22 fevereiro 2026

Um cavalo de batalha

Fazer cavalo de batalha é uma expressão que significa dificultar o que seria fácil, inventar obstáculos. Sua origem vem da Idade Média, época das justas, lutas corpo-a-corpo com armas brancas, apogeu da cavalaria.

Os cavaleiros usavam armaduras metálicas com até 30 quilos! Seus cavalos também as recebiam, pois, vulneráveis, seriam alvos para arqueiros inimigos. Morto, o animal deixaria o cavaleiro a pé, quase imobilizado, pelo peso da armadura. Por isso, os cavalos de batalha eram tão importantes. Tinham de ser robustos para carregar peso, além de ágeis e valentes. Era complicado, e essencial, preparar um bom cavalo de batalha.

Conta a história que, em 1415,

Gramática dos estrangeiros

 COMO UMA PALAVRA IMPORTADA DANÇA CONFORME A MÚSICA DO NOSSO IDIOMA


Ao entrar no léxico de uma Língua, o estrangeirismo abre nesse idioma um capítulo especial da gramática no que toca à flexão de número e à referência ao gênero.

Em relação à indicação do plural dos estrangeirismos ainda não adaptados ao Português, o primeiro impulso é assinalar a flexão com o pluralizador - s, qualquer que seja a procedência do estrangeirismo: films, leaders, dandys, lieds, leads, revolvers, pennys, sportsmans, curriculuns, etc.

Alguns desses plurais

20 fevereiro 2026

Jogos Circenses

As crianças que nasceram ainda outro dia, que ainda estão aprendendo o mundo, confrontam os tigres e os elefantes com as imagens que lhes foram apresentadas nos livros de histórias. Desejariam que os elefantes fossem muito maiores, e os tigres e os leões muito mais terríveis. Creio que a elegância dos domadores lhes deixa um certo desgosto de facilidades: talvez preferissem

Em que crê quem não lê?

OBRAS DE AUTOAJUDA ADMINISTRATIVA USAM MECANISMOS DE CONQUISTA DAS RELIGIÕES


Muitos apontam a falta de leitura como a grande culpada pelo nível dos informativos e comunicados nas empresas. Igualmente culpada é a própria leitura: o nível de publicação de lixo em administração é bem alto. A leitura, convenhamos, faz falta, mas seria melhor não ler as toneladas de bobagens, autoajuda e falsas teorias de gestão que grassam no mundo corporativo.

Admito que o vazio dessas publicações é apaziguador. Não há quem vá empreender esforços de análise nem de reflexão devido a essas publicações. Os profissionais se sentem bem achando que a vida nas empresas vai melhorar com aquelas palavras de ordem, frases destituídas de sentido, truísmos e aqueles "ensinamentos" ao alcance de todos. Acredite: eles acreditam.

A ausência de significado, de embasamento, de vínculo com o real, na maioria das publicações de administração, permite que cada um crie sua versão e adote uma interpretação qualquer, até a da mídia de venda. Isso ocorre ainda que não se compreenda o livro. Aliás, ocorre ainda que não se leia, o que sublinha a mudança de tratamento das editoras: referem-se ao cliente e não ao leitor - leitor é quem lê; cliente é quem compra.

Não me surpreendem as pessoas que compram e não leem. Além dos impulsos consumistas, a pergunta é: preciso ler um livro de abordagem inútil, irrelevante? Não, decerto. Também não precisaria tê-lo comprado. Precisar, não precisa. Ter o livro, entretanto, cria o sentimento de pertencer ao grupo que está mais antenado com o que se passa nas organizações. Na perspectiva de quem? Das pessoas desse próprio grupo. Perdoai-os, Senhor; eles não sabem o que fazem. São crentes. Crentes que descobriram a verdade.

Os autores dessas bobagens não se aprofundam nas questões da realização do trabalho. Seus empenhos se concentrem na busca de uma metáfora, de uma figura de linguagem que seja aceita, que soe próxima, para que seja usada e abusada. É um abuso. Mas vende bem. Cada cliente (leitor?) usa a "metáfora" da maneira que mais lhe aprouver, sem que as interpretações distintas causem qualquer polêmica. Onde houver discórdia, que a autoajuda leve a união.

O conteúdo infundado, vazio de significação, respalda esse comportamento e acaba por afetar e afastar outras leituras de negócios com material de discussão interessante.

O bombardeamento mídia com autoajuda em administração empobrece e emburrece o ambiente organizacional. No entanto, vivemos no mundo das aparências, e comentários sobre o que está em voga fazem com que o profissional pareça atualizado. Ele está na moda, mas o resultado é fútil. É fashion.


Texto de Luis Adonis Valente Correia retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 5, Editora Segmento, São Paulo, Março de 2006.

18 fevereiro 2026

Escolha o Seu Sonho

Devíamos poder preparar os nossos sonhos como os artistas, as suas composições. Com a matéria sutil da noite e da nossa alma, devíamos poder construir essas pequenas obras-primas incomunicáveis, que, ainda menos que a rosa, duram apenas o instante em que vão sendo sonhadas, e logo se apagam sem outro vestígio que a nossa memória.

Como quem resolve uma viagem, devíamos poder escolher essas excursões sem veículos nem companhia - por mares, grutas, neves, montanhas, e até pelos astros, onde moram desde sempre heróis e deuses de todas as mitologias, e os fabulosos animais do Zodíaco.

Devíamos, à vontade, passear pelas margens do Paraíba, lá onde suas espumas crespas correm com o luar por entre as pedras, ao mesmo tempo cantando e chorando. - Ou habitar uma tarde prateada de Florença, e ir sorrindo para cada estátua dos palácios e das ruas, como quem saúda muitas famílias de mármore... - Ou contemplar nos Açores hortênsias da altura de uma casa, lagos de duas cores, e cestos de vime nascendo entre fontes, com águas frias de um lado e, do outro, quentes... - Ou chegar a Ouro Preto e continuar a ouvir aquela menina que estuda piano há duzentos anos, hesitante e invisível - enquanto o cavalo branco escolhe, de olhos baixos, o trevo de quatro folhas que vai comer...

Quantos lugares, meu Deus, para essas excursões! Lugares recordados ou apenas imaginados. Campos orientais atravessados por nuvens de pavões. Ruas amarelas de pó, amarelas de sol, onde os camelos de perfil de gôndola estacionam, com seus carros. Avenidas cor-de-rosa, por onde cavalinhos emplumados, de rosa na testa e colar ao pescoço, conduzem leves e elegantes coches policromos...

... E lugares inventados, feitos ao nosso gosto: jardins no meio do mar; pianos brancos que tocam sozinhos; livros que se desarmam, transformados em música...

Oh! Os sonhos do "Poronominare"!... Lembram-se! Sonhos dos nossos índios: rios que vão subindo por cima das ilhas: ... meninos transparentes, que deixam ver a luz do sol do outro lado do corpo... gente com cabeça de pássaro... flechas voando atrás de sombras velozes... moças que se transformam em guaribas... canoas... serras... bandos de beija-flores e borboletas que trazem mel para a criança que tem fome e a levantam em suas asas...

Devíamos poder sonhar com as criaturas que nunca vimos e gostaríamos de ter visto: Alexandre o Grande; São João Batista; o Rei David, a cantar; o Príncipe Gáutama...

E sonhar com os que amamos e conhecemos, e estão perto ou longe, vivos ou mortos... Sonhar com eles no seu melhor momento, quando foram mais merecedores de amor imortal...

Ah!... - (que gostaria você de sonhar esta noite?)


Crônica de Cecília Meireles retirada do livro Janela Mágica, 11ª edição, Coleção Veredas, Editora Moderna, São Paulo, 1991.

Para entender outras Línguas

 CONHECIMENTO DO IDIOMA PODE SER USADO PARA PERCEBER AS SEMELHANÇAS COM OUTRAS TRADIÇÕES DERIVADAS DO LATIM


A afirmação de que conhecer o Português ajuda a entender outras Línguas não é nova. Mas o que ela significa, de fato, poucas vezes é explicado. Longe de servir a uma pregação ufanista que o Português seja uma Língua riquíssima e atribuir-lhe características que pretensamente só se encontram nesse idioma, é preciso lembrar que o idioma formou-se e ainda se forma num contexto comum a muitas outras Línguas.

Portugal é um país europeu e cristão e só isso basta para que muitas características de outras Línguas europeias de tradição cristã sejam similares. Nesse sentido, o Basco, o Húngaro, o Finlandês e o Estoniano possuem similaridades, por participarem desse mesmo ambiente, apesar de serem Línguas totalmente distintas dos grupos majoritários europeus (românico, germânico, eslavo, etc.).

Por outro lado, os Bálcãs e o Leste Europeu formam um subconjunto em que muitas similaridades ali encontradas não se veem na Europa Ocidental, cuja Língua de escrita durante a Idade Média sempre foi o Latim. Da mesma forma, há semelhanças entre os países muçulmanos (da Malásia ao Marrocos), por causa da influência do Árabe, ou no Extremo Oriente, por causa do Chinês.

Além do Latim, o Francês foi uma Língua que divulgou formações lexicais nos séculos 18 e 19, bem como o alemão foi responsável pelos neologismos dos países nórdicos, o Húngaro e as Línguas Eslavas no mesmo período. A partir do século 20, foi o Inglês que se tornou responsável por isso.

Assim, a ideia de "trancar à chave", deixando algumas pessoas de fora, derivou uma ideia mais abstrata de "excluir" já no Grego antigo, com o verbo ekkleío (de ek- "para fora" e a raiz de kleís "chave"). Por ter grande força metafórica, o latim imitou essa forma para ex-cludere (de ex- "para fora" e claudere "fechar à chave"), por sua vez imitado pelo alemão aus-schlieben, pelo Norueguês ute-lukke, pelo Húngaro ki-zár, pelo Russo iz-kljuèit', todos com a mesma montagem. Essa transmissão cultural da metáfora, apesar de formas tão distintas, chama-se decalque e é um empréstimo indireto: assim, quando se diz hot dog, usa-se um empréstimo do Inglês, mas em cachorro-quente, trata-se de um decalque.


Transmissão sonora

Outra forma de transmissão cultural pelas palavras se dá pela herança e aqui convém fazer uma distinção. Há as heranças legítimas, de pai para filho: a palavra se torna difícil de reconhecer, mas com a ajuda de certas transformações sonoras, pode-se verificar a real afiliação da palavra com a Língua antecessora.

Assim, "testa" vem do Latim testam e o mesmo se pode dizer de tête do Francês. Na passagem do Latim para as duas Línguas cai o m final, mas o a final permanece no Português, enquanto no Francês se torna e. O mesmo se pode dizer do s latino, conservado no Português e perdido no Francês. Daí se percebe que "festa" é fête em Francês, e que "estrela" é étoile: o e medial se tornou oi, como em "pêra" e poire.

Essas transformações, metaplasmos, nem sempre explicam tudo: se o fizessem, afirmar-se-ia indiretamente que as Línguas sofrem modificações mecânicas previsíveis, o que nem sempre ocorre. Ambas, "estrela" e étoile vêm do latim stellam: em ambas, acrescentou-se um e- inicial (o que não ocorre no Italiano stella nem no Romeno stea) e o Português acrescentou um r que não aparece em outras Línguas (mas que não aparece em composto como constelação ou estelar). Esse r, contudo não é uma transformação previsível, mas algo que surgiu por analogia, isto é, por semelhança com outras formas semanticamente aparentadas: possivelmente com astro. Assim os neogramáticos do século 19 explicavam as transformações sonoras: pelos metaplasmos ou pela analogia.


Intermediários

Mas há um segundo tipo de herança, que é um empréstimo disfarçado: nem toda palavra de origem latina no Português foi herdada de pai para filho. Sempre houve pessoas ocultas, que conheciam bem o latim e ressuscitavam palavras abandonadas pela fala cotidiana. 

Infelizmente, no caso do Português, palavras desse tipo são quase sempre empréstimos. É raro uma palavra transcultural ligada a alguma área do conhecimento ter origem no Português (curiosa exceção é "antropônimo"): quase tudo vem do Francês ou do Alemão via Francês (e, atualmente, do Inglês). Assim, "fanatismo" aparentemente vem de fanático + -ismo, mas por que não é fanaticismo (como no Inglês fanaticism)? Ora, na verdade, quem cunhou a palavra foram os franceses: fanatisme em 1688; no Português ela só aparece em 1752.

Conhecer o étimo do Português facilita a compreensão de alguns problemas das Línguas estrangeiras como sua grafia: por difficile em francês se escreve com ff (como o Inglês difficult)? A palavras é Latina: difficilis e os ff (ambos pronunciados antigamente) provém de assimilação de sf na composição dis + facilis > disfacilis > difficilis (a transformação do a em i é fenômeno chamado apofonia que ocorre em Latim quando um prefixo se soma a um radical). Daí se entende por que outros empréstimos cultos têm a mesma característica: diffamer "difamar", différent "diferente", diffusion " difusão".

Por outro lado lado, dynamique "dinâmico" se escreve com y e com um n só porque não tem nada a ver com esse caso: a palavra remonta ao grego dynamikós "poderoso" (derivada de dy + namis "força"), foi ressuscitada por algum francês culto do século 17 e importada pelo Português com a grafia dynamico, só no século 19. O problema é que a grafia francesa e a inglesa são etimológicas, a do Português não é mais: saber etimologia para entender suas idiossincrasias gráficas é, portanto, imprescindível.


Texto de Mário Eduardo Viaro retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Editora Segmento, São Paulo, Fevereiro de 2006.

16 fevereiro 2026

Quando a Língua comemora

 FORMAS COTIDIANAS DE FELICITAÇÃO EXPRESSAM ANTIGAS REFLEXÕES SOBRE O MODO DE ENCARAR A VIDA


Uma das metáforas mais frequentes nos meios culturais é "resgatar". Fala-se em resgatar não só reféns ou vítimas de enchentes, mas também as raízes culturais, a autoestima, etc. Modismos à parte, parece-nos oportuno esse uso do "resgatar" quando se descreve algo que ocorre no filosofar. Pois a tarefa de filosofar é, em boa medida, um resgatar.

Pelo menos essa é a posição de tantos filósofos que, de Platão a Heidegger, voltam-se para a linguagem comum, procurando recuperar as grandes experiências humanas que acabaram por nela desembocar. Pois essas experiências, vívidas  intuições que o homem tem sobre si mesmo e o mundo, brilham por um momento na consciência e depois vão se desvanecendo, desaparecem. Ficam invisíveis, como que escondidas num depósito: são "raptadas" pela linguagem (e não só por ela), a linguagem como: essa que falamos e ouvimos todos os dias.

Assim, frequentemente, as palavras têm um potencial expressivo muito maior do que supomos à primeira vista, tão familiar e automático é o uso que delas fazemos. Daí a atenção do filósofo para os modos de dizer, os contextos, as sutilezas da linguagem comum, em sua Língua e em outras: como caminho para recuperar as grandes experiências que se condensaram em linguagem.

Daí também a atenção para a etimologia, que frequentemente nos põe em contato com a experiência humana que se condensou em linguagem. Como é bem sabido, é nessa linha, a de buscar "o que dizem as palavras na experiência originária de pensamento", como diz Martin Heidegger, em Ensaios e Conferências (Editora Vozes), levando ao extremo (com as devidas ressalvas) as análises etimológicas - que se situam as reflexões do filósofo alemão, que chega a afirmar: "o acesso à essência de uma coisa nos advém da linguagem".

Podemos, como Heidegger, "pensar a atitude vigorosa daquilo que as palavras, como palavras, nomeiam de forma concentrada", ao verificar o potencial expressivo das formas de convivência cotidiana, como "parabéns".


A hora do "parabéns"

Quando transcendemos o âmbito protocolar das formalidades e da praxe, os votos de felicitação: "parabéns!" (e seus irmãos: o Espanhol enhorabuena!, o Inglês congratulations!, o italiano auguri!) vemos que eles trazem em si diferentes e complementares indicações sobre o mistério do ser e do coração humano. O que significam essas formulações? O que realmente dizemos com "parabéns" ou "congratulations"? Essas expressões trazem um significado, por assim dizer, "invisível a olho nu".

Comecemos pela fórmula Castelhana: Enhorabuena!, literalmente "em boa hora". Indica que um certo caminho (os anos de estudo que desembocaram numa formatura, árduo trabalho de montar uma empresa que se inaugura, etc.) chega, nesta hora (em que se dão as felicitações, a seu termo: está é que é a hora boa, enhorabuena! Precisamente o fato de ser a hora da conclusão é que a torna uma boa hora. A sabedoria dos antigos fala da "hora de cada um", de horas boas e más. Mas a hora boa, a hora melhor é a da conclusão, a da consumação, a do bom termo do caminho, a hora do fim, que é melhor do que a do começo: "Melior est finis quan principium" (Ecl, 7,8).

A formulação inglesa, também presente no alemão e outras Línguas, congratulations, expressa a alegria compartilhada pelo bem do outro, com quem nos con-gratulamos, isto é, nos co-alegramos. Essa comunhão é sugerida também pela forma depoente dos verbos latinos gratulor e congratulor. A forma depoente indica que a ação descrita no verbo não é ativa nem passiva: exercida pelo sujeito, repercute nele mesmo. Ou seja, no caso, que a alegria que externamos ao felicitar tal pessoa é também, a título próprio, muito nossa.

O árabe mabruk indica o caráter de bênção daquele dom pelo qual felicitamos alguém. O italiano auguri, auguri tanti! anuncia (ou enseja) que este bem celebrado é só prenúncio, prefiguração, augúrio de outros ainda maiores que estão por vir.

Com a encantadora forma "parabéns" expressamos precisamente isto: que o bem conquistado, a meta atingida, seja usada "para bens". A aglutinação da preposição "para" com o substantivo "bem" é confirmada, por exemplo, por Antônio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário Etimológico. Em nossa herança cultural, do cristianismo medieval, o mal não tem existência própria, por si: ele é antes uma distorção do bem. E, como se sabe, qualquer bem obtido pode ser usado "para bens" ou "para males", pode contribuir para a autorrealização ou para autodestruição. Pensemos nos casos de um amigo que ganha a medalha de ouro, ou se elege deputado, ou tira a carta de motorista, ou obtém o diploma de advogado... É evidente que essas conquistas - em si boas - podem também ser para males. Por isso, o dom fundamental da vida é celebrado com voto de parabéns...


Tradução do "Parabéns a Você" demorou cinco minutos

Não mais do que cinco minutos foi o tempo que Bertha Celeste Homem de Melo levou para fazer a versão brasileira de Happy Birthday em 1940. Bertha morreu em agosto de 1999, aos 97 anos, vítima de infecção pulmonar, em Jacareí, no Vale do Paraíba (SP). A professora morava na cidade havia 40 anos, mas foi enterrada em Pindamonhagaba, onde nasceu em 21 de março de 1902. Ela criou Parabéns a Você, cantada até então apenas em Inglês, para disputar o concurso de quadrinhas promovido pelo Programa do Almirante, da Rádio Tupi do Rio de Janeiro, para escolher a melhor tradução da trilha sonora mais famosa dos aniversários brasileiros. (Luiz Costa Pereira Júnior)

O peso dos "pêsames"

"Carregava uma tristeza...", diz o antigo samba de Paulinho da Viola: a tristeza é - evidentemente - um peso, os famosos pesares...! E, para carregar o peso da dor, da tristeza, nada melhor - ensina Santo Tomás - do que a ajuda dos amigos: "Porque a tristeza é como um fardo pesado que se torna mais leve para carregar quando compartilhado por muitos: daí que a presença dos amigos seja tão apreciada nos momentos de dor."

Compreende-se, assim, imediatamente, que a expressão de condolências ("doer-se com") seja pêsames, literalmente: pesa-me ("eu te ajudo a carregar o peso desta tua tristeza"). O étimo é confirmado por Antônio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário Etimológico (Nova Fronteira), segundo quem "pêsame" vem de "peso", resultado da ação que a gravidade exerce num corpo, daí "pesa-me".


Texto de Luiz Jean Lauand retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Editora Segmento, São Paulo, Fevereiro de 2006.

Como pronunciar o s da palavra "subsídio"?

 Como pronunciar o s da palavra "subsídio"? Com som de C ou Z?

A pronúncia da palavra subsídio é "subcídio". O s mantém seu som original, como em sapo, sábado, sangue. O mesmo som ocorre em uma série de palavras com aspecto semelhante: subsidiário, subsequente, subseção, subserviente, subsinuoso, subsolo, subsentido, nas quais o s que vem depois do prefixo sub- é pronunciado com o valor de si, ci. E isso ocorre também com as palavras "subsistir", "subsistência", cujo sis é pronunciado igualzinho a cis!

"Subsídio" vem do latim subsidiu, "linha de reserva (na ordem de batalha); reserva, tropas de reserva; reforço, socorro. No galego dos séculos 13 e 14 havia sossídio. A dúvida quanto à pronúncia da palavra talvez ocorra porque, na Língua Portuguesa, o s que vem entre duas vogais apresenta o som de z: casa, preciso, ocaso.

Em tese, o fato de o s que vem entre vogais ter o som de z só ocorreria quando as vogais viessem grafadas, ou seja, representadas na palavra escrita pelas suas letras correspondentes. E isso não ocorre com "subsídio", em que só uma vogal, o i, vem depois do s. Não há vogal escrita antes dele.

Mas nem isso podemos garantir, pois há palavras, como "obséquio", por exemplo, em que o s também só tem vogal depois de "se" e é pronunciado como se fosse z. Como nossa ortografia é etimológica (de acordo com a origem das palavras), a ortoépia (o estudo da pronúncia das palavras) traz alguns sons do latim. Já na palavra "observar", o s volta a manter seu som.


Texto sem autoria retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Editora Segmento, São Paulo, Fevereiro de 2006.

14 fevereiro 2026

Esperar e Alcançar (103)

"E assim, esperando com paciência, alcançou a promessa." - Paulo. (HEBREUS, 6:15.)


A esperança de atingir a paz divina, com felicidade inalterável, vibra em todas as criaturas.

O anseio dos patriarcas da antiguidade é análogo ao dos homens modernos.

O lar coroado de bênçãos.

O dever bem cumprido.

A consciência edificada.

O ideal superior convenientemente atendido.

O trabalho vitorioso.

A colheita feliz.

As aspirações da alma são sempre as mesmas em toda parte.

Contudo, esperar significa persistir sem cansaço e alcançar expressa triunfar definitivamente.

Entre o objetivo e a meta, faz-se imperativo o esforço constante e inadiável.

Esperança não é inação.

E paciência traduz obstinação pacífica na obra que nos propomos realizar.

Se pretendes materializar os teus propósitos com o Cristo, guarda a fórmula da paciência como a única porta aberta para a vitória.

Há sofrimento em teus sonhos torturados? Incompreensão de muitos em derredor de teus desejos? A ingratidão e a dor te visitam o espírito?

Não chores perdendo os minutos, nem maldigas a dificuldade.

Aguarda as surpresas do tempo, agindo sem precipitação.

Se cada noite é nova sombra, cada dia é nova luz.

Lembra-te de que nem todas as águas se acham no mesmo nível e nem todas as árvores são iguais no tamanho, no crescimento ou na espécie.

Recorda as palavras do apóstolo dos gentios.

Esperando com paciência, alcançaremos a promessa.

Não te esqueças de que o êxito seguro não é de quem o assalta, mas sim daquele que sabe agir, perseverar e esperar por ele.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

08 fevereiro 2026

Palavras que fazem carnaval

                   CONTROVÉRSIA SOBRE AS RAÍZES DA FESTA LEVOU                                                               À CONFUSÃO SOBRE AS ORIGENS DO TERMO  


A alegria coletiva, folia organizada, caricatura da seriedade dominante. No rótulo carnaval, cabe mais de uma farra. É um tipo de festa, mas não só. É um tipo muito específico de alegria. E algo mais. Não só uma libertação de hábitos temporária. Nem exclusividade brasileira.

Fazer um carnaval em torno de algo é promover estardalhaço, exagerar a dose, contagiar-se por um rompante de alegria. Já pular o carnaval é participar de uma farra com prazo de validade, desfiles e blocos, poucos dias antes da quarta-feira de cinzas.

Em O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro (Ediouro), Felipe Ferreira acredita que a confusão entre os dois significados (festa e estado de espírito) causa muita discussão em torno das origens do termo. Há pesquisadores, aponta o autor, que consideram os dois sentidos a mesma coisa - e, por isso, a festa remontaria a milênios, ao Egito, à Roma antiga. Até as comemorações de colheitas anteriores à Era Cristã seriam carnavais.

Assim, a presença, nas festas e procissões pagãs, de charretes em forma de navios gerou o mito de que a palavra viria de carrus navalis (carro em forma de navio). O fato é que, aos bispos dos primeiros séculos católicos, pouco importavam as distinções entre festas pagãs nos mais diversos países e meses. Até o século 18, todas recebiam o estigma de comemorações demoníacas.

Teria sido a Igreja que, para melhor estigmatizar o pagamento, consolidou a noção de carnaval como festa de exageros, caricaturas e ritos de inversão. A história do termo "carnaval" é alegórica. Em 1604, o papa Gregório I decretou que os fiéis deveriam abandonar a rotina para, por 40 dias, dedicarem-se à comunhão com o espírito. A quaresma era a imitação de Jesus, que por 40 dias viveu entre o jejum e as tentações.

Em 1091, o papa Urbano II convocou o Sínodo de Benevento, que definiu a data oficial para a quaresma, o primeiro dia batizado de Quarta-feira de Cinzas (dado o hábito de marcar a testa com uma cruz feita de cinzas, por penitência). O dia inicia as privações de prazeres, a proibição de comer carne e abdicação de bens materiais. Com o tempo, consagrou-se o hábito de antecipar a quaresma com um período extraordinário, com tudo o que era negado aos fiéis - fartura, caricatura da autoridade e das questões do espírito, exagero e farra.


Ritos da Quaresma

Mais que uma festa, lembra Ferreira, o carnaval é uma data. Por isso, não há uma forma de brincar o carnaval, há muitas. Daí uma flutuação em torno da origem do nome. Os últimos dias de fartura antes da quaresma começaram a ser chamados de "adeus à carne" (em italiano carnevale, afirma Ferreira). O período de adeus à carne recebeu vários nomes entre os séculos 12 e 13, período em que tomam forma as diferentes manifestações que derivariam no carnaval de hoje: carnelevarium em 1097, caramentran, carnisprivium ou carnelevare em 1130, carnelevamem em 1195.

O carnaval não se esgota numa palavra. Tampouco numa festa. Mas nas diferentes formas que assumir - um conceito, um estado de espírito, uma indústria (dos desfiles cariocas aos trios de Salvador) - será sinônimo da vitalidade popular de reinventar-se e divertir-se até muito além do próximo carnaval.


Texto sem identificação de autoria; retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Fevereiro de 2006, Editora Segmento, São Paulo.