A EMPRESA FALA POR MEIO DO SENSO DE COMUNIDADE COMPARTILHADO PELOS EMPREGADOS
A entrada de um profissional na empresa ocorre formalmente em seu primeiro dia de trabalho. Ainda é registrada em um instrumento chamado Carteira de Trabalho, que os arqueólogos no futuro custarão a identificar.
Há um tempo decorrido entre começar a trabalhar e se sentir parte da empresa. Esse tempo é curto em empresas que são verdadeiramente ótimos lugares para trabalhar, apesar desta denominação imprecisa. Quanto pior o lugar, maior esse tempo. Em organizações nas quais a conduta em gestão de pessoas é débil, profissionais saem sem jamais ter se sentido parte delas. Em tal ambiente não há tempo nem interesse, de ambos os lados, de discutir a relação, de participar. Um relacionamento recíproco, enfim.
Como perceber se uma pessoa está integrada ao espaço organizacional? Há sinais diversos. Um deles, muito valorizado, é a participação dos novos colegas de empresa em atividades sociais fora do trabalho, particulares, familiares. Isso é cada vez mais raro.
Um outro sinal destaca o nível de aculturação: grupos sociais diferentes usam formas de falar diferentes. Se pertenço ao grupo, adoto a forma de falar do grupo. A chamada "lealdade linguística" é uma consciência de comunidade, ainda que imaginária. O falar organizacional dita não somente acrônimos, mas também as expressões e o tom. Ressalto que as formas de comunicação não são portadoras neutras de informações. Por isso há de se perceber que mensagens essas formas trazem, o quanto de cultura traduzem.
As variedades da fala têm importância social. Há registros de que foi no século 16, na Itália, que a Língua passou a ser considerada um fenômeno destacadamente social. Um sociolinguista da época, Vincenzo Borghini, observou que os camponeses toscanos conversavam menos com estrangeiros do que os citadinos e que, por esse motivo, mudavam menos.
Os sociolinguistas usam a noção de diversidade para tecer relações entre as Línguas e as sociedades nas quais são faladas ou escritas. Oferecem aos historiadores uma conscientização sobre "quem fala qual Língua, para quem e quando".
Para os historiadores continua o desafio de explicar de que forma algumas Línguas se difundiram, tanto geograficamente como socialmente, e outras não.
Um falar comum pode existir com conflitos sociais. Católicos e protestantes da Irlanda têm o mesmo sotaque, além do mesmo bom gosto para cerveja. Mas se as questões seculares não promoveram a harmonia, quem poderá?
Texto de Luís Adonis Valente Correia retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano I, Número 11, Setembro de 2006, Editora Segmento, São Paulo.
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