19 julho 2026

Coisas que sabemos

Eu não penso mais nisso agora, mas nós sabemos como foi. Sabemos de tudo. As pessoas que estavam lá naquele tempo sabem o mesmo que eu e você. As pessoas que andaram por lá depois também sabem. É impossível não saber.

Aquilo foi diferente de tudo e até agora, nas noites em que não posso dormir, imagino os gritos e o barulho como se fossem pedras imensas sendo partidas. Nas noites em que não posso dormir, ouço esse barulho como se fosse agora.

Não havia nada que pudesse ser feito e todos nós sabíamos disso. Eu sabia e você também. Não havia nada que pudesse ser feito.

Pelas noites, em toda a cidade, se ouviam gritos e o barulho de pedras partindo. Havia os grandes estalos seguidos e eu imaginava o caminho reto e picotado daquele fogo noturno, como o mastigar de um grande bicho. Nos telhados os rapazes atiravam enquanto todos sabiam que não havia nada que pudesse ser feito. Mas eles estavam dispostos a tudo e já não pensavam mais.

Nos dias seguintes apareceram os corpos no rio. Vinham pela correnteza, gordos, inchados, azulados.

Naqueles dias as pessoas se debruçavam na amurada das pontes e contavam os cadáveres. Algumas mulheres choravam e gritavam, e esse é o grito que ouço nas noites em que não posso dormir.

Algumas mulheres viam os corpos e contavam em voz alta. Era como uma antiga ladainha alucinada.

Uma tarde, entre os corpos, veio flutuando o de um cão inchado. Havia também um resto de cama. Então a mulher apontou o cão e começou a rir, primeiro baixinho, e depois esse riso foi crescendo até se transformar em um uivo sem-fim.

Ela estava na ponte contando os cadáveres há três dias e duas noites.

Quando veio rodando o corpo inchado do cão batendo contra a madeira do resto da cama, o som da cabeça contra a madeira molhada como um fruto caindo no barro mole, a mulher começou a rir. Era muito divertido. Não havia nada mais divertido. Não havia nada que pudesse ser mais engraçado.

Com o tempo os cadáveres começaram a desaparecer, até que não se contavam mais.

Aos poucos as pessoas abandonaram as pontes e mataram sua espera. Mas a mulher continuou muitos dias mais, mesmo quando não havia mais cadáveres e o rio voltou a ser apenas um rio sujo outra vez.

Ela estava lá, sozinha, parada, e de vez em quando começava aquele riso outra vez.

Ela estava lá parada, sozinha, quando vieram os soldados para buscá-la.


Conto de Eric Nepomuceno retirado do livro A Palavra Nunca, Editora Francisco Alves/Editora da UFSCar, Rio de Janeiro, 1997.

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