Você vai neste avião, eu vou no próximo - decidiu ela de súbito, no último instante, quando o alto-falante já convocava os passageiros: queiram apresentar suas despedidas e boa viagem.
Ele deu um suspiro desalentado. Já fora um custo convencer a mulher de viajarem de avião. Ela dizia que tinha medo, por que não vamos de trem? E passara a noite toda naquela conversa, olha, meu bem, tenho um pressentimento ruim... Quando já estavam praticamente embarcados, vinha com novidade.
- Que bobagem é essa?
- Eu vou no outro - insistiu ela, aflita: - Tem outro avião daqui a meia hora.
- Mas por que isso assim de repente?
Ela olhava nos olhos como se se despedisse dele para sempre:
- Não podemos correr tanto risco juntos, meu bem, seja razoável. Temos nossos filhos, imagine se acontece alguma coisa.
- Não vai acontecer nada, mulher.
- Eu sei que não tem perigo, que é o transporte mais seguro do mundo, e as estatísticas, e essa coisa toda, você já me explicou. Mas pense um pouco nos nossos filhos, é uma chance de pelo menos um de nós dois escapar.
- Olha aí, já estão chamando de novo. Vamos embora, mulher.
Ela fincara pé, irredutível. Sem mais tempo para argumentar, ele acabou cedendo:
- Está bem, seja como você quiser! Mas então vai nesse, eu vou no outro. Se eu deixar você aqui, você acaba não indo.
Despediu-se dela, aborrecido, e foi tratar da transferência de sua passagem.
A mulher entrou no avião como um túmulo, o coração aos pulos. A porta se fechou, desligando-a para sempre do mundo. A seu lado, viajava um padre, alheio a tudo mergulhado no breviário.
De súbito o avião, já em pleno voo, começou a jogar. Eu não disse? Eu não disse? Entraram numa nuvem escura e nunca mais que saíam dela.
Em pânico, chamou o comissário: não é nada, minha senhora, uma pequena tempestade, estamos fazendo voo cego.
Voo cego! Sentindo-se perdida, voltou-se para o padre:
- Estou com tanto medo, seu padre.
O padre a olhou, desconfiado:
- Reza, que é melhor.
E voltou ao seu breviário. Rezar? Não, ela não sabia rezar. Lembrou-se de São Pedro, que era quem devia manobrar chuvas e tempestades - juntou as mãos e pediu-lhe auxílio:
- São Pedro, piedade de mim. Tenho meus filhos para criar. Fui criada sem mãe, o senhor não imagina a falta que uma mãe faz. Todos na minha família ficaram assim feito eu, só porque não tiveram mãe. Que será dos meus filhos sem mãe, São Pedro, mãe faz muito mais falta que pai, por favor me protege, se for preciso transfere essa tempestade para o avião dele, mas me salva desta que noutra eu nunca mais hei de me meter.
A falta de mãe não lhe abalara o prestígio junto a São Pedro - tanto assim que em pouco o avião deixava para trás a tempestade e saía para um céu azul, e logo descia no aeroporto sem mais novidades. Estava salva!
Comprou uma revista, sentou-se num canto e pôs-se a esperar o avião do marido. Esperou meia hora. Como ele nunca mais chegasse, correu, já aflita, a informar-se no balcão. Soube que não havia nada de especial: as más condições do tempo às vezes ocasionavam algum atraso.
- Más condições do tempo?
Não tinha dúvida, era a tempestade que mandara para ele. Roída de remorsos, juntou as mãos ali mesmo, em frente ao funcionário assombrado:
- São Pedro, essa não! Não faça isso comigo. Era mentira, o senhor não vai me levar a sério. O pai faz muito mais falta que a mãe, quem é que foi meter uma bobagem dessa na minha cabeça? Ele trabalha para sustentar a família, eu não faço nada que preste. E logo ele, tão bom que é, tão carinhoso, por favor, São Pedro, não faça isso com ele, joga essa tempestade para cima de outro que não tenha filhos, para cima dele não!
Em pouco São Pedro voltava a atendê-la, fazendo o marido desembarcar no aeroporto, são e salvo:
- Que cara é essa? Você está parecendo um fantasma! Aconteceu alguma coisa?
Ela se abraçou a ele, ansiosa:
- Você está bem? Você me perdoa?
- Eh, que novidade você vai inventar agora? Perdoar o quê, mulher?
- Tudo por minha culpa - choramingou ela. - Mas graças a Deus você está salvo. Fiz uma confusão enorme com São Pedro, você nem imagina. Da próxima vez, quer saber de uma coisa? Vou com você, morreremos juntos, nossos filhos que se danem.
Ele a olhou, francamente apreensivo. "Acho que essa minha mulher está ficando maluca", pensou.
Crônica de Fernando Sabino retirado do livro Para Gostar de Ler - Volume 2 - Crônicas, Editora Ática, 4ª Edição, 1980.