Muito bem, então por meio da clonagem podemos criar uma cópia idêntica de qualquer pessoa! Essa visão simplista da clonagem vem suscitando ideias fantasiosas de ressurreição de pessoas "interessantes" (para alguns, Mozart; para outros, Hitler), ou mesmo de um filho querido já morto. E a reversão da morte é de fato uma coisa irresistível.
Mas o clone será exatamente um clone? Ele será uma cópia idêntica do clonado - de sua matriz? Terá o mesmo físico, o mesmo tipo de cabelo, cor de olhos, temperamento, inteligência, gostos, aptidão? Sim, não - não sei. Recapitulando: o clone possui exatamente os mesmos genes que sua matiz. Se o genes determinam todas as nossas características físicas e, quem sabe, até as psíquicas, o clone será, de fato, idêntico à matriz, certo? Errado. Estamos esquecendo de uns temperos muito importantes, que não estão escritos nos genes, mas que dão uma graça toda especial a cada um de nós: o meio ambiente, as nossas experiências de vida.
Muitas das nossas características são influenciadas também pelo ambiente. Um exemplo óbvio é a cor da pele. Irmãos gêmeos idênticos, clones naturais, possuem exatamente os mesmos genes de cor de pele. No entanto, dependendo do estilo de vida de cada um - se um ama pegar ondas e o outro prefere a leitura, por exemplo -, eles terão cores de pele bem diferentes. Da mesma maneira, a alimentação na primeira infância é um fator decisivo no desenvolvimento neurológico de um bebê, e terá enorme influência no QI do indivíduo adulto. Essa alimentação estava escrita nos genes do bebê? Não.
Ainda é difícil estimar quanto a genética e o estilo de vida influenciam cada uma das nossas características. Mas mesmo diferenças sutis de condições e de experiências de vida são suficientes para imprimir características individuais em pessoas com genomas idênticos.
Assim, apesar de o clone ser uma cópia geneticamente idêntica do clonado, suas experiências de vida particulares influenciarão uma série de características de uma forma que não podemos prever. Pense apenas em todos os parentes, amigos, professores, enfim, todas as pessoas que passaram por sua vida. Tudo o que aconteceu perto de você e no mundo durante a sua vida. Eles deixaram diversas marcas, influenciando muito quem você é hoje em dia. Reproduzir a sua genética agora é fácil com a clonagem... Mas como reproduzir essa rede tão complexa de relações e experiências de vida?
Que decepção! Por um momento, pensamos que com a clonagem tínhamos finalmente conseguido driblar a cruel irreversibilidade da morte... Mas não faz mal - a clonagem com fins reprodutivos não é mesmo para ser feita. E por outro lado, com a clonagem terapêutica - apesar de não "ressuscitarmos" ninguém - melhoraremos a qualidade de vida de todos nós!
Texto de Lygia da Veiga Pereira (Geneticista, pesquisadora do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências da USP); retirado da Revista Galileu, Ano 11, Número 123, Outubro de 2001, Editora Globo, Rio de Janeiro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário