12 abril 2026

Por que sonhamos?

Talvez você ainda não tivesse certeza, mas só de se lembrar de alguns sonhos bem ricos em cores, detalhes e emoções, já devia suspeitar de que o cérebro não para de funcionar enquanto dormimos. Por mais que a gente sinta que o corpo e a mente precisam do repouso de todas as noites, o cérebro, na verdade, continua funcionando. Mas de uma maneira diferente, é claro.

Passeando pela cidade, você já deve ter notado algumas lojas com placas penduradas com a seguinte frase: "Fechado para balanço". Quer dizer que a loja está avaliando as atividades realizadas e fazendo um levantamento de tudo o que é necessário para continuar funcionando. Para que as vendas não atrapalhem o balanço, a loja precisa fechar suas portas por um dia. Do mesmo modo, quando você dorme, seu cérebro "fecha para balanço" e ignora tudo o que se passa do lado de fora, permitindo que você caia no sono mesmo com a televisão ligada, por exemplo. A cada noventa minutos, seu cérebro entra num período de intensa atividade interna, "ligando", em pleno sono, suas zonas responsáveis por sensações, memórias e emoções: é o sonho que começa.

Mas por que o cérebro continua trabalhando enquanto o resto do corpo descansa? Segundo pesquisas feitas nos últimos anos, a função do sonho parece ser a de oferecer ao cérebro uma oportunidade de rever acontecimentos importantes dos últimos dias. Boa parte dos estudos é feita em ratos de laboratório com alguns eletrodos implantados, que detectam a atividade dentro do cérebro. Por exemplo, enquanto os ratinhos exploram um labirinto novo, uma região do cérebro deles cria um "mapa" dos lugares por onde passam. Quando eles adormecem e começam a sonhar (é, ratinhos também sonham!), o mapa recém-criado é "ligado" de novo - o que indica que os bichos estavam sonhando com o labirinto. Funciona tão bem que dá até para dizer, pelo ponto do mapa que está ativado, com que parte do labirinto o rato está sonhando...

Ter um mecanismo para reprisar os acontecimentos importantes já é bacana, mas, talvez, o mais importante do sonho aconteça em seguida, quando o cérebro parece decidir, na paz do sono quais acontecimentos merecem ser registrados definitivamente, ou seja, quais ficarão na memória. Parte desse registro noturno provavelmente acontece durante a outra parte do sono, sem sonhos. Mas nem aí o cérebro fica de bobeira, descansando. É nessa fase que ele produz novas substâncias que vão ajudar a construir mais ligações entre as células do cérebro para guardar tudo na memória.

Por isso, hoje acredita-se que o sono, com sonhos e tudo, é essencial para fixar na memória o que se aprende durante o dia. Ou seja, é preciso dormir - e sonhar - para realmente aprender. E você que pensava que a aula acabava quando o sinal da saída tocava... Pois até sonhando o cérebro trabalha no dever de casa!


Texto de Suzana Herculano-Houzel, Museu da Vida - Fiocruz, O Cérebro Nosso de Cada Dia, www.cerebronosso.bio.br, retirado do Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 15, Número 125, Junho de 2002, Ministério da Educação, FNDE.

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