28 maio 2026

A Lealdade Linguística

 A EMPRESA FALA POR MEIO DO SENSO DE COMUNIDADE COMPARTILHADO PELOS EMPREGADOS


A entrada de um profissional na empresa ocorre formalmente em seu primeiro dia de trabalho. Ainda é registrada em um instrumento chamado Carteira de Trabalho, que os arqueólogos no futuro custarão a identificar.

Há um tempo decorrido entre começar a trabalhar e se sentir parte da empresa. Esse tempo é curto em empresas que são verdadeiramente ótimos lugares para trabalhar, apesar desta denominação imprecisa. Quanto

Uma longa Idade Média

A VIDA PORTUGUESA MEDIEVAL LEVOU A UM DADO USO DAS PALAVRAS QUE ESTÁ MUITO LIGADO À ADEQUAÇÃO CRIATIVA DA LÍNGUA A PADRÕES CADA VEZ MAIS INTERNACIONAIS


É comum imaginarmos o milênio correspondente à Idade Média como uma fase muito mais curta e homogênea do que de fato foi. Mesmo quando queremos ser específicos e restringimos nossas afirmações para um século, esquecemo-nos de que em cem anos muita coisa ocorre.

Se escolhermos arbitrariamente o ano de 1385, por exemplo, verificaremos que muita coisa ocorreu nessa data, que tem ligações diretas com a Língua Portuguesa. Quase 50 anos antes, já havia iniciado a Guerra de Cem Anos. Em 1385, em Portugal, D. João I (filho de Inês de Castro) vencia o exército de outro João I, de Castela, na batalha

17 maio 2026

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.


Crônica de Clarice Lispector retirada do livro Para Não Esquecer, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2020.

Confusão com São Pedro

Você vai neste avião, eu vou no próximo - decidiu ela de súbito, no último instante, quando o alto-falante já convocava os passageiros: queiram apresentar suas despedidas e boa viagem.

Ele deu um suspiro desalentado. Já fora um custo convencer a mulher de viajarem de avião. Ela dizia que tinha medo, por que não vamos de trem? E passara a noite toda naquela conversa, olha, meu bem, tenho um pressentimento ruim... Quando já estavam praticamente embarcados, vinha com novidade.

- Que bobagem é essa?

- Eu vou no outro - insistiu ela, aflita: - Tem outro avião daqui a meia hora.

- Mas por que isso assim de repente?

Ela olhava nos olhos como se se despedisse dele para sempre:

- Não podemos correr tanto risco juntos, meu bem, seja razoável. Temos nossos filhos, imagine se acontece alguma coisa.

- Não vai acontecer nada, mulher.

- Eu sei que não tem perigo, que é o transporte mais seguro do mundo, e as estatísticas, e essa coisa toda, você já me explicou. Mas pense um pouco nos nossos filhos, é uma chance de pelo menos um de nós dois escapar.

- Olha aí, já estão chamando de novo. Vamos embora, mulher.

Ela fincara pé, irredutível. Sem mais tempo para argumentar, ele acabou cedendo:

- Está bem, seja como você quiser! Mas então vai nesse, eu vou no outro. Se eu deixar você aqui, você acaba não indo.

Despediu-se dela, aborrecido, e foi tratar da transferência de sua passagem.

A mulher entrou no avião como um túmulo, o coração aos pulos. A porta se fechou, desligando-a para sempre do mundo. A seu lado, viajava

16 maio 2026

Busquemos o Melhor (113)

 "Por que reparas o argueiro no olho de teu irmão?" - Jesus. (MATEUS, 7:3.)


A pergunta do Mestre, ainda agora, é clara e oportuna.

Muitas vezes, o homem que traz o argueiro num dos olhos traz igualmente consigo os pés sangrando. Depois de laboriosa jornada na virtude, ele revela as mãos calejadas no trabalho e tem o coração ferido por mil golpes da ignorância e da inexperiência.

É imprescindível habituar a visão na procura do melhor, a fim de que não sejamos ludibriados pela malícia que nos é própria.

Comumente, pelo vezo de buscar bagatelas, perdemos o ensejo das grandes realizações.

Colaboradores valiosos e respeitáveis são relegados à margem por nossa irreflexão, em muitas circunstâncias simplesmente porque são portadores de leves defeitos ou de sombras insignificantes do pretérito, que o movimento em serviço poderia sanar ou dissipar.

Nódulos na madeira não impedem a obra do artífice e certos trechos empedrados do campo não conseguem frustrar o esforço do lavrador na produção da semente nobre.

Aproveitemos o irmão de boa-vontade, na plantação do bem, olvidando as nugas que lhe cercam a vida.

Que seria de nós se Jesus não nos desculpasse os erros e as defecções de cada dia?

E, se esperamos alcançar a nossa melhoria, contando com a benemerência do Senhor, por que negar ao próximo a confiança no futuro?

Consagremo-nos à tarefa que o Senhor nos reservou na edificação do bem e da luz e estejamos convictos de que, assim, agindo, o argueiro que incomoda o olho do vizinho, tanto quanto a trave que nos obscurece o olhar, se desfarão espontaneamente, restituindo-nos a felicidade e o equilíbrio, através da incessante renovação.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Fuga

Mal colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal.

- Para com esse barulho, meu filho - falou, sem se voltar.

Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho, estava só empurrando uma cadeira.

- Pois então para de empurrar a cadeira.

- Eu vou embora - foi a resposta.

Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas, enrolando-as num pedaço de pano. Era a sua bagagem: um caminhão de plástico com apenas três rodas, um resto de  biscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave da despensa? - a mãe mais tarde irá dizer), metade de uma tesourinha enferrujada, sua única arma para a grande aventura, um botão amarrado num barbante.

A calma que baixou então na sala era vagamente inquietante. De repente, o pai olhou ao redor e não viu o menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:

- Viu um menino saindo desta casa? - gritou para o operário que descansava diante da obra do outro lado da rua, sentado no meio-fio.

- Saiu agora mesmo com uma trouxinha - informou ele.

Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabisbaixo ao longo do muro. A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, o pedaço de biscoito e - saíra de casa prevenido - uma moeda de 1 cruzeiro. Chamou-o, mas ele apertou o passinho, abriu a correr em direção à Avenida, como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia a distância.

- Meu filho, cuidado!

O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no asfalto. O menino, assustado, arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço como a um animalzinho:

- Que susto você me passou, meu filho - e apertava-o contra o peito, comovido.

- Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.

Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe dar umas palmadas:

- Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai.

- Me larga. Eu quero ir embora.

Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala - tendo antes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave, como ele fizera com a da despensa.

- Fique aí quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando.

- Fico, mas vou empurrar esta cadeira.

E o barulho recomeçou.


Crônica de Fernando Sabino retirado do livro Para Gostar de Ler - Volume 2 - Crônicas, Editora Ática, 4ª Edição, 1980.

Cromoterapia: a cura através das cores

Você já parou para pensar o quanto a cor da roupa que você usa está diretamente ligada ao seu humor? Ou por que a cor das paredes da sua casa pode aumentar ou diminuir o tamanho dos cômodos? Não? Pois então olhe ao seu redor. Tente perceber a influência das cores no seu dia-a-dia. Parece fácil, não? Pois é, mas as cores têm muito mais influência

09 maio 2026

O que é vida?

 Rex, Diná e Zíper em: O que é vida?


A brincadeira rolou a tarde toda na casa da Diná. Rex e Zíper se divertiram por horas com a amiga e seus brinquedos jurássicos. Até que chegou a hora de guardá-los...

- Psiu! Meninos, vocês escutaram?!

Diná havia acabado de fechar as portas do baú onde deixava os brinquedos.

- Nós? Zíper e Rex olharam um para o outro - Não, o que houve?

- Um barulho dentro do baú! - disse Diná, abrindo-o. Tudo estava em ordem.

Zíper cutucou Rex.

- Ri, ri! Acho que Diná pensa que os brinquedos estão vivos!

- Óbvio que não, né, zangão!

Sou capaz de reconhecer a distância um ser vivo de algo que não tem vida, como brinquedos!

- Ah, é? Então, conte para mim: qual é a diferença entre os seres que têm vida e os que não têm? - quis saber o zangão.

- Ora, é algo tão óbvio: a diferença é... - Dina empacou. - Ué, diga você, já que se acha tão sabido!

- E eu lá sei? Perguntei só por perguntar!

Diná preparava uma resposta malcriada quando Rex propôs.

- Por que, então, a gente não pesquisa e descobre?

Ideia aceita, o trio decidiu ir à biblioteca. Por conta disso, Diná anunciou:

- O lanche só será servido quando o mistério for elucidado!

Após ler vários livros, Rex, Diná e Zíper reuniram-se para mostrar o que descobriram. O zangão foi o primeiro a falar.

- Não se sabe ao certo quantas espécies de seres vivos existem na Terra hoje. No entanto, estima-se que haja, aproximadamente, cinco milhões.

Rex e Diná estavam de boca aberta.

- Surpresos? Pois saibam que esse número corresponde a apenas uma pequena parte do total de espécies de seres vivos que já existiu no planeta. - prosseguiu o zangão. - Desde a origem da vida, há cerca de 3,8 bilhões de anos, acredita-se que a Terra abrigou, aproximadamente, 500 milhões de espécies de seres vivos. Como você deve ter percebido, a maioria desapareceu: de cada 100 espécies, 99 foram extintas.

- Os dinossauros, por exemplo! - Rex sacou do bolso fotos da família. - Lembro tão bem do meu bisavô, do meu primo, da titia...

- Mas, Zíper, continuando... - Diná nem deu trela para as lembranças do dinossauro. - Vocês já ouviram falar que seres vivos são aqueles que nascem, crescem, se reproduzem e morrem? Pois é, eu encontrei essa definição em vários livros. No entanto, acredito que ela não esteja certa. Afinal, há muitas coisas que não têm vida, mas também nascem, crescem e morrem. As estrelas, por exemplo. Ou o fogo.

- Bom, então, não é o fato de nascer, crescer, se reproduzir e morrer que diferencia os seres vivos dos que não têm vida. - concluiu Rex. - Ainda mais porque há seres vivos que não se reproduzem como a mula.

- Então, precisamos pensar numa nova definição! Alguns livros que consultei diziam que os organismos vivos são os que se alimentam, pegando nutrientes e energia do ambiente para se desenvolver. - disse Zíper.

- Mas não são apenas seres vivos que agem dessa forma. - interrompeu Diná. - Há muitos sistemas que captam matéria e energia para se desenvolver. Vocês sabiam, por exemplo, que existe um ciclone no hemisfério sul de Júpiter há mais de 300 anos?

Pela fisionomia do dinossauro e do zangão, Diná percebeu que a resposta era não. - Com milhares de quilômetros de extensão, a Mancha Vermelha de Júpiter continua a girar e a se desenvolver graças à energia e matéria que retira do espaço!

- Impressionante, não é, Rex? - perguntou, admirado, Zíper. Mas o zangão só recebeu um resmungo como resposta.

- Impressionante é a gente ainda não ter chegado até agora a nenhuma conclusão sobre o que é vida.

- Mas que criatura pré-histórica rabugenta! - censurou Diná.

- Rabugenta, não: esfomeada! Adiam o lanche, sou obrigado a pesquisar sem comer nada e nem posso reclamar! Cadê os meus direitos?

- Ai, Rex, você só pensa em comer! Eu disse: basta a gente encontrar a resposta dessa pergunta e, pronto, o lanche será servido! Então, coloque a cachola para funcionar!

Nesse momento, Rex teve uma ideia que lhe pareceu, como sempre, brilhante.

- Ah, será que o DNA, aquela molécula que existe no núcleo das células de todos os seres vivos, não tem a ver com essa história?

Diná havia ouvido falar daquelas três letrinhas. Mas sabia pouco a respeito. Então, decidiu pesquisar mais para aprender. Será que, assim, ela ficaria mais perto de solucionar o enigma e Rex, do lanche?

- O que vocês acham de conversarmos sobre receitas? - perguntou Diná ao voltar para junto dos amigos na biblioteca.

- Você sai para pesquisar sobre o DNA e volta falando de receitas? estranhou Rex. - Endoidou?

- Que nada, dinossauro! Saiba que muitas pessoas, quando precisam explicar o que é o DNA, o comparam a uma receita? Elas querem dizer com isso que essa molécula guarda informações necessárias para fazer um ser vivo do jeito que ele é.

- Então, a gente acaba de achar a resposta para o enigma. O que é a vida? As informações presentes no DNA colocadas em prática! Ou, se você preferir, as receitas! - raciocinou Rex, certo de que havia decifrado a questão.

- É, nós até que poderíamos dar o nosso trabalho de pesquisa por encerrado, Rex. Afinal, muitas pessoas, inclusive cientistas famosos, pensam assim. - Diná explicou. - Mas sabe qual é o problema? Essa definição é muito restrita. Ela passa a noção de que o DNA é uma molécula especial e até mais importante do que as outras. Afinal, segundo ela, o DNA seria a "receita da vida".

Diná tomou fôlego antes de continuar a falar.

- Acontece que o DNA, sozinho, não é capaz de nada. Ele precisa de alguns tipos de proteínas para ser feito. Proteínas são substâncias com várias funções. Há aquelas que formam as células, outras tornam mais rápidas as reações que ocorrem em um organismo. E algumas, como eu disse, auxiliam a formar o DNA! - explicou ela. - No entanto, o curioso é saber que o DNA não só necessita de certas proteínas para existir como também está envolvido no processo de produção de todos os tipos de proteínas, até mesmo das que ajudam a fazê-lo!

- Ué, então, é como a velha história do ovo e da galinha: é do ovo (proteína) que vem a galinha (o DNA), mas é a galinha (DNA) quem põe o ovo (proteína)! - comparou Rex. - Lembrando, claro, que não é o DNA quem produz as proteínas diretamente. Ele participa do processo que leva à produção de todas as proteínas, até mesmo das que auxiliam a fazê-lo.

- Então, Rex, temos um dilema a resolver! - percebeu Zíper. - Quem veio primeiro? O DNA ("a galinha") ou a proteína ("o ovo")?

- Uma saída é responder: nem um, nem outro, mas o chocar, quer dizer, a operação que eles realizam. Isto é, o fato de o DNA comandar a produção de todas as proteínas e, de algumas delas, por sua vez, auxiliarem a fazer o próprio DNA. - respondeu Diná.

- Então, para alguns cientistas, essa operação, esse processo seria a vida? - quis saber Zíper.

- Sim. Para eles, o DNA e as proteínas não teriam qualquer papel especial, apenas a interação entre eles. Assim, a vida não ficaria resumida a uma molécula. E, portanto, seria encarada de forma mais ampla. Afinal, se a vida é um processo, significa que ela produz a si mesma continuamente.

- Uau! - disseram Rex e Zíper em coro. - Eu nunca seria capaz de imaginar a vida assim!

Era a deixa que Diná esperava para brincar com os amigos.

- Depois do lanche, vocês terão energia para isso, meninos! Afinal, a barriga do Rex irá parar de roncar e, em silêncio, pensar ficará muito mais fácil...

Rindo, o trio rumou para a casa de Diná onde, finalmente, era hora do lanche!


Texto de Luiz Antônio Botelho Andrade e Edson Pereira da Silva (Instituto de Biologia, Universidade Federal Fluminense), retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 132, Janeiro/Fevereiro de 2003, Ministério da Educação, FNDE.

Que Farei? (112)

 "Que farei?" - Paulo. (ATOS, 22:10)


Milhares de companheiros aproximam-se do Evangelho para o culto inveterado ao comodismo.

Como dominarei? - interrogam alguns.

Como descansarei? - indagam outros.

E os rogos se multiplicam, estranhos, reprováveis, incompreensíveis...

Há quem peça reconforto barato na carne, quem reclame afeições indébitas, quem suspire por negócios inconfessáveis e quem exija recursos para dificultar o serviço da paz e do bem.

A pergunta do apóstolo Paulo, no justo momento em que se vê agraciado pela Presença Divina, é padrão para todos os aprendizes e seguidores da Boa Nova.

O grande trabalhador da Revelação não pede transferência da Terra para o Céu e nem descamba para sugestões de favoritismo ao seu círculo pessoal. Não roga isenção de responsabilidade, nem foge ao dever da luta.

- Que farei? - disse a Jesus, compreendendo o impositivo do esforço que lhe cabia.

E o Mestre determina que o companheiro se levante para a sementeira de luz e de amor, através do próprio sacrifício.

Se foste chamado à fé, não recorras ao Divino Orientador suplicando privilégios e benefícios que justifiquem tua permanência na estagnação espiritual.

Procuremos com o Senhor o serviço que a sua Infinita Bondade nos reserva e caminharemos, vitoriosos, para a sublime renovação.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

07 maio 2026

A fé de cada um

Você está convidado a conhecer um pouco de algumas das religiões mais praticadas no mundo para entender o que elas têm em comum e também as suas diferenças. Antes, porém, queremos deixar claro que religião é parte da história e da cultura dos povos, e que, portanto, nenhuma religião é superior à outra. Com essa ideia na cabeça, não importa no que acreditamos, nem mesmo se não acreditamos em nada. O que vale é conhecer e, claro, respeitar.

Existem muitas religiões em todo o mundo. Algumas acreditam em vários deuses e outras, em um só. As que acreditam em vários são chamadas politeístas; e as que acreditam em apenas um, monoteístas. Para este  texto, destacamos o budismo, o candomblé, o cristianismo, o hinduísmo, o islamismo, o judaísmo e a umbanda. De todas essas, apenas o cristianismo, o judaísmo e o islamismo são monoteístas. As demais são politeístas. Vamos saber mais?


Cristianismo

O cristianismo é a religião que, como o nome indica, segue os ensinamentos de Jesus Cristo. Para os cristãos, Jesus é o filho de Deus, e Deus é o criador do universo e de todos os seres. Deus teria enviado seu filho para salvar o ser humano dos pecados do mundo e, por isso, Jesus morreu na cruz, sacrificado em nome da humanidade.

Os cristãos se dividem entre católicos e protestantes, mas até p século 16, só existia a Igreja Católica. A divisão começou na Europa com um grupo de pessoas insatisfeitas com algumas ideias e práticas do catolicismo. Essas pessoas, então, reformularam a doutrina religiosa e essa reformulação ficou conhecida como Reforma Protestante, porque era a reforma dos que protestavam. Mas contra o quê esse grupo protestava? Bem, entre outras coisas, protestava contra o poder do Papa, contra a proibição do casamento de padres e freiras e contra o batismo em recém-nascidos.

Para os protestantes, o batismo só deve ser realizado quando a pessoa tem condições de escolher sua religião, por isso, eles não batizam bebês e crianças muito pequenas. Eles se opõem à proibição do casamento de padres porque não veem mal algum no fato de um religioso se casar. Depois dessa primeira reforma, muitas outras aconteceram e por conta disso surgiram, no mundo, várias igrejas protestantes: batistas, pentecostais, metodistas, adventistas, etc.

Apesar das diferenças, tanto católicos quanto protestantes acreditam que Jesus foi o enviado de Deus, o Messias. O livro sagrado dos cristãos é a Bíblia, na qual eles buscam as palavras de Deus e as explicações para muitas coisas que acontecem no mundo.


Judaísmo

A palavra 'judeu' vem de Judeia, nome de uma parte do antigo reino de Israel, no Oriente Médio. Os judeus podem pertencer a qualquer nação ou etnia e hoje em dia vivem espalhados por todo o mundo. Existem judeus que não praticam a religião, são apenas descendentes de judeus; já os que seguem rigorosamente todos os preceitos da religião são considerados ortodoxos.

Mas onde começa a história do judaísmo? Há séculos antes de Cristo, com Abraão, que é considerado o principal patriarca da fé judaica. Orientado por Deus, Abraão levava a fé a todos os povos que encontrava. Deus prometeu-lhe fazer de seu povo (os hebreus) e de todos aqueles que seguissem suas palavras o 'povo escolhido', levá-lo até Canaã - a Terra Prometida - e lá fundar a grande nação judaica. Outro nome importante para os judeus é o de Moisés, considerado um dos fundadores da religião. Moisés teria sido colocado pela mãe numa cestinha às margens do rio Jordão, no Egito, para ser salvo de um faraó que queria matar todos os filhos dos hebreus do sexo masculino. Acontece que Moisés foi encontrado pela filha desse faraó, criado como egípcio até a idade adulta, quando, escolhido por Deus, libertou o povo hebreu da escravidão no Egito.

O povo judeu comprometeu-se a cumprir as leis de Moisés e a adorar a um único deus. Tudo isso está na Bíblia, o livro considerado sagrado pelos judeus e pelos cristãos. É importante distinguir que os judeus seguem o Velho Testamento - ao que chamam Torá, em hebraico - e os cristãos seguem o Novo Testamento.

Os judeus não acreditam que Jesus Cristo seja o filho de Deus, mas apenas um profeta, como tantos outros que surgiram naqueles tempos. Para eles, o Messias, isto é, o salvador da humanidade, ainda está para chegar.


Islamismo

É a religião dos muçulmanos. Islã, em árabe, quer dizer submissão; portanto, Islamismo é a religião que prega que o homem deve submeter-se ao sagrado, ao divino, a Alá, que seria o mesmo deus ao qual se referem os cristãos e os judeus.

O islamismo surgiu na Arábia e hoje, como tantas outras religiões, já se espalhou pelo mundo. É a segunda religião com o maior número de seguidores - a primeira é o cristianismo. A maioria dos muçulmanos vive na África, na Ásia e no Oriente Médio.

No ano de 570 depois de Cristo, nasceu, em Meca, o fundador da religião islâmica, o profeta Maomé. Ele foi apelidado de Al Amin, que quer dizer 'o crente', porque afirmou que um anjo chamado Gabriel apareceu dizendo que ele teria de levar a todos os homens a palavra de Alá. O anjo teria nas mãos um pergaminho, no qual estavam escritas as palavras de Alá e Maomé teria sido aconselhado a decorar aqueles ensinamentos para recitar a todo o mundo. E assim ele teria feito. Muito tempo depois, os seguidores de Maomé, preocupado em não deixar que aqueles ensinamentos se perdessem, resolveram anotar tudo que o profeta pregava. As palavras de Maomé mais tarde foram impressas em um livro que ficou conhecido como Alcorão, cujos ensinamentos são seguidos por todos os muçulmanos.

Para os muçulmanos não existe outro deus senão Alá, e Maomé é o seu profeta. Esta é a declaração de fé do islamismo.


Hinduísmo

Religião nascida na Índia há cerca de quatro mil anos. A maioria dos hinduístas vive no país de origem da religião, mas existem hinduístas vivendo em outras partes do mundo.

Os seguidores dessa religião não têm obrigação de frequentar nenhum tipo de templo, porque podem cultuar seus deuses em casa. Entre as crenças está a reencarnação. Ou seja: eles acreditam que após a morte todos os seres voltam à vida sob a forma de gente ou animal. Eles também creem que tudo o que você faz nesta vida determina a situação em que você virá na próxima. Por isso, eles pregam que o ser humano deve praticar só o bem, ser honesto, trabalhar muito e cuidar de seus familiares e amigos. Esse modo de vida eles chamam de Dharma.

Na Índia, a vaca é considerada um animal sagrado; nenhum indiano pode matar uma vaca, pois é um animal que pode alimentar, com seu leite, o homem. Ela é considerada mais pura do que os sacerdotes, e quando algum indiano a toca, acredita que se purifica.

Os deuses mais populares na Índia são Brahma, Shiva e Vishnu. Brahma é o criador do universo, Vishnu é o que sustenta e protege o mundo e Shiva é aquele que destrói, dançando sobre ele. Depois, Brahma tem de reconstruir tudo.


Budismo

Essa é uma religião que pode ser considerada diferente das outras por não pregar a crença em nenhum deus. Ela considera que todas as pessoas são responsáveis por suas ações e, por isso, devem aprender a viver com sabedoria para serem felizes. Era Buda quem pregava isso. Você sabe quem foi este homem?

Conta-se que o filho de um rajá que viveu no noroeste da Índia, muitos anos antes de Cristo, foi o fundador do budismo. Esse príncipe vivia com muito luxo, mas era proibido de sair dos domínios do palácio. Uma profecia dizia que ele só seria um grande governante se não conhecesse os sofrimentos do mundo; caso contrário, ele abandonaria toda sua riqueza e deixaria o palácio. Por conta disso, o rei o mantinha protegido do mundo e não permitia que o príncipe sequer olhasse por sobre as muralhas. Assim ele viveu, cercado de ouro e de delícias, até completar 29 anos, quando resolveu sair escondido. Foi aí que a profecia se cumpriu: ele viu um velho, um homem doente e um cadáver, e descobriu, ao mesmo tempo, a velhice, a doença e a morte, concluindo que elas podiam atingir a qualquer um. Depois dessas visões, ele se deparou com um homem que vivia com muita simplicidade. Percebendo que aquele homem era feliz apesar de não possuir riquezas materiais, resolveu, então, abandonar tudo que tinha: o palácio, a mulher, o filho e todos os bens materiais.

Daí veio a simplicidade que Buda pregava. A religião que surgiu a partir dos ensinamentos deste homem determina que seus monges possuam apenas oito requisitos: 1. roupas (de cor marrom, laranja ou preta); 2. um cinto; 3. uma tigela para as doações que deverá receber dos outros; 4. agulha e linha; 5. um cajado; 6. uma navalha; 7. um palito de dentes; 8. um coador para coar a água que bebe, evitando que alguma criatura viva seja engolida sem querer.

A meditação é muito importante para os budistas. Eles meditam diariamente a fim de alcançar a sabedoria e a iluminação. Os mandamentos da religião são cinco: não fazer mal a nenhuma criatura viva; não tomar aquilo que não lhe foi dado; não se comportar de modo irresponsável nos prazeres sexuais; não falar falsidades; não se entorpecer com álcool ou drogas.


Candomblé e Umbanda

São religiões de origem africana que foram trazidas para as Américas Central e do Sul, especialmente para o Brasil, pelos negros, que, na época da colonização, eram retirados de sua terra e vendidos como escravos do outro lado do oceano. Além de muita saudade e sofrimento, os negros escravizados trouxeram consigo suas crenças e seus costumes.

Nas senzalas, longe dos senhores de escravos, eles realizavam os rituais de candomblé para cultuar seus orixás. Mas o que são orixás? São os deuses africanos que receberam de Olorum - que seria o deus dos deuses - a incumbência de criar e governar o mundo. Por isso, cada orixá é responsável por um aspecto da natureza e da condição humana. Oxum, por exemplo, seria a deusa da água doce e, entre as qualidades humanas, representaria a vaidade.

Mas, como revela a História, os colonizadores proibiam que os escravos cultuassem outra religião que não a católica. E o jeito que os negros encontraram para não serem afastados de sua fé foi criar uma relação entre os seus orixás e os santos do catolicismo. Iansã, tida como a deusa dos ventos, passou a ser cultuada na figura de Santa Bárbara; Ogum, orixá guerreiro, seria São Jorge; e assim aconteceu também com os demais. Foi do sincretismo religioso - ou, em outras palavras, da mistura de religiões - que surgiu a Umbanda.

Tanto o Candomblé quanto a Umbanda são praticados com muita música, muita dança e muita alegria. Para ambas, a vida terrena tem interferência direta da vontade dos orixás.

Bem, a nossa história se encerra aqui. Mas espero que a sua curiosidade vá além. Procure saber mais sobre as religiões, se informar melhor sobre a cultura dos diferentes povos. Essa é a maneira mais interessante de descobrir que todas as crenças merecem respeito e que só o respeito pode evitar guerras.


Texto de Georgiana da Costa Martins (Escritora de Literatura Infantil, Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro); retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 132, Janeiro e Fevereiro de 2003; Ministério da Educação, FNDE.