06 junho 2026

O mais que anônimo

O mais que anônimo anda pelas antologias e viveu no Egito vinte séculos antes de Cristo. Certo, dia, a essa distância de quarenta séculos, alguma coisa lhe aconteceu, profundamente desesperadora. E apenas a morte lhe pareceu boa, bela e feliz. E escreveu, o mais que anônimo, um poema imortal.

A morte pareceu-lhe boa, como, para o inválido, a saúde, como para o doente, poder deixar o quarto de tratamento. Pareceu-lhe a morte agradável como o perfume da mirra, ou como estar-se, num dia de vento, ao abrigo de um toldo. Como o perfume do lótus. Como estar sentado à margem da embriaguez. Como o fim da chuva. Como a volta, para casa, depois de uma campanha ultramar. Como o céu que sai das nuvens. Como o desejo de um homem de rever sua casa depois de anos sem fim de cativeiro. Assim lhe pareceu a morte. E assim o disse em seu poema.

Quarenta séculos depois, os nossos olhos percorrem as palavras do poeta anônimo, sentindo-as uma por uma, sem desgaste, malgrado tantas traduções, tanto tempo, e as variações do mundo, do tempo, dos aspectos humanos.

O mais que anônimo não nos deu o nome de sua aflição. Por que sofreu tanto? Houve uma injustiça? Uma traição? A sombra de um amor? Uma ofensa? A rivalidade mesquinha que às vezes atravessa uma vida? Perseguições? O despotismo dos poderosos? Tenebrosos enredos de inveja? Os conluios da vaidade? Armadilhas sutis de partidos, grupos, grêmios?

Uma grande dor oprimiu o mais que anônimo. Viu passar a morte sobre os seus sonhos? Um desengano abriu-lhe de repente os grandes muros da mentira? Encontrou de repente a vida como um fato execrável? Desejou não participar mais de sua condição humana?

Não se permitiu a mais breve confissão. O mais que anônimo está envolto em faixas de mistério, com seus enigmas de múmia. Não se queixa. Não aponta nada nem ninguém. Anda-se em redor de seus versos sem se descobrir coisa alguma a não ser esse potencial de dor, esse coração desesperado e contido. É altivo e secreto. No apogeu do sofrimento, quem acredita ser jamais compreendido ou consolado? Quem já sofreu algum dia como quem está sofrendo naquele instante?

O mais que anônimo não diz por quem sofre. Por que sofre. Nem diz que sofre. Seu coração completamente fechado como uma pedra soa apenas para falar da morte. Para suspirar pela morte. Sem explicação, completamente secreto. Cego, imóvel, como em escultura, o poeta não vê nem mostra, não procura, não acusa, nem sequer se lamenta. Só a morte lhe parece boa, bela, feliz, em comparação com o que está sentindo e não revela.

Há quarenta séculos, um dia, foi assim. Foi assim, no Egito, um grande poeta. Uma grande dor. Mais que anônimo, ele está nas antologias com uma grandeza incomparável. Sem ter dito o que sofria, legou-nos uma dor que já tem quarenta séculos e não passa. Sem nos ter deixado o seu nome, ficou mais presente que ninguém; nosso irmão, nosso retrato. Homem eterno, o mais que anônimo.


Crônica de Cecília Meireles retirada do livro Ilusões do Mundo, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1976.

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