11 setembro 2026

Por que choramos?

Lágrimas escorrendo pelo rosto são, por si só, um inconfundível pedido de ajuda. Não que os outros componentes do choro sejam menos chamativos: soluços e berreiros, assim como queixo trêmulo e boca com cantos virados para baixo, também são sinais de que algo não vai bem! Mas apesar de reconhecermos cada elemento do choro com facilidade, os mecanismos cerebrais que o controlam não são bem conhecidos. Em parte porque costuma ser difícil - ao menos para adultos - chorar sob encomenda em laboratório.

Claro que sempre é possível usar cebolas para colher lágrimas. Nesses casos, as lágrimas escorrem em resposta à irritação do olho causada por um gás liberado pela cebola cortada. Lágrimas, no entanto, são produzidas o tempo todo. Elas têm o papel de manter os olhos limpos, lubrificados e em bom estado. O que sobra é drenado para dentro do nariz pelos canais lacrimais, situados no canto interno das pálpebras. A questão ainda sem resposta é como certas situações fazem a produção de lágrimas aumentar tanto que os canais não dão conta do recado: o que consegue ser drenado escorre pelas narinas; o restante transborda e rola pelo rosto.

As dúvidas não param por aí. Hoje sabemos que, quando choramos, nossa respiração muda, o que nos permite fazer barulhos diferentes dos que normalmente, produzimos. Essa alteração respiratória é tão importante que ocorre também em outros animais. Os sons do choro são um poderoso meio de comunicação, sobretudo na falta de palavras. Filhotes de macacos choram por suas mães; cachorros choramingam por desconforto ou fome. Humanos recém-nascidos, é claro, são craques nesse tipo de comunicação a plenos pulmões. Qualquer mãe de primeira viagem, por exemplo, distingue entre um choro sustentado que indica dor e aquele ritmado do bebê quando quer atenção.

Se apenas os sons do choro já são chamativos, qual é a utilidade de derramar lágrimas? Não se sabe ao certo, mas chorar parece proporcionar alívio imediato. Muita gente diz que se sente melhor após verter lágrimas. Talvez elas ajudem a eliminar substâncias produzidas durante o estresse. Ao menos em outros animais as lágrimas têm essa função de "descontaminação". As de bichos que vivem em água salgada - como focas e crocodilos -, por exemplo, ajudam a eliminar o excesso de sal do corpo. Daí vem a expressão "chorar lágrimas de crocodilo", isto é, choramingar sem um pingo de emoção verdadeira. Alguns artistas são craques nisso. Algumas crianças também!


Texto de Suzana Herculano-Houzel (Departamento de Anatomia da UFRJ) retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 132, 2ª Edição, FNDE, Ministério da Cultura, Rio de Janeiro, Janeiro e Fevereiro de 2003.

Quando crescer, vou ser... Farmacêutico!

Na certa, você já esteve alguns dias debaixo das cobertas, com febre alta, calafrios e um mal-estar danado! Lembra quando, entre um sonho e outro, alguém trazia aquele medicamento de gosto horrível? Aposto como naquelas horas você se perguntava quem seria capaz de fazer um daqueles. Bem, saiba agora que o farmacêutico é o responsável pela elaboração do remédio que cura o febrão da gente - e pelo desafio de melhorar aquele sabor desagradável que conhecemos! Como profissional, ele trata de proteger e recuperar a saúde das pessoas. Vamos saber mais?

O farmacêutico surgiu por volta de 1240, quando, na Prússia, o Imperador Frederico II, separou a Farmácia, ciência que ele estudava - da Medicina. No Brasil, a profissão surgiu em 1832, 24 anis depois da chegada de Dom João VI e da família real. Antes, para ser farmacêutico era preciso ser médico. Talvez por isso, até hoje, as pessoas confundam um pouco as duas profissões, o que é perigoso. Principalmente, porque não cabe ao farmacêutico receitar medicamentos, pois ele não é um especialista em doenças como o médico. Ao farmacêutico cabem muitas outras funções na área da saúde.

Pode-se encontrar este profissional em todas as etapas que envolvem a elaboração de um medicamento. Aliás, você sabe o que é um medicamento? É toda matéria de origem humana, animal, vegetal ou química que, depois de trabalhada em laboratório, possui a função de curar ou prevenir uma doença. O farmacêutico é aquele que extrai, por exemplo, a vitamina C dos alimentos - como a laranja - e a transforma nos comprimidos que tomamos quando estamos resfriados! Depois de elaborados, os medicamentos são classificados em função de suas propriedades: uns para dor de cabeça, outros para queimaduras etc. etc. etc. Finalmente, eles vão para as drogarias, onde há um farmacêutico de plantão cuidando para que as pessoas façam bom uso dos remédios. Em geral, não é a mesma pessoa que atua em todas as etapas. Cada farmacêutico escolhe a sua área de especialização, e, acredite, há muitas delas!

Ele pode estar ligado à indústria de alimentos. Nessa função, verifica a qualidade dos produtos, estabelece prazos de validade (aquelas datas que vemos nas embalagens) e cuida das condições de estocagem, isto é, faz de tudo para que os produtos não estraguem quando guardados. É nessa área que trabalha a farmacêutica Miriam Moura. Ela dá aulas práticas de controle de qualidade de alimentos na Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ). Miriam sonhava em trabalhar num laboratório, como os cientistas! Contudo, "queria uma profissão que prestasse assistência na área de saúde, por isso escolhi Farmácia".

A professora lembra que o farmacêutico pode estar ligado a órgãos ou laboratórios de análises clínicas e toxicológicas. Ou seja, pode trabalhar em hospitais analisando o sangue das pessoas, ou até no Instituto Médico Legal (IML) - local para onde vão as pessoas, logo após a morte - investigando se a causa do falecimento foi intoxicação e determinando o tipo. Também é de responsabilidade do farmacêutico a produção e o controle de soros e vacinas. Ele pode ainda atuar na indústria de cosméticos. Afinal, xampu, sabonete e pasta de dente - assim como os medicamentos - são frutos de muita pesquisa e análise em laboratório.

"As áreas de atuação são tantas e tão interessantes que fica até difícil decidir o rumo da nossa vida profissional", diz a farmacêutica industrial Simone Padilha. Ela já foi farmacêutica responsável em uma drogaria e afirma que a importância dessa função está na proximidade do profissional com as pessoas. "Se alguém estiver comprando um antibiótico, por exemplo, o farmacêutico deve ajudá-lo a montar uma tabela com os horários, perguntar se ele toma outro medicamento e alertá-lo sobre alimentos que possam modificar o efeito do antibiótico", explica. Na época em que prestou vestibular, ela queria trabalhar como Química, pensou melhor e parece ter acertado em cheio escolhendo a faculdade de Farmácia: "Amo meu trabalho, amo minha profissão." Agora, imagine você se ela tivesse lido a CHC quando criança: não ia pensar em outra coisa na vida além de ser farmacêutica!


Texto de Maria Ganem retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, 2ª Edição, Ano 16, Número 132, Janeiro/Fevereiro de 2003, Ministério da Educação, FNDE, Rio de Janeiro.

28 agosto 2026

Beto

O desgosto do velho Tobias é o filho: a medonha carinha vermelha do mongoloide.

- É tarado - desculpa-se e corrige. - Doente de nascença.

Um bicho em criança, andava de quatro, a língua de fora; aos pulos, subia na árvore com a agilidade do mico. Amarrado com os cachorros no fundo do quintal. Escapando, arrastava a coleira pela rua - uma correria entre as crianças. Cabeça bem pequena, nariz purpurino, um guincho selvagem. Aos vinte anos, engrola as palavras - a língua uma ostra que não engolia.

- A omba oou...

A pomba voou. Mais que as surras de correi do pai, domesticava-o a paciência amorosa da velha Zica. No sábado apara-lhe as unhas e dá um cigarrinho para que aceite o barbeiro; inquieto na cadeira, três talhos no pescoço atarracado.

Enxuga a louça para a mãe, sem quebrar um prato. Traz água do poço, corta lenha, lida na horta. Tem paixão pelo casal de garnisés. Ganhou da mãe um vira-lata, mestiço de fox, envenenado pelo fiscal da prefeitura.

- Matou o Foc. Ele que matou o Foc. Deu bolinha pro Foc.

Implica com o vizinho:

- Quando é que ele sai? Tire o homem, pai. Ele deixou crescer o mato.

- Daqui a quatro luas o home sai.

- Tá em...

Sofre o feitiço da lua. Corre pelo pomar, atira pedra no garnisé. Pendura-se na cerca para chamar a pombinha. Dona Zica pergunta, intrigada:

- Será que chove, Alberto?

Somente com a mãe conversa de boa sombra. Imita o pai, mão cruzada nas costas, a cabecinha inclinada no ombro. Ostenta o cigarro de palha na orelha. De repente, beijando a mão e virando os olhos, revela à dona Zica os amores escondidos do marido.

- Tá uim, n'é?

- Está sim.

- Pode que ele saia.

- Quem?

- O homem porco.

Pede licença ao vizinho, que o garnisé pulou a cerca. Pergunta pelo Foc. Ou pela pombinha que voou e não voltou. Quer seduzir a criadinha, fuma o cigarro apagado, de cabeça para baixo na laranjeira. A menina sorri, um pouco assustada. Beto pisca o olho, a flor de espuma no canto da boca.

- Ela riu para mim. O pai deixa?

- Eu deixo - responde Tobias, divertido. - Mas e o homem?

- É brabo.

Um circo chegou à cidade. Durante o desfile, sacode a cerca, xinga os bichos:

- Ilhos das ães!

- Beto, olha lá o leão.

Não dorme com os urros do leão doente: buzina rouca de fordeco.

A mãe o encontrou, véu no rosto, as imagens do oratório dispostas em fila.

- A Maria louquinha para casar. A Maria chora. A casa do homem tem raposa.

- Ele vai se mudar daqui a três luas.

- Que deixe a Maria.

E encostando no ouvido o relógio sem ponteiro:

- Agora são quinze minutos.

O circo foi embora. Despede-se a criadinha, medrosa do Beto que, só de amor, espreme vagalume na unha fosforescente. Imita os saltos do sapo barrigudo. Com uma vareta risca-lhe a pele enrugada e, ao leite das feridas, baba-se de gozo.

Na tarde calmosa, corre de um lado para outro, toda a língua de fora. Chama a pombinha. Sai atrás do garnisé. Dona Zica gemendo de dor nas cadeiras.

- É a chuva, Alberto?

Recolhe a roupa do varal, pronto caem os primeiros pingos.


Conto de Dalton Trevisan retirado do livro Cemitério de Elefantes, Editora Record, 11ª Edição, Rio de Janeiro, 1997.

Hera, a maior das deusas - A força da fecundidade e da consolidação

É par complementar de Zeus (e ele, dela), tendo os dois atributos do feminino por excelência: a fecundidade e a dedicação para conservar e fortalecer toda a obra criada. E, realmente, de nada adianta o esforço da criação se não houver proteção e dedicação à obra criada. É preciso cuidar e proteger para que a obra possa vingar. Assim, Hera é, por excelência, o princípio materno que cuida e consolida tudo o que é criado. Sem cuidado e dedicação, não há criação que sobreviva e se consolide. Sem criação, não há o que cuidar e consolidar, pois tudo cai num vazio que beira a dissolução do caos.

Na visão popular de Homero, Hera é fiel, virtuosa, intocável e insensível à corte dos celestes. É uma torre de marfim inexpugnável e seu amor é possessivo e exclusivo. Não se cansa de perseguir as paixões ilícitas de seu esposo Zeus, procurando a vingança.

Recebeu de sua avó Gaia (a grande Terra) as romãs de ouro como presente de casamento. Eram o símbolo e o auspício da fecundidade eterna. Vemos assim que Zeus e Hera são os pares complementares dos quais surge e se consolida a obra criada, sendo os arquétipos masculino e feminino por excelência. Ele é a potência que se expande e se multiplica infinitamente. Ela é a potência que contém, pondo à prova, consolidando e fortalecendo a criação, que somente assim é possível, e tudo que é passível de existir no universo deverá submeter-se a essas leis. Seu animal sagrado é o pavão, símbolo de seu encanto e de sua beleza.

Assim, esse casal é um exemplo a seguir para nós humanos e mortais, cabendo a cada um encontrar dentro de si - seja homem ou mulher - sua porção Zeus e sua porção Hera, cultivando-a a aperfeiçoando-a. Para os antigos gregos, os deuses deviam ser imitados pelos humanos. Afinal, somos instrumentos deles. Assim imitá-los é procurar em cada um de nós os meios para contribuir com a infinita criação e sua consolidação.


Texto de Viktor D. Salis retirado do livro Mitologia Viva - Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.

15 agosto 2026

Busquemos a Luz (121)

 "Toda escritura inspirada por Deus é proveitosa... Para instrução na justiça." - Paulo. (II TIMÓTEO, 3:16.)


Procura a ideia pelo valor que lhe é próprio.

Quando a moeda comum te vem às mãos, não indagas de onde proveio.

Ignoras que procede de casa de um homem justo ou injusto, se esteve, antes, a serviço de um santo ou de um malfeitor.

Conhecendo-lhe a importância, sabes conservá-la ou utilizá-la, com senso prático, porque aprendeste a perceber nela o seio da autoridade que te orienta a luta humana.

O dinheiro é uma representação do poder aquisitivo do governo temporal a que te submetes e, por isso, não lhe discutes a origem, respeitando-o e aproveitando-o, na altura das possibilidades com que se apresenta.

Na mesma base, surgem as ideias renovadoras e edificantes.

Por que exigir sejam elas subscritas, em sua exposição, por nossos parentes ou amigos particulares, a fim de que produzam o efeito salutar que esperamos delas em nós e ao redor de nós?

Toda página consoladora e instrutiva é dádiva do Alto.

Não importa que os pensamentos nela corporificados tenham vindo por intermédio do espírito de nossos pais terrestres ou de nossos filhos na carne, de nossos afeiçoados ou de nossos companheiros.

O essencial é o proveito que nos possa oferecer.

O dinheiro com que adquires o pão de hoje pode ter passado ontem pelas mãos do teu adversário maior, mas não deixa de ser uma bênção para a garantia de tua sustentação, pelo valor de que se reveste.

Assim também, a mensagem de qualquer procedência, que nos induza ao bem ou à verdade, é sempre valiosa e santa em seus fundamentos, porque, usando-a em nossa alma e em nossa experiência, podemos adquirir os talentos eternos da sabedoria e do amor, por tratar-se de recurso salvador nascido da infinita misericórdia de nosso Pai Celestial.

Busquemos a luz onde se encontre e a treva não nos alcançará.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Zeus, o maior dos deuses - A energia criadora

Significava o impulso divino que está sempre em ação. Tudo o que toca se multiplica e se expande. É o conúbio entre o temporal e o eterno, pois renova a vida infinitamente. É a potência que se expande em criações que consolidam a vida. Luta eternamente para vencer o caos e a destruição.

Seus símbolos são a águia, a linha reta e o ouro. A água representa a busca pela Criação. A linha reta é a impossibilidade de ter seu rumo desviado; a palavra "caráter" daí se originou, estando associada com retidão, mas não com rigidez. Já o ouro é o símbolo do eterno e da verdade, pois não sofre a ação com o tempo. Cultuar Zeus significa praticar a criação, sendo seu instrumento, e opor-se à destruição e ao caos.

Na visão popular e pedagógica de Homero, Zeus é o conquistador por excelência: está sempre envolvido em amores extraconjugais, dos quais nascem muitos deuses, semideuses e heróis. Sempre arquiteta ardis para escapar de sua esposa ciumenta, Hera. 


Texto de Viktor D. Salis retirado do livro Mitologia Viva - Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.

08 agosto 2026

A Madre de Ouro

 Poço da Roda. Arredores de Bonfim.


Bonfim é uma das cidades mais antigas de Goiás. Como suas irmãs mais velhas, Meia Ponte e Vila Boa de Goiás, guarda ainda, sob muitos aspectos, o cunho dos núcleos coloniais do século XVIII, com a sua inconfundível arquitetura reinol, estilo barroco, de feição pesada, simplória e, ao mesmo tempo bonachona, hospitaleira - aspecto esse que se vai aos poucos apagando dos burgos e vilórios progressistas mais próximos da linha férrea.

Ficou-lhe, pois, ainda intacto, o antiquado perfume de antanho, coisas mortas que a mente aviva e a tradição redoura, vago encanto do passado, sabor que não tem ou já perderam os centros mercantilistas, tomados de febre de riqueza e inovações, do litoral.

Como Goiás, a Triste, embala-a o mesmo sono de duzentos anos de Bela Adormecida, com as reminiscências da época da descoberta, as aluviões de aventureiros e desbravadores à cata do rico filão, página heroica do esforço extinto da raça, que à memória apraz reviver.

Escavações profundas, minas ao desamparo, veeiros revolvidos, barrocas solapadas, esboroando-se nas chuvas, velam de melancolia o olhar do viandante que demanda aquele recanto do Planalto. E à medida que se aproxima de seus arredores, mais vivos e constantes são os atestados do delírio avoengo em esmiuçar, estripando-as, as entranhas da terra, para delas dar cibo e páscigo à sede do luxo, ao esplendor bizantino da velha Metrópole, já então em via franca de decadência.

Hoje, minas, lavras, catas, tudo jaz ao abandono. Alveja em montes o pedrouço das "formações" à beira das estradas; uma coma verde de "gordura" corre a crista dos valos e carreiros, argilosos e tristes, outrora sacudidos pelo estalo do relho dos feitores e o grito angustiado da escravatura, na lavagem do cascalho. Foram-se os antigos bateeiros da "descoberta", extinguiu-se a febre da mineração; ficou enraizada, uma população pacífica e laboriosa, que faz a prosperidade do município na lavoura, na criação de gado, no comércio das letras, em outras profissões liberais.

Da primitiva exaltação, porém, do ouro, restam, como tradição, histórias e lendas, das quais, talvez porque haja no fundo, como na maioria das lendas, um ponto qualquer de contato com a verdade, é a do Poço da Roda das mais populares.

Fica nas proximidades de Bonfim, no ermo de um descampado, ocupando o espaço de duzentos metros mais ou menos de circunferência. Contam moradores e viajantes que, à luz forte do dia, quando a superfície se lhe aquieta, mui transparente e cristalina na calma circundante, uma enorme pedra responde do fundo das águas aos fogos do meio-dia, irradiando em torno um brilho de mil chispas e centelhas, cujo estranho fulgor inebria e cega de deslumbramento e cobiça os olhos mortais ali empenhados, às bordas da frágil igarité, em devassar-lhe o líquido arcano. É a Madre de Ouro, cujo encantamento curiosos e mergulhadores tentam, em vão, surpreender o segredo, e de longos, mui longos anos habitadora daquelas águas remansadas...

Embalde é a teima porém que o mistério do sítio, a profundidade do poço, a refrangência, o desvio de seus raios e momentâneo desaparecimento da visão assim lhe perturbem o imoto cristal, zelam e guardam para sempre inviolada em seu retiro, a pedra maravilhosa.

E se um mais afoito e sôfrego, volve de novo à tentação da miragem e mergulha mais uma vez no lençol silencioso e frio, à busca do encantado tesouro-obscuro Alberico a quem faltou o anel dos Niebelungens-logo o pune de morte a Madre gloriosa, voltando à tona o seu corpo tempos depois, pasto de lambaris, papa-iscas e mais arraia miúda do lago.

Serenada a agitação das ondas, alisado o espelho translúcido na queda da aragem, eis de novo, fulgurando, a Madre de Ouro aviva, como um sol submerso, a aurifulgência de seus raios mágicos ante a adoração das florinhas anônimas, debruçadas à beira da lagoa...

Tal é a lenda nesse trecho do território. Se esplende ali a Madre de Ouro sepultada no fundo do Poço da Roda, continua entanto a sua peregrinação através de outras paragens do rincão goiano, numa viagem aérea, cujo termo é a explosão do meteoro na noite silenciosa.

E tal como a ouvimos, no interior, o seu quebranto consta do seguinte. Quem escuta ou vê, no ermo da noite, a passagem da Mãe de Ouro cortando o céu estrelado com o seu listrão ardente, toma na cozinha da choça um tição em brasa, correr ao limiar e faz no espaço uma cruz de fogo.

Logo, cede a Aparição ao sortilégio do homem, detém a sua carreira vertiginosa, e arrebenta em estilhas, lascas, pedrouços, calhaus e blocos, tudo de ouro maciço e do mais puro quilate. E depois, toca a catar e a meter no surrão aquela fortuna inesperada...

História que tem a sua origem nos bólidos, fenômeno que o olhar aparvalhado do matuto observa, muitas vezes, pelas noites claras daquela terra de várzeas e chapadões e de que gera a imaginativa a sua lenda, filha do cósmico deslumbramento e da  superstição primitiva.


Conto de Hugo de Carvalho Ramos retirado do livro Tropas e Boiadas, Livraria e Editora Cultura Goiana, 6ª Edição, Goiânia, 1984.

Assim Será (120)

 "Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus." - Jesus. (LUCAS, 12:21)


Guardarás inúmeros títulos de posse sobre as utilidades terrestres, mas se não fores senhor de tua própria alma, todo o teu patrimônio não passará de simples introdução à loucura.

Multiplicará, em torno de teus pés, maravilhosos jardins da alegria juvenil, entretanto, se não adquirires o conhecimento superior para o roteiro de amanhã, a tua mocidade será a véspera ruidosa da verdadeira velhice.

Cobrirás com medalhas honoríficas o teu peito, aumentando a série dos admiradores que te aplaudem, mas, se a luz da reta consciência não te banhar o coração, assemelhar-te-ás a um cofre de trevas, enfeitado por fora e vazio por dentro.

Amontoarás riquezas e apetrechos de conforto para a tua casa terrena, imprimindo-lhe perfil dominante e revestindo-a de esplendores artísticos, contudo, se não possuíres na intimidade do lar a harmonia que sustenta a felicidade de viver, o teu domicílio será tão-somente um mausoléu adornado.

Empilharás moedas de ouro e prata, à sombra das quais falarás com autoridade e influência aos ouvidos do próximo, todavia, se os teus haveres não se dilatarem, em forma de socorro e trabalho, estímulo e educação, em favor dos semelhantes, serás apenas um viajor descuidado, no rumo de pavorosas desilusões.

Crescerás horizontalmente, conquistarás o poder e a fama, reverenciar-te-ão a presença física na Terra, mas, se não trouxeres contigo os valores do bem, ombrearás com os infelizes, em marcha imprevidente para as ruínas do desencanto.

Assim será "todo aquele que ajunta tesouros para sí, sem ser rico para com Deus".


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

01 agosto 2026

A Repartição dos Pães

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.

Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.

Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...

Era uma mesa para homens de boa vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.

A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos  eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.

Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido por nós quanto nós queríamos comê-los. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.


Conto de Clarice Lispector retirado do livro A Legião Estrangeira, Rocco Editora, Rio de Janeiro, 2020.

Eia Agora (119)

 "Eia agora, vós que dizeis... Amanhã..." - (TIAGO, 4:13.)


Agora é o momento decisivo para fazer o bem.

Amanhã, provavelmente...

O amigo terá desaparecido.

A dificuldade estará maior.

A moléstia terá ficado mais grave.

A ferida, possivelmente, mostrar-se-á mais crescida de extensão.

O problema talvez surja mais complicado.

A oportunidade de ajudar não se fará repetida.

A boa semente plantada agora é uma garantia da produção valiosa no porvir.

A palavra útil, pronunciada sem detença, será sempre uma luz no quadro em que vives.

Se desejas ser desculpado de alguma falta, aproxima-te agora daqueles a quem feriste e revela o teu propósito de reajustamento.

Se te propões auxiliar o companheiro, ajuda-o  sem demora para que a bênção de teu concurso fraterno responda às necessidades de teu irmão, com a desejável eficiência.

Não durmas sobre a possibilidade de fazer o melhor.

Não te mantenhas na expectativa inoperante, quando podes contribuir em favor da alegria e da paz.

A dádiva tardia tem gosto de fel.

"Eia agora" - diz-nos o Evangelho, na palavra apostólica.

Adiar o bem que podemos realizar é desaproveitar o tempo e furtar do Senhor.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.