18 abril 2026

A Paz Mundial

Minha tia Assunção entrou na classe às nove da manhã. Ela tomou fôlego e quase todos nós bocejamos, porque era muito cedo para aguentar um daqueles discursos dela. Nossa tia disse o seguinte:

- Este ano quero que nós preparemos o Carnaval como se fosse o último carnaval da nossa vida. Vamos nos apresentar no concurso de fantasias que vão fazer numa discoteca de Carabanchel no sábado que vem. Vão se

Fortaleçamo-nos (111)

 "Sede fortalecidos no Senhor." - Paulo. (EFÉSIOS, 6:10.)


Há muita gente que se julga forte...

Nos recursos financeiros, que surgem e fogem.

Na posse de terras, que se transferem de dono.

Na beleza física, que brilha e passa.

Nos parentes importantes, que se transformam.

Na cultura da inteligência que, muitas vezes, se engana.

Na popularidade, que conduz à desilusão.

No poder político, que o tempo desfaz.

No oásis de felicidade exclusivista, que a tempestade destrói.

Sim, há muita gente que supõe vencer hoje para acabar vencida amanhã.

Todavia, somente a consciência edificada na fé, pelos deveres bem cumpridos à face das Leis Eternas, consegue sustentar-se, invulnerável, sobre o domínio próprio.

Somente quem sabe sacrificar-se por amor encontra a incorruptível segurança.

Fortaleçamo-nos, pois, no Senhor e sigamos, de alma erguida, para a frente, na execução da tarefa que o Divino Mestre nos confiou.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

12 abril 2026

Por que soluçamos?

Vale tudo na luta contra o soluço: levar susto, beber copos de água até grudar com saliva um pedaço de papel no meio da testa. Mas nada garante que todos esses improvisos funcionem. Na maioria das vezes, o "hic, hic, hic", teimoso, continua! Qual será a causa desse misterioso barulho? Como fazê-lo parar?

O principal responsável pela nossa respiração é um músculo bem fino, que separa o tórax do abdômen: o diafragma. Graças aos movimentos do diafragma, que se contrai, inspiramos e expiramos o ar. O diafragma é auxiliado pelo nervo frênico. Localizado logo acima do estômago, este nervo controla os movimentos do diafragma.

Mas qual é a relação de tudo isso com o soluço? Bem, é a irritação do nervo frênico que causa o soluço. Irritação? Se você já pensou no nervo frênico mal humorado, nervoso e de cara feia, contenha a imaginação! Vamos ver o que acontece de verdade. Com a ingestão de líquidos ou comida em excesso, bebidas muito quentes, geladas ou com gás em demasia, o estômago incha e, por estar muito perto do nervo frênico, pode irritá-lo, isto é, sensibilizá-lo, como acontece com os olhos quando entra poeira.

O nervo frênico, irritado, manda o diafragma se contrair. Com isso, inspiramos ar. O problema é quando uma "tampinha" que há no fundo da garganta, a glote, fecha-se de repente e não deixa o ar passar da boca para os pulmões. Isso provoca a vibração das cordas vocais e "hic, hic, hic", lá vem o soluço! Esse fechamento da glote acontece independentemente da nossa vontade. Normalmente, ela fica aberta para a passagem do ar e só se fecha quando comemos. Quando a glote se abre, o ar volta a passar normalmente para os pulmões, o que não quer dizer que o soluço vai acabar. Isso só acontece quando o nervo frênico volta a trabalhar normalmente.

Qualquer pessoa e até animais, como cachorros, gatos e outros mamíferos, podem ter soluços! Em geral, o soluço acontece várias vezes seguidas e para em alguns minutos. Mas há quem soluce por horas ou até dias. Essas pessoas ficam cansadas, sentem desconforto e até dor. Quando isso acontece, é bom procurar um médico.

No caso do soluço comum, há maneiras de acabar com ele! Tomar um copo de água com o nariz tampado, por exemplo. Como fica difícil respirar, aumenta a quantidade de gás carbônico no corpo, o que inibe a irritação do nervo frênico e o faz voltar a trabalhar corretamente. Mas, cuidado: tampe o nariz por pouco tempo" E caso você veja um amigo soluçando, dê um susto nele! Assim será liberada no sangue uma substância chamada adrenalina, que fará o nervo frênico voltar ao normal!

Para evitar soluços, alimente-se de forma equilibrada e tente não ingerir líquidos durante a refeição, em especial, refrigerantes. Caso contrário, aguente o "hic, hic, hic..."


Texto de Rafael Pereira Leitão (Museu Nacional - UFRJ), retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 14, Número 120, Dezembro de 2001, Ministério da Educação, FNDE.

Entre carneirinhos & tempestades

 A previsão do tempo informa: o dia será ensolarado, com muitas nuvens no céu azul. Se você fez cara de desânimo, mude a fisionomia já! As nuvens não são sinônimo de tempo ruim e podem ser a maior diversão. Quem nunca ficou de papo para o ar e as achou parecidas com carneirinhos? E, quando era menor, você não pensava que elas eram feitas de algodão? Apesar disso, a maioria das pessoas distingue apenas nuvens de chuva das nuvens brancas e fofas. Se esse for o seu caso, saiba que é hora de descobrir por quais tipos de nuvens os aviões evitam passar, que tipo de nuvem resulta de uma tempestade distante ou aparece com a passagem de frentes frias. Basta ficar com um olho no céu e outro no texto que começa a seguir!


Para os curiosos, não é suficiente explicar que as nuvens são formadas por gotas de água ou cristais de gelo em suspensão na atmosfera. Eles também querem saber como gotas e cristais foram parar lá em cima! Pois tudo começa com a evaporação da água de rios, lagos, oceanos e a transpiração das plantas pelo calor do Sol. Ele aquece a água que passa do estado líquido para o estado gasoso. Os raios solares também aquecem a superfície que, por sua vez, aquece o ar próximo a ela.

O ar quente é mais leve e sobe. Mas, quanto maior é a altura, menor é a temperatura. Por isso, o ar esfria e o vapor d'água que ele contém condensa, isto é, passa do estado gasoso para o estado líquido. Às vezes, o vapor d'água atinge altitudes onde a temperatura é tão baixa que se transforma em cristais de gelo.

A condensação ocorre ao redor de impurezas existentes na atmosfera, chamadas núcleos de condensação. Essas impurezas atraem o vapor d'água. Portanto, se a atmosfera for absolutamente limpa, não há condensação e, consequentemente, não há formação de nuvens.

O tamanho das gotas de água varia de acordo com a quantidade de impurezas presentes na atmosfera. Sobre os oceanos, por exemplo, há menos impurezas. Então, o vapor d'água é atraído por poucos núcleos de condensação. Com isso, são formadas gotas d'água maiores e mais pesadas. Isso impede que as nuvens formadas - chamadas oceânicas ou marítimas - alcancem altas altitudes. A base desse tipo de nuvem costuma estar a 500 metros de altura e o topo, entre quatro e oito quilômetros. Além disso, as chuvas acontecem assim que as gotas são formadas. Como elas são pesadas caem logo.

Por outro lado, existem mais impurezas sobre os continentes do que em cima dos oceanos. Elas atraem o vapor d'água e formam gotas pequenas e leves. As nuvens continentais, então, atingem altitudes mais altas do que as nuvens marítimas. Seu topo costuma estar entre dez e 15 quilômetros de altura. Como as gotas que formam esse tipo de nuvem precisam crescer para ganhar peso e cair, as chuvas das nuvens continentais demoram mais a acontecer.


Nuvens de todo tipo

A classificação das nuvens em oceânicas ou continentais leva em consideração a localização geográfica. Mas as nuvens recebem vários nomes e os quatro tipos principais são: cúmulo, cúmulos-nimbos, cirros e nuvens estratos ou de camadas.

As nuvens brancas e fofas que vemos em geral nas manhãs de verão chamam-se cúmulos. Elas existem em todo mundo, duram entre 20 e 30 minutos e são formadas quando há inversão térmica. O que é isso? Bom, você já sabe que a temperatura da atmosfera diminui com o aumento da atitude. Mas, em determinados níveis atmosféricos, a temperatura aumenta com a altitude ao invés de diminuir. Só depois de centenas de metros, ela volta a diminuir quanto mais alto fica. Esse fenômeno é chamado de inversão térmica. Ele impede a nuvem de ultrapassar a espessura entre 500 metros e um quilômetro.

As nuvens de chuva são chamadas cúmulos-nimbos. A cor escura é sua marca registrada. E sabe por que isso ocorre? Porque os raios solares, em sua maioria, são refletidos no topo desse tipo de nuvem por cristais de gelo!

Os aviões evitam passar por essas nuvens por causa da turbulência que elas provocam. Se houver nuvens cúmulos-nimbos às vista, pode apertar os cintos porque a aeronave vai chacoalhar!

A turbulência é causada pelas fortes correntes de ar que há dentro da nuvem. São jatos de ar voltados para cima - provocados pelo levantamento de ar quente da superfície - e também de jatos de ar direcionados para baixo, criados quando as gotas se formam e caem. O movimento do ar provoca turbulência à sua volta.

Tempestades causadas por nuvens cúmulos-nimbos podem formar jatos de ar que chegam a até 12 quilômetros de altitude. Nessa altura, há o limite entre duas camadas da atmosfera: a troposfera e a estratosfera. Como o ar da troposfera não consegue entrar na estratosfera, ele é espalhado por baixo dela. Nesse local, a temperatura é de 60 graus abaixo de zero! Por isso, o vapor d'água imediatamente sublima, ou seja, passa do estado gasoso para o sólido. As gotas de águas que forem expostas a temperaturas tão baixas congelam. Viram, portanto, gelo. Esses cristais de gelo vão formar as nuvens cirros, que parecem suaves faixas brancas no céu. Na altitude em que são formadas, há ventos com velocidade de 150 quilômetros por hora. Eles espalham os cristais por lugares distantes, que não estão sendo atingidos pela tempestade. As nuvens cirros podem durar dias porque demoram muito a se dissolver. Isso acontece porque, apesar de haver ventos fortes nos locais em que elas se formam, eles não criam turbulências. Além disso, a temperatura baixa favorece a preservação dos cristais de gelo por longos períodos.

As nuvens estratos ou de camadas cobrem áreas imensas e formam chuvas finas. Elas surgem com a passagem de uma frente fria. Aposto como você sempre quis saber o que isso significa! Pois bem, a frente fria é uma massa de ar frio vinda de regiões muito frias, os polos da Terra. As frentes frias que atingem o hemisfério Sul vêm do polo Sul, enquanto as que alcançam o hemisfério Norte vêm do polo Norte. Essas frentes frias empurram para cima o ar quente que encontram. Ao subir, o ar quente esfria, condensa e forma nuvens estratos ou de camadas. O tamanho desse tipo de nuvem está relacionado com o tamanho das frentes frias, que podem ter mil quilômetros de comprimento e cem quilômetros de largura. Elas são capazes de provocar o levantamento de grande quantidade de ar.


Segredos do tempo

Mas qual a importância de estudar as nuvens? Elas podem auxiliar os meteorologistas a fazer previsões de tempo com mais antecedência e precisão!

Esses profissionais contam com a ajuda de um programa de computador para prever as variações do tempo. Tudo o que eles conhecem sobre a atmosfera está lá. Mas o programa ainda não é perfeito. Por exemplo, ele não consegue "enxergar" as nuvens. Isso acontece porque o programa monitora o globo terrestre por uma rede de pontos, que estão separados uns dos outros por uma distância de cerca de 100 quilômetros. Só que as nuvens são muito menores! As cúmulos, por exemplo, têm cerca de 100 metros de diâmetro, enquanto as cúmulos-nimbos, dez quilômetros.

Hoje, esse programa de computador é capaz de fazer previsões de tempo com três, quatro ou até cinco dias de antecedência. Mas as previsões seriam muito mais precisas com a possibilidade de representar as nuvens e o seu comportamento pelo computador. Afinal, elas são as responsáveis pelas chuvas. E para diversas atividades humanas, como a agricultura, é fundamental saber quanto vai chover!


Texto de Mara Figueira e Maria Assunção Dias (Instituto Astronômico e Geofísico, Universidade de São Paulo), retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 14, Número 120, Dezembro de 2001, Ministério da Educação, FNDE.

Por que sonhamos?

Talvez você ainda não tivesse certeza, mas só de se lembrar de alguns sonhos bem ricos em cores, detalhes e emoções, já devia suspeitar de que o cérebro não para de funcionar enquanto dormimos. Por mais que a gente sinta que o corpo e a mente precisam do repouso de todas as noites, o cérebro, na verdade, continua funcionando. Mas de uma maneira diferente, é claro.

Passeando pela cidade, você já deve ter notado algumas lojas com placas penduradas com a seguinte frase: "Fechado para balanço". Quer dizer que a loja está avaliando as atividades realizadas e fazendo um levantamento de tudo o que é necessário para continuar funcionando. Para que as vendas não atrapalhem o balanço, a loja precisa fechar suas portas por um dia. Do mesmo modo, quando você dorme, seu cérebro "fecha para balanço" e ignora tudo o que se passa do lado de fora, permitindo que você caia no sono mesmo com a televisão ligada, por exemplo. A cada noventa minutos, seu cérebro entra num período de intensa atividade interna, "ligando", em pleno sono, suas zonas responsáveis por sensações, memórias e emoções: é o sonho que começa.

Mas por que o cérebro continua trabalhando enquanto o resto do corpo descansa? Segundo pesquisas feitas nos últimos anos, a função do sonho parece ser a de oferecer ao cérebro uma oportunidade de rever acontecimentos importantes dos últimos dias. Boa parte dos estudos é feita em ratos de laboratório com alguns eletrodos implantados, que detectam a atividade dentro do cérebro. Por exemplo, enquanto os ratinhos exploram um labirinto novo, uma região do cérebro deles cria um "mapa" dos lugares por onde passam. Quando eles adormecem e começam a sonhar (é, ratinhos também sonham!), o mapa recém-criado é "ligado" de novo - o que indica que os bichos estavam sonhando com o labirinto. Funciona tão bem que dá até para dizer, pelo ponto do mapa que está ativado, com que parte do labirinto o rato está sonhando...

Ter um mecanismo para reprisar os acontecimentos importantes já é bacana, mas, talvez, o mais importante do sonho aconteça em seguida, quando o cérebro parece decidir, na paz do sono quais acontecimentos merecem ser registrados definitivamente, ou seja, quais ficarão na memória. Parte desse registro noturno provavelmente acontece durante a outra parte do sono, sem sonhos. Mas nem aí o cérebro fica de bobeira, descansando. É nessa fase que ele produz novas substâncias que vão ajudar a construir mais ligações entre as células do cérebro para guardar tudo na memória.

Por isso, hoje acredita-se que o sono, com sonhos e tudo, é essencial para fixar na memória o que se aprende durante o dia. Ou seja, é preciso dormir - e sonhar - para realmente aprender. E você que pensava que a aula acabava quando o sinal da saída tocava... Pois até sonhando o cérebro trabalha no dever de casa!


Texto de Suzana Herculano-Houzel, Museu da Vida - Fiocruz, O Cérebro Nosso de Cada Dia, www.cerebronosso.bio.br, retirado do Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 15, Número 125, Junho de 2002, Ministério da Educação, FNDE.

11 abril 2026

Quando crescer, vou ser... Estatístico!

Vestido a caráter - de casaco e boné xadrez -, o detetive busca pistas com a lupa. Mas não encerra seu trabalho quando encontra! Ele as analisa e relaciona para concluir quem é o culpado do caso que investiga nos filmes, desenhos animados ou livros! E na vida real? Será que existe alguém que faça trabalho parecido com o do detetive? Sim! Há um profissional que substitui a roupa xadrez e a lupa por um conjunto de técnicas e métodos de pesquisa chamado estatística. Sua função é coletar, organizar e interpretar dados com o objetivo de chegar a conclusões ou fazer previsões sobre determinado assunto. O nome desse profissional é elementar, meu caro leitor: estatístico!

"O estatístico atua como um detetive: ele analisa uma grande variedade de dados em busca de pistas ou evidências sobre um determinado assunto", explica o estatístico José Matias de Lima, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE), ligada ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E, para isso, ele conta com a estatística, parte da matemática que estuda os processos para obter, organizar e analisar dados sobre uma população e as maneiras de tirar as conclusões ou prever o que pode acontecer no futuro baseado nesses dados.

O estatístico faz pesquisas, coleta dados e analisa informações com diferentes objetivos e em várias áreas. Ele pode, por exemplo, fazer pesquisas de opinião para saber, no ano em que há eleição, em qual candidato a maioria das pessoas está pensando em votar e que, portanto, deve vencer. Mas, para isso, não precisa perguntar a opinião de cada eleitor! O estatístico seleciona um grupo de eleitores, é a chamada amostra - que, como a sociedade, reúne gente de diferentes classes sociais, idade, sexo, profissão. Pede que respondam a um questionário, organiza as informações e as analisa. "A seguir, generaliza os resultados obtidos na amostra de eleitores para toda a população", diz José Matias.

Usando esse mesmo método, o estatístico pode conseguir informações sobre as preferências das pessoas em relação a um produto - o que é precioso para a indústria! Se ele descobrir, por exemplo, que os consumidores gostariam de ter um tênis que brilha no escuro, a empresa lançaria um modelo assim. A partir de pesquisas, ele também é capaz de indicar para empresários qual o melhor lugar para a instalação de fábricas, supermercados, shoppings, escolas, cinemas!

Da mesma forma, o trabalho do estatístico é útil para o governo. As informações colhidas por ele ajudam a fazer um retrato do Brasil! O estatístico é o responsável por determinar, por exemplo, o número de crianças que estão fora da escola, qual eletrodoméstico é mais comum entre os brasileiros, a expectativa de vida dos habitantes do país, etc etc etc...

Na área de saúde, esse profissional pode usar pesquisas para definir o número de pessoas que tem determinada doença e alertar sobre riscos de epidemia. "Por meio desses dados, o governo identifica onde é mais importante investir em saúde, educação, habitação, transportes", explica Matias.

Ufa! Viu só em quantas áreas o estatístico pode atuar? Pois foi isso que fez José Matias optar pela profissão. Quando criança, ele já sonhava em seguir alguma carreira ligada à matemática. Pensou até em ser engenheiro, mas a estatística venceu! "Além do fato de poder atuar em diferentes áreas, o que mais me fascina nesta profissão é ter contato e poder trabalhar em conjunto com outros profissionais de diferentes áreas do conhecimento", conta. Segundo ele, o estatístico nada faz sozinho e, portanto, precisa saber trabalhar em equipe. Deve, ainda, gostar de desafios, não ter medo de lidar sempre com o diferente e se interessar por novos assuntos. E, claro, ter um pouquinho de espírito de detetive!


Texto de Sarita Coelho retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 15, Número 125, Ju8nho de 2002, Ministério da Educação, FNDE.

Vó caiu na piscina

Noite na casa da serra, a luz apagou.

Entra o garoto:

- Pai, vó caiu na piscina.

- Tudo bem, filho.

O garoto insiste:

- Escutou o que eu falei, pai?

- Escutei, e daí? Tudo bem.

- Cê não vai lá?

- Não estou com vontade de cair na piscina.

- Mas ela tá lá...

- Eu sei, você já me contou. Agora deixe seu pai fumar um cigarrinho descansado.

- Tá escuro, pai.

- Assim até é melhor. Eu gosto de fumar no escuro. Daqui a pouco a luz volta. Se não voltar, dá no mesmo. Pede à sua mãe pra acender a vela na sala. Eu fico aqui mesmo, sossegado.

- Pai...

- Meu filho, vá dormir. É melhor você deitar logo. Amanhã cedinho a gente volta pro Rio, e você custa muito a acordar. Não quero atrasar a descida por sua causa.

- Vó tá com uma vela.

- Pois então? Tudo bem. Depois ela acende.

- Já tá acesa.

- Se está acesa, não tem problema.

Quando ela sair da piscina, pega a vela e volta direitinho pra casa. Não vai errar o caminho, a distância é pequena, e você  sabe muito bem que sua avó não precisa de guia.

- Por que não acredita no que eu digo?

- Como não acredito? Acredito sim.

- não tá acreditando.

- Você falou que a sua avó caiu na piscina, eu acreditei e disse: tudo bem. Que é que você queria que eu dissesse?

- Não, pai, não acreditou ni mim

- Ah, você está me enchendo. Vamos acabar com isso. Eu acreditei, viu? Estou te dizendo que acreditei. Quantas vezes você quer que eu diga isso? Ou você acha que estou dizendo que acreditei mas estou mentindo? Fique sabendo que seu pai não gosta de mentir.

- Não te chamei de mentiroso.

- Não chamou, mas está duvidando de mim. Bem, não vamos discutir por causa de uma bobagem. Sua avó caiu na piscina, e daí? É um direito dela. Não tem nada de extraordinário cair na piscina. Eu só não caio porque estou meio resfriado.

- Ô, pai, é de morte!

O garoto sai, desolado. Aquele velho não compreende mesmo nada. Daí a pouco, chega a mãe:

- Eduardo, você sabe que dona Marieta caiu na piscina?

- Até você, Fátima? Não chega o Nelsinho vir com essa ladainha?

- Eduardo, está ficando escuro que nem breu, sua mãe tropeçou, escorregou e foi parar dentro da piscina, ouviu? Está com a vela acesa na mão, pedindo para que tirem ela de lá, Eduardo! Não pode sair sozinha, está com a roupa encharcada, pesando muito, e se você não for depressa, ela vai ter uma coisa! Ela morre, Eduardo!

- Como? Por que aquele diabo não me disse isto? Ele falou apenas que ela tinha caído na piscina, não explicou que ela tinha tropeçado, escorregado e caído!

Saiu correndo, nem esperou a vela, tropeçou, quase que ia parar também dentro d'água:

- Mamãe, me desculpe! O menino não me disse nada direito. Falou só que a senhora caiu na piscina. Eu pensei que a senhora estava se banhando.

- Está bem, Eduardo - disse dona Marieta, safando-se da água pela mão do filho, e sempre empunhando a vela que conseguira manter acesa. - Mas de outra vez você vai prestar mais atenção no sentido dos verbos, ouviu? Nelsinho falou direito, você é que teve um acesso de burrice, meu filho!


Texto de Carlos Drummond de Andrade retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 15, Número 125, Junho de 2002, Ministério da Educação, FNDE.


Vó caiu na piscina - In.: Moça deitada na grama, de Carlos Drummond de Andrade, Editora  Record, Rio de Janeiro, páginas 216 - 217 - 218. Atualmente publicado no livro Para Gostar de Ler - Júnior, volume 3/Rick e a girafa, Editora Ática.


Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, na cidade de Itabira, Minas Gerais. Sua obra, que sempre abordou temas diversos, divide-se entre a prosa e a poesia. Drummond morreu em 1987 e é considerado um dos maiores autores da literatura brasileira do século 20.

Vigiemos e Oremos (110)

 "Vigiai e orai, para não cairdes em tentação." - Jesus. (MATEUS, 26:41.)


As mais terríveis tentações decorrem do fundo sombrio de nossa individualidade, assim como o lodo mais intenso, capaz de tisnar o lago, procede do seu próprio seio.

Renascemos na Terra com as forças desequilibradas do nosso pretérito para as tarefas do reajuste.

Nas raízes de nossas tendências, encontramos as mais vivas sugestões de inferioridade. Nas íntimas relações com os nossos parentes, somos surpreendidos pelos mais fortes motivos de discórdia e luta.

Em nós mesmos podemos exercitar o bom ânimo e a paciência, a fé e a humildade. Em contacto com os afetos mais próximos, temos copioso material de aprendizado para fixar em nossa vida os valores da boa-vontade e do perdão, da fraternidade pura e do bem incessante.

Não te proponhas, desse modo, atravessar o mundo, sem tentações. Elas nascem contigo, assomam de ti mesmo e alimentam-se de ti, quando não as combates, dedicadamente, qual o lavrador sempre disposto a cooperar com a terra da qual precisa extrair as boas sementes.

Caminhar do berço ao túmulo, sob as marteladas da tentação, é natural. Afrontar obstáculos, sofrer provações, tolerar antipatias gratuitas e atravessar tormentas de lágrimas são vicissitudes lógicas da experiência humana.

Entretanto, lembremo-nos do ensinamento do Mestre, vigiando e orando, para não sucumbirmos às tentações, de vez que mais vale chorar sob os aguilhões da resistência que sorrir sob os narcóticos da queda.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

05 abril 2026

Um pequeno morcego ameaçado

Galeria de Bichos Ameaçados


Nome científico: Lonchophylla dekeyseri

Nome popular: Morceguinho-do-cerrado

Tamanho: de 45 a 65 milímetros de comprimento, do focinho até a ponta da cauda

Peso: de 10 a 12 gramas, aproximadamente

Local onde é encontrado:  em cavernas no Distrito Federal, na Serra do Cipó (em Minas Gerais) e em Sete Cidades (Piauí)

Habitat: Cerrado brasileiro

Motivo da busca: ameaçado de extinção


O morceguinho-do-cerrado é um mamífero genuinamente brasileiro e, como o nome sugere, só existe no Cerrado! Ele faz parte da extensa ordem dos morcegos, a Chiroptera, e, comparado com seus parentes, pode ser considerado de pequeno porte. Mede entre 45 e 65 milímetros de comprimento (da ponta do focinho até a ponta da cauda) e pesa de 10 a 12 gramas. Sua cauda é curta, tem de 7 a 10 milímetro de comprimento, e seu antebraço, de 34 a 38 milímetros. Os pelos das costas desse pequeno morcego são mais escuros que os da barriga. Portanto, com essa aparência delicada, se quiséssemos compará-lo com personagens de filmes e desenhos animados, poderíamos dizer que ele está mais para Fada Sininho, do Peter Pan, do que para Conde Drácula, né?

Sabia que, para os pesquisadores, o sorriso dos mamíferos é uma preciosa fonte de informação? Pois os dentes deles indicam, por exemplo, o que comem e a idade que têm. No caso dos morcegos, servem até para diferenciá-los, porque o número de dentes varia de uma espécie para outra. os dentes do morceguinho-do-cerrado, que são muito pontudos e pequenos, mostram que ele pode quebrar e triturar pequenos insetos e rasgar frutos. Mas eles gostam mesmo é do néctar das flores. Assim, são chamados de nectarívoros e para se alimentar contam com focinho e língua alongados.

Na hora de sugar o néctar, os morcegos adejam como os beija-flores. Isso quer dizer que eles batem as asas para ficar parados em pleno voo em frente à flor. Aí, enfiam a cabeça dentro dela e esticam a comprida língua para lamber o néctar depositado no fundo. Mas, ao contrário dos beija-flores, que são animais de hábitos diurnos, os morcegos passam o dia descansando nos abrigos e saem para comer à noite. As flores mais visitadas por eles são as do embiriçu, da unha-de-vaca, do açoita-cavalo e do jatobá. No Cerrado brasileiro, essas plantas geralmente  florescem no período de seca, entre os meses de maio e setembro.

É também nesse período que costumam nascer os filhotes do morceguinho-do-cerrado. A fêmea fica grávida por um período de até três meses e os bebês morcegos mamam por dois meses. Depois disso, alimentam-se como os adultos: do néctar as flores. Voando junto com os mais velhos durante certo tempo, os filhotes logo aprendem a sugar o néctar. Quando ainda não voam bem, as fêmeas não os carregam para buscar alimento à noite. Eles ficam nas cavernas sendo cuidados, como numa creche, por outros morcegos adultos.

O morceguinho-do-cerrado é considerado ameaçado de extinção porque seu ambiente natural, o Cerrado, está sendo desmatado para a criação de pastos e áreas de lavoura. Além disso, a destruição das cavernas pelas atividades de mineração também contribui para colocar em perigo a espécie. O ideal é que o homem encontre maneiras de combinar o desenvolvimento com a permanência das espécies em seus hábitats.


Texto de Ludmilla Aguiar (Embrapa Cerrados - Recursos Naturais); retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 17, Número 145, Abril de 2004, Ministério da Educação, FNDE.

Quando crescer, vou ser... Botânico!

Costela-de-adão, jiboia, comigo-ninguém-pode, espada-de-são-jorge... Você consegue adivinhar o que estas palavras nomeiam? Aí vão algumas dicas: elas dão nome a seres que podem estar na sua casa, são muito importantes para a nossa  sobrevivência e alguns são até comestíveis! Nem desconfia? Pois estamos falando de plantas! Existe um profissional apaixonado pela natureza que é o responsável por estudá-las. Prepare-se para uma leitura com cheirinho de mato, porque, agora, você vai descobrir o que faz um botânico!

O estudo das plantas remonta à Antiguidade: um filósofo grego de nome esquisito - Theophrastus - foi a primeira pessoa a classificar os vegetais, no ano 370 antes de Cristo! No século 16, o alemão Otto Brunfels publicou a obra Herbarium, com ilustrações e termos científicos relacionados a algumas plantas. Mas só no século 18 foram realizados estudos mais aprofundados, como o do sueco Carl Von Linné, que propôs uma nomenclatura para as plantas em que elas teriam dois nomes em latim: o primeiro indicaria o gênero e o segundo, a espécie, como a Laelia Lobata, que popularmente conhecemos pelo nome de orquídea.

No Brasil, o estudo das plantas ganhou importância com a chegada da corte portuguesa, em 1808. Neste ano, D. João VI fundou o Jardim Botânico no Rio de Janeiro, que se tornaria o centro da botânica nacional no século 20. Pode-se dizer que a análise da flora brasileira, a mais rica do mundo, se iniciou com o alemão Karl Friedrich Philipp Von Martius, que, entre 1817 e 1820, percorreu o país colhendo os mais variados tipos de plantas, o que resultou na obra Flora Brasiliensis, de 15 volumes! Outro importante pesquisador da nossa flora foi o frei José Mariano da Conceição Velloso, brasileiro, que, em 1825, descreveu várias plantas nativas do estado do Rio de Janeiro no livro Flora Brasiliensis.

Por muitos séculos, todas as pessoas que estudavam a natureza eram chamadas naturalistas. A profissão de botânico teve seu início somente em 3 de setembro de 1979, quando a faculdade de Biologia foi reconhecida.

Para não esquecer, anote: Botânica é a ciência que estuda os vegetais em todos os sentidos. Ela divide-se em alguns ramos, como a botânica sistemática ou taxionomia, que ordena e classifica as plantas descobertas; a fisiologia vegetal, que analisa os processos vitais da planta, como a nutrição e a reprodução; a morfologia vegetal, que leva em conta a forma e estrutura das plantas; a fitopatologia, que verifica as doenças que atingem os vegetais; a paleobotânica, que estuda a flora já extinta do planeta; a fitogeografia, que descreve e explica, por exemplo, a distribuição das plantas segundo o clima e o relevo; a sociologia vegetal, que estuda as comunidades de plantas que formam as diferentes espécies; e a ecologia vegetal, que se ocupa da relação das plantas com o meio ambiente. Ufa! Quanta coisa!

Um botânico pode se especializar em qualquer uma das áreas citadas. Mas ainda há outras! Jorge Ernesto Mariath, diretor do Instituto de Biociências e professor titular do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, por exemplo, trabalha na parte de anatomia das plantas, estudando-as interna e externamente. "É como se eu fosse um cirurgião de plantas, pois cortou-as de várias formas para entender a organização de suas células e tecidos", diz ele que, quando criança, pensava em ser médico, e, hoje, "opera" os vegetais!

Quem pretende ser botânico deve primeiro cursar a faculdade de Ciências Biológicas, que dura quatro anos, e, depois, optar pela especialização em Botânica. Foi o que fez Marcus Nadruz, outro que, por influência de um tio, queria ser médico quando crescesse. Mas ficou adulto e mudou de planos. Escolheu cursar Biologia e atualmente trabalha no Departamento de Botânica Sistemática do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Sua função é identificar novas espécies de plantas e classificá-las de acordo com sua forma, estrutura, presença ou não de flores, futos e folhas. Para isso, comparar as novas espécies com as dos herbários - locais onde as plantas coletadas e classificadas passam por um processo de herborização, isto é, de secagem, para ficarem conservadas e servirem como objeto de estudo. No herbário, as espécies são organizadas em gavetas, em ordem alfabética, com informações como nome, local e data da coleta, tudo etiquetado! Para se ter ideia da importância desses arquivos de plantas, os primeiros herbários surgiram já no século 15. A partir deles, pode-se reflorestar uma área que pegou fogo, por exemplo. "Com as informações das etiquetas, pesquisamos as espécies que existiam no local que foi devastado e vamos em busca delas para replantarmos", explica Marcus.

Depois de conhecer algumas atribuições de um botânico, que tal dar um pulinho no jardim botânico da sua cidade e ver de perto a riqueza da nossa flora? Esse já é um passo para você - que se interessou pela profissão - tirar suas dúvidas e se encantar ainda mais com as belezas do nosso país!


Texto de Juliana Martins retirado do Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 135, Maio de 2003, Ministério da Educação, FNDE.