Naquele dia o casal desceu a escadaria, com exagerada cautela. Seu Manuel segurava firme o braço de D. Maria. Os olhos de ambos irradiavam completa felicidade. Riam à toa. Seu Manuel falou:
- Hoje mesmo ajustei uma criada.
- Não há necessidade, meu velho. Preciso fazer exercício. Não foi o que o médico recomendou?
- Sim, sim, mas não dessa natureza. Nada de excesso. Nos levantaremos cedo e faremos longas caminhadas, repetindo-as às tardes. Quero que nosso filho seja forte e bonito. Estes anos de ansiosa expectativa me bastaram. Agora que ele nos chega, é preciso ter todo cuidado.
Pobre seu Manuel! Parece que estava a adivinhar...
Lá foram os dois rumo a casa, abraçadinhos, achando o sol mais lindo que de costume, verdes, muito mais verdes as matas, a água do lago mais azulínea, as flores mais belas e mais perfumadas, os passarinhos mais cantadores e ligeiros que nunca.
D. Maria passou a ser tratada como criança mimada. Os menores desejos lhe eram satisfeitos.
Ia pelo sétimo mês de gravidez quando, apesar da criada, apesar dos cuidados excessivos de seu Manuel, apesar de caminhar cauteloso, D. Maria caiu. Caiu e que tombo... Ficou desacordada meia hora, e, três dias depois, adeus pimpolho tão desejado! Era uma vez um Joaquinzinho... Esse seria o nome dado à criança, em homenagem ao avô paterno.
O casal ficou desolado e sua tristeza atingiu o auge quando o médico afirmou que D. Maria jamais seria mãe.
Choraram desesperados, um abraçado ao outro. Os dias foram passando e como acontece sempre, os dois acabaram se consolando. D. Maria começou a dizer:
- Pela lua, hoje nosso filhinho viria ao mundo.
- Justo, justo. Como seria belo e fortinho. Que pena!
E seu Manuel suspirou fundo, tornando-se pensativo.
Uma semana mais tarde, D. Maria falou:
- Hoje Joaquinzinho completaria oito dias.
Seu Manuel respondeu:
- Justo, justo. Já estaria começando a ficar clarinho. Como seria lindo e perfeito.
Assim continuaram.
Joaquinzinho fez um, dois, três meses. Veio o primeiro dentinho, o segundo... Fez um ano, dois, três... Sofreu sarampo, catapora, coqueluche e todas as espécies de doenças infantis...
Quando Joaquinzinho estava com cinco anos de idade, grassou crupe na cidade. Seu Manuel, alarmado, falou para D. Maria:
- Minha velha, arrume as malas. Vamos passar uns dias fora, até passar a epidemia. Era o que faríamos se Joaquinzinho vivesse.
E foram. Joaquinzinho cresceu. Estudou. Nos exames foi sempre o primeiro. Formou-se. Fez o Serviço Militar, saindo com uma caderneta invejável.
Quando o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália, lá foi Joaquinzinho defender a Pátria. Ouvindo pelo rádio as mensagens que os pracinhas enviavam aos seus, D. Maria e seu Manuel choravam, fazendo pena a quem os visse.
D. Maria tricotava incansavelmente pulôveres, cachecóis, meias, despachando-os pelo Correio. Um dia o agente perguntou-lhe:
- Seu filho guerreia no estrangeiro, madame? D. Maria, embaraçando-se, respondeu:
- Sim e não.
O agente quis perguntar o sentido de tão estranha resposta, mas ela não lhe deu tempo, saindo apressada.
Quando terminou a guerra, em casa de D. Maria festejou-se o acontecido durante uma semana, bebendo-se vinho à vontade.
Joaquinzinho lutara como um bravo.
Ao aportar no Rio de Janeiro o primeiro navio, trazendo de volta os combatentes, o casal lá estava, esperando pelo filho. Chorava abraçados, comovendo até as pedras. Uma senhora indagou:
- Seu filho chega agora, madame?
Olhando enleada para seu Manuel, D. Maria falou:
- Se nosso Joaquinzinho vivesse, como herói, seria o último a chegar, não é, meu velho?
- Justo, justo. E como viria garboso com as medalhas no peito! Santo Deus! Seu Manuel suspirou fundo, tornando-se pensativo.
Permaneceram no Rio, até que o último navio proveniente da Europa atracasse, depois retornaram para casa, satisfeitíssimos.
Hoje Joaquinzinho está casado. Moram todos juntos. Sua esposa é boníssima. Combina muito com a sogra... Espera já o terceiro filhinho...
Conto de Ada Ciocci Curado publicado no livro O Sonho do Pracinha e Outros Contos. São Paulo, Revista do Tribunais, 1954. Retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos Anos Dez aos Sessenta, Organizado por Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, CEGRAF/UFG, Goiânia, 1993.
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