15 agosto 2026

Busquemos a Luz (121)

 "Toda escritura inspirada por Deus é proveitosa... Para instrução na justiça." - Paulo. (II TIMÓTEO, 3:16.)


Procura a ideia pelo valor que lhe é próprio.

Quando a moeda comum te vem às mãos, não indagas de onde proveio.

Ignoras que procede de casa de um homem justo ou injusto, se esteve, antes, a serviço de um santo ou de um malfeitor.

Conhecendo-lhe a importância, sabes conservá-la ou utilizá-la, com senso prático, porque aprendeste a perceber nela o seio da autoridade que te orienta a luta humana.

O dinheiro

Zeus, o maior dos deuses - A energia criadora

Significava o impulso divino que está sempre em ação. Tudo o que toca se multiplica e se expande. É o conúbio entre o temporal e o eterno, pois renova a vida infinitamente. É a potência que se expande em criações que consolidam a vida. Luta eternamente para vencer o caos e a destruição.

Seus símbolos são a águia, a linha reta e o ouro. A água representa a busca pela Criação. A linha reta é a impossibilidade de ter seu rumo desviado; a palavra "caráter" daí se originou, estando associada com retidão, mas não com rigidez. Já o ouro é o símbolo do eterno e da verdade, pois não sofre a ação com o tempo. Cultuar Zeus

08 agosto 2026

A Madre de Ouro

 Poço da Roda. Arredores de Bonfim.


Bonfim é uma das cidades mais antigas de Goiás. Como suas irmãs mais velhas, Meia Ponte e Vila Boa de Goiás, guarda ainda, sob muitos aspectos, o cunho dos núcleos coloniais do século XVIII, com a sua inconfundível arquitetura reinol, estilo barroco, de feição pesada, simplória e, ao mesmo tempo bonachona, hospitaleira - aspecto esse que se vai aos poucos apagando dos burgos e vilórios progressistas mais próximos da linha férrea.

Ficou-lhe

Assim Será (120)

 "Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus." - Jesus. (LUCAS, 12:21)


Guardarás inúmeros títulos de posse sobre as utilidades terrestres, mas se não fores senhor de tua própria alma, todo o teu patrimônio não passará de simples introdução à loucura.

Multiplicará, em torno de teus pés, maravilhosos jardins da alegria juvenil, entretanto, se não adquirires o conhecimento superior para o roteiro de amanhã, a tua mocidade será a véspera ruidosa da verdadeira velhice.

Cobrirás com medalhas honoríficas o teu peito, aumentando a série dos admiradores que te aplaudem, mas, se a luz da reta consciência não te banhar o coração, assemelhar-te-ás a um cofre de trevas, enfeitado por fora e vazio por dentro.

Amontoarás riquezas e apetrechos de conforto para a tua casa terrena, imprimindo-lhe perfil dominante e revestindo-a de esplendores artísticos, contudo, se não possuíres na intimidade do lar a harmonia que sustenta a felicidade de viver, o teu domicílio será tão-somente um mausoléu adornado.

Empilharás moedas de ouro e prata, à sombra das quais falarás com autoridade e influência aos ouvidos do próximo, todavia, se os teus haveres não se dilatarem, em forma de socorro e trabalho, estímulo e educação, em favor dos semelhantes, serás apenas um viajor descuidado, no rumo de pavorosas desilusões.

Crescerás horizontalmente, conquistarás o poder e a fama, reverenciar-te-ão a presença física na Terra, mas, se não trouxeres contigo os valores do bem, ombrearás com os infelizes, em marcha imprevidente para as ruínas do desencanto.

Assim será "todo aquele que ajunta tesouros para sí, sem ser rico para com Deus".


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

01 agosto 2026

A Repartição dos Pães

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. 

Eia Agora (119)

 "Eia agora, vós que dizeis... Amanhã..." - (TIAGO, 4:13.)


Agora é o momento decisivo para fazer o bem.

Amanhã, provavelmente...

O amigo terá desaparecido.

A dificuldade estará maior.

A moléstia terá ficado mais grave.

A ferida, possivelmente, mostrar-se-á mais crescida de extensão.

O problema talvez surja mais complicado.

A oportunidade de ajudar não se fará repetida.

A boa semente plantada agora é uma garantia da produção valiosa no porvir.

A palavra útil, pronunciada sem detença, será sempre uma luz no quadro em que vives.

Se desejas ser desculpado de alguma falta, aproxima-te agora daqueles a quem feriste e revela o teu propósito de reajustamento.

Se te propões auxiliar o companheiro, ajuda-o  sem demora para que a bênção de teu concurso fraterno responda às necessidades de teu irmão, com a desejável eficiência.

Não durmas sobre a possibilidade de fazer o melhor.

Não te mantenhas na expectativa inoperante, quando podes contribuir em favor da alegria e da paz.

A dádiva tardia tem gosto de fel.

"Eia agora" - diz-nos o Evangelho, na palavra apostólica.

Adiar o bem que podemos realizar é desaproveitar o tempo e furtar do Senhor.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

28 julho 2026

Quem eram os deuses do Olimpo?

Na antiguidade grega, a religião e a mitologia eram constituídas por um casal supremo - Zeus e Hera - e outros doze deuses, que eram seus pares complementares. Havia duas maneiras de entendê-los:

A primeira, mais simples e concreta, era a chamada visão de Homero, que encontramos na Ilíada e na Odisseia. Nessa visão, os deuses só se diferenciavam dos homens por serem mais poderosos e imortais. Tinham, além da forma humana, paixões, rancores, ciúmes, preferências, enfim, todos os atributos humanos.

27 julho 2026

O dia que Urano entrou em Escorpião

Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela ou parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, ou mesmo Júpiter saindo de Aquário. Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estreias e sessões da meia-noite e gente se encontrando e motos correndo - difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento, lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma coisa nas sobras da galinha do meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali, ouvindo baixinho um velho Pink Floyd para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar de vez com aquele antro (eles não gostavam da palavra, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros e almofadas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa horrível) - renunciado ao sábado, pois, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume da vitrola e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, pois se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então, olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha, parado no meio da sala. E não disseram nada.

O que tinha saído da janela fez como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele pedacinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava querendo mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto uma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e os violinos ficava imaginado um guerreiro montado num cavalo branco, correndo contra o vento, tipo Távola Redonda assim, a silhueta dum castelo sobre uma colina ao fundo - e que o guerreiro era medieval, o castelo também, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros e um crepúsculo, talvez um quarto crescente, quem sabe um lago, quando a moça que estava com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que tinha erguido para a testa quando o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:

"Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura - loucura assumida -, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura".                                         (Ernest Becker: A Negação da Morte)

Quando ela parou de ler

25 julho 2026

O Saci

Por aquele tempo O Saci andava desesperado. Tinham-lhe surrupiado a cabaça de mandinga. O moleque, extremamente irritado, vagueava pelos fundões de Goiás.

Pai Zé, saindo um dia à cata dumas raízes de mandioca castela que sinhá dona lhe pedira, topou com ele nos grotões da roça.

O preto, abandonando a enxada e de queixo caído, olhava pasmado o negrinho que lhe fazia caretas e trejeitos, a saltar no seu único pé, e fungando terrivelmente.

- Vancê quer alguma coisa? perguntou pai Zé admirado, vendo agora o moleque rodopiar como o pião do ioiô.

- Olha negro, respondeu o Saci, vancê gosta de Sá Quirina, aquela mulata de sustância; pois eu lhe dou a mandinga com que ela há de ficar enrabichada, se vancê me arranjá a cabaça que perdi.

Pai Zé, louco de contentamento, prometeu. A cabaça, ele sabia-o, fora amoitada pelo Benedito Galego, um caboclo sacudido que, cansado das malandrices do moleque, a tinha roubado das grimpas do jatobá grande, lá nas roças do ribeirão.

Pai Zé fora um dos que o tinham aconselhado, para obstar que o Saci, como era o seu costume quando incomodado, tornasse a levantar as árvores da derrubada que o Benedito fizera nessas terras.

Arrastando as alpercatas de couro cru pelas terras de Sô Feitor, pai Zé capengava satisfeito e inchado com a promessa do Saci.

Desde Santo Antônio que ele rondava Sá Quirina, procurando sempre ocasião de lhe mostrar que, apesar dos seus sessenta e cinco anos e meio, um olho de menos e falta de dente na boca, não era negro pra se desprezar assim por um canto não - que sustância ainda ele tinha no peito para aguentar com a mulata e mais a trouxa de Sá Quitéria, sua mulher, se ele tinha!

Mas a cafuza era dura da gente convencer. Toda a eloquência que ele penosamente engendrara em seu bestunto de africano e que lhe tinha despejado pela festa de S. Pedro, não teve outro resultado senão a fuga da roxa quando o encontrava.

- Mas agora, gaguejava o preto, eu lhe mostro, que o Saci é mesmo bicho bom pra deitar um feitiço.

Com a rica dádiva dum quartilho de cachaça e meia mão do seu fumo pixuá, pai Zé alcançou do Galego a cabaça desejada.

Sá Quitéria, porém, não via com bons olhos o afã de seu velho pela posse da milonga. E ela também sabia deitar e tirar quebranto, se sabia! - Perguntassem à bruxa da Nhá Benta, que desde vésperas de Reis estava entrevada na trempe do jirau; e não era o zarolho e cambaio do seu homem que a enganasse.

Por isso, a velha ciumenta estava de tocaia, desejosa por saber do seu intento. Lá ia pai Zé, arrastando novamente as alpercatas de couro cru pelas terras de Sô Feitor, à entrevista do Saci. Atrás dele, sorrateira, lá ia também Sá Quitéria.

O negro chegou aos grotões e chamou pelo Saci, que de pronto apareceu.

- Toma lá a sua cabaça de mandinga, seu Saci, e dá-me cá o feitiço pra Sá Quirina.

O moleque desbarretou-se, tirou uma pitada grossa da cumbuca, fungou, e, entregando o resto a pai Zé, disse:

- Dá-lhe a cheirar esta pitada, que a crioula é sua escrava.

E desapareceu, fungando, pulando no seu único pé, nos grotões e covoadas da roça.

- Ah, negro velho dos infernos, que conheci a tua tramoia, gritou Sá Quitéria furiosa, saindo do bamburral e segurando-o pelo papo.

E, na luta do casal, lá se foi o feitiço que o pobre pai Zé adquirira com o sacrifício dum quartilho de cachaça e a meia mão do seu bom fumo pixuá.

Desde então, nunca mais houve paz no casal, que se devorava às pancadas; e pai Zé arrenegava sem descanso o maldito que introduzira a discórdia no seu rancho.

- Porque, Ioiô, concluiu o preto velho que me contava esta história - a todo aquele que viu e falou com o Saci, acontece sempre uma desgraça.


Conto de Hugo de Carvalho Ramos publicado no livro Tropas e Boiadas, Rio de Janeiro, Revista dos Tribunais, 1917; retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos anos Dez aos Sessenta, organização de Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, Goiânia. CEGRAF/UFG, 1993.

Em Nossas Tarefas (118)

 "... não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes." - Paulo. (ROMANOS, 12:16.)


"Não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes" - recomenda o apóstolo, sensatamente.

Muitos aprendizes do Evangelho almejam as grandes realizações de um dia para outro...

A coroa da santidade...

O poder da cura...

A glória do conhecimento superior...

As edificações de grande alcance...

Entretanto, aspirar só por si não basta à realização.

Tudo, nos círculos da Natureza, obedece ao espírito de sequência.

A árvore vitoriosa na colheita passou pela condição do arbusto frágil.

A catarata que move poderosas turbinas é um conjunto de fios d'água no nascedouro.

Imponente é o projeto para a construção de uma casa nobre, no entanto, é indispensável o serviço da picareta e da pá, do tijolo e da pedra, para que a arte e o reconforto se exprimam.

Abracemos os deveres humildes com devoção ao nosso ideal de progresso e triunfo.

Por mais árdua e mais simples a nossa obrigação, atendemo-la com amor.

A palavra de Paulo é sábia e justa, porque, escalando com firmeza as faixas interiores do monte com facilidade lhe conquistamos o cimo e, aceitando de boa-vontade as tarefas pequeninas, as grandes tarefas virão espontaneamente ao nosso encontro.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.