Pontos de contato entre Espanhol e Português acumulam casos de vexames de palavras
Em crônica recente, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony falou dos vexames, cômicos e patéticos, causados por um grupo de brasileiros, gente importante das artes e da cultura, tentando se explicar em bom espanhol num programa de televisão de Madri.
Saiu, diz o grande romancista, puro Portunhol, aqui e ali uma pitada de "Espanguês", mas, no final, tudo muito ruim. Por isso ele, Cony, que confessa conhecer só umas três palavras no máximo do idioma de Cervantes, ataca sempre de Português Brasileiro puro onde estiver, sobretudo em países do continente.
Para quem usa o Portunhol na fronteira brasileira ou quem viaja a países como o México, o choque linguístico pode pesar mais que qualquer outro impacto cultural que por acaso possa o turista sentir.
Falar a própria Língua pode, portanto, ser recurso recomendável aos brasileiros que chegam a países latino-americanos. Encantados com a perigosa semelhança de vocabulário, sintaxe e até fonética de dois idiomas da mesma raiz, cometem gafes constrangedoras.
Num rápido exercício do gênero, podemos começar com alguns dos chamados falsos cognatos, os "falsos amigos", palavras espanholas que se escrevem e se pronunciam igualzinho, mas que têm conotação bem diferente, como embaraçada (grávida), com a qual os brasileiros, já acostumados, pouco têm se embaraçado.
CUIDADOS COM AS APARÊNCIAS
Torpe: Em espanhol significa um sujeito atrapalhado, confuso, incompetente. "Una torpeza" é uma trapalhada, uma besteira, uma bola fora. Nada a ver com o sentido ético-moral em Português.
Presunto: Significa suposto, como "el presunto asesino". Para pedir num boteco um modesto sanduíche de presunto, basta dizer "un sandwich de jamón".
Gandaia: Um tipo pilantra, intrigante de baixo nível. "Una gandallada" é uma sujeira, uma patifaria. Longe, portanto, do nosso "cair na gandaia".
Porra: O nosso mais popular e saboroso exclamativo, pau para toda obra no falar cotidiano, significa, no México, torcida de futebol, como "hincha" na Argentina. "La porra de la selección nacional" quer dizer a torcida da seleção. Porrista é o integrante das porras, as torcidas uniformizadas dos grandes times locais. Também existe o termo "porro", aquele estudante profissional que fica na faculdade muito mais tempo além do previsto, não fazendo nada de útil, só agitando conchavos e provocações, geralmente a serviço de algum grupo ou figurão político. O jornalista Sérgio Augusto relata que, na Copa de 70, quando a torcida mexicana adotou o Brasil após sua seleção ser desclassificada, a TV só filmava o campo e não a torcida, por causa das faixas "la porra mexicana saluda lá porra brasileña".
Hediondo: Em Espanhol, não é um ato cruel, indigno de ser perdoado, como no Brasil. É a versão hispânica para o adjetivo "fedorento", do verbo "heder" (feder).
Texto de Wladir Dupont retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 3, Editora Segmento, São Paulo, 2005.
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