15 junho 2020
Fora da Ordem
14 junho 2020
Trecho 260 de O Livro do Desassossego
Tenho a chave para a porta do meu tema. Escrevo e choro a minha infância perdida; demoro-me comovidamente sobre os pormenores de pessoas e mobília da velha casa da província; evoco a felicidade de não ter direitos nem deveres, de ser livre por não saber pensar nem sentir - e esta evocação, se for bem feita como prosa e visões, vai despertar no meu leitor exatamente a emoção que eu senti, e que nada tinha com infância.
Menti? Não, compreendi. Que a mentira, salvo a que é infantil e espontânea, e nasce da vontade de estar a sonhar, é tão-somente a noção da existência real dos outros e da necessidade de conformar a essa existência a nossa, que se não pode conformar a ela. A mentira é simplesmente a linguagem ideal da alma, pois, assim como nos servimos de palavras, que são sons articulados de uma maneira absurda, para em linguagem real traduzir os mais íntimos e sutis movimentos da emoção e do pensamento, que as palavras forçosamente não poderão nunca traduzir, assim nos servimos da mentira e da ficção para nos entendermos uns com os outros, o que, com a verdade, própria e intransmissível, se nunca poderia fazer.
A arte mente porque é social. E há só duas grandes formas de arte - uma que se dirige à nossa alma profunda, a outra que se dirige à nossa alma atenta. A primeira é poesia, o romance a segunda. A primeira começa a mentir na própria estrutura; a segunda começa a mentir na própria intenção. Uma pretende dar-nos a verdade por meio de linhas variadamente regradas, que mentem à inerência da fala; outra pretende dar-nos a verdade por uma realidade que todos sabemos bem que nunca houve.
Fingir é amar. Nem vejo nunca um lindo sorriso ou um olhar significativo que não medite, de repente, e seja de quem for o olhar ou o sorriso, qual é, no fundo da alma em cujo rosto se sorri ou olha, o estadista que nos quer comprar ou a prostituta que quer que a compremos. Mas o estadista que nos compra amou, ao menos, o comprar-nos; e a prostituta, a quem compremos, amou ao menos, o comprarmo-la. Não fugimos, por mais que queiramos, à fraternidade universal. Amamo-nos todos uns aos outros, e a mentira é o beijo que trocamos.
Trecho número 260 de "O Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa.
30 dezembro 2016
De Cada Lado
O mundo é resultado dos contrários
Da força dos leões e dos otários
Da selva dimonistas e sectários
Das pedras no caminho
O mundo é uma flor e é o espinho
Viver é ser na multidão sozinho
Um passo para frente é outro abandonado
No mundo uma ilusão de cada lado
Casa de ferreiro, espeto de pau
Casa de misericórdia, miséria total
Casa de candango, candombe e cal
Casa de abstinência, folia total
Deixa nossa porta aberta
Deixa de brincar de fé, se vai jogar o jogo
Deixa de bater o pé, se é pra fazer de novo
Deixa de como é que é, se tudo é perigoso
Logo venha o que vier
Música de Magno Mello, Kadu Vianna e Pedro Moraes que abre o CD " O que eu tenho pra dizer ", lançado em 2010 por Izzy Gordon.
O Ponto
No começo era um ponto
Que surgiu, pontuou
E assim, ponto a ponto
Ao ponto se juntou
Uma teia de pontos
Juntos tanto e a ponto
De tudo ser só um ponto
É só um ponto de vista
Um ponto de partida
A que ponto chega o artista
Nessa louca arte da vida?
Não me aponte tanto assim
Nem me classifique em pontos
Um ponto final é o fim
Pra explicar já são dois pontos
Não me toque nesse ponto
Que esse ponto vai doer
Quando chega a esse ponto
A ponto de enlouquecer
É melhor por logo um ponto
Um ponto pra resolver
É só um ponto de vista
O ponto de partida
A que ponto chega o artista
Nessa louca arte da vida?
Música de Jairo Cechin que faz parte do CD "Quem Sou Eu", de Ully Costa, lançado em 2012.
As Sílabas
Cantiga diga lá
A dica de cantar
O dom que o canto tem
Que tem que ter se quer encantar
Só que as sílabas se embalam
Como sons que se rebelam
Que se embolam numa fila
E se acumulam numa bola
Tem sílabas contínuas:
Ia indo ao Piauí
Tem sílabas que pulam:
Vox populi
Tem sílaba que escapa
Que despenca
Rola a escada
E no caminho
Só se ouve
Aquele boi bumbá
Tem sílaba de ar
Que sopra sai o sopro
E o som não sai
Tem sílaba com "s"
Não sobe não desce
Tem sílaba legal
Consoante com vogal
Tem sílaba que leve oscila
E cai como uma luva na canção
Cantiga diga lá
A dica de cantar
Cantiga diga lá
A dica de cantar
O dom que o canto tem
Que tem que ter se quer encantar
Música de Luiz Tatit que abre o CD "As Sílabas", de Suzana Salles, lançado em
2001.
30 novembro 2016
Partículas de Amor
Atalhos
Márcia Castro/Arruda
A Flor
" A flor de que era feito o nosso amor
Molhou-se com a chuva
Gelou de tanto frio e mesmo assim
Não se quebrou
Oh! Flor
Se lhe maltratarem só por mal
Torna-se um translúcido cristal
Se lhe vem com crueldades
Exala teu perfume pra toda a cidade
Oh! Flor
Nascida de um peito sem graça e sem jeito
Sem nenhum espinho
Somente carinho e amor
Oh! Flor
A flor de que era feito o nosso amor
Molhou-se com a chuva
Gelou de tanto frio e mesmo assim
Não se quebrou
Oh! Flor
Mesmo em pleno mar de imensa dor
Queima tua chama com fervor
Se a morte a levar na correnteza
Brilhará no céu mais uma nova Estrela Flor
Mesmo se os anos passarem ciganos
Mesmo que os homens esqueçam tua cor
A flor de que era feito o nosso amor
Molhou-se com a chuva
Gelou de tanto frio e mesmo assim...
Desabrochou "
música de Fernando Figueiredo, do CD Batuque de Virgínia Rosa, lançado em 1997.
Flores e Bocas
Trazendo um sorriso de melhor amigo
Sorrisos são bocas em flor
Tão bom ter você do meu lado
Com jeito de apaixonado
Pra gente dividir o indivisível
Sonhar aquele sonho quase impossível
Seja como for
Foi bom você ter chegado
Assim meio inesperado
Eu tava perdido, trancado, sozinho
Contando as gotas da dor
Se você me chama, eu vou
Se você me pede, eu sou
Seu melhor amigo
Responda ao sorriso
Sorrisos são bocas em flor
Agora que a chuva passou
Das nossas sementes
Corações e mentes
Algo de novo brotou
Algo de novo brotou
Seu melhor amigo
Responda ao sorriso
Sorrisos são bocas em flor "
Composição de Fernando Figueiredo que faz parte do CD 1º de Mônica Tomasi, de 1996.
30 outubro 2016
Família
Família, família,
Papai, mamãe, titia,
Família, família,
Almoça junto todo dia,
Nunca perde essa mania.
Mas quando a filha quer fugir de casa
Precisa descolar um ganha-pão
Filha de família se não casa
Papai, mamãe, não dão nenhum tostão.
Família ê
Família á
Família.
Família, família,
Vovô, vovó, sobrinha.
Família, família,
Janta junto todo dia,
Nunca perde essa mania.
Mas quando o nenê fica doente
Procura uma farmácia de plantão
O choro do nenê é estridente
Assim não dá pra ver televisão.
Família ê
Família á
Família.
Família, família,
Cachorro, gato, galinha.
Família, família,
Vive junto todo dia,
Nunca perde essa mania.
A mãe morre de medo de barata
O pai vive com medo de ladrão
Jogaram inseticida pela casa
Botaram cadeado no portão.
Família ê
Família á
Família
Música de Arnaldo Antunes e Toni Belloto; faz parte do LP Cabeça Dinossauro, dos Titãs, lançado em 1986.