultivando-a a aperfeiçoando-a. Para os antigos gregos, os deuses deviam ser imitados pelos humanos. Afinal, somos instrumentos deles. Assim imitá-los é procurar em cada um de nós os meios para contribuir com a infinita criação e sua consolidação.


Texto de Viktor D. Salis retirado do livro Mitologia Viva - Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.

15 agosto 2026

Busquemos a Luz (121)

 "Toda escritura inspirada por Deus é proveitosa... Para instrução na justiça." - Paulo. (II TIMÓTEO, 3:16.)


Procura a ideia pelo valor que lhe é próprio.

Quando a moeda comum te vem às mãos, não indagas de onde proveio.

Ignoras que procede de casa de um homem justo ou injusto, se esteve, antes, a serviço de um santo ou de um malfeitor.

Conhecendo-lhe a importância, sabes conservá-la ou utilizá-la, com senso prático, porque aprendeste a perceber nela o seio da autoridade que te orienta a luta humana.

O dinheiro é uma representação do poder aquisitivo do governo temporal a que te submetes e, por isso, não lhe discutes a origem, respeitando-o e aproveitando-o, na altura das possibilidades com que se apresenta.

Na mesma base, surgem as ideias renovadoras e edificantes.

Por que exigir sejam elas subscritas, em sua exposição, por nossos parentes ou amigos particulares, a fim de que produzam o efeito salutar que esperamos delas em nós e ao redor de nós?

Toda página consoladora e instrutiva é dádiva do Alto.

Não importa que os pensamentos nela corporificados tenham vindo por intermédio do espírito de nossos pais terrestres ou de nossos filhos na carne, de nossos afeiçoados ou de nossos companheiros.

O essencial é o proveito que nos possa oferecer.

O dinheiro com que adquires o pão de hoje pode ter passado ontem pelas mãos do teu adversário maior, mas não deixa de ser uma bênção para a garantia de tua sustentação, pelo valor de que se reveste.

Assim também, a mensagem de qualquer procedência, que nos induza ao bem ou à verdade, é sempre valiosa e santa em seus fundamentos, porque, usando-a em nossa alma e em nossa experiência, podemos adquirir os talentos eternos da sabedoria e do amor, por tratar-se de recurso salvador nascido da infinita misericórdia de nosso Pai Celestial.

Busquemos a luz onde se encontre e a treva não nos alcançará.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Zeus, o maior dos deuses - A energia criadora

Significava o impulso divino que está sempre em ação. Tudo o que toca se multiplica e se expande. É o conúbio entre o temporal e o eterno, pois renova a vida infinitamente. É a potência que se expande em criações que consolidam a vida. Luta eternamente para vencer o caos e a destruição.

Seus símbolos são a águia, a linha reta e o ouro. A água representa a busca pela Criação. A linha reta é a impossibilidade de ter seu rumo desviado; a palavra "caráter" daí se originou, estando associada com retidão, mas não com rigidez. Já o ouro é o símbolo do eterno e da verdade, pois não sofre a ação com o tempo. Cultuar Zeus significa praticar a criação, sendo seu instrumento, e opor-se à destruição e ao caos.

Na visão popular e pedagógica de Homero, Zeus é o conquistador por excelência: está sempre envolvido em amores extraconjugais, dos quais nascem muitos deuses, semideuses e heróis. Sempre arquiteta ardis para escapar de sua esposa ciumenta, Hera. 


Texto de Viktor D. Salis retirado do livro Mitologia Viva - Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.

08 agosto 2026

A Madre de Ouro

 Poço da Roda. Arredores de Bonfim.


Bonfim é uma das cidades mais antigas de Goiás. Como suas irmãs mais velhas, Meia Ponte e Vila Boa de Goiás, guarda ainda, sob muitos aspectos, o cunho dos núcleos coloniais do século XVIII, com a sua inconfundível arquitetura reinol, estilo barroco, de feição pesada, simplória e, ao mesmo tempo bonachona, hospitaleira - aspecto esse que se vai aos poucos apagando dos burgos e vilórios progressistas mais próximos da linha férrea.

Ficou-lhe, pois, ainda intacto, o antiquado perfume de antanho, coisas mortas que a mente aviva e a tradição redoura, vago encanto do passado, sabor que não tem ou já perderam os centros mercantilistas, tomados de febre de riqueza e inovações, do litoral.

Como Goiás, a Triste, embala-a o mesmo sono de duzentos anos de Bela Adormecida, com as reminiscências da época da descoberta, as aluviões de aventureiros e desbravadores à cata do rico filão, página heroica do esforço extinto da raça, que à memória apraz reviver.

Escavações profundas, minas ao desamparo, veeiros revolvidos, barrocas solapadas, esboroando-se nas chuvas, velam de melancolia o olhar do viandante que demanda aquele recanto do Planalto. E à medida que se aproxima de seus arredores, mais vivos e constantes são os atestados do delírio avoengo em esmiuçar, estripando-as, as entranhas da terra, para delas dar cibo e páscigo à sede do luxo, ao esplendor bizantino da velha Metrópole, já então em via franca de decadência.

Hoje, minas, lavras, catas, tudo jaz ao abandono. Alveja em montes o pedrouço das "formações" à beira das estradas; uma coma verde de "gordura" corre a crista dos valos e carreiros, argilosos e tristes, outrora sacudidos pelo estalo do relho dos feitores e o grito angustiado da escravatura, na lavagem do cascalho. Foram-se os antigos bateeiros da "descoberta", extinguiu-se a febre da mineração; ficou enraizada, uma população pacífica e laboriosa, que faz a prosperidade do município na lavoura, na criação de gado, no comércio das letras, em outras profissões liberais.

Da primitiva exaltação, porém, do ouro, restam, como tradição, histórias e lendas, das quais, talvez porque haja no fundo, como na maioria das lendas, um ponto qualquer de contato com a verdade, é a do Poço da Roda das mais populares.

Fica nas proximidades de Bonfim, no ermo de um descampado, ocupando o espaço de duzentos metros mais ou menos de circunferência. Contam moradores e viajantes que, à luz forte do dia, quando a superfície se lhe aquieta, mui transparente e cristalina na calma circundante, uma enorme pedra responde do fundo das águas aos fogos do meio-dia, irradiando em torno um brilho de mil chispas e centelhas, cujo estranho fulgor inebria e cega de deslumbramento e cobiça os olhos mortais ali empenhados, às bordas da frágil igarité, em devassar-lhe o líquido arcano. É a Madre de Ouro, cujo encantamento curiosos e mergulhadores tentam, em vão, surpreender o segredo, e de longos, mui longos anos habitadora daquelas águas remansadas...

Embalde é a teima porém que o mistério do sítio, a profundidade do poço, a refrangência, o desvio de seus raios e momentâneo desaparecimento da visão assim lhe perturbem o imoto cristal, zelam e guardam para sempre inviolada em seu retiro, a pedra maravilhosa.

E se um mais afoito e sôfrego, volve de novo à tentação da miragem e mergulha mais uma vez no lençol silencioso e frio, à busca do encantado tesouro-obscuro Alberico a quem faltou o anel dos Niebelungens-logo o pune de morte a Madre gloriosa, voltando à tona o seu corpo tempos depois, pasto de lambaris, papa-iscas e mais arraia miúda do lago.

Serenada a agitação das ondas, alisado o espelho translúcido na queda da aragem, eis de novo, fulgurando, a Madre de Ouro aviva, como um sol submerso, a aurifulgência de seus raios mágicos ante a adoração das florinhas anônimas, debruçadas à beira da lagoa...

Tal é a lenda nesse trecho do território. Se esplende ali a Madre de Ouro sepultada no fundo do Poço da Roda, continua entanto a sua peregrinação através de outras paragens do rincão goiano, numa viagem aérea, cujo termo é a explosão do meteoro na noite silenciosa.

E tal como a ouvimos, no interior, o seu quebranto consta do seguinte. Quem escuta ou vê, no ermo da noite, a passagem da Mãe de Ouro cortando o céu estrelado com o seu listrão ardente, toma na cozinha da choça um tição em brasa, correr ao limiar e faz no espaço uma cruz de fogo.

Logo, cede a Aparição ao sortilégio do homem, detém a sua carreira vertiginosa, e arrebenta em estilhas, lascas, pedrouços, calhaus e blocos, tudo de ouro maciço e do mais puro quilate. E depois, toca a catar e a meter no surrão aquela fortuna inesperada...

História que tem a sua origem nos bólidos, fenômeno que o olhar aparvalhado do matuto observa, muitas vezes, pelas noites claras daquela terra de várzeas e chapadões e de que gera a imaginativa a sua lenda, filha do cósmico deslumbramento e da  superstição primitiva.


Conto de Hugo de Carvalho Ramos retirado do livro Tropas e Boiadas, Livraria e Editora Cultura Goiana, 6ª Edição, Goiânia, 1984.

Assim Será (120)

 "Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus." - Jesus. (LUCAS, 12:21)


Guardarás inúmeros títulos de posse sobre as utilidades terrestres, mas se não fores senhor de tua própria alma, todo o teu patrimônio não passará de simples introdução à loucura.

Multiplicará, em torno de teus pés, maravilhosos jardins da alegria juvenil, entretanto, se não adquirires o conhecimento superior para o roteiro de amanhã, a tua mocidade será a véspera ruidosa da verdadeira velhice.

Cobrirás com medalhas honoríficas o teu peito, aumentando a série dos admiradores que te aplaudem, mas, se a luz da reta consciência não te banhar o coração, assemelhar-te-ás a um cofre de trevas, enfeitado por fora e vazio por dentro.

Amontoarás riquezas e apetrechos de conforto para a tua casa terrena, imprimindo-lhe perfil dominante e revestindo-a de esplendores artísticos, contudo, se não possuíres na intimidade do lar a harmonia que sustenta a felicidade de viver, o teu domicílio será tão-somente um mausoléu adornado.

Empilharás moedas de ouro e prata, à sombra das quais falarás com autoridade e influência aos ouvidos do próximo, todavia, se os teus haveres não se dilatarem, em forma de socorro e trabalho, estímulo e educação, em favor dos semelhantes, serás apenas um viajor descuidado, no rumo de pavorosas desilusões.

Crescerás horizontalmente, conquistarás o poder e a fama, reverenciar-te-ão a presença física na Terra, mas, se não trouxeres contigo os valores do bem, ombrearás com os infelizes, em marcha imprevidente para as ruínas do desencanto.

Assim será "todo aquele que ajunta tesouros para sí, sem ser rico para com Deus".


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

01 agosto 2026

A Repartição dos Pães

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.

Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.

Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...

Era uma mesa para homens de boa vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.

A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos  eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.

Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido por nós quanto nós queríamos comê-los. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.


Conto de Clarice Lispector retirado do livro A Legião Estrangeira, Rocco Editora, Rio de Janeiro, 2020.

Eia Agora (119)

 "Eia agora, vós que dizeis... Amanhã..." - (TIAGO, 4:13.)


Agora é o momento decisivo para fazer o bem.

Amanhã, provavelmente...

O amigo terá desaparecido.

A dificuldade estará maior.

A moléstia terá ficado mais grave.

A ferida, possivelmente, mostrar-se-á mais crescida de extensão.

O problema talvez surja mais complicado.

A oportunidade de ajudar não se fará repetida.

A boa semente plantada agora é uma garantia da produção valiosa no porvir.

A palavra útil, pronunciada sem detença, será sempre uma luz no quadro em que vives.

Se desejas ser desculpado de alguma falta, aproxima-te agora daqueles a quem feriste e revela o teu propósito de reajustamento.

Se te propões auxiliar o companheiro, ajuda-o  sem demora para que a bênção de teu concurso fraterno responda às necessidades de teu irmão, com a desejável eficiência.

Não durmas sobre a possibilidade de fazer o melhor.

Não te mantenhas na expectativa inoperante, quando podes contribuir em favor da alegria e da paz.

A dádiva tardia tem gosto de fel.

"Eia agora" - diz-nos o Evangelho, na palavra apostólica.

Adiar o bem que podemos realizar é desaproveitar o tempo e furtar do Senhor.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

28 julho 2026

Quem eram os deuses do Olimpo?

Na antiguidade grega, a religião e a mitologia eram constituídas por um casal supremo - Zeus e Hera - e outros doze deuses, que eram seus pares complementares. Havia duas maneiras de entendê-los:

A primeira, mais simples e concreta, era a chamada visão de Homero, que encontramos na Ilíada e na Odisseia. Nessa visão, os deuses só se diferenciavam dos homens por serem mais poderosos e imortais. Tinham, além da forma humana, paixões, rancores, ciúmes, preferências, enfim, todos os atributos humanos.

A segunda maneira de entendê-los é encontrada em Hesíodo, em suas obras A Teogonia e Os Trabalhos e os Dias. Nelas é mostrada uma concepção metafísica e abstrata dos deuses, algo próximo das religiões modernas. Eles não eram apenas poderosos e imortais, mas potências e manifestações cósmicas em busca de uma ordem que superasse o caos. Todos eram formas da criação e buscavam consolidá-la. Essa visão, mais profunda e exata, era a dos sacerdotes e iniciados. Ontem, como hoje, sempre existiram duas maneiras de ensinar a religião: uma, mais simples, destinada ao povo, e outra, mais profunda, destinada aos iniciados.

Infelizmente, apenas chegou até nós a visão mais simples, e esta, mesmo assim, foi banalizada. Na verdade, ambas estavam corretas. Os antigos sabiam que, por exemplo, seria muito difícil para uma criança ou um camponês entender que Zeus e Hera eram "as potências complementares da criação, sendo ele a força que se expande infinitamente, e que tudo o que toca se multiplica, enquanto ela é a potência fecunda, que busca consolidar tudo que é criado - como aliás convém ao arquétipo feminino, cujo atributo fundamental não é apenas dar a vida, mas dela cuidar para fortalecê-la".

Em linguagem mais simples (de Homero), isso era explicado de maneira muito mais fácil de entender: Zeus era a paixão que não se continha, e por isso era infiel a sua esposa, tendo inúmeras relações extraconjugais, das quais nasceram muitos deuses, semideuses e heróis. Já Hera morria de ciúmes dele e estava sempre tentando aniquilar as amantes (ou os amantes) de seu esposo e os filhos nascidos dessas uniões. No entanto, os que sobreviviam às suas perseguições ou eram aceitos por ela (é o caso de Hércules, a quem Hera deu sua filha por esposa quando ele se tornou imortal), ou eram metamorfoseados em forças cósmicas, ou ainda consagrados (é o caso de Dioniso ou Baco).

Dessa maneira, os antigos conseguiam ensinar às crianças e às pessoas mais simples a religião de um modo mais humano e apaixonante, usando uma linguagem mais acessível, que todos entendiam. A criação é constituída pelo amor e pela paixão, e nem sempre é possível contê-la ou mesmo prevê-la. Talvez seja isso o que tanto nos encanta na mitologia. Os deuses eram cheios de paixões que resultavam num constante renovar, sendo um exemplo a ser seguido pelos homens. A única possibilidade aqui na Terra é a criação, e ela não é possível sem paixão, pois está voltada à multiplicação da vida, e não à sua destruição. Na verdade, se tivessem tido a oportunidade de conhecer como ensinamos a religião na modernidade, os deuses iriam achar-se muito chatos e sem graça. Além disso, ficariam horrorizados se soubessem o quanto já matamos em nome de Deus. Vejam-se a Inquisição, as Cruzadas, a caça às bruxas, a Guerra Santa, etc. E não devemos confundir a perseguição de Roma aos cristãos com a tradição mitológica grega, uma vez que a religião romana era muito diferente da grega, embora alguns deuses tenham sido por ela adotados, mas exercendo funções totalmente diferentes e modificados para o uso do imperialismo guerreiro e conquistador próprio de Roma.

Vale notar ainda que, na antiga religião grega, encontramos deuses e deusas, ou seja, tanto o arquétipo masculino como o feminino são divinizados, algo que nunca mais aconteceu nas religiões modernas, sendo o feminino sumariamente suprimido delas. O mesmo se pode dizer com relação aos Messias, pois são todos masculinos (Moisés, Cristo, Maomé), e às funções eclesiásticas (papa, bispo, cardeal, padre, aiatolá, imã, rabino), que também foram vetadas às mulheres, sendo-lhes permitido no máximo retirar-se para um convento e... Ficar quietas! Myrcea Eliade, em sua obra História das Crenças e Religiões, notou muito apropriadamente que o monoteísmo das religiões modernas só foi possível com a supressão de um dos arquétipos, no caso o feminino, e que isso, longe de representar um avanço ou progresso em relação às chamadas religiões "pagãs", foi um retrocesso. O arquétipo feminino - e as mulheres, claro - foi simplesmente retirado das funções religiosas, sociais e políticas nas culturas ocidentais. O fato é que até hoje, com todos os avanços dos últimos cinquenta anos, ainda estamos muito longe de nos aproximar do papel de relevância do arquétipo feminino (e da mulher) que existiu na antiguidade, especialmente antes do século V a.C. - a partir daí deu-se a grande guinada para sua supressão. Só podemos lamentar que muitos estudos sérios sobre esse assunto caiam no erro de analisar o papel da mulher somente a partir dessa época e tirem suas conclusões (equivocadas) para toda a antiguidade helênica e egípcia. Para um estudo correto e profundo desse assunto, recomendo a obra fundamental de Werner Jaeger, Paideia: a formação do homem grego, da Editora Martins Fontes.

A classificação e a descrição das funções dos deuses a seguir foram baseadas e inspiradas nas obras de Homero, A Ilíada e A Odisseia; de Hesíodo, A Teogonia e os Dias, O Certame e O Escudo; e na obra capital de Apolodoro de Atenas, Biblioteca. Infelizmente, com exceção de A Ilíada, A Odisseia, A Teogonia e parte de Os Trabalhos e os Dias, não há traduções das outras obras para a nossa Língua, a não ser em Portugal.

Os antigos reuniam os deuses de acordo com suas funções, que apresentamos sinteticamente a seguir:

* Zeus: deus da criação e da expansão.

* Hera: deusa da fecundidade, da consolidação e do fortalecimento.

Zeus e Hera são o casal supremo, infinitamente mais poderosos que os demais, e são pares complementares. Homero lembra-nos de que a distância que os separa dos outros deuses é a mesma que separa os homens dos deuses.

* Apolo: deus da profecia, da luz, da beleza, da música, da poesia e das artes.

* Ártemis: deusa que honra e protege o sagrado na natureza. Os dois são irmãos gêmeos e pares complementares também.

* Atena: deusa da sabedoria, da justiça e da equidade.

* Afrodite: deusa do amor e da entrega (também conhecida pelos romanos como Vênus).

* Ares: deus do espírito de luta e dos combates. Foi desvalorizado em sua forma guerreira pelos gregos e supervalorizado nessa mesma forma pelos romanos, que eram um povo belicoso e conquistador. Era por eles conhecido como Marte. As divindades que têm o nome começado com a letra A (isto não é casual) eram chamados de "deuses da transcendência", porque cada um, a seu modo, ensinava aos homens as artes para se elevar espitualmente.

* Héfestos: deus das ferramentas e dos instrumentos.

* Héstia: deusa protetora do sagrado do lar e do interior de cada um. Era representada por um fogo sempre acesso no interior das casas e que não podia nunca se extinguir.

* Hermes: deus condutor das almas após a morte no caminho para voltarem a viver (todas as religiões antigas acreditavam na regeneração das almas em outro corpo - séculos mais tarde, o Espiritismo inspirou-se nessa ideia). Era, além disso, o condutor dos homens na Terra. As divindades que têm nome iniciado com a letra H (na verdade, é o E com som longo em grego - eta) eram chamadas de "divindades da permanência", porque ensinavam aos homens as artes para se viver na Terra. A deusa Hera as presidia. Também nesse caso, não é casual que os nomes comecem com a letra H.

* Deméter: deusa da fertilidade e das artes para se voltar a viver. Simboliza as estações do ano e a regeneração da natureza.

* Dionísio: deus do vinho, do êxtase e da alegria. É o deus que ensina a conviver com o outro, por excelência. No período romano, era conhecido como Baco e seus atributos foram completamente degenerados, sendo associados com orgias e bacanais, típicos da decadente Roma, em seus costumes e sua ética. Esses eram chamados de "deuses da imanência", porque ensinavam aos homens como adentrar o mistério do interior da Terra, em si mesmos e nos outros. Presidiam os famosos "Mistérios de Eleusias" (da libertação) e também não é casual que seus nomes comecem com a letra D - o conhecido delta em grego. Essas questões serão abordadas nos tópicos dedicados a cada um desses deuses.

* Posseidon: deus dos mares e das tarefas inadiáveis para se viver. Irmão mais velho de Zeus, era conhecido como "o deus das origens", porque tudo veio dos mares para os antigos e lá nada pode ser adiado ou postergado.

* Hades ou Plutão: também era irmão de Zeus. É o deus dos mortos e vingador dos falsos juramentos. Era conhecido como "deus do abissal", juntamente com sua esposa Perséfone, também chamada de "a juíza infernal". Juntos presidiam o julgamento dos mortos para avaliar se poderiam voltar a viver. O nome desse deus em grego não começa com a letra H, mas com A.


Texto de Viktor D. Salis retirado do livro Mitologia Viva - Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.

27 julho 2026

O dia que Urano entrou em Escorpião

Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela ou parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, ou mesmo Júpiter saindo de Aquário. Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estreias e sessões da meia-noite e gente se encontrando e motos correndo - difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento, lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma coisa nas sobras da galinha do meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali, ouvindo baixinho um velho Pink Floyd para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar de vez com aquele antro (eles não gostavam da palavra, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros e almofadas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa horrível) - renunciado ao sábado, pois, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume da vitrola e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, pois se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então, olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha, parado no meio da sala. E não disseram nada.

O que tinha saído da janela fez como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele pedacinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava querendo mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto uma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e os violinos ficava imaginado um guerreiro montado num cavalo branco, correndo contra o vento, tipo Távola Redonda assim, a silhueta dum castelo sobre uma colina ao fundo - e que o guerreiro era medieval, o castelo também, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros e um crepúsculo, talvez um quarto crescente, quem sabe um lago, quando a moça que estava com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que tinha erguido para a testa quando o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:

"Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura - loucura assumida -, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura".                                         (Ernest Becker: A Negação da Morte)

Quando ela parou de ler