Na antiguidade grega, a religião e a mitologia eram constituídas por um casal supremo - Zeus e Hera - e outros doze deuses, que eram seus pares complementares. Havia duas maneiras de entendê-los:
A primeira, mais simples e concreta, era a chamada visão de Homero, que encontramos na Ilíada e na Odisseia. Nessa visão, os deuses só se diferenciavam dos homens por serem mais poderosos e imortais. Tinham, além da forma humana, paixões, rancores, ciúmes, preferências, enfim, todos os atributos humanos.
A segunda maneira de entendê-los é encontrada em Hesíodo, em suas obras A Teogonia e Os Trabalhos e os Dias. Nelas é mostrada uma concepção metafísica e abstrata dos deuses, algo próximo das religiões modernas. Eles não eram apenas poderosos e imortais, mas potências e manifestações cósmicas em busca de uma ordem que superasse o caos. Todos eram formas da criação e buscavam consolidá-la. Essa visão, mais profunda e exata, era a dos sacerdotes e iniciados. Ontem, como hoje, sempre existiram duas maneiras de ensinar a religião: uma, mais simples, destinada ao povo, e outra, mais profunda, destinada aos iniciados.
Infelizmente, apenas chegou até nós a visão mais simples, e esta, mesmo assim, foi banalizada. Na verdade, ambas estavam corretas. Os antigos sabiam que, por exemplo, seria muito difícil para uma criança ou um camponês entender que Zeus e Hera eram "as potências complementares da criação, sendo ele a força que se expande infinitamente, e que tudo o que toca se multiplica, enquanto ela é a potência fecunda, que busca consolidar tudo que é criado - como aliás convém ao arquétipo feminino, cujo atributo fundamental não é apenas dar a vida, mas dela cuidar para fortalecê-la".
Em linguagem mais simples (de Homero), isso era explicado de maneira muito mais fácil de entender: Zeus era a paixão que não se continha, e por isso era infiel a sua esposa, tendo inúmeras relações extraconjugais, das quais nasceram muitos deuses, semideuses e heróis. Já Hera morria de ciúmes dele e estava sempre tentando aniquilar as amantes (ou os amantes) de seu esposo e os filhos nascidos dessas uniões. No entanto, os que sobreviviam às suas perseguições ou eram aceitos por ela (é o caso de Hércules, a quem Hera deu sua filha por esposa quando ele se tornou imortal), ou eram metamorfoseados em forças cósmicas, ou ainda consagrados (é o caso de Dioniso ou Baco).
Dessa maneira, os antigos conseguiam ensinar às crianças e às pessoas mais simples a religião de um modo mais humano e apaixonante, usando uma linguagem mais acessível, que todos entendiam. A criação é constituída pelo amor e pela paixão, e nem sempre é possível contê-la ou mesmo prevê-la. Talvez seja isso o que tanto nos encanta na mitologia. Os deuses eram cheios de paixões que resultavam num constante renovar, sendo um exemplo a ser seguido pelos homens. A única possibilidade aqui na Terra é a criação, e ela não é possível sem paixão, pois está voltada à multiplicação da vida, e não à sua destruição. Na verdade, se tivessem tido a oportunidade de conhecer como ensinamos a religião na modernidade, os deuses iriam achar-se muito chatos e sem graça. Além disso, ficariam horrorizados se soubessem o quanto já matamos em nome de Deus. Vejam-se a Inquisição, as Cruzadas, a caça às bruxas, a Guerra Santa, etc. E não devemos confundir a perseguição de Roma aos cristãos com a tradição mitológica grega, uma vez que a religião romana era muito diferente da grega, embora alguns deuses tenham sido por ela adotados, mas exercendo funções totalmente diferentes e modificados para o uso do imperialismo guerreiro e conquistador próprio de Roma.
Vale notar ainda que, na antiga religião grega, encontramos deuses e deusas, ou seja, tanto o arquétipo masculino como o feminino são divinizados, algo que nunca mais aconteceu nas religiões modernas, sendo o feminino sumariamente suprimido delas. O mesmo se pode dizer com relação aos Messias, pois são todos masculinos (Moisés, Cristo, Maomé), e às funções eclesiásticas (papa, bispo, cardeal, padre, aiatolá, imã, rabino), que também foram vetadas às mulheres, sendo-lhes permitido no máximo retirar-se para um convento e... Ficar quietas! Myrcea Eliade, em sua obra História das Crenças e Religiões, notou muito apropriadamente que o monoteísmo das religiões modernas só foi possível com a supressão de um dos arquétipos, no caso o feminino, e que isso, longe de representar um avanço ou progresso em relação às chamadas religiões "pagãs", foi um retrocesso. O arquétipo feminino - e as mulheres, claro - foi simplesmente retirado das funções religiosas, sociais e políticas nas culturas ocidentais. O fato é que até hoje, com todos os avanços dos últimos cinquenta anos, ainda estamos muito longe de nos aproximar do papel de relevância do arquétipo feminino (e da mulher) que existiu na antiguidade, especialmente antes do século V a.C. - a partir daí deu-se a grande guinada para sua supressão. Só podemos lamentar que muitos estudos sérios sobre esse assunto caiam no erro de analisar o papel da mulher somente a partir dessa época e tirem suas conclusões (equivocadas) para toda a antiguidade helênica e egípcia. Para um estudo correto e profundo desse assunto, recomendo a obra fundamental de Werner Jaeger, Paideia: a formação do homem grego, da Editora Martins Fontes.
A classificação e a descrição das funções dos deuses a seguir foram baseadas e inspiradas nas obras de Homero, A Ilíada e A Odisseia; de Hesíodo, A Teogonia e os Dias, O Certame e O Escudo; e na obra capital de Apolodoro de Atenas, Biblioteca. Infelizmente, com exceção de A Ilíada, A Odisseia, A Teogonia e parte de Os Trabalhos e os Dias, não há traduções das outras obras para a nossa Língua, a não ser em Portugal.
Os antigos reuniam os deuses de acordo com suas funções, que apresentamos sinteticamente a seguir:
* Zeus: deus da criação e da expansão.
* Hera: deusa da fecundidade, da consolidação e do fortalecimento.
Zeus e Hera são o casal supremo, infinitamente mais poderosos que os demais, e são pares complementares. Homero lembra-nos de que a distância que os separa dos outros deuses é a mesma que separa os homens dos deuses.
* Apolo: deus da profecia, da luz, da beleza, da música, da poesia e das artes.
* Ártemis: deusa que honra e protege o sagrado na natureza. Os dois são irmãos gêmeos e pares complementares também.
* Atena: deusa da sabedoria, da justiça e da equidade.
* Afrodite: deusa do amor e da entrega (também conhecida pelos romanos como Vênus).
* Ares: deus do espírito de luta e dos combates. Foi desvalorizado em sua forma guerreira pelos gregos e supervalorizado nessa mesma forma pelos romanos, que eram um povo belicoso e conquistador. Era por eles conhecido como Marte. As divindades que têm o nome começado com a letra A (isto não é casual) eram chamados de "deuses da transcendência", porque cada um, a seu modo, ensinava aos homens as artes para se elevar espitualmente.
* Héfestos: deus das ferramentas e dos instrumentos.
* Héstia: deusa protetora do sagrado do lar e do interior de cada um. Era representada por um fogo sempre acesso no interior das casas e que não podia nunca se extinguir.
* Hermes: deus condutor das almas após a morte no caminho para voltarem a viver (todas as religiões antigas acreditavam na regeneração das almas em outro corpo - séculos mais tarde, o Espiritismo inspirou-se nessa ideia). Era, além disso, o condutor dos homens na Terra. As divindades que têm nome iniciado com a letra H (na verdade, é o E com som longo em grego - eta) eram chamadas de "divindades da permanência", porque ensinavam aos homens as artes para se viver na Terra. A deusa Hera as presidia. Também nesse caso, não é casual que os nomes comecem com a letra H.
* Deméter: deusa da fertilidade e das artes para se voltar a viver. Simboliza as estações do ano e a regeneração da natureza.
* Dionísio: deus do vinho, do êxtase e da alegria. É o deus que ensina a conviver com o outro, por excelência. No período romano, era conhecido como Baco e seus atributos foram completamente degenerados, sendo associados com orgias e bacanais, típicos da decadente Roma, em seus costumes e sua ética. Esses eram chamados de "deuses da imanência", porque ensinavam aos homens como adentrar o mistério do interior da Terra, em si mesmos e nos outros. Presidiam os famosos "Mistérios de Eleusias" (da libertação) e também não é casual que seus nomes comecem com a letra D - o conhecido delta em grego. Essas questões serão abordadas nos tópicos dedicados a cada um desses deuses.
* Posseidon: deus dos mares e das tarefas inadiáveis para se viver. Irmão mais velho de Zeus, era conhecido como "o deus das origens", porque tudo veio dos mares para os antigos e lá nada pode ser adiado ou postergado.
* Hades ou Plutão: também era irmão de Zeus. É o deus dos mortos e vingador dos falsos juramentos. Era conhecido como "deus do abissal", juntamente com sua esposa Perséfone, também chamada de "a juíza infernal". Juntos presidiam o julgamento dos mortos para avaliar se poderiam voltar a viver. O nome desse deus em grego não começa com a letra H, mas com A.
Texto de Viktor D. Salis retirado do livro Mitologia Viva - Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.