30 outubro 2016

Família

 Família, família,

Papai, mamãe, titia,

Família, família,

Almoça junto todo dia,

Nunca perde essa mania.

Mas quando a filha quer fugir de casa

Precisa descolar um ganha-pão

Filha de família se não casa

Papai, mamãe, não dão nenhum tostão.

Família ê

Família á

Família.


Família, família,

Vovô, vovó, sobrinha.

Família, família,

Janta junto todo dia,

Nunca perde essa mania.

Mas quando o nenê fica doente

Procura uma farmácia de plantão

O choro do nenê é estridente

Assim não dá pra ver televisão.

Família ê

Família á

Família.


Família, família,

Cachorro, gato, galinha.

Família, família,

Vive junto todo dia,

Nunca perde essa mania.

A mãe morre de medo de barata

O pai vive com medo de ladrão

Jogaram inseticida pela casa

Botaram cadeado no portão.

Família ê

Família á

Família


Música de Arnaldo Antunes e Toni Belloto; faz parte do LP Cabeça Dinossauro, dos Titãs, lançado em 1986.

06 janeiro 2015

Penas do Tiê

Vocês já viram

Lá na mata a cantoria

Da passarada quando vai anoitecer

E já ouviram o canto triste da araponga

Anunciando que na terra vai chover


Já experimentaram guabiraba bem madura

Já viram as tarde quando vai anoitecer

E já sentiram das planícies orvalhadas

O cheiro doce das frutinhas muçambê


Pois meu amor, tem um pouquinho disso tudo

E tem na boca a cor das penas do tiê

Quando ele canta os passarinhos ficam mudos

Sabem quem é o meu amor?

Ele é você, você, você, você


E já sentiram das planícies orvalhadas

O cheiro doce das frutinhas muçambê


Pois meu amor, tem um pouquinho disso tudo

E tem na boca a cor das penas do tiê

Quando ele canta os passarinhos ficam mudos

Sabem quem é o meu amor?

Ele é você, você, você, você


Música do Folclore adaptado por Fagner em 1973; gravado em dueto com Nara Leão no então LP dele "Manera Fru Fru Manera"; ela, em 1981, regravou a música sem ele, no disco intitulado "Romance Popular"; Joanna fez uma bonita regravação em seu LP de 1982, "Vidamor".

Nara Leão

Nara Leão nunca desejou ser musa nem lenda. Agiu segundo sua própria consciência, não fez concessões a ideologias ou ao mercado. Retirou-se do glamour da mídia. Só participou desse glamour enquanto ele serviu como veículo de suas ideias musicais. A voz suave e a interpretação clarividente criaram uma arte atemporal, que pode ser confundida com objeto anacrônico. E é, na medida em que anacrônico possa significar aversão pela descartabilidade, coerência e honestidade a qualquer custo. Essa postura está completando em 1988 seu jubileu de prata. As canções, sambas e bossas novas contadas um dia por ela ganham sabor com o curso dos tempos. Sua sutileza não se esgota em uma ou duas gerações. Ouvida hoje, Nara é tão presente quanto há 25 anos. Hoje ela é uma outsider na corrente principal da Música Popular Brasileira. Curiosamente, participou dos dois únicos movimentos de ruptura na tradição sonora nacional - a Bossa Nova e o Tropicalismo. Esse desejo de atuação na vanguarda estética provocou pequenas revoluções no interior do seu trabalho.

Musa da Bossa Nova de 1957 a 1963, ela recebia os músicos do movimento em seu apartamento em Copacabana e interpretava "standards" do gênero. No fatídico 1964, porém, ela sentiu que deveria alterar a imagem. Lançou seu primeiro LP, Nara (selo Elenco), para lançar luz sobre sambistas até então ignorados como Zé Keti, Cartola e Elton Medeiros. Os bossa-novistas ortodoxos torceram o nariz. No mesmo ano ela, optaria pelo engajamento político e lançaria o disco "Opinião de Nara" (Philips). Ampliaria os pressupostos políticos do disco em dezembro daquele ano, estrelando o célebre show "Opinião", dirigido por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, ponta-de-lança da emergente canção de protesto. Defendeu A Banda de Chico Buarque em 1966, no II Festival da Música Popular Brasileira.

Estava no ápice da fama, mas não se acomodou. Em 1968 ela se incorporava ao movimento tropicalista, gravando o LP Tropicália ou Panis et Circenses com Caetano, Gil e Gal. Não deixava, porém, de alimentar amor por Ernesto Nazareth e velhos "standards" da bossa nova. Viveu em Paris entre 1969 e 1971. O exílio voluntário proporcionou a primeira retrospectiva de carreira, o LP Dez Anos Depois (Polydor). Voltou ao Brasil em 1972 para reintegrar-se - agora com discrição - à música brasileira.

Grava esparsadamente, mas o que grava soa fundamental, alicerce seguro para futuras interpretações. O mesmo desejo de ação levou-a a se afastar da histeria do "Grand Monde". Percebeu que a feira das vaidades não leva a lugar algum. A Nara da Bossa Nova, a tropicalista, a engajada e saudosista enfeixam-se na mesma voz, no mesmo jeito de interpretar. Seu canto suave resgata o ouvinte do inferno do mundo contemporâneo e finito. Leva-o ao nirvana da arte pela arte. Isso ainda é Bossa Nova, embora não tão muito natural...


Texto de Luís Antônio Giron que está presente na coletânea Personalidade, de Nara Leão, lançada em LP em 1988 e relançado em CD em 1994.

04 janeiro 2015

Vida

Mais não se pode dizer

Nem eu, nem ninguém

Você é quem deve colher

Depois de semear também

Você é quem pode rasgar o caminho

E fechar a ferida

E achar no seu justo momento

A razão de tudo aquilo que chamamos vida

Vamos lá, deixa o coração

Recolher os pedaços do sonho perdido

Essa é a lei nos caminhos

Onde a ilusão e a dor

Fazem parte do primeiro artigo

Traços comuns em nossas vidas

Não justificam um conselho sequer

E logo eu que procuro

Infinitas formas de amar e viver

Posso apenas declarar que o medo

É que faz a nossa dor crescer

Mais eu não posso dizer


Música de Paulinho da Viola e Elton Medeiros gravada em 1975. Juliana Amaral a regravou em 2007 em seu CD Juliana Samba.

Ararinha Azul

Vive na montanha

Pela imensidão

Nada sob o céu

Mora em solidão

Foge que o perigo

Fica atrás de tu

Volta lá pro céu

Ararinha azul

Ararinha azul

Volta lá pro sul


Pássaro encantado

Já em extinção

Mora no Amazonas

Não tem direção

Vai que os inimigos

Andam atrás de tu

Ararinha azul

Ararinha azul

Volta lá pro sul


Música de Aleuda que está no CD de 2002 de Juliana Amaral intitulado Águas Daqui. 

21 junho 2014

Máscara Negra

Tanto riso

Oh! Quanta alegria

Mais de mil palhaços no salão

O arlequim está chorando 

Pelo amor da colombina

No meio da multidão

Foi bom te ver outra vez

Tá fazendo um ano

Foi no carnaval que passou

Eu sou aquele Pierrot

Que te abraçou

Que te beijou, meu amor

Na mesma máscara negra

Que esconde o teu rosto

Eu quero matar a saudade

Vou beijar-te agora

Não me leve a mal

Hoje é carnaval


Música de Zé Kéti e Pereira Mattos gravada por Vânia Abreu e Marcelo Quintanilha no CD Pierrot & Colombina lançado em 2005.

19 junho 2014

Manhã de Carnaval

Manhã tão bonita manhã

Na vida uma nova canção

Cantando só teus olhos

Teu riso, tuas mãos

Pois há de haver um dia

Em que virás


Das cordas do meu violão

Que só teu amor procurou

Vem uma voz

Falar dos beijos

Perdidos nos lábios teus


Canta o meu coração

Alegria voltou

Tão feliz a manhã

Nesse amor


Música de Luís Bonfá e Antônio Maria gravada por Virgínia Rodrigues em seu CD Sol Negro de 1997.

17 maio 2014

Flores

Olhei até ficar cansado

De ver os meus olhos no espelho

Chorei por ter despedaçado

As flores que estão no canteiro

Os punhos e os pulsos cortados

E o resto do meu corpo inteiro

Há flores cobrindo o telhado

E embaixo do meu travesseiro

Há flores por todos os lados

Há flores em tudo que eu vejo

A dor vai curar essas lástimas

O soro tem gosto de lágrimas

As flores têm cheiro de morte

A dor vai fechar esses cortes

Flores

Flores

As flores de plástico não morrem


Música de Charles Gavin, Toni Belloto, Paulo Miklos, Sérgio Brito gravada pelos Titãs no LP Õ Blesq Blom.

14 maio 2014

Neblina

Vendo se mover

A neblina furta-cor

Vem me envolver

A imagem de um amor


Descendo de carro

Não sei por que volto

Nem por que que ele foi

Acendo um cigarro

Penso alto

E a falta dele dói


Dor, amor e cor

Se confundem para mim

A neblina brilha

Num vislumbre para mim


Recordo seu corpo

E o seu perfume

Como fumo se desfaz

Num sono, num sonho bom

Leve, úmido

Luminoso e fugaz


Neblina

Distrai a minha solidão

E cria no ar

Um clima

De fria luz e ilusão

Em mim a vagar


Música de Otávio Fialho e Carlos Rennó gravada pela cantora Vânia Bastos em seu LP de 1986.

01 maio 2014

Aguenta Coração

    Prêntice/Ed Wilson/Paulo Sérgio Valle


Coração, diz pra mim
Porque é que fico sempre desse jeito
Coração, não faz assim
Você se apaixona e a dor é no meu peito

Pra quê que você foi se entregar
Se na verdade eu só queria uma aventura
Por que você não para de sonhar?
Era um desejo e nada mais

E agora o que é que eu faço
Pra esquecer tanta doçura
Isso ainda vai virar loucura
Não é justo entrar na minha vida
Não é certo não deixar saída
Não é não

Agora aguenta coração
Já que inventou essa paixão
Eu te falei que eu tinha medo
Amar não é nenhum brinquedo

Agora aguenta coração
Você não tem mais salvação
Você apronta e esquece que você sou eu

Música que abria o então LP de José Augusto lançado em 1990.