24 julho 2026

O que viveu sem nascer

Naquele dia o casal desceu a escadaria, com exagerada cautela. Seu Manuel segurava firme o braço de D. Maria. Os olhos de ambos irradiavam completa felicidade. Riam à toa. Seu Manuel falou:

- Hoje mesmo ajustei uma criada.

- Não há necessidade, meu velho. Preciso fazer exercício. Não foi o que o médico recomendou?

- Sim, sim, mas não dessa natureza. Nada de excesso. Nos levantaremos cedo e faremos longas caminhadas, repetindo-as às tardes. Quero

22 julho 2026

Sofia

Já tinham brincado muito, e agora estavam reunidos ao pé do poste, pensando numa coisa nova para fazer.

Ainda era cedo, a noite apenas começara.

- Vamos mexer com a Sofia? propôs um.

Sofia era dona do mercadinho - a vítima predileta deles. Pintavam o sete com ela. Sofia assustava-se com nada, e isso os deliciava. Viviam assombrando-as: vozes estranhas chamando lá fora, e ninguém (estavam no telhado), caveira de mamão verde com vela acesa dentro, capas, máscaras horrorosas, o caixote de lixo que sumia

Corisco

Se não fosse Mamãe, eu nunca teria Corisco, pois Papai não gostava de cachorro de espécie alguma, porque, dizia ele, cachorro é bicho velhaco, só serve pra dar amolação e pra comer a comida da gente, e enquanto ele fosse dono da fazenda, ali nunca haveria de entrar cachorro, e se entrasse um, ele pegava a espingarda e sapecava fogo sem um tiquinho de dó. Por isso, quando ele veio descendo o pasto de tardinha, eu fiquei com medo, Mamãe escondeu Corisco, que era pequeno, no cesto de roupa suja, e disse pra mim você não fala nada, deixa que eu falo, e eu fui esconder detrás da porta da despensa.

Papai entrou batendo os pés como fazia, pra sacudir a poeira das botas, pendurou o chapéu na parede, depois deu um tapinha nas costas de Mamãe, falando

20 julho 2026

Minha avó dorme a sesta

 Minha avó dorme a sesta; não devo fazer barulho.

Na casa, nada se mexe. A empregada foi para o quarto deixando a cozinha vazia. Só eu não tenho sono.

Da janela não vejo movimento. As lojas ficarão fechadas até quatro horas. O caminho para a Piazza Navona está quase deserto; as poucas pessoas que passam, tangidas pelo barulho dos próprios passos na rua vazia, têm um ar furtivo. Não ouço carros.

Se ando, as velhas tábuas do assoalho estalam sob meus pés. Na biblioteca, os livros vivem sua longa vida, sem tomar conhecimento da minha presença, e as plantas, no sarcófago de pedra, empurram as raízes terra adentro. A sala de jantar é fria; campânulas de vidro protegem bonecos de cera de uma poeira inexistente, o blackmoor olha para a frente, o cetim roxo do sofá capitonê não tem marcas. Tento me esgueirar atrás do biombo de seda bordada, mas, do teto, a dama do afresco me segue onde quer que eu vá, e prefiro sair.

Abro com cuidado a porta do salão. As cortinas de gaze ondejam de leve, minha imagem nos espelhos antigos é reflexo de lago, há um tilintar breve de pingentes: o salão também dormia. Recuo, fecho a porta com precaução, quase pedindo desculpas.

No quarto ao lado do da minha avó, nada indica sua  proximidade; ela não faz barulho quando dorme, não ressona, não suspira. Entretanto, sei que ela está ali perto, tão perto que, quando acordar, notarei imediatamente.

E começo a brincar, sem um ruído. A enorme poltrona de veludo é meu trenó. Na grande noite que fabriquei debaixo da manta, deslizo sobre a neve, atravessando a imensidão da estepe. Os cavalos correm, ouço o estalar do chicote, sinto as crinas abaixar e levantar como cristas de ondas. O trenó sacode meu corpo enlanguescido. Os lobos uivam pressentindo a vítima. Há muitos dias que viajo, e é sempre noite; logo, desmaiarei de cansaço, e cairei do trenó, sem que o homem que o conduz se aperceba.

Não fosse a oportuna chegada do meu amado, eu seria estraçalhada. Ele, porém, chega, me salva, e, agora, os braços da poltrona são seus braços que me carregam, desfalecida. Põe-me no trenó, sou aquecida, bebo algo forte, e volto a mim. Mas a partir deste ponto não sei mais continuar a brincadeira, não sei o que fazer da viagem, e também não quero chegar. Então, recomeço. Na noite, o trenó me sacode, e os lobos uivam sob a luz enquanto eu atravesso a estepe.


Conto de Marina Colasanti retirada do livro Eu Sozinha, Global Editora, São Paulo, 2018.

Quem me deu foi a manhã

Foi uma moça lavar suas anáguas no rio. Espuma de rendas, espuma de águas. Depois deitou-as sobre a grama para secar. E da grama uma salamandra levantou a cabeça e perguntou:

- Que rendas são essas que você lava com tanto capricho?

- São as rendas que farfalham nos meus tornozelos - respondeu a moça.

- Eu também quero ouvir esse farfalhar - disse a salamandra. E antes mesmo que a moça vestisse a primeira anágua, enroscou-se no seu tornozelo.

Era fria como vidro e brilhante como prata. Mas, com medo de ser mordida, a moça deixou-a estar e voltou para a aldeia.

No caminho encontrou as outras moças da sua rua, que iam juntas. - Que joia diferente! - exclamaram, flagrando nos passos dela o luzir da salamandra. - Onde foi que você achou?

A moça riu sem responder, entrou em casa e fechou a porta atrás de si.

Passados alguns dias, novamente foi ela ao rio, lavar suas roupas. Água batendo nos panos, panos batendo nas pedras. E estava enxaguando o xale, quando uma serpente emergiu entre as franjas e perguntou:

- Que roupa é essa que você lava com tanto esmero?

- É o xale que pousa nos meus ombros - respondeu a moça.

- Eu também quero pousar nos teus ombros - disse a serpente.

Deslizou rápida até os ombros dela, rodeou-lhe o pescoço e, mordendo o próprio rabo, deixou-se ficar.

Era lisa e verde como esmeralda. Porém, com medo de ser picada, a moça não ousou tocá-la. E voltou para a aldeia.

- Que joia tão rica! - surpreenderam-se as moças suas companheiras colhendo os lampejos verdes ao redor do pescoço. - Como foi que você conseguiu?

A moça nem riu nem respondeu. Entrou e fechou a porta.

Alguns dias mais haviam passado, e novamente foi a moça ao rio. Dessa vez, não levava roupas. Ajoelhou-se na beira e mergulhou a cabeça para lavar os cabelos. Ondular de ouro na água, ondular de azul entre os fios. Depois, penteou e sacudiu os cabelos para secá-los ao sol. E como que trazida pelo sol, uma libélula voou e veio pousar na cabeça, um pouco de lado. Ali, imóveis as asas, deixou-se ficar.

Era delicada e graciosa como uma filigrana. Mas com medo de machucá-la, a moça nem a tocou. Quis levá-la, procurou seu reflexo no espelho da água. Depois voltou à aldeia.

As moças esperavam para vê-la passar. - E essa preciosidade - perguntaram em coro movidas pelo cintilar irizado - quem foi que te deu?

- Quem me deu foi a manhã - respondeu a moça. E, sem olhar para trás, entrou em casa. A porta deixou aberta, soubessem todos que nada tinha a esconder.

Não tinha nada a esconder, mas o que havia mostrado era suficiente. De boca em boca, de boca a ouvido, aos cochichos, aos murmúrios, sussurrando, segredando, de um a outro, de um a muitos, pelos cantos, pelas ruas, as joias tornaram-se o assunto da aldeia. E quando todo esse falar desembocou na praça, foi como um vento que entrasse pelas janelas e portas da Cadeia Geral, indo se abater sobre a mesa do Chefe da Polícia.

Uma moça pobre usando joias de valor era coisa nunca vista antes naquela aldeia, afirmou este. A moça só podia tê-las roubado, concluíram todos. E, expedida a ordem, foram os esbirros buscá-la em sua casa e a trouxeram até a cela. Nas joias ninguém se atreveu a tocar, serviriam como evidência.

As paredes da cela eram espessas, as grades da janela eram grossas, mas o falatório do povo ali embaixo chegava até a prisioneira. Aos poucos, porém, fez-se escuro, as vozes foram se afastando. Silêncio e sereno pousaram enfim na praça. A noite havia chegado.

Nenhum ruído se ouviu quando a serpente desprendeu-se do pescoço da moça, deslizou sinuosa para fora da cela, aproximou-se do carcereiro adormecido, enroscou-se na perna da cadeira, e erguendo a cabeça, mordeu com um bote a mão pendente.

Tão leve o fremir das asas da libélula quando abandonou a cabeleira loura, que só um ouvido atento o colheria. Mas o carcereiro já não estava atento a nada. A libélula pôde voar segura até o prego onde a chave estava pendurada por uma argola, e com a argola entre as patinhas, voar de volta até a sua dona.

Como havia conseguido a ladra fugir de cadeia tão forte? perguntavam-se todos no dia seguinte. E por que o carcereiro continuava dormindo?

- Bruxaria! - foi a resposta que jorrou daquelas bocas.

Novamente uma ordem foi expedida, os esbirros saíram à procura e todos os aldeões empenharam-se na caçada. De dia e de noite. Até que a moça, mãos atadas atrás das costas, foi arrastada para a praça onde a fogueira para queimá-la havia sido armada. Já não trazia a serpente ao redor do pescoço, nem a libélula pousada nos cabelos. Mas entre os farrapos da anágua rasgada ocultava-se a salamandra.

- Bruxa! - gritava o povo.

- Feiticeira!

Com boca leve, a salamandra mordeu o tornozelo da sua dona já atada sobre os feixes de lenha.

O povo na praça ergueu os braços celebrando a primeira labareda. A cabeça da moça pendia de lado. A fumaça se expandiu, pessoas tossiram na assistência. E logo todos os feixes arderam ao mesmo tempo, refletidos nos olhos da multidão.

Já não havia ninguém na praça quando as últimas brasas se apagaram. Findo o espetáculo, cada um havia retornado à sua casa. A madrugada avançava pesada de sono. Assim, ninguém viu aquele súbito mover-se entre as cinzas, o menear, a cabeça da salamandra erguendo-se. Ninguém viu o braço, o ombro, a cabeleira da moça emergindo dos restos da fogueira, ela toda de pé sacudindo-se como quem sai da água. Ninguém viu quando, antes de se afastar, recebeu ao redor do tornozelo uma joia como vidro e brilhante como prata.


Conto de Marina Colasanti retirado do livro Mais de 100 Histórias Maravilhosas - 23 Histórias de Viajantes, Global Editora, São Paulo, 2014/2015.

19 julho 2026

Coisas que sabemos

Eu não penso mais nisso agora, mas nós sabemos como foi. Sabemos de tudo. As pessoas que estavam lá naquele tempo sabem o mesmo que eu e você. As pessoas que andaram por lá depois também sabem. É impossível não saber.

Aquilo foi diferente de tudo e até agora, nas noites em que não posso dormir, imagino os gritos e o barulho como se fossem pedras imensas sendo partidas. Nas noites em que não posso dormir, ouço esse barulho como se fosse agora.

Não havia nada que pudesse ser feito e todos nós sabíamos disso. Eu sabia e você também. Não havia nada que pudesse ser feito.

Pelas noites, em toda a cidade, se ouviam gritos e o barulho de pedras partindo. Havia os grandes estalos seguidos e eu imaginava o caminho reto e picotado daquele fogo noturno, como o mastigar de um grande bicho. Nos telhados os rapazes atiravam enquanto todos sabiam que não havia nada que pudesse ser feito. Mas eles estavam dispostos a tudo e já não pensavam mais.

Nos dias seguintes apareceram os corpos no rio. Vinham pela correnteza, gordos, inchados, azulados.

Naqueles dias as pessoas se debruçavam na amurada das pontes e contavam os cadáveres. Algumas mulheres choravam e gritavam, e esse é o grito que ouço nas noites em que não posso dormir.

Algumas mulheres viam os corpos e contavam em voz alta. Era como uma antiga ladainha alucinada.

Uma tarde, entre os corpos, veio flutuando o de um cão inchado. Havia também um resto de cama. Então a mulher apontou o cão e começou a rir, primeiro baixinho, e depois esse riso foi crescendo até se transformar em um uivo sem-fim.

Ela estava na ponte contando os cadáveres há três dias e duas noites.

Quando veio rodando o corpo inchado do cão batendo contra a madeira do resto da cama, o som da cabeça contra a madeira molhada como um fruto caindo no barro mole, a mulher começou a rir. Era muito divertido. Não havia nada mais divertido. Não havia nada que pudesse ser mais engraçado.

Com o tempo os cadáveres começaram a desaparecer, até que não se contavam mais.

Aos poucos as pessoas abandonaram as pontes e mataram sua espera. Mas a mulher continuou muitos dias mais, mesmo quando não havia mais cadáveres e o rio voltou a ser apenas um rio sujo outra vez.

Ela estava lá, sozinha, parada, e de vez em quando começava aquele riso outra vez.

Ela estava lá parada, sozinha, quando vieram os soldados para buscá-la.


Conto de Eric Nepomuceno retirado do livro A Palavra Nunca, Editora Francisco Alves/Editora da UFSCar, Rio de Janeiro, 1997.

Às Sete em Ponto

 As mãos espalmadas, os dedos finos, jogaram os cabelos negros e lisos para trás:

- Preciso telefonar para casa, falar com minha mãe.

Foi a primeira coisa que ela disse. Depois, perguntou:

- Como foi o seu dia? Acho que o frio está chegando. Peça um licor e um chá para mim, está bem? E alguma coisa para comer. Estou com fome, não pude almoçar. Você almoçou? Preciso telefonar. Você pede para mim?

Eu não gostava café. Gostava da praça, a primeira que conheci na cidade, e que se chamava San Juan de la Cruz. Havia dois cafés na praça. Um, ao lado do hotel onde eu morava; outro, no extremo oposto da praça. Estávamos no café longe do hotel: mesas de fórmica, cadeiras forradas de plástico vermelho. Estávamos em uma mesa ao ar livre, era um fim de tarde de outubro, fazia frio. Eram sete da noite quando ela chegou. Tínhamos dito: às seis e meia, no café da esquina: ela chegou às sete. Veio bonita. Eu gostava de olhar seu rosto e olhar seu sorriso e olhar suas mãos.

Pensava nisso quando vi que ela me olhava sorrindo: talvez eu estivesse sorrindo também. Ela perguntou, calma:

- E como foi seu dia?

- Bem, sem nada de novo, nenhuma emoção.

Escrevi cartas e cartões-postais de manhã, almocei, fumei um charuto, caminhei de tarde, fui ver um amigo. Nada de emoções.

- E você está bem?

- Claro, por que não? E você?

- Estou ótima. Agora, vou telefonar: está ficando tarde.

Eram sete da noite, ela acabara de chegar e estava bonita. No outro dia, bem cedinho, fui-me embora. Levei um ano para voltar, e ela estava com os cabelos curtos.

Quando voltei era dezembro e dois dias antes tinha nevado na cidade, fazia frio e as ruas estavam sujas.

O café estava fechado. Nos encontramos na rua e ficamos olhando o café, tentamos sorri e eu perguntei:

- E agora, para onde vamos?

Ela disse que para lugar nenhum. Queria ver se eu continuava vivo, só isso. E já vira.

Fiquei parado, fazia frio e ventava, olhando para ela, que atravessou devagar a rua e entrou em um carrinho pequeno, cor de cinza.


Conto de Eric Nepomuceno retirado do livro A Palavra Nunca, Editora Francisco Alves/Editora da UFSCar, Rio de Janeiro, 1997.

Miráculo-Verídico

Onde começa a verdade?

E a mentira, onde acaba?

Abracadabra!


Fadas e bruxas são personagens de contos infantis? Nem sempre, isso eu garanto. Porque estou lendo um livro cheio de mistérios, encantamentos, coisas do tempo do rei Arthur, aquele da távola redonda, pois é. E foi por causa do livro que, assim, nesta tarde de chuva petropolitana, peguei no telefone e liguei pra minha amiga Yeda. A gente ficou num tititi, numa conversa sem fim, nem começo... e de repente, peguntei pra ela se ela sabia de uma erva encantada que fizesse as pessoas dizerem a verdade verdadeira. Yeda, que tem um jeito peculiar de soltar cintilações pelos olhos, olhou assim para a minha voz, através do telefone, e eu tive a visão. Naquele momento, entendi que Yeda era uma fada, casada com um duende chamado João.

Aliás, foi por isso, naturalmente, que Yeda conseguiu me olhar através do telefone e chegou mesmo a me entregar, de súbito, pelo fio do telefone sem fio (credo!) um pequeno embrulhinho cor de açafrão, amarrado com um barbante violeta. O embrulho trazia um envelope e, dentro dele, uma espécie de bula, escrita em letras góticas, que dizia:


CHÁ MIRÁCULO-VERÍDICO

(manter longe do alcance de velhos)

Fórmula:

10 pingos de orvalho matinal

2 faíscas de sol

Extrato de alfablídeos

Aromatizante verdadeiro de artifícios frugais

Camomila vegetabilis


Precauções:

Nunca ingerir em festas familiares.


Atenção: 

Este chá, cujos três últimos ingredientes não trazem a quantidade usada (por motivo de sigilo e para evitar possíveis falsificações), foi confeccionado por mãos duendes, muito habilidosas, numa pequenina casa situada nas montanhas. O farmacêutico responsável chama-se João da Yeda.


Indicações: 

Para pessoas debilitadas pelo extenuante convívio social hipócrita das reuniões da classe média ascendente, onde é obrigatório o uso de uísque escocês, salgadinhos, conversas sobre o socialismo que todos mentem desejar etc.

Tomar três gotas antes da reunião, de preferência com o estômago cheio. Não misturar com bebida alcoólica.


Contraindicações:

- Pessoas hipertensas, alcoólatras, políticos em geral, gagos, mulheres na menopausa etc.

Este chá, por suas propriedades mágicas, dá um toque de originalidade a qualquer reunião melancólica, tornando-a altamente peculiar.


Naquele dia, eu estava convidada para um jantar que prometia ser dos mais aborrecidos. Resolvi, pois, com um certo receio, experimentar a poção. Confesso que estava com medo, pois não costumo me envolver assim, sem mais nem menos, nos perigos sedutores das magias. Por via das dúvidas, tomei um copo de leite morno antes, para ingerir o chá com o estômago cheio, conforme receitava a bula.

Quando acabei de tomar o líquido, que tinha um sabor de hortelã com baunilha, o telefone faiscou estrelas. Compreendi que eram os olhos de Yeda, que me viam telefonicamente, através dos poderes fadais e duendísticos.

Botei um vestido estampado, sapatos de verniz, chamei um táxi e fui para o jantar.

Logo ao apertar a mão da dona da casa, senti um choque elétrico e ela disse:

- Ai! Você está com eletricidade estática!

Percebi que as propriedades do chá passavam de mim para os outros, através do aperto de mão.

De repente, fui apresentada a um casal:

- Muito desprazer em conhecê-los!

- Igualmente! Já ouvi falar horrores da senhora! - me responderam.

Serviram o eterno uísque. Um convidado tomou o primeiro gole e exclamou:

- Mas que gosto de iodo! Você não tem vergonha de colocar uísque nacional em garrafa escocesa, Felisberta?

- E você pensa que vou gastar meu rico dinheirinho com um cafajeste como você? respondeu Felisberta, sorrindo amavelmente.

Serviram o jantar, e todos se atiraram em cima de duas galinhas assadas, que sumiram num instante. Sobrou somente a farofa. Uma senhora aproveitou a maionese da salada de batatas e passava no rosto da vizinha dizendo:

- Maionese é ótimo para suas profundas rugas, Marieta!

A copeira entrou, passando a língua sobre o pudim, sem a menor cerimônia, enquanto meu vizinho beliscava com força o braço do filhinho da anfitriã, um garotinho de cinco anos, dizendo:

- Mas que menino horrorosinho!

- Seu jantar estava péssimo! - elogiou uma senhora, dirigindo-se à dona da casa.

- Obrigada, mas o seu, na quarta-feira que passou, estava bem pior! - respondeu madame, acrescentando que era uma chateação ter que reunir toda aquela gente na sua casa, mas foi por insistência do idiota do marido.

- Ora, eu disse para você, querida, que era necessário convidar esta corja porque esta gente aí pode me ajudar a conseguir mais votos para a minha campanha eleitoral. Preciso ser reeleito, ainda não roubei o bastante para me aposentar, minha odiosa esposa!

Nisso, foi servido o café.

- Esta xícara está com cheiro de barata! - exclamei, sorridente.

O telefone tocou. Era para mim. Fui atender e ouvi uma risadinha.

- Quem fala? - perguntei.

- É o duende João. Acabou o encantamento, saúde!

E o telefone desligou-se, soltando uma estrela que virou coruja, e que piscava, piscava sumindo pela janela aberta.

- Foi tudo perfeito! - disse uma senhora, despedindo-se.

- Agradeço demais a sua amável presença, você está linda neste vestido! - retrucou a anfitriã.

- Mas o seu cafezinho tem um sabor maravilhoso! - menti.

Tinha terminado a magia, ninguém se lembrava das verdades acontecidas e faladas. Foi uma reunião encantadora...


P.S. - Acabei de ler, pelo telefone, este conto pra Yeda. Ela disse que gostou. Será que tomou o chá antes de responder... ou não?


Conto de Sylvia Orthof retirado do livro Papos de Anjo, Editora Record, Rio de Janeiro, 1987.

18 julho 2026

O Verdadeiro George Clooney

Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o que está em jogo é a autoestima da nossa espécie, os homens que não são George Clooney. Todas as nossas qualidades e todos os nossos atributos, físicos e intelectuais, desaparecem na comparação com o George Clooney. As mulheres não escondem sua adoração pelo George Clooney. O próprio George Clooney nada faz para diminuir a idolatria e nos dar uma chance. Fica cada vez mais adorável, cada vez mais George Clooney. E se aproxima da perfeição.

É bonito. É charmoso. É rico. É bom ator. Faz bons filmes. Está envolvido com as melhores causas. E que dentes! Não temos defesa contra esse massacre. Só nos resta a calúnia.

Os dentes são falsos. Ali onde eles veem pomos de face irresistíveis e um queixo decidido, há obviamente, botox. Ele tem pernas finas e desvio de septo. É solteiro, portanto, claro, gay. Tem casa num dos lagos italianos, o que já é suspeito, e dizem que anda pelos seus chãos de mármore depois do banho de espuma vestindo um longo caftã bordado e sendo borrifado com perfumes forais pelo seu amante filipino Tongo, enquanto seu amante italiano, Rocco, prepara a salada de rúcula completamente nu. George Clooney bate na mãe todas as quintas-feiras. É extremamente burro. Só leu um livro até hoje e não lembra se foi O Pequeno Príncipe ou O Grande Gatsby. Nos filmes em que faz personagens mais reflexivos, contratam um dublê para as cenas dele pensando. Foi ele que propôs a demolição da Torre Eiffel porque já era mais que evidente que não encontrariam petróleo no local. E sua sovinice é lendária. Levou nadadeiras quando visitou Veneza, para não gastar com táxi.

É notório, em Hollywood, o mau hálito do George Clooney. Quando ele fala em algum evento público, as primeiras três fileiras do auditório sempre ficam vazias. Atrizes obrigadas a trabalhar com ele têm direito a um adicional por insalubridade, em dobro se houver cenas de beijo. Outra coisa: a asa. Não adiantam as imersões em espuma na sua banheira em forma de cisne, nem os perfumes florais borrifados, o cheiro persiste. Sabem que George Clooney e suas axilas se aproximam a metros de distância, e muita gente aproveita o aviso para fugir.

Além de tudo, tem seborreia e é Republicano.

Passe adiante.


Crônica de Luís Fernando Veríssimo retirado do livro Em Algum Lugar do Paraíso, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2011.

Maria Bethânia

De jeans e camiseta, cabelo preso, aos gritos de "Pega, mata e come!", Bethânia já foi musa da esquerda, tempos do show Opinião. Graças ao acaso - se acaso existe, e não destino - que trouxe a menina Berré de Santo Amaro da Purificação, Bahia, para os palcos do centro do país, indicada pelo irmão Caetano Veloso. Peruca canecalon, coberta de colares e pulseiras, gestos largos, recitando Fernando Pessoa e Clarice Lispector - Bethânia foi musa. A voz muito grave, sussurrando versos sensuais, embalou os amores de casais pelos motéis, rivalizando na venda de discos  com o rei Roberto Carlos. Prendeu, soltou os cabelos, calçou, tirou os sapatos, largou as gravadoras comerciais no auge do sucesso, trajetória inversa, tornou-se independente: conquistou o direito de gravar o que gosta, num repertório coerente e fiel à música brasileira.

Foram muitas Bethânias nesses mais de 20 anos. Ou era uma só? O escritor Júlio Cortázar, fã confesso (não fosse um iniciado em magia), afirmava que Bethânia e Caetano são uma única pessoa: yin/yang, homem/mulher, Oxóssi/Iansã. Foi muito in, ficou inteiramente out - até ultrapassar as divisões maniqueístas dos manipuladores da opinião pública para ocupar esse lugar muito especial aos mitos. Bethânia, deusa guerreira de espada em punho e voz rouca, inconfundível, procurando sempre versos que falem às emoções dos apaixonados. Gosta-se dela como se cai em estado de paixão: além de qualquer razão.

E bela. Bela de um jeito que não é comum ser bela, cantora como não é comum ser cantora - nesse desregramento de padrões estéticos, Bethânia funde a aspereza de onde começa o Nordeste com o requinte dos blues de uma Billie Holiday. Cantora diurna das terras crestadas pelo sol, mas também noturna, dos lençóis de cetim úmidos de suor e amor, transita numa carreira de impecável coerência com sua própria criatura: dividida em mel e espada. Padroeira dos apaixonados, também divididos entre o mel do perdão e a espada cortante da vingança. Dessa extensa legião, Maria Bethânia é a voz mais fiel.


Texto de Caio Fernando Abreu retirado do então LP duplo, coletânea Simplesmente O Melhor de Maria Bethânia, gravadora Philips Polygram/SBT, de 1988.