De repente, ela começou a sentir dores. Ia ter um bebê. Estava fraca. Aos poucos, os parentes percebiam a situação complicada. Aproximavam-se e tentavam dar apoio. Após alguns minutos de apreensão e muito esforço, o bebê nascia saudável e, em pouco tempo, já estava no colo da mãe.
Essa história aconteceu há alguns anos no Centro de Primatologia do Rio de Janeiro. Graças ao trabalho de uma equipe de primatólogos, tudo não passou de um susto. Primatologia? Primatólogos? Mas o que isso tem a ver? Muita coisa, afinal, quem acabara de ter o filho não era uma mulher, mas uma macaca. Então é isso! Primatólogo é o profissional que estuda os primatas!
O nascimento de um macaco é mesmo muito parecido com o do homem. E as semelhanças não param por aí. "O cuidado na criação dos filhotes, a reação dos pais, a forma física, muita coisa se parece", diz Alcides Pissinatti, um dos primeiros primatólogos brasileiros, atualmente, presidente do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro.
Quem acha que trabalho de primatólogo é comparar macaco com homem está enganado. A ressalva é de Luiz Dias, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Quando criança, ele morava perto de um parque estadual em Belo Horizonte e volta e meia via um macaco diferente. Então, decidiu estudar Biologia. "Minhas maiores emoções até hoje foram quando vi um macaco-muriqui, espécie muito rara, cair em cima do meu ombro e quando entrei em uma reserva pela primeira vez."
Mal sabia que a aventura estava apenas começando. Imagine que o Luiz já ficou mais de um ano acampado em uma reserva ecológica para observar os macacos! Longe de casa, do barulho dos carros e da fumaça da cidade. Agora, ele se prepara para mais um desafio: ficar um ano e meio dentro da reserva!
Luiz vai fazer o chamado trabalho de campo, que é a observação das espécies em local aberto. Outro tipo de atividade é a pesquisa em lugar cercado, o cativeiro. "Lá, estimulamos a inteligência e agilidade do animal. Escondemos a comida, fazemos gangorra de pneus e colocamos cordas para brincarem. Com isso, avaliamos o comportamento deles", diz Luiz.
Mas não pense que é fácil se tornar primatólogo. Lembra que o Luiz se formou em Biologia? Pois é. Como não há especialização em primatologia no Brasil, é preciso repetir nos estudos o que os macacos costumam fazer tão bem: pular de galho em galho. "Somos profissionais que se formam por conta própria. Desde que iniciamos essa atividade no Brasil, nos anos 70, nunca existiu um curso de formação em primatologia. Então, tem de ser na prática mesmo", diz Alcides Pissinatti.
Prática, aliás, é o que não falta para o Alcides. Ele tinha acabado de se formar em veterinária quando seu amigo, o professor Adelmar Coimbra, fez o convite para montarem um local de estudos de primatas no Rio de Janeiro. Nascia ali o primeiro Centro de Primatologia do Brasil. "Percebia que muita gente matava ou vendia micos-leões-dourados. Isso me motivou a trabalhar pela conservação dos primatas."
Como não há especialização em primatologia, a primeira coisa para quem quer se tornar primatólogo é escolher uma profissão que tenha a ver com animais. Pode ser biólogo, como o Luiz, veterinário, como o Alcides, antropólogo, ecólogo, médico, farmacêutico. Aí, é só colocar a mão na massa, porque o que não falta é trabalho!
O primatólogo pode estudar a fisiologia dos primatas (funcionamento do seu organismo), sua anatomia (característica do corpo), genética, demografia (quantidade de macacos em determinada região) ou hábitat (moradia). Isso, só para citar alguns exemplos!
Para trabalhar, os locais são: institutos de pesquisa, fundações de preservação de animais e universidades.
Apesar das dificuldades para se tornar um profissional e de se tratar de uma área ainda pouco conhecida, a primatologia tem tudo para crescer. Afinal, quem nunca ficou com o olhar perdido nos macacos do zoológico, pensando como seria bom conhecê-los mais de perto e entender por que eles se parecem tanto com a gente?
Texto de Rafael Barros retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 144, Março de 2004.
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