16 fevereiro 2026

Quando a Língua comemora

 FORMAS COTIDIANAS DE FELICITAÇÃO EXPRESSAM ANTIGAS REFLEXÕES SOBRE O MODO DE ENCARAR A VIDA


Uma das metáforas mais frequentes nos meios culturais é "resgatar". Fala-se em resgatar não só reféns ou vítimas de enchentes, mas também as raízes culturais, a autoestima, etc. Modismos à parte, parece-nos oportuno esse uso do "resgatar" quando se descreve algo que ocorre no filosofar. Pois a tarefa de filosofar é, em boa medida, um resgatar.

Pelo menos essa é a posição de tantos filósofos que, de Platão a Heidegger, voltam-se para a linguagem comum, procurando recuperar as grandes experiências humanas que acabaram por nela desembocar. Pois essas experiências, vívidas  intuições que o homem tem sobre si mesmo e o mundo, brilham por um momento na consciência e depois vão se desvanecendo, desaparecem. Ficam invisíveis, como que escondidas num depósito: são "raptadas" pela linguagem (e não só por ela), a linguagem como: essa que falamos e ouvimos todos os dias.

Assim, frequentemente, as palavras têm um potencial expressivo muito maior do que supomos à primeira vista, tão familiar e automático é o uso que delas fazemos. Daí a atenção do filósofo para os modos de dizer, os contextos, as sutilezas da linguagem comum, em sua Língua e em outras: como caminho para recuperar as grandes experiências que se condensaram em linguagem.

Daí também a atenção para a etimologia, que frequentemente nos põe em contato com a experiência humana que se condensou em linguagem. Como é bem sabido, é nessa linha, a de buscar "o que dizem as palavras na experiência originária de pensamento", como diz Martin Heidegger, em Ensaios e Conferências (Editora Vozes), levando ao extremo (com as devidas ressalvas) as análises etimológicas - que se situam as reflexões do filósofo alemão, que chega a afirmar: "o acesso à essência de uma coisa nos advém da linguagem".

Podemos, como Heidegger, "pensar a atitude vigorosa daquilo que as palavras, como palavras, nomeiam de forma concentrada", ao verificar o potencial expressivo das formas de convivência cotidiana, como "parabéns".


A hora do "parabéns"

Quando transcendemos o âmbito protocolar das formalidades e da praxe, os votos de felicitação: "parabéns!" (e seus irmãos: o Espanhol enhorabuena!, o Inglês congratulations!, o italiano auguri!) vemos que eles trazem em si diferentes e complementares indicações sobre o mistério do ser e do coração humano. O que significam essas formulações? O que realmente dizemos com "parabéns" ou "congratulations"? Essas expressões trazem um significado, por assim dizer, "invisível a olho nu".

Comecemos pela fórmula Castelhana: Enhorabuena!, literalmente "em boa hora". Indica que um certo caminho (os anos de estudo que desembocaram numa formatura, árduo trabalho de montar uma empresa que se inaugura, etc.) chega, nesta hora (em que se dão as felicitações, a seu termo: está é que é a hora boa, enhorabuena! Precisamente o fato de ser a hora da conclusão é que a torna uma boa hora. A sabedoria dos antigos fala da "hora de cada um", de horas boas e más. Mas a hora boa, a hora melhor é a da conclusão, a da consumação, a do bom termo do caminho, a hora do fim, que é melhor do que a do começo: "Melior est finis quan principium" (Ecl, 7,8).

A formulação inglesa, também presente no alemão e outras Línguas, congratulations, expressa a alegria compartilhada pelo bem do outro, com quem nos con-gratulamos, isto é, nos co-alegramos. Essa comunhão é sugerida também pela forma depoente dos verbos latinos gratulor e congratulor. A forma depoente indica que a ação descrita no verbo não é ativa nem passiva: exercida pelo sujeito, repercute nele mesmo. Ou seja, no caso, que a alegria que externamos ao felicitar tal pessoa é também, a título próprio, muito nossa.

O árabe mabruk indica o caráter de bênção daquele dom pelo qual felicitamos alguém. O italiano auguri, auguri tanti! anuncia (ou enseja) que este bem celebrado é só prenúncio, prefiguração, augúrio de outros ainda maiores que estão por vir.

Com a encantadora forma "parabéns" expressamos precisamente isto: que o bem conquistado, a meta atingida, seja usada "para bens". A aglutinação da preposição "para" com o substantivo "bem" é confirmada, por exemplo, por Antônio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário Etimológico. Em nossa herança cultural, do cristianismo medieval, o mal não tem existência própria, por si: ele é antes uma distorção do bem. E, como se sabe, qualquer bem obtido pode ser usado "para bens" ou "para males", pode contribuir para a autorrealização ou para autodestruição. Pensemos nos casos de um amigo que ganha a medalha de ouro, ou se elege deputado, ou tira a carta de motorista, ou obtém o diploma de advogado... É evidente que essas conquistas - em si boas - podem também ser para males. Por isso, o dom fundamental da vida é celebrado com voto de parabéns...


Tradução do "Parabéns a Você" demorou cinco minutos

Não mais do que cinco minutos foi o tempo que Bertha Celeste Homem de Melo levou para fazer a versão brasileira de Happy Birthday em 1940. Bertha morreu em agosto de 1999, aos 97 anos, vítima de infecção pulmonar, em Jacareí, no Vale do Paraíba (SP). A professora morava na cidade havia 40 anos, mas foi enterrada em Pindamonhagaba, onde nasceu em 21 de março de 1902. Ela criou Parabéns a Você, cantada até então apenas em Inglês, para disputar o concurso de quadrinhas promovido pelo Programa do Almirante, da Rádio Tupi do Rio de Janeiro, para escolher a melhor tradução da trilha sonora mais famosa dos aniversários brasileiros. (Luiz Costa Pereira Júnior)

O peso dos "pêsames"

"Carregava uma tristeza...", diz o antigo samba de Paulinho da Viola: a tristeza é - evidentemente - um peso, os famosos pesares...! E, para carregar o peso da dor, da tristeza, nada melhor - ensina Santo Tomás - do que a ajuda dos amigos: "Porque a tristeza é como um fardo pesado que se torna mais leve para carregar quando compartilhado por muitos: daí que a presença dos amigos seja tão apreciada nos momentos de dor."

Compreende-se, assim, imediatamente, que a expressão de condolências ("doer-se com") seja pêsames, literalmente: pesa-me ("eu te ajudo a carregar o peso desta tua tristeza"). O étimo é confirmado por Antônio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário Etimológico (Nova Fronteira), segundo quem "pêsame" vem de "peso", resultado da ação que a gravidade exerce num corpo, daí "pesa-me".


Texto de Luiz Jean Lauand retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Editora Segmento, São Paulo, Fevereiro de 2006.

Nenhum comentário:

Postar um comentário