08 fevereiro 2026

Palavras que fazem carnaval

                   CONTROVÉRSIA SOBRE AS RAÍZES DA FESTA LEVOU                                                               À CONFUSÃO SOBRE AS ORIGENS DO TERMO  


A alegria coletiva, folia organizada, caricatura da seriedade dominante. No rótulo carnaval, cabe mais de uma farra. É um tipo de festa, mas não só. É um tipo muito específico de alegria. E algo mais. Não só uma libertação de hábitos temporária. Nem exclusividade brasileira.

Fazer um carnaval em torno de algo é promover estardalhaço, exagerar a dose, contagiar-se por um rompante de alegria. Já pular o carnaval é participar de uma farra com prazo de validade, desfiles e blocos, poucos dias antes da quarta-feira de cinzas.

Em O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro (Ediouro), Felipe Ferreira acredita que a confusão entre os dois significados (festa e estado de espírito) causa muita discussão em torno das origens do termo. Há pesquisadores, aponta o autor, que consideram os dois sentidos a mesma coisa - e, por isso, a festa remontaria a milênios, ao Egito, à Roma antiga. Até as comemorações de colheitas anteriores à Era Cristã seriam carnavais.

Assim, a presença, nas festas e procissões pagãs, de charretes em forma de navios gerou o mito de que a palavra viria de carrus navalis (carro em forma de navio). O fato é que, aos bispos dos primeiros séculos católicos, pouco importavam as distinções entre festas pagãs nos mais diversos países e meses. Até o século 18, todas recebiam o estigma de comemorações demoníacas.

Teria sido a Igreja que, para melhor estigmatizar o pagamento, consolidou a noção de carnaval como festa de exageros, caricaturas e ritos de inversão. A história do termo "carnaval" é alegórica. Em 1604, o papa Gregório I decretou que os fiéis deveriam abandonar a rotina para, por 40 dias, dedicarem-se à comunhão com o espírito. A quaresma era a imitação de Jesus, que por 40 dias viveu entre o jejum e as tentações.

Em 1091, o papa Urbano II convocou o Sínodo de Benevento, que definiu a data oficial para a quaresma, o primeiro dia batizado de Quarta-feira de Cinzas (dado o hábito de marcar a testa com uma cruz feita de cinzas, por penitência). O dia inicia as privações de prazeres, a proibição de comer carne e abdicação de bens materiais. Com o tempo, consagrou-se o hábito de antecipar a quaresma com um período extraordinário, com tudo o que era negado aos fiéis - fartura, caricatura da autoridade e das questões do espírito, exagero e farra.


Ritos da Quaresma

Mais que uma festa, lembra Ferreira, o carnaval é uma data. Por isso, não há uma forma de brincar o carnaval, há muitas. Daí uma flutuação em torno da origem do nome. Os últimos dias de fartura antes da quaresma começaram a ser chamados de "adeus à carne" (em italiano carnevale, afirma Ferreira). O período de adeus à carne recebeu vários nomes entre os séculos 12 e 13, período em que tomam forma as diferentes manifestações que derivariam no carnaval de hoje: carnelevarium em 1097, caramentran, carnisprivium ou carnelevare em 1130, carnelevamem em 1195.

O carnaval não se esgota numa palavra. Tampouco numa festa. Mas nas diferentes formas que assumir - um conceito, um estado de espírito, uma indústria (dos desfiles cariocas aos trios de Salvador) - será sinônimo da vitalidade popular de reinventar-se e divertir-se até muito além do próximo carnaval.


Texto sem identificação de autoria; retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Fevereiro de 2006, Editora Segmento, São Paulo.

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