14 junho 2020

Trecho 260 de O Livro do Desassossego

" A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. O que sinto, na verdadeira substância com o que sinto, é absolutamente incomunicável; e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é. Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, quer dizer tais coisas como sendo as que sinto, que ele, lendo-as, sinta exatamente o que eu senti. E como este outrem é, por hipótese de arte, não esta ou aquela pessoa, mas toda a gente, isto é, aquela pessoa que é comum a todas as pessoas, o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano típico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti.
Tudo quanto é abstrato é difícil de compreender, porque é difícil de conseguir para ele a atenção de quem o leia. Darei, por isso, um exemplo simples, em que as abstrações que formei se concretizarão. Suponha-se que, por um motivo qualquer, que pode ser o cansaço de fazer contas ou o tédio de não ter que fazer, cai sobre mim uma tristeza vaga da vida, uma angústia de mim que me perturba e inquieta. Se vou traduzir esta emoção por frases que de perto a cinjam, quanto mais de perto a cinjo, mais a dou como propriamente minha, menos, portanto, a comunico a outros. E, se não há comunicá-la a outros, é mais justo e mais fácil senti-la sem a escrever.
Suponha-se, porém, que desejo comunicá-la a outros, isto é, fazer dela arte, pois a arte é a comunicação aos outros da nossa identidade íntima com eles; sem o que nem há comunicação nem necessidade de a fazer. Procuro qual será a emoção humana vulgar que tenha o tom, o tipo, a forma desta emoção em que estou agora, pelas razões inumanas e particulares de ser um guarda-livros cansado ou um lisboeta aborrecido. E verifico que o tipo de emoção vulgar que produz, na alma vulgar, esta mesma emoção é a saudade da infância perdida.
Tenho a chave para a porta do meu tema. Escrevo e choro a minha infância perdida; demoro-me comovidamente sobre os pormenores de pessoas e mobília da velha casa da província; evoco a felicidade de não ter direitos nem deveres, de ser livre por não saber pensar nem sentir - e esta evocação, se for bem feita como prosa e visões, vai despertar no meu leitor exatamente a emoção que eu senti, e que nada tinha com infância.
Menti? Não, compreendi. Que a mentira, salvo a que é infantil e espontânea, e nasce da vontade de estar a sonhar, é tão-somente a noção da existência real dos outros e da necessidade de conformar a essa existência a nossa, que se não pode conformar a ela. A mentira é simplesmente a linguagem ideal da alma, pois, assim como nos servimos de palavras, que são sons articulados de uma maneira absurda, para em linguagem real traduzir os mais íntimos e sutis movimentos da emoção e do pensamento, que as palavras forçosamente não poderão nunca traduzir, assim nos servimos da mentira e da ficção para nos entendermos uns com os outros, o que, com a verdade, própria e intransmissível, se nunca poderia fazer.
A arte mente porque é social. E há só duas grandes formas de arte - uma que se dirige à nossa alma profunda, a outra que se dirige à nossa alma atenta. A primeira é poesia, o romance a segunda. A primeira começa a mentir na própria estrutura; a segunda começa a mentir na própria intenção. Uma pretende dar-nos a verdade por meio de linhas variadamente regradas, que mentem à inerência da fala; outra pretende dar-nos a verdade por uma realidade que todos sabemos bem que nunca houve.
Fingir é amar. Nem vejo nunca um lindo sorriso ou um olhar significativo que não medite, de repente, e seja de quem for o olhar ou o sorriso, qual é, no fundo da alma em cujo rosto se sorri ou olha, o estadista que nos quer comprar ou a prostituta que quer que a compremos. Mas o estadista que nos compra amou, ao menos, o comprar-nos; e a prostituta, a quem compremos, amou ao menos, o comprarmo-la. Não fugimos, por mais que queiramos, à fraternidade universal. Amamo-nos todos uns aos outros, e a mentira é o beijo que trocamos.

Trecho número 260 de "O Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa.

14 janeiro 2017

Medo de quê?

 A recusa ao diferente diz respeito não apenas àquele que exclui, ofende e muitas vezes comete violência física, mas também à sociedade que gerou valores que padronizam o amor e o prazer


Em 2010, uma palavra tomou conta dos noticiários televisivos no horário nobre, ao menos por alguns dias: homofobia. Essa repercussão foi uma reação a alguns crimes de grande visibilidade, com o ponto em comum de serem dirigidos contra jovens gays, em áreas nobres de grandes cidades brasileiras. Os debates se multiplicaram na internet, nos jornais impressos, nos programas de rádio e televisão; desde então, a palavra retorna na pauta de tempos em tempos. No ar e na telinha, paira uma sensação de medo e insegurança (Cassal, 2012).

De acordo com Borrilo, a homofobia "pode ser definida como hostilidade geral, psicológica e social contra aquelas e aqueles que, supostamente, sentem desejo ou têm práticas sexuais com indivíduos de seu próprio sexo. Forma específica de sexismo, a homofobia rejeita igualmente, todos aqueles que não se conformam com o papel predeterminado para seu sexo biológico". Um grande conceito que nomeia sentimentos e práticas de exclusão, violência, repulsa e eliminação de pessoas com práticas sexuais ou manifestações de gênero que não correspondam às normas sociais vigentes.

As notícias de homofobia invadem nossas casas. No domingo, na paz do almoço de família, aquela prima que você não gosta resolve comentar os noticiários: "Tá vendo, quem mandou dar pinta na rua. Tava pedindo. Era só se comportar, tipo meu amigo Fabinho. Quem olha até pensa que ele é homem".

A frase da prima ecoa na sala de jantar, no trabalho, no jornal e na televisão. Mulheres e homens cultos, educados e bem-vestidos ficam horrorizados ora com a barbaridade do ato, ora com a ousadia da existência da diferença no espaço público. Mas a violência se repete demais para ser dado de um preconceito individual. Trata-se de punição aos sujeitos desviantes das normas sexuais e de gênero, para eliminação dos seus modos de existência. Em vários casos de homofobia, trata-se do assassinato de corpos mas, em muitos acontecimentos de cotidiano, é apenas um ajuste, um lembrete, uma correção. Quando especialistas e o senso comum concordam que um jovem gay deve "saber se comportar" em espaço público, para sua própria proteção, o discurso homofóbico legitima a agressão física e transforma vítimas em responsáveis individuais. O tiro, a faca, o discurso e a lâmpada esquartejam pessoas por conta do desejo e atingem a todos nós: matam as possibilidades.


CONTROLE DOS CORPOS

A escolha da orientação sexual e da identidade de gênero para categorização das pessoas agredidas não se dá por acaso. O filósofo francês Michel Foucault explica que o século XVIII inaugurou um novo modo de organização das relações de poder, através da gestão controlada da vida. Nesse ponto, a sexualidade ocupa uma posição estratégica, pois possibilita regular ao mesmo tempo os corpos individuais e o desenvolvimento da população. Esse controle se dá através de normas; assignam de forma radicalmente diferente os corpos femininos e masculinos, que devem se unir em matrimônio com fins de reprodução. Mais do que prescrever, esse sistema de regras busca e investiga os desvios; transforma em manuais de psiquiatria, psicologia, medicina e pedagogia.

O poder explica, explicita, obriga os sujeitos a deporem minuciosamente sobre seus atos. Molda o modo como vivemos: nossos desejos, nossas questões e curiosidades. A partir das categorizações do século XVIII, a recém-criada psiquiatria constrói inúmeras categorias patológicas, inclusive a homossexualidade (que foi retirada da Classificação Internacional de Doenças - CID em 1990) e a transexualidade (que permanece até hoje na CID). Isso significa que, até hoje, o desejo sobre o próprio corpo, e em relação a outros corpos, é designado como doença, e um critério para inúmeras violências e violações de direitos. Trata-se de deslegitimar as pessoas a falarem de si próprias. No caso da homossexualidade, a identificação como patologia marcou esses sujeitos enquanto potencialmente perigosos, mentirosos, loucos, perversos: a psicologia e as ciências humanas se dedicaram muito para construir o homossexual como personagem que precisa de tratamento (Hocquenghem, 2009). Essa vontade de saber não é ingênua ou por acaso. Trata-se de um regime de poder que produz nossos corpos e desejos de forma padronizada.

A retirada da homossexualidade da CID foi resultado de décadas de luta de movimentos sociais. Entretanto, a transexualidade continua registrada como uma patologia, o que condiciona acesso a direitos como o de identidade e saúde à identificação como doente. Por isso, pessoas que vivenciam a transexualidade, unidas a militantes de vários gêneros e orientações sexuais, seguem na luta pela sua despatologização. Além disso, a homossexualidade continua em disputa clínica: desde a mudança do CID, há inúmeras denúncias de práticas profissionais de "conversão" de homossexuais, com o suposto objetivo de torná-los heterossexuais.

Por conta deste quadro, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) promulgou a Resolução 01/1999, a qual afirma a homossexualidade como orientação sexual e, por não se configurar uma patologia, nenhum psicólogo pode propor qualquer tipo de "cura". Mesmo assim, há diversas denúncias por conta de profissionais que propõem uma suposta "conversão" à norma. Processados eticamente pelo CFP, como prevê a legislação, esses psicólogos afirmam que o conselho os impede de acolher o sofrimento de seus pacientes homossexuais - ou de seus parentes preocupados, especialmente no caso de crianças e adolescentes que não atendem às expectativas de gênero. Ora, mas de que padecem os homossexuais que procuram os consultórios psicológicos?


DE QUE SOFREM OS HOMOSSEXUAIS?

Os homossexuais que pedem voluntariamente para tornarem-se heterossexuais não são considerados loucos, mas sofrem a dor de seus amores. Mas essa dor está marcada no corpo em silêncios, violências, agressões, xingamentos, exclusões. No assassinato de um homossexual a cada 24 horas, na demissão compulsória, no impedimento de gays doarem sangue, no estupro corretivo sofrido por lésbicas. Do mesmo modo, sofrem suas famílias, com medo da violência, da exclusão, dos assassinatos, das notícias de jornal. O flagelo que atinge esses sujeitos não é a homossexualidade em si, e sim os efeitos sociais construídos a partir das normatizações sexuais. Ao complexificar o olhar, podemos afirmar que homossexuais sofrem, enfim, de homofobia. Inclusive a homofobia praticada pela psicologia da "conversão sexual", que hostiliza e rejeita seus modos de existência ao designá-los como patológicos, anormais e passíveis de correção. Baseada no sofrimento e maquiada de boas intenções, essa psicologia discriminatória ganha cada vez mais espaço e institucionalidade, e legitima os assassinatos.

Muitos psicólogos e pesquisadores se debruçam sobre o sujeito autor das violências e exclusões, nomeado homofóbico, com o objetivo de modificar o quadro de violências e exclusões. Borrillo (2010), por exemplo, aponta estudos que identificam certas características comuns dos sujeitos agressores, como idade, gênero, escolaridade, poder aquisitivo e filiações políticas e religiosas. O autor destaca, porém, que o ponto determinante para a homofobia seria a personalidade, posto que se configura como sintoma de uma tentativa inconsciente de eliminar da porção homossexual de si próprio. Ora, nesse caso, o homofóbico seria um potencial cliente do psicólogo, tendo em vista o comportamento disfuncional e possivelmente adoecido, passível de intervenção e tratamento. A psicologia encontraria a origem do problema e apresentar-se-ia como solução.

Assim, a serpente morde sua própria cauda. A razão do sofrimento da homofobia é localizada mais uma vez em um corpo isolado; se não mais no homossexual, agora no homofóbico e o seu drama inconsciente. Mas a homofobia se dá como uma cena repetida em tantos lugares diferentes ao mesmo tempo, e devemos nos perguntar se não há algo mais que dirige o acontecimento. Poderíamos entender que tanto a homossexualidade quanto a homofobia seriam dados naturais e, portanto, repercutiriam em todo o corpo social. Mas Foucault nos alerta para o regime de poder que faz entender o sexo como dado natural e fundante da experiência humana, que é localizada social e historicamente. A associação da homofobia a uma psicopatologia desconsidera os processos sociais subjacentes ao desejo e à repulsa, e mascara o problema mais profundo e complexo: vivemos em uma sociedade extremamente violenta, em que a destruição daquele considerado como Outro não é um dado digno de nota, de revolta, de choro e de luto (Butler, 2010).

Falar da importância das mortes e da escolha dos sujeitos assassinados não pode se reduzir a uma discussão sobre a psicopatologia. A professora Guacira Louro (2004) critica esse modo de entender o fenômeno, pois "seja para considerar a sexualidade como originariamente 'natural', seja para considerá-la como socialmente construída, esses discursos não escapam da referência à heterossexualidade como norma". A violência da homofobia nos faz tomar a homossexualidade como origem dos problemas; mas essa é uma falsa questão! Veja bem, a homossexualidade como um dado fundamental na vivência de alguns sujeitos foi criada antes do próprio conceito de heterossexualidade; a descrição do desvio serve antes de tudo para definir e delimitar as normas segundo as quais vivemos. Precisamos colocar em questão a ideia da própria heterossexualidade como vivência normal, saudável e esperada do desejo humano.

Muitas violências homofóbicas nas ruas vêm acompanhadas de frases como "viado tem que morrer" ou "se eu te matar, faço um favor pra sua família". Outras atingem pessoas que se identificam como heterossexuais. Muitas vezes, ações corretivas supostamente preventivas são dirigidas a crianças e adolescentes em absoluta experimentação curiosa dos seus corpos e dos papéis de gênero. Do século XIX até hoje, diferentes profissionais do psiquismo falam do homossexual como sujeito doente e perigoso. No final das contas, as agressões estão mais ligadas a contextos, aparências e relações que são associadas à homossexualidade, como as manifestações públicas de afeto entre pessoas do mesmo gênero e a aparência de pessoas em desacordo com a expectativa que é atribuída ao seu sexo (Cassal, 2012). Trata-se de um desejo por nomear, classificar e identificar todos os sujeitos, num esforço que nunca acaba. O prazer, o amor e as performances de gênero ficam submetidas a um "armário" que constrange os sujeitos e obriga-os a assumiram uma condição chamada de diferente, ou viverem o silêncio da exclusão (Sedgwick, 2007). Não se fala das possibilidades de alegria na vida: a homossexualidade é tomada como sinônimo de sofrimento. As violações também não são discutidas, porque espera-se que estejam ligadas à identidade do homofóbico, permeado de ódio e desejo de eliminação.

A homofobia não pode ser explicada simplesmente por quem são a vítima e o agressor. Fazer isso é produzir um silenciamento do ato político que é a violência. Precisamos falar e discutir publicamente esses acontecimentos. Despendes (2013) usa suas próprias vivências para afirmar que os agredidos e prejudicados devem falar sobre o que viveram e vivem, para que não se esqueçam, mas também não se elimine a potência do sujeito - há muita vida por vir. O psicólogo Luis Antônio Baptista (1999), por sua vez, entende que o ato do agressor é consequência de uma série de falas e práticas sutis que tornam a violência e o assassinato algo possível. É produção e responsabilidade de todos nós. Por que a homossexualidade assusta a sociedade? Ter a heterossexualidade como norma não produz nada além da violência e a ilusão de que alguns heterossexuais estão protegidos da violência. Como descreve Baptista (1999): "Nossa história nos aponta não para o fim desses atos, mas para a reedição e aperfeiçoamento dessas mórbidas estratégias. (...) as ruas de São Paulo, as praias do Rio de Janeiro, são espaços que estilhaçam os espelhos de uma burguesia que se deseja ver asséptica, segura e feliz. São espaços que estilhaçam uma ética que se diz universal, mas que necessita da ação da polícia e das grades dos condomínios fechados para o seu bom funcionamento". Precisamos mudar a estratégia de enfrentamento, para não reforçar as estigmatizações de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais para acabar com o mito de que um comportamento de gênero considerado adequado é a única possibilidade segura; para afirmar que homofobia é assunto que interessa a todos os sujeitos. Em última instância, somos todos autores e vítimas de um processo que coage e violenta nossos corpos e os modos como nos comportamos e amamos.


ENFRENTAMENTO

É necessário, portanto, pensarmos sobre algumas políticas de enfrentamento à homofobia. Observamos que as principais estratégias estão centradas na contenção do sujeito identificado como homofóbico, especialmente a criminalização da homofobia e a punição de estabelecimentos públicos e privados por discriminação. Estas têm sua importância, mas dois pontos importantes têm chamado atenção dos pesquisadores e militantes: as questões de gênero e a centralidade na patologia (Borrillo, 2010). Em primeiro lugar, o prefixo "homo" tem sido interpretado erroneamente como relativo a "homem" (masculino). O sistema social em que vivemos baseia-se na divisão desigual de gêneros, que inviabiliza e desqualifica as mulheres e elementos considerados do feminino (Despendes, 2013). Tente os seguintes exercícios. Jogue palavras como homossexual e homofobia na internet, e veja quem são os sujeitos retratados. Busque as principais lideranças dos movimentos de diversidade sexual no seu estado e no Brasil; quantas são mulheres? Por fim, busque outros artigos como esse e veja quantos falam de fato sobre mulheres lésbicas. Quando falamos das muitas experiências transgênero, a coisa fica ainda mais complicada. Travestis e transexuais estão expostos a muito mais violência nas ruas e assassinatos, bem como à exclusão de políticas públicas e garantia de direitos, porque suas demandas não são (necessariamente) ligadas à orientação sexual, e sim ao reconhecimento das performances de gênero nas quais se identificam. As políticas públicas afirmativas e de garantia de direitos ainda têm muito a avançar com essas populações, não porque seus corpos sejam mais vulneráveis, mas sim porque a invisibilidade é um modo sutil e extremamente potente de eliminação dos sujeitos tidos como indesejados. As pessoas são coagidas e mortas cotidianamente, e nem tocamos no assunto. Por essas razões, alguns movimentos feministas e transfeministas reivindicam o uso dos termos "lesbofobia" e "transfobia", para dar visibilidade às necessidades específicas e urgentes dessas pessoas.

Enfrentar a homofobia no espaço público é retomar a rua como espaço de encontros. Território para todos, com vestimentas, paixões e comportamentos variados. Muitas vezes, esses encontros nos surpreendem, mas é importante para tirar-nos do lugar-comum. A rua é o espaço do debate democrático sobre as violências e as políticas públicas, bem como de demonstrações de afeto, de experimentações das performances de gênero. Enfrentar a homofobia é falar de possibilidades, de amor e de prazer, não só do outro, mas também dos nossos. Como vivemos, e que práticas são produzidas, a respeito disso? A pergunta que fica seria: quando o prazer do outro me incomoda, o que isso diz não só a mim, mas, principalmente, de todos nós?


Texto de Luan Carpes Barros Cassal retirado da Revista "Sociologia", Editora Escala.

30 dezembro 2016

De Cada Lado


O mundo é resultado dos contrários
Da força dos leões e dos otários
Da selva dimonistas e sectários
Das pedras no caminho
O mundo é uma flor e é o espinho
Viver é ser na multidão sozinho
Um passo para frente é outro abandonado
No mundo uma ilusão de cada lado
Casa de ferreiro, espeto de pau
Casa de misericórdia, miséria total
Casa de candango, candombe e cal
Casa de abstinência, folia total
Deixa nossa porta aberta
Deixa de brincar de fé, se vai jogar o jogo
Deixa de bater o pé, se é pra fazer de novo
Deixa de como é que é, se tudo é perigoso
Logo venha o que vier

Música de Magno Mello, Kadu Vianna e Pedro Moraes que abre o CD " O que eu tenho pra dizer ", lançado em 2010 por Izzy Gordon.

O Ponto


No começo era um ponto
Que surgiu, pontuou
E assim, ponto a ponto
Ao ponto se juntou
Uma teia de pontos
Juntos tanto e a ponto
De tudo ser só um ponto
É só um ponto de vista
Um ponto de partida
A que ponto chega o artista
Nessa louca arte da vida?
Não me aponte tanto assim
Nem me classifique em pontos
Um ponto final é o fim
Pra explicar já são dois pontos
Não me toque nesse ponto
Que esse ponto vai doer
Quando chega a esse ponto
A ponto de enlouquecer
É melhor por logo um ponto
Um ponto pra resolver
É só um ponto de vista
O ponto de partida
A que ponto chega o artista
Nessa louca arte da vida?

Música de Jairo Cechin que faz parte do CD "Quem Sou Eu", de Ully Costa, lançado em 2012.


As Sílabas


Cantiga diga lá
A dica de cantar
O dom que o canto tem
Que tem que ter se quer encantar
Só que as sílabas se embalam
Como sons que se rebelam
Que se embolam numa fila
E se acumulam numa bola
Tem sílabas contínuas:
Ia indo ao Piauí
Tem sílabas que pulam:
Vox populi
Tem sílaba que escapa
Que despenca
Rola a escada
E no caminho
Só se ouve
Aquele boi bumbá
Tem sílaba de ar
Que sopra sai o sopro
E o som não sai
Tem sílaba com "s"
Não sobe não desce
Tem sílaba legal
Consoante com vogal
Tem sílaba que leve oscila
E cai como uma luva na canção
Cantiga diga lá 
A dica de cantar 
Cantiga diga lá
A dica de cantar
O dom que o canto tem
Que tem que ter se quer encantar

Música de Luiz Tatit que abre o CD "As Sílabas", de Suzana Salles, lançado em
2001.

30 novembro 2016

Partículas de Amor

Ao te conhecer
Desacreditei
Como pode uma beleza assim
Toda solar, me derreteu
Virei água do mar
Evaporei
E agora eu sou partículas de amor
Vento que sopra na crista
Bolha de espuma replica
Onde você estiver eu estarei
Maresia no ar a te acompanhar

Faixa 02 do CD das coisas que surgem, de Márcia Castro; música de Lucas Santana e Gui Amabis.

Atalhos

        Márcia Castro/Arruda


" A força da água
Que sai de você
Me leva tão longe
Me faz te querer
Na intensidade das coisas que surgem
Pessoas, palavras que me acontecem

A força da água
Que vem de você
Você de mil noites
De ombros e abraços

De explosões solares
Do fundo do poço
Do fundo do poço
Ao próximo passo

Não existem os atalhos
Que não deixem suas marcas
Não existem os atalhos

As estrelas são da noite
E as manhãs do orvalho
E existem os atalhos "

música que abre o CD das coisas que surgem de Márcia Castro

A Flor



" A flor de que era feito o nosso amor
Molhou-se com a chuva
Gelou de tanto frio e mesmo assim
Não se quebrou

Oh! Flor
Se lhe maltratarem só por mal
Torna-se um translúcido cristal
Se lhe vem com crueldades
Exala teu perfume pra toda a cidade

Oh! Flor
Nascida de um peito sem graça e sem jeito
Sem nenhum espinho
Somente carinho e amor

Oh! Flor
A flor de que era feito o nosso amor
Molhou-se com a chuva
Gelou de tanto frio e mesmo assim
Não se quebrou

Oh! Flor
Mesmo em pleno mar de imensa dor
Queima tua chama com fervor
Se a morte a levar na correnteza
Brilhará no céu mais uma nova Estrela Flor

Mesmo se os anos passarem ciganos
Mesmo que os homens esqueçam tua cor
A flor de que era feito o nosso amor
Molhou-se com a chuva
Gelou de tanto frio e mesmo assim...
Desabrochou "

música de Fernando Figueiredo, do CD Batuque de Virgínia Rosa, lançado em 1997.


Flores e Bocas



" Que bom que você chegou
Trazendo um sorriso de melhor amigo
Sorrisos são bocas em flor

Tão bom ter você do meu lado
Com jeito de apaixonado
Pra gente dividir o indivisível
Sonhar aquele sonho quase impossível
Seja como for

Foi bom você ter chegado
Assim meio inesperado
Eu tava perdido, trancado, sozinho
Contando as gotas da dor

Se você me chama, eu vou
Se você me pede, eu sou
Seu melhor amigo
Responda ao sorriso
Sorrisos são bocas em flor

Agora que a chuva passou
Das nossas sementes
Corações e mentes
Algo de novo brotou
Algo de novo brotou
Seu melhor amigo
Responda ao sorriso
Sorrisos são bocas em flor "

Composição de Fernando Figueiredo que faz parte do CD 1º de Mônica Tomasi, de 1996.

30 outubro 2016

Família

 Família, família,

Papai, mamãe, titia,

Família, família,

Almoça junto todo dia,

Nunca perde essa mania.

Mas quando a filha quer fugir de casa

Precisa descolar um ganha-pão

Filha de família se não casa

Papai, mamãe, não dão nenhum tostão.

Família ê

Família á

Família.


Família, família,

Vovô, vovó, sobrinha.

Família, família,

Janta junto todo dia,

Nunca perde essa mania.

Mas quando o nenê fica doente

Procura uma farmácia de plantão

O choro do nenê é estridente

Assim não dá pra ver televisão.

Família ê

Família á

Família.


Família, família,

Cachorro, gato, galinha.

Família, família,

Vive junto todo dia,

Nunca perde essa mania.

A mãe morre de medo de barata

O pai vive com medo de ladrão

Jogaram inseticida pela casa

Botaram cadeado no portão.

Família ê

Família á

Família


Música de Arnaldo Antunes e Toni Belloto; faz parte do LP Cabeça Dinossauro, dos Titãs, lançado em 1986.