19 julho 2026

Miráculo-Verídico

Onde começa a verdade?

E a mentira, onde acaba?

Abracadabra!


Fadas e bruxas são personagens de contos infantis? Nem sempre, isso eu garanto. Porque estou lendo um livro cheio de mistérios, encantamentos, coisas do tempo do rei Arthur, aquele da távola redonda, pois é. E foi por causa do livro que, assim, nesta tarde de chuva petropolitana, peguei no telefone e liguei pra minha amiga Yeda. A gente ficou num tititi, numa conversa sem fim, nem começo... e de repente, peguntei pra ela se ela sabia de uma erva encantada que fizesse as pessoas dizerem a verdade verdadeira. Yeda, que tem um jeito peculiar de soltar cintilações pelos olhos, olhou assim para a minha voz, através do telefone, e eu tive a visão. Naquele momento, entendi que Yeda era uma fada, casada com um duende chamado João.

Aliás, foi por isso, naturalmente, que Yeda conseguiu me olhar através do telefone e chegou mesmo a me entregar, de súbito, pelo fio do telefone sem fio (credo!) um pequeno embrulhinho cor de açafrão, amarrado com um barbante violeta. O embrulho trazia um envelope e, dentro dele, uma espécie de bula, escrita em letras góticas, que dizia:


CHÁ MIRÁCULO-VERÍDICO

(manter longe do alcance de velhos)

Fórmula:

10 pingos de orvalho matinal

2 faíscas de sol

Extrato de alfablídeos

Aromatizante verdadeiro de artifícios frugais

Camomila vegetabilis


Precauções:

Nunca ingerir em festas familiares.


Atenção: 

Este chá, cujos três últimos ingredientes não trazem a quantidade usada (por motivo de sigilo e para evitar possíveis falsificações), foi confeccionado por mãos duendes, muito habilidosas, numa pequenina casa situada nas montanhas. O farmacêutico responsável chama-se João da Yeda.


Indicações: 

Para pessoas debilitadas pelo extenuante convívio social hipócrita das reuniões da classe média ascendente, onde é obrigatório o uso de uísque escocês, salgadinhos, conversas sobre o socialismo que todos mentem desejar etc.

Tomar três gotas antes da reunião, de preferência com o estômago cheio. Não misturar com bebida alcoólica.


Contraindicações:

- Pessoas hipertensas, alcoólatras, políticos em geral, gagos, mulheres na menopausa etc.

Este chá, por suas propriedades mágicas, dá um toque de originalidade a qualquer reunião melancólica, tornando-a altamente peculiar.


Naquele dia, eu estava convidada para um jantar que prometia ser dos mais aborrecidos. Resolvi, pois, com um certo receio, experimentar a poção. Confesso que estava com medo, pois não costumo me envolver assim, sem mais nem menos, nos perigos sedutores das magias. Por via das dúvidas, tomei um copo de leite morno antes, para ingerir o chá com o estômago cheio, conforme receitava a bula.

Quando acabei de tomar o líquido, que tinha um sabor de hortelã com baunilha, o telefone faiscou estrelas. Compreendi que eram os olhos de Yeda, que me viam telefonicamente, através dos poderes fadais e duendísticos.

Botei um vestido estampado, sapatos de verniz, chamei um táxi e fui para o jantar.

Logo ao apertar a mão da dona da casa, senti um choque elétrico e ela disse:

- Ai! Você está com eletricidade estática!

Percebi que as propriedades do chá passavam de mim para os outros, através do aperto de mão.

De repente, fui apresentada a um casal:

- Muito desprazer em conhecê-los!

- Igualmente! Já ouvi falar horrores da senhora! - me responderam.

Serviram o eterno uísque. Um convidado tomou o primeiro gole e exclamou:

- Mas que gosto de iodo! Você não tem vergonha de colocar uísque nacional em garrafa escocesa, Felisberta?

- E você pensa que vou gastar meu rico dinheirinho com um cafajeste como você? respondeu Felisberta, sorrindo amavelmente.

Serviram o jantar, e todos se atiraram em cima de duas galinhas assadas, que sumiram num instante. Sobrou somente a farofa. Uma senhora aproveitou a maionese da salada de batatas e passava no rosto da vizinha dizendo:

- Maionese é ótimo para suas profundas rugas, Marieta!

A copeira entrou, passando a língua sobre o pudim, sem a menor cerimônia, enquanto meu vizinho beliscava com força o braço do filhinho da anfitriã, um garotinho de cinco anos, dizendo:

- Mas que menino horrorosinho!

- Seu jantar estava péssimo! - elogiou uma senhora, dirigindo-se à dona da casa.

- Obrigada, mas o seu, na quarta-feira que passou, estava bem pior! - respondeu madame, acrescentando que era uma chateação ter que reunir toda aquela gente na sua casa, mas foi por insistência do idiota do marido.

- Ora, eu disse para você, querida, que era necessário convidar esta corja porque esta gente aí pode me ajudar a conseguir mais votos para a minha campanha eleitoral. Preciso ser reeleito, ainda não roubei o bastante para me aposentar, minha odiosa esposa!

Nisso, foi servido o café.

- Esta xícara está com cheiro de barata! - exclamei, sorridente.

O telefone tocou. Era para mim. Fui atender e ouvi uma risadinha.

- Quem fala? - perguntei.

- É o duende João. Acabou o encantamento, saúde!

E o telefone desligou-se, soltando uma estrela que virou coruja, e que piscava, piscava sumindo pela janela aberta.

- Foi tudo perfeito! - disse uma senhora, despedindo-se.

- Agradeço demais a sua amável presença, você está linda neste vestido! - retrucou a anfitriã.

- Mas o seu cafezinho tem um sabor maravilhoso! - menti.

Tinha terminado a magia, ninguém se lembrava das verdades acontecidas e faladas. Foi uma reunião encantadora...


P.S. - Acabei de ler, pelo telefone, este conto pra Yeda. Ela disse que gostou. Será que tomou o chá antes de responder... ou não?


Conto de Sylvia Orthof retirado do livro Papos de Anjo, Editora Record, Rio de Janeiro, 1987.

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