06 janeiro 2015

Nara Leão

Nara Leão nunca desejou ser musa nem lenda. Agiu segundo sua própria consciência, não fez concessões a ideologias ou ao mercado. Retirou-se do glamour da mídia. Só participou desse glamour enquanto ele serviu como veículo de suas ideias musicais. A voz suave e a interpretação clarividente criaram uma arte atemporal, que pode ser confundida com objeto anacrônico. E é, na medida em que anacrônico possa significar aversão pela descartabilidade, coerência e honestidade a qualquer custo. Essa postura está completando em 1988 seu jubileu de prata. As canções, sambas e bossas novas contadas um dia por ela ganham sabor com o curso dos tempos. Sua sutileza não se esgota em uma ou duas gerações. Ouvida hoje, Nara é tão presente quanto há 25 anos. Hoje ela é uma outsider na corrente principal da Música Popular Brasileira. Curiosamente, participou dos dois únicos movimentos de ruptura na tradição sonora nacional - a Bossa Nova e o Tropicalismo. Esse desejo de atuação na vanguarda estética provocou pequenas revoluções no interior do seu trabalho.

Musa da Bossa Nova de 1957 a 1963, ela recebia os músicos do movimento em seu apartamento em Copacabana e interpretava "standards" do gênero. No fatídico 1964, porém, ela sentiu que deveria alterar a imagem. Lançou seu primeiro LP, Nara (selo Elenco), para lançar luz sobre sambistas até então ignorados como Zé Keti, Cartola e Elton Medeiros. Os bossa-novistas ortodoxos torceram o nariz. No mesmo ano ela, optaria pelo engajamento político e lançaria o disco "Opinião de Nara" (Philips). Ampliaria os pressupostos políticos do disco em dezembro daquele ano, estrelando o célebre show "Opinião", dirigido por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, ponta-de-lança da emergente canção de protesto. Defendeu A Banda de Chico Buarque em 1966, no II Festival da Música Popular Brasileira.

Estava no ápice da fama, mas não se acomodou. Em 1968 ela se incorporava ao movimento tropicalista, gravando o LP Tropicália ou Panis et Circenses com Caetano, Gil e Gal. Não deixava, porém, de alimentar amor por Ernesto Nazareth e velhos "standards" da bossa nova. Viveu em Paris entre 1969 e 1971. O exílio voluntário proporcionou a primeira retrospectiva de carreira, o LP Dez Anos Depois (Polydor). Voltou ao Brasil em 1972 para reintegrar-se - agora com discrição - à música brasileira.

Grava esparsadamente, mas o que grava soa fundamental, alicerce seguro para futuras interpretações. O mesmo desejo de ação levou-a a se afastar da histeria do "Grand Monde". Percebeu que a feira das vaidades não leva a lugar algum. A Nara da Bossa Nova, a tropicalista, a engajada e saudosista enfeixam-se na mesma voz, no mesmo jeito de interpretar. Seu canto suave resgata o ouvinte do inferno do mundo contemporâneo e finito. Leva-o ao nirvana da arte pela arte. Isso ainda é Bossa Nova, embora não tão muito natural...


Texto de Luís Antônio Giron que está presente na coletânea Personalidade, de Nara Leão, lançada em LP em 1988 e relançado em CD em 1994.

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