20 fevereiro 2026

Jogos Circenses

As crianças que nasceram ainda outro dia, que ainda estão aprendendo o mundo, confrontam os tigres e os elefantes com as imagens que lhes foram apresentadas nos livros de histórias. Desejariam que os elefantes fossem muito maiores, e os tigres e os leões muito mais terríveis. Creio que a elegância dos domadores lhes deixa um certo desgosto de facilidades: talvez preferissem um empolgante corpo-a-corpo que exaltasse melhor a vitória; estes meninos nasceram ontem mas trazem um instinto milenar de gloriosas façanhas e gostariam de assistir a uma experiência objetiva (por enquanto) da superioridade do homem sobre as feras.

Isso quanto aos rapazinhos, porque as meninas, ainda suaves, apesar da dureza dos tempos, estão embevecidas com o palhaço muito branco, muito azul, muito vermelho, que vai distribuindo rosas pela plateia; e a moça prateada que sobe e desce aladamente sem interromper a corrida do seu cavalo branco pertence com certeza ao reino das fadas, onde (suspiremos!) algum dia se poderá chegar.

Nós, porém, os que já vimos todos os circos e - principalmente - já conhecemos bastante deste mundo, ficamos ali atônitos com a revisão das histórias humanas, destas nossas histórias frequentes, cômicas e heroicas e encontramos o nosso próprio rosto em cada figurante que aparece, por outras que sejam nossas fisionomias, de cá e de lá.

Pois não devíamos estar sossegados ao pé da terra, com modestos rumos, e não vêm cordas que nos enlaçam, que nos suspendem, que nos deixam numa altura de onde a terra, que é o nosso destino, torna-se o nosso abismo? E não nos impõem estas ordens de ir e vir pelos ares, já sem pés para o chão e ainda sem asas que o céu - recebendo nos braços e atirando para longe funâmbulos que jamais conheceremos, que apenas passa por nós, na oscilação de um mundo frágil de barras e cordas à vezes se cai, pequeno, obscuro meteoro?

Não somos esta claridade, esta alegria, esta festa cintilante sob um chicote oculto que alguém maneja para escravizar-nos ou, para libertar-nos, manejamos?

As crianças divertem-se com o palhaço perseguido pela falsa leoa de goma, que segue como uma boia flutuando no ar, agarrada aos seus calções. É como um pequeno pesadelo infantil essa corrida fluida, com uma imponderável fera onírica. Mas um dia somos todos, bem acordados, ou o palhaço ou a leoa, num pavor sem fundamento neste mundo nosso de símbolos.

Somos aquele que se apoia neste mundo apenas com um dedo, mas depois de inventarmos mil contrapesos, e de irmos renunciando a todos eles, um por um.

Somos esse instante de aplausos, com as arquibancadas celebrando os altos feitos que sentimos em nós, potencialmente; somos esse virtuosismo que vemos e admitimos possuir. E somos a penumbra em que desaparecem os corpos fosforescentes e homens e animais se confundem; essa caverna obscura e piedosa de onde saímos para o espetáculo e a que regressamos.

Mas as crianças ainda não estão iniciadas no segredo dos jogos circenses. Mais tarde compreenderão

E o homem do circo de lona pensa com amargura nas suas adversidades, no seu reino sem disciplina e sem lei, sem perfeição e sem glória; no seu elefante que envelheceu, no palhaço que se quebrou, na trapezista que fugiu. Ah! o circo exige uma precisão cósmica! Os pratos não podem desabar, o pé não pode sair do ponto exato, e se o punhal sofrer um leve desvio no seu rumo é quase certo que atinge o coração.


Crônica de Cecília Meireles retirada do livro Janela Mágica, 11ª edição, Coleção Veredas, Editora Moderna, São Paulo, 1991.

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