Minha tia Assunção entrou na classe às nove da manhã. Ela tomou fôlego e quase todos nós bocejamos, porque era muito cedo para aguentar um daqueles discursos dela. Nossa tia disse o seguinte:
- Este ano quero que nós preparemos o Carnaval como se fosse o último carnaval da nossa vida. Vamos nos apresentar no concurso de fantasias que vão fazer numa discoteca de Carabanchel no sábado que vem. Vão se apresentar crianças das escolas do bairro e vocês vão ter de mostrar a todo mundo que são crianças como Deus manda e não os delinquentes que parecem.
Nem deixamos terminar, foi uma zoeira na classe que você nem imagina. O Yihad se levantou para dizer:
- Um aviso: vou me fantasiar de Super-Homem e estou dizendo desde já para ninguém mais se fantasiar de Super-Homem, porque, nesta galáxia, Super-Homem só tem um e esse um sou eu e não quero ser obrigado a quebrar a cara de ninguém. Repito: isto é um aviso.
Então o Orelhão disse:
- E do que é que eu vou me fantasiar, se só tenho fantasia de Super-Homem e minha mãe não vai querer comprar outra?
E começou um eco na classe toda: "E eu... e eu... e eu...", pois todos os meninos têm a mesma fantasia de Super-Homem por todos os séculos dos séculos.
Minha tia Assunção disse que não ia ter nada de Super-Homens, nem de Homens-Aranhas, nem de Belas nem de Feras. Nós tínhamos de mostrar ao Carabanchel, à Espanha, aos Estados Unidos e ao planeta Terra que éramos crianças boas, que lutávamos pela paz no mundo mundial e que ela tinha tido a ideia de fazer nós trinta, todos uns animais, nos vestirmos de pombas da paz.
Se a tia Assunção não fosse nossa professora e nós não fôssemos um bando de covardes, teríamos dito em coro: "Qual é, jacaré?"
Então minha tia continuou:
- O jurado, que é da Associação de Moradores, nos dará o primeiro prêmio, porque não há jurado na Espanha que resista dar o primeiro prêmio a trinta crianças vestidas de pombas da paz. Além disso, ganharemos muitos presentes. Por um dia, seremos os símbolos da paz mundial e nosso grito de guerra até sábado será: Vamos massacrá-los.
Disso nós gostamos. Com um grito de guerra como aquele podíamos ir até o fim do mundo. Íamos massacrar todas as crianças de todas as escolas do bairro com nossos trajes de superpombas da paz.
Minha mãe e as mães das trinta crianças animais que nós somos fizeram durante a semana os trajes de pomba com papel vegetal. Minha mãe se queixava muito, dizendo que minha tia vivia arranjando desculpa para ela ter de gastar dinheiro e trabalhar. Que não sabia como fazer fantasia de pomba e que quem estava precisando de paz era ela, de muita paz numa praia deserta e sem crianças, que isso sim era a paz mundial.
Afinal, no dia C - C de Concurso e Carnaval - minha mãe nos vestiu - eu e meu irmão - com nossas roupas de papel vegetal e nos disse para irmos indo para a escola.
Encontramos a Luísa na escada e a Luísa nos disse:
- Nossa, sua mãe deve ter tido um trabalhão para vestir vocês de pinguins.
Então agarrei o meu irmão e voltei a subir para casa, para dizer à minha mãe que nós não queríamos sair na rua vestidos de pinguins, nem que fosse pela paz mundial.
Na rua, uma senhora disse a outra:
- Veja só que pinguins lindos!
Quando chegamos à escola, ficamos alucinados: na porta estava Yihad vestido com umas penas, parecendo uma galinha; o Orelhão parecia um pavão, a Susana parecia uma avestruz, o Paquito Medina, um pelicano, e assim até trinta e três. Não havia dois pássaros iguais. Bom, só meu irmão e eu, aqueles pinguins lindos.
Todos nós ficamos olhando uns para os outros e, muito chateados, fomos escoltados pela tia Assunção até a discoteca "Silicone", onde estava se realizando o Festival.
A tia Assunção não deixou por menos: também estava fantasiada e parecia uma pata ou uma gansa.
A tia Assunção estava tão contente que nem parecia a tia Assunção. Disse que, quando fôssemos entrar no palco, ela ia dizer:
- Um, dois, três!
E nós tínhamos de responder batendo as asas e gritando em coro, até arrebentar a garganta:
- Viva a paz mundial!
Nós íamos gritar "Viva a paz mundial!", mas quando fomos bater as asas começamos a nos embaraçar uns nos outros e, se a tia, não tivesse posto ordem, teríamos chegada à discoteca completamente depenados. A tia disse para a gente esquecer a história de bater as asas, que era para batê-las só depois de ganharmos o prêmio.
Já estávamos na discoteca. Nós trinta sentamos num canto. O apresentador era o diretor da creche "O Pimpolho", que fica ao lado da minha casa.
Subiam uns fantasiados de árvores. O grupo se chamava "O Outono". Tinham cordão pendurado num galho e, quando puxavam o cordão, automaticamente as folham caíam. O público ficou alucinado com a bobagem que acabava de ver. Depois, subiam os clássicos super-heróis, uns meninos fantasiados de reality shows com facas cravadas nas costas, outros que iam de pão recheado de chocolate...
Nós fomos os quintos. Tínhamos sido treinados para, depois de "Um, dois e três" da tia Assunção, gritar "Viva a paz mundial", mas não deu tempo de fazer nosso número, porque quando a tia disse "Um, dois e três" ouviu-se a voz de um garotão de um colégio de Formação Profissional do meu bairro chamado "Baronesa de Thyssen":
- Yihad, como você fica bem vestido de galinha!
O Yihad se jogou do palco para virar o engraçadinho do avesso.
Minha tia Assunção ficou sozinha no palco. A coitada chorava, fantasiada de pata.
Parecia que aquele carnaval ia ser o pior das nossas vidas, mas você não vai acreditar no que aconteceu no final, porque foi uma coisa que nem os chineses da Rússia esperavam.
Uma vez que a briga se acalmou e o palco ficou vazio, o Superbarriga leu os prêmios indo do terceiro ao primeiro, para tornar aqueles momentos mais emocionantes:
- O terceiro prêmio coube ao grupo "Reality Shows", por sua simpatia e originalidade.
O público inteiro se desfez em vaias:
- Fora!!!
O segundo prêmio foi concedido ao grupo "O Outono", pela beleza de representação de uma estação do ano tão importante quanto as outras.
- E o primeiro prêmio... - O Superchato fez uma pausa para criar maior expectativa. Garanto que ele estava ouvindo o rangido de dentes dos espectadores ansiosos. - O primeiro prêmio foi concedido por unanimidade ao grupo "Os Pássaros", por sua defesa das espécies em via de extinção.
Bem se via que ninguém tinha ficado sabendo daquela história de paz mundial, então tivemos de admitir que éramos um grupos de pássaros em via de extinção. Nem sempre a gente é o que quer nesta vida.
Texto de Elvira Lindo retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 132, Janeiro/Fevereiro de 2003. Ministério da Educação, FNDE.