Pode parecer um papo neo-hippie ou xamanismo de papelaria, mas alguns escritores têm de fato uma espécie de terceiro olho no centro da testa. E, no Brasil, poucos o utilizam tão bem quanto Marina Colasanti. Como o assunto aqui é literatura, explico com um conto da própria autora.
"O que não está à vista" narra a história de um menino com o tal terceiro olho, de íris escura sempre mais atenta, mais interessada, mais desperta que as outras duas. E o aparente poder de fazê-lo ver coisas que todos os demais ignoravam.
Não por acaso o personagem logo passa a desenhar. E, retratando a solidão dos pastos e a aridez da vida, chama a atenção não apenas dos pais, do marceneiro, do lenhador, do ferreiro ou do boticário - mas também a curiosidade do rei, que deseja posar para o menino de talento inigualável.
Para não entregar o desenrolar, não digo o que aconteceu quando o monarca sentou-se em frente à tela e encarou as tintas vindas da China e os pincéis feitos de pelo de marta. Revelo apenas que, ao fim do trabalho, o rei destruiu o seu retrato e ordenou que costurassem para sempre as pálpebras extras do garoto - cujo olho, agora voltado para dentro, passa a ver o que parecia não existir. E, prestando atenção ao seu interior, faz do rapaz um contador de histórias.
Carregado de poesia, o conto sobre a arte de criar narrativas fecha o livro Quando a Primavera Chegar, lançado no ano passado pela editora Global. Nele, Marina faz escorrer pelas mãos dos leitores 17 textos que não apenas flertam com a estrutura e os temas dos contos clássicos - ou contos de fadas, como são mais conhecidos. Eles, de fato, fazem parte desse universo, o que pode gerar surpresa em quem acha que essas histórias morreram com os irmãos Grimm ou com Hans Christian Andersen.
Pois dentro da extensa e rica obra da escritora há várias narrativas. Nascida na Etiópia, no centro de uma família italiana, Marina mudou-se para cá ainda criança e comemorou os seus 80 anos, em 2017, como uma das mais premiadas autoras para crianças, jovens e adultos do País. Como em todos bons contos de fadas, os seus costumam ter geografia incerta, criando fundações no inconsciente coletivo e nos fantasmas, segredos e desejos de cada leitor.
Isso porque esse tipo de história tem origem praticamente irrastreável, em uma Europa pré-literária, onde poucos sabiam ler e passavam as aventuras de criação coletiva, sem autor definido, de boca em boca por gerações. Só muito depois que parte delas foram recolhidas em livros por autores como Grimm, Andersen e Perrault, que nada tinham de infantis.
De certa forma, Marina resgata essa atmosfera em seus contos, sobretudo em Quando a Primavera Chegar - título que é categorizado como infantojuvenil, mas que coloca muito marmanjo na roda para pensar. Não apenas pela linguagem, que não abre concessões nem nivela o vocabulário por baixo, evitando o tatibitate comum às obras que subestimam a inteligência de crianças e adolescentes. Mas também pelos temas que o atravessam: a busca pelo verdadeiro amor, o encontro com a morte, a dor da separação, a passagem para a vida adulta e outras questões que regem a natureza humana desde que caminhamos pela Terra.
A história "Povo é necessário", por exemplo, traz uma trama política em que um rei governa seus domínios sem a presença de população. No perturbador "Lá fora, as castanheiras", uma madrinha cria uma casa de bonecas que emula o quarto de uma menina doente. Já "Em busca de cinco ciprestes" revela um home que sai em jornada por um tesouro que lhe é revelado em sonho.
Mas são as histórias de amor e de morte que fazem do livro faísca elétrica. Os exemplos são muitos, mas destaco um de cada. Em "A Casa da Morte", uma filha carrega sua mãe já debilitada até a residência da dama de preto - e, de certa forma, trava um diálogo com o conto "História de uma Mãe", de Hans Christian Andersen, que funciona como uma narrativa espelhada: nele, a matriarca vai até a casa da Morte para resgatar um filho que foi levado.
Já "A Cicatriz Inexistente" produz uma alegoria poderosa sobre o casamento. Na trama, uma mulher vai à guerra procurar por seu marido combatente. Encontrando o corpo dele estirado e decapitado, tateia por perto até encontrar a cabeça sem membros, que é costurada ali mesmo sobre o pescoço. O problema é que, ao voltar para casa, ela vê que se confundiu: aquele não é o rosto de seu marido. O homem fala outra Língua, tem estranhos gostos e não compartilha das mesmas preferências do primeiro. Mas é esse outro quem está por perto. E os dois seguem vivendo sob o mesmo teto.
Ou a leitura e seus significados podem ser completamente diferentes. Marina gosta de dizer que os contos de fadas não trazem apenas explicações sobre a vida humana, vindas de tempos imemoriais. Mas concentram níveis de leitura tão profundos que permitem múltiplos entendimentos possíveis - cabendo ao leitor ou ao ouvinte encontra aquele que mais dialoga com suas interrogações.
Fato inquestionável é a capacidade que a escritora tem de criar histórias, dar vida e profundidade a personagens e tirar o leitor de sua posição de equilíbrio. Ao mergulhar nos 17 contos, somos rodeados por carruagens misteriosas, autômatos apaixonados, donzelas, agricultores, bonecos de madeira, sereias e aranhas que tomam toda a paisagem com suas teias.
A diversidade não se restringe aos contos de fadas. Vale lembrar que o último prêmio Jabuti recebido por Marina Colasanti foi com Breve História de um Pequeno Amor (FTD), que levou a estatueta de melhor livro de ficção de 2014 com uma história infantil sobre a relação da narradora com uma pomba. Nada de princesas ou estrutura de contos clássicos.
É essa polivalência narrativa que vem fazendo seu nome ser indicado pelo Brasil ao prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel de literatura infantojuvenil. E é esse redemoinho literário que desabrocha de maneira cristalizada, feito pedra preciosa, no conto do menino com o terceiro olho.
"Eu parti de um terceiro olho. E cheguei aonde não suspeitava chegar no princípio, à essência da escritura e da contação de contos", disse Marina na época do lançamento de Quando a Primavera Chegar.
Mas, na verdade, ela foi além. A história instiga o terceiro olho de cada leitor - por mais adormecido ou atrofiado que esteja, ele inevitavelmente passa a se remexer com vontade de contar as próprias narrativas. E isso é poderoso.
Texto de Bruno Molinero retirado da revista Conhecimento Prático Literatura, Ano 8, Edição 77, Abril/Maio de 2018, Editora Escala, São Paulo.