ENCANTADO COM SUA EXPRESSIVIDADE, DIFICILMENTE QUEM USA UMA LOCUÇÃO PROCURA AS RAZÕES QUE MOTIVARAM SUA EXISTÊNCIA
Elas afloram constantemente na fala das pessoas sem que seus usuários se incomodem em descobrir-lhes as origens: contentam-se estes com a expressividade e com a força comunicativa que elas imprimem à expressão de suas mensagens. O emprego delas é hoje mais raro do que antigamente, e o fato se explica porque a modernidade, diminuídos o gosto e o contato da leitura, recebe menos a influência do texto escrito sobre o texto oral. Daí também se explica o emprego das locuções ser mais frequente entre os idosos.
A toda hora se ouve: dizer cobras e lagartos de alguém, ele é cheio de nove horas, isso são favas contadas, achar-se em camisa de onze varas. Dificilmente quem as usa para e procura a razão ou a origem delas; contenta-se com a força expressiva que empresta a seus dizeres.
E, realmente, é tarefa complicada investigar as razões que as motivaram. Na busca da etimologia - ou origem de uma palavra -, conta o investigador, quase sempre, com o testemunho direto ou indireto do idioma de onde procedeu o termo. Para a busca de explicação de uma dessas locuções, abre-se diante do pesquisador um largo panorama de possíveis soluções.
As locuções se originam em associações psicológicas, em fatos históricos, em alusões literárias ou mitológicas, em comparações com todos os reinos da natureza, em etnologia e em muitos mais recantos do saber, da criatividade e da imaginação humana revelados pelo folclore.
Por tudo isso, o campo do estudo dessas locuções, expressões, frases feitas, sentenças proverbiais - Paremiologia ou Fraseologia - requer profunda cultura, como demonstraram os estudos dos primeiros investigadores portugueses e brasileiros, entre os quais merecem lugar especial Adolfo Coelho, Leite Vasconcelos, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, João Ribeiro, Alberto Faria, Lindolfo Gomes, Câmara Cascudo.
Dizer cobras e lagartos de alguém talvez deva sua origem a cobra, variante fonética de copla, que servia de denominação para vários tipos de estrofes de poesia. Assim, dizer de alguém copla satírica era o mesmo que falar mal de alguém; cobra por copla teria dado a expressão dizer de alguém cobra. Esquecida a primitiva significação de cobra como variante de copla, entendida agora como o conhecido réptil, logo se associou à locução a ideia de palavras "venenosas" contra alguém, próprias de uma língua viperina (de serpente).
Abria-se o caminho para a entrada de lagarto na locução (dizer de alguém cobras e lagartos), cumprindo a tendência de construção de frases populares com arredondamento binário do tipo a ferro e fogo, são e salvo, aos trancos e barrancos, de seca a meca, a trouxe-mouxe e tantíssimos assemelhados.
Outros estudiosos, como Leite de Vasconcelos, não acreditam numa explicação pela história literária, mas no campo do folclore. A vivência do povo atribui a tais animais a propriedade do veneno. Daí a explicar a locução como expressão máxima da maledicência. Comecemos pela alusão da maldade ao enganar Eva, no paraíso. Como lagarto é companheiro constante nas malvadezas da serpente, isso explica a sua presença na expressão dizer de alguém cobras e lagartos.
Estão aí duas soluções plausíveis para estabelecer a origem da frase feita.
Se nossa curiosidade recai na locução ele é cheio de nove horas, a lição de Câmara Cascudo nos parece perfeitamente válida quando a relaciona à época, da Idade Média até o século 19, em que era de bom-tom entre as famílias o recolher-se à intimidade do lar. Era a hora do término das visitas educadas, do procurar a casa para o descanso do dia ou da folgança noturna. Respeitar as nove horas era sinal de boa educação e da boa convivência entre cidadãos. Desse conceito facilmente se passa à ideia da pessoa de extremada educação, chegando às raias de pessoa sestrosa, seguidora e ditadora de regras infalíveis e rígidas lições de comportamento a segundos e terceiros: um autêntico cheio de nove horas.
Texto de Evanildo Bechara retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 6, Editora Segmento, São Paulo, Abril de 2006.
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