08 fevereiro 2026

Palavras que fazem carnaval

                   CONTROVÉRSIA SOBRE AS RAÍZES DA FESTA LEVOU                                                               À CONFUSÃO SOBRE AS ORIGENS DO TERMO  


A alegria coletiva, folia organizada, caricatura da seriedade dominante. No rótulo carnaval, cabe mais de uma farra. É um tipo de festa, mas não só. É um tipo muito específico de alegria. E algo mais. Não só uma libertação de hábitos temporária. Nem exclusividade brasileira.

Fazer um carnaval em torno de algo é promover estardalhaço, exagerar a dose, contagiar-se por um rompante de alegria. Já pular o carnaval é participar de uma farra com prazo de validade, desfiles e blocos, poucos dias antes da quarta-feira de cinzas.

Em O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro (Ediouro), Felipe Ferreira acredita que a confusão entre os dois significados (festa e estado de espírito) causa muita discussão em torno das origens do termo. Há pesquisadores, aponta o autor, que consideram os dois sentidos a mesma coisa - e, por isso, a festa remontaria a milênios, ao Egito, à Roma antiga. Até as comemorações de colheitas anteriores à Era Cristã seriam carnavais.

Assim, a presença, nas festas e procissões pagãs, de charretes em forma de navios gerou o mito de que a palavra viria de carrus navalis (carro em forma de navio). O fato é que, aos bispos dos primeiros séculos católicos, pouco importavam as distinções entre festas pagãs nos mais diversos países e meses. Até o século 18, todas recebiam o estigma de comemorações demoníacas.

Teria sido a Igreja que, para melhor estigmatizar o pagamento, consolidou a noção de carnaval como festa de exageros, caricaturas e ritos de inversão. A história do termo "carnaval" é alegórica. Em 1604, o papa Gregório I decretou que os fiéis deveriam abandonar a rotina para, por 40 dias, dedicarem-se à comunhão com o espírito. A quaresma era a imitação de Jesus, que por 40 dias viveu entre o jejum e as tentações.

Em 1091, o papa Urbano II convocou o Sínodo de Benevento, que definiu a data oficial para a quaresma, o primeiro dia batizado de Quarta-feira de Cinzas (dado o hábito de marcar a testa com uma cruz feita de cinzas, por penitência). O dia inicia as privações de prazeres, a proibição de comer carne e abdicação de bens materiais. Com o tempo, consagrou-se o hábito de antecipar a quaresma com um período extraordinário, com tudo o que era negado aos fiéis - fartura, caricatura da autoridade e das questões do espírito, exagero e farra.


Ritos da Quaresma

Mais que uma festa, lembra Ferreira, o carnaval é uma data. Por isso, não há uma forma de brincar o carnaval, há muitas. Daí uma flutuação em torno da origem do nome. Os últimos dias de fartura antes da quaresma começaram a ser chamados de "adeus à carne" (em italiano carnevale, afirma Ferreira). O período de adeus à carne recebeu vários nomes entre os séculos 12 e 13, período em que tomam forma as diferentes manifestações que derivariam no carnaval de hoje: carnelevarium em 1097, caramentran, carnisprivium ou carnelevare em 1130, carnelevamem em 1195.

O carnaval não se esgota numa palavra. Tampouco numa festa. Mas nas diferentes formas que assumir - um conceito, um estado de espírito, uma indústria (dos desfiles cariocas aos trios de Salvador) - será sinônimo da vitalidade popular de reinventar-se e divertir-se até muito além do próximo carnaval.


Texto sem identificação de autoria; retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Fevereiro de 2006, Editora Segmento, São Paulo.

06 fevereiro 2026

Batatas

Sempre que Dadá tem lição de casa, a família toda tenta ajudar. Dessa vez, ele tinha de fazer uma pesquisa sobre as batatas. Como a batata é um vegetal e todo vegetal é um ser vivo e biólogos estudam seres vivos, ele logo foi pedir ajuda ao irmão mais velho, Guto, que está na Faculdade de Biologia:

- Está bem, Dadá, eu te ajudo - respondeu Guto. - Anota aí: as batatas são o que a gente chama de tubérculos, que são uma espécie de armazém de alimento para as plantas. Mas eu não vou te dar todas as informações, só algumas dicas. Procure a relação das batatas com a Irlanda, as Solanaceae, os incas, a Tia Camila e o Machado de Assis.

Dadá anotou as dicas e perguntou:

- Mas o que a Tia Camila tem a ver com as batatas?

- Ah... Isso você tem de descobrir! - respondeu o Guto, todo misterioso.

O primeiro lugar que Dadá pesquisou foi a enciclopédia que ele tem em casa. Logo, ele achou o que queria:

"Solanaceae é uma família de plantas cujas flores, geralmente roxas, possuem cinco pétalas. As plantas dessa família podem ser encontradas no mundo inteiro; podem ser arbustos, árvores ou moitas baixas. Entre os representantes desta família mais importantes para o homem estão as espécies de batata, tomate, berinjela, pimentão, pimenta, jiló e tabaco. Suas flores vistosas atraem, principalmente, insetos que se alimentam do pólen ou néctar, os frutos são geralmente dispersos por aves." Ele anotou rapidinho todas as informações que achou interessantes e, quando estava indo procurar outras coisas, dona Júlia, que lia um livro na sala, perguntou:

- Dadá, o que você está pesquisando?

- Estou procurando informações sobre a batata. - respondeu Dadá. - Mãe, você conhece um tal de Machado de Assis?

- Conheço, e muito bem! Já li quase todos os livros dele. Ele viveu no começo do século 19 e é um dos maiores escritores brasileiros! Por acaso, eu estou lendo Quincas Borba, um conhecido livro de sua autoria.

- E ele já escreveu um livro sobre as batatas? - perguntou Dadá.

- Não, por quê? - respondeu dona Júlia, estranhando a pergunta.

- O Guto disse que ele tinha algo a ver com elas!

A mãe abriu um sorriso e respondeu:

- Eu já sei o porquê! Acabei de ler essa frase no livro: "Ao vencedor, as batatas!"

- O quê? disse Dadá, com cara de interrogação.

- No livro, Quincas Borba é filósofo muito rico que mora na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. Ele acredita que as pessoas têm de batalhar pela sua sobrevivência e, para exemplificar, sempre conta a história de duas tribos que tinham batatas suficientes para alimentar só uma delas. Elas poderiam reparti-las e morrer as duas de fome ou poderiam disputá-las. A tribo vencedora estaria alimentada o suficiente para mudar para um lugar onde houvesse mais comida; a derrotada morreria de fome. Eu e você podemos não concordar com essa ideia, mas assim pensava o protagonista da história. - explicou a mãe.

- E foi assim que surgiu a expressão "ao vencedor, as batatas?" - perguntou Dadá.

- Sim. - confirmou dona Júlia.

- Ah... Obrigado, mãe! - respondeu Dadá, sem entender muita coisa. No entanto, ele estava feliz por ter resolvido duas dicas do irmão. Dali, foi falar com o pai, que estava na cozinha preparando o jantar.

- E, aí, filhão? Quer uma batata frita? Cuidado que está quente! - ofereceu o seu Antônio.

- Eu estou fazendo uma pesquisa sobre batatas e preciso de ajuda! - respondeu Dadá, com a boca cheia de batatinhas e aliviado por não ter de brigar com ninguém para comê-las.

- E o que você quer saber? Sobre como fritar batatas? Fazer purê? Batatas-palha? - brincou o seu Antônio.

- Não, pai! O que as batatas têm a ver com a Irlanda?

- Essa pergunta é batata! - piscou o pai, querendo dizer que a pergunta era muito fácil.

- Os irlandeses comem muita!

- Só isso? A gente também come um monte de batata! - comentou Dadá.

- Espera um pouco, deixe-me completar. No final do século 18, os irlandeses eram um povo muito, mas muito pobre, que praticamente só tinha batata como alimento. Acontece que, na época, uma terrível doença acabou matando quase todas as batatas da Irlanda. Era um fungo preto que deixava as plantas fraquinhas, fraquinhas e as batatas, miudinhas. - explicou o pai.

- Se não tinha mais batata, o que os irlandeses comiam, então?

- Aí que está: não comiam. Foi um tempo de muita fome para os irlandeses. Muitos morreram, outros tiveram de abandonar as suas casas e procurar um novo lugar para viver. Foi por causa da praga das batatas que milhões de irlandeses se mudaram para os Estados Unidos.

- E os incas, o que eles têm a ver com as batatas? - perguntou Dadá, achando que já ia terminar o dever de casa.

- Que batata-quente essa! - exclamou seu Antônio, espantado com a pergunta complicada. - Eu não sei a resposta dessa daí.

Como só faltava resolver duas dicas, Dadá foi para o computador procurar informações na internet. Em um endereço na rede, ele achou a relação entre os incas e a batata: "Apesar de ser um alimento bastante popular na Europa, as batatas são originárias das Américas. Os espanhóis, quando encontraram os incas, conheceram muitas plantas novas, como o milho e a batata."

Agora, só faltava descobrir o que as batatas tinham a ver com a sua Tia Camila. Ele pensou, pensou e não descobriu nada. Foi perguntar para o pai, que agora estava lavando a salada; foi perguntar para a mãe, que continuava a ler o seu livro. E ninguém sabia a resposta. Desesperado, até ligou para a sua tia, que não sabia nada de novo sobre batatas. Já desistindo, ele foi falar de novo com o irmão, que estava estudando:

- Guto! - gritou o pequeno pesquisador.

- Fala, Dadá, como é que está o seu trabalho?

- Eu já escrevi um monte de coisas! Veja só: "As batatas são produzidas por plantas parentes das espécies que produzem tomate, berinjela, jiló e pimentão. Mas elas são tubérculos e não frutas. Os tubérculos são caules ou raízes que servem de depósito de alimento para as plantas. Os incas, quando descobriram isso, passaram a pegar as batatas das plantas para comer, mas daí vieram os espanhóis, que pegaram as batatas dos incas e as levaram para a Europa. Assim, os europeus começaram a comer um monte de batata. No Brasil, o Machado de Assis viu toda essa briga e criou o Quincas Borba, que dizia: "Ao vencedor, as batatas!" Só que na Irlanda as batatas ficaram doentes e não sobrou mais nenhuma, nem para os vencedores. Muitos irlandeses morreram de fome; muitos dos que sobreviveram acabaram indo para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor e, talvez, de mais batatas. Hoje em dia, tem um monte de batata no mundo e mesmo assim ainda tem muita gente passando fome. Para terminar, apesar de termos parado de brigar pelas batatas, continuamos brigando por muitas outras coisas."

Guto ouvir a redação com orgulho do irmão caçula e elogiou:

- Que legal, Dadá! Ficou muito boa sua redação! Você usou todas as dicas!

- Quase todas... Eu só não descobri o que as batatas têm a ver com Tia Camila! - disse Dadá, meio desanimado.

Guto deu uma risadinha e respondeu:

- É o que a Tia Camila fez ginástica demais quando era menor e agora ela tem as maiores batatas da perna que eu já vi! - e caiu na gargalhada.

- Ah! Guto, vá plantar batatas! - respondeu Dadá, que não achou graça na piadinha do irmão.


Texto de Carlos Takeshi Hotta (Universidade de Cambridge) e Eduardo Bessa (Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo). Retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 146, Maio de 2004.

04 fevereiro 2026

Tá quente ou tá frio?

Rex voltou às aulas mais dedicado do que nunca. Todo dia chega em casa contando uma novidade. Se aprende algo que considera interessante, fala sobre aquilo com uma empolgação de contagiar. Zíper diz que seu amigo dinossauro agora deu para observar tudo o que o cerca como quem acaba de ganhar óculos novos. Diná concorda que é como se ele pudesse enxergar o mundo de uma forma diferente da que enxergava antes. Pois bem, foi assim, pra lá de entusiasmado, que ele encontrou os amigos depois de assistir a certa aula de Física. O que aconteceu foi o seguinte...


A TURMA DO REX EM... TÁ QUENTE OU TÁ FRIO?


A aula que fascinou Rex era sobre temperatura. Aliás, você sabe o que é temperatura? O professor explicou de um jeito simples para a turma. Disse mais ou menos assim: "Todo mundo sabe quando um objeto está mais quente ou mais frio que outro?" Rex realmente ficou intrigado.

Com certeza, ficar medindo a temperatura com a mão é algo perigoso, principalmente se você sai metendo a mão em objetos muito quentes (felizmente, ele não fez isso!). E o dinossauro continuou pensando: "Mas será que é por isso que o método não serve?" Ele achou que não! Devia ser porque, se a gente segurar dois objetos quentes ou dois objetos frios, fica meio difícil saber qual a diferença entre eles. Segundo o  professor, os físicos definem temperatura como sendo o grau de vibração das moléculas.

Xiiiii!!!! Depois dessa, nosso mascote achou melhor sair para se refrescar, porque seus miolos estavam começando a fritar. Por sorte, ele não demorou e chegou a tempo de pegar a explicação desde o começo. O professor estava dizendo que cada partezinha do nosso corpo (e de qualquer objeto) é feita de pequenas partes chamadas moléculas.

Essas moléculas têm um permanente balanço, um movimento que os físicos chamam de agitação, que pode ser menor ou maior.

Assim, chama-se temperatura o quanto essas moléculas estão se movimentando.

"Por exemplo", o professor falou, "um objeto (ou uma pessoa!) com temperatura de 40°C tem suas moléculas com maior agitação que outro com temperatura de 39°C". Ele também disse que a energia que comanda a agitação dessas moléculas tem o nome de energia térmica.

Quando a aula acabou, Rex estava imaginando mil e uma! Embarcou na ideia de que as moléculas deveriam ser como pessoas dançando em uma festa: quanto mais empolgação tivessem, quanto mais se movimentassem, mais a temperatura do ambiente subiria. E partindo dessa ideia de que a temperatura da festa estaria quanto maior fosse a agitação das pessoas, ele fez a relação de que nos objetos mais quentes o balanço ou a agitação das moléculas é maior. Pronto! Isso ele nunca mais iria esquecer!

O dinossauro saiu da escola no maior pique! Era como se quisesse ver a agitação das moléculas nas paredes, no chão, em tudo! Na verdade, ele tinha consciência de que a olho nu não se pode ver  moléculas se agitando, mas, também, estava certo de que a curiosidade da gente pode nos levar a descobertas que nem os melhores óculos nos permitiriam enxergar sem ela.


Como funciona um termômetro?

No dia seguinte, a aula foi sobre o funcionamento de um termômetro. E Rex foi pra casa ainda mais animado. Chegou logo dizendo pra Diná e pro Zíper:

"Vocês sabiam que para saber como funciona o termômetro precisamos entender um pouquinho sobre trocas de calor? Querem apostar como isso não é nada difícil?!"

Ele falou que, como já havia explicado no dia anterior, todo corpo (objetos e pessoas) é feito de moléculas que se agitam, e que uma medida do grau de agitação de suas moléculas - ou seja, o quanto elas se agitam - é a sua temperatura. E, aí, lançou o desafio:

"Mas o que será que acontece quando dois corpos com temperaturas diferentes estão em contato um com o outro?" E antes que os amigos pudessem responder, veio com a sua ideia da festa:

"Imaginem uma festa em que há uma galera muito agitada, muito animada, dançando muito, com muita empolgação, imaginem também outra festa, ao lado dessa, que esteja meio desanimada, com pouca empolgação. Imaginaram? Bom, é claro que a galera do rebuliço não vai deixar aquela turminha desanimada assim e vai tentar animá-la! Logo, as pessoas que tinham maior agitação doam um pouco da sua 'energia' para agitar o outro pessoal! Assim, a turma que antes era quietinha fica mais agitada, e a que antes era a mais esperta fica um pouco mais devagar, mas as duas ficam com a mesma agitação para curtir a festa numa boa! Captaram?"

Zíper e Diná tinham adorado o exemplo e continuaram prestando atenção no amigo que ainda tinha mais para falar.

"O que acontece com os objetos com temperaturas diferentes é algo parecido! O que tem maior temperatura transfere parte da sua energia térmica para o que está com menor temperatura. Aí, a temperatura do corpo mais quente diminui e a do corpo mais frio aumenta. No fim, os dois corpos ficam com temperaturas iguais! A energia térmica em trânsito, isto é, que passa de um para o outro, é chamada de calor, e o momento em que os dois corpos em contato estão com temperaturas iguais se chama equilíbrio térmico."

Diná, que estava um ano à frente no colégio, completou:

"Guarde que quando um objeto é muito maior do que outro, o grande é chamado de 'reservatório térmico'. Nesse caso, quando eles ficam em contato e entram em equilíbrio, a temperatura do maior quase não muda e a temperatura do menor fica igual à do maior."

"Boa, Diná!", disse Rex. E ela emendou: "Mas, continue, quero saber sobre o termômetro".

"Então", disse o dinossauro, "quando colocamos o termômetro em contato com a nossa pele, o termômetro tenta entrar em equilíbrio térmico com o nosso corpo. O nosso corpo não irá diminuir sua temperatura, mesmo doando energia para o termômetro, pois, nesse caso, ele funciona como reservatório térmico. Além disso, o professor disse que temos muitos mecanismos orgânicos que não permitem que a temperatura do nosso corpo mude. Por isso, depois de alguns minutos, o termômetro terá a mesma temperatura que o nosso corpo. O líquido prateado no termômetro é o mercúrio. Ele se expande facilmente com pequenas variações de temperatura. Como o tubo que mostra a temperatura é muito fininho, mesmo um pequeno aumento do volume da bolinha de mercúrio que fica na ponta do termômetro faz ele subir bastante no tubinho. Então, quanto maior for a temperatura do termômetro, maior será a expansão desse líquido. As marcações no tubinho são feitas de modo a marcar uma temperatura correspondente à nossa no visor. E é só!"

"Valeu, Rex!", disse Diná. E Zíper completou: "Sei, não, mas acho que alguém aí quando crescer vai ser Físico!"


Texto de Patrícia Eugênio de Souza, Departamento de Física, Universidade Federal do Espírito Santo. Retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 17, Número 146, Maio de 2004.

02 fevereiro 2026

A confusão das falsas semelhanças

                                Pontos de contato entre Espanhol e Português                                 acumulam casos de vexames de palavras


Em crônica recente, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony falou dos vexames, cômicos e patéticos, causados por um grupo de brasileiros, gente importante das artes e da cultura, tentando se explicar em bom espanhol num programa de televisão de Madri.

Saiu, diz o grande romancista, puro Portunhol, aqui e ali uma pitada de "Espanguês", mas, no final, tudo muito ruim. Por isso ele, Cony, que confessa conhecer só umas três palavras no máximo do idioma de Cervantes, ataca sempre de Português Brasileiro puro onde estiver, sobretudo em países do continente.

Para quem usa o Portunhol na fronteira brasileira ou quem viaja a países como o México, o choque linguístico pode pesar mais que qualquer outro impacto cultural que por acaso possa o turista sentir.

Falar a própria Língua pode, portanto, ser recurso recomendável aos brasileiros que chegam a países latino-americanos. Encantados com a perigosa semelhança de vocabulário, sintaxe e até fonética de dois idiomas da mesma raiz, cometem gafes constrangedoras.

Num rápido exercício do gênero, podemos começar com alguns dos chamados falsos cognatos, os "falsos amigos", palavras espanholas que se escrevem e se pronunciam igualzinho, mas que têm conotação bem diferente, como embaraçada (grávida), com a qual os brasileiros, já acostumados, pouco têm se embaraçado.


CUIDADOS COM AS APARÊNCIAS

Torpe: Em espanhol significa um sujeito atrapalhado, confuso, incompetente. "Una torpeza" é uma trapalhada, uma besteira, uma bola fora. Nada a ver com o sentido ético-moral em Português.

Presunto: Significa suposto, como "el presunto asesino". Para pedir num boteco um modesto sanduíche de presunto, basta dizer "un sandwich de jamón".

Gandaia: Um tipo pilantra, intrigante de baixo nível. "Una  gandallada" é uma sujeira, uma patifaria. Longe, portanto, do nosso "cair na gandaia".

Porra: O nosso mais popular e saboroso exclamativo, pau para toda obra no falar cotidiano, significa, no México, torcida de futebol, como "hincha" na Argentina. "La porra de la selección nacional" quer dizer a torcida da seleção. Porrista é o integrante das porras, as torcidas uniformizadas dos grandes times locais. Também existe o termo "porro", aquele estudante profissional que fica na faculdade muito mais tempo além do previsto, não fazendo nada de útil, só agitando conchavos e provocações, geralmente a serviço de algum grupo ou figurão político. O jornalista Sérgio Augusto relata que, na Copa de 70, quando a torcida mexicana adotou o Brasil após sua seleção ser desclassificada, a TV só filmava o campo e não a torcida, por causa das faixas "la porra mexicana saluda lá porra brasileña".

Hediondo: Em Espanhol, não é um ato cruel, indigno de ser perdoado, como no Brasil. É a versão hispânica para o adjetivo "fedorento", do verbo "heder" (feder).


Texto de Wladir Dupont retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 3, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

29 janeiro 2026

Por que temos febre?

Você acorda e parece que o dia será como outro qualquer. Pula da cama, mas um cansaço logo toma conta do seu corpo. Então, você volta para o quarto e se esconde debaixo do cobertor. Sente frio e, em seguida, começa a suar. O coração, às vezes, acelera, a respiração fica ofegante e suas bochechas ficam vermelhas como um tomate. É ela, a febre, que veio te pegar!

Calma! A febre não é um monstro. É apenas um sinal de que o seu organismo está sendo atacado por micro-organismos nocivos à saúde. Só fique atento para não confundir febre com situações que levem ao aumento de temperatura corporal, como se agasalhar e se exercitar muito. Em geral, a febre vem acompanhada de algum outro sintoma, que pode ser dor de garganta, dor de ouvido, manchas pelo corpo, diarreia, vômito, etc. Nestes casos, pode apostar que alguma doença está para chegar.

Na verdade, a febre é resultado da ação de uma substância chamada prostaglandina. O nome é difícil de pronunciar, mas sua função é relativamente simples: levar ao cérebro a mensagem de que é necessário aumentar a temperatura do corpo para sinalizar que há algum micróbio invasor em atividade. Alertas ligados! Nosso sistema imunológico, ou melhor, de defesa, se prepara para combater a infecção. Às vezes, o organismo não dá conta desse combate sozinho e precisa da ajuda de medicamentos para reagir melhor. É para isso que quando não melhoramos da febre, vamos ao médico para nos consultar e tomar o remédio certo.

As crianças são as mais afetadas pela febre porque para o organismo delas praticamente todos os vírus e bactérias são desconhecidos. Então, quando esses micro-organismos invadem o corpo, ele logo produz a prostaglandina. Na medida em que vamos crescendo, ficando adultos, nos tornamos um pouco mais resistentes à febre porque nosso corpo já entrou em contato com diversos tipos de vírus e bactérias, tanto por já  termos sido vacinados, quanto por já termos contraído diferentes doenças.

Por mais que a febre seja apenas um sinal de que algo não vai bem, é importante saber sua razão. Assim, alguns cuidados devem ser tomados, principalmente, em se tratando de crianças com menos de um ano de idade. É que, neste caso, a febre pode estar associada a alguma doença grave, como a meningite. Por isso, o médico deve ser sempre consultado. Ele sabe detectar se existe alguma infecção e o que fazer para combatê-la.

Sem indicação do médico, ninguém deve tomar medicamentos. Até o dia da consulta, o que podemos fazer é beber bastante líquido para não desidratar e nos alimentar bem para manter o organismo forte, em condições de reagir. Essas atitudes contribuem para que você se livre logo da febre e também da doença que está associada a ela.


Texto de Renato Minoru Yamamoto, médico do Departamento de Pediatria Ambulatorial, Sociedade Brasileira de Pediatria. Retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 143, Janeiro/Fevereiro 2004.

28 janeiro 2026

A Pipa e a Bruxa

Dois carretéis emendado de linha 50. Não era de papel, era de plástico verde, azul e laranja e tinha até nome aquela pipa: Raio de Fogo.

O vento estava pão-duro, naquela tarde de sábado.

- O vento está gorando... Recolhe que vai cair.

Caiu antes que Dudu completasse a frase. Alucinado, Guga foi puxando depressa, depressa... Sobrou com a linha arrebentada na mão. Seu lindo Raio de Fogo deu meia-pirueta e aterrissou no quintal do sobrado.

Silêncio total. Os três amigos se reuniram em torno de Guga. Pobre Guga... Quase deram os pêsames para ele.

- Desiste, Guga. Caiu no sobrado, é igual perder - disse Pedro.

- É a casa da velha... - acrescentou Dudu.

- Parece bruxa. Não dá nem bom-dia - completou Nando.

- Eu vou lá buscar. - Brilhavam os olhos do garoto.

Portão de novo fechado, agora era Guga e o quintal. Se a pipa estivesse logo ali à sua frente, maravilha. Que nada! Encontrou um pedaço de linha, e só.

A linha corria até perto do chão, e naquele instante Guga se esqueceu de onde estava, sabia apenas que precisava salvar seu amigo.

Foi trazendo devagar a ponta da linha, dando peixõezinhos que acabariam libertando a pipa. Estava tão distraído nisso, que não percebeu a porta do sobrado se abrir. Alguém espiava seu trabalho, enquanto andava até ele, devagarinho. Estava agora exatamente no meio do caminho de fuga para o portão.

- Fazendo isso, ainda vai rasgar.

Os olhos de Guga se arregalaram tanto que ele nem conseguiu ver direito a cara da mulher.

- É sua pipa?

Murmurou qualquer coisa que devia parecer um sim.

- É melhor pegar lá de cima. Puxando daqui, ainda vai rasgar.

Ela sorria ou era impressão sua? Entrar na casa. Não era uma traição? Todo mundo falava que a velha era esquisita, não dava nem bom-dia, morava sozinha e ficava até de madrugada com a luz acesa, maluca, louca, bruxa...

- Vem por aqui.

Guga nunca sentiu tão pequeno, sem saber o que falar. Mas era coisa de vida ou morte; abandonar o seu amigo lá era tão covarde quanto dar o fora. Foi seguindo atrás da mulher, ainda limpou os pés na passadeira e pensou: "Seja o que Deus quiser."

À medida que subiam as escadas, mais e mais quadros. No alto, o corredor estava muito escuro. "É agora que ela me empurra daqui para baixo", pensou Guga, com o coração agitado. Mas a porta se abriu, entrou o vento, e o sol da tarde clareou todo o lugar.

- A senhora é pintora?

- Claro. Você não sabia?

- Espere um momento ainda.

Pronto, era o feitiço? Guga endureceu o corpo, se virou devagarinho. E ficou lá, surpreso de ver a magia com que a velha olhava para ele e para o papel, a arte com que ela conseguia enfeitiçar seus olhos. Guga tinha medo até de respirar. Só quando a bruxa disse "pronto", ele puxou a linha que prendia a pipa e foi ver o que a mulher tinha feito.

Era ela. Só em lápis, mas era Guga, com seu cabelo arrepiado e a blusa vermelha. E era Raio de Fogo, mas lembrando também um passarinho, com asas emaranhadas na janela.

-  Ficou bonito... O Raio de Fogo tá lindão.

- Agora eu vou pintar. Você não quer ver como vai ficar? Volte semana que vem.

- Eu posso?

- Claro.

Quando Guga foi ao encontro dos amigos, ninguém acreditava no que via. Já estavam no morro, combinando uma invasão armada para salvar o colega; ou então a última e a pior das opções, que era avisar os pais e enfrentar o risco da bronca.

- O que a bruxa fez com você?

- Você se encontrou com ela, Guga?

- Tem um caldeirão de verdade na casa dela?

- Sabem de uma coisa? Eu acho que ela faz mesmo magia.

A bruxa apareceu na janela do sobrado, e eles danaram a correr, procurando outros lugares para soltar pipa e viajar pelo vento que, naquele instante, começava a vir mais forte.


Texto de Márcia Kupstas retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 143, Janeiro/Fevereiro de 2004. O Conto A Pipa e a Bruxa foi retirado e adaptado do livro Aventuras de Garoto, Atual Editora, 2002.

27 janeiro 2026

Gigante entre as araras

Você sabia que a maior arara do mundo voa pelos céus do Brasil? E é bonita que só ela! A arara-azul-grande tem penas de um azul muito escuro, tanto que, de longe, elas parecem pretas. Além disso, sua cabeça é cheia de detalhes em amarelo: há um anel em torno dos olhos e, perto deles, na parte inferior do bico, uma faixa em forma de meia-lua.

Os machos e as fêmeas da arara-azul-grande são muito parecidos. Por conta disso, é difícil dizer quem é quem. Mas não se engane: a semelhança só é problema para nós. Para as aves, ela não causa confusão. Na hora de se reproduzir, quem disse que a arara-azul-grande se confunde? Machos e fêmeas se encontram e... Iniciam o namoro!

No Pantanal do Mato Grosso, o período de reprodução da arara-azul-grande vai de julho a março. Os ninhos são construídos em cavidades encontradas nos buritis ou em outras árvores que têm o tronco oco, podendo ser reutilizados em outros anos. Ali, a arara-azul-grande põe de um a três ovos, que são chocados por cerca de um mês. E que ninguém tente se aproximar do ninho desta ave! Seja homem, seja bicho, o resultado é o mesmo: ela ataca para se defender!

A arara-azul-grande alimenta-se de sementes de frutas, principalmente, de cocos de palmeiras. Mas isso não impede que ela seja atraída também por árvores frutíferas, como mangueiras, jabuticabeiras, goiabeiras, laranjeiras e mamoeiros. No Pantanal do Mato Grosso, essa ave desce ao chão para colher coquinhos de um tipo de palmeira conhecida como acuri. A arara-azul-grande também tem o costume de abrir os cocos da macaúba, uma palmeira muito frequente no Brasil Central, usando um pedaço de madeira, que fixa ao seu bico.

O desmatamento e o comércio ilegal da arara-azul-grande são os motivos que a colocam na lista dos animais ameaçados de extinção. Embora sua compra e venda sejam proibidas sem licença especial, essa ave, por ser tão bonita e colorida, costuma ser procurada por pessoas que querem criá-la em cativeiro. A destruição de árvores que abrigam os ninhos da espécie e que servem como fonte de alimento para a arara-azul-grande também contribui para agravar a situação desse animal. A boa notícia, no entanto, é que você e seus amigos  podem, sim, ajudar a impedir a extinção dessa bela ave. Como? Protegendo a natureza para que essa arara tenha sempre o que comer e onde fazer os seus ninhos.


Texto de Alline Storni e Maria Alice S. Alves, do Instituto de Biologia, Setor de Ecologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 143, Janeiro/Fevereiro de 2004.

26 janeiro 2026

Viva em um mar de energia e luz!

Ao observarmos nosso mundo e tudo o que nos cerca, podemos considerar que vivemos mergulhados em um mar de energias e assim, tudo tem um campo de energia à sua volta: objetos, lugares, plantas, animais e seres humanos. Estes espaços de energia estão associados ao nosso padrão vibracional definindo o nível de saúde e bem-estar. Nos ambientes em que vivemos, vamos deixando impregnados os nossos padrões vibracionais: nossa casa, nosso armário ou mesa de trabalho são reflexos de nosso estado interior e de harmonia ou desarmonia física, psíquica e espiritual.

Imaginando o "astral" do ambiente de uma casa, na qual a família que ali habita, vive em clima de discussões e brigas ou lamentações e desânimo, compreendemos o quanto poderia ser agradável "curar" não só as angústias pessoais, como também os desconfortos impressos no ambiente. Isto explica porque nos sentimos bem ou mal quando entramos em um lugar. Nossa sensibilidade ativa o campo das percepções através de nossos sentidos. Sem ver ou ouvir, cheirar ou tocar, sentimos algo que nos anima ou invade nossa zona de conforto vibratório. Assim, estamos contagiados pelo otimismo ou por um súbito mau humor!

Nas empresas, o clima mental dos funcionários, a disposição vital e os fatores emocionais irão interferir nos resultados levando a um melhor desempenho de suas competências ou à estagnação de ideias e do próprio sucesso. O ambiente de trabalho dá claramente a visão de dupla mão: tanto o local interfere no rendimento quanto os funcionários interferem na alma do local das atividades. Escritórios entulhados ou escuros não podem gerar o mesmo tipo de sensação que os organizados.

O estado emocional e mental das pessoas de uma família ou funcionários de uma empresa vai "carimbando" o ambiente em um contágio progressivo, assim, anos de mágoas e ressentimentos pela vida, de palavras mal direcionadas, contextos de desânimo e falta de perspectivas podem gerar um ambiente depressivo, de fracasso e profundamente incômodo. Fazer uma boa limpeza em nossas casas ou ambiente de trabalho no aspecto físico é só o primeiro passo para criar um ambiente sadio e um espaço sagrado para quem ali trabalha ou vive. A etapa seguinte é a higienização do campo vibracional dos habitantes e do próprio campo energético do lugar.

Neste trabalho utilizo vários recursos fundamentados em uma visão holística assim como Essências Florais, Óleos Essenciais da Aromaterapia Terapêutica, Cromoterapia e princípios do Feng Shui. Primeiramente, procuro conhecer o local e seus habitantes. Um diagnóstico que conte com a conscientização e ponderação do estado a ser transformado permite avaliar o estado no qual encontra-se o ambiente. Ao tratá-lo, pessoas, animais, plantas e objetos captam essa nova atmosfera vibracional e passam também a ser assistidos pelas propriedades curativas dos instrumentos utilizados em seu campo energético.

A escolha, portanto, das essências florais, dos óleos essenciais, das cores e sons deve ser orientada de modo apurado, para que se alcance o objetivo desejado: alguns são considerados de uso comum para o bem-estar diário, enquanto outras serão determinadas de acordo com o quadro avaliado no diagnóstico.

Assim, considerando a cura dos aspectos físico, emocional, mental e espiritual passamos a uma observação do ambiente físico, tal como faríamos no corpo físico quando apresenta um sintoma: o ambiente pode ser frio demais, ou qu8ente demais, ou ter falta de luz; ter os objetos cheios de pó e esquecidos ali por algum tempo; ter plantas secas ou mortas. O som do ambiente é um convite a ficar ou a sair dele. A sua estrutura está são ou danificada. As cores atribuídas à decoração e os elementos presentes, texturas, nuances e sensações contribuem ou não para o equilíbrio complementar Yin/Yang.

Do mesmo modo, vamos avaliar os sintomas emocionais e mentais do ambiente: é um ambiente no qual há frequentes discussões, tristezas, sofrimentos, mau humor, disputas, ideias e sintomas negativos, pensamentos fixos de revolta, desamor, fracasso vingança? O tipo de atividade ali realizada: trabalho, estudo, alimentação também dá o tom dos aspectos a serem observados. O uso das essências florais e óleos essenciais em sprays é uma forma prática de aplicação. Pode-se borrifá-la pelo ambiente algumas vezes ao dia ou quando necessário. As sugestões do Feng Shui, ativando as áreas indicadas, são utilizadas em paralelo após o mapeamento do local.

Tudo o que nos cerca está ali por alguma razão, por alguma emoção e para ser cuidado por nós. Ao aspergir gotículas das essências florais, emantar um aroma renovador, deixar fluir os sons da natureza ou dar cor a nossos ambientes estaremos impregnando de amor tudo a nossa volta e então poderemos concluir que estaremos mergulhados em um mar de energia e luz!


Texto de Márcia Cristina Fernandes retirado da Revista Vida em Equilíbrio, Edição 6, Casa Dois Editora, São Paulo, Abril de 2002.

25 janeiro 2026

A Força do Equilíbrio

A partir da década de sessenta, a civilização ocidental descobriu a cultura do oriente. Em meio a protestos contra as guerras, queimas de sutiãs em praças públicas e a descoberta da pílula anticoncepcional, incorporamos muitos valores de nossos amigos do outro lado do mundo. O principal deles foi a necessidade do cuidado com o corpo, a mente e o espírito.

Passadas quatro décadas, agora também nos conscientizamos de que a casa onde vivemos também merece cuidados e atenções. Mais do que simples abrigo e local de descanso, o lar reflete de forma clara e inequívoca da nossa personalidade e estilo de vida. Guarda as lembranças de nosso passado e deveria ser o nosso cantinho no mundo, trazendo aconchego e até proteção, não só dos males físicos mas também psicológicos e espirituais.

Todas as culturas apresentam uma série de rituais, rezas e símbolos para proteção e equilíbrio do lar, mas a vanguarda dessas técnicas está nas mãos dos chineses. Há cerca de quatro mil anos esse novo povo vem se dedicando à prática do Feng Shui, cujo objetivo principal é deixar fluir livre e equilibradamente pela casa as  energias positivas que nos trazem saúde, bem estar e prosperidade material e afetiva. São analisados todos os cômodos, cada canto, objeto, cores e  disposição dos móveis.

Terminada a análise, o Feng Shui propõe sempre  soluções simples e baratas, como a instalação de um espelho, uma pequenina esfera de cristal, um sino de vento, um móbile, a troca de um móvel de lugar, um quadro, um vaso de flores, uma cor.

Mais do que atrair bons fluídos para nosso lar, temos todas condições de criá-los no interior do próprio ambiente. O conjunto de pensamentos, sentimentos, estados de espírito, condições físicas, anseios, atos e intenções dos moradores fica impregnado no ambiente, criando o que se chama de egrégora.

Você, com certeza, já esteve numa residência ou ambiente onde sentiu um profundo bem-estar e sensação de acolhimento, independente de beleza, luxo ou qualquer outro fator externo. Essa atmosfera gostosa, sem dúvida, era dada principalmente pelo estado de espírito positivo de seus moradores.

Infelizmente, é muito mais corriqueiro entrarmos em ambientes que nos oprimem ou nos dão a sensação de falta de paz e, às vezes, até de sujeira, mesmo que a casa esteja limpa. A vontade é de ir embora rapidamente, mesmo que sejamos bem tratados.

O que poucos sabem é que as paredes, objetos e a atmosfera da casa têm memória e registram as energias de todos os acontecimentos e do estado de espírito de seus moradores, ficando impregnados com essas energias. Por isso, quando você pensar na saúde energética de sua casa, tome a iniciativa básica e vital de impregnar sua atmosfera apenas com bons pensamentos e muita fé. Evite brigas e discussões desnecessárias.

Observe seu tom de voz: nada de gritos e formas agressivas de expressão. Não bata portas. Tente assumir gestos harmoniosos, cuidando de seus objetos e entes queridos com carinho. Não pense mal dos outros, praga nem pensar! Selecione muito bem as pessoas que vão frequentar sua casa. Festas, brindes e comemorações alegres são bem vindas, porque trazem alegria e muita energia para sua casa. Mas cuidado com os excessos, nada de bebedeiras e muito menos o uso de drogas, que atraem más energias e espíritos de baixo nível.

Se você nutre uma mágica profunda ou mesmo um ódio forte por alguém, corra e procure ajuda para alimpar essas energias densas de seu coração e lembre-se que sua casa também pode estar contaminada. Aprenda a  fazer escolhas e determine o que quer para sua vida e ambiente onde mora. Alegria, amor, paz, prosperidade, saúde, amizade, beleza já estão bons para começar, não é mesmo?


Texto de Vera Caballero retirado da Revista Vida Em Equilíbrio, Edição 02, Casa Dois Editora, São Paulo, Agosto de 2001.

24 janeiro 2026

Regozijemo-nos Sempre (102)

 "Regozijai-vos sempre." - Paulo. (I TESSALONICENSES, 5:16.)


O texto evangélico não nos exorta ao júbilo somente nos dias em que nos sintamos pessoalmente felizes.

Assevera com simplicidade - "regozijai-vos sempre."

Nada existe no mundo que não possa transforma-se em respeitável motivo de trabalho, alegria e santificação.

E a própria Natureza, cada dia, exibe expressivos ensinamentos nesse particular.

Depois da tempestade que arranca raízes, mutila árvores, destrói ninhos e enlameia estradas, a sementeira reaparece, o tronco deita vergônteas novas, as aves refazem os lares suspensos e o caminho se coroa de sol.

Somando o homem, herói da inteligência, guarda consigo a carantonha do pessimismo, por tempo indeterminado, qual se fora gênio irado e desiludido, interessado em destruir o que lhe não pertence.

Ausência continuada de esperanças e de alegria na alma significa evolução deficitária.

Por toda parte, há convites à edificação e ao aprimoramento, desafiando-nos à ação no engrandecimento comum.

Ninguém é tão infeliz que não possa  produzir alguns pensamentos de bondade, nem tão pobre que não possa distribuir alguns sorrisos e boas palavras com os seus companheiros na luta cotidiana.

Tristeza de todo instante é ferrugem nas engrenagens da alma. Lamentação contumaz é ociosidade ou resistência destrutiva.

É necessário acordar o coração e atender dignamente à parte que nos compete no drama evolutivo da vida, sem ódio, sem queixa, sem desânimo.

A experiência é o que é.

Nossos companheiros são o que são.

Cada qual de nós recebe o quinhão de luta imprescindível ao aprendizado que devemos realizar. Ninguém está deserdado de oportunidades, em favor da sua melhoria.

A grande questão é obedecer a Deus, amando-O e servir ao próximo de boa-vontade. Quem solucionou semelhante problema, dentro de si mesmo, sabe que todas as criaturas e situações da senda são mensagens vivas em que podemos recolher as bênçãos do amor e da sabedoria, se aceitamos a lição que o Senhor nos oferece.

Nesse sentido, pois, não nos esqueçamos de que Paulo, o intimorato batalhador do Evangelho, sob tormentas de preocupações, encontrou recursos em si mesmo para dizer aos irmãos de luta: - "Regozijai-vos sempre."


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.