Eu não penso mais nisso agora, mas nós sabemos como foi. Sabemos de tudo. As pessoas que estavam lá naquele tempo sabem o mesmo que eu e você.
19 julho 2026
Às Sete em Ponto
As mãos espalmadas, os dedos finos, jogaram os cabelos negros e lisos para trás:
- Preciso telefonar para casa, falar com minha mãe.
Foi a primeira coisa que ela disse. Depois, perguntou:
- Como foi o seu dia? Acho que o frio está chegando. Peça um licor e um chá para mim, está bem? E alguma coisa para comer. Estou com fome, não pude almoçar. Você almoçou? Preciso telefonar. Você pede para mim?
Eu não gostava café. Gostava da praça, a primeira que conheci na cidade, e que se chamava San Juan de la Cruz. Havia dois cafés na praça. Um, ao lado do hotel onde eu morava; outro, no extremo oposto da praça. Estávamos no café longe do hotel: mesas de fórmica, cadeiras forradas de plástico vermelho. Estávamos em uma mesa ao ar livre, era um fim de tarde de outubro, fazia frio. Eram sete da noite quando ela chegou. Tínhamos dito: às seis e meia, no café
Miráculo-Verídico
Onde começa a verdade?
E a mentira, onde acaba?
Abracadabra!
Fadas e bruxas são personagens de contos infantis? Nem sempre, isso eu garanto. Porque estou lendo um livro cheio de mistérios, encantamentos, coisas do tempo do rei Arthur, aquele da távola redonda, pois é. E foi por causa do livro que, assim, nesta tarde de chuva petropolitana, peguei no telefone e liguei pra minha amiga Yeda. A gente ficou num tititi, numa conversa sem fim, nem começo... e de repente, peguntei pra ela se ela sabia de uma erva encantada que fizesse as pessoas dizerem a verdade verdadeira. Yeda, que tem um jeito peculiar de soltar cintilações pelos olhos, olhou assim para a minha voz, através do telefone, e eu tive a visão. Naquele momento, entendi que Yeda era uma fada, casada com um duende chamado João.
Aliás, foi por isso, naturalmente, que Yeda conseguiu me olhar através do telefone e chegou mesmo a me entregar, de súbito, pelo fio do telefone sem fio (credo!) um pequeno embrulhinho cor de açafrão, amarrado com um barbante violeta. O embrulho trazia um envelope e, dentro dele, uma espécie de bula, escrita em letras góticas, que dizia:
CHÁ MIRÁCULO-VERÍDICO
(manter longe do alcance de velhos)
Fórmula:
10 pingos de orvalho matinal
2 faíscas de sol
Extrato de alfablídeos
Aromatizante verdadeiro de artifícios frugais
Camomila vegetabilis
Precauções:
Nunca ingerir em festas familiares.
Atenção:
Este chá, cujos três últimos ingredientes não trazem a quantidade usada (por motivo de sigilo e para evitar possíveis falsificações), foi confeccionado por mãos duendes, muito habilidosas, numa pequenina casa situada nas montanhas. O farmacêutico responsável chama-se João da Yeda.
Indicações:
Para pessoas debilitadas pelo extenuante convívio social hipócrita das reuniões da classe média ascendente, onde é obrigatório o uso de uísque escocês, salgadinhos, conversas sobre o socialismo que todos mentem desejar etc.
Tomar três gotas antes da reunião, de preferência com o estômago cheio. Não misturar com bebida alcoólica.
Contraindicações:
- Pessoas hipertensas, alcoólatras, políticos em geral, gagos, mulheres na menopausa etc.
Este chá, por suas propriedades mágicas, dá um toque de originalidade a qualquer reunião melancólica, tornando-a altamente peculiar.
Naquele dia, eu estava convidada para um jantar que prometia ser dos mais aborrecidos. Resolvi, pois, com um certo receio, experimentar a poção. Confesso que estava com medo, pois não costumo me envolver assim, sem mais nem menos, nos perigos sedutores das magias. Por via das dúvidas, tomei um copo de leite morno antes, para ingerir o chá com o estômago cheio, conforme receitava a bula.
Quando acabei de tomar o líquido, que tinha um sabor de hortelã com baunilha, o telefone faiscou estrelas. Compreendi que eram os olhos de Yeda, que me viam telefonicamente, através dos poderes fadais e duendísticos.
Botei um vestido estampado, sapatos de verniz, chamei um táxi e fui para o jantar.
Logo ao apertar a mão da dona da casa, senti um choque elétrico e ela disse:
- Ai! Você está com eletricidade estática!
Percebi que as propriedades do chá passavam de mim para os outros, através do aperto de mão.
De repente, fui apresentada a um casal:
- Muito desprazer em conhecê-los!
- Igualmente! Já ouvi falar horrores da senhora! - me responderam.
Serviram o eterno uísque. Um convidado tomou o primeiro gole e exclamou:
- Mas que gosto de iodo! Você não tem vergonha de colocar uísque nacional em garrafa escocesa, Felisberta?
- E você pensa que vou gastar meu rico dinheirinho com um cafajeste como você? respondeu Felisberta, sorrindo amavelmente.
Serviram o jantar, e todos se atiraram em cima de duas galinhas assadas, que sumiram num instante. Sobrou somente a farofa. Uma senhora aproveitou a maionese da salada de batatas e passava no rosto da vizinha dizendo:
- Maionese é ótimo para suas profundas rugas, Marieta!
A copeira entrou, passando a língua sobre o pudim, sem a menor cerimônia, enquanto meu vizinho beliscava com força o braço do filhinho da anfitriã, um garotinho de cinco anos, dizendo:
- Mas que menino horrorosinho!
- Seu jantar estava péssimo! - elogiou uma senhora, dirigindo-se à dona da casa.
- Obrigada, mas o seu, na quarta-feira que passou, estava bem pior! - respondeu madame, acrescentando que era uma chateação ter que reunir toda aquela gente na sua casa, mas foi por insistência do idiota do marido.
- Ora, eu disse para você, querida, que era necessário convidar esta corja porque esta gente aí pode me ajudar a conseguir mais votos para a minha campanha eleitoral. Preciso ser reeleito, ainda não roubei o bastante para me aposentar, minha odiosa esposa!
Nisso, foi servido o café.
- Esta xícara está com cheiro de barata! - exclamei, sorridente.
O telefone tocou. Era para mim. Fui atender e ouvi uma risadinha.
- Quem fala? - perguntei.
- É o duende João. Acabou o encantamento, saúde!
E o telefone desligou-se, soltando uma estrela que virou coruja, e que piscava, piscava sumindo pela janela aberta.
- Foi tudo perfeito! - disse uma senhora, despedindo-se.
- Agradeço demais a sua amável presença, você está linda neste vestido! - retrucou a anfitriã.
- Mas o seu cafezinho tem um sabor maravilhoso! - menti.
Tinha terminado a magia, ninguém se lembrava das verdades acontecidas e faladas. Foi uma reunião encantadora...
P.S. - Acabei de ler, pelo telefone, este conto pra Yeda. Ela disse que gostou. Será que tomou o chá antes de responder... ou não?
Conto de Sylvia Orthof retirado do livro Papos de Anjo, Editora Record, Rio de Janeiro, 1987.
18 julho 2026
O Verdadeiro George Clooney
Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o que está em jogo é a autoestima da nossa espécie, os homens que não são George Clooney. Todas as nossas qualidades e todos os nossos atributos, físicos e intelectuais, desaparecem na comparação com o George Clooney. As mulheres não escondem sua adoração pelo George Clooney. O próprio George Clooney nada faz para diminuir a idolatria e nos dar uma chance. Fica cada vez mais adorável, cada vez mais George Clooney. E se aproxima da perfeição.
É bonito. É charmoso. É rico. É bom ator. Faz bons filmes. Está envolvido com as melhores causas. E que dentes! Não temos defesa contra esse massacre. Só nos resta a calúnia.
Os dentes são falsos. Ali onde eles veem pomos de face irresistíveis e um queixo decidido, há obviamente, botox. Ele tem pernas finas e desvio de septo. É solteiro, portanto, claro, gay. Tem casa num dos lagos italianos, o que já é suspeito, e dizem que anda pelos seus chãos de mármore depois do banho de espuma vestindo um longo caftã bordado e sendo borrifado com perfumes forais pelo seu amante filipino Tongo, enquanto seu amante italiano, Rocco, prepara a salada de rúcula completamente nu. George Clooney bate na mãe todas as quintas-feiras. É extremamente burro. Só leu um livro até hoje e não lembra se foi O Pequeno Príncipe ou O Grande Gatsby. Nos filmes em que faz personagens mais reflexivos, contratam um dublê para as cenas dele pensando. Foi ele que propôs a demolição da Torre Eiffel porque já era mais que evidente que não encontrariam petróleo no local. E sua sovinice é lendária. Levou nadadeiras quando visitou Veneza, para não gastar com táxi.
É notório, em Hollywood, o mau hálito do George Clooney. Quando ele fala em algum evento público, as primeiras três fileiras do auditório sempre ficam vazias. Atrizes obrigadas a trabalhar com ele têm direito a um adicional por insalubridade, em dobro se houver cenas de beijo. Outra coisa: a asa. Não adiantam as imersões em espuma na sua banheira em forma de cisne, nem os perfumes florais borrifados, o cheiro persiste. Sabem que George Clooney e suas axilas se aproximam a metros de distância, e muita gente aproveita o aviso para fugir.
Além de tudo, tem seborreia e é Republicano.
Passe adiante.
Crônica de Luís Fernando Veríssimo retirado do livro Em Algum Lugar do Paraíso, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2011.
Maria Bethânia
De jeans e camiseta, cabelo preso, aos gritos de "Pega, mata e come!", Bethânia já foi musa da esquerda, tempos do show Opinião. Graças ao acaso - se acaso existe, e não destino - que trouxe a menina Berré de Santo Amaro da Purificação, Bahia, para os palcos do centro do país, indicada pelo irmão Caetano Veloso. Peruca canecalon, coberta de colares e pulseiras, gestos largos, recitando Fernando Pessoa e Clarice Lispector - Bethânia foi musa. A voz muito grave, sussurrando versos sensuais, embalou os amores de casais pelos motéis, rivalizando na venda de discos com o rei Roberto Carlos. Prendeu, soltou os cabelos, calçou, tirou os sapatos, largou as gravadoras comerciais no auge do sucesso, trajetória inversa, tornou-se independente: conquistou o direito de gravar o que gosta, num repertório coerente e fiel à música brasileira.
Foram muitas Bethânias nesses mais de 20 anos. Ou era uma só? O escritor Júlio Cortázar, fã confesso (não fosse um iniciado em magia), afirmava que Bethânia e Caetano são uma única pessoa: yin/yang, homem/mulher, Oxóssi/Iansã. Foi muito in, ficou inteiramente out - até ultrapassar as divisões maniqueístas dos manipuladores da opinião pública para ocupar esse lugar muito especial aos mitos. Bethânia, deusa guerreira de espada em punho e voz rouca, inconfundível, procurando sempre versos que falem às emoções dos apaixonados. Gosta-se dela como se cai em estado de paixão: além de qualquer razão.
E bela. Bela de um jeito que não é comum ser bela, cantora como não é comum ser cantora - nesse desregramento de padrões estéticos, Bethânia funde a aspereza de onde começa o Nordeste com o requinte dos blues de uma Billie Holiday. Cantora diurna das terras crestadas pelo sol, mas também noturna, dos lençóis de cetim úmidos de suor e amor, transita numa carreira de impecável coerência com sua própria criatura: dividida em mel e espada. Padroeira dos apaixonados, também divididos entre o mel do perdão e a espada cortante da vingança. Dessa extensa legião, Maria Bethânia é a voz mais fiel.
Texto de Caio Fernando Abreu retirado do então LP duplo, coletânea Simplesmente O Melhor de Maria Bethânia, gravadora Philips Polygram/SBT, de 1988.
Possuímos o que damos (117)
"É mais bem-aventurado dar do que receber." - Paulo. (ATOS, 20:35.)
Quando alguém se refere à passagem evangélica que considera a ação de dar mais alta bem-aventurança que a ação de receber, quase todos os aprendizes da Boa Nova se recordam da palavra "dinheiro".
Sem dúvida, em nos reportando aos bens materiais, há sempre mais alegria em ajudar que em ser ajudado, contudo, é imperioso não esquecer os bens espirituais que, irradiamos de nós mesmos, aumentam o teor e a intensidade da alegria em torno de nossos passos.
Quem dá recolhe a felicidade de ver a multiplicação daquilo que deu.
Oferece a gentileza e encorajarás a plantação da fraternidade.
Estende a bênção do perdão e fortalecerás a justiça.
Administra a bondade e terás o crescimento da confiança.
Dá o teu bom exemplo e garantirás a nobreza do caráter.
Os recursos da Criação são distribuídos pelo Criador com as Criaturas, a fim de que em doação permanente se multipliquem ao infinito.
Serás ajudado pelo Céu, conforme estiveres ajudando na Terra.
Possuímos aquilo que damos.
Não te esqueças, pois, de que és mordomo da vida em que te encontras.
Cede ao próximo algo mais que o dinheiro de que possas dispor. Dá também teu interesse afetivo, tua saúde, tua alegria e teu tempo e, em verdade, entrarás na posse dos sublimes dons do amor, do equilíbrio, da felicidade e da paz, hoje e amanhã, neste mundo e na vida eterna.
Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.
29 junho 2026
Lívia
E todos os dias quando ela, de manhã cedo, ia, ainda morrinhenta da cama, preparar o café matinal da família, ia toda envolvida num nevoeiro de sonhos, sonhados durante um demorado dormir de oito horas a fio. Por vezes - lá na cozinha, só, vigiando pacientemente a água que fervia ao lhe chegarem às reminiscências deles em tumulto, juntas, borbulhava-lhe nos lábios uma interjetiva qualquer, eco desconexo do muito que lhe falavam por dentro.
De quando em quando, sofreando um gesto glorioso de satisfação, dizia - é ele - e isso de leve traduzia a grande carícia que lhe era dado gozar naquele instante, refazendo aquele sonho bom - tão bom e acariciador que bem lhe parecia um inebriamento de capitosos perfumes a se evolar do Mistério vagarosamente, suavemente... Depois, logo que o café se aprontava e, na sala de jantar, todos ao redor da mesa se punham a sorvê-lo, mastigando o pão de cada dia - ela, d'olhos parados, presos a uma linha do assoalho, levando compassadamente a xícara aos lábios, ficava a um canto a pensar, remoendo a cisma, procurando decifrar naqueles traços nebulosos - tão mal grudados pela memória - a figura via daquele com quem, em sonhos, se vira indo de braço dado ruas a fora.
Esforço a esforço, de evocação em evocação, aparecia-lhe aos poucos a sua figura, o seu ar; e após esse paciente trabalho de reconstrução, lhe vinha, anunciado por um sorriso reprimido que lhe encrespava radiosamente o semblante, o seu nome sílaba por sílaba... Go-do-fre-do. Então com volúpia, ela lhe pesava os recursos: ganhava cento e vinte, no emprego da Central, talvez, em breve, viesse a ter mais. Quarenta para casa e o resto para o vestuário e alimentos.
Era pouco - convinha - mas servia, pois, assim ficaria livre da tirania do cunhado, das impertinências do pai; teria sua casa, seus móveis e, certamente, o marido lhe dando algum dinheiro, ela - quem sabe! que tão bons sonhos tinha, arriscando no "bicho", aumentaria a renda do casal; e, quando assim fosse, havia de comprar um corte de fazenda boa, um chapéu, de jeito que, sempre, pelo Carnaval, iria melhorzinha à Rua do Ouvidor, assistir passarem as sociedades.
O café já se havia acabado; e ela ficara ainda distraída e sentada, quando soou de lá da sala de visitas a voz vigorosa do cunhado:
- Lívia! Traz o meu guarda-sol que ficou atrás da porta do quarto. Depressa!... Anda que faltam só oito minutos para o trem!
E como se demorasse um pouco, o Marques, redobrando de vigor no timbre, gritou:
- Oh! Cos diabos! Você ainda não achou! Safa! Que gente mole!
Humildemente, Lívia lá foi aos pulos, como uma corça domesticada, entregar o objeto pedido, para lhe ser arrancado bruscamente das mãos...
Envolvida ainda naquele sonho que lhe soubera tão bem a manhã, ela, através das frinchas da veneziana viu o cunhado atravessar a rua e se perder por entre o dédalo de casas.
Certificada disso, abriu a janela. O subúrbio todo despertava languidamente.
As montanhas, verde-negras, quase desnudas de vegetação, confusamente surgiam do seio da cerração tênue e esgarçada. As casas listravam de branco e ocre o pardacento geral, enquanto bocados de neblina, finos, adelgaçados, flutuavam sobre elas como sombras erradias.
As ruas descalças e enlameadas eram atravessadas por alguns transeuntes cabisbaixos, mal vestidos, andando céleres em busca do embarcadouro.
Corria, de resto, como sempre, morosamente o viver diário; e a Lívia, sacudida pelo silvo agudo de uma locomotiva, levantou de repente os olhos, até ali fitos na estação que emergia do ambiente pardo a clarear-se, para pregá-los numa nesga do céu que o sol abria, por entre a névoa, furiosamente, vitoriosamente.
A súbitas, sua alma voou, asas abertas, voo rasgado, para outras bandas, outras regiões. Voou para a cidade de luxo e elegância que, ao fim daquelas fitas de aço, refulgia e brilhava.
Representaram-se-lhe os teatros de luxo, os bailes do tom, a rua da moda onde triunfavam as belezas. Ao considerar isso, viu-se ali também, ela, sim! Ela, que não era feia, tendo o seu porte flexível e longo, envolvido de rendas, a desprender custosas essências e aqueles seus dedos de unhas de nácar, ornados de ouro e pérolas, escolhendo, na mais chique loja, casas, baptistes, voiles...
Numa galopada de sonhos, supôs maiores coisas e - lembrando-se do que lhe contara a madrinha (oh! como era rica!) - imaginou a Europa, aquelas terras soberbas, por onde a "Dindinha" passeava a sua velhice e o seu egoísmo.
Doidamente revolvia a alma e as cismas... Calculou-se lá também, na alameda de um soberbo jardim, de landau, com ricas vestes ao corpo unidas, ressaltando delas o esplendor de suas formas e o esguio patrício de seu corpo. Imaginou que, através de um caro chapéu de palhinha branca, se coasse a luz macia do sol da Europa, polvilhando-lhe a tez de ouro, em cujo fundo brilhassem muito os seus olhos vivos, negros e redondos.
- Oh! Que bom! Quem me dera! - quase exclamou por esse tempo.
De reviravolta, Lívia adivinhou outra coisa no sonho. Não pensara bem; era outro que não o Godofredo, o rapaz que imaginara.
Aquele nariz grosso, aquela testa alta, o bigode ralo, não eram dele; eram antes do Siqueira, estudante de Farmácia, filho do agente. Esse poderia lhe dar aquilo: a Europa, o luxo, pois que formado ganharia muito.
Dessa forma - resolvera - "amarraria a lata" no Godofredo e "pegaria com o Siqueira. E era muito melhor! O Siqueira, afinal, ia formar-se, seria um marido formado, ao braço do qual, se não fosse à Europa, viria a gozar de maior consideração...
Demais a Europa era desnecessária - para quê? Era quere muito. Quem muito quer nada tem; e ela para ter alguma coisa devia querer pouco. Bastava pois que lhe tirassem dali, fosse esse, fosse aquele; mas... Se em todo o caso pudesse ser um mais assim... Seria muito melhor.
E desde quando vinha ela querendo aquilo? Havia muitos anos; havia dez talvez. Desde os doze que namorava, que "grelava" só para aquele fim; entretanto, apesar de haver tido mais de quinze namorados, ainda ali estava, ainda ali ficava, sob o mando do cunhado.
Quinze namorados!
Quinze! De que lhe serviram?
Um levava-lhe beijos, outros abraços, outro uma e outra coisa; e sempre, esperando casar-se, isto é, libertar-se, ela ia languidamente, passivamente deixando. Passavam um, dois meses, e os namorados iam-se sem causa. Era feio, diziam; mas que fazer? Como casar-se? Por consequência, como viver? A sua própria mãe não lhe aconselhava? Não lhe dizia: "Filha, anda com isso; preciso ver esta letra vencida"?
De resto o amor lhe desculparia, pois não é o amor o máximo tirano? Não é a própria essência da vida, das coisas mudas, dos seres, enfim?
Porventura ela os amara? Teria ela amado aquela legião de namorados? Amara um, sequer? Não sabia...
- O que é amar? interrogava fremente.
Não é escrever cartas doces? Não é corresponder a olhares? Não é dar aos namorados as ameaças da sua carne e da sua volúpia?
- Se era isso, ela amara a todos, um a um; se não era, a nenhum amara...
E o que era amar? Que era então?
Ao lhe chegar esse interrogação metafísica, para o seu entendimento, ela se perdeu no próprio pensamento; as ideias se baralharam, turbaram-se: e, depois, fatigada, foi passando vagarosamente a mão esquerda pela testa, correu-a pacientemente pela cabeça toda até a nuca.
Por fim, como se fosse um suspiro, concluiu:
- Qual amor! Qual nada! A questão é casar e para casar, namorar aqui, ali, embora por um se seja furtada em beijos, por outro em abraços, por outro...
- Ó Lívia! Você hoje não pretende varrer a casa, rapariga? Que fazes há tanto tempo na janela?!
Obedecendo ao chamado de sua mãe, Lívia foi mais uma vez retomar a dura tarefa, da qual, ao seu julgar, só um casamento havia de livrá-la para sempre, eternamente...
Conto de Lima Barreto retirado do livro Os Grandes Contos de Lima Barreto, Distribuidora de Livros Planeta Ltda., Goiânia, 2001.
27 junho 2026
O Edifício
Mais de cem anos foram necessários para se terminar as fundações do edifício que, segundo o manifesto de incorporação, teria ilimitado número de andares. As especificações técnicas, cálculos e plantas, eram perfeitas, não obstante o ceticismo com que o catedrático da Faculdade de Engenharia encarava o assunto. Obrigado a se manifestar sobre a matéria, por alunos insatisfeitos com o tom reticencioso do mestre, resvalava para a malícia afirmando tratar-se de "vagas experiências de outra escola de concretagem".
Batida a última estaca e concluídos os alicerces, o Conselho Superior da Fundação, a que incumbia a direção geral do empreendimento, dispensou os técnicos e operários, para, em seguida, recrutar nova equipe de profissionais e artífices.
1. A LENDA
Ao engenheiro responsável, recém-contratado, nada falaram das finalidades do prédio. Finalidades, aliás, que pouco interessavam a João Gaspar, orgulhoso como se encontrava de, no início da carreira, dirigir a construção do maior arranha-céu de que se tinha notícia.
Ouviu atentamente as instruções dos conselheiros, cujas barbas brancas, terminadas em ponta, lhes emprestavam aspectos de severa pertinácia.
Davam-lhe ampla liberdade, condicionando-a apenas a duas ou três normas, que deveriam ser corretamente observadas. A sua missão não seria somente exercer funções de natureza técnica. Envolvia toda a complexidade de um organismo singular. Os menores detalhes do funcionamento da empresa construtora estariam a seu cargo, cabendo-lhe proporcionar salários compensadores e constante assistência ao operariado. Competia-lhe, ainda, evitar quaisquer motivos de desarmonia entre os empregados. Essa diretriz, conforme lhe acentuaram, destinava-se a cumprir importante determinação dos falecidos idealizadores do projeto e anular a lenda corrente de que sobreviveria irremovível confusão no meio dos obreiros ao se atingir o octingentésimo andar do edifício e, consequentemente, o malogro definitivo do empreendimento.
No decorrer das minuciosas explicações dos dirigentes da Fundação, o jovem engenheiro conservou-se tranquilo, demonstrando absoluta confiança em si, e nenhum receio quanto ao êxito das obras. Houve, todavia, uma hora em que se perturbou ligeiramente, gaguejando uma frase ambígua. Já terminara a entrevista e ele recolhia os papéis espalhados pela mesa, quando um dos velhos o advertiu:
- Nesta construção não há lugar para os pretensiosos. Não pense em terminá-la, João Gaspar. Você morrerá bem antes disso. Nós que aqui estamos construímos o terceiro Conselho da entidade e, como os anteriores, jamais alimentamos a vaidade de sermos o último.
2. A ADVERTÊNCIA
A mesma orientação que recebera dos seus superiores, o engenheiro a transmitiu aos subordinados imediatos. Nem sequer omitiu a advertência que o encabulara. E vendo que suas palavras tinham impressionado bem mais a seus ouvintes do que a ele as do ancião, sentiu-se plenamente satisfeito.
3. A COMISSÃO
João Gaspar era meticuloso e detestava improvisações. Antes de encher-se a primeira forma de concreto, instituiu uma comissão de controle para fiscalizar o pessoal, organizar tabelas de salários e elaborar um boletim destinado a registrar as ocorrências do dia.
Essa medida valeu maior rendimento de trabalho e evitou, por diversas vezes, dissensões entre os assalariados.
A fim de estimular a camaradagem entre os que lidavam na construção, desenvolviam-se aos domingos alegres programas sociais. Devido a esse e outros fatores, tudo corria tranquilamente, encaminhando-se a obra para as etapas previstas.
De cinquenta em cinquenta andares, João Gaspar oferecia uma festa aos empregados. Fazia um discurso. Envelhecia.
4. O BAILE
Inquietante expectativa marcou a aproximação do 800º pavimento. Redobraram-se os cuidados, triplicou-se o número de membros da Comissão de Controle, cuja atividade se tornara incessante, superando dificuldades, aplainando divergências. Deliberadamente, adiou-se o baile que se realizava ao termo de cada cinquenta pisos concluídos.
Afinal, dissiparam-se as preocupações. Haviam chegado sem embaraços ao octingentésimo andar. O acontecimento foi comemorado com uma festa maior que as precedentes.
Pela madrugada, porém, o álcool ingerido em demasia e um incidente de pequena importância provocaram um conflito de incrível violência. Homens e mulheres, indiscriminadamente, se atracaram com ferocidade, transformando o salão num amontoado de destroços. Enquanto cadeiras e garrafas cortavam o ar, o engenheiro, aflito, lutava para acalmar os ânimos. Não conseguiu. Um objeto pesado atingiu-o na cabeça, pondo fim a seus esforços conciliatórios. Quando voltou a si, o corpo ensanguentado e dolorido pelas pancadas e pontapés que recebera após a queda, sentiu-se vítima de terrível cilada. De modo inesperado, cumprira-se a antiga predição.
5. O EQUÍVOCO
Depois do incidente, João Gaspar trancou-se em casa, recusando-se a receber os seus mais íntimos colaboradores, para não ouvir deles palavras de consolo.
Já que se fazia impossível continuar as obras, desejava, ao menos, descobrir o erro em que incorrera. Acreditava ter obedecido fielmente às instruções do Conselho. Se fracassara, a culpa deveria ser atribuída à omissão de algum detalhe desconhecido da profecia.
A insistência dos auxiliares venceu sua teimosia e concordou em atendê-los. Queriam saber por que desanimara, não mais comparecera ao edifício. Ficara ressentido pela briga?
- Que adiantaria a minha presença? Não lhes satisfez a minha humilhação?
- Como? - indagaram. - Aquilo fora uma simples bebedeira. - Estavam todos envergonhados com o que acontecera e lhe pediam desculpas.
- E ninguém abandonou o trabalho?
Ante a resposta negativa, ele se abraçou aos companheiros:
- Daqui pra frente nenhum obstáculo interromperá nossos planos! (Os olhos permaneciam umedecidos, mas os lábios ostentavam um sorriso de altivez.)
6. O RELATÓRIO
Em ambiente calmo, todos se empenhando nas suas tarefas, mais noventa e seis andares foram acrescidos ao prédio. As coisas seguiam perfeitas, a média de trabalho dos assalariados era excelente.
Empolgado por um delirante contentamento, o engenheiro distribuía gratificações, desfazia-se em gentilezas com o pessoal, vagava pelas escadas, debruçava-se nas janelas, dava pulos, enrolava nas mãos as barbas embranquecidas.
Para prolongar o sabor do triunfo, que o cansaço começava solapar, ocorreu-lhe redigir um circunstanciado relatório aos diretores da Fundação, contando os pormenores da vitória. Demonstraria também a impossibilidade de surgir, no futuro, outras profecias que pudessem embaraçar o prosseguimento das obras. Ultimado o memorial, ele se dirigiu à sede do Conselho, lugar onde estivera poucas vezes e em época bem remota. Em vez dos cumprimentos que julgava merecer, uma surpresa o aguardava: haviam morrido os últimos conselheiros e, de acordo com as normas estabelecidas após a desmoralização da lenda, não se preencheram as vagas abertas.
Ainda duvidando do que ouvira, o engenheiro indagou ao arquivista - único auxiliar remanescente do enorme corpo de funcionários da entidade - se lhe tinham deixado recomendações especiais para a continuação do prédio.
De nada sabia, nem mesmo por que estava ali, sem patrões e serviços a executar.
Ansiosos por descobrir documentos que os orientassem, atiraram-se à faina de revolver armários e arquivos. Nada conseguiram. Só encontraram especificações técnicas e uma frase que, amiúde, aparecia à margem de livros, relatórios e plantas: "É preciso evitar-se a confusão. Ela virá ao cabo do octingentésimo pavimento".
7. A DÚVIDA
Esvaíra-se a euforia de João Gaspar. Vago e melancólico, retornou ao edifício. Da última laje, as mãos apoiadas na cintura, teve um momento de mesquinha grandeza, julgando-se senhor absoluto do monumento que estava a seus pés. Quem mais poderia ser, desde que o Conselho se extinguira?!
Fugaz foi o seu desmedido orgulho. Ao regressar a casa, onde sempre faltara a diligência de uns dedos femininos, as dúvidas o perseguiam. Por que legavam a um mero profissional tamanho encargo? Quais os objetivos dos que tinham idealizado tão absurdo arranha-céu?
As perguntas iam e vinham, enquanto o edifício se elevava e menores se faziam as probabilidades de se tornar claro o que nascera misterioso.
Sorrateiro, o desânimo substituiu nele o primitivo entusiasmo pela obra. Queixava-se aos amigos do tédio que lhe provocava o infindável movimento de argamassa, pedra britada, fôrmas de madeira, além da angústia que sentia, vendo o monótono subir e descer de elevadores.
Quando a ansiedade ameaçou levá-lo ao colapso, convocou os trabalhadores para uma reunião. Explicou-lhes, com enfática riqueza de detalhes, que a dissolução do Conselho obrigava-o a paralisar a construção do edifício.
- Falta-nos, agora, um plano diretor. Sem este não vejo razões para se construir um prédio interminável - concluiu.
Os operários ouviram tudo com respeitoso silêncio e, em nome deles, respondeu firme e duro um especialista em concretagem:
- Acatamos o senhor como chefe, mas as ordens que recebemos partiram de autoridades superiores e não foram revogadas.
8. O DESESPERO
João Gaspar, inutilmente, apelaria para a compreensão dos servidores. Usava recursos convincentes, numa linguagem branda, porque seus propósitos eram pacíficos. Igualmente corteses, os empregados repeliram a ideia de abandonar o trabalho.
-Ouçam-me - pedia ele, impaciente com a obstinação dos subordinados. - É inexequível um monstro de ilimitados pavimentos! Seria necessário que as fundações fossem reforçadas à medida que se aumentasse o número de andares. Também isto é impraticável.
Apesar de ouvido sempre com atenção, não convencia a ninguém. E teve que assumir uma atitude de intransigência, demitindo todo o pessoal.
Os operários se negaram a aceitar o ato de dispensa. Alegavam a irrevogabilidade das determinações dos falecidos conselheiros. Por fim, disseram que iriam trabalhar à noite e aos domingos, independente de qualquer pagamento adicional.
9. O ENGANO
A decisão dos assalariados de aumentar o número de horas de serviço deu novo alento ao engenheiro, que esperava vê-los vencidos pela estafa, pois lhes seria impossível manter por muito tempo semelhante esforço coletivo.
Logo verificaria seu engano. Além de não apresentarem sinais de cansaço, para ajudá-los vieram das cidades vizinhas centenas de trabalhadores que se dispunham a auxiliar gratuitamente os colegas. Vinham cantando, sobraçando as ferramentas, como se preparados para longa e alegre campanha.
Pouco adiantava recusar-lhes a colaboração, eles mesmos escolhiam as tarefas e as iniciavam com entusiasmo, indiferentes à agressiva repulsa de João Gaspar.
10. OS DISCURSOS
Vendo multiplicar as levas de voluntários, o engenheiro não teve mais ânimo de enxotá-los. Passou a percorrer, um por um, os andaimes exortando-os a abandonar o trabalho. Fazia longos discursos e, muitas vezes, caía desfalecido de tanto falar.
A princípio, os empregados se desculpavam, constrangidos por não ouvirem atentamente as suas palavras. Com o passar dos anos, habituaram-se a elas e as consideravam peça importante nas recomendações recebidas pelo engenheiro-chefe antes da dissolução do Conselho.
Não raro, entusiasmados com a beleza das imagens do orador, pediam-lhe que as repetisse. João Gaspar se enfurecia, desmandava-se em violentos insultos. Mas estes vinham vazados em tão bom estilo, que ninguém se irritava. E, risonhos, os obreiros retornavam ao serviço, enquanto o edifício continuava a ganhar altura.
Conto de Murilo Rubião retirado do livro Contos Reunidos, Editora Ática, São Paulo, 1998.
Ir e Ensinar (116)
"Portanto, ide e ensinai..." - Jesus. (MATEUS, 28:19.)
Estudando a recomendação do Senhor aos discípulos - ide e ensinai -, é justo não olvidar que Jesus veio e ensinou.
Veio da Altura Celestial e ensinou o caminho de elevação aos que jaziam atolados na sombra terrestre.
Poderia o Cristo haver mandado a lição por emissários fiéis... Poderia ter falado brilhantemente, esclarecendo como fazer...
Preferiu, contudo, para ensinar com segurança e proveito, vir aos homens e viver com eles, para mostrar-lhes como viver no rumo da perfeição.
Para isso, antes de tudo, fez-se humilde e simples na Manjedoura, honrou o trabalho e o estudo no lar e, em plena atividade pública, foi o irmão providencial de todos, amparando a cada um, conforme as suas necessidades.
Com indiscutível acerto, Jesus é chamado o Divino Mestre.
Não porque possuísse uma cátedra de ouro...
Não porque fosse o dono da melhor biblioteca do mundo...
Não porque simplesmente exaltasse a palavra correta e irresponsável...
Não porque subisse ao trono da superioridade cultural, ditando obrigações para os ouvintes...
Mas sim porque alçou o próprio coração ao amor fraterno e, ensinando, converteu-se em benfeitor de quantos lhe recolhiam os sublimes ensinamentos.
Falou-nos do Eterno Pai e revelou-nos, com o seu sacrifício, a justa maneira de buscá-Lo.
Se te propões, desse modo cooperar com o Evangelho, recorda que não basta falar, aconselhar e informar.
"Ide e ensinai", na palavra do Cristo, quer dizer "ide e exemplificai para que os outros aprendam como é preciso fazer".
Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.
21 junho 2026
D. José Não Era
Uma explosão violenta sacudiu a cidade. Seguiram-se outras - menores e maiores. Desnorteado, o povo corria de um lado para o outro. Alguém que se conservara calmo no meio de tanta desordem gritou:
- Não é o fim do mundo!
Eliminada a pior hipótese, surgiram novas conjecturas:
- Para um bombardeio, faltavam os aviões.
- Exercício de artilharia?
- Muito provável - apoiaram alguns, apressados em explicar o mistério.
- E os canhões? - indagaram os mais lúcidos.
Houve quem falasse de uma invasão misteriosa, para em seguida concordarem todos: D. José estava matando a esposa a dinamite.
Os populares hesitaram em aproximar-se do prédio. Após curto silêncio, vários estampidos foram ouvidos. Um vagabundo, que ainda não se emocionara com os acontecimentos, comentou:
- Será que a dinamite foi insuficiente e ele recorreu ao revólver?
Tornaram-se pálidos os rostos e, ansiosos, aguardaram o final do drama.
1- Tragédia?
Não. D. José estava experimentando fogos de artifício.
Ninguém quis confessar o desapontamento nem o gasto inútil de imaginação que, naquela meia hora de terror, fora exagerado nos espectadores.
- Não a matou desta vez, mas ela não escapará de outra. Seu ódio por D. Sofia é incontrolável.
2- D. José odiava alguém?
Calúnia! Amava a mulher, os pássaros e as árvores. Ela, sim, detestava-o, irritava-se com os animais.
Infelicidade conjugal?
Nunca! Os esposos combinavam admiravelmente bem.
Mas, entre os habitantes do lugar, não havia quem acreditasse nisso:
- Ela finge amá-lo somente pelo seu dinheiro.
Estúpidos! D. José era o homem mais pobre da cidade e tinha uma úlcera no estômago.
3- À mais leve contestação, contrapunham-se novas acusações:
- E os meninos, que choram noite adentro, famintos, espancados?
Falso! D. José perdera os filhos (cinco), vítimas da tuberculose. Agora recordava-se deles manipulando um aparelho que imitava o pranto infantil. E comovia muito mais que qualquer choro de criança.
4- D. José falava sempre de um livro que estava escrevendo. Um livro sobre duendes.
Era um fabulista?
Não. Os duendes habitavam a sua própria casa, ao alcance de seus olhos.
Seria a mulher um deles?
5- Um dia encontraram-nos enforcado. Disseram imediatamente:
- É só fingimento. O nó está pouco apertado.
- Vejam que cara matreira! Está zombando de nós.
Infâmia! D. José suicidara-se mesmo.
Por quê?
Todo o mundo fingiu não saber.
6- Aos que lhe tomaram a defesa, anos após a sua morte, perguntavam:
- Afinal, o que fazia esse D. José? Se não fumava, não bebia, não tinha amantes?
- Amava o povo.
- E o povo?
- Observava-o com ferocidade.
7- Mais tarde erigiram-lhe uma estátua. Com um dístico: "D. José, nobre espanhol e benfeitor da cidade".
Derradeira mentira. D. José era um pobre-diabo e não possuía nenhum título de nobreza. Chamava-se Danilo José Rodrigues.
Conto de Murilo Rubião retirado do livro Contos Reunidos, Editora Ática, São Paulo, 1998.
13 junho 2026
Guardemos Lealdade (115)
"Além disso, requer-se nos despenseiros que cada um se ache fiel." - Paulo. (I CORÍNTIOS, 4:2.)
Vivamos cada dia fazendo o melhor ao nosso alcance.
Se administras, sê justo na distribuição do trabalho.
Se legislas, sê fiel ao bem de todos.
Se espalhas os dons da fé, não te descuides das almas que te rodeiam.
Se ensinas, sê claro na lição.
Se te devotas à arte, não corrompas a inspiração divina.
Se curas, não menosprezes o doente.
Se constróis, atende à segurança.
Se aras o solo, faze-o com alegria.
Se cooperas na limpeza pública, abraça na higiene o teu sacerdócio.
Se edificaste um lar, sublima-o para as bênçãos de amor e luz, ainda mesmo que isso te custe aflição e sacrifício.
Não te inquietes por mudanças inesperadas, nem te impressione a vitória aparente daqueles que cuidam de múltiplos interesses, com exceção dos que lhe dizem respeito.
Recorda o Olhar Vigilante da Divina Providência que nos observa todos os passos.
Lembra-te de que vives, onde te encontras, por iniciativa do Poder Maior que nos supervisiona os destinos e guardemos lealdade às obrigações que nos cercam. E, agindo incessantemente na extensão do bem, no campo de luta que a vida nos confia, esperemos por novas decisões da Lei a nosso respeito, porque a própria Lei nos elevará de plano e nos sublimará as atividades no momento oportuno.
Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.
06 junho 2026
O mais que anônimo
O mais que anônimo anda pelas antologias e viveu no Egito vinte séculos antes de Cristo. Certo, dia, a essa distância de quarenta séculos, alguma coisa lhe aconteceu, profundamente desesperadora. E apenas a morte lhe pareceu boa, bela e feliz. E escreveu, o mais que anônimo, um poema imortal.
A morte pareceu-lhe boa, como, para o inválido, a saúde, como para o doente, poder deixar o quarto de tratamento. Pareceu-lhe a morte agradável como o perfume da mirra, ou como estar-se, num dia de vento, ao abrigo de um toldo. Como o perfume do lótus. Como estar sentado à margem da embriaguez. Como o fim da chuva. Como a volta, para casa, depois de uma campanha ultramar. Como o céu que sai das nuvens. Como o desejo de um homem de rever sua casa depois de anos sem fim de cativeiro. Assim lhe pareceu a morte. E assim o disse em seu poema.
Quarenta séculos depois, os nossos olhos percorrem as palavras do poeta anônimo, sentindo-as uma por uma, sem desgaste, malgrado tantas traduções, tanto tempo, e as variações do mundo, do tempo, dos aspectos humanos.
O mais que anônimo não nos deu o nome de sua aflição. Por que sofreu tanto? Houve uma injustiça? Uma traição? A sombra de um amor? Uma ofensa? A rivalidade mesquinha que às vezes atravessa uma vida? Perseguições? O despotismo dos poderosos? Tenebrosos enredos de inveja? Os conluios da vaidade? Armadilhas sutis de partidos, grupos, grêmios?
Uma grande dor oprimiu o mais que anônimo. Viu passar a morte sobre os seus sonhos? Um desengano abriu-lhe de repente os grandes muros da mentira? Encontrou de repente a vida como um fato execrável? Desejou não participar mais de sua condição humana?
Não se permitiu a mais breve confissão. O mais que anônimo está envolto em faixas de mistério, com seus enigmas de múmia. Não se queixa. Não aponta nada nem ninguém. Anda-se em redor de seus versos sem se descobrir coisa alguma a não ser esse potencial de dor, esse coração desesperado e contido. É altivo e secreto. No apogeu do sofrimento, quem acredita ser jamais compreendido ou consolado? Quem já sofreu algum dia como quem está sofrendo naquele instante?
O mais que anônimo não diz por quem sofre. Por que sofre. Nem diz que sofre. Seu coração completamente fechado como uma pedra soa apenas para falar da morte. Para suspirar pela morte. Sem explicação, completamente secreto. Cego, imóvel, como em escultura, o poeta não vê nem mostra, não procura, não acusa, nem sequer se lamenta. Só a morte lhe parece boa, bela, feliz, em comparação com o que está sentindo e não revela.
Há quarenta séculos, um dia, foi assim. Foi assim, no Egito, um grande poeta. Uma grande dor. Mais que anônimo, ele está nas antologias com uma grandeza incomparável. Sem ter dito o que sofria, legou-nos uma dor que já tem quarenta séculos e não passa. Sem nos ter deixado o seu nome, ficou mais presente que ninguém; nosso irmão, nosso retrato. Homem eterno, o mais que anônimo.
Crônica de Cecília Meireles retirada do livro Ilusões do Mundo, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1976.
05 junho 2026
O Anjo da Noite
Às dez e meia, o guarda-noturno entra de serviço. Late o cãozinho do portão no primeiro plano; ladra o cão maior do quintal, no segundo plano: de plano em plano, até a floresta, grandes e pequenos cães rosnam, ganem, uivam, na densa escuridão da noite, todos sobressaltados pelo trilar do apito do guarda-noturno. Pelo mesmo motivo, faz-se um hiato no jardim, entre os insetos que ciciavam e sussurravam nas frontes: que novo bicho é esse, que começa a cantar com uma voz que eles julgam conhecer, que se parece com a sua, mas que se eleva com uma força gigantesca?
Passo a passo, o guarda-noturno vai subindo a rua. Já não apita: vai caminhando descansadamente, como quem passeia, como quem pensa, como um poeta numa alameda silenciosa, sob árvores em flor. Assim vai andando o guarda-noturno. Se a noite é bem sossegada, pode-se ouvir sua mão sacudir a caixa de fósforos, e até adivinhar, com bom ouvido, quantos fósforos estão lá dentro. Os cães emudecem. Os insetos recomeçam a ciciar.
O guarda-noturno olha para as casas, para os edifícios, para os muros e grades, para as janelas e os portões. Uma pequena luz, lá em cima: há várias noites, aquela vaga claridade na janela: é uma pessoa doente? O guarda-noturno caminha com delicadeza, para não assustar, para não acordar ninguém. Lá vão seus passos vagarosos, cadenciados, cosendo a sua sombra com a pedra da calçada.
Vagos rumores de bondes, de ônibus, os últimos veículos, já sonolentos, que vão e voltam quase vazios. O guarda-noturno, que passa rente às casas, pode ouvir ainda a música de algum rádio, o choro de alguma criança, um resto de conversa, alguma risada. Mas vai andando. A noite é serena, a rua está em paz, o luar põe uma névoa azulada nos jardins, nos terraços, nas fachadas: o guarda-noturno para e contempla.
À noite, o mundo é bonito, como se não houvesse desacordos, aflições, ameaças. Mesmo os doentes parece que são mais felizes: esperam dormir um pouco à suavidade da sombra e do silêncio. Há muitos sonhos em cada casa. É bom ter uma casa, dormir, sonhar. O gato retardatário que volta apressado, com certo ar de culpa, num pulo exato galga o muro e desaparece: ele também tem o seu cantinho para descansar. O mundo podia ser tranquilo. As criaturas podiam ser amáveis. No entanto, ele mesmo, o guarda-noturno, traz um bom revólver no bolso, para defender uma rua...
E se um pequeno rumor chega ao seu ouvido e um vulto parece apontar na esquina, o guarda-noturno volta a trilar longamente, como quem vai soprando um longo colar de contas de vidro. E recomeça a andar, passo a passo, firme e cauteloso, dissipando ladrões e fantasmas. É a hora muito profunda em que os insetos do jardim estão completamente extasiados, ao perfume da gardênia e à brancura da lua. E as pessoas adormecidas sentem, dentro de seus sonhos, que o guarda-noturno está tomando conta da noite, a vagar pelas ruas, anjo sem asas, porém armado.
Crônica de Cecília Meireles retirada do livro Ilusões do Mundo, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1976.
30 maio 2026
Embainha Tua Espada (114)
"Embainha tua espada..." - Jesus. (JOÃO. 18:11)
A guerra foi sempre o terror das nações.
Furacão de inconsciência, abre a porta a todos os monstros da iniquidade por onde se manifesta. O que a civilização ergue, ao preço dos séculos laboriosos de suor, destrói com a fúria de poucos dias.
Diante dela, surgem o morticínio e o arrastamento, que compelem o povo à crueldade e à barbaria, através das quais aparecem dias amargos de sofrimento e regeneração para as coletividades que lhe aceitaram os desvarios.
Ocorre o mesmo, dentro de nós, quando abrimos luta contra os semelhantes...
Sustentando a contenda com o próximo, destruidora tempestade de sentimentos nos desarvora o coração, ideais superiores e aspirações sublimes longamente acariciadas por nosso espírito, construções do presente para o futuro e plantações de luz e amor, no terreno de nossas almas, sofrem desabamento e desintegração, porque o desequilíbrio e a violência nos fazem tremer e cair nas vibrações do egoísmo absoluto que havíamos relegado à retaguarda da evolução.
Depois disso, muitas vezes devemos atravessar aflitivas existências de expiação para corrigir as brechas que nos aviltam o barco do destino, em breves momentos de insânia...
Em nosso aprendizado cristão, lembremo-nos da palavra do Senhor:
- "Embainha tua espada..."
Alimentando a guerra com os outros, perdemo-nos nas trevas exteriores, esquecendo o bom combate que nos cabe manter em nós mesmos.
Façamos a paz com os que nos cercam, lutando contra as sombras que ainda nos perturbam a existência, para que se faça em nós o reinado da luz.
De lança em riste, jamais conquistaremos o bem que desejamos.
A cruz do Mestre tem a forma de uma espada com a lâmina voltada para baixo.
Recordemos, assim, que, em se sacrificando sobre uma espada simbólica, devidamente ensarilhada, é que Jesus conferiu ao homem a bênção da paz, com felicidade e renovação.
Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.
28 maio 2026
A Lealdade Linguística
A EMPRESA FALA POR MEIO DO SENSO DE COMUNIDADE COMPARTILHADO PELOS EMPREGADOS
A entrada de um profissional na empresa ocorre formalmente em seu primeiro dia de trabalho. Ainda é registrada em um instrumento chamado Carteira de Trabalho, que os arqueólogos no futuro custarão a identificar.
Há um tempo decorrido entre começar a trabalhar e se sentir parte da empresa. Esse tempo é curto em empresas que são verdadeiramente ótimos lugares para trabalhar, apesar desta denominação imprecisa. Quanto pior o lugar, maior esse tempo. Em organizações nas quais a conduta em gestão de pessoas é débil, profissionais saem sem jamais ter se sentido parte delas. Em tal ambiente não há tempo nem interesse, de ambos os lados, de discutir a relação, de participar. Um relacionamento recíproco, enfim.
Como perceber se uma pessoa está integrada ao espaço organizacional? Há sinais diversos. Um deles, muito valorizado, é a participação dos novos colegas de empresa em atividades sociais fora do trabalho, particulares, familiares. Isso é cada vez mais raro.
Um outro sinal destaca o nível de aculturação: grupos sociais diferentes usam formas de falar diferentes. Se pertenço ao grupo, adoto a forma de falar do grupo. A chamada "lealdade linguística" é uma consciência de comunidade, ainda que imaginária. O falar organizacional dita não somente acrônimos, mas também as expressões e o tom. Ressalto que as formas de comunicação não são portadoras neutras de informações. Por isso há de se perceber que mensagens essas formas trazem, o quanto de cultura traduzem.
As variedades da fala têm importância social. Há registros de que foi no século 16, na Itália, que a Língua passou a ser considerada um fenômeno destacadamente social. Um sociolinguista da época, Vincenzo Borghini, observou que os camponeses toscanos conversavam menos com estrangeiros do que os citadinos e que, por esse motivo, mudavam menos.
Os sociolinguistas usam a noção de diversidade para tecer relações entre as Línguas e as sociedades nas quais são faladas ou escritas. Oferecem aos historiadores uma conscientização sobre "quem fala qual Língua, para quem e quando".
Para os historiadores continua o desafio de explicar de que forma algumas Línguas se difundiram, tanto geograficamente como socialmente, e outras não.
Um falar comum pode existir com conflitos sociais. Católicos e protestantes da Irlanda têm o mesmo sotaque, além do mesmo bom gosto para cerveja. Mas se as questões seculares não promoveram a harmonia, quem poderá?
Texto de Luís Adonis Valente Correia retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano I, Número 11, Setembro de 2006, Editora Segmento, São Paulo.
Uma longa Idade Média
A VIDA PORTUGUESA MEDIEVAL LEVOU A UM DADO USO DAS PALAVRAS QUE ESTÁ MUITO LIGADO À ADEQUAÇÃO CRIATIVA DA LÍNGUA A PADRÕES CADA VEZ MAIS INTERNACIONAIS
É comum imaginarmos o milênio correspondente à Idade Média como uma fase muito mais curta e homogênea do que de fato foi. Mesmo quando queremos ser específicos e restringimos nossas afirmações para um século, esquecemo-nos de que em cem anos muita coisa ocorre.
Se escolhermos arbitrariamente o ano de 1385, por exemplo, verificaremos que muita coisa ocorreu nessa data, que tem ligações diretas com a Língua Portuguesa. Quase 50 anos antes, já havia iniciado a Guerra de Cem Anos. Em 1385, em Portugal, D. João I (filho de Inês de Castro) vencia o exército de outro João I, de Castela, na batalha de Aljubarrota, pondo fim à guerra civil que se arrastava fazia três anos.
Rapidamente as Cortes de Coimbra mostram a legitimidade dessa nova Dinastia de Avis, que punha fim a mais de 200 anos da Dinastia de Borgonha. Adiava, assim, a fusão de Portugal e Espanha, que ocorreria 200 anos depois.
Havia, na época, dois papas rivais: Urbano VI e Clemente VII. Em Constantinopla, reinava João V; na França, Carlos VI, antes de seu enlouquecimento; na Inglaterra, Ricardo II; no Sacro Império, o rei Venceslau; em Aragão, Pedro IV. Em toda a Europa, uma crescente participação da burguesia nas decisões do Estado. O então rei de Portugal ficaria 48 anos no poder. Casaria com a filha do duque de Lancaster, cuja família destronaria o rei inglês, iniciando os contratos entre Portugal e Inglaterra. A catedral de Milão ainda não havia sido construída e Chaucer já era famoso em vida. Wycliffe acabara de morrer. A pressão para a conversão dos judeus se sentia cada vez mais presente na Península Ibérica.
Navegação
O dicionário Houaiss diz que foi nessa data que a palavra navegação passou para a Língua Portuguesa. Nada de estranho, pois foi o próprio João I quem iniciou as navegações portuguesas rumo à África, tomando Ceuta e ocupando as Canárias.
Em francês, a palavra navigation já era usada desde 1265, quase cem anos antes, quando o contexto social era outro: o rei de Portugal era Afonso III e o de Castela era Afonso X, o Sábio; o papa Clemente IV; na Alemanha, Henrique III; em Constantinopla, Miguel VIII. Anos de fé intensa, que tinham São Luís na liderança da França; o catalão Ramón Llull tem visão de Cristo crucificado; nascia Dante; São Tomás de Aquino escreve sua Súmula Teológica; os cavaleiros teutônicos lutam contra os prussianos pagãos.
O papa era poderoso, coroava o Conde d'Anjou como rei de Nápolis e Sicília, aproveitando o Grande Interregno após a morte da surpreendente figura de Frederico II. Nota-se que era a França nesse período que navegava, tentando dominar o comércio do Mediterrâneo promovido pelos árabes.
Convertimento
É nesse ano de 1265 que temos a primeira abonação da palavra convertimento. Esse clima religioso do século XIII era, portanto, cem anos antes de D. João I, muito distinto do clima comercial instaurado pela burguesia recém-poderosa do século XIV.
Saltemos mais cem anos depois da subida da Dinastia de Avis: em 1485, reinava o segundo rei João em Portugal. O para era Inocêncio VIII. Na Inglaterra, Ricardo III era assassinado por Henrique VII, apoiado pelo rei francês Carlos VIII, dando fim à Guerra das Duas Rosas. Constantinopla estava no poder dos turcos havia mais de 50 anos. Os espanhóis, sob a liderança de Isabel, a Católica, cercavam Granada já havia cinco anos.
Portugal navegava: Diogo Cão chegava a Cabo Cruz, atual Namíbia. No final de sua regência, com tantas modificações ocorridas na Língua, encontramos, em Português, o primeiro testemunho da palavra grega antártico, que os franceses já empregavam 150 anos antes. De fato, os portugueses foram os primeiros europeus a atravessar a temida Zona Tórrida do Equador e entrar nessa terra imaginária dos gregos.
Alfabeto
Convertimento, navegação, antártico: três palavras escolhidas dentre as milhares que estão nos dicionários. Mostram, nessa sequência, o desprendimento da Língua Portuguesa de seu molde criativo inicial para padrões cada vez mais internacionais. A Língua Portuguesa, sempre à margem da globalização medieval promovida sobretudo pela França desde a criação das universidades, abandonava suas criações lexicais abraçar formas mais próximas de outras Línguas de cultura.
A palavra convertimento, tão parecida com o provençal convertimen, Língua com a qual o Português tem estreita ligação cultural nos primeiros séculos, é abandonada no século XV para conversão, mais em concordância com o francês conversion, cujo primeiro testemunho remonta a 1190.
Nesse ano, aliás, 200 anos antes da Dinastia de Avis, Portugal estava ainda no seu segundo rei, o trovador Sancho I. O papa era Clemente III e o poderoso Inocêncio III ainda era cardeal; na Alemanha reinava Frederico Barba-Roxa; na Inglaterra, Ricardo Coração-de-Leão; na França, Felipe Augusto. Os três empreendiam a Terceira Cruzada. A Igreja de Notre-Dame de Paris começava a ser erigida. Na futura Espanha havia três Afonsos: em Leão, Afonso IX; em Castela, Afonso VIII; em Aragão, Afonso II. Entre as muitas palavras que eram escritas em Português, nessa época, pois se desgarrava do Latim, a mais marcante é, sem dúvida, alfabeto. Não é criação portuguesa, uma vez que remonta ao grego, via latim tardio, mas, sem dúvida, é emblemática para o início de uma Língua.
E quando nesse momento, Portugal apenas despontava, tempo que parece tão distante, já fazia 600 anos que havia iniciado esse período chamado Idade Média.
Texto de Mário Eduardo Viaro retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano I, Número 9, Editora Segmento, São Paulo, Julho de 2006.
17 maio 2026
Por não estarem distraídos
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Crônica de Clarice Lispector retirada do livro Para Não Esquecer, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2020.
Confusão com São Pedro
Você vai neste avião, eu vou no próximo - decidiu ela de súbito, no último instante, quando o alto-falante já convocava os passageiros: queiram apresentar suas despedidas e boa viagem.
Ele deu um suspiro desalentado. Já fora um custo convencer a mulher de viajarem de avião. Ela dizia que tinha medo, por que não vamos de trem? E passara a noite toda naquela conversa, olha, meu bem, tenho um pressentimento ruim... Quando já estavam praticamente embarcados, vinha com novidade.
- Que bobagem é essa?
- Eu vou no outro - insistiu ela, aflita: - Tem outro avião daqui a meia hora.
- Mas por que isso assim de repente?
Ela olhava nos olhos como se se despedisse dele para sempre:
- Não podemos correr tanto risco juntos, meu bem, seja razoável. Temos nossos filhos, imagine se acontece alguma coisa.
- Não vai acontecer nada, mulher.
- Eu sei que não tem perigo, que é o transporte mais seguro do mundo, e as estatísticas, e essa coisa toda, você já me explicou. Mas pense um pouco nos nossos filhos, é uma chance de pelo menos um de nós dois escapar.
- Olha aí, já estão chamando de novo. Vamos embora, mulher.
Ela fincara pé, irredutível. Sem mais tempo para argumentar, ele acabou cedendo:
- Está bem, seja como você quiser! Mas então vai nesse, eu vou no outro. Se eu deixar você aqui, você acaba não indo.
Despediu-se dela, aborrecido, e foi tratar da transferência de sua passagem.
A mulher entrou no avião como um túmulo, o coração aos pulos. A porta se fechou, desligando-a para sempre do mundo. A seu lado, viajava um padre, alheio a tudo mergulhado no breviário.
De súbito o avião, já em pleno voo, começou a jogar. Eu não disse? Eu não disse? Entraram numa nuvem escura e nunca mais que saíam dela.
Em pânico, chamou o comissário: não é nada, minha senhora, uma pequena tempestade, estamos fazendo voo cego.
Voo cego! Sentindo-se perdida, voltou-se para o padre:
- Estou com tanto medo, seu padre.
O padre a olhou, desconfiado:
- Reza, que é melhor.
E voltou ao seu breviário. Rezar? Não, ela não sabia rezar. Lembrou-se de São Pedro, que era quem devia manobrar chuvas e tempestades - juntou as mãos e pediu-lhe auxílio:
- São Pedro, piedade de mim. Tenho meus filhos para criar. Fui criada sem mãe, o senhor não imagina a falta que uma mãe faz. Todos na minha família ficaram assim feito eu, só porque não tiveram mãe. Que será dos meus filhos sem mãe, São Pedro, mãe faz muito mais falta que pai, por favor me protege, se for preciso transfere essa tempestade para o avião dele, mas me salva desta que noutra eu nunca mais hei de me meter.
A falta de mãe não lhe abalara o prestígio junto a São Pedro - tanto assim que em pouco o avião deixava para trás a tempestade e saía para um céu azul, e logo descia no aeroporto sem mais novidades. Estava salva!
Comprou uma revista, sentou-se num canto e pôs-se a esperar o avião do marido. Esperou meia hora. Como ele nunca mais chegasse, correu, já aflita, a informar-se no balcão. Soube que não havia nada de especial: as más condições do tempo às vezes ocasionavam algum atraso.
- Más condições do tempo?
Não tinha dúvida, era a tempestade que mandara para ele. Roída de remorsos, juntou as mãos ali mesmo, em frente ao funcionário assombrado:
- São Pedro, essa não! Não faça isso comigo. Era mentira, o senhor não vai me levar a sério. O pai faz muito mais falta que a mãe, quem é que foi meter uma bobagem dessa na minha cabeça? Ele trabalha para sustentar a família, eu não faço nada que preste. E logo ele, tão bom que é, tão carinhoso, por favor, São Pedro, não faça isso com ele, joga essa tempestade para cima de outro que não tenha filhos, para cima dele não!
Em pouco São Pedro voltava a atendê-la, fazendo o marido desembarcar no aeroporto, são e salvo:
- Que cara é essa? Você está parecendo um fantasma! Aconteceu alguma coisa?
Ela se abraçou a ele, ansiosa:
- Você está bem? Você me perdoa?
- Eh, que novidade você vai inventar agora? Perdoar o quê, mulher?
- Tudo por minha culpa - choramingou ela. - Mas graças a Deus você está salvo. Fiz uma confusão enorme com São Pedro, você nem imagina. Da próxima vez, quer saber de uma coisa? Vou com você, morreremos juntos, nossos filhos que se danem.
Ele a olhou, francamente apreensivo. "Acho que essa minha mulher está ficando maluca", pensou.
Crônica de Fernando Sabino retirado do livro Para Gostar de Ler - Volume 2 - Crônicas, Editora Ática, 4ª Edição, 1980.
16 maio 2026
Busquemos o Melhor (113)
"Por que reparas o argueiro no olho de teu irmão?" - Jesus. (MATEUS, 7:3.)
A pergunta do Mestre, ainda agora, é clara e oportuna.
Muitas vezes, o homem que traz o argueiro num dos olhos traz igualmente consigo os pés sangrando. Depois de laboriosa jornada na virtude, ele revela as mãos calejadas no trabalho e tem o coração ferido por mil golpes da ignorância e da inexperiência.
É imprescindível habituar a visão na procura do melhor, a fim de que não sejamos ludibriados pela malícia que nos é própria.
Comumente, pelo vezo de buscar bagatelas, perdemos o ensejo das grandes realizações.
Colaboradores valiosos e respeitáveis são relegados à margem por nossa irreflexão, em muitas circunstâncias simplesmente porque são portadores de leves defeitos ou de sombras insignificantes do pretérito, que o movimento em serviço poderia sanar ou dissipar.
Nódulos na madeira não impedem a obra do artífice e certos trechos empedrados do campo não conseguem frustrar o esforço do lavrador na produção da semente nobre.
Aproveitemos o irmão de boa-vontade, na plantação do bem, olvidando as nugas que lhe cercam a vida.
Que seria de nós se Jesus não nos desculpasse os erros e as defecções de cada dia?
E, se esperamos alcançar a nossa melhoria, contando com a benemerência do Senhor, por que negar ao próximo a confiança no futuro?
Consagremo-nos à tarefa que o Senhor nos reservou na edificação do bem e da luz e estejamos convictos de que, assim, agindo, o argueiro que incomoda o olho do vizinho, tanto quanto a trave que nos obscurece o olhar, se desfarão espontaneamente, restituindo-nos a felicidade e o equilíbrio, através da incessante renovação.
Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.
Fuga
Mal colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal.
- Para com esse barulho, meu filho - falou, sem se voltar.
Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho, estava só empurrando uma cadeira.
- Pois então para de empurrar a cadeira.
- Eu vou embora - foi a resposta.
Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas, enrolando-as num pedaço de pano. Era a sua bagagem: um caminhão de plástico com apenas três rodas, um resto de biscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave da despensa? - a mãe mais tarde irá dizer), metade de uma tesourinha enferrujada, sua única arma para a grande aventura, um botão amarrado num barbante.
A calma que baixou então na sala era vagamente inquietante. De repente, o pai olhou ao redor e não viu o menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:
- Viu um menino saindo desta casa? - gritou para o operário que descansava diante da obra do outro lado da rua, sentado no meio-fio.
- Saiu agora mesmo com uma trouxinha - informou ele.
Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabisbaixo ao longo do muro. A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, o pedaço de biscoito e - saíra de casa prevenido - uma moeda de 1 cruzeiro. Chamou-o, mas ele apertou o passinho, abriu a correr em direção à Avenida, como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia a distância.
- Meu filho, cuidado!
O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no asfalto. O menino, assustado, arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço como a um animalzinho:
- Que susto você me passou, meu filho - e apertava-o contra o peito, comovido.
- Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.
Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe dar umas palmadas:
- Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai.
- Me larga. Eu quero ir embora.
Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala - tendo antes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave, como ele fizera com a da despensa.
- Fique aí quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando.
- Fico, mas vou empurrar esta cadeira.
E o barulho recomeçou.
Crônica de Fernando Sabino retirado do livro Para Gostar de Ler - Volume 2 - Crônicas, Editora Ática, 4ª Edição, 1980.