18 fevereiro 2026

Escolha o Seu Sonho

Devíamos poder preparar os nossos sonhos como os artistas, as suas composições. Com a matéria sutil da noite e da nossa alma, devíamos poder construir essas pequenas obras-primas incomunicáveis, que, ainda menos que a rosa, duram apenas o instante em que vão sendo sonhadas, e logo se apagam sem outro vestígio que a nossa memória.

Como quem resolve uma viagem, devíamos poder escolher essas excursões sem veículos nem companhia - por mares, grutas, neves, montanhas, e até pelos astros, onde moram desde sempre heróis e deuses de todas as mitologias, e os fabulosos animais do Zodíaco.

Devíamos, à vontade, passear pelas margens do Paraíba, lá onde suas espumas crespas correm com o luar por entre as pedras, ao mesmo tempo cantando e chorando. - Ou habitar uma tarde prateada de Florença, e ir sorrindo para cada estátua dos palácios e das ruas, como quem saúda muitas famílias de mármore... - Ou contemplar nos Açores hortênsias da altura de uma casa, lagos de duas cores, e cestos de vime nascendo entre fontes, com águas frias de um lado e, do outro, quentes... - Ou chegar a Ouro Preto e continuar a ouvir aquela menina que estuda piano há duzentos anos, hesitante e invisível - enquanto o cavalo branco escolhe, de olhos baixos, o trevo de quatro folhas que vai comer...

Quantos lugares, meu Deus, para essas excursões! Lugares recordados ou apenas imaginados. Campos orientais atravessados por nuvens de pavões. Ruas amarelas de pó, amarelas de sol, onde os camelos de perfil de gôndola estacionam, com seus carros. Avenidas cor-de-rosa, por onde cavalinhos emplumados, de rosa na testa e colar ao pescoço, conduzem leves e elegantes coches policromos...

... E lugares inventados, feitos ao nosso gosto: jardins no meio do mar; pianos brancos que tocam sozinhos; livros que se desarmam, transformados em música...

Oh! Os sonhos do "Poronominare"!... Lembram-se! Sonhos dos nossos índios: rios que vão subindo por cima das ilhas: ... meninos transparentes, que deixam ver a luz do sol do outro lado do corpo... gente com cabeça de pássaro... flechas voando atrás de sombras velozes... moças que se transformam em guaribas... canoas... serras... bandos de beija-flores e borboletas que trazem mel para a criança que tem fome e a levantam em suas asas...

Devíamos poder sonhar com as criaturas que nunca vimos e gostaríamos de ter visto: Alexandre o Grande; São João Batista; o Rei David, a cantar; o Príncipe Gáutama...

E sonhar com os que amamos e conhecemos, e estão perto ou longe, vivos ou mortos... Sonhar com eles no seu melhor momento, quando foram mais merecedores de amor imortal...

Ah!... - (que gostaria você de sonhar esta noite?)


Crônica de Cecília Meireles retirada do livro Janela Mágica, 11ª edição, Coleção Veredas, Editora Moderna, São Paulo, 1991.

Para entender outras Línguas

 CONHECIMENTO DO IDIOMA PODE SER USADO PARA PERCEBER AS SEMELHANÇAS COM OUTRAS TRADIÇÕES DERIVADAS DO LATIM


A afirmação de que conhecer o Português ajuda a entender outras Línguas não é nova. Mas o que ela significa, de fato, poucas vezes é explicado. Longe de servir a uma pregação ufanista que o Português seja uma Língua riquíssima e atribuir-lhe características que pretensamente só se encontram nesse idioma, é preciso lembrar que o idioma formou-se e ainda se forma num contexto comum a muitas outras Línguas.

Portugal é um país europeu e cristão e só isso basta para que muitas características de outras Línguas europeias de tradição cristã sejam similares. Nesse sentido, o Basco, o Húngaro, o Finlandês e o Estoniano possuem similaridades, por participarem desse mesmo ambiente, apesar de serem Línguas totalmente distintas dos grupos majoritários europeus (românico, germânico, eslavo, etc.).

Por outro lado, os Bálcãs e o Leste Europeu formam um subconjunto em que muitas similaridades ali encontradas não se veem na Europa Ocidental, cuja Língua de escrita durante a Idade Média sempre foi o Latim. Da mesma forma, há semelhanças entre os países muçulmanos (da Malásia ao Marrocos), por causa da influência do Árabe, ou no Extremo Oriente, por causa do Chinês.

Além do Latim, o Francês foi uma Língua que divulgou formações lexicais nos séculos 18 e 19, bem como o alemão foi responsável pelos neologismos dos países nórdicos, o Húngaro e as Línguas Eslavas no mesmo período. A partir do século 20, foi o Inglês que se tornou responsável por isso.

Assim, a ideia de "trancar à chave", deixando algumas pessoas de fora, derivou uma ideia mais abstrata de "excluir" já no Grego antigo, com o verbo ekkleío (de ek- "para fora" e a raiz de kleís "chave"). Por ter grande força metafórica, o latim imitou essa forma para ex-cludere (de ex- "para fora" e claudere "fechar à chave"), por sua vez imitado pelo alemão aus-schlieben, pelo Norueguês ute-lukke, pelo Húngaro ki-zár, pelo Russo iz-kljuèit', todos com a mesma montagem. Essa transmissão cultural da metáfora, apesar de formas tão distintas, chama-se decalque e é um empréstimo indireto: assim, quando se diz hot dog, usa-se um empréstimo do Inglês, mas em cachorro-quente, trata-se de um decalque.


Transmissão sonora

Outra forma de transmissão cultural pelas palavras se dá pela herança e aqui convém fazer uma distinção. Há as heranças legítimas, de pai para filho: a palavra se torna difícil de reconhecer, mas com a ajuda de certas transformações sonoras, pode-se verificar a real afiliação da palavra com a Língua antecessora.

Assim, "testa" vem do Latim testam e o mesmo se pode dizer de tête do Francês. Na passagem do Latim para as duas Línguas cai o m final, mas o a final permanece no Português, enquanto no Francês se torna e. O mesmo se pode dizer do s latino, conservado no Português e perdido no Francês. Daí se percebe que "festa" é fête em Francês, e que "estrela" é étoile: o e medial se tornou oi, como em "pêra" e poire.

Essas transformações, metaplasmos, nem sempre explicam tudo: se o fizessem, afirmar-se-ia indiretamente que as Línguas sofrem modificações mecânicas previsíveis, o que nem sempre ocorre. Ambas, "estrela" e étoile vêm do latim stellam: em ambas, acrescentou-se um e- inicial (o que não ocorre no Italiano stella nem no Romeno stea) e o Português acrescentou um r que não aparece em outras Línguas (mas que não aparece em composto como constelação ou estelar). Esse r, contudo não é uma transformação previsível, mas algo que surgiu por analogia, isto é, por semelhança com outras formas semanticamente aparentadas: possivelmente com astro. Assim os neogramáticos do século 19 explicavam as transformações sonoras: pelos metaplasmos ou pela analogia.


Intermediários

Mas há um segundo tipo de herança, que é um empréstimo disfarçado: nem toda palavra de origem latina no Português foi herdada de pai para filho. Sempre houve pessoas ocultas, que conheciam bem o latim e ressuscitavam palavras abandonadas pela fala cotidiana. 

Infelizmente, no caso do Português, palavras desse tipo são quase sempre empréstimos. É raro uma palavra transcultural ligada a alguma área do conhecimento ter origem no Português (curiosa exceção é "antropônimo"): quase tudo vem do Francês ou do Alemão via Francês (e, atualmente, do Inglês). Assim, "fanatismo" aparentemente vem de fanático + -ismo, mas por que não é fanaticismo (como no Inglês fanaticism)? Ora, na verdade, quem cunhou a palavra foram os franceses: fanatisme em 1688; no Português ela só aparece em 1752.

Conhecer o étimo do Português facilita a compreensão de alguns problemas das Línguas estrangeiras como sua grafia: por difficile em francês se escreve com ff (como o Inglês difficult)? A palavras é Latina: difficilis e os ff (ambos pronunciados antigamente) provém de assimilação de sf na composição dis + facilis > disfacilis > difficilis (a transformação do a em i é fenômeno chamado apofonia que ocorre em Latim quando um prefixo se soma a um radical). Daí se entende por que outros empréstimos cultos têm a mesma característica: diffamer "difamar", différent "diferente", diffusion " difusão".

Por outro lado lado, dynamique "dinâmico" se escreve com y e com um n só porque não tem nada a ver com esse caso: a palavra remonta ao grego dynamikós "poderoso" (derivada de dy + namis "força"), foi ressuscitada por algum francês culto do século 17 e importada pelo Português com a grafia dynamico, só no século 19. O problema é que a grafia francesa e a inglesa são etimológicas, a do Português não é mais: saber etimologia para entender suas idiossincrasias gráficas é, portanto, imprescindível.


Texto de Mário Eduardo Viaro retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Editora Segmento, São Paulo, Fevereiro de 2006.

16 fevereiro 2026

Quando a Língua comemora

 FORMAS COTIDIANAS DE FELICITAÇÃO EXPRESSAM ANTIGAS REFLEXÕES SOBRE O MODO DE ENCARAR A VIDA


Uma das metáforas mais frequentes nos meios culturais é "resgatar". Fala-se em resgatar não só reféns ou vítimas de enchentes, mas também as raízes culturais, a autoestima, etc. Modismos à parte, parece-nos oportuno esse uso do "resgatar" quando se descreve algo que ocorre no filosofar. Pois a tarefa de filosofar é, em boa medida, um resgatar.

Pelo menos essa é a posição de tantos filósofos que, de Platão a Heidegger, voltam-se para a linguagem comum, procurando recuperar as grandes experiências humanas que acabaram por nela desembocar. Pois essas experiências, vívidas  intuições que o homem tem sobre si mesmo e o mundo, brilham por um momento na consciência e depois vão se desvanecendo, desaparecem. Ficam invisíveis, como que escondidas num depósito: são "raptadas" pela linguagem (e não só por ela), a linguagem como: essa que falamos e ouvimos todos os dias.

Assim, frequentemente, as palavras têm um potencial expressivo muito maior do que supomos à primeira vista, tão familiar e automático é o uso que delas fazemos. Daí a atenção do filósofo para os modos de dizer, os contextos, as sutilezas da linguagem comum, em sua Língua e em outras: como caminho para recuperar as grandes experiências que se condensaram em linguagem.

Daí também a atenção para a etimologia, que frequentemente nos põe em contato com a experiência humana que se condensou em linguagem. Como é bem sabido, é nessa linha, a de buscar "o que dizem as palavras na experiência originária de pensamento", como diz Martin Heidegger, em Ensaios e Conferências (Editora Vozes), levando ao extremo (com as devidas ressalvas) as análises etimológicas - que se situam as reflexões do filósofo alemão, que chega a afirmar: "o acesso à essência de uma coisa nos advém da linguagem".

Podemos, como Heidegger, "pensar a atitude vigorosa daquilo que as palavras, como palavras, nomeiam de forma concentrada", ao verificar o potencial expressivo das formas de convivência cotidiana, como "parabéns".


A hora do "parabéns"

Quando transcendemos o âmbito protocolar das formalidades e da praxe, os votos de felicitação: "parabéns!" (e seus irmãos: o Espanhol enhorabuena!, o Inglês congratulations!, o italiano auguri!) vemos que eles trazem em si diferentes e complementares indicações sobre o mistério do ser e do coração humano. O que significam essas formulações? O que realmente dizemos com "parabéns" ou "congratulations"? Essas expressões trazem um significado, por assim dizer, "invisível a olho nu".

Comecemos pela fórmula Castelhana: Enhorabuena!, literalmente "em boa hora". Indica que um certo caminho (os anos de estudo que desembocaram numa formatura, árduo trabalho de montar uma empresa que se inaugura, etc.) chega, nesta hora (em que se dão as felicitações, a seu termo: está é que é a hora boa, enhorabuena! Precisamente o fato de ser a hora da conclusão é que a torna uma boa hora. A sabedoria dos antigos fala da "hora de cada um", de horas boas e más. Mas a hora boa, a hora melhor é a da conclusão, a da consumação, a do bom termo do caminho, a hora do fim, que é melhor do que a do começo: "Melior est finis quan principium" (Ecl, 7,8).

A formulação inglesa, também presente no alemão e outras Línguas, congratulations, expressa a alegria compartilhada pelo bem do outro, com quem nos con-gratulamos, isto é, nos co-alegramos. Essa comunhão é sugerida também pela forma depoente dos verbos latinos gratulor e congratulor. A forma depoente indica que a ação descrita no verbo não é ativa nem passiva: exercida pelo sujeito, repercute nele mesmo. Ou seja, no caso, que a alegria que externamos ao felicitar tal pessoa é também, a título próprio, muito nossa.

O árabe mabruk indica o caráter de bênção daquele dom pelo qual felicitamos alguém. O italiano auguri, auguri tanti! anuncia (ou enseja) que este bem celebrado é só prenúncio, prefiguração, augúrio de outros ainda maiores que estão por vir.

Com a encantadora forma "parabéns" expressamos precisamente isto: que o bem conquistado, a meta atingida, seja usada "para bens". A aglutinação da preposição "para" com o substantivo "bem" é confirmada, por exemplo, por Antônio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário Etimológico. Em nossa herança cultural, do cristianismo medieval, o mal não tem existência própria, por si: ele é antes uma distorção do bem. E, como se sabe, qualquer bem obtido pode ser usado "para bens" ou "para males", pode contribuir para a autorrealização ou para autodestruição. Pensemos nos casos de um amigo que ganha a medalha de ouro, ou se elege deputado, ou tira a carta de motorista, ou obtém o diploma de advogado... É evidente que essas conquistas - em si boas - podem também ser para males. Por isso, o dom fundamental da vida é celebrado com voto de parabéns...


Tradução do "Parabéns a Você" demorou cinco minutos

Não mais do que cinco minutos foi o tempo que Bertha Celeste Homem de Melo levou para fazer a versão brasileira de Happy Birthday em 1940. Bertha morreu em agosto de 1999, aos 97 anos, vítima de infecção pulmonar, em Jacareí, no Vale do Paraíba (SP). A professora morava na cidade havia 40 anos, mas foi enterrada em Pindamonhagaba, onde nasceu em 21 de março de 1902. Ela criou Parabéns a Você, cantada até então apenas em Inglês, para disputar o concurso de quadrinhas promovido pelo Programa do Almirante, da Rádio Tupi do Rio de Janeiro, para escolher a melhor tradução da trilha sonora mais famosa dos aniversários brasileiros. (Luiz Costa Pereira Júnior)

O peso dos "pêsames"

"Carregava uma tristeza...", diz o antigo samba de Paulinho da Viola: a tristeza é - evidentemente - um peso, os famosos pesares...! E, para carregar o peso da dor, da tristeza, nada melhor - ensina Santo Tomás - do que a ajuda dos amigos: "Porque a tristeza é como um fardo pesado que se torna mais leve para carregar quando compartilhado por muitos: daí que a presença dos amigos seja tão apreciada nos momentos de dor."

Compreende-se, assim, imediatamente, que a expressão de condolências ("doer-se com") seja pêsames, literalmente: pesa-me ("eu te ajudo a carregar o peso desta tua tristeza"). O étimo é confirmado por Antônio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário Etimológico (Nova Fronteira), segundo quem "pêsame" vem de "peso", resultado da ação que a gravidade exerce num corpo, daí "pesa-me".


Texto de Luiz Jean Lauand retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Editora Segmento, São Paulo, Fevereiro de 2006.

Como pronunciar o s da palavra "subsídio"?

 Como pronunciar o s da palavra "subsídio"? Com som de C ou Z?

A pronúncia da palavra subsídio é "subcídio". O s mantém seu som original, como em sapo, sábado, sangue. O mesmo som ocorre em uma série de palavras com aspecto semelhante: subsidiário, subsequente, subseção, subserviente, subsinuoso, subsolo, subsentido, nas quais o s que vem depois do prefixo sub- é pronunciado com o valor de si, ci. E isso ocorre também com as palavras "subsistir", "subsistência", cujo sis é pronunciado igualzinho a cis!

"Subsídio" vem do latim subsidiu, "linha de reserva (na ordem de batalha); reserva, tropas de reserva; reforço, socorro. No galego dos séculos 13 e 14 havia sossídio. A dúvida quanto à pronúncia da palavra talvez ocorra porque, na Língua Portuguesa, o s que vem entre duas vogais apresenta o som de z: casa, preciso, ocaso.

Em tese, o fato de o s que vem entre vogais ter o som de z só ocorreria quando as vogais viessem grafadas, ou seja, representadas na palavra escrita pelas suas letras correspondentes. E isso não ocorre com "subsídio", em que só uma vogal, o i, vem depois do s. Não há vogal escrita antes dele.

Mas nem isso podemos garantir, pois há palavras, como "obséquio", por exemplo, em que o s também só tem vogal depois de "se" e é pronunciado como se fosse z. Como nossa ortografia é etimológica (de acordo com a origem das palavras), a ortoépia (o estudo da pronúncia das palavras) traz alguns sons do latim. Já na palavra "observar", o s volta a manter seu som.


Texto sem autoria retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Editora Segmento, São Paulo, Fevereiro de 2006.

14 fevereiro 2026

Esperar e Alcançar (103)

"E assim, esperando com paciência, alcançou a promessa." - Paulo. (HEBREUS, 6:15.)


A esperança de atingir a paz divina, com felicidade inalterável, vibra em todas as criaturas.

O anseio dos patriarcas da antiguidade é análogo ao dos homens modernos.

O lar coroado de bênçãos.

O dever bem cumprido.

A consciência edificada.

O ideal superior convenientemente atendido.

O trabalho vitorioso.

A colheita feliz.

As aspirações da alma são sempre as mesmas em toda parte.

Contudo, esperar significa persistir sem cansaço e alcançar expressa triunfar definitivamente.

Entre o objetivo e a meta, faz-se imperativo o esforço constante e inadiável.

Esperança não é inação.

E paciência traduz obstinação pacífica na obra que nos propomos realizar.

Se pretendes materializar os teus propósitos com o Cristo, guarda a fórmula da paciência como a única porta aberta para a vitória.

Há sofrimento em teus sonhos torturados? Incompreensão de muitos em derredor de teus desejos? A ingratidão e a dor te visitam o espírito?

Não chores perdendo os minutos, nem maldigas a dificuldade.

Aguarda as surpresas do tempo, agindo sem precipitação.

Se cada noite é nova sombra, cada dia é nova luz.

Lembra-te de que nem todas as águas se acham no mesmo nível e nem todas as árvores são iguais no tamanho, no crescimento ou na espécie.

Recorda as palavras do apóstolo dos gentios.

Esperando com paciência, alcançaremos a promessa.

Não te esqueças de que o êxito seguro não é de quem o assalta, mas sim daquele que sabe agir, perseverar e esperar por ele.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

08 fevereiro 2026

Palavras que fazem carnaval

                   CONTROVÉRSIA SOBRE AS RAÍZES DA FESTA LEVOU                                                               À CONFUSÃO SOBRE AS ORIGENS DO TERMO  


A alegria coletiva, folia organizada, caricatura da seriedade dominante. No rótulo carnaval, cabe mais de uma farra. É um tipo de festa, mas não só. É um tipo muito específico de alegria. E algo mais. Não só uma libertação de hábitos temporária. Nem exclusividade brasileira.

Fazer um carnaval em torno de algo é promover estardalhaço, exagerar a dose, contagiar-se por um rompante de alegria. Já pular o carnaval é participar de uma farra com prazo de validade, desfiles e blocos, poucos dias antes da quarta-feira de cinzas.

Em O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro (Ediouro), Felipe Ferreira acredita que a confusão entre os dois significados (festa e estado de espírito) causa muita discussão em torno das origens do termo. Há pesquisadores, aponta o autor, que consideram os dois sentidos a mesma coisa - e, por isso, a festa remontaria a milênios, ao Egito, à Roma antiga. Até as comemorações de colheitas anteriores à Era Cristã seriam carnavais.

Assim, a presença, nas festas e procissões pagãs, de charretes em forma de navios gerou o mito de que a palavra viria de carrus navalis (carro em forma de navio). O fato é que, aos bispos dos primeiros séculos católicos, pouco importavam as distinções entre festas pagãs nos mais diversos países e meses. Até o século 18, todas recebiam o estigma de comemorações demoníacas.

Teria sido a Igreja que, para melhor estigmatizar o pagamento, consolidou a noção de carnaval como festa de exageros, caricaturas e ritos de inversão. A história do termo "carnaval" é alegórica. Em 1604, o papa Gregório I decretou que os fiéis deveriam abandonar a rotina para, por 40 dias, dedicarem-se à comunhão com o espírito. A quaresma era a imitação de Jesus, que por 40 dias viveu entre o jejum e as tentações.

Em 1091, o papa Urbano II convocou o Sínodo de Benevento, que definiu a data oficial para a quaresma, o primeiro dia batizado de Quarta-feira de Cinzas (dado o hábito de marcar a testa com uma cruz feita de cinzas, por penitência). O dia inicia as privações de prazeres, a proibição de comer carne e abdicação de bens materiais. Com o tempo, consagrou-se o hábito de antecipar a quaresma com um período extraordinário, com tudo o que era negado aos fiéis - fartura, caricatura da autoridade e das questões do espírito, exagero e farra.


Ritos da Quaresma

Mais que uma festa, lembra Ferreira, o carnaval é uma data. Por isso, não há uma forma de brincar o carnaval, há muitas. Daí uma flutuação em torno da origem do nome. Os últimos dias de fartura antes da quaresma começaram a ser chamados de "adeus à carne" (em italiano carnevale, afirma Ferreira). O período de adeus à carne recebeu vários nomes entre os séculos 12 e 13, período em que tomam forma as diferentes manifestações que derivariam no carnaval de hoje: carnelevarium em 1097, caramentran, carnisprivium ou carnelevare em 1130, carnelevamem em 1195.

O carnaval não se esgota numa palavra. Tampouco numa festa. Mas nas diferentes formas que assumir - um conceito, um estado de espírito, uma indústria (dos desfiles cariocas aos trios de Salvador) - será sinônimo da vitalidade popular de reinventar-se e divertir-se até muito além do próximo carnaval.


Texto sem identificação de autoria; retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Fevereiro de 2006, Editora Segmento, São Paulo.

06 fevereiro 2026

Batatas

Sempre que Dadá tem lição de casa, a família toda tenta ajudar. Dessa vez, ele tinha de fazer uma pesquisa sobre as batatas. Como a batata é um vegetal e todo vegetal é um ser vivo e biólogos estudam seres vivos, ele logo foi pedir ajuda ao irmão mais velho, Guto, que está na Faculdade de Biologia:

- Está bem, Dadá, eu te ajudo - respondeu Guto. - Anota aí: as batatas são o que a gente chama de tubérculos, que são uma espécie de armazém de alimento para as plantas. Mas eu não vou te dar todas as informações, só algumas dicas. Procure a relação das batatas com a Irlanda, as Solanaceae, os incas, a Tia Camila e o Machado de Assis.

Dadá anotou as dicas e perguntou:

- Mas o que a Tia Camila tem a ver com as batatas?

- Ah... Isso você tem de descobrir! - respondeu o Guto, todo misterioso.

O primeiro lugar que Dadá pesquisou foi a enciclopédia que ele tem em casa. Logo, ele achou o que queria:

"Solanaceae é uma família de plantas cujas flores, geralmente roxas, possuem cinco pétalas. As plantas dessa família podem ser encontradas no mundo inteiro; podem ser arbustos, árvores ou moitas baixas. Entre os representantes desta família mais importantes para o homem estão as espécies de batata, tomate, berinjela, pimentão, pimenta, jiló e tabaco. Suas flores vistosas atraem, principalmente, insetos que se alimentam do pólen ou néctar, os frutos são geralmente dispersos por aves." Ele anotou rapidinho todas as informações que achou interessantes e, quando estava indo procurar outras coisas, dona Júlia, que lia um livro na sala, perguntou:

- Dadá, o que você está pesquisando?

- Estou procurando informações sobre a batata. - respondeu Dadá. - Mãe, você conhece um tal de Machado de Assis?

- Conheço, e muito bem! Já li quase todos os livros dele. Ele viveu no começo do século 19 e é um dos maiores escritores brasileiros! Por acaso, eu estou lendo Quincas Borba, um conhecido livro de sua autoria.

- E ele já escreveu um livro sobre as batatas? - perguntou Dadá.

- Não, por quê? - respondeu dona Júlia, estranhando a pergunta.

- O Guto disse que ele tinha algo a ver com elas!

A mãe abriu um sorriso e respondeu:

- Eu já sei o porquê! Acabei de ler essa frase no livro: "Ao vencedor, as batatas!"

- O quê? disse Dadá, com cara de interrogação.

- No livro, Quincas Borba é filósofo muito rico que mora na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. Ele acredita que as pessoas têm de batalhar pela sua sobrevivência e, para exemplificar, sempre conta a história de duas tribos que tinham batatas suficientes para alimentar só uma delas. Elas poderiam reparti-las e morrer as duas de fome ou poderiam disputá-las. A tribo vencedora estaria alimentada o suficiente para mudar para um lugar onde houvesse mais comida; a derrotada morreria de fome. Eu e você podemos não concordar com essa ideia, mas assim pensava o protagonista da história. - explicou a mãe.

- E foi assim que surgiu a expressão "ao vencedor, as batatas?" - perguntou Dadá.

- Sim. - confirmou dona Júlia.

- Ah... Obrigado, mãe! - respondeu Dadá, sem entender muita coisa. No entanto, ele estava feliz por ter resolvido duas dicas do irmão. Dali, foi falar com o pai, que estava na cozinha preparando o jantar.

- E, aí, filhão? Quer uma batata frita? Cuidado que está quente! - ofereceu o seu Antônio.

- Eu estou fazendo uma pesquisa sobre batatas e preciso de ajuda! - respondeu Dadá, com a boca cheia de batatinhas e aliviado por não ter de brigar com ninguém para comê-las.

- E o que você quer saber? Sobre como fritar batatas? Fazer purê? Batatas-palha? - brincou o seu Antônio.

- Não, pai! O que as batatas têm a ver com a Irlanda?

- Essa pergunta é batata! - piscou o pai, querendo dizer que a pergunta era muito fácil.

- Os irlandeses comem muita!

- Só isso? A gente também come um monte de batata! - comentou Dadá.

- Espera um pouco, deixe-me completar. No final do século 18, os irlandeses eram um povo muito, mas muito pobre, que praticamente só tinha batata como alimento. Acontece que, na época, uma terrível doença acabou matando quase todas as batatas da Irlanda. Era um fungo preto que deixava as plantas fraquinhas, fraquinhas e as batatas, miudinhas. - explicou o pai.

- Se não tinha mais batata, o que os irlandeses comiam, então?

- Aí que está: não comiam. Foi um tempo de muita fome para os irlandeses. Muitos morreram, outros tiveram de abandonar as suas casas e procurar um novo lugar para viver. Foi por causa da praga das batatas que milhões de irlandeses se mudaram para os Estados Unidos.

- E os incas, o que eles têm a ver com as batatas? - perguntou Dadá, achando que já ia terminar o dever de casa.

- Que batata-quente essa! - exclamou seu Antônio, espantado com a pergunta complicada. - Eu não sei a resposta dessa daí.

Como só faltava resolver duas dicas, Dadá foi para o computador procurar informações na internet. Em um endereço na rede, ele achou a relação entre os incas e a batata: "Apesar de ser um alimento bastante popular na Europa, as batatas são originárias das Américas. Os espanhóis, quando encontraram os incas, conheceram muitas plantas novas, como o milho e a batata."

Agora, só faltava descobrir o que as batatas tinham a ver com a sua Tia Camila. Ele pensou, pensou e não descobriu nada. Foi perguntar para o pai, que agora estava lavando a salada; foi perguntar para a mãe, que continuava a ler o seu livro. E ninguém sabia a resposta. Desesperado, até ligou para a sua tia, que não sabia nada de novo sobre batatas. Já desistindo, ele foi falar de novo com o irmão, que estava estudando:

- Guto! - gritou o pequeno pesquisador.

- Fala, Dadá, como é que está o seu trabalho?

- Eu já escrevi um monte de coisas! Veja só: "As batatas são produzidas por plantas parentes das espécies que produzem tomate, berinjela, jiló e pimentão. Mas elas são tubérculos e não frutas. Os tubérculos são caules ou raízes que servem de depósito de alimento para as plantas. Os incas, quando descobriram isso, passaram a pegar as batatas das plantas para comer, mas daí vieram os espanhóis, que pegaram as batatas dos incas e as levaram para a Europa. Assim, os europeus começaram a comer um monte de batata. No Brasil, o Machado de Assis viu toda essa briga e criou o Quincas Borba, que dizia: "Ao vencedor, as batatas!" Só que na Irlanda as batatas ficaram doentes e não sobrou mais nenhuma, nem para os vencedores. Muitos irlandeses morreram de fome; muitos dos que sobreviveram acabaram indo para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor e, talvez, de mais batatas. Hoje em dia, tem um monte de batata no mundo e mesmo assim ainda tem muita gente passando fome. Para terminar, apesar de termos parado de brigar pelas batatas, continuamos brigando por muitas outras coisas."

Guto ouvir a redação com orgulho do irmão caçula e elogiou:

- Que legal, Dadá! Ficou muito boa sua redação! Você usou todas as dicas!

- Quase todas... Eu só não descobri o que as batatas têm a ver com Tia Camila! - disse Dadá, meio desanimado.

Guto deu uma risadinha e respondeu:

- É o que a Tia Camila fez ginástica demais quando era menor e agora ela tem as maiores batatas da perna que eu já vi! - e caiu na gargalhada.

- Ah! Guto, vá plantar batatas! - respondeu Dadá, que não achou graça na piadinha do irmão.


Texto de Carlos Takeshi Hotta (Universidade de Cambridge) e Eduardo Bessa (Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo). Retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 146, Maio de 2004.

04 fevereiro 2026

Tá quente ou tá frio?

Rex voltou às aulas mais dedicado do que nunca. Todo dia chega em casa contando uma novidade. Se aprende algo que considera interessante, fala sobre aquilo com uma empolgação de contagiar. Zíper diz que seu amigo dinossauro agora deu para observar tudo o que o cerca como quem acaba de ganhar óculos novos. Diná concorda que é como se ele pudesse enxergar o mundo de uma forma diferente da que enxergava antes. Pois bem, foi assim, pra lá de entusiasmado, que ele encontrou os amigos depois de assistir a certa aula de Física. O que aconteceu foi o seguinte...


A TURMA DO REX EM... TÁ QUENTE OU TÁ FRIO?


A aula que fascinou Rex era sobre temperatura. Aliás, você sabe o que é temperatura? O professor explicou de um jeito simples para a turma. Disse mais ou menos assim: "Todo mundo sabe quando um objeto está mais quente ou mais frio que outro?" Rex realmente ficou intrigado.

Com certeza, ficar medindo a temperatura com a mão é algo perigoso, principalmente se você sai metendo a mão em objetos muito quentes (felizmente, ele não fez isso!). E o dinossauro continuou pensando: "Mas será que é por isso que o método não serve?" Ele achou que não! Devia ser porque, se a gente segurar dois objetos quentes ou dois objetos frios, fica meio difícil saber qual a diferença entre eles. Segundo o  professor, os físicos definem temperatura como sendo o grau de vibração das moléculas.

Xiiiii!!!! Depois dessa, nosso mascote achou melhor sair para se refrescar, porque seus miolos estavam começando a fritar. Por sorte, ele não demorou e chegou a tempo de pegar a explicação desde o começo. O professor estava dizendo que cada partezinha do nosso corpo (e de qualquer objeto) é feita de pequenas partes chamadas moléculas.

Essas moléculas têm um permanente balanço, um movimento que os físicos chamam de agitação, que pode ser menor ou maior.

Assim, chama-se temperatura o quanto essas moléculas estão se movimentando.

"Por exemplo", o professor falou, "um objeto (ou uma pessoa!) com temperatura de 40°C tem suas moléculas com maior agitação que outro com temperatura de 39°C". Ele também disse que a energia que comanda a agitação dessas moléculas tem o nome de energia térmica.

Quando a aula acabou, Rex estava imaginando mil e uma! Embarcou na ideia de que as moléculas deveriam ser como pessoas dançando em uma festa: quanto mais empolgação tivessem, quanto mais se movimentassem, mais a temperatura do ambiente subiria. E partindo dessa ideia de que a temperatura da festa estaria quanto maior fosse a agitação das pessoas, ele fez a relação de que nos objetos mais quentes o balanço ou a agitação das moléculas é maior. Pronto! Isso ele nunca mais iria esquecer!

O dinossauro saiu da escola no maior pique! Era como se quisesse ver a agitação das moléculas nas paredes, no chão, em tudo! Na verdade, ele tinha consciência de que a olho nu não se pode ver  moléculas se agitando, mas, também, estava certo de que a curiosidade da gente pode nos levar a descobertas que nem os melhores óculos nos permitiriam enxergar sem ela.


Como funciona um termômetro?

No dia seguinte, a aula foi sobre o funcionamento de um termômetro. E Rex foi pra casa ainda mais animado. Chegou logo dizendo pra Diná e pro Zíper:

"Vocês sabiam que para saber como funciona o termômetro precisamos entender um pouquinho sobre trocas de calor? Querem apostar como isso não é nada difícil?!"

Ele falou que, como já havia explicado no dia anterior, todo corpo (objetos e pessoas) é feito de moléculas que se agitam, e que uma medida do grau de agitação de suas moléculas - ou seja, o quanto elas se agitam - é a sua temperatura. E, aí, lançou o desafio:

"Mas o que será que acontece quando dois corpos com temperaturas diferentes estão em contato um com o outro?" E antes que os amigos pudessem responder, veio com a sua ideia da festa:

"Imaginem uma festa em que há uma galera muito agitada, muito animada, dançando muito, com muita empolgação, imaginem também outra festa, ao lado dessa, que esteja meio desanimada, com pouca empolgação. Imaginaram? Bom, é claro que a galera do rebuliço não vai deixar aquela turminha desanimada assim e vai tentar animá-la! Logo, as pessoas que tinham maior agitação doam um pouco da sua 'energia' para agitar o outro pessoal! Assim, a turma que antes era quietinha fica mais agitada, e a que antes era a mais esperta fica um pouco mais devagar, mas as duas ficam com a mesma agitação para curtir a festa numa boa! Captaram?"

Zíper e Diná tinham adorado o exemplo e continuaram prestando atenção no amigo que ainda tinha mais para falar.

"O que acontece com os objetos com temperaturas diferentes é algo parecido! O que tem maior temperatura transfere parte da sua energia térmica para o que está com menor temperatura. Aí, a temperatura do corpo mais quente diminui e a do corpo mais frio aumenta. No fim, os dois corpos ficam com temperaturas iguais! A energia térmica em trânsito, isto é, que passa de um para o outro, é chamada de calor, e o momento em que os dois corpos em contato estão com temperaturas iguais se chama equilíbrio térmico."

Diná, que estava um ano à frente no colégio, completou:

"Guarde que quando um objeto é muito maior do que outro, o grande é chamado de 'reservatório térmico'. Nesse caso, quando eles ficam em contato e entram em equilíbrio, a temperatura do maior quase não muda e a temperatura do menor fica igual à do maior."

"Boa, Diná!", disse Rex. E ela emendou: "Mas, continue, quero saber sobre o termômetro".

"Então", disse o dinossauro, "quando colocamos o termômetro em contato com a nossa pele, o termômetro tenta entrar em equilíbrio térmico com o nosso corpo. O nosso corpo não irá diminuir sua temperatura, mesmo doando energia para o termômetro, pois, nesse caso, ele funciona como reservatório térmico. Além disso, o professor disse que temos muitos mecanismos orgânicos que não permitem que a temperatura do nosso corpo mude. Por isso, depois de alguns minutos, o termômetro terá a mesma temperatura que o nosso corpo. O líquido prateado no termômetro é o mercúrio. Ele se expande facilmente com pequenas variações de temperatura. Como o tubo que mostra a temperatura é muito fininho, mesmo um pequeno aumento do volume da bolinha de mercúrio que fica na ponta do termômetro faz ele subir bastante no tubinho. Então, quanto maior for a temperatura do termômetro, maior será a expansão desse líquido. As marcações no tubinho são feitas de modo a marcar uma temperatura correspondente à nossa no visor. E é só!"

"Valeu, Rex!", disse Diná. E Zíper completou: "Sei, não, mas acho que alguém aí quando crescer vai ser Físico!"


Texto de Patrícia Eugênio de Souza, Departamento de Física, Universidade Federal do Espírito Santo. Retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 17, Número 146, Maio de 2004.

02 fevereiro 2026

A confusão das falsas semelhanças

                                Pontos de contato entre Espanhol e Português                                 acumulam casos de vexames de palavras


Em crônica recente, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony falou dos vexames, cômicos e patéticos, causados por um grupo de brasileiros, gente importante das artes e da cultura, tentando se explicar em bom espanhol num programa de televisão de Madri.

Saiu, diz o grande romancista, puro Portunhol, aqui e ali uma pitada de "Espanguês", mas, no final, tudo muito ruim. Por isso ele, Cony, que confessa conhecer só umas três palavras no máximo do idioma de Cervantes, ataca sempre de Português Brasileiro puro onde estiver, sobretudo em países do continente.

Para quem usa o Portunhol na fronteira brasileira ou quem viaja a países como o México, o choque linguístico pode pesar mais que qualquer outro impacto cultural que por acaso possa o turista sentir.

Falar a própria Língua pode, portanto, ser recurso recomendável aos brasileiros que chegam a países latino-americanos. Encantados com a perigosa semelhança de vocabulário, sintaxe e até fonética de dois idiomas da mesma raiz, cometem gafes constrangedoras.

Num rápido exercício do gênero, podemos começar com alguns dos chamados falsos cognatos, os "falsos amigos", palavras espanholas que se escrevem e se pronunciam igualzinho, mas que têm conotação bem diferente, como embaraçada (grávida), com a qual os brasileiros, já acostumados, pouco têm se embaraçado.


CUIDADOS COM AS APARÊNCIAS

Torpe: Em espanhol significa um sujeito atrapalhado, confuso, incompetente. "Una torpeza" é uma trapalhada, uma besteira, uma bola fora. Nada a ver com o sentido ético-moral em Português.

Presunto: Significa suposto, como "el presunto asesino". Para pedir num boteco um modesto sanduíche de presunto, basta dizer "un sandwich de jamón".

Gandaia: Um tipo pilantra, intrigante de baixo nível. "Una  gandallada" é uma sujeira, uma patifaria. Longe, portanto, do nosso "cair na gandaia".

Porra: O nosso mais popular e saboroso exclamativo, pau para toda obra no falar cotidiano, significa, no México, torcida de futebol, como "hincha" na Argentina. "La porra de la selección nacional" quer dizer a torcida da seleção. Porrista é o integrante das porras, as torcidas uniformizadas dos grandes times locais. Também existe o termo "porro", aquele estudante profissional que fica na faculdade muito mais tempo além do previsto, não fazendo nada de útil, só agitando conchavos e provocações, geralmente a serviço de algum grupo ou figurão político. O jornalista Sérgio Augusto relata que, na Copa de 70, quando a torcida mexicana adotou o Brasil após sua seleção ser desclassificada, a TV só filmava o campo e não a torcida, por causa das faixas "la porra mexicana saluda lá porra brasileña".

Hediondo: Em Espanhol, não é um ato cruel, indigno de ser perdoado, como no Brasil. É a versão hispânica para o adjetivo "fedorento", do verbo "heder" (feder).


Texto de Wladir Dupont retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 3, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

29 janeiro 2026

Por que temos febre?

Você acorda e parece que o dia será como outro qualquer. Pula da cama, mas um cansaço logo toma conta do seu corpo. Então, você volta para o quarto e se esconde debaixo do cobertor. Sente frio e, em seguida, começa a suar. O coração, às vezes, acelera, a respiração fica ofegante e suas bochechas ficam vermelhas como um tomate. É ela, a febre, que veio te pegar!

Calma! A febre não é um monstro. É apenas um sinal de que o seu organismo está sendo atacado por micro-organismos nocivos à saúde. Só fique atento para não confundir febre com situações que levem ao aumento de temperatura corporal, como se agasalhar e se exercitar muito. Em geral, a febre vem acompanhada de algum outro sintoma, que pode ser dor de garganta, dor de ouvido, manchas pelo corpo, diarreia, vômito, etc. Nestes casos, pode apostar que alguma doença está para chegar.

Na verdade, a febre é resultado da ação de uma substância chamada prostaglandina. O nome é difícil de pronunciar, mas sua função é relativamente simples: levar ao cérebro a mensagem de que é necessário aumentar a temperatura do corpo para sinalizar que há algum micróbio invasor em atividade. Alertas ligados! Nosso sistema imunológico, ou melhor, de defesa, se prepara para combater a infecção. Às vezes, o organismo não dá conta desse combate sozinho e precisa da ajuda de medicamentos para reagir melhor. É para isso que quando não melhoramos da febre, vamos ao médico para nos consultar e tomar o remédio certo.

As crianças são as mais afetadas pela febre porque para o organismo delas praticamente todos os vírus e bactérias são desconhecidos. Então, quando esses micro-organismos invadem o corpo, ele logo produz a prostaglandina. Na medida em que vamos crescendo, ficando adultos, nos tornamos um pouco mais resistentes à febre porque nosso corpo já entrou em contato com diversos tipos de vírus e bactérias, tanto por já  termos sido vacinados, quanto por já termos contraído diferentes doenças.

Por mais que a febre seja apenas um sinal de que algo não vai bem, é importante saber sua razão. Assim, alguns cuidados devem ser tomados, principalmente, em se tratando de crianças com menos de um ano de idade. É que, neste caso, a febre pode estar associada a alguma doença grave, como a meningite. Por isso, o médico deve ser sempre consultado. Ele sabe detectar se existe alguma infecção e o que fazer para combatê-la.

Sem indicação do médico, ninguém deve tomar medicamentos. Até o dia da consulta, o que podemos fazer é beber bastante líquido para não desidratar e nos alimentar bem para manter o organismo forte, em condições de reagir. Essas atitudes contribuem para que você se livre logo da febre e também da doença que está associada a ela.


Texto de Renato Minoru Yamamoto, médico do Departamento de Pediatria Ambulatorial, Sociedade Brasileira de Pediatria. Retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 143, Janeiro/Fevereiro 2004.