20 julho 2026

Minha avó dorme a sesta

 Minha avó dorme a sesta; não devo fazer barulho.

Na casa, nada se mexe. A empregada foi para o quarto deixando a cozinha vazia. Só eu não tenho sono.

Da janela não vejo movimento. As lojas ficarão fechadas até quatro horas. O caminho para a Piazza Navona está quase deserto; as poucas pessoas que passam, tangidas pelo barulho dos próprios passos na rua vazia, têm um ar furtivo. Não ouço carros.

Se ando, as velhas tábuas do assoalho estalam sob meus pés. Na biblioteca, os livros vivem sua longa vida, sem tomar conhecimento da minha presença, e as plantas, no sarcófago de pedra, empurram as raízes terra adentro. A sala de jantar é fria; campânulas de vidro protegem bonecos de cera de uma poeira inexistente, o blackmoor olha para a frente, o cetim roxo do sofá capitonê não tem marcas. Tento me esgueirar atrás do biombo de seda bordada, mas, do teto, a dama do afresco me segue onde quer que eu vá, e prefiro sair.

Abro com cuidado a porta do salão. As cortinas de gaze ondejam de leve, minha imagem nos espelhos antigos é reflexo de lago, há um tilintar breve de pingentes: o salão também dormia. Recuo, fecho a porta com precaução, quase pedindo desculpas.

No quarto ao lado do da minha avó, nada indica sua  proximidade; ela não faz barulho quando dorme, não ressona, não suspira. Entretanto, sei que ela está ali perto, tão perto que, quando acordar, notarei imediatamente.

E começo a brincar, sem um ruído. A enorme poltrona de veludo é meu trenó. Na grande noite que fabriquei debaixo da manta, deslizo sobre a neve, atravessando a imensidão da estepe. Os cavalos correm, ouço o estalar do chicote, sinto as crinas abaixar e levantar como cristas de ondas. O trenó sacode meu corpo enlanguescido. Os lobos uivam pressentindo a vítima. Há muitos dias que viajo, e é sempre noite; logo, desmaiarei de cansaço, e cairei do trenó, sem que o homem que o conduz se aperceba.

Não fosse a oportuna chegada do meu amado, eu seria estraçalhada. Ele, porém, chega, me salva, e, agora, os braços da poltrona são seus braços que me carregam, desfalecida. Põe-me no trenó, sou aquecida, bebo algo forte, e volto a mim. Mas a partir deste ponto não sei mais continuar a brincadeira, não sei o que fazer da viagem, e também não quero chegar. Então, recomeço. Na noite, o trenó me sacode, e os lobos uivam sob a luz enquanto eu atravesso a estepe.


Conto de Marina Colasanti retirada do livro Eu Sozinha, Global Editora, São Paulo, 2018.

Quem me deu foi a manhã

Foi uma moça lavar suas anáguas no rio. Espuma de rendas, espuma de águas. Depois deitou-as sobre a grama para secar. E da grama uma salamandra levantou a cabeça e perguntou:

- Que rendas são essas que você lava com tanto capricho?

- São as rendas que farfalham nos meus tornozelos - respondeu a moça.

- Eu também quero ouvir esse farfalhar - disse a salamandra. E antes mesmo que a moça vestisse a primeira anágua, enroscou-se no seu tornozelo.

Era fria como vidro e brilhante como prata. Mas, com medo de ser mordida, a moça deixou-a estar e voltou para a aldeia.

No caminho encontrou as outras moças da sua rua, que iam juntas. - Que joia diferente! - exclamaram, flagrando nos passos dela o luzir da salamandra. - Onde foi que você achou?

A moça riu sem responder, entrou em casa e fechou a porta atrás de si.

Passados alguns dias, novamente foi ela ao rio, lavar suas roupas. Água batendo nos panos, panos batendo nas pedras. E estava enxaguando o xale, quando uma serpente emergiu entre as franjas e perguntou:

- Que roupa é essa que você lava com tanto esmero?

- É o xale que pousa nos meus ombros - respondeu a moça.

- Eu também quero pousar nos teus ombros - disse a serpente.

Deslizou rápida até os ombros dela, rodeou-lhe o pescoço e, mordendo o próprio rabo, deixou-se ficar.

Era lisa e verde como esmeralda. Porém, com medo de ser picada, a moça não ousou tocá-la. E voltou para a aldeia.

- Que joia tão rica! - surpreenderam-se as moças suas companheiras colhendo os lampejos verdes ao redor do pescoço. - Como foi que você conseguiu?

A moça nem riu nem respondeu. Entrou e fechou a porta.

Alguns dias mais haviam passado, e novamente foi a moça ao rio. Dessa vez, não levava roupas. Ajoelhou-se na beira e mergulhou a cabeça para lavar os cabelos. Ondular de ouro na água, ondular de azul entre os fios. Depois, penteou e sacudiu os cabelos para secá-los ao sol. E como que trazida pelo sol, uma libélula voou e veio pousar na cabeça, um pouco de lado. Ali, imóveis as asas, deixou-se ficar.

Era delicada e graciosa como uma filigrana. Mas com medo de machucá-la, a moça nem a tocou. Quis levá-la, procurou seu reflexo no espelho da água. Depois voltou à aldeia.

As moças esperavam para vê-la passar. - E essa preciosidade - perguntaram em coro movidas pelo cintilar irizado - quem foi que te deu?

- Quem me deu foi a manhã - respondeu a moça. E, sem olhar para trás, entrou em casa. A porta deixou aberta, soubessem todos que nada tinha a esconder.

Não tinha nada a esconder, mas o que havia mostrado era suficiente. De boca em boca, de boca a ouvido, aos cochichos, aos murmúrios, sussurrando, segredando, de um a outro, de um a muitos, pelos cantos, pelas ruas, as joias tornaram-se o assunto da aldeia. E quando todo esse falar desembocou na praça, foi como um vento que entrasse pelas janelas e portas da Cadeia Geral, indo se abater sobre a mesa do Chefe da Polícia.

Uma moça pobre usando joias de valor era coisa nunca vista antes naquela aldeia, afirmou este. A moça só podia tê-las roubado, concluíram todos. E, expedida a ordem, foram os esbirros buscá-la em sua casa e a trouxeram até a cela. Nas joias ninguém se atreveu a tocar, serviriam como evidência.

As paredes da cela eram espessas, as grades da janela eram grossas, mas o falatório do povo ali embaixo chegava até a prisioneira. Aos poucos, porém, fez-se escuro, as vozes foram se afastando. Silêncio e sereno pousaram enfim na praça. A noite havia chegado.

Nenhum ruído se ouviu quando a serpente desprendeu-se do pescoço da moça, deslizou sinuosa para fora da cela, aproximou-se do carcereiro adormecido, enroscou-se na perna da cadeira, e erguendo a cabeça, mordeu com um bote a mão pendente.

Tão leve o fremir das asas da libélula quando abandonou a cabeleira loura, que só um ouvido atento o colheria. Mas o carcereiro já não estava atento a nada. A libélula pôde voar segura até o prego onde a chave estava pendurada por uma argola, e com a argola entre as patinhas, voar de volta até a sua dona.

Como havia conseguido a ladra fugir de cadeia tão forte? perguntavam-se todos no dia seguinte. E por que o carcereiro continuava dormindo?

- Bruxaria! - foi a resposta que jorrou daquelas bocas.

Novamente uma ordem foi expedida, os esbirros saíram à procura e todos os aldeões empenharam-se na caçada. De dia e de noite. Até que a moça, mãos atadas atrás das costas, foi arrastada para a praça onde a fogueira para queimá-la havia sido armada. Já não trazia a serpente ao redor do pescoço, nem a libélula pousada nos cabelos. Mas entre os farrapos da anágua rasgada ocultava-se a salamandra.

- Bruxa! - gritava o povo.

- Feiticeira!

Com boca leve, a salamandra mordeu o tornozelo da sua dona já atada sobre os feixes de lenha.

O povo na praça ergueu os braços celebrando a primeira labareda. A cabeça da moça pendia de lado. A fumaça se expandiu, pessoas tossiram na assistência. E logo todos os feixes arderam ao mesmo tempo, refletidos nos olhos da multidão.

Já não havia ninguém na praça quando as últimas brasas se apagaram. Findo o espetáculo, cada um havia retornado à sua casa. A madrugada avançava pesada de sono. Assim, ninguém viu aquele súbito mover-se entre as cinzas, o menear, a cabeça da salamandra erguendo-se. Ninguém viu o braço, o ombro, a cabeleira da moça emergindo dos restos da fogueira, ela toda de pé sacudindo-se como quem sai da água. Ninguém viu quando, antes de se afastar, recebeu ao redor do tornozelo uma joia como vidro e brilhante como prata.


Conto de Marina Colasanti retirado do livro Mais de 100 Histórias Maravilhosas - 23 Histórias de Viajantes, Global Editora, São Paulo, 2014/2015.

19 julho 2026

Coisas que sabemos

Eu não penso mais nisso agora, mas nós sabemos como foi. Sabemos de tudo. As pessoas que estavam lá naquele tempo sabem o mesmo que eu e você. As pessoas que andaram por lá depois também sabem. É impossível não saber.

Aquilo foi diferente de tudo e até agora, nas noites em que não posso dormir, imagino os gritos e o barulho como se fossem pedras imensas sendo partidas. Nas noites em que não posso dormir, ouço esse barulho como se fosse agora.

Não havia nada que pudesse ser feito e todos nós sabíamos disso. Eu sabia e você também. Não havia nada que pudesse ser feito.

Pelas noites, em toda a cidade, se ouviam gritos e o barulho de pedras partindo. Havia os grandes estalos seguidos e eu imaginava o caminho reto e picotado daquele fogo noturno, como o mastigar de um grande bicho. Nos telhados os rapazes atiravam enquanto todos sabiam que não havia nada que pudesse ser feito. Mas eles estavam dispostos a tudo e já não pensavam mais.

Nos dias seguintes apareceram os corpos no rio. Vinham pela correnteza, gordos, inchados, azulados.

Naqueles dias as pessoas se debruçavam na amurada das pontes e contavam os cadáveres. Algumas mulheres choravam e gritavam, e esse é o grito que ouço nas noites em que não posso dormir.

Algumas mulheres viam os corpos e contavam em voz alta. Era como uma antiga ladainha alucinada.

Uma tarde, entre os corpos, veio flutuando o de um cão inchado. Havia também um resto de cama. Então a mulher apontou o cão e começou a rir, primeiro baixinho, e depois esse riso foi crescendo até se transformar em um uivo sem-fim.

Ela estava na ponte contando os cadáveres há três dias e duas noites.

Quando veio rodando o corpo inchado do cão batendo contra a madeira do resto da cama, o som da cabeça contra a madeira molhada como um fruto caindo no barro mole, a mulher começou a rir. Era muito divertido. Não havia nada mais divertido. Não havia nada que pudesse ser mais engraçado.

Com o tempo os cadáveres começaram a desaparecer, até que não se contavam mais.

Aos poucos as pessoas abandonaram as pontes e mataram sua espera. Mas a mulher continuou muitos dias mais, mesmo quando não havia mais cadáveres e o rio voltou a ser apenas um rio sujo outra vez.

Ela estava lá, sozinha, parada, e de vez em quando começava aquele riso outra vez.

Ela estava lá parada, sozinha, quando vieram os soldados para buscá-la.


Conto de Eric Nepomuceno retirado do livro A Palavra Nunca, Editora Francisco Alves/Editora da UFSCar, Rio de Janeiro, 1997.

Às Sete em Ponto

 As mãos espalmadas, os dedos finos, jogaram os cabelos negros e lisos para trás:

- Preciso telefonar para casa, falar com minha mãe.

Foi a primeira coisa que ela disse. Depois, perguntou:

- Como foi o seu dia? Acho que o frio está chegando. Peça um licor e um chá para mim, está bem? E alguma coisa para comer. Estou com fome, não pude almoçar. Você almoçou? Preciso telefonar. Você pede para mim?

Eu não gostava café. Gostava da praça, a primeira que conheci na cidade, e que se chamava San Juan de la Cruz. Havia dois cafés na praça. Um, ao lado do hotel onde eu morava; outro, no extremo oposto da praça. Estávamos no café longe do hotel: mesas de fórmica, cadeiras forradas de plástico vermelho. Estávamos em uma mesa ao ar livre, era um fim de tarde de outubro, fazia frio. Eram sete da noite quando ela chegou. Tínhamos dito: às seis e meia, no café da esquina: ela chegou às sete. Veio bonita. Eu gostava de olhar seu rosto e olhar seu sorriso e olhar suas mãos.

Pensava nisso quando vi que ela me olhava sorrindo: talvez eu estivesse sorrindo também. Ela perguntou, calma:

- E como foi seu dia?

- Bem, sem nada de novo, nenhuma emoção.

Escrevi cartas e cartões-postais de manhã, almocei, fumei um charuto, caminhei de tarde, fui ver um amigo. Nada de emoções.

- E você está bem?

- Claro, por que não? E você?

- Estou ótima. Agora, vou telefonar: está ficando tarde.

Eram sete da noite, ela acabara de chegar e estava bonita. No outro dia, bem cedinho, fui-me embora. Levei um ano para voltar, e ela estava com os cabelos curtos.

Quando voltei era dezembro e dois dias antes tinha nevado na cidade, fazia frio e as ruas estavam sujas.

O café estava fechado. Nos encontramos na rua e ficamos olhando o café, tentamos sorri e eu perguntei:

- E agora, para onde vamos?

Ela disse que para lugar nenhum. Queria ver se eu continuava vivo, só isso. E já vira.

Fiquei parado, fazia frio e ventava, olhando para ela, que atravessou devagar a rua e entrou em um carrinho pequeno, cor de cinza.


Conto de Eric Nepomuceno retirado do livro A Palavra Nunca, Editora Francisco Alves/Editora da UFSCar, Rio de Janeiro, 1997.

Miráculo-Verídico

Onde começa a verdade?

E a mentira, onde acaba?

Abracadabra!


Fadas e bruxas são personagens de contos infantis? Nem sempre, isso eu garanto. Porque estou lendo um livro cheio de mistérios, encantamentos, coisas do tempo do rei Arthur, aquele da távola redonda, pois é. E foi por causa do livro que, assim, nesta tarde de chuva petropolitana, peguei no telefone e liguei pra minha amiga Yeda. A gente ficou num tititi, numa conversa sem fim, nem começo... e de repente, peguntei pra ela se ela sabia de uma erva encantada que fizesse as pessoas dizerem a verdade verdadeira. Yeda, que tem um jeito peculiar de soltar cintilações pelos olhos, olhou assim para a minha voz, através do telefone, e eu tive a visão. Naquele momento, entendi que Yeda era uma fada, casada com um duende chamado João.

Aliás, foi por isso, naturalmente, que Yeda conseguiu me olhar através do telefone e chegou mesmo a me entregar, de súbito, pelo fio do telefone sem fio (credo!) um pequeno embrulhinho cor de açafrão, amarrado com um barbante violeta. O embrulho trazia um envelope e, dentro dele, uma espécie de bula, escrita em letras góticas, que dizia:


CHÁ MIRÁCULO-VERÍDICO

(manter longe do alcance de velhos)

Fórmula:

10 pingos de orvalho matinal

2 faíscas de sol

Extrato de alfablídeos

Aromatizante verdadeiro de artifícios frugais

Camomila vegetabilis


Precauções:

Nunca ingerir em festas familiares.


Atenção: 

Este chá, cujos três últimos ingredientes não trazem a quantidade usada (por motivo de sigilo e para evitar possíveis falsificações), foi confeccionado por mãos duendes, muito habilidosas, numa pequenina casa situada nas montanhas. O farmacêutico responsável chama-se João da Yeda.


Indicações: 

Para pessoas debilitadas pelo extenuante convívio social hipócrita das reuniões da classe média ascendente, onde é obrigatório o uso de uísque escocês, salgadinhos, conversas sobre o socialismo que todos mentem desejar etc.

Tomar três gotas antes da reunião, de preferência com o estômago cheio. Não misturar com bebida alcoólica.


Contraindicações:

- Pessoas hipertensas, alcoólatras, políticos em geral, gagos, mulheres na menopausa etc.

Este chá, por suas propriedades mágicas, dá um toque de originalidade a qualquer reunião melancólica, tornando-a altamente peculiar.


Naquele dia, eu estava convidada para um jantar que prometia ser dos mais aborrecidos. Resolvi, pois, com um certo receio, experimentar a poção. Confesso que estava com medo, pois não costumo me envolver assim, sem mais nem menos, nos perigos sedutores das magias. Por via das dúvidas, tomei um copo de leite morno antes, para ingerir o chá com o estômago cheio, conforme receitava a bula.

Quando acabei de tomar o líquido, que tinha um sabor de hortelã com baunilha, o telefone faiscou estrelas. Compreendi que eram os olhos de Yeda, que me viam telefonicamente, através dos poderes fadais e duendísticos.

Botei um vestido estampado, sapatos de verniz, chamei um táxi e fui para o jantar.

Logo ao apertar a mão da dona da casa, senti um choque elétrico e ela disse:

- Ai! Você está com eletricidade estática!

Percebi que as propriedades do chá passavam de mim para os outros, através do aperto de mão.

De repente, fui apresentada a um casal:

- Muito desprazer em conhecê-los!

- Igualmente! Já ouvi falar horrores da senhora! - me responderam.

Serviram o eterno uísque. Um convidado tomou o primeiro gole e exclamou:

- Mas que gosto de iodo! Você não tem vergonha de colocar uísque nacional em garrafa escocesa, Felisberta?

- E você pensa que vou gastar meu rico dinheirinho com um cafajeste como você? respondeu Felisberta, sorrindo amavelmente.

Serviram o jantar, e todos se atiraram em cima de duas galinhas assadas, que sumiram num instante. Sobrou somente a farofa. Uma senhora aproveitou a maionese da salada de batatas e passava no rosto da vizinha dizendo:

- Maionese é ótimo para suas profundas rugas, Marieta!

A copeira entrou, passando a língua sobre o pudim, sem a menor cerimônia, enquanto meu vizinho beliscava com força o braço do filhinho da anfitriã, um garotinho de cinco anos, dizendo:

- Mas que menino horrorosinho!

- Seu jantar estava péssimo! - elogiou uma senhora, dirigindo-se à dona da casa.

- Obrigada, mas o seu, na quarta-feira que passou, estava bem pior! - respondeu madame, acrescentando que era uma chateação ter que reunir toda aquela gente na sua casa, mas foi por insistência do idiota do marido.

- Ora, eu disse para você, querida, que era necessário convidar esta corja porque esta gente aí pode me ajudar a conseguir mais votos para a minha campanha eleitoral. Preciso ser reeleito, ainda não roubei o bastante para me aposentar, minha odiosa esposa!

Nisso, foi servido o café.

- Esta xícara está com cheiro de barata! - exclamei, sorridente.

O telefone tocou. Era para mim. Fui atender e ouvi uma risadinha.

- Quem fala? - perguntei.

- É o duende João. Acabou o encantamento, saúde!

E o telefone desligou-se, soltando uma estrela que virou coruja, e que piscava, piscava sumindo pela janela aberta.

- Foi tudo perfeito! - disse uma senhora, despedindo-se.

- Agradeço demais a sua amável presença, você está linda neste vestido! - retrucou a anfitriã.

- Mas o seu cafezinho tem um sabor maravilhoso! - menti.

Tinha terminado a magia, ninguém se lembrava das verdades acontecidas e faladas. Foi uma reunião encantadora...


P.S. - Acabei de ler, pelo telefone, este conto pra Yeda. Ela disse que gostou. Será que tomou o chá antes de responder... ou não?


Conto de Sylvia Orthof retirado do livro Papos de Anjo, Editora Record, Rio de Janeiro, 1987.

18 julho 2026

O Verdadeiro George Clooney

Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o que está em jogo é a autoestima da nossa espécie, os homens que não são George Clooney. Todas as nossas qualidades e todos os nossos atributos, físicos e intelectuais, desaparecem na comparação com o George Clooney. As mulheres não escondem sua adoração pelo George Clooney. O próprio George Clooney nada faz para diminuir a idolatria e nos dar uma chance. Fica cada vez mais adorável, cada vez mais George Clooney. E se aproxima da perfeição.

É bonito. É charmoso. É rico. É bom ator. Faz bons filmes. Está envolvido com as melhores causas. E que dentes! Não temos defesa contra esse massacre. Só nos resta a calúnia.

Os dentes são falsos. Ali onde eles veem pomos de face irresistíveis e um queixo decidido, há obviamente, botox. Ele tem pernas finas e desvio de septo. É solteiro, portanto, claro, gay. Tem casa num dos lagos italianos, o que já é suspeito, e dizem que anda pelos seus chãos de mármore depois do banho de espuma vestindo um longo caftã bordado e sendo borrifado com perfumes forais pelo seu amante filipino Tongo, enquanto seu amante italiano, Rocco, prepara a salada de rúcula completamente nu. George Clooney bate na mãe todas as quintas-feiras. É extremamente burro. Só leu um livro até hoje e não lembra se foi O Pequeno Príncipe ou O Grande Gatsby. Nos filmes em que faz personagens mais reflexivos, contratam um dublê para as cenas dele pensando. Foi ele que propôs a demolição da Torre Eiffel porque já era mais que evidente que não encontrariam petróleo no local. E sua sovinice é lendária. Levou nadadeiras quando visitou Veneza, para não gastar com táxi.

É notório, em Hollywood, o mau hálito do George Clooney. Quando ele fala em algum evento público, as primeiras três fileiras do auditório sempre ficam vazias. Atrizes obrigadas a trabalhar com ele têm direito a um adicional por insalubridade, em dobro se houver cenas de beijo. Outra coisa: a asa. Não adiantam as imersões em espuma na sua banheira em forma de cisne, nem os perfumes florais borrifados, o cheiro persiste. Sabem que George Clooney e suas axilas se aproximam a metros de distância, e muita gente aproveita o aviso para fugir.

Além de tudo, tem seborreia e é Republicano.

Passe adiante.


Crônica de Luís Fernando Veríssimo retirado do livro Em Algum Lugar do Paraíso, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2011.

Maria Bethânia

De jeans e camiseta, cabelo preso, aos gritos de "Pega, mata e come!", Bethânia já foi musa da esquerda, tempos do show Opinião. Graças ao acaso - se acaso existe, e não destino - que trouxe a menina Berré de Santo Amaro da Purificação, Bahia, para os palcos do centro do país, indicada pelo irmão Caetano Veloso. Peruca canecalon, coberta de colares e pulseiras, gestos largos, recitando Fernando Pessoa e Clarice Lispector - Bethânia foi musa. A voz muito grave, sussurrando versos sensuais, embalou os amores de casais pelos motéis, rivalizando na venda de discos  com o rei Roberto Carlos. Prendeu, soltou os cabelos, calçou, tirou os sapatos, largou as gravadoras comerciais no auge do sucesso, trajetória inversa, tornou-se independente: conquistou o direito de gravar o que gosta, num repertório coerente e fiel à música brasileira.

Foram muitas Bethânias nesses mais de 20 anos. Ou era uma só? O escritor Júlio Cortázar, fã confesso (não fosse um iniciado em magia), afirmava que Bethânia e Caetano são uma única pessoa: yin/yang, homem/mulher, Oxóssi/Iansã. Foi muito in, ficou inteiramente out - até ultrapassar as divisões maniqueístas dos manipuladores da opinião pública para ocupar esse lugar muito especial aos mitos. Bethânia, deusa guerreira de espada em punho e voz rouca, inconfundível, procurando sempre versos que falem às emoções dos apaixonados. Gosta-se dela como se cai em estado de paixão: além de qualquer razão.

E bela. Bela de um jeito que não é comum ser bela, cantora como não é comum ser cantora - nesse desregramento de padrões estéticos, Bethânia funde a aspereza de onde começa o Nordeste com o requinte dos blues de uma Billie Holiday. Cantora diurna das terras crestadas pelo sol, mas também noturna, dos lençóis de cetim úmidos de suor e amor, transita numa carreira de impecável coerência com sua própria criatura: dividida em mel e espada. Padroeira dos apaixonados, também divididos entre o mel do perdão e a espada cortante da vingança. Dessa extensa legião, Maria Bethânia é a voz mais fiel.


Texto de Caio Fernando Abreu retirado do então LP duplo, coletânea Simplesmente O Melhor de Maria Bethânia, gravadora Philips Polygram/SBT, de 1988.

Possuímos o que damos (117)

 "É mais bem-aventurado dar do que receber." - Paulo. (ATOS, 20:35.)


Quando alguém se refere à passagem evangélica que considera a ação de dar mais alta bem-aventurança que a ação de receber, quase todos os aprendizes da Boa Nova se recordam da palavra "dinheiro".

Sem dúvida, em nos reportando aos bens materiais, há sempre mais alegria em ajudar que em ser ajudado, contudo, é imperioso não esquecer os bens espirituais que, irradiamos de nós mesmos, aumentam o teor e a intensidade da alegria em torno de nossos passos.

Quem dá recolhe a felicidade de ver a multiplicação daquilo que deu.

Oferece a gentileza e encorajarás a plantação da fraternidade.

Estende a bênção do perdão e fortalecerás a justiça.

Administra a bondade e terás o crescimento da confiança.

Dá o teu bom exemplo e garantirás a nobreza do caráter.

Os recursos da Criação são distribuídos pelo Criador com as Criaturas, a fim de que em doação permanente se multipliquem ao infinito.

Serás ajudado pelo Céu, conforme estiveres ajudando na Terra.

Possuímos aquilo que damos.

Não te esqueças, pois, de que és mordomo da vida em que te encontras.

Cede ao próximo algo mais que o dinheiro de que possas dispor. Dá também teu interesse afetivo, tua saúde, tua alegria e teu tempo e, em verdade, entrarás na posse dos sublimes dons do amor, do equilíbrio, da felicidade e da paz, hoje e amanhã, neste mundo e na vida eterna.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

29 junho 2026

Lívia

E todos os dias quando ela, de manhã cedo, ia, ainda morrinhenta da cama, preparar o café matinal da família, ia toda envolvida num nevoeiro de sonhos, sonhados durante um demorado dormir de oito horas a fio. Por vezes - lá na cozinha, só, vigiando pacientemente a água que fervia ao lhe chegarem às reminiscências deles em tumulto, juntas, borbulhava-lhe nos lábios uma interjetiva qualquer, eco desconexo do muito que lhe falavam por dentro.

De quando em quando, sofreando um gesto glorioso de satisfação, dizia - é ele - e isso de leve traduzia a grande carícia que lhe era dado gozar naquele instante, refazendo aquele sonho bom - tão bom e acariciador que bem lhe parecia um inebriamento de capitosos perfumes a se evolar do Mistério vagarosamente, suavemente... Depois, logo que o café se aprontava e, na sala de jantar, todos ao redor da mesa se punham a sorvê-lo, mastigando o pão de cada dia - ela, d'olhos parados, presos a uma linha do assoalho, levando compassadamente a xícara aos lábios, ficava a um canto a pensar, remoendo a cisma, procurando decifrar naqueles traços nebulosos - tão mal grudados pela memória - a figura via daquele com quem, em sonhos, se vira indo de braço dado ruas a fora.

Esforço a esforço, de evocação em evocação, aparecia-lhe aos poucos a sua figura, o seu ar; e após esse paciente trabalho de reconstrução, lhe vinha, anunciado por um sorriso reprimido que lhe encrespava radiosamente o semblante, o seu nome sílaba por sílaba... Go-do-fre-do. Então com volúpia, ela lhe pesava os recursos: ganhava cento e vinte, no emprego da Central, talvez, em breve, viesse a ter mais. Quarenta para casa e o resto para o vestuário e alimentos.

Era pouco - convinha - mas servia, pois, assim ficaria livre da tirania do cunhado, das impertinências do pai; teria sua casa, seus móveis e, certamente, o marido lhe dando algum dinheiro, ela - quem sabe! que tão bons sonhos tinha, arriscando no "bicho", aumentaria a renda do casal; e, quando assim fosse, havia de comprar um corte de fazenda boa, um chapéu, de jeito que, sempre, pelo Carnaval, iria melhorzinha à Rua do Ouvidor, assistir passarem as sociedades.

O café já se havia acabado; e ela ficara ainda distraída e sentada, quando soou de lá da sala de visitas a voz vigorosa do cunhado:

- Lívia! Traz o meu guarda-sol que ficou atrás da porta do quarto. Depressa!... Anda que faltam só oito minutos para o trem!

E como se demorasse um pouco, o Marques, redobrando de vigor no timbre, gritou:

- Oh! Cos diabos! Você ainda não achou! Safa! Que gente mole!

Humildemente, Lívia lá foi aos pulos, como uma corça domesticada, entregar o objeto pedido, para lhe ser arrancado bruscamente das mãos...

Envolvida ainda naquele sonho que lhe soubera tão bem a manhã, ela, através das frinchas da veneziana viu o cunhado atravessar a rua e se perder por entre o dédalo de casas.

Certificada disso, abriu a janela. O subúrbio todo despertava languidamente.

As montanhas, verde-negras, quase desnudas de vegetação, confusamente surgiam do seio da cerração tênue e esgarçada. As casas listravam de branco e ocre o pardacento geral, enquanto bocados de neblina, finos, adelgaçados, flutuavam sobre elas como sombras erradias.

As ruas descalças e enlameadas eram atravessadas por alguns transeuntes cabisbaixos, mal vestidos, andando céleres em busca do embarcadouro.

Corria, de resto, como sempre, morosamente o viver diário; e a Lívia, sacudida pelo silvo agudo de uma locomotiva, levantou de repente os olhos, até ali fitos na estação que emergia do ambiente pardo a clarear-se, para pregá-los numa nesga do céu que o sol abria, por entre a névoa, furiosamente, vitoriosamente.

A súbitas, sua alma voou, asas abertas, voo rasgado, para outras bandas, outras regiões. Voou para a cidade de luxo e elegância que, ao fim daquelas fitas de aço, refulgia e brilhava.

Representaram-se-lhe os teatros de luxo, os bailes do tom, a rua da moda onde triunfavam as belezas. Ao considerar isso, viu-se ali também, ela, sim! Ela, que não era feia, tendo o seu porte flexível e longo, envolvido de rendas, a desprender custosas essências e aqueles seus dedos de unhas de nácar, ornados de ouro e pérolas, escolhendo, na mais chique loja, casas, baptistes, voiles...

Numa galopada de sonhos, supôs maiores coisas e - lembrando-se do que lhe contara a madrinha (oh! como era rica!) - imaginou a Europa, aquelas terras soberbas, por onde a "Dindinha" passeava a sua velhice e o seu egoísmo.

Doidamente revolvia a alma e as cismas... Calculou-se lá também, na alameda de um soberbo jardim, de landau, com ricas vestes ao corpo unidas, ressaltando delas o esplendor de suas formas e o esguio patrício de seu corpo. Imaginou que, através de um caro chapéu de palhinha branca, se coasse a luz macia do sol da Europa, polvilhando-lhe a tez de ouro, em cujo fundo brilhassem muito os seus olhos vivos, negros e redondos.

- Oh! Que bom! Quem me dera! - quase exclamou por esse tempo.

De reviravolta, Lívia adivinhou outra coisa no sonho. Não pensara bem; era outro que não o Godofredo, o rapaz que imaginara.

Aquele nariz grosso, aquela testa alta, o bigode ralo, não eram dele; eram antes do Siqueira, estudante de Farmácia, filho do agente. Esse poderia lhe dar aquilo: a Europa, o luxo, pois que formado ganharia muito.

Dessa forma - resolvera - "amarraria a lata" no Godofredo e "pegaria com o Siqueira. E era muito melhor! O Siqueira, afinal, ia formar-se, seria um marido formado, ao braço do qual, se não fosse à Europa, viria a gozar de maior consideração...

Demais a Europa era desnecessária - para quê? Era quere muito. Quem muito quer nada tem; e ela para ter alguma coisa devia querer pouco. Bastava pois que lhe tirassem dali, fosse esse, fosse aquele; mas... Se em todo o caso pudesse ser um mais assim... Seria muito melhor.

E desde quando vinha ela querendo aquilo? Havia muitos anos; havia dez talvez. Desde os doze que namorava, que "grelava" só para aquele fim; entretanto, apesar de haver tido mais de quinze namorados, ainda ali estava, ainda ali ficava, sob o mando do cunhado.

Quinze namorados!

Quinze! De que lhe serviram?

Um levava-lhe beijos, outros abraços, outro uma e outra coisa; e sempre, esperando casar-se, isto é, libertar-se, ela ia languidamente, passivamente deixando. Passavam um, dois meses, e os namorados iam-se sem causa. Era feio, diziam; mas que fazer? Como casar-se? Por consequência, como viver? A sua própria mãe não lhe aconselhava? Não lhe dizia: "Filha, anda com isso; preciso ver esta letra vencida"?

De resto o amor lhe desculparia, pois não é o amor o máximo tirano? Não é a própria essência da vida, das coisas mudas, dos seres, enfim?

Porventura ela os amara? Teria ela amado aquela legião de namorados? Amara um, sequer? Não sabia...

- O que é amar? interrogava fremente.

Não é escrever cartas doces? Não é corresponder a olhares? Não é dar aos namorados as ameaças da sua carne e da sua volúpia?

- Se era isso, ela amara a todos, um a um; se não era, a nenhum amara...

E o que era amar? Que era então?

Ao lhe chegar esse interrogação metafísica, para o seu entendimento, ela se perdeu no próprio pensamento; as ideias se baralharam, turbaram-se: e, depois, fatigada, foi passando vagarosamente a mão esquerda pela testa, correu-a pacientemente pela cabeça toda até a nuca.

Por fim, como se fosse um suspiro, concluiu:

- Qual amor! Qual nada! A questão é casar e para casar, namorar aqui, ali, embora por um se seja furtada em beijos, por outro em abraços, por outro...

- Ó Lívia! Você hoje não pretende varrer a casa, rapariga? Que fazes há tanto tempo na janela?!

Obedecendo ao chamado de sua mãe, Lívia foi mais uma vez retomar a dura tarefa, da qual, ao seu julgar, só um casamento havia de livrá-la para sempre, eternamente...


Conto de Lima Barreto retirado do livro Os Grandes Contos de Lima Barreto, Distribuidora de Livros Planeta Ltda., Goiânia, 2001.

27 junho 2026

O Edifício

Mais de cem anos foram necessários para se terminar as fundações do edifício que, segundo o manifesto de incorporação, teria ilimitado número de andares. As especificações técnicas, cálculos e plantas, eram perfeitas, não obstante o ceticismo com que o catedrático da Faculdade de Engenharia encarava o assunto. Obrigado a se manifestar sobre a matéria, por alunos insatisfeitos com o tom reticencioso do mestre,  resvalava para a malícia afirmando tratar-se de "vagas experiências de outra escola de concretagem".

Batida a última estaca e concluídos os alicerces, o Conselho Superior da Fundação, a que incumbia a direção geral do empreendimento, dispensou os técnicos e operários, para, em seguida, recrutar nova equipe de profissionais e artífices.


1. A LENDA

Ao engenheiro responsável, recém-contratado, nada  falaram das finalidades do prédio. Finalidades, aliás, que pouco interessavam a João Gaspar, orgulhoso como se encontrava de, no início da carreira, dirigir a construção do maior arranha-céu de que se tinha notícia.

Ouviu atentamente as instruções dos conselheiros, cujas barbas brancas, terminadas em ponta, lhes emprestavam aspectos de severa pertinácia.

Davam-lhe ampla liberdade, condicionando-a apenas a duas ou três normas, que deveriam ser corretamente observadas. A sua missão não seria somente exercer funções de natureza técnica. Envolvia toda a complexidade de um organismo singular. Os menores detalhes do funcionamento da empresa construtora estariam a seu cargo, cabendo-lhe proporcionar salários compensadores e constante assistência ao operariado. Competia-lhe, ainda, evitar quaisquer motivos de desarmonia entre os empregados. Essa diretriz, conforme lhe acentuaram, destinava-se a cumprir importante determinação dos falecidos idealizadores do projeto e anular a lenda corrente de que sobreviveria irremovível confusão no meio dos obreiros ao se atingir o octingentésimo andar do edifício e, consequentemente, o malogro definitivo do empreendimento.

No decorrer das minuciosas explicações dos dirigentes da Fundação, o jovem engenheiro conservou-se tranquilo, demonstrando absoluta confiança em si, e nenhum receio quanto ao êxito das obras. Houve, todavia, uma hora em que se perturbou ligeiramente, gaguejando uma frase ambígua. Já terminara a entrevista e ele recolhia os papéis espalhados pela mesa, quando um dos velhos o advertiu:

- Nesta construção não há lugar para os pretensiosos. Não pense em terminá-la, João Gaspar. Você morrerá bem antes disso. Nós que aqui estamos construímos o terceiro Conselho da entidade e, como os anteriores, jamais alimentamos a vaidade de sermos o último.


2. A ADVERTÊNCIA

A mesma orientação que recebera dos seus superiores, o engenheiro a transmitiu aos subordinados imediatos. Nem sequer omitiu a advertência que o encabulara. E vendo que suas palavras tinham impressionado bem mais a seus ouvintes do que a ele as do ancião, sentiu-se plenamente satisfeito.


3. A COMISSÃO

João Gaspar era meticuloso e detestava improvisações. Antes de encher-se a primeira forma de concreto, instituiu uma comissão de controle para fiscalizar o pessoal, organizar tabelas de salários e elaborar um boletim destinado a registrar as ocorrências do dia.

Essa medida valeu maior rendimento de trabalho e evitou, por diversas vezes, dissensões entre os assalariados.

A fim de estimular a camaradagem entre os que lidavam na construção, desenvolviam-se aos domingos alegres programas sociais. Devido a esse e outros fatores, tudo corria tranquilamente, encaminhando-se a obra para as etapas previstas.

De cinquenta em cinquenta andares, João Gaspar oferecia uma festa aos empregados. Fazia um discurso. Envelhecia.


4. O BAILE

Inquietante expectativa marcou a aproximação do 800º pavimento. Redobraram-se os cuidados, triplicou-se o número de membros da Comissão de Controle, cuja atividade se tornara incessante, superando dificuldades, aplainando divergências. Deliberadamente, adiou-se o baile que se realizava ao termo de cada cinquenta pisos concluídos.

Afinal, dissiparam-se as preocupações. Haviam chegado sem embaraços ao octingentésimo andar. O acontecimento foi comemorado com uma festa maior que as precedentes.

Pela madrugada, porém, o álcool ingerido em demasia e um incidente de pequena importância provocaram um conflito de incrível violência. Homens e mulheres, indiscriminadamente, se atracaram com ferocidade, transformando o salão num amontoado de destroços. Enquanto cadeiras e garrafas cortavam o ar, o engenheiro, aflito, lutava para acalmar os ânimos. Não conseguiu. Um objeto pesado atingiu-o na cabeça, pondo fim a seus esforços conciliatórios. Quando voltou a si, o corpo ensanguentado e dolorido pelas pancadas e pontapés que recebera após a queda, sentiu-se vítima de terrível cilada. De modo inesperado, cumprira-se a antiga predição.


5. O EQUÍVOCO

Depois do incidente, João Gaspar trancou-se em casa, recusando-se a receber os seus mais íntimos colaboradores, para não ouvir deles palavras de consolo.

Já que se fazia impossível continuar as obras, desejava, ao menos, descobrir o erro em que incorrera. Acreditava ter obedecido fielmente às instruções do Conselho. Se fracassara, a culpa deveria ser atribuída à omissão de algum detalhe desconhecido da profecia.

A insistência dos auxiliares venceu sua teimosia e concordou em atendê-los. Queriam saber por que desanimara, não mais comparecera ao edifício. Ficara ressentido pela briga?

- Que adiantaria a minha presença? Não lhes satisfez a minha humilhação?

- Como? - indagaram. - Aquilo fora uma simples bebedeira. - Estavam todos envergonhados com o que acontecera e lhe pediam desculpas.

- E ninguém abandonou o trabalho?

Ante a resposta negativa, ele se abraçou aos companheiros:

- Daqui pra frente nenhum obstáculo interromperá nossos planos! (Os olhos permaneciam umedecidos, mas os lábios ostentavam um sorriso de altivez.)


6. O RELATÓRIO

Em ambiente calmo, todos se empenhando nas suas tarefas, mais noventa e seis andares foram acrescidos ao prédio. As coisas seguiam perfeitas, a média de trabalho dos assalariados era excelente.

Empolgado por um delirante contentamento, o engenheiro distribuía gratificações, desfazia-se em gentilezas com o pessoal, vagava pelas escadas, debruçava-se nas janelas, dava pulos, enrolava nas mãos as barbas embranquecidas.

Para prolongar o sabor do triunfo, que o cansaço começava solapar, ocorreu-lhe redigir um circunstanciado relatório aos diretores da Fundação, contando os pormenores da vitória. Demonstraria também a impossibilidade de surgir, no futuro, outras profecias que pudessem embaraçar o prosseguimento das obras. Ultimado o memorial, ele se dirigiu à sede do Conselho, lugar onde estivera poucas vezes e em época bem remota. Em vez dos cumprimentos que julgava merecer, uma surpresa o aguardava: haviam morrido os últimos conselheiros e, de acordo com as normas estabelecidas após a desmoralização da lenda, não se preencheram as vagas abertas.

Ainda duvidando do que ouvira, o engenheiro indagou ao arquivista - único auxiliar remanescente do enorme corpo de funcionários da entidade - se lhe tinham deixado recomendações especiais para a continuação do prédio.

De nada sabia, nem mesmo por que estava ali, sem patrões e serviços a executar.

Ansiosos por descobrir documentos que os orientassem, atiraram-se à faina de revolver armários e arquivos. Nada conseguiram. Só encontraram especificações técnicas e uma frase que, amiúde, aparecia à margem de livros, relatórios e plantas: "É preciso evitar-se a confusão. Ela virá ao cabo do octingentésimo pavimento".


7. A DÚVIDA

Esvaíra-se a euforia de João Gaspar. Vago e melancólico, retornou ao edifício. Da última laje, as mãos apoiadas na cintura, teve um momento de mesquinha grandeza, julgando-se senhor absoluto do monumento que estava a seus pés. Quem mais poderia ser, desde que o Conselho se extinguira?!

Fugaz foi o seu desmedido orgulho. Ao regressar a casa, onde sempre faltara a diligência de uns dedos femininos, as dúvidas o perseguiam. Por que legavam a um mero profissional tamanho encargo? Quais os objetivos dos que tinham idealizado tão absurdo arranha-céu?

As perguntas iam e vinham, enquanto o edifício se elevava e menores se faziam as probabilidades de se tornar claro o que nascera misterioso.

Sorrateiro, o desânimo substituiu nele o primitivo entusiasmo pela obra. Queixava-se aos amigos do tédio que lhe provocava o infindável movimento de argamassa, pedra britada, fôrmas de madeira, além da angústia que sentia, vendo o monótono subir e descer de elevadores.

Quando a ansiedade ameaçou levá-lo ao colapso, convocou os trabalhadores para uma reunião. Explicou-lhes, com enfática riqueza de detalhes, que a dissolução do Conselho obrigava-o a paralisar a construção do edifício.

- Falta-nos, agora, um plano diretor. Sem este não vejo razões para se construir um prédio interminável - concluiu.

Os operários ouviram tudo com respeitoso silêncio e, em nome deles, respondeu firme e duro um especialista em concretagem:

- Acatamos o senhor como chefe, mas as ordens que recebemos partiram de autoridades superiores e não foram revogadas.


8. O DESESPERO

João Gaspar, inutilmente, apelaria para a compreensão dos servidores. Usava recursos convincentes, numa linguagem branda, porque seus propósitos eram pacíficos. Igualmente corteses, os empregados repeliram a ideia de abandonar o trabalho.

-Ouçam-me - pedia ele, impaciente com a obstinação dos subordinados. - É inexequível um monstro de ilimitados pavimentos! Seria necessário que as fundações fossem reforçadas à medida que se aumentasse o número de andares. Também isto é impraticável.

Apesar de ouvido sempre com atenção, não convencia a ninguém. E teve que assumir uma atitude de intransigência, demitindo todo o pessoal.

Os operários se negaram a aceitar o ato de dispensa. Alegavam a irrevogabilidade das determinações dos falecidos conselheiros. Por fim, disseram que iriam trabalhar à noite e aos domingos, independente de qualquer pagamento adicional.


9. O ENGANO

A decisão dos assalariados de aumentar o número de horas de serviço deu novo alento ao engenheiro, que  esperava vê-los vencidos pela estafa, pois lhes seria impossível manter por muito tempo semelhante esforço coletivo.

Logo verificaria seu engano. Além de não apresentarem sinais de cansaço, para ajudá-los vieram das cidades vizinhas centenas de trabalhadores que se dispunham a auxiliar gratuitamente os colegas. Vinham cantando, sobraçando as ferramentas, como se preparados para longa e alegre campanha.

Pouco adiantava recusar-lhes a colaboração, eles mesmos escolhiam as tarefas e as iniciavam com entusiasmo, indiferentes à agressiva repulsa de João Gaspar.


10. OS DISCURSOS

Vendo multiplicar as levas de voluntários, o engenheiro não teve mais ânimo de enxotá-los. Passou a percorrer, um por um, os andaimes exortando-os a abandonar o trabalho. Fazia longos discursos e, muitas vezes, caía desfalecido de tanto falar.

A princípio, os empregados se desculpavam, constrangidos por não ouvirem atentamente as suas palavras. Com o passar dos anos, habituaram-se a elas e as consideravam peça importante nas recomendações recebidas pelo engenheiro-chefe antes da dissolução do Conselho.

Não raro, entusiasmados com a beleza das imagens do orador, pediam-lhe que as repetisse. João Gaspar se enfurecia, desmandava-se em violentos insultos. Mas estes vinham vazados em tão bom estilo, que ninguém se irritava. E, risonhos, os obreiros retornavam ao serviço, enquanto o edifício continuava a ganhar altura.


Conto de Murilo Rubião retirado do livro Contos Reunidos, Editora Ática, São Paulo, 1998.