25 julho 2026

O Saci

Por aquele tempo O Saci andava desesperado. Tinham-lhe surrupiado a cabaça de mandinga. O moleque, extremamente irritado, vagueava pelos fundões de Goiás.

Pai Zé, saindo um dia à cata dumas raízes de mandioca castela que sinhá dona lhe pedira, topou com ele nos grotões da roça.

O preto, abandonando a enxada e de queixo caído, olhava pasmado o negrinho que lhe fazia caretas e trejeitos, a saltar no seu único pé, e fungando terrivelmente.

- Vancê quer alguma coisa? perguntou pai Zé admirado, vendo agora o moleque rodopiar como o pião do ioiô.

Em Nossas Tarefas (118)

 "... não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes." - Paulo. (ROMANOS, 12:16.)


"Não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes" - recomenda o apóstolo, sensatamente.

Muitos aprendizes do Evangelho almejam as grandes realizações de um dia para outro...

A coroa da santidade...

O poder da cura...

A glória do conhecimento superior...

As edificações de grande alcance...

Entretanto, aspirar só por si não basta à realização.

Tudo, nos círculos da Natureza, obedece ao espírito de sequência.

A árvore vitoriosa na colheita passou pela condição do arbusto frágil.

A catarata que move poderosas turbinas é um conjunto de fios d'água no nascedouro.

Imponente é o projeto para a construção de uma casa nobre, no entanto, é indispensável o serviço da picareta e da pá, do tijolo e da pedra, para que a arte e o reconforto se exprimam.

Abracemos os deveres humildes com devoção ao nosso ideal de progresso e triunfo.

Por mais árdua e mais simples a nossa obrigação, atendemo-la com amor.

A palavra de Paulo é sábia e justa, porque, escalando com firmeza as faixas interiores do monte com facilidade lhe conquistamos o cimo e, aceitando de boa-vontade as tarefas pequeninas, as grandes tarefas virão espontaneamente ao nosso encontro.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

24 julho 2026

Nego Rei

Desencostando-se do tanque, Benedita atirou uma olhada para o marido deitado na cama. Avistou-o dos pés a cintura, pijama sungado nas pernas entrelaçadas. Resmungou com azedume:

- Esbranquicento de uma figa!

Enxugou o suor na testa, voltando a esfregar a roupa pensando:

"Para pegar um lugar de onde pudesse ver Nego Rei de perto, teria que correr com o serviço. Era estender a roupa no arame, lavar os trens de cozinha, tomar banho, aprontar a Neuza... Muita coisa por fazer ainda! Seria melhor arriscar um pedido de auxílio."

Galgou o degrau da porta para poder avistar o rosto do seu homem e falou decidida:

- Você bem podia dá uma dimãozinha... Receio chegar lá atrasada.

Como de costume, a resposta veio negativa:

- Sou lá mulher pra andar fazendo serviço de casa?! Deixa tudo aí, na volta você arruma.

Benedita suspirou:

"Com esse não precisava contar pra coisa nenhuma! Só pra fazer filho... O jeito era mesmo correr com o serviço. Pensando bem, as vasilhas poderiam ser lavadas quando voltasse. Era amontoar num canto da pia. A roupa é que precisava ir para o arame. Logo mais, deveriam estar também passadas. A entrega ao freguês seria logo no outro dia e cedinho."

Neusa veio interromper o pensamento de Benedita. Rodou sobre os calcanhares, exibindo o vestido branco engomado, cheio de babadinhos:

- Tá bonito?!

A mãe surpreendeu-se:

- Se vestiu sozinha?!

- Num instantinho!

A alegria deixava o branco dos olhos da menina mais branco e as pupilas pretas lançando chispas. A mulher contemplou a filha com gosto:

"Era um encanto o diabo da bichinha! Foi preciso nascer e crescer aquela coisinha encardida pra ela ir tomando amor na sua raça."

Sorriu ao responder:

- Está uma beleza! Agora senta lá na sala e vai alisando o pincha.

A pequena fazendo beiço estrilou:

- Pincha não, mãe, cabelo! Sentar eu não vou não! Amassa o vestido.

- Então alisa em pé mesmo.

A garota saiu e logo voltou para junto da mãe. Ela ralhou:

- Falei pra você ir pentear lá na salinha...

- Quero ficar junto da senhora.

O pente escorrendo pela carapinha ia chiando. Benedita encheu-se de ojeriza:

"Perder a vergonha antes de casar pra poder agarrar aquele esbranquicento duma figa por desejar ter filhos branquinhos e eles todos evinham saindo escuros. Raça danada de forte essa sua!"

Sentiu pena da menina. A mão miúda não conseguia ajeitar aquele monte de coisa. Tomou o pente e fez o arranjo ordenado:

- Agora vai me esperar lá na salinha. E já nóis vamos descendo.

Acabou de estender a roupa, amontoou as vasilhas e, depois de banhar-se, foi para o quarto envolta em uma toalha. Remexeu na gaveta da cômoda procurando um porta-seios. Contemplando-se no espelho, mudou de intenção.

"Pra quê usar essa bobagem? Seus peitos eram firmes como os de uma mocinha. Ninguém diria que haviam amamentado meia dúzia de filhos".

Contemplou o resto do corpo com alegria:

"Uma beleza!"

Pelo espelho deu com os olhos do marido em cima dela, incendiado de desejo, braços estendidos num convite. Cobriu-se ralhando de testa franzida:

- Que coisa é essa?! Não vê que lá vou saindo quase de corrida?!

Vestiu-se, pensando com ironia:

"Esbranquicento duma figa! Só presta mesmo é pra isso."

Antes de deixar o quarto, recomendou:

- Vigia os meninos que a Neusinha vai comigo.

Ainda inflamado, esfregando os pés um no outro, o marido respondeu com azedume:

- Pra quê levar a menina? Ela não entende disso...

No espelhinho da sala voltou a mirar-se para acabar de ajeitar o cabelo. João com aqueles olhos por cima dela, tirava-lhe o jeito.

"Pra quê levar a menina? Ora! Então o dinheiro quem ganhava não era ela? Foi preciso sofrer bastante para ir aprendendo muito da vida. Pra quê levar a Neusinha! Pra ir ensinando a ela que neste mundo não é só branco que é gente! Nego não era Rei? Rei de futebol mas era! O mundo inteiro não vivia encantado com ele? Nego bonito, cheio de força, ágil como um gato! Neusinha precisava ver esse Nego de perto pra ir aprendendo a dar valor na sua raça."

Na pressa de caminhar, ia arrastando a menina. Atolando o sapato branco na poeira, encheu-se de ojeriza:

"Não pudera tomar condução, porque o dinheiro mal chegou para as entradas. Casar com branco e depois ser cachorro dele? Trabalhar como burro pra sustentar casa, filhos, marido?! Qual! Antes tivesse casado mesmo com um escurinho. Com Neusa tinha que ser diferente. Teria que casar era com um da sua raça."

Agora quase corria. A menina reclamou, ela não prestou sentido. Ao passarem junto da construção que ia sendo erguida na praça, alguém gritou...

- Vai descendo pra ir ver o Rei, Benedita?

Olhou para cima. Esgarranchado no andaime, Sebastião acenou-lhe. Os dentes brancos brilhando no negrume da cara.

"Graças a Deus ela tinha bons dentes e também a Neusinha".

Sorriu ao responder:

- Vou. Você não vai?

- Estou dando mais umas marteladas e já eu desço.

- Então até logo.

- Até.

"Nego bom era esse! Escuro como tição mas um orgulho da raça. Não fosse por amor aos filhos, vergonha da Neusinha, estaria era vivendo com ele. Aquele esbranquicento bem que merecia". Benedita suspirou comprido. A filha forçou-a a prestar atenção no que lhe dizia:

- Que quer dizer Rei, mãe?

- Rei... Rei... - Embaraçou-se por não saber explicar. Neusa ajudou:

- Rei é uma coisa ou uma gente melhor que todo mundo?

- Isso mesmo. Sorriu ao pensar: "Essa menina faz cada pergunta!"

- Esse Rei que nóis vamo é Rei de jogá bola?

- É.

- Então ele joga bola mais bem que todo mundo?!

- Isso mesmo.

- E ele é preto, mãe?

- É.

- Que nem a gente?

- É.

A pequena caminhou um pouco em silêncio e então perguntou:

- Preto é gente, mãe?

Benedita zangou-se e respondeu com aspereza:

- Claro que é, burra!

O adjetivo magoou a menina. Sua voz veio sentida:

Mas preto é gente feia...

A mãe deu com força um tapa na filha:

- Preto não é feio coisa nenhuma, ouviu?! Tem muito branco que é mais feio que a gente. O preto que nóis vamo vê é um preto forte, liso, bonito! Você também é uma negrinha alinhada!

Procurando conter o pranto, Neusa foi dizendo de maneira ritmada:

- A Maria falou que nego nunca foi gente! Que lá na nossa casa, só o pai é que vale uma coisinha...

Benedita explodiu:

- Aquela Maria é uma burra! Uma cretina! Qualquer dia desses, quero lhe partir o focinho! - Benedita fechou a mão em ameaça e sacudiu o braço da filha: - Não quero mais você falando com ela, tá entendendo?

Notando o braço da menina todo ralado, quase sangrento, passou da ira à preocupação indagando aflita:

- Você caiu?!

A pequena sacudiu a cabeça em negativa:

- Então o que qui foi isso?!

Neusa não deu resposta. A mãe engrossou a fala:

- Diz o que qui foi senão apanha aqui mesmo!

A pequena respondeu baixinho, como se estivesse cansada:

- Esfreguei com um caco de telha...

- Está ficando louca?! - Benedita sacudiu a menina e erguei a mão em ameaça: Fala ou apanha...

Procurando sufocar os soluços, Neusinha respondeu:

- Queria ver se raspando, a pele da gente ficava branquinha...

A pequena agora chorava. Benedita suspirou comprido, pensando:

"Qual! Nego traz essa bobagem é no sangue! Só Deus, assim mesmo com muito jeito, talvez conseguisse consertar essa estultice".


Conto de Ada Ciocci Curado publicado no livro Nego Rei. Goiânia, Livraria Brasil Central Editora, 1966.  Retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos Anos Dez aos Sessenta, Organizado por Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, CEGRAF/UFG, Goiânia, 1993.

O que viveu sem nascer

Naquele dia o casal desceu a escadaria, com exagerada cautela. Seu Manuel segurava firme o braço de D. Maria. Os olhos de ambos irradiavam completa felicidade. Riam à toa. Seu Manuel falou:

- Hoje mesmo ajustei uma criada.

- Não há necessidade, meu velho. Preciso fazer exercício. Não foi o que o médico recomendou?

- Sim, sim, mas não dessa natureza. Nada de excesso. Nos levantaremos cedo e faremos longas caminhadas, repetindo-as às tardes. Quero que nosso filho seja forte e bonito. Estes anos de ansiosa expectativa me bastaram. Agora que ele nos chega, é preciso ter todo cuidado.

Pobre seu Manuel! Parece que estava a adivinhar...

Lá foram os dois rumo a casa, abraçadinhos, achando o sol mais lindo que de costume, verdes, muito mais verdes as matas, a água do lago mais azulínea, as flores mais belas e mais perfumadas, os passarinhos mais cantadores e ligeiros que nunca.

D. Maria passou a ser tratada como criança mimada. Os menores desejos lhe eram satisfeitos.

Ia pelo sétimo mês de gravidez quando, apesar da criada, apesar dos cuidados excessivos de seu Manuel, apesar de caminhar cauteloso, D. Maria caiu. Caiu e que tombo... Ficou desacordada meia hora, e, três dias depois, adeus pimpolho tão desejado! Era uma vez um Joaquinzinho... Esse seria o nome dado à criança, em homenagem ao avô paterno.

O casal ficou desolado e sua tristeza atingiu o auge quando o médico afirmou que D. Maria jamais seria mãe.

Choraram desesperados, um abraçado ao outro. Os dias foram passando e como acontece sempre, os dois acabaram se consolando. D. Maria começou a dizer:

- Pela lua, hoje nosso filhinho viria ao mundo.

- Justo, justo. Como seria belo e fortinho. Que pena!

E seu Manuel suspirou fundo, tornando-se pensativo.

Uma semana mais tarde, D. Maria falou:

- Hoje Joaquinzinho completaria oito dias.

Seu Manuel respondeu:

- Justo, justo. Já estaria começando a ficar clarinho. Como seria lindo e perfeito.

Assim continuaram.

Joaquinzinho fez um, dois, três meses. Veio o primeiro dentinho, o segundo... Fez um ano, dois, três... Sofreu sarampo, catapora, coqueluche e todas as espécies de doenças infantis...


Quando Joaquinzinho estava com cinco anos de idade, grassou crupe na cidade. Seu Manuel, alarmado, falou para D. Maria:

- Minha velha, arrume as malas. Vamos passar uns dias fora, até passar a epidemia. Era o que faríamos se Joaquinzinho vivesse.

E foram. Joaquinzinho cresceu. Estudou. Nos exames foi sempre o primeiro. Formou-se. Fez o Serviço Militar, saindo com uma caderneta invejável.

Quando o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália, lá foi Joaquinzinho defender a Pátria. Ouvindo pelo rádio as mensagens que os pracinhas enviavam aos seus, D. Maria e seu Manuel choravam, fazendo pena a quem os visse.

D. Maria tricotava incansavelmente pulôveres, cachecóis, meias, despachando-os pelo Correio. Um dia o agente perguntou-lhe:

- Seu filho guerreia no estrangeiro, madame? D. Maria, embaraçando-se, respondeu:

- Sim e não.

O agente quis perguntar o sentido de tão estranha resposta, mas ela não lhe deu tempo, saindo apressada.


Quando terminou a guerra, em casa de D. Maria festejou-se o acontecido durante uma semana, bebendo-se vinho à vontade.

Joaquinzinho lutara como um bravo.

Ao aportar no Rio de Janeiro o primeiro navio, trazendo de volta os combatentes, o casal lá estava, esperando pelo filho. Chorava abraçados, comovendo até as pedras. Uma senhora indagou:

- Seu filho chega agora, madame?

Olhando enleada para seu Manuel, D. Maria falou:

- Se nosso Joaquinzinho vivesse, como herói, seria o último a chegar, não é, meu velho?

- Justo, justo. E como viria garboso com as medalhas no peito! Santo Deus! Seu Manuel suspirou fundo, tornando-se pensativo.

Permaneceram no Rio, até que o último navio proveniente da Europa atracasse, depois retornaram para casa, satisfeitíssimos.

Hoje Joaquinzinho está casado. Moram todos juntos. Sua esposa é boníssima. Combina muito com a sogra... Espera já o terceiro filhinho...


Conto de Ada Ciocci Curado publicado no livro O Sonho do Pracinha e Outros Contos. São Paulo, Revista do Tribunais, 1954.  Retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos Anos Dez aos Sessenta, Organizado por Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, CEGRAF/UFG, Goiânia, 1993.

22 julho 2026

Sofia

Já tinham brincado muito, e agora estavam reunidos ao pé do poste, pensando numa coisa nova para fazer.

Ainda era cedo, a noite apenas começara.

- Vamos mexer com a Sofia? propôs um.

Sofia era dona do mercadinho - a vítima predileta deles. Pintavam o sete com ela. Sofia assustava-se com nada, e isso os deliciava. Viviam assombrando-as: vozes estranhas chamando lá fora, e ninguém (estavam no telhado), caveira de mamão verde com vela acesa dentro, capas, máscaras horrorosas, o caixote de lixo que sumia, o ferro de abaixar a porta que sumia, ratos, sapos, lagartixas aparecendo de repente, minha nossa! Quase desmaiava, dessa vez eu chamo o guarda, mas nunca chamava o guarda, e tudo o que fazia era ameaçar os meninos, agitando o braço gordo:

- Eu vai contar bra seu pai, menino! Eu vai contar bra seu pai!

Eles riam, alegres, distantes do braço dela.

- Raledine baculé, pé de turco tem chulé!

- Moleques! Sembregonhas!

- Sofia guer gombra galinha de raça? Cadê os urubus que ocê comprou, hein Sofia? Cadê as galinhas de raça?

Caíam na risda.

Sofia queria correr, mal saía do lugar, gorda, pernas gordas, braços gordos, uma tonelada de gordura.

- Ainda me pagam, lê! - gritava, enquanto os meninos se afastavam.

- Praga - xingava, tornando a entrar no mercadinho, onde, no balcão, ia encontrar um sapo morto. - Moleques.

De vez em quando havia trégua: o dia em que chegavam tomates. Vinham três, quatro caixotes. Os meninos apareciam, quietos, sérios. Ficavam por ali conversando, simulando indiferença. Sofia chegava até a porte, olhava para um lado da rua, para o outro, espichava o pescoço como se estivesse procurando alguém (não procurava ninguém, sabiam), dava uma cuspida no chão (sempre dava a cuspida).

- Ei - falava, na sua voz grossa de homem, as mãos na cintura: - chegou tomate hoje.

(Eles já sabiam, e ela sabia que eles já sabiam.)

Displicentes:

- É?...

Pouco depois estavam sentados em caixotes vazios, trapos na mão, ágeis, limpando os tomates, pra quê que eles põem esse pó? É pra conservar, separando os bons num caixote, os amassados noutro, jogando os podres no lixo, disputando quem limpava mais depressa. Sofia no meio deles, contando casos - de vez em quando uma exclamação na Língua dela: deve ser nome feio, pensavam - dando gargalhadas, sacudindo-se toda, esquecida da brigas. Às vezes comia um tomate: enfiava-o inteiro na boca, as bochechas estufavam.

Terminado o serviço, ela fazia o pagamento: um saquinho de balas para cada um.

Uma vez - era aniversário dela - limparam tomates das sete às dez da noite, até fechar o mercadinho.

Na hora de pagar:

- Não é nada não. Hoje é aniversário da senhora...

Sofia ficou olhando, a boca aberta. Foi falar, mas sua voz grossa de homem de repente ficou fina e sumiu, os olhos úmidos. Cada um deu um abraço nela, estavam comovidos com suas lágrimas, ela querendo falar alguma coisa, mas nada, os lábios trêmulos, os olhos úmidos.

- Vocês viram?

- Chorando...

- Ela grita com a gente, mas ela é boazinha...

- É pra gritar mesmo; do jeito que nós fazemos com ela... Eu vou falar; se fosse eu, não ficava assim não.

- Eu também.

- Ela fala que vai chamar o guarda, mas nunca chamou.

- Nós judiamos dela.

- Sabem, eu pensei uma coisa, não sei se vocês topam: a gente não mexer mais com ela. Quê que vocês acham?

- Eu topo.

- Eu também.

- Engraçado, eu tinha pensado nisso também, mas fiquei com vergonha de falar.

- Fazer um juramento: ninguém mais mexer com ela. Topam?

Todos topavam. Um até quis ir contar pra ela na hora.

- Não, deixa ela ir notando aos poucos: , os meninos estão diferentes... Já pensaram o tanto que ela vai achar bom?

- Se vai...

E ali no poste, todos de pé, fizeram o juramento.

- Para sempre.

- É. Para sempre.

Uma semana depois a lâmpada da entrada do mercadinho sumia, uma perereca saltava de um saquinho de papel, um busca-pé estourava debaixo do balcão, e Sofia agitava o braço gordo no passeio, enquanto eles corriam.

- Moleques! Sembregonhas! Eu vai contar bra seu pai! Eu vai chamar o guarda!

Um dia Sofia adoeceu. Nunca mais tornaram a vê-la. Miguel, seu irmão, é que passou a tomar conta do mercadinho. Com ele não mexiam: não tinha graça.

E um dia Sofia morreu. Comentaram na cidade que ela morrera é de tanto comer. Contavam que o médico a mandava fazer regime e ela não obedecia; ela dizia:

- Sofia morre, mas morre de barriga cheia.


Conto de Luiz Vilela retirado do livro Contos da Infância e da Adolescência, Série Rosa dos Ventos, Editora Ática, São Paulo, 1996.

Corisco

Se não fosse Mamãe, eu nunca teria Corisco, pois Papai não gostava de cachorro de espécie alguma, porque, dizia ele, cachorro é bicho velhaco, só serve pra dar amolação e pra comer a comida da gente, e enquanto ele fosse dono da fazenda, ali nunca haveria de entrar cachorro, e se entrasse um, ele pegava a espingarda e sapecava fogo sem um tiquinho de dó. Por isso, quando ele veio descendo o pasto de tardinha, eu fiquei com medo, Mamãe escondeu Corisco, que era pequeno, no cesto de roupa suja, e disse pra mim você não fala nada, deixa que eu falo, e eu fui esconder detrás da porta da despensa.

Papai entrou batendo os pés como fazia, pra sacudir a poeira das botas, pendurou o chapéu na parede, depois deu um tapinha nas costas de Mamãe, falando com voz grossa ê filha, o serviço hoje esteve puxado, e batia a mão na barriga, espiando as panelas de comida enquanto contava casos de bois acontecidos lá no retiro, e então parece que ele reparou no silêncio de Mamãe e falou um pouco mais alto, mas daquele jeito que não era bravo, quê que houve, filha, você não fala nada, engoliu a língua? Aí Mamãe soprou o fogão, pingou caldinho de sopa na mão, provando o tempero, e sem olhar pra trás, pra Papai, disse que meu aniversário estava peto e pensava em me dar um presente, quê que ele achava da ideia, e Papai, sacudindo a cabeça disse que também pensara nisso, mas não tinha ideia do presente, isso era melhor ela escolher, mulher é que entende dessas coisas. Então Mamãe disse que já tinha escolhido, era uma coisa que eu sempre desejara e ia ficar contentíssimo de ganhar, vamos ver se você adivinha quê que é, mas quando ela falou assim, Corisco deu uma choradinha no cesto, ela baixou a cabeça, Papai fechou a cara e, sem dizer nada, saiu pro terreiro. Eu saí detrás da porta, de onde vira tudo, e Mamãe, me passando a mão na cabeça, disse seu pai é duro, e engoliu fazendo barulho, e virou pra soprar o fogão outra vez.

No outro dia ela me disse que tinha dado um jeito e que Corisco não ia embora, mas eu não falasse nada com Papai, e eu não falei, e três dias depois, no meu aniversário, ele me deu um abraço apertado e um canivete de cabo de osso, dizendo toma um presentinho de seu pai, e não falou nada de Corisco.

Corisco não foi embora, e com sete meses já estava brande e bonito, o pelo pretinho de alumiar e as patas brancas, e, era engraçado, parecia que ele tinha medo de sair pra longe, porque ficava o tempo todo em frente ao alpendre, espichado com a cabeça entre as patas e as orelhonas arrastando no chão, dormindo ou espiando com preguiça os currais, não levantando pra nada, nem mesmo quando Papai voltava de tardinha do serviço e, em vez de tocar ele dali, passava por cima, nem olhando, como se Corisco não existisse, pois era assim, parecia que Corisco não existia pra ele, nunca falava nele, nem mesmo quando Corisco pegou aquela mania de acompanhar ele ao retiro.

Toda tarde, quando os pássaros-pretos começavam a cantar no arrozal e ia escurecendo do lado da serra, eu trepava na porteira e, espichando a vista até onde podia, ficava esperando Corisco, com medo de Papai ter feito alguma coisa com ele, e quase pulava de alegria quando via ele aparecendo atrás da poeirinha que o cavalo de Papai fazia. Ele sempre vinha atrás, mas, na hora de abrir a porteira, passava na frente, passava por baixo e ia pro alpendre, ficando deitado na porta, resfolegando com a língua comprida e vermelha de fora, só depois é que ia pra varanda beber água.

Uma vez ele voltou mais cedo e sozinho, e, em vez de ir pro alpendre, foi descendo o terreiro, com a cabeça baixa e o rabo entre as pernas. Eu estranhei e falei com Mamãe, e nós fomos ver o que era e encontramos ele lá no paiol, enrolado num canto, o olhar triste. Passei a mão na cabeça dele, mas ele não abanou o rabo, nem ligou, e Mamãe falou é capaz de ser doença. No jantar não falamos nada sobre o assunto, mas de noite fiquei com dó dele e chamei Mamãe pra ir lá de novo. Papai estava sentado no alpendre, fazendo um cigarro, e quando viu nós dois, não falou nada, mas ficou olhando pra Mamãe, depois continuou a picar o fumo. Corisco estava do mesmo jeito, enroscado feito cobra, sem ligar pra gente. Ele não está nada bom, Mamãe falou, e eu comecei a chorar, e ela falou não chora não, vou falar com seu pai pra comprar remédio.

Ele ainda estava no alpendre fazendo o cigarro, e ao ver Mamãe, embolou tudo e jogou fora e perguntou com voz seca o que era, e ela falou que era o Corisco, estava doente e precisava de remédio, então ele falou que não tinha nada a ver com isso, e eu corri pra ele, chorando e pedindo pra ele deixar de ser ruim e ter dó de Corisco, e ele falou era só o que faltava, chorar por causa dum bicho, e então eu fui chorar no quarto.

Na manhã do outro dia Sô Tuti chegou do retiro com um embrulhinho, dizendo que Papai é que tinha mandado. Mamãe abriu, e era remédio pro Corisco. Nós demos, mas não adiantou nada, ele continuava triste e tinha começado a vomitar uma baba amarela, e de tarde ouvi Mamãe falando com Papai, que voltara do serviço mais cedo porque estava com dor de cabeça, que pelo jeito o cachorro não escapava.

Foi de tardezinha que Corisco morreu. Começou a torcer o pescoço e a gemer, depois quietou, e eu chamei baixinho Corisco, Corisco, mas os olhos dele só olhavam pra frente, e parecia que ele não estava escutando mais. E então esticou as pernas e abriu a boca, que foi fechando devagar, e uma baba escorreu dela. Coitado, Mamãe falou, e eu não consegui segurar o choro.

No jantar ela falou o Corisco morreu, e Papai, tomando uma colherada de sopa, falou sei, e limpou a boca e não falou mais uma palavra, e Mamãe, vendo que ele não queria comer mais, perguntou o que era, e ele falou que era aquela dorzinha de cabeça aborrecida.

Tudo voltou a ser como antes, eu brincando com os meninos da fazenda, Mamãe cozinhando, Papai trabalhando, e era como se Corisco nunca tivesse existido, pois ninguém falou mais nele, só uma vez, uma noite em que havia desaparecido mais uma galinha, e então Mamãe falou que, se o Corisco ainda estivesse vivo, aquilo não teria acontecido, e então Papai, levantando de repente, falou que nada, que cachorro era bicho velhaco que só servia pra dar amolação e pra comer a comida da gente, ela não falasse naquilo, não queria saber mais daquela praga na fazendo, e foi até a janela e ficou olhando o céu estrelado, e então Mamãe me cutucou a perna e eu olhei pra ele e vi ele enxugando uma lágrima.


Conto de Luiz Vilela retirado do livro Contos da Infância e da Adolescência, Série Rosa dos Ventos, Editora Ática, São Paulo, 1996.

20 julho 2026

Minha avó dorme a sesta

 Minha avó dorme a sesta; não devo fazer barulho.

Na casa, nada se mexe. A empregada foi para o quarto deixando a cozinha vazia. Só eu não tenho sono.

Da janela não vejo movimento. As lojas ficarão fechadas até quatro horas. O caminho para a Piazza Navona está quase deserto; as poucas pessoas que passam, tangidas pelo barulho dos próprios passos na rua vazia, têm um ar furtivo. Não ouço carros.

Se ando, as velhas tábuas do assoalho estalam sob meus pés. Na biblioteca, os livros vivem sua longa vida, sem tomar conhecimento da minha presença, e as plantas, no sarcófago de pedra, empurram as raízes terra adentro. A sala de jantar é fria; campânulas de vidro protegem bonecos de cera de uma poeira inexistente, o blackmoor olha para a frente, o cetim roxo do sofá capitonê não tem marcas. Tento me esgueirar atrás do biombo de seda bordada, mas, do teto, a dama do afresco me segue onde quer que eu vá, e prefiro sair.

Abro com cuidado a porta do salão. As cortinas de gaze ondejam de leve, minha imagem nos espelhos antigos é reflexo de lago, há um tilintar breve de pingentes: o salão também dormia. Recuo, fecho a porta com precaução, quase pedindo desculpas.

No quarto ao lado do da minha avó, nada indica sua  proximidade; ela não faz barulho quando dorme, não ressona, não suspira. Entretanto, sei que ela está ali perto, tão perto que, quando acordar, notarei imediatamente.

E começo a brincar, sem um ruído. A enorme poltrona de veludo é meu trenó. Na grande noite que fabriquei debaixo da manta, deslizo sobre a neve, atravessando a imensidão da estepe. Os cavalos correm, ouço o estalar do chicote, sinto as crinas abaixar e levantar como cristas de ondas. O trenó sacode meu corpo enlanguescido. Os lobos uivam pressentindo a vítima. Há muitos dias que viajo, e é sempre noite; logo, desmaiarei de cansaço, e cairei do trenó, sem que o homem que o conduz se aperceba.

Não fosse a oportuna chegada do meu amado, eu seria estraçalhada. Ele, porém, chega, me salva, e, agora, os braços da poltrona são seus braços que me carregam, desfalecida. Põe-me no trenó, sou aquecida, bebo algo forte, e volto a mim. Mas a partir deste ponto não sei mais continuar a brincadeira, não sei o que fazer da viagem, e também não quero chegar. Então, recomeço. Na noite, o trenó me sacode, e os lobos uivam sob a luz enquanto eu atravesso a estepe.


Conto de Marina Colasanti retirada do livro Eu Sozinha, Global Editora, São Paulo, 2018.

Quem me deu foi a manhã

Foi uma moça lavar suas anáguas no rio. Espuma de rendas, espuma de águas. Depois deitou-as sobre a grama para secar. E da grama uma salamandra levantou a cabeça e perguntou:

- Que rendas são essas que você lava com tanto capricho?

- São as rendas que farfalham nos meus tornozelos - respondeu a moça.

- Eu também quero ouvir esse farfalhar - disse a salamandra. E antes mesmo que a moça vestisse a primeira anágua, enroscou-se no seu tornozelo.

Era fria como vidro e brilhante como prata. Mas, com medo de ser mordida, a moça deixou-a estar e voltou para a aldeia.

No caminho encontrou as outras moças da sua rua, que iam juntas. - Que joia diferente! - exclamaram, flagrando nos passos dela o luzir da salamandra. - Onde foi que você achou?

A moça riu sem responder, entrou em casa e fechou a porta atrás de si.

Passados alguns dias, novamente foi ela ao rio, lavar suas roupas. Água batendo nos panos, panos batendo nas pedras. E estava enxaguando o xale, quando uma serpente emergiu entre as franjas e perguntou:

- Que roupa é essa que você lava com tanto esmero?

- É o xale que pousa nos meus ombros - respondeu a moça.

- Eu também quero pousar nos teus ombros - disse a serpente.

Deslizou rápida até os ombros dela, rodeou-lhe o pescoço e, mordendo o próprio rabo, deixou-se ficar.

Era lisa e verde como esmeralda. Porém, com medo de ser picada, a moça não ousou tocá-la. E voltou para a aldeia.

- Que joia tão rica! - surpreenderam-se as moças suas companheiras colhendo os lampejos verdes ao redor do pescoço. - Como foi que você conseguiu?

A moça nem riu nem respondeu. Entrou e fechou a porta.

Alguns dias mais haviam passado, e novamente foi a moça ao rio. Dessa vez, não levava roupas. Ajoelhou-se na beira e mergulhou a cabeça para lavar os cabelos. Ondular de ouro na água, ondular de azul entre os fios. Depois, penteou e sacudiu os cabelos para secá-los ao sol. E como que trazida pelo sol, uma libélula voou e veio pousar na cabeça, um pouco de lado. Ali, imóveis as asas, deixou-se ficar.

Era delicada e graciosa como uma filigrana. Mas com medo de machucá-la, a moça nem a tocou. Quis levá-la, procurou seu reflexo no espelho da água. Depois voltou à aldeia.

As moças esperavam para vê-la passar. - E essa preciosidade - perguntaram em coro movidas pelo cintilar irizado - quem foi que te deu?

- Quem me deu foi a manhã - respondeu a moça. E, sem olhar para trás, entrou em casa. A porta deixou aberta, soubessem todos que nada tinha a esconder.

Não tinha nada a esconder, mas o que havia mostrado era suficiente. De boca em boca, de boca a ouvido, aos cochichos, aos murmúrios, sussurrando, segredando, de um a outro, de um a muitos, pelos cantos, pelas ruas, as joias tornaram-se o assunto da aldeia. E quando todo esse falar desembocou na praça, foi como um vento que entrasse pelas janelas e portas da Cadeia Geral, indo se abater sobre a mesa do Chefe da Polícia.

Uma moça pobre usando joias de valor era coisa nunca vista antes naquela aldeia, afirmou este. A moça só podia tê-las roubado, concluíram todos. E, expedida a ordem, foram os esbirros buscá-la em sua casa e a trouxeram até a cela. Nas joias ninguém se atreveu a tocar, serviriam como evidência.

As paredes da cela eram espessas, as grades da janela eram grossas, mas o falatório do povo ali embaixo chegava até a prisioneira. Aos poucos, porém, fez-se escuro, as vozes foram se afastando. Silêncio e sereno pousaram enfim na praça. A noite havia chegado.

Nenhum ruído se ouviu quando a serpente desprendeu-se do pescoço da moça, deslizou sinuosa para fora da cela, aproximou-se do carcereiro adormecido, enroscou-se na perna da cadeira, e erguendo a cabeça, mordeu com um bote a mão pendente.

Tão leve o fremir das asas da libélula quando abandonou a cabeleira loura, que só um ouvido atento o colheria. Mas o carcereiro já não estava atento a nada. A libélula pôde voar segura até o prego onde a chave estava pendurada por uma argola, e com a argola entre as patinhas, voar de volta até a sua dona.

Como havia conseguido a ladra fugir de cadeia tão forte? perguntavam-se todos no dia seguinte. E por que o carcereiro continuava dormindo?

- Bruxaria! - foi a resposta que jorrou daquelas bocas.

Novamente uma ordem foi expedida, os esbirros saíram à procura e todos os aldeões empenharam-se na caçada. De dia e de noite. Até que a moça, mãos atadas atrás das costas, foi arrastada para a praça onde a fogueira para queimá-la havia sido armada. Já não trazia a serpente ao redor do pescoço, nem a libélula pousada nos cabelos. Mas entre os farrapos da anágua rasgada ocultava-se a salamandra.

- Bruxa! - gritava o povo.

- Feiticeira!

Com boca leve, a salamandra mordeu o tornozelo da sua dona já atada sobre os feixes de lenha.

O povo na praça ergueu os braços celebrando a primeira labareda. A cabeça da moça pendia de lado. A fumaça se expandiu, pessoas tossiram na assistência. E logo todos os feixes arderam ao mesmo tempo, refletidos nos olhos da multidão.

Já não havia ninguém na praça quando as últimas brasas se apagaram. Findo o espetáculo, cada um havia retornado à sua casa. A madrugada avançava pesada de sono. Assim, ninguém viu aquele súbito mover-se entre as cinzas, o menear, a cabeça da salamandra erguendo-se. Ninguém viu o braço, o ombro, a cabeleira da moça emergindo dos restos da fogueira, ela toda de pé sacudindo-se como quem sai da água. Ninguém viu quando, antes de se afastar, recebeu ao redor do tornozelo uma joia como vidro e brilhante como prata.


Conto de Marina Colasanti retirado do livro Mais de 100 Histórias Maravilhosas - 23 Histórias de Viajantes, Global Editora, São Paulo, 2014/2015.

19 julho 2026

Coisas que sabemos

Eu não penso mais nisso agora, mas nós sabemos como foi. Sabemos de tudo. As pessoas que estavam lá naquele tempo sabem o mesmo que eu e você. As pessoas que andaram por lá depois também sabem. É impossível não saber.

Aquilo foi diferente de tudo e até agora, nas noites em que não posso dormir, imagino os gritos e o barulho como se fossem pedras imensas sendo partidas. Nas noites em que não posso dormir, ouço esse barulho como se fosse agora.

Não havia nada que pudesse ser feito e todos nós sabíamos disso. Eu sabia e você também. Não havia nada que pudesse ser feito.

Pelas noites, em toda a cidade, se ouviam gritos e o barulho de pedras partindo. Havia os grandes estalos seguidos e eu imaginava o caminho reto e picotado daquele fogo noturno, como o mastigar de um grande bicho. Nos telhados os rapazes atiravam enquanto todos sabiam que não havia nada que pudesse ser feito. Mas eles estavam dispostos a tudo e já não pensavam mais.

Nos dias seguintes apareceram os corpos no rio. Vinham pela correnteza, gordos, inchados, azulados.

Naqueles dias as pessoas se debruçavam na amurada das pontes e contavam os cadáveres. Algumas mulheres choravam e gritavam, e esse é o grito que ouço nas noites em que não posso dormir.

Algumas mulheres viam os corpos e contavam em voz alta. Era como uma antiga ladainha alucinada.

Uma tarde, entre os corpos, veio flutuando o de um cão inchado. Havia também um resto de cama. Então a mulher apontou o cão e começou a rir, primeiro baixinho, e depois esse riso foi crescendo até se transformar em um uivo sem-fim.

Ela estava na ponte contando os cadáveres há três dias e duas noites.

Quando veio rodando o corpo inchado do cão batendo contra a madeira do resto da cama, o som da cabeça contra a madeira molhada como um fruto caindo no barro mole, a mulher começou a rir. Era muito divertido. Não havia nada mais divertido. Não havia nada que pudesse ser mais engraçado.

Com o tempo os cadáveres começaram a desaparecer, até que não se contavam mais.

Aos poucos as pessoas abandonaram as pontes e mataram sua espera. Mas a mulher continuou muitos dias mais, mesmo quando não havia mais cadáveres e o rio voltou a ser apenas um rio sujo outra vez.

Ela estava lá, sozinha, parada, e de vez em quando começava aquele riso outra vez.

Ela estava lá parada, sozinha, quando vieram os soldados para buscá-la.


Conto de Eric Nepomuceno retirado do livro A Palavra Nunca, Editora Francisco Alves/Editora da UFSCar, Rio de Janeiro, 1997.

Às Sete em Ponto

 As mãos espalmadas, os dedos finos, jogaram os cabelos negros e lisos para trás:

- Preciso telefonar para casa, falar com minha mãe.

Foi a primeira coisa que ela disse. Depois, perguntou:

- Como foi o seu dia? Acho que o frio está chegando. Peça um licor e um chá para mim, está bem? E alguma coisa para comer. Estou com fome, não pude almoçar. Você almoçou? Preciso telefonar. Você pede para mim?

Eu não gostava café. Gostava da praça, a primeira que conheci na cidade, e que se chamava San Juan de la Cruz. Havia dois cafés na praça. Um, ao lado do hotel onde eu morava; outro, no extremo oposto da praça. Estávamos no café longe do hotel: mesas de fórmica, cadeiras forradas de plástico vermelho. Estávamos em uma mesa ao ar livre, era um fim de tarde de outubro, fazia frio. Eram sete da noite quando ela chegou. Tínhamos dito: às seis e meia, no café da esquina: ela chegou às sete. Veio bonita. Eu gostava de olhar seu rosto e olhar seu sorriso e olhar suas mãos.

Pensava nisso quando vi que ela me olhava sorrindo: talvez eu estivesse sorrindo também. Ela perguntou, calma:

- E como foi seu dia?

- Bem, sem nada de novo, nenhuma emoção.

Escrevi cartas e cartões-postais de manhã, almocei, fumei um charuto, caminhei de tarde, fui ver um amigo. Nada de emoções.

- E você está bem?

- Claro, por que não? E você?

- Estou ótima. Agora, vou telefonar: está ficando tarde.

Eram sete da noite, ela acabara de chegar e estava bonita. No outro dia, bem cedinho, fui-me embora. Levei um ano para voltar, e ela estava com os cabelos curtos.

Quando voltei era dezembro e dois dias antes tinha nevado na cidade, fazia frio e as ruas estavam sujas.

O café estava fechado. Nos encontramos na rua e ficamos olhando o café, tentamos sorri e eu perguntei:

- E agora, para onde vamos?

Ela disse que para lugar nenhum. Queria ver se eu continuava vivo, só isso. E já vira.

Fiquei parado, fazia frio e ventava, olhando para ela, que atravessou devagar a rua e entrou em um carrinho pequeno, cor de cinza.


Conto de Eric Nepomuceno retirado do livro A Palavra Nunca, Editora Francisco Alves/Editora da UFSCar, Rio de Janeiro, 1997.