24 outubro 2026

Ricamente (125)

 "A palavra do Cristo habite em vós, ricamente..." - Paulo. (COLOSSENSES, 3:16.)


Dizes confiar no poder do Cristo, mas, se o dia aparece em cores contrárias à tua expectativa, demonstras deplorável indigência de fé na inconformação.

Afirmas cultivar o amor que o Mestre nos legou, entretanto, se o companheiro exterioriza pontos de vista diferentes dos teus, mostras enorme pobreza de compreensão, confiando-te ao desagrado e à censura.

Declaras aceitar o Evangelho em sua simplicidade e pureza, contudo, se o Senhor te pede algum sacrifício perfeitamente compatível com as tuas possibilidades, exibes incontestável carência de cooperação, lançando reptos e solicitando reparações.

Asseveras procurar a Vontade do Celeste Benfeitor, no entanto, se os teus caprichos não se encontram satisfeitos, mostras lastimável miséria de paciência e esperança, arrojando teus melhores pensamentos ao lamaçal do desencanto.

Acenderemos, porém, a luz, permanecendo nas trevas?

Daremos testemunho de obediência, exaltando a revolta?

Ensinaremos a serenidade, inclinando-nos à desesperação?

Proclamaremos a glória do amor, cultivando o ódio?

A palavra do Cristo não nos convida a marchar na fraqueza ou na lamentação, como se fôssemos tutelados da ignorância.

Segundo a conceituação iluminada de Paulo, a Boa Nova deve irradiar-se de nossa vida, habitando a nossa alma, ricamente.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Oração por meus amigos

Luzes que brilham juntas,

Velas que juntas queimam

No altar da esperança.


Trilhos que juntos percorrem

Os mesmos dormentes

E vão terminar no mesmo lugar.


Aves que vão em bando,

Verso que segue verso

Nas rimas da vida.

Barcos que singram os mares,

Até separados, mas sabem o porto

Onde vão se encontrar,

São assim os amigos que a vida me deu,

Meus amigos e minhas amigas e eu.


Abençoa, Senhor, meu amigos

E minhas amigas e dá-lhes a paz!

Aqueles a quem ajudei,

Que eu ajude ainda mais...

Aqueles a quem magoei,

Que eu não magoe mais...

Saibamos deixar, um no outro,

Uma saudade que faz bem!

Abençoa, Senhor, meus amigos

E minhas amigas. Amém!


Gente que sonha junto, gente que brinca e briga

E se zanga e perdoa.

Um sentimento forte, mais forte que a morte,

Nos faz ser amigos no riso e na dor

Vidas que fluem juntas, rios que não confluem,

Mas vão paralelos, aves que voam juntas

E sabem que um dia, por força da vida, não

Mais se verão


Resta apenas o sonho

Que a gente viveu,

Meus amigos e minhas amigas e eu.


Abençoa, Senhor, meus amigos

E minhas amigas e dá-lhes a paz!

Aqueles a quem ajudei,

Que eu ajude ainda mais...

Aqueles a quem magoei,

Que eu não magoe mais...

Saibamos deixar, um no outro, uma saudade

Que faz bem!

Abençoa, Senhor, meus amigos

E minhas amigas. Amém!


Música de Padre Zezinho, SCJ, gravada por Joanna em seu CD EM NOME DE JESUS - Joanna Interpreta PE. ZEZINHO, SCJ, gravadora Sony Music, 2011.

Há um barco esquecido na praia

 Há um barco esquecido na praia

Já não leva ninguém a pescar

É o barco de André e de Pedro

Que partiram pra não mais voltar


Quantas vezes partiram seguros

Enfrentando os perigos do mar!

Era chuva, era noite, era escuro

Mas os dois precisavam pescar

De repente aparece Jesus

Pouco a pouco se acende uma luz

É preciso pescar diferente

Que o povo já sente que o tempo chegou

E partiram sem mesmo pensar

Nos perigos de profetizar


Há um barco esquecido na praia

Um barco esquecido na praia

Um barco esquecido na praia


Há um barco esquecido na praia

Já não leva ninguém a pescar

É o barco de João e Tiago

Que partiram pra não mais voltar

Quantas vezes em tempos sombrios

Enfrentando os perigos do mar

Barco e rede voltaram vazios!

Mas os dois precisavam pescar


De repente aparece Jesus

Pouco a pouco se acende uma luz

É preciso pescar diferente

Que o povo já sente que o tempo chegou

E partiram sem mesmo pensar

Nos perigos de profetizar


Há um barco esquecido na praia

Um barco esquecido na praia

Um barco esquecido na praia


Quantos barcos deixados na praia!

Entre eles o meu deve estar

Era o barco dos sonhos que eu tinha

Mas eu nunca deixei de sonhar


Quanta vez enfrentei o perigo

No meu barco de sonho a singrar!

Jesus Cristo remava comigo

Eu no leme, Jesus a remar

De repente me envolve uma luz

E eu entrego o meu leme a Jesus


É preciso pescar diferente

Que o povo já sente que o tempo chegou

E partimos pra onde Ele quis

Tenho cruzes, mas vivo feliz


Há um barco esquecido na praia

Um barco esquecido na praia

Um barco esquecido na praia


Música de Padre Zezinho, SCJ, gravada por Joanna em seu CD EM NOME DE JESUS - Joanna Interpreta PE. ZEZINHO, SCJ, gravadora Sony Music, 2011.

Saudade de Mãe/Fogão de Lenha

Coloquei o filtro da arte naquela 

cena comum e a luz que até então

estava escondida veio surpreender-me

com seu poder de claridade.


A mulher simples, mãos calejadas

de lida rotineira, mulher que aprendeu

a curar as dores do mundo a partir dos

meus joelhos esfolados de

quedas e estripulias.


Aquela mulher, minha mãe,

rosto iluminado por uma labareda

que tinha origem no fogão de

lenha trazia consigo o dom de

me devolver a calma que a vida

tantas vezes insistiu em me roubar.


Aquela cena, mulher, fogão de lenha,

panela preta, escondendo a brancura de

um arroz feito na hora é uma das

cenas mais preciosas que meu coração

não soube esquecer.


Saudade de mãe é coisa sem jeito

Chega quando menos imaginamos:

um cheiro, uma melodia, uma palavra,

uma imagem e eis que o cordão do

tempo nos convida ao retorno à infância,

como se um fio nos costurasse ao novo ao

colo da mulher que primeiro nos segurou na

vida e agora pudesse nos regenerar.


Saudade de mãe é ponte que nos favorece

ao retorno a nós mesmos. Travessia que

nos recorda uma identidade muitas vezes

esquecida, perdida na pressa que nos leva.


Saudade de mãe é devolução, é ato que

restitui o que se parte; é luz que sinaliza o

local do porto, é voz no ouvido a

nos acalmar nas madrugadas de desespero e

solidão através de uma frase simples:

"dorme, meu filho, dorme".


Hoje, nesse dia em que a vida me fez

criança de novo; neste instante em que

esta cena feliz tomou conta de mim,

uma única palavra eu quero dizer

Oh, minha mãe, que saudade eu sinto de você!


Poema do Padre Fábio de Melo que antecede a música Fogão de Lenha:


Espera minha mãe, estou voltando

Que falta faz pra mim um beijo seu

O orvalho da manhã cobrindo as flores

E um raio de luar que era tão meu

O sonho de grandeza, ó mãe querida

Um dia separou você e eu

Queria tanto ser alguém na vida

E apenas sou mais um que se perdeu


Pegue a viola e a sanfona que eu tocava

Deixe o bule de café em cima do fogão

Fogão de lenha deixe a rede na varanda

Arrume tudo mãe querida

Que o seu filho vai voltar


Mãe, eu lembro tanto a nossa casa

As coisas que falou quando eu saí

Lembro do meu pai que ficou triste

E nunca mais cantou depois que eu parti

Hoje eu já sei, ó mãe querida

Nas lições da vida eu aprendi

O que vim procurar aqui distante

Eu sempre tive tudo, e tudo está aí


Música de Carlos Colla, Xororó e Maurício Duboc gravada pelo Fábio de Melo em seu CD Enredos do meu povo simples, Paulinas COMEP, 2007.

Mãe (A Canção)

Palavras, calas, nada fiz

Estou tão infeliz

Falasses, desses, visses, não

Imensa solidão


Eu sou um rei que não tem fim

E brilhas dentro aqui

Guitarras, salas, vento, chão

Que dor no coração


Cidades, mares, povo, rio

Ninguém me tem amor

Cigarras, camas, colos, ninhos

Um pouco de calor


Eu sou um home tão sozinho

Mas brilhas no que sou

E o meu caminho e o teu caminho

É um nem vais, nem vou


Meninos, ondas, becos, mãe

E, só porque não estais

És para mim e nada mais

Na boca das manhãs


Sou triste, quase um bicho triste

E brilhas mesmo assim

Eu canto, grito, corro, rio

E nunca chega a ti


Música de Caetano Veloso gravada por Gal Costa em seu então LP Água Viva, lançado em 1978 pela Gravadora Philips/PolyGram e reeditado em CD posteriormente. Cida Moreyra regravou a música em seu CD A Dama Indigna, agora com o sobrenome Moreira, grafado com "i", produção independente em gravação de 2010 e distribuído pela Tratore.

10 outubro 2026

Não te Canses (124)

 "Não nos desanimemos de fazer o bem, pois, a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos." - Paulo. (GÁLATAS, 6:9.)


Quando o buril começou a ferir o bloco de mármore embrutecido, a pedra, em desespero, clamou contra o próprio destino, mas depois, ao se perceber admirada, encarnando uma das mais belas concepções artísticas do mundo, louvou o cinzel que a dilacerara.

A lagarta arrastava-se com extrema dificuldade, e, vendo as flores tocadas de beleza e perfume, revoltava-se contra o corpo disforme; contudo, um dia, a massa viscosa em que se amargurava converteu-se nas asas de graciosa e ágil borboleta e, então, enalteceu o feio corpo com que a Natureza lhe preparara o voo feliz.

O ferro rubro, colocado na bigorna, espantou-se e sofreu, inconformado; todavia, quando se viu desempenhando importantes funções nas máquinas do progresso, sorriu reconhecidamente para o fogo que o purificara e engrandecera.

A semente lançada à cova escura chorou, atormentada, e indagou por que motivo era confiada, assim, ao extremo abandono; entretanto, em se vendo transformada em arbusto, avançou para o Sol e fez-se árvore respeitada e generosa, abençoando a terra que a isolara no seu seio.

Não te canses de fazer o bem.

Quem hoje te não compreende a boa-vontade, amanhã te louvará o devotamento e o esforço.

Jamais te desesperes, e auxilia sempre.

A perseverança é a base da vitória.

Não olvides que ceifarás, mais tarde, em tua lavoura de amor e luz, mas só alcançarás a divina colheita se caminhares para diante, entre o suor e a confiança, sem nunca desfaleceres.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Gramática Amorosa

PISCADELAS, GESTOS SUTIS COM AS MÃOS E ATÉ TOSSES E ESCARRADAS ERAM USADOS COMO FORMA DE MOSTRAR INTERESSE PELO SEXO OPOSTO


Na Idade Moderna, erotismo designava "o que tivesse relação com o amor". Como essa definição se materializaria na prática? Há registros de estratégias de sedução que soariam pouco familiares e mesmo pueris aos olhos de hoje. É o caso do "namoro de bufarinheiro", descrito por Júlio Dantas, corrente em Portugal e talvez no Brasil, ao menos nas cidades. Consistia em passarem os homens a distribuir piscadelas e a fazerem gestos sutis com as mãos e bocas para as mulheres que se postavam à janela, em dias de procissão, como se fossem eles bufarinheiros a anunciar seus produtos. É também o caso do "namoro de escarrinho", costume luso-brasileiro dos séculos 17 e 18, no qual o enamorado punha-se embaixo da janela da moça e não dizia nada, limitando-se a fungar à maneira de gente resfriada. Caso a declaração fosse correspondida, seguia-se uma cadeia de tosses, assoar de narizes e cuspidelas. Escapa-nos, sobremaneira, o apelo sedutor que os tais "escarrinhos" poderiam ter naquele tempo, mas sabe-se que, até hoje, no interior do país, o namoro à janela das moças não desapareceu de todo.

Documentos remanescentes das visitas da Inquisição, preocupadas com as moralidades de nossos ancestrais, revelam, por exemplo, a existência de "palavras de requebros e amores" e a "beijos e abraços", sugerindo prelúdios eróticos e carícias entre amantes. Atos sexuais incluíam toques e afagos, implicando na erotização das mãos e da boca. "Chupar a língua", "enfiar a língua na boca", segundo os mesmos documentos, não era incomum. Os processos revelam que alguns sedutores iam direto ao ponto: "pegar nos peitos" e "apalpar as partes pudentes" era queixa constante de mulheres seduzidas.

Processos de sodomia masculina revelam, por exemplo, amantes que "andavam ombro a ombro", abraçavam-se, trocavam presentes e penteavam-se os cabelos mutuamente à vista de vizinhos, desafiando a Inquisição, sua grande inimiga. Arroubos não foram incomuns; beijos roubados e furtivas bolinações eram práticas usuais regadas a propostas lascivas e palavras amatórias. Alguns toques podiam ser tímidos, escondendo confessados desejos. Rostos e mãos levemente roçados por dedos ávidos ou mãos apertando outras. Fazer cócegas na palma da mão e pôr a mão sobre o coração para dizer o querer bem era parte da gramática amorosa. Em algumas ocasiões, eram os pés que agiam ligeiros a alisarem outros pés. Alguns afagos eram apenas esboçados, anunciando a vontade de outros mais ousados, enquanto se elogiava a formosura da mulher.

Enquanto literatos como Gregório de Matos davam vazão aos sentimentos eróticos, a catequese se impunha a toda a sociedade colonial. A agenda era uma só: civilizar, educando nos princípios cristãos. No casamento todo o cuidado era pouco. Normas regiam as práticas dos casados. Até para ter relações sexuais, as pessoas não se despiam. As mulheres levantavam as saias ou as camisas e os homens abaixavam as calças e as ceroulas. Mesmo nos processos de sedução e defloramento que guardam nossos arquivos vê-se que os amantes não tiravam a roupa durante o ato. Um exemplo, em Parati, Rio de Janeiro, no início do século19: "E que ele testemunha presenciara e vira a ofendida e o réu estarem no mato juntos e unidos um por cima do outro a fazerem movimento com o corpo, e que ele testemunha vendo este ato, voltou sem dar a perceber a ninguém".

Nem uma palavra sobre despir-se. As práticas amorosas, contudo, eram rigidamente controladas. Toda atividade sexual extraconjugal e com outro fim que não a procriação era condenada. Manobras contraceptivas ou abortivas não eram admitidas. A noção de debitum conjugale, uma dívida ou dever que os esposos tinham que pagar, quando sexualmente requisitados, torna-se lei. Associava-se o prazer exclusivamente à ejaculação, e por isso era "permitido" aos maridos prolongarem o coito com carícias, recorrendo até a masturbação da parceira, a fim de que ela "emitisse a semente", justificando a finalidade do ato sexual.

Ao ser definido como uma conduta racional e regulada em oposição à paixão dos amantes, o comércio conjugal só era permitido em tempos e locais oportunos. Consideravam-se impróprios os dias de jejum e festas religiosas, o tempo da menstruação, a quarentena após o parto, os períodos de gravidez e amamentação. Sobre o papel da mulher durante o coito, fazia-se eco aos conselhos de Aristóteles; que nenhuma mulher desejasse o lugar de amante de seu marido. Isso queria dizer que a esposa não devia demonstrar nenhum conhecimento sobre sexo. Somente casta e pura ela seria desejada. Sua ingenuidade seria prova de sua honradez.


Texto de Mary Del Priore (Doutora em História Social com pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, vencedora do Prêmio Jabuti e autora, dentre outros livros de Histórias Íntimas - Sexualidade e Erotismo na História do Brasil). Retirado do Revista Aventuras na História, Editora Caras, São Paulo, Edição 139, Fevereiro de 2015.

09 outubro 2026

Émile Durkheim

 Émile Durkheim - A Contribuição de uma Ciência Positiva, Autônoma e Objetiva da Realidade Social


A Sociologia, que como ciência teve início no século XIX, por influência tanto do desenvolvimento das outras ciências quanto das transformações sociais da época, com Durkheim adquire o caráter de uma Ciência Positiva, Autônoma e Objetiva da Realidade Social


Este artigo oferece aos seus leitores uma breve síntese das principais contribuições de Émile Durkheim (1858-1917) ao desenvolvimento da Sociologia. Alguns aspectos, sempre oportunos, são destacados, dentre os quais situamos o método sociológico, os fatos sociais como objeto da Sociologia, a autonomia da Sociologia, a ciência da moral como ciência positiva, a imparcialidade e a objetividade da ciência. Uma reflexão, mesmo sumária, sobre a densa obra de Durkheim leva-nos facilmente a perceber a sua importância e as inúmeras contribuições que legou para o próprio desenvolvimento da Sociologia. 

Émile Durkheim, reconhecido pelo realismo sociológico e o rigor intelectual de sua obra, retomou a tentativa de A. Comte de fazer da Sociologia uma ciência positiva e autônoma. A sociedade estava tomada de forma muito genérica. Era necessário especificar-se qual era o objeto da Sociologia. E. Durkheim delimitando a sociedade ao "fato social" especificou o objeto da Sociologia. Com Durkheim a Sociologia impôs-se como uma ciência autônoma, distinguindo-as de outras ciências, como a Psicologia, por exemplo com um método e objeto definido, emancipando-as das demais teorias sobre a sociedade e constituindo-a como disciplina rigorosamente científica. Foi o primeiro a definir o "fato social" e o método aplicado ao estudo dos fenômenos sociais. As Regras do Método Sociológico, publicada em 1895, constitui ainda hoje obra fundamental. Durkheim foi professor de Ciência Social e Pedagogia na Faculdade de Letras da Universidade de Bordeaux (1887), onde criou o curso de Ciências Sociais. De 1902 até a sua morte, dedicou-se à docência, na Universidade Sorbonne, Paris, como professor de Sociologia e Pedagogia da Faculdade de Letras, contribuindo de forma decisiva para a consolidação da Sociologia, como disciplina universitária. É considerado um dos fundadores da moderna Sociologia, sendo o primeiro a ocupar uma cadeira dessa ciência em uma instituição de ensino superior na França (na Bordeaux de 1896). Além de produzir grandes obras, dentre as quais se incluem A Divisão do Trabalho Social (1893), As Regras do Método Sociológico (1895), O Suicídio (1897), As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912), fundou em 1898 a revista sociológica francesa L'Année Sociologique, uma das mais antigas revistas científicas das Ciências Sociais, constituída na sua maior parte por colaboradores, discípulos e continuadores de sua obra.

Muitos sociólogos ainda divergem (até hoje) a respeito de Durkheim, um autor clássico do pensamento sociológico, cuja matriz sociológica, segundo críticos, deixa poucas dúvidas a respeito de uma perspectiva conservadora, distante de emancipação social. As divergências entre seus críticos são, fundamentalmente, de ordem doutrinária ou metodológica.


RAIZ DO PROBLEMA

Os pensadores do século XVIII, como Durkheim, começam a perceber que a raiz dos problemas não estava no indivíduo e sim na sociedade. A perspectiva objetivista durkheimiana enfatiza a autonomia da Sociologia e procura alcançar o particular dos fenômenos objeto de estudo. Assim, a Sociologia, ciência social com objeto e métodos próprios, surge para tratar cientificamente os problemas sociais, constituindo-se na grande novidade do século XIX. Historicamente podemos dizer que a Sociologia enquanto ciência foi concebida pelo criador do Positivismo francês, Augusto Comte (1798-1857), que primeiro denominou essa ciência de Física Social e, mais tarde, de Sociologia.

Inicialmente, a Sociologia foi enciclopédica, ou seja, estudava todos os aspectos da vida social e de sua história, conhecimentos em termos globais. Depois, numa outra posição, sofre influências Filosofia da História, procurando estudar as bases evolutivas da sociedade fundamentada na Biologia da Evolução, e finalmente outra fase, em que se apresenta como uma Ciência Positiva. Mas é com Durkheim, no século XIX, que a Sociologia impôs-se como uma ciência autônoma, independente, com um método e objetos definidos.

Durkheim dedicou-se ao estudo dos fenômenos sociais, criando-lhes um método científico de análise social, lançando as bases da moderna Sociologia. Delimitou a sociedade ao "fato social". E o fato social é o objeto da Sociologia em Durkheim. Émile Durkheim retomou a tentativa de Augusto Comte de fazer da Sociologia uma ciência positiva e autônoma. Para isso, preconiza o "método objetivo" na interpretação da natureza dos fatos sociais. A respeito do método, Theobaldo Miranda Santos sublinhou que no estudo e investigação dos fatos sociais é necessário "(...) desfazer-se de todo preconceito; tratar os fatos sociais como coisas, isto é, observá-los de fora e excluir, a respeito dos mesmos, todas as interpretações subjetivas; defini-los, por seus caracteres ou sinais exteriores: ritos, ações, costumes, instituições, etc; procurar uma explicação puramente sociológica, de modo que os fatos sociais se esclareçam por outros fatos sociais. Segundo Durkheim, esse método põe em evidência o fato de uma 'realidade social', independente, exterior e superior aos indivíduos" (Santos, 1968, p. 29).


FASES

 É importante lembrar que a Sociologia passou por diversas fases na sua evolução, depois de um período denominado pré-sociológico, marcado pelas obras de Spencer, Augusto Comte, até chegar a Durkheim. Com Durkheim a Sociologia adquire o caráter de uma ciência autônoma, positiva e objetiva da realidade social. Autônoma no sentido de que tem um método próprio de análise da realidade social, bem como um objeto. Não se confunde, pois, com a Filosofia Social, com a Política, com a Ética ou com o Direito. Não se confunde com as Ciências Normativas. Positiva, porque indica como é a realidade social. Limita-se a observar e a classificar os fatos objetivamente. Sua finalidade é a compreensão e o conhecimento científico deles. E o conhecimento para Durkheim é o conhecimento empírico mesmo, ou seja, é verdadeiro, neutro, objetivo. O conhecimento significa explicar e estabelecer relações causais. E finalmente objetiva no sentido de que pode ser abordada tanto em relação ao seu objeto como em relação ao cientista. E também em relação ao próprio conhecimento. Assim a prova do conhecimento é a sua objetividade externa, ou seja, sua correspondência com os dados do mundo real.

E lembremo-nos, ainda, que Durkheim contribuiu para o desenvolvimento da Sociologia ao apresentar uma teoria de integração social num modelo coerente da sociedade moderna. Apresenta uma Sociologia de coesão, para responder a um projeto de transformação e ação social. O consensus é o dominante em Durkheim. Não explora a opressão das classes e da realidade política dos valores sociais.

É importante notar que Durkheim ressalta a moral, e, ainda, que a divisão do trabalho desenvolve a solidariedade entre os indivíduos bem como a consciência coletiva. E a consciência coletiva são as maneiras comuns de pensar e agir criadas pelos indivíduos. As maneiras comuns de pensar e agir dos indivíduos se concretizam através de representações coletivas, tais como religião, poder, estética, propriedades etc.

Em certo sentido, tinha uma visão otimista da sociedade industrial, através da solidariedade que organizaria e daria impulso à dinâmica da sociedade. De modo que, em se pensar conflitos sociais, estes para Durkheim seriam produtos de uma desorganização da sociedade moderna, e a forma de resolução seria através da Ciência, do pensamento científico. A Ciência que é produto da atividade do homem, das relações do homens, porque possui uma moral, surge assim para explicar e tratar desses problemas sociais, que seriam frutos da desorganização social é a motivação para Durkheim pensar a Ciência que deveria dar respostas para essa sociedade, observando, experimentando e comparando, e finalmente formulando leis gerais, através do objeto da Sociologia, que é a sociedade, delimitada em Durkheim ao "fato social".

A integração social é o princípio de articulação da funcionalidade da sociedade. E o papel de articulação para a organicidade e funcionalidade cabe ao Estado desempenhar. A esse respeito, diz Durkheim em sua obra Lições de Sociologia: a Moral, o Direito e o Estado. "(...) O Estado é, para falar com rigor, o órgão mesmo do pensamento social. Nas condições presentes, esse pensamento está voltado para um fim prático e, não, especulado. O Estado, ao menos em geral, não pensa por pensar, para construir doutrina e, sim, para dirigir a consciência coletiva" (Durkheim, p. 47).

Da forma descrita por Durkheim, o Estado é o órgão que fala o pensamento social e encarna a consciência social. É a autoridade superior aos indivíduos. A sociedade ultrapassa o indivíduo e só ela está em condições de impor maneiras de agir e pensar. A sociedade não é a simples soma dos indivíduos. A sociedade impõe nossa maneira de ser. Nós não escolhemos os nossos modos de ser, eles são impostos e expressos. Para Émile Durkheim, a atuação de um sistema de coerções constitui fato determinante no agir individual.

O mundo não é obra do acaso. Também focaliza Durkheim o aspecto religioso. E o religioso é um fato social. A religião para Durkheim é um elemento integrador. O indivíduo internaliza os padrões sociais de agir, pensar e sentir. É fator de conformismo no espírito dos crentes. A religião é fundamental em Durkheim no sentido que se presta à manutenção da ordem social e a coerção. Assim, na perspectiva funcionalista durkheiminiana a religião desempenha um papel importante e até profilático. A vida social existe e fundamentalmente integrada através da religião, que garante a vida social, e que por sua vez transcende ao indivíduo. É o religioso e não o econômico em Durkheim. O homem para Durkheim interioriza todos os valores de uma ordem social através da consciência coletiva. O distúrbio é punido pela coerção, e o patológico é o que ultrapassa os limites.

Émile Durkheim, na sua obra A Divisão do Trabalho Social, volume I, chega à conclusão seguinte: "O conjunto de crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma sociedade forma um sistema determinado que tem a sua vida própria; pode-se designá-lo por a consciência coletiva ou comum" (Durkheim, p.98).

Em As Regras do Método Sociológico, publicado em 1895, seu principal trabalho de ordem metodológica, Durkheim define "fato social". Os fatos sociais se apresentam isolados de suas manifestações individuais. Os fatos sociais são exteriores ao indivíduo, mas os indivíduos os interiorizam. Fato social são todas as coisas produzidas pela sociedade e que interessam e afetam de algum modo o grupo social. Tudo o que se relaciona com a sociedade é fato social.

Durkheim construiu o próprio objeto de análise da sociedade, para pensar sobre o que é a sociedade, delimitando o universo da sociedade ao fato social. E as características principais do fato social são externalidade, coerção social e generalidade. Isso porque existem fora das consciências individuais, mas todos os indivíduos recebem e interiorizam, e porque atuam sobre os indivíduos, modificando o seu modo de ser, induzindo os indivíduos à aceitação das regras, tendo assim sobre eles um poder de coerção, e ainda generalidade, em função de os fatos sociais se repetirem pela imposição, em todos os indivíduos, ou pelo menos na maioria dos membros da sociedade.

Durkheim contribuiu para o desenvolvimento da Sociologia ao formular toda uma teoria científica que difere das teorias negadoras da sociedade, que postulam o conflito como um produto da história, e a eliminação deste no curso do desenvolvimento da própria história. Durkheim postula outra visão e perspectiva teórica de sociedade. Busca a funcionalidade e a integração da sociedade com uma teoria de integração social. As sociedades apenas se mantém coesas quando de alguma forma compartilham sentimentos e crenças comuns. Tudo é social e do social. E assim, das considerações feitas, podemos concluir que não menos importante de tornar mais rigoroso o método científico em Sociologia, uma busca permanente com a funcionalidade, a ordem, o social, a solidariedade, enfim, da sociedade.


* Fato Social - Na  obra As Regras do Método Sociológico, Durkheim assim define "fato social": "É fato social toda maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, ou então, ainda,  que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter" (Durkheim, p. 11).


Texto de Sérgio Sanandaj Mattos (Sociólogo, professor e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo - Asesp. É coautor do livro Sociólogos & Sociologia, Histórias das suas entidades no Brasil e no mundo); retirado do Revista Sociologia, Editora Escala, São Paulo, Ano IV, Número 58, Maio/Junho de 2015.

03 outubro 2026

Reiki: energia de cura através das mãos

Para quem não conhece, é quase impossível imaginar o quanto o Reiki é vital para resgatarmos a essência do nosso corpo. Essa técnica de imposição das mãos tem sido muito praticada por todo mundo.

A combinação entre "Rei", que significa energia vital universal e "ki", que significa energia da força vital, resulta em uma força mais do que poderosa denominada Ch'i, Chuie, Ki ou simplesmente Luz.

Mas antes que você embarque no histórico milenar dessa técnica de cura através das mãos, é preciso que você tenha em mente que o Reiki não é uma religião ou uma prática religiosa; ele dispensa rituais e formalidades, ou seja, você pode incluir a prática e se beneficiar dela enquanto assiste o seu programa favorito de TV, está no trânsito ou até mesmo, enquanto fala ao telefone.

Por ser totalmente positivo, o Reiki não causa mal algum. O tratamento com Reiki pode ser usado em qualquer pessoa, independente de sua idade. Tanto pessoas idosas como bebês reagem bem ao tratamento. Se alguém estiver doente, com dor ou sofrendo emocionalmente, o Reiki ajudará. Da mesma maneira, para a pessoa ou animal saudável, o Reiki tranquiliza e rejuvenesce.

Segundo o reikiano Alexandre Caprarolo Torres, o Reiki é um método valioso de autocura e autodesenvolvimento. Ele pode ser aplicado em amigos e familiares, animais, plantas e refeições e, até mesmo, à distância para pessoas que estão ausentes. "O Reiki é um método seguro, gentil e que sempre gera um clima positivo e promissor. Reiki é energia de vida, paz, saúde e harmonia", acrescenta Torres.

Ele é usado como método de cura, mas a sua principal função é a harmonia. Hoje em dia, a medicina tradicional tem adotado o Reiki paralelamente, mas ainda há muita objeção com relação a este fato. na realidade, a impossibilidade de explicar o que é o Reiki é um dos fatos que dificultam a sua difusão. O tratamento com Reiki é benéfico e complementar a todos os outros tipos de tratamentos médicos convencionais, psicológicos ou alternativos promovendo o mais alto bem para quem o recebe.

A autora Brigitte Ziegler, fala em seu livro Reiki, a energia vital, "o segredo do Reiki está, a meu ver, na sua integralidade. Quando, nas palestras, as pessoas me pedem para explicar Reiki, quase sempre fico constrangida. Na verdade, não há como explicá-lo; pode-se apenas vivenciar e experimentar as infinitas possibilidades dessa energia".


ENERGIA VITAL

Assim como a Cromoterapia que utiliza as cores para a cura e a Aromaterapia, que utiliza aromas, o Reiki utiliza a energia universal. Qualquer pessoa pode receber essa energia, porém, caso você não tenha iniciação em Reiki, é preciso que alguém a transmita para você. O reikiano, ou seja, a pessoa que aplica o Reiki é, na realidade, um canal para que essa energia flua.

O Ch'i, a energia que flui livremente pelo corpo e que direciona o estado físico e emocional das pessoas, tem recebido várias denominações de acordo com os povos. Em seu livro In Search of the Hearling Energy, Mary Coddington, examina essa distribuição. "Os Hunas da Polinésia chamam essa energia que cura de Mana, já os índios americanos Iroquenses a chamam de Orenda. Na Índia, a energia recebe o nome de Prana; em hebraico, sua denominação é Ruach; nos países islâmicos Barraka; no Japão, Ki e na China, essa energia recebe o nome de Ch'i. Mantak Chia, um instrutor de Ch'i Kung, que é uma arte de cura asiática antiga, define o Ch'i como energia, ar, respiração, vento, sopro vital, essência vital... Energia ativadora do universo".

O agente de cura, chamado cura direta, deve colocar as mãos diretamente sobre outra pessoa. Ao mesmo tempo em que transmite ao outro, o praticante é abastecido e favorecido em suas necessidades pela energia Reiki. Durante as práticas e tratamentos, o praticante não perde sua energia pessoal, porque, na realidade, ele é apenas um canal de transmissão da energia vital.

Uma vez feita a iniciação em Reiki, o iniciante torna-se um canal para a energia de cura universal. A saúde física de quem foi submetido à iniciação frequentemente melhora. Mas a adaptação leva entre três e quatro semanas. Durante esse tempo, a energia Reiki pode ser ativada em momentos inesperados sem que esteja ocorrendo a cura intencional. Isso pode ser observado por algumas indisposições como ter sonhos vividos, inclusive sonhos sobre vidas passadas e até mesmo sintomas de desintoxicação, entre eles, coriza, diurese, entre outros.

Vale lembrar que para se obter a cura de algum órgão, não é preciso tocá-lo e nem direcionar a energia, somente é preciso transmiti-la, pois ela se encarrega de chegar ao órgão em disfunção. O Reiki alivia a dor, acelera o processo de cura, estanca as hemorragias, tranquiliza o paciente, equilibra os Chakras e energiza a Aura. Durante uma sessão de Reiki, a respiração fica mais lenta e a pressão sanguínea abaixa, da mesma maneira que as emoções. Qualquer outra coisa que aconteça, depende da Fonte de Energia, não é previsível.


OS NÍVEIS

Segundo a mestra Rosa Maria Vernizzi, o Reiki pode ser dividido em quatro níveis distintos. Todos os níveis são ativados com iniciações, também chamadas ativações dos chakras. "O aluno que recebe o primeiro nível de Reiki pode parar ou continuar e se aprofundar nos estudos de acordo com a sua convivência", acrescenta ela.

NÍVEL 1 OU FÍSICO - O DESPERTAR

As pessoas sintonizadas estão capacitadas a canalizar a energia vital cósmica através das mãos, não sendo necessário direcionar a mente ou acreditar.

NÍVEL 2 OU MENTAL - A TRANSFORMAÇÃO

Neste nível o iniciado trabalhará problemas mentais e emocionais. O nível 2 não é um aperfeiçoamento do 1, já que os módulos são distintos. Nesse nível, ao iniciante será ensinado três palavras (mantras) e três símbolos (yantras).

NÍVEL 3 OU CONSCIÊNCIA - A REALIZAÇÃO

Neste nível também são ensinados um mantra e um yantra. O nível 3 promove mudanças em nossa consciência de maneira sutil, quase imperceptível.

NÍVEL 4 OU MESTRADO

Também chamado Shimpi-Den, este é o maior nível do Reiki, em que se encontram os Mestres.


Texto de Thais Lauton retirado da Revista Vida Em Equilíbrio, Casa Dois Editora, São Paulo, Edição 03, Outubro 2001.

Viver em Paz (123)

 "Vivei em paz..." - Paulo. (II CORÍNTIOS, 13:11)


Mantém-te em paz.

É provável que os outros te guerreiem gratuitamente, hostilizando-te a maneira de viver; entretanto, podes avançar em teu roteiro, sem guerrear a ninguém.

Para isso, contudo - para que a tranquilidade te banhe o pensamento -, é necessário que a compaixão e a bondade te sigam todos os passos.

Assume contigo mesmo o comportamento de evitar a exasperação.

Junto da serenidade, poderás analisar cada acontecimento e cada pessoa no lugar e na posição que lhes dizem respeito.

Repara, carinhosamente, os que te procuram no caminho...

Todos os que surgem, aflitos ou desesperados, coléricos ou desabridos, trazem chagas ou ilusões. Prisioneiros da vaidade ou da ignorância, não souberam tolerar a luz da verdade e clamam irritadiços... Unge-te de piedade e penetra-lhes os recessos do ser, e identificarás em todos eles crianças espirituais que se sentem ultrajados ou contundidas.

Uns acusam, outros choram.

Ajuda-os, enquanto podes.

Pacificando-lhes a alma, harmonizarás, ainda mais, a tua vida.

Aprendamos a compreender cada mente em seu problema.

Recorda-te de que a Natureza, sempre divina em seus fundamentos, respeita a lei do equilíbrio e conserva-a sem cessar.

Ainda mesmo quando os homens se mostram desvairados, nos conflitos abertos, a Terra é sempre firme e o Sol fulgura sempre.

Viver de qualquer modo é de todos, mas viver em paz consigo mesmo é serviço de poucos.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.