Crianças adoram doces, mas quase ninguém dá doce às crianças, pois, em excesso, eles podem fazer mal. Quem come muitos doces, fica sem apetite para comida de sal, que são boas para nos fazer crescer e ficar fortes. Os doces também podem ajudar as bactérias a provocar cáries nos nossos dentes - pelo menos foi o que me informou minha filha, uma grande admiradora do doce de leite preparado por seu avô Zico, meu pai. Ela come e fica tranquila, pois está sempre escovando os dentes.
Mas vamos combinar: existe algo mais gostoso que mastigar jujuba? Chupar balas? Ou então pirulito, picolé de uva? Comer suspiro, sonho, bombom, ovo de páscoa, maria-mole... Só de pensar dá água na boca!
Isso me faz lembrar alguém que não se importava em dar doces às crianças: a Fada dos Doces. Uma vez ela me apareceu, trazendo um pacotinho de balas de aniversário. Cada uma das balas vinha embrulhada em papel de uma cor diferente, com uma franja de fios compridos, lindas de ver e boas de comer. Eram balas que derretiam na boca e deixavam um gosto bom, que custava a acabar.
Quando ganhei as balas fiquei alegre e sorri.
A Fada dos Doces havia descoberto que, com os doces, poderia fazer as pessoas se sentirem de um modo diferente. Tristes alegres, tranquilas ou agitadas, tímidas ou expansivas, recatadas ou desavergonhadas.
Achei ótimo. "Com essas balas, todas as pessoas seriam alegres e boas", pensei. Não existiria mais tristeza, sofrimento, nem nenhuma outra coisa ruim sobre a face da Terra.
Aí, a Fada dos Doces me explicou que sorrir é bom, só que chorar também é importante. Pois, se todas as pessoas fossem iguais alegres e sorridentes, o mundo poderia se tornar um lugar chato e monótono.
Demorei a compreender o que isso significava. E até hoje não sei se compreendi totalmente. Eu nunca gostei de chorar e ficar triste. Como é que me sentir assim poderia me fazer bem?
Ainda não sei a resposta. Sei que, às vezes, quando estou muito cansado e fico quieto e sozinho, ou quando assisto a uma cena emocionante num filme e choro, depois me sinto melhor. Então, nessas ocasiões, percebo que a Fada dos Doces estava certa.
Depois de me tornar adulto, entendi que as comidas têm o poder de mudar o humor das pessoas. Quando quero dar um presente para alguém muito especial, preparo um almoço, um jantar, um bolo de aniversário... O importante é que a comida faça bem à pessoa presenteada.
Depois do dia em que ela me entregou o pacotinho de balas de aniversário, voltei a encontrar a Fada dos Doces muitas outras vezes, para aprender, com ela, os segredos das suas receitas.
Certa vez, ela me mostrou um doce muito especial, com o qual presenteava as crianças infelizes. Um docinho redondo e marrom. Macio, envolvido em confeito de chocolate, pequeno, mas muito saboroso.
Experimentei um e, logo a seguir, queria comer outro, sem me saciar. Sentia-me imensamente feliz. Entre um bocado e outro, perguntei pelo nome daquela maravilha e ela me respondeu: é o doce da felicidade.
Anos depois, eu descobri que o doce da felicidade das crianças é o brigadeiro. Por que será que ele chama assim? É um nome pior, mas foi assim que ele ficou conhecido.
DOCE DA FELICIDADE
Abra uma lata de leite condensado e coloque para cozinhar numa panela média, com duas colheres de sopa de manteiga sem sal e quatro colheres de sopa de chocolate em pó.
Com uma colher de pau, mexa a mistura em fogo médio, sem parar, até que a massa chegue ao ponto de enrolar. Para ter certeza do ponto de enrolar, observe se, ao mexer com a colher de pau, a massa está "descolando" do fundo e das laterais da panela.
Aguarde até que a massa esfrie o suficiente para enrolar.
Unte as mãos com a manteiga, pegue pequenas porções de massa e faça bolinhas miúdas.
Jogue as bolinhas num prato fundo cheio de confeito para brigadeiro. Depois de confeitadas, coloque cada uma numa forminha de papel.
Está pronto. Mas só coma depois de esfriar bem.
Dicas do Mestre:
Após enrolar as bolinhas de brigadeiro, não lave a panela. Pegue uma colher para "rapar"... É a famosa "rapa do tacho"... É a melhor parte do doce...
Texto de João Alegria (A Fada dos Doces - extraído do livro Come-Come: pais e filhos na cozinha, de João Alegria, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editores, 2002). Retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 134, Abril de 2003, Ministério da Educação, FNDE.
Foi por ter nascido em Santo Antônio da Alegria, no interior de São Paulo, em 22 de agosto de 1964, que João Alves dos Reis decidiu virar João Alegria. Esse autor e diretor de programas de TV, que estudou Filosofia e História, já escreveu dois livros para crianças: Na fazenda do Chico Marreco e Come-Come: pais e filhos na cozinha.
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