24 outubro 2026

Saudade de Mãe/Fogão de Lenha

Coloquei o filtro da arte naquela 

cena comum e a luz que até então

estava escondida veio surpreender-me

com seu poder de claridade.


A mulher simples, mãos calejadas

de lida rotineira, mulher que aprendeu

a curar as dores do mundo a partir dos

meus joelhos esfolados de

quedas e estripulias.


Aquela mulher, minha mãe,

rosto iluminado por uma labareda

que tinha origem no fogão de

lenha trazia consigo o dom de

me devolver a calma que a vida

tantas vezes insistiu em me roubar.


Aquela cena, mulher, fogão de lenha,

panela preta, escondendo a brancura de

um arroz feito na hora é uma das

cenas mais preciosas que meu coração

não soube esquecer.


Saudade de mãe é coisa sem jeito

Chega quando menos imaginamos:

um cheiro, uma melodia, uma palavra,

uma imagem e eis que o cordão do

tempo nos convida ao retorno à infância,

como se um fio nos costurasse ao novo ao

colo da mulher que primeiro nos segurou na

vida e agora pudesse nos regenerar.


Saudade de mãe é ponte que nos favorece

ao retorno a nós mesmos. Travessia que

nos recorda uma identidade muitas vezes

esquecida, perdida na pressa que nos leva.


Saudade de mãe é devolução, é ato que

restitui o que se parte; é luz que sinaliza o

local do porto, é voz no ouvido a

nos acalmar nas madrugadas de desespero e

solidão através de uma frase simples:

"dorme, meu filho, dorme".


Hoje, nesse dia em que a vida me fez

criança de novo; neste instante em que

esta cena feliz tomou conta de mim,

uma única palavra eu quero dizer

Oh, minha mãe, que saudade eu sinto de você!


Poema do Padre Fábio de Melo que antecede a música Fogão de Lenha:


Espera minha mãe, estou voltando

Que falta faz pra mim um beijo seu

O orvalho da manhã cobrindo as flores

E um raio de luar que era tão meu

O sonho de grandeza, ó mãe querida

Um dia separou você e eu

Queria tanto ser alguém na vida

E apenas sou mais um que se perdeu


Pegue a viola e a sanfona que eu tocava

Deixe o bule de café em cima do fogão

Fogão de lenha deixe a rede na varanda

Arrume tudo mãe querida

Que o seu filho vai voltar


Mãe, eu lembro tanto a nossa casa

As coisas que falou quando eu saí

Lembro do meu pai que ficou triste

E nunca mais cantou depois que eu parti

Hoje eu já sei, ó mãe querida

Nas lições da vida eu aprendi

O que vim procurar aqui distante

Eu sempre tive tudo, e tudo está aí


Música de Carlos Colla, Xororó e Maurício Duboc gravada pelo Fábio de Melo em seu CD Enredos do meu povo simples, Paulinas COMEP, 2007.

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