28 março 2026

O clone será um "clone"?

Muito bem, então por meio da clonagem podemos criar uma cópia idêntica de qualquer pessoa! Essa visão simplista da clonagem vem suscitando ideias fantasiosas de ressurreição de pessoas "interessantes" (para alguns, Mozart; para outros, Hitler), ou mesmo de um filho querido já morto. E a reversão da morte é de fato uma coisa irresistível.

Mas o clone será exatamente um clone? Ele será uma cópia idêntica do clonado - de sua matriz? Terá o mesmo físico, o mesmo tipo de cabelo, cor de olhos, temperamento, inteligência, gostos, aptidão? Sim, não - não sei. Recapitulando: o clone possui exatamente os mesmos genes que sua matiz. Se o genes determinam todas as nossas características físicas e, quem sabe, até as psíquicas, o clone será, de fato, idêntico à matriz, certo? Errado.

Um Pouco de Fermento (108)

"Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda?" - Paulo. (I CORÍNTIOS, 5:6.)


Ninguém vive só.

Nossa alma é sempre núcleo de influência para os demais.

Nossos atos possuem linguagem positiva.

Achamo-nos magneticamente associados uns aos outros.

Ações e reações caracterizam-nos a marcha.

É preciso saber, portanto, que espécie de forças projetamos naqueles que nos cercam.

Nossa conduta é um livro aberto.

Quantos de nossos gestos insignificantes alcançam o próximo, gerando inesperadas resoluções!

Quantas frases, aparentemente inexpressivas arrojadas de nossa boca, estabelecem grandes acontecimentos!

Cada dia, emitimos sugestões para o bem ou para o mal...

Dirigentes arrastam dirigidos.

Servos inspiram administradores.

Qual é o caminho que a nossa atitude está indicando?

Um pouco de fermento leveda a massa toda.

Não dispomos de recursos para analisar a extensão de nossa influência, mas podemos examinar-lhe a qualidade essencial.

Acautela-te, pois, com o alimento invisível que forneces às vidas que te rodeiam.

Desdobra-se-nos o destino em correntes de fluxo e refluxo. As forças que hoje se exteriorizam de nossa atividade voltarão ao centro de nossa atividade, amanhã.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

22 março 2026

Brincando com o Folclore

Pense na palavra folclore. O quem vem à sua cabeça? Saci-pererê, mula-sem-cabeça, bumba-meu-boi... Parece algo ligado à vida nas fazendas e cidades do interior, distante do dia-a-dia das grandes cidades, não é? Ou então, faz lembrar aquele livro empoeirado que fica lá no alto da estante e que ninguém lê e só se recorda dele uma vez no ano. Mas será que é isso mesmo?

A palavra vem do inglês: folk quer dizer povo e lore, saber. Logo, folclore é o saber do povo, tudo aquilo que o povo sabe, inventa, aprende, ensina. A maneira de viver, o jeito de entender o mundo, o modo de se expressar por meio das palavras e da arte - tudo isso é folclore, ou melhor, cultura popular. Portanto, está muito mais perto de nossas vidas do que podemos imaginar.

Como o Brasil é muito grande, em cada região do país o povo brasileiro se expressa de uma maneira diferente, apresentando brincadeiras, danças, cantigas e vocabulário próprios ou típicos, como se costuma dizer.

Por falar em típicos, os pratos típicos, isto é, a culinária também é parte do folclore! Quando dizemos vatapá, logo nos lembramos da Bahia; a feijoada de feijão-preto nos faz pensar no Rio de Janeiro; o churrasco, no Rio Grande do Sul; o pão de queijo, em Minas Gerais.

Muitas vezes, um mesmo prato ou fruta vai mudando de nome à medida que vamos percorrendo as regiões do Brasil: a tangerina do Rio de Janeiro se chama mexerica em São Paulo, e, em Pernambuco, laranja-cravo; a fruta-de-conde do Rio de Janeiro é pinha em Pernambuco e ata no Maranhão. O prato feito de arroz com carne-seca é conhecido como Maria Isabel no Piauí e arroz-de-carreteiro no Rio Grande do Sul. A canjica carioca corresponde ao mungunzá pernambucano. Parece confuso? E ainda nem falamos dos mitos e das lendas, das cantigas de roda e brincadeiras infantis...


Brincadeira do Centro-Oeste

Essa é uma brincadeira com bola muito comum entre as meninas de Goiás: uma de cada vez joga a bola contra a parede. Enquanto a bola vai e volta para suas mãos, a menina vai dizendo vários comandos que ela tem de fazer sem deixar a bola cair no chão! Depois, é a vez de outra menina jogar. Quem conseguir não deixar a bola cair, ganha o jogo! É assim:

Ordem

Primeiro

Sem sair do lugar

Sem rir

Sem falar

Com uma mão (pega a bola com uma das mãos)

Com a outra (pega a bola com a outra mão)

Com um pé (fica num pé só)

Com o outro (fica no outro pé)

Com uma palma (bate palma antes de pegar a bola)

Com duas palmas (bate duas palmas)

Com uma pirueta (gira uma das mãos em torno da outra) 

Com uma vira-volta (gira em torno de si mesma antes de pegar a bola de volta)

Esta versão de Goiás está no livro Folclore Brasileiro - Goiás, de Regina Lacerda (uma publicação da FUNARTE, 1977). Na versão carioca, há uma pequena variação no final da brincadeira. Depois da pirueta, as meninas falam assim:

Coração (cruza as mãos no peito)

Descanso (põe uma das mãos em cada coxa)

Perdão (ajoelha)


Xô, Araruna

(uma cantiga popular da Paraíba)

Xô, xô, xô, Araruna!

Xô, xô, xô, Araruna!

Xô, xô, xô, Araruna!

Deixa o arroz semear


Tenho um pássaro preto, Araruna

Que veio lá do Pará

Tenho um pássaro preto, Araruna

Que veio lá do Pará


Xô, xô, xô, Araruna!

Xô, xô, xô, Araruna!

Xô, xô, xô, Araruna!

Deixa o arroz semear


Pense no folclore como um grande quebra-cabeças em que cada peça é fundamental. Se faltar uma dança, uma lenda ou uma recita culinária, o quebra-cabeças ficará incompleto. Essas são as peças que formam esse jogo chamado cultura brasileira. É o que faz o Brasil diferente de outros países. Quanto mais se brinca com esse jogo, mais se conhece a riqueza do nosso país.

Que tal se você pesquisasse entre seus amigos e parentes para saber quem é de outra região do país? Pergunte, então, sobre comidas típicas, danças, cantigas e lendas características desse local. Depois, compare com as comidas, danças, cantigas e lendas típicas de sua região. Veja as semelhanças e diferenças.


Vamos todos cirandar

A ciranda é uma dança típica da região das praias pernambucanas. Os integrantes da ciranda dançam de mãos dadas formando uma grande roda e movimentando-se em círculo. Os braços acompanham o ritmo da ciranda que é marcado com os pés. O mestre cirandeiro (ou cirandeira) vai entoando versos de improviso enquanto os outros prosseguem repetindo o refrão.

A ilha de Itamaracá é conhecida por suas cirandas que acontecem durante o ano todo! Sua cirandeira mais famosa se chama Lia. Existe uma ciranda que tem um refrão que fala sobre isso:

"Essa ciranda

quem me deu foi Lia

que mora na Ilha 

de Itamaracá."


Mas quem afinal inventou essas danças, as cantigas de roda e as receitas culinárias? Experimente perguntar em casa sobre uma receita que você goste e procure saber quem ensinou a fazê-la. Se puder, tente falar com quem ensinou e procure saber onde aprendeu... E assim por diante. Você vai ver que não tem fim! O mesmo acontecerá com as cantigas de roda, as brincadeiras e os jogos infantis, as lendas e histórias de fada. São ensinamentos que vão passando de pai para filho, de geração a geração, e, nessa passagem do tempo, vão se modificando, adquirindo novos contornos, mas mantendo a estrutura original. É assim que o folclore se preserva e se mantém vivo.


Doce delícia

Aqui vai uma receita saborosa e fácil de fazer. Com poucos ingredientes é possível preparar um delicioso bolo de cenoura! Esta receita faz parte da culinária do Mato Grosso do Sul, mas ficou popular também no Rio de Janeiro.

INGREDIENTES:

2 cenouras médias

3 ovos inteiros

meia xícara de óleo

1 xícara e meia de açúcar

2 xícaras de farinha de trigo

1 colher de sopa de fermento

1 pitada de sal


MODO DE FAZER:

Descasque e pique as cenouras. Bata no liquidificador com os ovos e a óleo. Coloque esta massa numa tigela e acrescente o açúcar, a farinha e o fermento peneirados. Misture tudo sem esquecer a pitada de sal. Unte uma forma com margarina e passe farinha de trigo. Despeje a massa na forma e leve ao forno pré-aquecido. Quando o cheiro do bolo perfumar a casa, enchendo a nossa boca de água, é sinal de que está pronto! Depois de esfriar, retire da forma e... Bom apetite!


A cultura de um povo é um bem precioso que deve ser cuidado e cultivado. Tire a poeira da palavra folclore e brinque com as possibilidades que ela oferece. Pode ser muito divertido!


Texto de Edith Lacerda retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 12, Número 94, Agosto de 1999.

Renovemo-nos dia a dia (107)

 "...Transformai-vos pela renovação de vossa mente, para que proveis qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." - Paulo. (ROMANOS, 12:2.)


Não adianta a transformação aparente da nossa personalidade na feição exterior.

Mais títulos, mais recursos financeiros, mais possibilidades de conforto e maiores considerações sociais podem ser simples agravo de responsabilidade.

Renovemo-nos por dentro.

É preciso avançar no conhecimento superior, ainda mesmo que a marcha nos custe suor e lágrimas.

Aceitar os problemas do mundo e superá-los, à força de nosso trabalho e de nossa serenidade, é a fórmula justa de aquisição do discernimento.

Dor e sacrifício, aflição e amargura, são processos de sublimação que o Mundo Maior nos oferece, a fim de que a nossa visão espiritual seja acrescentada.

Facilidades materiais costumam estagnar-nos a mente, quando não sabemos vencer os perigos fascinantes das vantagens terrestres.

Renovemos nossa alma, dia a dia, estudando as lições dos vanguardeiros do progresso e vivendo a nossa existência sob a inspiração do serviço incessante.

Apliquemo-nos à construção da vida equilibrada, onde estivermos, mas não nos esqueçamos de que somente pela execução de nossos deveres, na concretização do bem, alcançaremos a compreensão da vida, e, com ela, o conhecimento da "perfeita vontade de Deus", a nosso respeito.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

21 março 2026

O mito da criação da noite.

Antigamente não havia noite. Era sempre dia. O Sol brilhava esquentando a Terra. A Lua e as estrelas eram como o Sol. Tudo era luz e claridade na aldeia e na floresta. Os homens caçavam sem cessar e as mulheres trabalhavam sem descanso, pois era sempre  dia, noite não havia.

O Sol fazia seu percurso até o poente para então retornar pelo caminho inverso de volta ao nascente. Mauá controlava o Sol, a Lua e as estrelas, não permitindo que ninguém deles se aproximasse.

Certa vez, um homem quis saber como o Sol funcionava. Esperou que Mauá saísse para caçar e aproximou-se do Sol. Ao tocá-lo, o Sol quebrou, o mesmo acontecendo com a Lua e as estrelas. E a noite surgiu engolindo tudo. Os homens que caçavam na mata ficaram perdidos na imensidão do escuro. As mulheres mal conseguiam encontrar suas redes dentro da maloca. Crianças e idosos lamentavam-se do fundo da noite sem luz.

Mauá voltou para consertar o Sol. Ao ver o homem que o havia quebrado, Mauá lançou-se sobre ele e o atirou longe. Quando caiu, o homem transformou-se no macaquinho-mão-de-ouro, escuro como a noite e com as mãos douradas como o Sol que havia tocado.

Não foi possível consertar o Sol para que funcionasse como antes. O Sol caminhava para o poente mas não conseguia retornar, sumindo no horizonte e deixando a Terra na escuridão. Mauá então fez com que a Lua e as estrelas surgissem na ausência do Sol para iluminar um pouco a noite. E é assim até hoje.


Este é o mito da criação da noite dos índios Waimiri-Atroari, que habitam Amazonas e Roraima, na região norte do Brasil. Mauá, para eles, é o ser criador que transforma os homens em animais e cuida dos elementos da natureza: quando está zangado, sopra a ossada da cabeça de uma onça para fazer o trovão. É o guardião da vida: ao nascer uma criança, Mauá está sempre por perto. Mauá protege, mas também se vinga. É um guerreiro como o povo Waimiri-Atroari. O macaquinho-mão-de-ouro que aparece no mito é respeitado pelos índios por acreditarem que ele já foi gente e porque, graças a ele, hoje existe a noite.


Texto de Edith Lacerda (educadora que compartilhou durante quatro anos o cotidiano desse povo atuando como professora, recolheu este mito e escreveu esta adaptação), retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 12, Número 94, Agosto de 1999.

Contando os Dias

Já pensou se cada pessoa tivesse sua própria maneira de contar os dias? O mundo seria uma loucura! Afinal de contas, o dia 20 para você poderia ser o dia 31 para o seu amigo ou o dia 12 para a sua professora ou o dia 10 para... Epa! Se ninguém estivesse no mesmo dia, como seria para marcar uma festa de aniversário ou a data de uma prova? Estar em sintonia com o tempo é tão importante para os compromissos do cotidiano e também para as comemorações que fica impossível imaginar nossas vidas sem o calendário. O texto que você vai ler agora conta a história dessa figura especial quase sempre esquecida na gaveta ou atrás da porta.


Antes que existissem calendários, antes mesmo que fosse estabelecida a duração dos meses e dos anos, o homem já procurava alguma forma de se orientar no tempo. Dois ciclos da natureza, o lunar e o solar, começaram a ser usados há milhares de anos e ainda hoje servem como base para a nossa contagem dos dias.

O primeiro refere-se à  passagem das quatro fases da lua (nova, crescente, cheia e minguante) e dura 29,5306 dias ou seja, 29 dias e 13 horas, aproximadamente. Já o ciclo solar é o período equivalente à passagem das estações do ano (primavera, verão, outono e inverno), que é de 365,2422 dias ou 365 dias completos e cerca de 6 horas.

Tanto o ciclo lunar quanto o solar podem servir para estabelecer calendários. Mas essa história do número de dias do ano não ser inteiro já deu muita confusão.


O calendário que veio de Roma

Diz a lenda que o calendário romano foi criado por Rômulo, o primeiro rei de Roma, no ano 735 antes de Cristo. Ele se baseava no ciclo lunar e tinha 304 dias divididos em 10 meses - seis com 30 dias e quatro com 31. Naquela época, a semana tinha oito dias e só passaria a ter sete no ano 321 depois de Cristo por ordem de Constantino, outro imperador romano.

Mas vamos voltar a Rômulo. Foi ele quem nomeou os primeiros quatro meses do calendário romano de martius (em homenagem ao deus da guerra), aprilis (provavelmente se referindo à criação de porcos), maius (para uma deusa italiana local) e junius (para a rainha dos deuses latinos). Os meses seguintes foram simplesmente contados em latim: quintilis, sextilis, septembre, ocotobre, novembre e decembre.

Como esse calendário não estava alinhado com as estações do ano, que têm duração aproximada de 91 dias cada uma, por volta do ano 700 antes de Cristo, o rei Numa, que subiu ao trono depois de Rômulo, decidiu criar mais dois meses: janus (em homenagem à deusa romana do nascer e do pôr-do-Sol) e februarius (que significava o mês das purificações). Embora as estações estejam ligadas ao ciclo solar, o novo calendário romano continuou seguindo o ciclo lunar, mas passou a ter 354 dias, resultado de seis meses de 30 dias e seis meses de 29 dias.

Durante o império de Júlio César, por volta do ano 46 antes de Cristo, o calendário sofreu mais mudanças. Os senadores romanos mudaram o nome do mês quintilius para julius, como forma de homenagear o imperador. Mais tarde, Augusto, que ocupou o trono depois de Júlio César, também foi homenageado e o mês sextilius passou a se chamar augustus. Mas não foi só isso.


Um ano de confusões

Ainda no império de Júlio César, o calendário passou a se orientar pelo ciclo solar, com 365 dias e 6 horas. O chamado calendário juliano foi uma tentativa de entrar em sintonia com as estações. Para ajustar a questão das horas, foi criada uma rotina em que por três meses seguidos o calendário deveria ter 365 dias. No quarto ano, ele passaria a ter 366 dias, porque depois de quatro anos as 6 horas que sobravam do ciclo solar somavam 24 horas, isto é, mais um dia. Estava assim estabelecido o ano bissexto.

O calendário juliano trouxe ainda mais novidades. Além dos meses alternados de 31 e 30 dias (exceto fevereiro que tinha 29 dias ou 30 em anos bissextos), passou-se a considerar janeiro, e não março, como primeiro mês do ano. A implantação de todas essas alterações fez com que o ano 46 antes de Cristo fosse bastante confuso. Até que tudo fosse ajustado, o ano teve três meses a mais, num total de 445 dias. Por conta de todas essa bagunça, o próprio imperador Júlio César o batizou de "ultimus annus confusiones". O povo o chamava simplesmente de "annus confusionis".

Anos mais tarde, quando o mês sextilius passou a ser chamado de augustus, ficou decidido que o mês em homenagem ao imperador Augusto não poderia ter menos dias que o mês em homenagem a Júlio César. Assim, um dia de februarius foi transferido para augustus, por isso hoje o mês de fevereiro tem 28 dias (ou 29 em anos bissextos). Para evitar que ocorressem três meses de 31 dias em sequência, o total de dias dos meses de septembre a decembre foi trocado, fazendo com que setembro e novembro ficassem com 30 dias, enquanto outubro e dezembro passavam a ter 31.


Ordens do Papa

O calendário usado hoje em quase todo o mundo é uma leve modificação do calendário juliano e foi introduzido por ordem do papa Gregório XIII, em 1582, sendo por isso chamado de calendário gregoriano. Mas por que mexeram na fórmula que parecia ter dado tão certo? Porque descobriu-se que o ciclo solar não tinha 365 dias e 6 horas redondas e sim 365 dias, 5 horas, 49 minutos e 16 segundos.

Essa diferença que parece pequena vai se acumulando e após um período de aproximadamente 134 anos passa a ser de um dia. Considerando isso e fazendo alguns cálculos, o médico e astrônomo italiano Aloisius Lilius se deu conta de que a defasagem chegava a três dias a cada 402 anos (134 X 3 = 402). Por isso, propôs que o resultado fosse arredondado para três dias a cada 400 anos. Logo, a cada 400 anos, deveria retirar três dias do calendário.

Mas quem iria fazer isso? Não seria necessário criar uma maneira mais fácil de lembrar da necessidade de encolher o calendário? Aloisius achou que sim e sugeriu que, no caso dos anos de virada de século, somente aqueles que fossem múltiplos de 400 seriam anos bissextos. E se tudo isso estava sendo discutido em 1582, pela nova regra de Aloisius, o próximo ano bissexto de virada de século seria 1600 (porque 400 X 4 = 1600, logo: 1600 é múltiplo de 400). Depois seria 2000 (porque 400 X 5 = 2000, logo: 2000 é múltiplo de 400).

Mas, mesmo depois de tanta matemática, Aloisius continuava com problemas. Como o calendário juliano considerava o ano com 365 dias e 6 horas, na época em que se descobriu que o ano era mais curto em alguns minutos e segundos, o calendário pelo qual as pessoas se orientavam estava 10 dias adiantado. O médico e astrônomo então sugeriu que fossem eliminados 10 dias do calendário daquele ano. Assim fez o papa Gregório XIII: suprimiu os dias 5 a 14 de outubro. Em outras palavras, o dia seguinte a 4 de outubro foi o dia 15 de outubro.

Essa atitude do papa deu o que falar! Muita gente ficou sem saber como comemorar o aniversário e muitas pessoas foram para as ruas protestar. Em alguns lugares, como na Inglaterra e em suas colônias, o calendário gregoriano só foi adotado em 1752, o que obrigou a eliminação de 11 dias do ano. Na Rússia, 13 dias foram eliminados porque lá o novo calendário só passou a vigorar em 1918.


De novo!

Quando tudo parecia ter entrado em sintonia, surgiu uma surpresa. Os avanços da ciência levaram os astrônomos do nosso tempo a concluir que Aloisius errou a extensão do ano em 30 segundos. Hoje, sabe-se que o ano tem 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46,04 segundos.

Com base nessa novidade, os calendaristas refizeram os cálculos e descobriram que é possível ajustar o calendário, se considerarmos que só serão bissextos os anos de virada de século que divididos por nove levem a um resto igual a 200 ou 600. Por esta regra, o ano 2000 será bissexto (porque na conta 2000 : 9, o resto é 200), bem como o ano 2900, 3300 etc. E assim vamos contando nosso tempo. Pelo menos, enquanto o ano tiver 365 dias, 5 horas e 48 minutos, 46 segundos e 4 centésimos.


Um nó no descobrimento do Brasil

Qualquer brasileiro perguntado sobre a data do descobrimento do Brasil responderia sem titubear: 22 de abril de 1500. Mas vamos pensar. Quando Pedro Álvares Cabral chegou aqui vigorava o calendário juliano, que considerava o ano com 365 dias e 6 horas. Em 1582, os cálculos dos cientistas mostraram que o ano era alguns minutos e segundos mais curto do que se pensava.

Na época, os astrônomos e matemáticos chegaram à conclusão de que essa aparente pequena diferença fazia com que o calendário estivesse atrasado em 10 dias. Quando o papa Gregório XIII ordenou que o calendário fosse modificado, esse atraso foi descontado, passando-se direto do dia 4 de outubro de 1582 ao dia 15 de outubro de 1582.

Assim, se esse atraso no calendário fosse descontado na época do descobrimento, e se a supressão de 10 dias fosse feita naquele ano, os portugueses não teriam aportado em nosso país no dia 22 de abril e sim em 2 de maio de 1500.


Texto de Romeu C. Rocha-Filho e Mário Tolentino (Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos) retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 12, Número 94, Agosto de 1999.

14 março 2026

Mitologia na história em quadrinhos

Uma das mais famosas histórias em quadrinhos dos anos 50 tinha os irmãos Billy e Mary Batson como principais personagens, ambos dotados de poderes extraordinários concedidos por uma mago egípcio chamado Shazam. Ao pronunciar a palavra Shazam! Billy transformava-se no capitão Marvel. Sua irmã também, embora com menos poderes.

A palavra Shazam é formada das iniciais de nomes históricos. Salomão, representando a sabedoria; Hércules, a força; Atlas, o vigor; Zeus, o poder; Aquiles, a coragem; e Mercúrio, a velocidade. Para uso de Mary Marvel, Shazam vinha das iniciais de deusas gregas e seus respectivos atributos: Selene, a graça; Hipólita, a força; Ariadne, a destreza; Zéfiro, a velocidade - não havia deusa iniciada pela letra Z...; Aurora, a beleza; e Minerva, a sabedoria.

Os dois irmãos lutavam contra o terrível doutor Silvana, versão daquele tempo para o Coringa, que hoje azucrina a dupla Batman e Robin. Sem sucesso, é claro, pois aí acabaria a ilusão dos antigos leitores e atuais telespectadores, convencidos de que o bem sempre vence o mal, lição que a vida nem sempre confirma...


Texto de Márcio Cotrim retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 8, Editora Segmento, São Paulo, Junho de 2006.

Sirvamos ao Bem (106)

 "A luz resplandece nas trevas..." - (JOÃO, 1:5.)


Não te aflijas porque estejas aparentemente só no serviço do bem.

Jesus era sozinho, antes de reunir os companheiros para o serviço apostólico. Sozinho, à frente do mundo vasto, à maneira de um lavrador, sem instrumentos de trabalho, diante da selva imensa...

Nem por isso o Cristianismo deixou de surgir, por templo vivo do amor, ainda hoje em construção na Terra, para a felicidade humana.

Jesus, porém, não obstante conhecer a força da verdade que trazia consigo, não se prevaleceu da sua superioridade para humilhar ou ferir.

Acima de todas as preocupações, buscou invariavelmente o bem, através de todas as situações e em todas as criaturas.

Não perdeu tempo em reprovações descabidas.

Não se confiou a polêmicas inúteis.

Instituiu o reinado salvador de que se fizera mensageiro, servindo e amando, ajudando sempre e alicerçando cada ensinamento com a sua própria exemplificação.

Continuemos, pois, em nossa marcha regenerativa para a frente, ainda mesmo quando nos sintamos a sós.

Sirvamos ao bem, acima de tudo, entretanto, evitemos discussões e agitações em que o mal possa expandir-se.

Foge a sombra ao fulgor da luz.

Não nos esqueçamos de que milhares de quilômetros de treva, no seio da noite, não conseguem apagar alguns milímetros da chama brilhante de uma vela, contudo, basta um leve sopro de vento para extingui-la.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

08 março 2026

O misterioso mundo por trás da frase feita

ENCANTADO COM SUA EXPRESSIVIDADE, DIFICILMENTE QUEM USA UMA LOCUÇÃO PROCURA AS RAZÕES QUE MOTIVARAM SUA EXISTÊNCIA


Elas afloram constantemente na fala das pessoas sem que seus usuários se incomodem em descobrir-lhes as origens: contentam-se estes com a expressividade e com a força comunicativa que elas imprimem à expressão de suas mensagens. O emprego delas é hoje mais raro do que antigamente, e o fato se explica porque a modernidade, diminuídos o gosto e o contato da leitura, recebe menos a influência do texto escrito sobre o texto oral. Daí também se explica o emprego das locuções ser mais frequente entre os idosos.

A toda hora se ouve: dizer cobras e lagartos de alguém, ele é cheio de nove horas, isso são favas contadas, achar-se em camisa de onze varas. Dificilmente quem as usa para e procura a razão ou a origem delas; contenta-se com a força expressiva que empresta a seus dizeres.

E, realmente, é tarefa complicada investigar as razões que as motivaram. Na busca da etimologia - ou origem de uma palavra -, conta o investigador, quase sempre, com o testemunho direto ou indireto do idioma de onde procedeu o termo. Para a busca de explicação de uma dessas locuções, abre-se diante do pesquisador um largo panorama de possíveis soluções.

As locuções se originam em associações psicológicas, em fatos históricos, em alusões literárias ou mitológicas, em comparações com todos os reinos da natureza, em etnologia e em muitos mais recantos do saber, da criatividade e da imaginação humana revelados pelo folclore.

Por tudo isso, o campo do estudo dessas locuções, expressões, frases feitas, sentenças proverbiais - Paremiologia ou Fraseologia - requer profunda cultura, como demonstraram os estudos dos primeiros investigadores portugueses e brasileiros, entre os quais merecem lugar especial Adolfo Coelho, Leite Vasconcelos, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, João Ribeiro, Alberto Faria, Lindolfo Gomes, Câmara Cascudo.

Dizer cobras e lagartos de alguém talvez deva sua origem a cobra, variante fonética de copla, que servia de denominação para vários tipos de estrofes de poesia. Assim, dizer de alguém copla satírica era o mesmo que falar mal de alguém; cobra por copla teria dado a expressão dizer de alguém cobra. Esquecida a primitiva significação de cobra como variante de copla, entendida agora como o conhecido réptil, logo se associou à locução a ideia de palavras "venenosas" contra alguém, próprias de uma língua viperina (de serpente).

Abria-se o caminho para a entrada de lagarto na locução (dizer de alguém cobras e lagartos), cumprindo a tendência de construção de frases populares com arredondamento binário do tipo a ferro e fogo, são e salvo, aos trancos e barrancos, de seca a meca, a trouxe-mouxe e tantíssimos assemelhados.

Outros estudiosos, como Leite de Vasconcelos, não acreditam numa explicação pela história literária, mas no campo do folclore. A vivência do povo atribui a tais animais a propriedade do veneno. Daí a explicar a locução como expressão máxima da maledicência. Comecemos pela alusão da maldade ao enganar Eva, no paraíso. Como lagarto é companheiro constante nas malvadezas da serpente, isso explica a sua presença na expressão dizer de alguém cobras e lagartos.

Estão aí duas soluções plausíveis para estabelecer a origem da frase feita.

Se nossa curiosidade recai na locução ele é cheio de nove horas, a lição de Câmara Cascudo nos parece perfeitamente válida quando a relaciona à época, da Idade Média até o século 19, em que era de bom-tom entre as famílias o recolher-se à intimidade do lar. Era a hora do término das visitas educadas, do procurar a casa para o descanso do dia ou da folgança noturna. Respeitar as nove horas era sinal de boa educação e da boa convivência entre cidadãos. Desse conceito facilmente se passa à ideia da pessoa de extremada educação, chegando às raias de pessoa sestrosa, seguidora e ditadora de regras infalíveis e rígidas lições de comportamento a segundos e terceiros: um autêntico cheio de nove horas.


Texto de Evanildo Bechara retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 6, Editora Segmento, São Paulo, Abril de 2006.

Por que as aranhas fazem teias?

Elas estão por toda parte. Nos cantos da parede, em algum móvel velho, embaixo da cama, no jardim... Seus fios formam desenhos que encantam nossos olhos. Procure atentamente e você deve encontrar uma teia! Que elas são feitas por aranhas todos já sabem. Mas por que as aranhas fazem teias?

A resposta está na barriga da aranha. Bem na ponta no abdome dela, existe um par de órgãos que produzem fios de seda, que formam a teia. Assim, ela solta o fio e vai tecendo, com a ajuda de algumas de suas oito pernas, um emaranhado que pode ter muitos formatos. Cada espécie faz uma teia diferente.

As teias têm várias utilidades para as aranhas. Caçar, proteger seus ovos ou mesmo fazer abrigos. As aranhas que produzem teias para caçar são as mais observadas. Você já deve ter visto algum bicho grudado em uma teia. É que ela é coberta por uma substância grudenta. Assim, o inseto que voa desavisado pode esbarrar em uma delas e ficar preso em seus fios. Se isso acontecer, já era! Ele certamente será devorado, pois todas as aranhas são predadoras, nenhuma é vegetariana!

As aranhas utilizam suas teias até para armazenar os alimentos. Se algum bicho fica grudado e ela está com fome, não o dispensa. Guarda o petisco bem enroladinho em um casulo de seda para comer mais tarde.

Existem, ainda, as aranhas que usam sua seda para escapar de animais que adoram comê-las, como pássaros, sapos e, até mesmo, alguns insetos. Para se livrar do perigo, entre outras artimanhas, algumas espécies fazem uma teia em forma de funil, que tem uma dupla função: a ponta maior serve para caçar e a ponta menor para se esconder; assim, ela tem cozinha e quarto na mesma teia.

Até mesmo os filhotes das aranhas usam seu fio. Algumas espécies, principalmente as que vivem em áreas mais abertas, como nos cerrados do centro do Brasil, utilizam suas teias de maneira espetacular. Assim que deixam os ovos, fazem um fiozinho e prendem a ponta em um pedacinho de folha ou, até mesmo, em outro fio. Aí, as pequenas aranhas soltam uma ponta e seguram a outra. Como a seda é muito leve, o vento pode levá-las para longe, como se estivessem viajando num balão. É assim que essas aranhas encontram novos alimentos  para comer e outros lugares para fazer suas teias!


Texto de Felipe Bandoni de Oliveira (Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo), retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 144, Março de 2004.