Já pensou se cada pessoa tivesse sua própria maneira de contar os dias? O mundo seria uma loucura! Afinal de contas, o dia 20 para você poderia ser o dia 31 para o seu amigo ou o dia 12 para a sua professora ou o dia 10 para... Epa! Se ninguém estivesse no mesmo dia, como seria para marcar uma festa de aniversário ou a data de uma prova? Estar em sintonia com o tempo é tão importante para os compromissos do cotidiano e também para as comemorações que fica impossível imaginar nossas vidas sem o calendário. O texto que você vai ler agora conta a história dessa figura especial quase sempre esquecida na gaveta ou atrás da porta.
Antes que existissem calendários, antes mesmo que fosse estabelecida a duração dos meses e dos anos, o homem já procurava alguma forma de se orientar no tempo. Dois ciclos da natureza, o lunar e o solar, começaram a ser usados há milhares de anos e ainda hoje servem como base para a nossa contagem dos dias.
O primeiro refere-se à passagem das quatro fases da lua (nova, crescente, cheia e minguante) e dura 29,5306 dias ou seja, 29 dias e 13 horas, aproximadamente. Já o ciclo solar é o período equivalente à passagem das estações do ano (primavera, verão, outono e inverno), que é de 365,2422 dias ou 365 dias completos e cerca de 6 horas.
Tanto o ciclo lunar quanto o solar podem servir para estabelecer calendários. Mas essa história do número de dias do ano não ser inteiro já deu muita confusão.
O calendário que veio de Roma
Diz a lenda que o calendário romano foi criado por Rômulo, o primeiro rei de Roma, no ano 735 antes de Cristo. Ele se baseava no ciclo lunar e tinha 304 dias divididos em 10 meses - seis com 30 dias e quatro com 31. Naquela época, a semana tinha oito dias e só passaria a ter sete no ano 321 depois de Cristo por ordem de Constantino, outro imperador romano.
Mas vamos voltar a Rômulo. Foi ele quem nomeou os primeiros quatro meses do calendário romano de martius (em homenagem ao deus da guerra), aprilis (provavelmente se referindo à criação de porcos), maius (para uma deusa italiana local) e junius (para a rainha dos deuses latinos). Os meses seguintes foram simplesmente contados em latim: quintilis, sextilis, septembre, ocotobre, novembre e decembre.
Como esse calendário não estava alinhado com as estações do ano, que têm duração aproximada de 91 dias cada uma, por volta do ano 700 antes de Cristo, o rei Numa, que subiu ao trono depois de Rômulo, decidiu criar mais dois meses: janus (em homenagem à deusa romana do nascer e do pôr-do-Sol) e februarius (que significava o mês das purificações). Embora as estações estejam ligadas ao ciclo solar, o novo calendário romano continuou seguindo o ciclo lunar, mas passou a ter 354 dias, resultado de seis meses de 30 dias e seis meses de 29 dias.
Durante o império de Júlio César, por volta do ano 46 antes de Cristo, o calendário sofreu mais mudanças. Os senadores romanos mudaram o nome do mês quintilius para julius, como forma de homenagear o imperador. Mais tarde, Augusto, que ocupou o trono depois de Júlio César, também foi homenageado e o mês sextilius passou a se chamar augustus. Mas não foi só isso.
Um ano de confusões
Ainda no império de Júlio César, o calendário passou a se orientar pelo ciclo solar, com 365 dias e 6 horas. O chamado calendário juliano foi uma tentativa de entrar em sintonia com as estações. Para ajustar a questão das horas, foi criada uma rotina em que por três meses seguidos o calendário deveria ter 365 dias. No quarto ano, ele passaria a ter 366 dias, porque depois de quatro anos as 6 horas que sobravam do ciclo solar somavam 24 horas, isto é, mais um dia. Estava assim estabelecido o ano bissexto.
O calendário juliano trouxe ainda mais novidades. Além dos meses alternados de 31 e 30 dias (exceto fevereiro que tinha 29 dias ou 30 em anos bissextos), passou-se a considerar janeiro, e não março, como primeiro mês do ano. A implantação de todas essas alterações fez com que o ano 46 antes de Cristo fosse bastante confuso. Até que tudo fosse ajustado, o ano teve três meses a mais, num total de 445 dias. Por conta de todas essa bagunça, o próprio imperador Júlio César o batizou de "ultimus annus confusiones". O povo o chamava simplesmente de "annus confusionis".
Anos mais tarde, quando o mês sextilius passou a ser chamado de augustus, ficou decidido que o mês em homenagem ao imperador Augusto não poderia ter menos dias que o mês em homenagem a Júlio César. Assim, um dia de februarius foi transferido para augustus, por isso hoje o mês de fevereiro tem 28 dias (ou 29 em anos bissextos). Para evitar que ocorressem três meses de 31 dias em sequência, o total de dias dos meses de septembre a decembre foi trocado, fazendo com que setembro e novembro ficassem com 30 dias, enquanto outubro e dezembro passavam a ter 31.
Ordens do Papa
O calendário usado hoje em quase todo o mundo é uma leve modificação do calendário juliano e foi introduzido por ordem do papa Gregório XIII, em 1582, sendo por isso chamado de calendário gregoriano. Mas por que mexeram na fórmula que parecia ter dado tão certo? Porque descobriu-se que o ciclo solar não tinha 365 dias e 6 horas redondas e sim 365 dias, 5 horas, 49 minutos e 16 segundos.
Essa diferença que parece pequena vai se acumulando e após um período de aproximadamente 134 anos passa a ser de um dia. Considerando isso e fazendo alguns cálculos, o médico e astrônomo italiano Aloisius Lilius se deu conta de que a defasagem chegava a três dias a cada 402 anos (134 X 3 = 402). Por isso, propôs que o resultado fosse arredondado para três dias a cada 400 anos. Logo, a cada 400 anos, deveria retirar três dias do calendário.
Mas quem iria fazer isso? Não seria necessário criar uma maneira mais fácil de lembrar da necessidade de encolher o calendário? Aloisius achou que sim e sugeriu que, no caso dos anos de virada de século, somente aqueles que fossem múltiplos de 400 seriam anos bissextos. E se tudo isso estava sendo discutido em 1582, pela nova regra de Aloisius, o próximo ano bissexto de virada de século seria 1600 (porque 400 X 4 = 1600, logo: 1600 é múltiplo de 400). Depois seria 2000 (porque 400 X 5 = 2000, logo: 2000 é múltiplo de 400).
Mas, mesmo depois de tanta matemática, Aloisius continuava com problemas. Como o calendário juliano considerava o ano com 365 dias e 6 horas, na época em que se descobriu que o ano era mais curto em alguns minutos e segundos, o calendário pelo qual as pessoas se orientavam estava 10 dias adiantado. O médico e astrônomo então sugeriu que fossem eliminados 10 dias do calendário daquele ano. Assim fez o papa Gregório XIII: suprimiu os dias 5 a 14 de outubro. Em outras palavras, o dia seguinte a 4 de outubro foi o dia 15 de outubro.
Essa atitude do papa deu o que falar! Muita gente ficou sem saber como comemorar o aniversário e muitas pessoas foram para as ruas protestar. Em alguns lugares, como na Inglaterra e em suas colônias, o calendário gregoriano só foi adotado em 1752, o que obrigou a eliminação de 11 dias do ano. Na Rússia, 13 dias foram eliminados porque lá o novo calendário só passou a vigorar em 1918.
De novo!
Quando tudo parecia ter entrado em sintonia, surgiu uma surpresa. Os avanços da ciência levaram os astrônomos do nosso tempo a concluir que Aloisius errou a extensão do ano em 30 segundos. Hoje, sabe-se que o ano tem 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46,04 segundos.
Com base nessa novidade, os calendaristas refizeram os cálculos e descobriram que é possível ajustar o calendário, se considerarmos que só serão bissextos os anos de virada de século que divididos por nove levem a um resto igual a 200 ou 600. Por esta regra, o ano 2000 será bissexto (porque na conta 2000 : 9, o resto é 200), bem como o ano 2900, 3300 etc. E assim vamos contando nosso tempo. Pelo menos, enquanto o ano tiver 365 dias, 5 horas e 48 minutos, 46 segundos e 4 centésimos.
Um nó no descobrimento do Brasil
Qualquer brasileiro perguntado sobre a data do descobrimento do Brasil responderia sem titubear: 22 de abril de 1500. Mas vamos pensar. Quando Pedro Álvares Cabral chegou aqui vigorava o calendário juliano, que considerava o ano com 365 dias e 6 horas. Em 1582, os cálculos dos cientistas mostraram que o ano era alguns minutos e segundos mais curto do que se pensava.
Na época, os astrônomos e matemáticos chegaram à conclusão de que essa aparente pequena diferença fazia com que o calendário estivesse atrasado em 10 dias. Quando o papa Gregório XIII ordenou que o calendário fosse modificado, esse atraso foi descontado, passando-se direto do dia 4 de outubro de 1582 ao dia 15 de outubro de 1582.
Assim, se esse atraso no calendário fosse descontado na época do descobrimento, e se a supressão de 10 dias fosse feita naquele ano, os portugueses não teriam aportado em nosso país no dia 22 de abril e sim em 2 de maio de 1500.
Texto de Romeu C. Rocha-Filho e Mário Tolentino (Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos) retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 12, Número 94, Agosto de 1999.