28 julho 2026

Quem eram os deuses do Olimpo?

Na antiguidade grega, a religião e a mitologia eram constituídas por um casal supremo - Zeus e Hera - e outros doze deuses, que eram seus pares complementares. Havia duas maneiras de entendê-los:

A primeira, mais simples e concreta, era a chamada visão de Homero, que encontramos na Ilíada e na Odisseia. Nessa visão, os deuses só se diferenciavam dos homens por serem mais poderosos e imortais. Tinham, além da forma humana, paixões, rancores, ciúmes, preferências, enfim, todos os atributos humanos.

A segunda maneira de entendê-los é encontrada em Hesíodo, em suas obras A Teogonia e Os Trabalhos e os Dias. Nelas é mostrada uma concepção metafísica e abstrata dos deuses, algo próximo das religiões modernas. Eles não eram apenas poderosos e imortais, mas potências e manifestações cósmicas em busca de uma ordem que superasse o caos. Todos eram formas da criação e buscavam consolidá-la. Essa visão, mais profunda e exata, era a dos sacerdotes e iniciados. Ontem, como hoje, sempre existiram duas maneiras de ensinar a religião: uma, mais simples, destinada ao povo, e outra, mais profunda, destinada aos iniciados.

Infelizmente, apenas chegou até nós a visão mais simples, e esta, mesmo assim, foi banalizada. Na verdade, ambas estavam corretas. Os antigos sabiam que, por exemplo, seria muito difícil para uma criança ou um camponês entender que Zeus e Hera eram "as potências complementares da criação, sendo ele a força que se expande infinitamente, e que tudo o que toca se multiplica, enquanto ela é a potência fecunda, que busca consolidar tudo que é criado - como aliás convém ao arquétipo feminino, cujo atributo fundamental não é apenas dar a vida, mas dela cuidar para fortalecê-la".

Em linguagem mais simples (de Homero), isso era explicado de maneira muito mais fácil de entender: Zeus era a paixão que não se continha, e por isso era infiel a sua esposa, tendo inúmeras relações extraconjugais, das quais nasceram muitos deuses, semideuses e heróis. Já Hera morria de ciúmes dele e estava sempre tentando aniquilar as amantes (ou os amantes) de seu esposo e os filhos nascidos dessas uniões. No entanto, os que sobreviviam às suas perseguições ou eram aceitos por ela (é o caso de Hércules, a quem Hera deu sua filha por esposa quando ele se tornou imortal), ou eram metamorfoseados em forças cósmicas, ou ainda consagrados (é o caso de Dioniso ou Baco).

Dessa maneira, os antigos conseguiam ensinar às crianças e às pessoas mais simples a religião de um modo mais humano e apaixonante, usando uma linguagem mais acessível, que todos entendiam. A criação é constituída pelo amor e pela paixão, e nem sempre é possível contê-la ou mesmo prevê-la. Talvez seja isso o que tanto nos encanta na mitologia. Os deuses eram cheios de paixões que resultavam num constante renovar, sendo um exemplo a ser seguido pelos homens. A única possibilidade aqui na Terra é a criação, e ela não é possível sem paixão, pois está voltada à multiplicação da vida, e não à sua destruição. Na verdade, se tivessem tido a oportunidade de conhecer como ensinamos a religião na modernidade, os deuses iriam achar-se muito chatos e sem graça. Além disso, ficariam horrorizados se soubessem o quanto já matamos em nome de Deus. Vejam-se a Inquisição, as Cruzadas, a caça às bruxas, a Guerra Santa, etc. E não devemos confundir a perseguição de Roma aos cristãos com a tradição mitológica grega, uma vez que a religião romana era muito diferente da grega, embora alguns deuses tenham sido por ela adotados, mas exercendo funções totalmente diferentes e modificados para o uso do imperialismo guerreiro e conquistador próprio de Roma.

Vale notar ainda que, na antiga religião grega, encontramos deuses e deusas, ou seja, tanto o arquétipo masculino como o feminino são divinizados, algo que nunca mais aconteceu nas religiões modernas, sendo o feminino sumariamente suprimido delas. O mesmo se pode dizer com relação aos Messias, pois são todos masculinos (Moisés, Cristo, Maomé), e às funções eclesiásticas (papa, bispo, cardeal, padre, aiatolá, imã, rabino), que também foram vetadas às mulheres, sendo-lhes permitido no máximo retirar-se para um convento e... Ficar quietas! Myrcea Eliade, em sua obra História das Crenças e Religiões, notou muito apropriadamente que o monoteísmo das religiões modernas só foi possível com a supressão de um dos arquétipos, no caso o feminino, e que isso, longe de representar um avanço ou progresso em relação às chamadas religiões "pagãs", foi um retrocesso. O arquétipo feminino - e as mulheres, claro - foi simplesmente retirado das funções religiosas, sociais e políticas nas culturas ocidentais. O fato é que até hoje, com todos os avanços dos últimos cinquenta anos, ainda estamos muito longe de nos aproximar do papel de relevância do arquétipo feminino (e da mulher) que existiu na antiguidade, especialmente antes do século V a.C. - a partir daí deu-se a grande guinada para sua supressão. Só podemos lamentar que muitos estudos sérios sobre esse assunto caiam no erro de analisar o papel da mulher somente a partir dessa época e tirem suas conclusões (equivocadas) para toda a antiguidade helênica e egípcia. Para um estudo correto e profundo desse assunto, recomendo a obra fundamental de Werner Jaeger, Paideia: a formação do homem grego, da Editora Martins Fontes.

A classificação e a descrição das funções dos deuses a seguir foram baseadas e inspiradas nas obras de Homero, A Ilíada e A Odisseia; de Hesíodo, A Teogonia e os Dias, O Certame e O Escudo; e na obra capital de Apolodoro de Atenas, Biblioteca. Infelizmente, com exceção de A Ilíada, A Odisseia, A Teogonia e parte de Os Trabalhos e os Dias, não há traduções das outras obras para a nossa Língua, a não ser em Portugal.

Os antigos reuniam os deuses de acordo com suas funções, que apresentamos sinteticamente a seguir:

* Zeus: deus da criação e da expansão.

* Hera: deusa da fecundidade, da consolidação e do fortalecimento.

Zeus e Hera são o casal supremo, infinitamente mais poderosos que os demais, e são pares complementares. Homero lembra-nos de que a distância que os separa dos outros deuses é a mesma que separa os homens dos deuses.

* Apolo: deus da profecia, da luz, da beleza, da música, da poesia e das artes.

* Ártemis: deusa que honra e protege o sagrado na natureza. Os dois são irmãos gêmeos e pares complementares também.

* Atena: deusa da sabedoria, da justiça e da equidade.

* Afrodite: deusa do amor e da entrega (também conhecida pelos romanos como Vênus).

* Ares: deus do espírito de luta e dos combates. Foi desvalorizado em sua forma guerreira pelos gregos e supervalorizado nessa mesma forma pelos romanos, que eram um povo belicoso e conquistador. Era por eles conhecido como Marte. As divindades que têm o nome começado com a letra A (isto não é casual) eram chamados de "deuses da transcendência", porque cada um, a seu modo, ensinava aos homens as artes para se elevar espitualmente.

* Héfestos: deus das ferramentas e dos instrumentos.

* Héstia: deusa protetora do sagrado do lar e do interior de cada um. Era representada por um fogo sempre acesso no interior das casas e que não podia nunca se extinguir.

* Hermes: deus condutor das almas após a morte no caminho para voltarem a viver (todas as religiões antigas acreditavam na regeneração das almas em outro corpo - séculos mais tarde, o Espiritismo inspirou-se nessa ideia). Era, além disso, o condutor dos homens na Terra. As divindades que têm nome iniciado com a letra H (na verdade, é o E com som longo em grego - eta) eram chamadas de "divindades da permanência", porque ensinavam aos homens as artes para se viver na Terra. A deusa Hera as presidia. Também nesse caso, não é casual que os nomes comecem com a letra H.

* Deméter: deusa da fertilidade e das artes para se voltar a viver. Simboliza as estações do ano e a regeneração da natureza.

* Dionísio: deus do vinho, do êxtase e da alegria. É o deus que ensina a conviver com o outro, por excelência. No período romano, era conhecido como Baco e seus atributos foram completamente degenerados, sendo associados com orgias e bacanais, típicos da decadente Roma, em seus costumes e sua ética. Esses eram chamados de "deuses da imanência", porque ensinavam aos homens como adentrar o mistério do interior da Terra, em si mesmos e nos outros. Presidiam os famosos "Mistérios de Eleusias" (da libertação) e também não é casual que seus nomes comecem com a letra D - o conhecido delta em grego. Essas questões serão abordadas nos tópicos dedicados a cada um desses deuses.

* Posseidon: deus dos mares e das tarefas inadiáveis para se viver. Irmão mais velho de Zeus, era conhecido como "o deus das origens", porque tudo veio dos mares para os antigos e lá nada pode ser adiado ou postergado.

* Hades ou Plutão: também era irmão de Zeus. É o deus dos mortos e vingador dos falsos juramentos. Era conhecido como "deus do abissal", juntamente com sua esposa Perséfone, também chamada de "a juíza infernal". Juntos presidiam o julgamento dos mortos para avaliar se poderiam voltar a viver. O nome desse deus em grego não começa com a letra H, mas com A.


Texto de Viktor D. Salis retirado do livro Mitologia Viva - Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.

27 julho 2026

O dia que Urano entrou em Escorpião

Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela ou parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, ou mesmo Júpiter saindo de Aquário. Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estreias e sessões da meia-noite e gente se encontrando e motos correndo - difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento, lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma coisa nas sobras da galinha do meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali, ouvindo baixinho um velho Pink Floyd para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar de vez com aquele antro (eles não gostavam da palavra, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros e almofadas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa horrível) - renunciado ao sábado, pois, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume da vitrola e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, pois se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então, olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha, parado no meio da sala. E não disseram nada.

O que tinha saído da janela fez como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele pedacinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava querendo mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto uma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e os violinos ficava imaginado um guerreiro montado num cavalo branco, correndo contra o vento, tipo Távola Redonda assim, a silhueta dum castelo sobre uma colina ao fundo - e que o guerreiro era medieval, o castelo também, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros e um crepúsculo, talvez um quarto crescente, quem sabe um lago, quando a moça que estava com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que tinha erguido para a testa quando o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:

"Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura - loucura assumida -, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura".                                         (Ernest Becker: A Negação da Morte)

Quando ela parou de ler de ler e olhou radiante para os outros, o que tinha saído da janela tinha voltado para a janela, o rapaz de camisa vermelha continuava parado e meio ofegante no meio da sala enquanto o outro olhava para o osso vazio da perna de galinha. Disse que não gostava muito de perna, que preferia pescoço, e que isso era engraçado porque tinha passado por três fases: na infância, só gostava de perna, na casa dele aconteciam brigas medonhas porque eram muitos irmãos e todos gostavam justamente de perna; depois, na adolescência, preferia o peito, tinha passado uns cinco anos comendo só peito - e agora adorava o pescoço. Os outros pareceram um tanto escandalizados, e ele explicou que o pescoço tinha delícias ocultas, assim mesmo: disse de-lí-ci-as-o-cul-tas bem devagar, e nesse momento o disco acabou e as palavras ficaram ressoando meio libidinosas no ar, enquanto ele olhava para o osso descarnado.

O rapaz de camisa vermelha aproveitou o silêncio para gritar bem alto que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros pareceram perturbados, menos com a informação, mais com o barulho, e pediram rispidamente para ele falar baixo, se não lembrava do que tinha acontecido a última vez. Ele disse que a última vez não interessava, que agora Urano estava entrando em Escorpião, hoje, falou lentamente, os olhos brilhando. Ele estava lá há cinco anos, acrescentou, e os outros perguntaram ao mesmo tempo ele-quem-estava-onde? Urano, o rapaz de camisa vermelha explicou, em Libra, na minha oitava casa, a da Morte, vocês não sabem que eu podia morrer? Pareceria aliviado, não fosse toda aquela agitação. Mas os outros entreolharam-se e a moça de óculos começou a contar uma história muito comprida e meio confusa sobre um esquizofrênico que tinha começado bem assim, a curtir coisas como Alquimia, Astrologia, Quiromancia, Numerologia, que ela tinha lido não sei onde (ela lia muito e, quando contava uma história, nunca sabia ao certo onde tinha lido - às vezes não sabia sequer se a tinha vivido e não lido). Acabou na Pinel, disse, é assim que começam muitos processos esquizoides. Olhou bem para ele ao dizer processos-esquizoides, os outros dois pareceram muito impressionados, não se sabia bem se porque respeitavam a moça e a consideravam muito culta, ou apenas porque queriam assustar o rapaz de camisa vermelha. Ficou um silêncio cheio de becos, até que um dos rapazes se moveu da janela para virar o disco. Quando as bolhas de som começaram a estourar no meio da sala todos pareceram mais aliviados, e quase contentes outra vez.

Foi então que o rapaz de camisa vermelha tirou da bolsa um livro com capa de couro e perguntou se eles entendiam francês. Um dos rapazes jogou o osso de galinha no cinzeiro, como se quisesse dizer violentamente que não! olhando para o que estava na janela, que já não estava na janela, mas sobre o tapete, remexendo nos discos. Ele parou de repente e olhou para a moça, que hesitou um pouco antes de dizer que entendia mais ou menos, e todos ficaram meio decepcionados. O rapaz de camisa vermelha falou baixinho que não tinha importância, e começou a ler um negócio assim:

"La position de cet astre secteur situe le lieu où l'être dégage au maximum son individualité dans une voie de surpersonnalisation, à la faveur d'un développement d'énergie ou d'une croissance exagerée qui est moins une abondance de force de vie qu'une tension particulière d'enérgie. ici, l'être tend à affirmer une volonté lucide d'indenpendence qui peut le conduire à une expression supérieure et originale de sá personalité. Dans la dissonance, son exigence conduit à l'insensibilité, à  la duraté, à l'excessif, à l'extrmisme, au jusqu'au-boutisme, à l'aventure, aux bouleversements..." *  (André Barbault: Astrologie)

Parou de ler e olhou para os outros três, devagar, mas só a moça sorriu, dizendo que não sabia o que era bouleversements. Um dos rapazes falou que boulevard era rua, e que devia ser qualquer coisa que tivesse a ver com rua, com andar muito na rua. Ficaram dando palpites, um deles começou a procurar um dicionário, o rapaz de blusa vermelha olhava de um para outro sem dizer nada. Depois que todos os livros foram remexidos e o dicionário não tinha sido encontrado e o outro lado do disco também terminou, ele repetiu:

" L'être tend affirmer une volonté lucide d'indenpendence qui peut le conduire à une expression supérieure et originale de sá personalité."

Depois perguntou se os outros entendiam, e eles disseram que sim, que era parecidinho com Português. Mas não pareciam entender. Então os olhos dele ficaram muito brilhantes outra vez, e parecia que ia começar a chorar, mas de repente, sem que ninguém esperasse, deu um salto em direção à janela, gritando que ia se jogar, que ninguém o compreendia, que não valia mais a pena, que não apostava um puto no futuro.

O rapaz de camisa vermelha chegou a colocar uma das pernas sobre o peitoril, mas os outros dois o agarraram a tempo e o levaram para o quarto, perguntando muito suavemente o que era aquilo e dizendo que ele estava demais nervoso, e que estava tudo bem, tudo bem. A moça de óculos ficou segurando a mão dele e passando os dedos no seu cabelo enquanto ele chorava, um dos rapazes disse que ia até a cozinha fazer um chá de artemísia ou camomila, o outro falou que ia colocar aquele disco de música hindu que ele gostava tanto, embora ninguém mais gostasse, só que teve que botar bem alto para que pudessem ouvir do quarto. O chá veio logo, estava quente e bom, apareceu um baseado que eles ficaram fumando juntos, um de cada vez, e tudo ficou muito harmonioso e calmo até que alguém começou a bater na porta. Era o síndico, pedindo aos berros para baixar o som e falando aquelas coisas desagradáveis de sempre. A moça de óculos disse que sentia muito, mas infelizmente naquela noite não podia baixar o volume do som, não era uma noite como as outras, era muito especial, e perguntou se o síndico não sabia que Urano estava entrando em Escorpião. Lá no quarto, o rapaz de blusa vermelha ouviu e deu um sorriso largo antes de adormecer. Então sonhou que deslizava suavemente numa superfície dourada e luminosa. Não sabia ao certo se era um dos anéis de Saturno ou uma das luas de Júpiter. Talvez Titã.


Conto de Caio Fernando Abreu retirado do livro Morangos Mofados, Editora Brasiliense, Circo de Letras, São Paulo, 8ª Edição, 1997.


* "A posição deste astro indica o âmbito onde o indivíduo manifesta ao máximo sua individualidade em uma trajetória de superpersonalização, impulsionada por um desenvolvimento de energia ou um crescimento exacerbado — o qual representa menos uma abundância de força vital do que uma tensão energética específica. Aqui, o indivíduo tende a afirmar uma vontade lúcida de independência, capaz de conduzi-lo a uma expressão superior e original de sua personalidade. Em caso de dissonância, essa exigência conduz à insensibilidade, à dureza, ao excesso, ao extremismo, à intransigência, à aventura e a grandes rupturas..."

25 julho 2026

O Saci

Por aquele tempo O Saci andava desesperado. Tinham-lhe surrupiado a cabaça de mandinga. O moleque, extremamente irritado, vagueava pelos fundões de Goiás.

Pai Zé, saindo um dia à cata dumas raízes de mandioca castela que sinhá dona lhe pedira, topou com ele nos grotões da roça.

O preto, abandonando a enxada e de queixo caído, olhava pasmado o negrinho que lhe fazia caretas e trejeitos, a saltar no seu único pé, e fungando terrivelmente.

- Vancê quer alguma coisa? perguntou pai Zé admirado, vendo agora o moleque rodopiar como o pião do ioiô.

- Olha negro, respondeu o Saci, vancê gosta de Sá Quirina, aquela mulata de sustância; pois eu lhe dou a mandinga com que ela há de ficar enrabichada, se vancê me arranjá a cabaça que perdi.

Pai Zé, louco de contentamento, prometeu. A cabaça, ele sabia-o, fora amoitada pelo Benedito Galego, um caboclo sacudido que, cansado das malandrices do moleque, a tinha roubado das grimpas do jatobá grande, lá nas roças do ribeirão.

Pai Zé fora um dos que o tinham aconselhado, para obstar que o Saci, como era o seu costume quando incomodado, tornasse a levantar as árvores da derrubada que o Benedito fizera nessas terras.

Arrastando as alpercatas de couro cru pelas terras de Sô Feitor, pai Zé capengava satisfeito e inchado com a promessa do Saci.

Desde Santo Antônio que ele rondava Sá Quirina, procurando sempre ocasião de lhe mostrar que, apesar dos seus sessenta e cinco anos e meio, um olho de menos e falta de dente na boca, não era negro pra se desprezar assim por um canto não - que sustância ainda ele tinha no peito para aguentar com a mulata e mais a trouxa de Sá Quitéria, sua mulher, se ele tinha!

Mas a cafuza era dura da gente convencer. Toda a eloquência que ele penosamente engendrara em seu bestunto de africano e que lhe tinha despejado pela festa de S. Pedro, não teve outro resultado senão a fuga da roxa quando o encontrava.

- Mas agora, gaguejava o preto, eu lhe mostro, que o Saci é mesmo bicho bom pra deitar um feitiço.

Com a rica dádiva dum quartilho de cachaça e meia mão do seu fumo pixuá, pai Zé alcançou do Galego a cabaça desejada.

Sá Quitéria, porém, não via com bons olhos o afã de seu velho pela posse da milonga. E ela também sabia deitar e tirar quebranto, se sabia! - Perguntassem à bruxa da Nhá Benta, que desde vésperas de Reis estava entrevada na trempe do jirau; e não era o zarolho e cambaio do seu homem que a enganasse.

Por isso, a velha ciumenta estava de tocaia, desejosa por saber do seu intento. Lá ia pai Zé, arrastando novamente as alpercatas de couro cru pelas terras de Sô Feitor, à entrevista do Saci. Atrás dele, sorrateira, lá ia também Sá Quitéria.

O negro chegou aos grotões e chamou pelo Saci, que de pronto apareceu.

- Toma lá a sua cabaça de mandinga, seu Saci, e dá-me cá o feitiço pra Sá Quirina.

O moleque desbarretou-se, tirou uma pitada grossa da cumbuca, fungou, e, entregando o resto a pai Zé, disse:

- Dá-lhe a cheirar esta pitada, que a crioula é sua escrava.

E desapareceu, fungando, pulando no seu único pé, nos grotões e covoadas da roça.

- Ah, negro velho dos infernos, que conheci a tua tramoia, gritou Sá Quitéria furiosa, saindo do bamburral e segurando-o pelo papo.

E, na luta do casal, lá se foi o feitiço que o pobre pai Zé adquirira com o sacrifício dum quartilho de cachaça e a meia mão do seu bom fumo pixuá.

Desde então, nunca mais houve paz no casal, que se devorava às pancadas; e pai Zé arrenegava sem descanso o maldito que introduzira a discórdia no seu rancho.

- Porque, Ioiô, concluiu o preto velho que me contava esta história - a todo aquele que viu e falou com o Saci, acontece sempre uma desgraça.


Conto de Hugo de Carvalho Ramos publicado no livro Tropas e Boiadas, Rio de Janeiro, Revista dos Tribunais, 1917; retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos anos Dez aos Sessenta, organização de Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, Goiânia. CEGRAF/UFG, 1993.

Em Nossas Tarefas (118)

 "... não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes." - Paulo. (ROMANOS, 12:16.)


"Não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes" - recomenda o apóstolo, sensatamente.

Muitos aprendizes do Evangelho almejam as grandes realizações de um dia para outro...

A coroa da santidade...

O poder da cura...

A glória do conhecimento superior...

As edificações de grande alcance...

Entretanto, aspirar só por si não basta à realização.

Tudo, nos círculos da Natureza, obedece ao espírito de sequência.

A árvore vitoriosa na colheita passou pela condição do arbusto frágil.

A catarata que move poderosas turbinas é um conjunto de fios d'água no nascedouro.

Imponente é o projeto para a construção de uma casa nobre, no entanto, é indispensável o serviço da picareta e da pá, do tijolo e da pedra, para que a arte e o reconforto se exprimam.

Abracemos os deveres humildes com devoção ao nosso ideal de progresso e triunfo.

Por mais árdua e mais simples a nossa obrigação, atendemo-la com amor.

A palavra de Paulo é sábia e justa, porque, escalando com firmeza as faixas interiores do monte com facilidade lhe conquistamos o cimo e, aceitando de boa-vontade as tarefas pequeninas, as grandes tarefas virão espontaneamente ao nosso encontro.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

24 julho 2026

Nego Rei

Desencostando-se do tanque, Benedita atirou uma olhada para o marido deitado na cama. Avistou-o dos pés a cintura, pijama sungado nas pernas entrelaçadas. Resmungou com azedume:

- Esbranquicento de uma figa!

Enxugou o suor na testa, voltando a esfregar a roupa pensando:

"Para pegar um lugar de onde pudesse ver Nego Rei de perto, teria que correr com o serviço. Era estender a roupa no arame, lavar os trens de cozinha, tomar banho, aprontar a Neuza... Muita coisa por fazer ainda! Seria melhor arriscar um pedido de auxílio."

Galgou o degrau da porta para poder avistar o rosto do seu homem e falou decidida:

- Você bem podia dá uma dimãozinha... Receio chegar lá atrasada.

Como de costume, a resposta veio negativa:

- Sou lá mulher pra andar fazendo serviço de casa?! Deixa tudo aí, na volta você arruma.

Benedita suspirou:

"Com esse não precisava contar pra coisa nenhuma! Só pra fazer filho... O jeito era mesmo correr com o serviço. Pensando bem, as vasilhas poderiam ser lavadas quando voltasse. Era amontoar num canto da pia. A roupa é que precisava ir para o arame. Logo mais, deveriam estar também passadas. A entrega ao freguês seria logo no outro dia e cedinho."

Neusa veio interromper o pensamento de Benedita. Rodou sobre os calcanhares, exibindo o vestido branco engomado, cheio de babadinhos:

- Tá bonito?!

A mãe surpreendeu-se:

- Se vestiu sozinha?!

- Num instantinho!

A alegria deixava o branco dos olhos da menina mais branco e as pupilas pretas lançando chispas. A mulher contemplou a filha com gosto:

"Era um encanto o diabo da bichinha! Foi preciso nascer e crescer aquela coisinha encardida pra ela ir tomando amor na sua raça."

Sorriu ao responder:

- Está uma beleza! Agora senta lá na sala e vai alisando o pincha.

A pequena fazendo beiço estrilou:

- Pincha não, mãe, cabelo! Sentar eu não vou não! Amassa o vestido.

- Então alisa em pé mesmo.

A garota saiu e logo voltou para junto da mãe. Ela ralhou:

- Falei pra você ir pentear lá na salinha...

- Quero ficar junto da senhora.

O pente escorrendo pela carapinha ia chiando. Benedita encheu-se de ojeriza:

"Perder a vergonha antes de casar pra poder agarrar aquele esbranquicento duma figa por desejar ter filhos branquinhos e eles todos evinham saindo escuros. Raça danada de forte essa sua!"

Sentiu pena da menina. A mão miúda não conseguia ajeitar aquele monte de coisa. Tomou o pente e fez o arranjo ordenado:

- Agora vai me esperar lá na salinha. E já nóis vamos descendo.

Acabou de estender a roupa, amontoou as vasilhas e, depois de banhar-se, foi para o quarto envolta em uma toalha. Remexeu na gaveta da cômoda procurando um porta-seios. Contemplando-se no espelho, mudou de intenção.

"Pra quê usar essa bobagem? Seus peitos eram firmes como os de uma mocinha. Ninguém diria que haviam amamentado meia dúzia de filhos".

Contemplou o resto do corpo com alegria:

"Uma beleza!"

Pelo espelho deu com os olhos do marido em cima dela, incendiado de desejo, braços estendidos num convite. Cobriu-se ralhando de testa franzida:

- Que coisa é essa?! Não vê que lá vou saindo quase de corrida?!

Vestiu-se, pensando com ironia:

"Esbranquicento duma figa! Só presta mesmo é pra isso."

Antes de deixar o quarto, recomendou:

- Vigia os meninos que a Neusinha vai comigo.

Ainda inflamado, esfregando os pés um no outro, o marido respondeu com azedume:

- Pra quê levar a menina? Ela não entende disso...

No espelhinho da sala voltou a mirar-se para acabar de ajeitar o cabelo. João com aqueles olhos por cima dela, tirava-lhe o jeito.

"Pra quê levar a menina? Ora! Então o dinheiro quem ganhava não era ela? Foi preciso sofrer bastante para ir aprendendo muito da vida. Pra quê levar a Neusinha! Pra ir ensinando a ela que neste mundo não é só branco que é gente! Nego não era Rei? Rei de futebol mas era! O mundo inteiro não vivia encantado com ele? Nego bonito, cheio de força, ágil como um gato! Neusinha precisava ver esse Nego de perto pra ir aprendendo a dar valor na sua raça."

Na pressa de caminhar, ia arrastando a menina. Atolando o sapato branco na poeira, encheu-se de ojeriza:

"Não pudera tomar condução, porque o dinheiro mal chegou para as entradas. Casar com branco e depois ser cachorro dele? Trabalhar como burro pra sustentar casa, filhos, marido?! Qual! Antes tivesse casado mesmo com um escurinho. Com Neusa tinha que ser diferente. Teria que casar era com um da sua raça."

Agora quase corria. A menina reclamou, ela não prestou sentido. Ao passarem junto da construção que ia sendo erguida na praça, alguém gritou...

- Vai descendo pra ir ver o Rei, Benedita?

Olhou para cima. Esgarranchado no andaime, Sebastião acenou-lhe. Os dentes brancos brilhando no negrume da cara.

"Graças a Deus ela tinha bons dentes e também a Neusinha".

Sorriu ao responder:

- Vou. Você não vai?

- Estou dando mais umas marteladas e já eu desço.

- Então até logo.

- Até.

"Nego bom era esse! Escuro como tição mas um orgulho da raça. Não fosse por amor aos filhos, vergonha da Neusinha, estaria era vivendo com ele. Aquele esbranquicento bem que merecia". Benedita suspirou comprido. A filha forçou-a a prestar atenção no que lhe dizia:

- Que quer dizer Rei, mãe?

- Rei... Rei... - Embaraçou-se por não saber explicar. Neusa ajudou:

- Rei é uma coisa ou uma gente melhor que todo mundo?

- Isso mesmo. Sorriu ao pensar: "Essa menina faz cada pergunta!"

- Esse Rei que nóis vamo é Rei de jogá bola?

- É.

- Então ele joga bola mais bem que todo mundo?!

- Isso mesmo.

- E ele é preto, mãe?

- É.

- Que nem a gente?

- É.

A pequena caminhou um pouco em silêncio e então perguntou:

- Preto é gente, mãe?

Benedita zangou-se e respondeu com aspereza:

- Claro que é, burra!

O adjetivo magoou a menina. Sua voz veio sentida:

Mas preto é gente feia...

A mãe deu com força um tapa na filha:

- Preto não é feio coisa nenhuma, ouviu?! Tem muito branco que é mais feio que a gente. O preto que nóis vamo vê é um preto forte, liso, bonito! Você também é uma negrinha alinhada!

Procurando conter o pranto, Neusa foi dizendo de maneira ritmada:

- A Maria falou que nego nunca foi gente! Que lá na nossa casa, só o pai é que vale uma coisinha...

Benedita explodiu:

- Aquela Maria é uma burra! Uma cretina! Qualquer dia desses, quero lhe partir o focinho! - Benedita fechou a mão em ameaça e sacudiu o braço da filha: - Não quero mais você falando com ela, tá entendendo?

Notando o braço da menina todo ralado, quase sangrento, passou da ira à preocupação indagando aflita:

- Você caiu?!

A pequena sacudiu a cabeça em negativa:

- Então o que qui foi isso?!

Neusa não deu resposta. A mãe engrossou a fala:

- Diz o que qui foi senão apanha aqui mesmo!

A pequena respondeu baixinho, como se estivesse cansada:

- Esfreguei com um caco de telha...

- Está ficando louca?! - Benedita sacudiu a menina e erguei a mão em ameaça: Fala ou apanha...

Procurando sufocar os soluços, Neusinha respondeu:

- Queria ver se raspando, a pele da gente ficava branquinha...

A pequena agora chorava. Benedita suspirou comprido, pensando:

"Qual! Nego traz essa bobagem é no sangue! Só Deus, assim mesmo com muito jeito, talvez conseguisse consertar essa estultice".


Conto de Ada Ciocci Curado publicado no livro Nego Rei. Goiânia, Livraria Brasil Central Editora, 1966.  Retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos Anos Dez aos Sessenta, Organizado por Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, CEGRAF/UFG, Goiânia, 1993.

O que viveu sem nascer

Naquele dia o casal desceu a escadaria, com exagerada cautela. Seu Manuel segurava firme o braço de D. Maria. Os olhos de ambos irradiavam completa felicidade. Riam à toa. Seu Manuel falou:

- Hoje mesmo ajustei uma criada.

- Não há necessidade, meu velho. Preciso fazer exercício. Não foi o que o médico recomendou?

- Sim, sim, mas não dessa natureza. Nada de excesso. Nos levantaremos cedo e faremos longas caminhadas, repetindo-as às tardes. Quero que nosso filho seja forte e bonito. Estes anos de ansiosa expectativa me bastaram. Agora que ele nos chega, é preciso ter todo cuidado.

Pobre seu Manuel! Parece que estava a adivinhar...

Lá foram os dois rumo a casa, abraçadinhos, achando o sol mais lindo que de costume, verdes, muito mais verdes as matas, a água do lago mais azulínea, as flores mais belas e mais perfumadas, os passarinhos mais cantadores e ligeiros que nunca.

D. Maria passou a ser tratada como criança mimada. Os menores desejos lhe eram satisfeitos.

Ia pelo sétimo mês de gravidez quando, apesar da criada, apesar dos cuidados excessivos de seu Manuel, apesar de caminhar cauteloso, D. Maria caiu. Caiu e que tombo... Ficou desacordada meia hora, e, três dias depois, adeus pimpolho tão desejado! Era uma vez um Joaquinzinho... Esse seria o nome dado à criança, em homenagem ao avô paterno.

O casal ficou desolado e sua tristeza atingiu o auge quando o médico afirmou que D. Maria jamais seria mãe.

Choraram desesperados, um abraçado ao outro. Os dias foram passando e como acontece sempre, os dois acabaram se consolando. D. Maria começou a dizer:

- Pela lua, hoje nosso filhinho viria ao mundo.

- Justo, justo. Como seria belo e fortinho. Que pena!

E seu Manuel suspirou fundo, tornando-se pensativo.

Uma semana mais tarde, D. Maria falou:

- Hoje Joaquinzinho completaria oito dias.

Seu Manuel respondeu:

- Justo, justo. Já estaria começando a ficar clarinho. Como seria lindo e perfeito.

Assim continuaram.

Joaquinzinho fez um, dois, três meses. Veio o primeiro dentinho, o segundo... Fez um ano, dois, três... Sofreu sarampo, catapora, coqueluche e todas as espécies de doenças infantis...


Quando Joaquinzinho estava com cinco anos de idade, grassou crupe na cidade. Seu Manuel, alarmado, falou para D. Maria:

- Minha velha, arrume as malas. Vamos passar uns dias fora, até passar a epidemia. Era o que faríamos se Joaquinzinho vivesse.

E foram. Joaquinzinho cresceu. Estudou. Nos exames foi sempre o primeiro. Formou-se. Fez o Serviço Militar, saindo com uma caderneta invejável.

Quando o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália, lá foi Joaquinzinho defender a Pátria. Ouvindo pelo rádio as mensagens que os pracinhas enviavam aos seus, D. Maria e seu Manuel choravam, fazendo pena a quem os visse.

D. Maria tricotava incansavelmente pulôveres, cachecóis, meias, despachando-os pelo Correio. Um dia o agente perguntou-lhe:

- Seu filho guerreia no estrangeiro, madame? D. Maria, embaraçando-se, respondeu:

- Sim e não.

O agente quis perguntar o sentido de tão estranha resposta, mas ela não lhe deu tempo, saindo apressada.


Quando terminou a guerra, em casa de D. Maria festejou-se o acontecido durante uma semana, bebendo-se vinho à vontade.

Joaquinzinho lutara como um bravo.

Ao aportar no Rio de Janeiro o primeiro navio, trazendo de volta os combatentes, o casal lá estava, esperando pelo filho. Chorava abraçados, comovendo até as pedras. Uma senhora indagou:

- Seu filho chega agora, madame?

Olhando enleada para seu Manuel, D. Maria falou:

- Se nosso Joaquinzinho vivesse, como herói, seria o último a chegar, não é, meu velho?

- Justo, justo. E como viria garboso com as medalhas no peito! Santo Deus! Seu Manuel suspirou fundo, tornando-se pensativo.

Permaneceram no Rio, até que o último navio proveniente da Europa atracasse, depois retornaram para casa, satisfeitíssimos.

Hoje Joaquinzinho está casado. Moram todos juntos. Sua esposa é boníssima. Combina muito com a sogra... Espera já o terceiro filhinho...


Conto de Ada Ciocci Curado publicado no livro O Sonho do Pracinha e Outros Contos. São Paulo, Revista do Tribunais, 1954.  Retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos Anos Dez aos Sessenta, Organizado por Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, CEGRAF/UFG, Goiânia, 1993.

22 julho 2026

Sofia

Já tinham brincado muito, e agora estavam reunidos ao pé do poste, pensando numa coisa nova para fazer.

Ainda era cedo, a noite apenas começara.

- Vamos mexer com a Sofia? propôs um.

Sofia era dona do mercadinho - a vítima predileta deles. Pintavam o sete com ela. Sofia assustava-se com nada, e isso os deliciava. Viviam assombrando-as: vozes estranhas chamando lá fora, e ninguém (estavam no telhado), caveira de mamão verde com vela acesa dentro, capas, máscaras horrorosas, o caixote de lixo que sumia, o ferro de abaixar a porta que sumia, ratos, sapos, lagartixas aparecendo de repente, minha nossa! Quase desmaiava, dessa vez eu chamo o guarda, mas nunca chamava o guarda, e tudo o que fazia era ameaçar os meninos, agitando o braço gordo:

- Eu vai contar bra seu pai, menino! Eu vai contar bra seu pai!

Eles riam, alegres, distantes do braço dela.

- Raledine baculé, pé de turco tem chulé!

- Moleques! Sembregonhas!

- Sofia guer gombra galinha de raça? Cadê os urubus que ocê comprou, hein Sofia? Cadê as galinhas de raça?

Caíam na risda.

Sofia queria correr, mal saía do lugar, gorda, pernas gordas, braços gordos, uma tonelada de gordura.

- Ainda me pagam, lê! - gritava, enquanto os meninos se afastavam.

- Praga - xingava, tornando a entrar no mercadinho, onde, no balcão, ia encontrar um sapo morto. - Moleques.

De vez em quando havia trégua: o dia em que chegavam tomates. Vinham três, quatro caixotes. Os meninos apareciam, quietos, sérios. Ficavam por ali conversando, simulando indiferença. Sofia chegava até a porte, olhava para um lado da rua, para o outro, espichava o pescoço como se estivesse procurando alguém (não procurava ninguém, sabiam), dava uma cuspida no chão (sempre dava a cuspida).

- Ei - falava, na sua voz grossa de homem, as mãos na cintura: - chegou tomate hoje.

(Eles já sabiam, e ela sabia que eles já sabiam.)

Displicentes:

- É?...

Pouco depois estavam sentados em caixotes vazios, trapos na mão, ágeis, limpando os tomates, pra quê que eles põem esse pó? É pra conservar, separando os bons num caixote, os amassados noutro, jogando os podres no lixo, disputando quem limpava mais depressa. Sofia no meio deles, contando casos - de vez em quando uma exclamação na Língua dela: deve ser nome feio, pensavam - dando gargalhadas, sacudindo-se toda, esquecida da brigas. Às vezes comia um tomate: enfiava-o inteiro na boca, as bochechas estufavam.

Terminado o serviço, ela fazia o pagamento: um saquinho de balas para cada um.

Uma vez - era aniversário dela - limparam tomates das sete às dez da noite, até fechar o mercadinho.

Na hora de pagar:

- Não é nada não. Hoje é aniversário da senhora...

Sofia ficou olhando, a boca aberta. Foi falar, mas sua voz grossa de homem de repente ficou fina e sumiu, os olhos úmidos. Cada um deu um abraço nela, estavam comovidos com suas lágrimas, ela querendo falar alguma coisa, mas nada, os lábios trêmulos, os olhos úmidos.

- Vocês viram?

- Chorando...

- Ela grita com a gente, mas ela é boazinha...

- É pra gritar mesmo; do jeito que nós fazemos com ela... Eu vou falar; se fosse eu, não ficava assim não.

- Eu também.

- Ela fala que vai chamar o guarda, mas nunca chamou.

- Nós judiamos dela.

- Sabem, eu pensei uma coisa, não sei se vocês topam: a gente não mexer mais com ela. Quê que vocês acham?

- Eu topo.

- Eu também.

- Engraçado, eu tinha pensado nisso também, mas fiquei com vergonha de falar.

- Fazer um juramento: ninguém mais mexer com ela. Topam?

Todos topavam. Um até quis ir contar pra ela na hora.

- Não, deixa ela ir notando aos poucos: , os meninos estão diferentes... Já pensaram o tanto que ela vai achar bom?

- Se vai...

E ali no poste, todos de pé, fizeram o juramento.

- Para sempre.

- É. Para sempre.

Uma semana depois a lâmpada da entrada do mercadinho sumia, uma perereca saltava de um saquinho de papel, um busca-pé estourava debaixo do balcão, e Sofia agitava o braço gordo no passeio, enquanto eles corriam.

- Moleques! Sembregonhas! Eu vai contar bra seu pai! Eu vai chamar o guarda!

Um dia Sofia adoeceu. Nunca mais tornaram a vê-la. Miguel, seu irmão, é que passou a tomar conta do mercadinho. Com ele não mexiam: não tinha graça.

E um dia Sofia morreu. Comentaram na cidade que ela morrera é de tanto comer. Contavam que o médico a mandava fazer regime e ela não obedecia; ela dizia:

- Sofia morre, mas morre de barriga cheia.


Conto de Luiz Vilela retirado do livro Contos da Infância e da Adolescência, Série Rosa dos Ventos, Editora Ática, São Paulo, 1996.

Corisco

Se não fosse Mamãe, eu nunca teria Corisco, pois Papai não gostava de cachorro de espécie alguma, porque, dizia ele, cachorro é bicho velhaco, só serve pra dar amolação e pra comer a comida da gente, e enquanto ele fosse dono da fazenda, ali nunca haveria de entrar cachorro, e se entrasse um, ele pegava a espingarda e sapecava fogo sem um tiquinho de dó. Por isso, quando ele veio descendo o pasto de tardinha, eu fiquei com medo, Mamãe escondeu Corisco, que era pequeno, no cesto de roupa suja, e disse pra mim você não fala nada, deixa que eu falo, e eu fui esconder detrás da porta da despensa.

Papai entrou batendo os pés como fazia, pra sacudir a poeira das botas, pendurou o chapéu na parede, depois deu um tapinha nas costas de Mamãe, falando com voz grossa ê filha, o serviço hoje esteve puxado, e batia a mão na barriga, espiando as panelas de comida enquanto contava casos de bois acontecidos lá no retiro, e então parece que ele reparou no silêncio de Mamãe e falou um pouco mais alto, mas daquele jeito que não era bravo, quê que houve, filha, você não fala nada, engoliu a língua? Aí Mamãe soprou o fogão, pingou caldinho de sopa na mão, provando o tempero, e sem olhar pra trás, pra Papai, disse que meu aniversário estava peto e pensava em me dar um presente, quê que ele achava da ideia, e Papai, sacudindo a cabeça disse que também pensara nisso, mas não tinha ideia do presente, isso era melhor ela escolher, mulher é que entende dessas coisas. Então Mamãe disse que já tinha escolhido, era uma coisa que eu sempre desejara e ia ficar contentíssimo de ganhar, vamos ver se você adivinha quê que é, mas quando ela falou assim, Corisco deu uma choradinha no cesto, ela baixou a cabeça, Papai fechou a cara e, sem dizer nada, saiu pro terreiro. Eu saí detrás da porta, de onde vira tudo, e Mamãe, me passando a mão na cabeça, disse seu pai é duro, e engoliu fazendo barulho, e virou pra soprar o fogão outra vez.

No outro dia ela me disse que tinha dado um jeito e que Corisco não ia embora, mas eu não falasse nada com Papai, e eu não falei, e três dias depois, no meu aniversário, ele me deu um abraço apertado e um canivete de cabo de osso, dizendo toma um presentinho de seu pai, e não falou nada de Corisco.

Corisco não foi embora, e com sete meses já estava brande e bonito, o pelo pretinho de alumiar e as patas brancas, e, era engraçado, parecia que ele tinha medo de sair pra longe, porque ficava o tempo todo em frente ao alpendre, espichado com a cabeça entre as patas e as orelhonas arrastando no chão, dormindo ou espiando com preguiça os currais, não levantando pra nada, nem mesmo quando Papai voltava de tardinha do serviço e, em vez de tocar ele dali, passava por cima, nem olhando, como se Corisco não existisse, pois era assim, parecia que Corisco não existia pra ele, nunca falava nele, nem mesmo quando Corisco pegou aquela mania de acompanhar ele ao retiro.

Toda tarde, quando os pássaros-pretos começavam a cantar no arrozal e ia escurecendo do lado da serra, eu trepava na porteira e, espichando a vista até onde podia, ficava esperando Corisco, com medo de Papai ter feito alguma coisa com ele, e quase pulava de alegria quando via ele aparecendo atrás da poeirinha que o cavalo de Papai fazia. Ele sempre vinha atrás, mas, na hora de abrir a porteira, passava na frente, passava por baixo e ia pro alpendre, ficando deitado na porta, resfolegando com a língua comprida e vermelha de fora, só depois é que ia pra varanda beber água.

Uma vez ele voltou mais cedo e sozinho, e, em vez de ir pro alpendre, foi descendo o terreiro, com a cabeça baixa e o rabo entre as pernas. Eu estranhei e falei com Mamãe, e nós fomos ver o que era e encontramos ele lá no paiol, enrolado num canto, o olhar triste. Passei a mão na cabeça dele, mas ele não abanou o rabo, nem ligou, e Mamãe falou é capaz de ser doença. No jantar não falamos nada sobre o assunto, mas de noite fiquei com dó dele e chamei Mamãe pra ir lá de novo. Papai estava sentado no alpendre, fazendo um cigarro, e quando viu nós dois, não falou nada, mas ficou olhando pra Mamãe, depois continuou a picar o fumo. Corisco estava do mesmo jeito, enroscado feito cobra, sem ligar pra gente. Ele não está nada bom, Mamãe falou, e eu comecei a chorar, e ela falou não chora não, vou falar com seu pai pra comprar remédio.

Ele ainda estava no alpendre fazendo o cigarro, e ao ver Mamãe, embolou tudo e jogou fora e perguntou com voz seca o que era, e ela falou que era o Corisco, estava doente e precisava de remédio, então ele falou que não tinha nada a ver com isso, e eu corri pra ele, chorando e pedindo pra ele deixar de ser ruim e ter dó de Corisco, e ele falou era só o que faltava, chorar por causa dum bicho, e então eu fui chorar no quarto.

Na manhã do outro dia Sô Tuti chegou do retiro com um embrulhinho, dizendo que Papai é que tinha mandado. Mamãe abriu, e era remédio pro Corisco. Nós demos, mas não adiantou nada, ele continuava triste e tinha começado a vomitar uma baba amarela, e de tarde ouvi Mamãe falando com Papai, que voltara do serviço mais cedo porque estava com dor de cabeça, que pelo jeito o cachorro não escapava.

Foi de tardezinha que Corisco morreu. Começou a torcer o pescoço e a gemer, depois quietou, e eu chamei baixinho Corisco, Corisco, mas os olhos dele só olhavam pra frente, e parecia que ele não estava escutando mais. E então esticou as pernas e abriu a boca, que foi fechando devagar, e uma baba escorreu dela. Coitado, Mamãe falou, e eu não consegui segurar o choro.

No jantar ela falou o Corisco morreu, e Papai, tomando uma colherada de sopa, falou sei, e limpou a boca e não falou mais uma palavra, e Mamãe, vendo que ele não queria comer mais, perguntou o que era, e ele falou que era aquela dorzinha de cabeça aborrecida.

Tudo voltou a ser como antes, eu brincando com os meninos da fazenda, Mamãe cozinhando, Papai trabalhando, e era como se Corisco nunca tivesse existido, pois ninguém falou mais nele, só uma vez, uma noite em que havia desaparecido mais uma galinha, e então Mamãe falou que, se o Corisco ainda estivesse vivo, aquilo não teria acontecido, e então Papai, levantando de repente, falou que nada, que cachorro era bicho velhaco que só servia pra dar amolação e pra comer a comida da gente, ela não falasse naquilo, não queria saber mais daquela praga na fazendo, e foi até a janela e ficou olhando o céu estrelado, e então Mamãe me cutucou a perna e eu olhei pra ele e vi ele enxugando uma lágrima.


Conto de Luiz Vilela retirado do livro Contos da Infância e da Adolescência, Série Rosa dos Ventos, Editora Ática, São Paulo, 1996.

20 julho 2026

Minha avó dorme a sesta

 Minha avó dorme a sesta; não devo fazer barulho.

Na casa, nada se mexe. A empregada foi para o quarto deixando a cozinha vazia. Só eu não tenho sono.

Da janela não vejo movimento. As lojas ficarão fechadas até quatro horas. O caminho para a Piazza Navona está quase deserto; as poucas pessoas que passam, tangidas pelo barulho dos próprios passos na rua vazia, têm um ar furtivo. Não ouço carros.

Se ando, as velhas tábuas do assoalho estalam sob meus pés. Na biblioteca, os livros vivem sua longa vida, sem tomar conhecimento da minha presença, e as plantas, no sarcófago de pedra, empurram as raízes terra adentro. A sala de jantar é fria; campânulas de vidro protegem bonecos de cera de uma poeira inexistente, o blackmoor olha para a frente, o cetim roxo do sofá capitonê não tem marcas. Tento me esgueirar atrás do biombo de seda bordada, mas, do teto, a dama do afresco me segue onde quer que eu vá, e prefiro sair.

Abro com cuidado a porta do salão. As cortinas de gaze ondejam de leve, minha imagem nos espelhos antigos é reflexo de lago, há um tilintar breve de pingentes: o salão também dormia. Recuo, fecho a porta com precaução, quase pedindo desculpas.

No quarto ao lado do da minha avó, nada indica sua  proximidade; ela não faz barulho quando dorme, não ressona, não suspira. Entretanto, sei que ela está ali perto, tão perto que, quando acordar, notarei imediatamente.

E começo a brincar, sem um ruído. A enorme poltrona de veludo é meu trenó. Na grande noite que fabriquei debaixo da manta, deslizo sobre a neve, atravessando a imensidão da estepe. Os cavalos correm, ouço o estalar do chicote, sinto as crinas abaixar e levantar como cristas de ondas. O trenó sacode meu corpo enlanguescido. Os lobos uivam pressentindo a vítima. Há muitos dias que viajo, e é sempre noite; logo, desmaiarei de cansaço, e cairei do trenó, sem que o homem que o conduz se aperceba.

Não fosse a oportuna chegada do meu amado, eu seria estraçalhada. Ele, porém, chega, me salva, e, agora, os braços da poltrona são seus braços que me carregam, desfalecida. Põe-me no trenó, sou aquecida, bebo algo forte, e volto a mim. Mas a partir deste ponto não sei mais continuar a brincadeira, não sei o que fazer da viagem, e também não quero chegar. Então, recomeço. Na noite, o trenó me sacode, e os lobos uivam sob a luz enquanto eu atravesso a estepe.


Conto de Marina Colasanti retirada do livro Eu Sozinha, Global Editora, São Paulo, 2018.

Quem me deu foi a manhã

Foi uma moça lavar suas anáguas no rio. Espuma de rendas, espuma de águas. Depois deitou-as sobre a grama para secar. E da grama uma salamandra levantou a cabeça e perguntou:

- Que rendas são essas que você lava com tanto capricho?

- São as rendas que farfalham nos meus tornozelos - respondeu a moça.

- Eu também quero ouvir esse farfalhar - disse a salamandra. E antes mesmo que a moça vestisse a primeira anágua, enroscou-se no seu tornozelo.

Era fria como vidro e brilhante como prata. Mas, com medo de ser mordida, a moça deixou-a estar e voltou para a aldeia.

No caminho encontrou as outras moças da sua rua, que iam juntas. - Que joia diferente! - exclamaram, flagrando nos passos dela o luzir da salamandra. - Onde foi que você achou?

A moça riu sem responder, entrou em casa e fechou a porta atrás de si.

Passados alguns dias, novamente foi ela ao rio, lavar suas roupas. Água batendo nos panos, panos batendo nas pedras. E estava enxaguando o xale, quando uma serpente emergiu entre as franjas e perguntou:

- Que roupa é essa que você lava com tanto esmero?

- É o xale que pousa nos meus ombros - respondeu a moça.

- Eu também quero pousar nos teus ombros - disse a serpente.

Deslizou rápida até os ombros dela, rodeou-lhe o pescoço e, mordendo o próprio rabo, deixou-se ficar.

Era lisa e verde como esmeralda. Porém, com medo de ser picada, a moça não ousou tocá-la. E voltou para a aldeia.

- Que joia tão rica! - surpreenderam-se as moças suas companheiras colhendo os lampejos verdes ao redor do pescoço. - Como foi que você conseguiu?

A moça nem riu nem respondeu. Entrou e fechou a porta.

Alguns dias mais haviam passado, e novamente foi a moça ao rio. Dessa vez, não levava roupas. Ajoelhou-se na beira e mergulhou a cabeça para lavar os cabelos. Ondular de ouro na água, ondular de azul entre os fios. Depois, penteou e sacudiu os cabelos para secá-los ao sol. E como que trazida pelo sol, uma libélula voou e veio pousar na cabeça, um pouco de lado. Ali, imóveis as asas, deixou-se ficar.

Era delicada e graciosa como uma filigrana. Mas com medo de machucá-la, a moça nem a tocou. Quis levá-la, procurou seu reflexo no espelho da água. Depois voltou à aldeia.

As moças esperavam para vê-la passar. - E essa preciosidade - perguntaram em coro movidas pelo cintilar irizado - quem foi que te deu?

- Quem me deu foi a manhã - respondeu a moça. E, sem olhar para trás, entrou em casa. A porta deixou aberta, soubessem todos que nada tinha a esconder.

Não tinha nada a esconder, mas o que havia mostrado era suficiente. De boca em boca, de boca a ouvido, aos cochichos, aos murmúrios, sussurrando, segredando, de um a outro, de um a muitos, pelos cantos, pelas ruas, as joias tornaram-se o assunto da aldeia. E quando todo esse falar desembocou na praça, foi como um vento que entrasse pelas janelas e portas da Cadeia Geral, indo se abater sobre a mesa do Chefe da Polícia.

Uma moça pobre usando joias de valor era coisa nunca vista antes naquela aldeia, afirmou este. A moça só podia tê-las roubado, concluíram todos. E, expedida a ordem, foram os esbirros buscá-la em sua casa e a trouxeram até a cela. Nas joias ninguém se atreveu a tocar, serviriam como evidência.

As paredes da cela eram espessas, as grades da janela eram grossas, mas o falatório do povo ali embaixo chegava até a prisioneira. Aos poucos, porém, fez-se escuro, as vozes foram se afastando. Silêncio e sereno pousaram enfim na praça. A noite havia chegado.

Nenhum ruído se ouviu quando a serpente desprendeu-se do pescoço da moça, deslizou sinuosa para fora da cela, aproximou-se do carcereiro adormecido, enroscou-se na perna da cadeira, e erguendo a cabeça, mordeu com um bote a mão pendente.

Tão leve o fremir das asas da libélula quando abandonou a cabeleira loura, que só um ouvido atento o colheria. Mas o carcereiro já não estava atento a nada. A libélula pôde voar segura até o prego onde a chave estava pendurada por uma argola, e com a argola entre as patinhas, voar de volta até a sua dona.

Como havia conseguido a ladra fugir de cadeia tão forte? perguntavam-se todos no dia seguinte. E por que o carcereiro continuava dormindo?

- Bruxaria! - foi a resposta que jorrou daquelas bocas.

Novamente uma ordem foi expedida, os esbirros saíram à procura e todos os aldeões empenharam-se na caçada. De dia e de noite. Até que a moça, mãos atadas atrás das costas, foi arrastada para a praça onde a fogueira para queimá-la havia sido armada. Já não trazia a serpente ao redor do pescoço, nem a libélula pousada nos cabelos. Mas entre os farrapos da anágua rasgada ocultava-se a salamandra.

- Bruxa! - gritava o povo.

- Feiticeira!

Com boca leve, a salamandra mordeu o tornozelo da sua dona já atada sobre os feixes de lenha.

O povo na praça ergueu os braços celebrando a primeira labareda. A cabeça da moça pendia de lado. A fumaça se expandiu, pessoas tossiram na assistência. E logo todos os feixes arderam ao mesmo tempo, refletidos nos olhos da multidão.

Já não havia ninguém na praça quando as últimas brasas se apagaram. Findo o espetáculo, cada um havia retornado à sua casa. A madrugada avançava pesada de sono. Assim, ninguém viu aquele súbito mover-se entre as cinzas, o menear, a cabeça da salamandra erguendo-se. Ninguém viu o braço, o ombro, a cabeleira da moça emergindo dos restos da fogueira, ela toda de pé sacudindo-se como quem sai da água. Ninguém viu quando, antes de se afastar, recebeu ao redor do tornozelo uma joia como vidro e brilhante como prata.


Conto de Marina Colasanti retirado do livro Mais de 100 Histórias Maravilhosas - 23 Histórias de Viajantes, Global Editora, São Paulo, 2014/2015.

19 julho 2026

Coisas que sabemos

Eu não penso mais nisso agora, mas nós sabemos como foi. Sabemos de tudo. As pessoas que estavam lá naquele tempo sabem o mesmo que eu e você. As pessoas que andaram por lá depois também sabem. É impossível não saber.

Aquilo foi diferente de tudo e até agora, nas noites em que não posso dormir, imagino os gritos e o barulho como se fossem pedras imensas sendo partidas. Nas noites em que não posso dormir, ouço esse barulho como se fosse agora.

Não havia nada que pudesse ser feito e todos nós sabíamos disso. Eu sabia e você também. Não havia nada que pudesse ser feito.

Pelas noites, em toda a cidade, se ouviam gritos e o barulho de pedras partindo. Havia os grandes estalos seguidos e eu imaginava o caminho reto e picotado daquele fogo noturno, como o mastigar de um grande bicho. Nos telhados os rapazes atiravam enquanto todos sabiam que não havia nada que pudesse ser feito. Mas eles estavam dispostos a tudo e já não pensavam mais.

Nos dias seguintes apareceram os corpos no rio. Vinham pela correnteza, gordos, inchados, azulados.

Naqueles dias as pessoas se debruçavam na amurada das pontes e contavam os cadáveres. Algumas mulheres choravam e gritavam, e esse é o grito que ouço nas noites em que não posso dormir.

Algumas mulheres viam os corpos e contavam em voz alta. Era como uma antiga ladainha alucinada.

Uma tarde, entre os corpos, veio flutuando o de um cão inchado. Havia também um resto de cama. Então a mulher apontou o cão e começou a rir, primeiro baixinho, e depois esse riso foi crescendo até se transformar em um uivo sem-fim.

Ela estava na ponte contando os cadáveres há três dias e duas noites.

Quando veio rodando o corpo inchado do cão batendo contra a madeira do resto da cama, o som da cabeça contra a madeira molhada como um fruto caindo no barro mole, a mulher começou a rir. Era muito divertido. Não havia nada mais divertido. Não havia nada que pudesse ser mais engraçado.

Com o tempo os cadáveres começaram a desaparecer, até que não se contavam mais.

Aos poucos as pessoas abandonaram as pontes e mataram sua espera. Mas a mulher continuou muitos dias mais, mesmo quando não havia mais cadáveres e o rio voltou a ser apenas um rio sujo outra vez.

Ela estava lá, sozinha, parada, e de vez em quando começava aquele riso outra vez.

Ela estava lá parada, sozinha, quando vieram os soldados para buscá-la.


Conto de Eric Nepomuceno retirado do livro A Palavra Nunca, Editora Francisco Alves/Editora da UFSCar, Rio de Janeiro, 1997.

Às Sete em Ponto

 As mãos espalmadas, os dedos finos, jogaram os cabelos negros e lisos para trás:

- Preciso telefonar para casa, falar com minha mãe.

Foi a primeira coisa que ela disse. Depois, perguntou:

- Como foi o seu dia? Acho que o frio está chegando. Peça um licor e um chá para mim, está bem? E alguma coisa para comer. Estou com fome, não pude almoçar. Você almoçou? Preciso telefonar. Você pede para mim?

Eu não gostava café. Gostava da praça, a primeira que conheci na cidade, e que se chamava San Juan de la Cruz. Havia dois cafés na praça. Um, ao lado do hotel onde eu morava; outro, no extremo oposto da praça. Estávamos no café longe do hotel: mesas de fórmica, cadeiras forradas de plástico vermelho. Estávamos em uma mesa ao ar livre, era um fim de tarde de outubro, fazia frio. Eram sete da noite quando ela chegou. Tínhamos dito: às seis e meia, no café da esquina: ela chegou às sete. Veio bonita. Eu gostava de olhar seu rosto e olhar seu sorriso e olhar suas mãos.

Pensava nisso quando vi que ela me olhava sorrindo: talvez eu estivesse sorrindo também. Ela perguntou, calma:

- E como foi seu dia?

- Bem, sem nada de novo, nenhuma emoção.

Escrevi cartas e cartões-postais de manhã, almocei, fumei um charuto, caminhei de tarde, fui ver um amigo. Nada de emoções.

- E você está bem?

- Claro, por que não? E você?

- Estou ótima. Agora, vou telefonar: está ficando tarde.

Eram sete da noite, ela acabara de chegar e estava bonita. No outro dia, bem cedinho, fui-me embora. Levei um ano para voltar, e ela estava com os cabelos curtos.

Quando voltei era dezembro e dois dias antes tinha nevado na cidade, fazia frio e as ruas estavam sujas.

O café estava fechado. Nos encontramos na rua e ficamos olhando o café, tentamos sorri e eu perguntei:

- E agora, para onde vamos?

Ela disse que para lugar nenhum. Queria ver se eu continuava vivo, só isso. E já vira.

Fiquei parado, fazia frio e ventava, olhando para ela, que atravessou devagar a rua e entrou em um carrinho pequeno, cor de cinza.


Conto de Eric Nepomuceno retirado do livro A Palavra Nunca, Editora Francisco Alves/Editora da UFSCar, Rio de Janeiro, 1997.

Miráculo-Verídico

Onde começa a verdade?

E a mentira, onde acaba?

Abracadabra!


Fadas e bruxas são personagens de contos infantis? Nem sempre, isso eu garanto. Porque estou lendo um livro cheio de mistérios, encantamentos, coisas do tempo do rei Arthur, aquele da távola redonda, pois é. E foi por causa do livro que, assim, nesta tarde de chuva petropolitana, peguei no telefone e liguei pra minha amiga Yeda. A gente ficou num tititi, numa conversa sem fim, nem começo... e de repente, peguntei pra ela se ela sabia de uma erva encantada que fizesse as pessoas dizerem a verdade verdadeira. Yeda, que tem um jeito peculiar de soltar cintilações pelos olhos, olhou assim para a minha voz, através do telefone, e eu tive a visão. Naquele momento, entendi que Yeda era uma fada, casada com um duende chamado João.

Aliás, foi por isso, naturalmente, que Yeda conseguiu me olhar através do telefone e chegou mesmo a me entregar, de súbito, pelo fio do telefone sem fio (credo!) um pequeno embrulhinho cor de açafrão, amarrado com um barbante violeta. O embrulho trazia um envelope e, dentro dele, uma espécie de bula, escrita em letras góticas, que dizia:


CHÁ MIRÁCULO-VERÍDICO

(manter longe do alcance de velhos)

Fórmula:

10 pingos de orvalho matinal

2 faíscas de sol

Extrato de alfablídeos

Aromatizante verdadeiro de artifícios frugais

Camomila vegetabilis


Precauções:

Nunca ingerir em festas familiares.


Atenção: 

Este chá, cujos três últimos ingredientes não trazem a quantidade usada (por motivo de sigilo e para evitar possíveis falsificações), foi confeccionado por mãos duendes, muito habilidosas, numa pequenina casa situada nas montanhas. O farmacêutico responsável chama-se João da Yeda.


Indicações: 

Para pessoas debilitadas pelo extenuante convívio social hipócrita das reuniões da classe média ascendente, onde é obrigatório o uso de uísque escocês, salgadinhos, conversas sobre o socialismo que todos mentem desejar etc.

Tomar três gotas antes da reunião, de preferência com o estômago cheio. Não misturar com bebida alcoólica.


Contraindicações:

- Pessoas hipertensas, alcoólatras, políticos em geral, gagos, mulheres na menopausa etc.

Este chá, por suas propriedades mágicas, dá um toque de originalidade a qualquer reunião melancólica, tornando-a altamente peculiar.


Naquele dia, eu estava convidada para um jantar que prometia ser dos mais aborrecidos. Resolvi, pois, com um certo receio, experimentar a poção. Confesso que estava com medo, pois não costumo me envolver assim, sem mais nem menos, nos perigos sedutores das magias. Por via das dúvidas, tomei um copo de leite morno antes, para ingerir o chá com o estômago cheio, conforme receitava a bula.

Quando acabei de tomar o líquido, que tinha um sabor de hortelã com baunilha, o telefone faiscou estrelas. Compreendi que eram os olhos de Yeda, que me viam telefonicamente, através dos poderes fadais e duendísticos.

Botei um vestido estampado, sapatos de verniz, chamei um táxi e fui para o jantar.

Logo ao apertar a mão da dona da casa, senti um choque elétrico e ela disse:

- Ai! Você está com eletricidade estática!

Percebi que as propriedades do chá passavam de mim para os outros, através do aperto de mão.

De repente, fui apresentada a um casal:

- Muito desprazer em conhecê-los!

- Igualmente! Já ouvi falar horrores da senhora! - me responderam.

Serviram o eterno uísque. Um convidado tomou o primeiro gole e exclamou:

- Mas que gosto de iodo! Você não tem vergonha de colocar uísque nacional em garrafa escocesa, Felisberta?

- E você pensa que vou gastar meu rico dinheirinho com um cafajeste como você? respondeu Felisberta, sorrindo amavelmente.

Serviram o jantar, e todos se atiraram em cima de duas galinhas assadas, que sumiram num instante. Sobrou somente a farofa. Uma senhora aproveitou a maionese da salada de batatas e passava no rosto da vizinha dizendo:

- Maionese é ótimo para suas profundas rugas, Marieta!

A copeira entrou, passando a língua sobre o pudim, sem a menor cerimônia, enquanto meu vizinho beliscava com força o braço do filhinho da anfitriã, um garotinho de cinco anos, dizendo:

- Mas que menino horrorosinho!

- Seu jantar estava péssimo! - elogiou uma senhora, dirigindo-se à dona da casa.

- Obrigada, mas o seu, na quarta-feira que passou, estava bem pior! - respondeu madame, acrescentando que era uma chateação ter que reunir toda aquela gente na sua casa, mas foi por insistência do idiota do marido.

- Ora, eu disse para você, querida, que era necessário convidar esta corja porque esta gente aí pode me ajudar a conseguir mais votos para a minha campanha eleitoral. Preciso ser reeleito, ainda não roubei o bastante para me aposentar, minha odiosa esposa!

Nisso, foi servido o café.

- Esta xícara está com cheiro de barata! - exclamei, sorridente.

O telefone tocou. Era para mim. Fui atender e ouvi uma risadinha.

- Quem fala? - perguntei.

- É o duende João. Acabou o encantamento, saúde!

E o telefone desligou-se, soltando uma estrela que virou coruja, e que piscava, piscava sumindo pela janela aberta.

- Foi tudo perfeito! - disse uma senhora, despedindo-se.

- Agradeço demais a sua amável presença, você está linda neste vestido! - retrucou a anfitriã.

- Mas o seu cafezinho tem um sabor maravilhoso! - menti.

Tinha terminado a magia, ninguém se lembrava das verdades acontecidas e faladas. Foi uma reunião encantadora...


P.S. - Acabei de ler, pelo telefone, este conto pra Yeda. Ela disse que gostou. Será que tomou o chá antes de responder... ou não?


Conto de Sylvia Orthof retirado do livro Papos de Anjo, Editora Record, Rio de Janeiro, 1987.