22 junho 2020

Hoje

Se permita ser
Qualquer coisa menos superficial 
Qualquer coisa que elevem os teus sonhos
Mas fujam do mundo imoral

Deixa eu te dizer
Que o amor é fogo que arde forte para dois
Que muda tudo, finda o peito,
E só depois
Te enche de pleno prazer

A gente sofre a dor da sorte
E se parte para vencer
É pura morte, desventura
Viver de vaidade para quê

Hoje a gente vê
Que o dia é duro para chegar até o final
Que cada um possui uma dose de demônios
E a luta é um feito fatal

Fácil perceber
Que o padrão virou doença secular
Moldar o corpo se tornou tão instintivo
E a mente parou de malhar

A gente sofre a dor da sorte
E se parte para vencer
É pura morte, desventura,
Viver de vaidade para quê?

Tudo tem um jeito
Tudo tem um preço
O apreço é o preço da hora
É tudo questão de ser

Somos o que somos
Somos quem seremos
Somos o aqui, o agora
Somos iguais ao morrer

A gente sofre a dor da sorte
E se parte para vencer
É pura morte, desventura
Viver de vaidade para quê?

A gente sofre a dor da sorte
E se parte para vencer
É pura morte, desventura
Viver de vaidade para quê?

Música que abre o CD Arsênico, de Romero Ferro, lançado em 2015.

19 junho 2020

Amor Mais Que Discreto

Talvez haja entre nós o mais total interdito
Mas você é bonito o bastante
Complexo o bastante
Bom o bastante
Pra tornar-se ao menos por um instante
O amante do amante
Que antes de te conhecer eu não cheguei a ser
Eu sou um velho, mas somos dois meninos
Nossos destinos são mutuamente interessantes
Um instante, alguns instantes, o grande espelho
E aí a minha vida ia fazer mais sentido
E a sua talvez mais que a minha
Talvez bem mais que a minha
Os livros, filmes, filhos ganhariam colorido
Se um dia afinal eu chegasse a ver que você vinha
E isso é tanto que pinta no meu canto
Mas pode dispensar a fantasia
O sonho em branco e preto
Amor mais que discreto
Que é já uma alegria
Até mesmo sem ter o seu passado, seu tempo
Seu agora, seu antes, seu depois
Sem ser remotamente sequer imaginado
Sequer imaginado, sequer imaginado sequer
Por qualquer de nós dois

Música de Caetano Veloso que faz parte do CD Tomada, de Filipe Catto, lançado em 2015.

Avesso


Nós já temos encontro marcado
Eu só não sei quando
Se daqui a dois dias
Se daqui a mil anos
Com dois canos pra mim apontados
Ousaria te olhar, ousaria te ver
Num insuspeitável bar, pra decência não nos ver
Perigoso é te amar, doloroso querer
Somos homens pra saber o que é melhor pra nós
O desejo a nos punir, só porque somos iguais
A idade Média é aqui
Mesmo que me arranquem o sexo, minha honra, meu prazer
Te amar eu ousaria
E você, o que fará se esse orgulho nos perder?

No clarão do luar, espero
Cá nos braços do mar me entrego
Quanto tempo levar, quero saber se você
É tão forte que nem lá no fundo irá desejar
O que eu sinto, meu Deus, é tão forte!
Até pode matar
O teu pai já me jurou de morte por eu te desviar
Se os boatos criarem raízes
Ousarias me olhar?
Ousarias me ver?
Dois meninos num vagão e o mistério do prazer
Perigoso é me amar, obscuro querer
Somos grandes para entender, mas pequenos pra opinar
Se eles vão nos receber
É mais fácil condenar ou noivados pra fingir
Mesmo que chegue o momento que eu não esteja mais aqui
E meus ossos virem adubo
Você pode me encontrar no avesso de uma dor
No clarão do luar, espero
Cá nos braços do mar me entrego
Quanto tempo levar, quero saber se você
É tão forte que nem lá no fundo irá desejar...

Música do CD "Leve", de Jorge Vercilo, lançado em 2000.

18 junho 2020

Trecho 232 de O Livro do Desassossego

" Quanto mais avançamos na vida, mais nos convencemos de duas verdades que todavia se contradizem. A primeira é de que, perante a realidade da vida, soam pálidas todas as ficções da literatura e da arte. Dão, é certo, um prazer mais nobre que os da vida; porém são como os sonhos, em que sentimos sentimentos que na vida se não sentem, e se conjugam formas que na vida se não encontram; são contudo sonhos, de que se acorda, que não constituem memórias nem saudades, com que vivamos depois uma segunda vida.
A segunda é de que, sendo desejo de toda alma nobre o percorrer a vida por inteiro, ter experiência de todas as coisas, de todos os lugares e de todos os sentimentos vividos, e sendo isto impossível, a vida só subjetivamente pode ser vivida por inteiro, só negada pode ser vivida na sua substância total.
Estas duas verdades são irredutíveis uma à outra. O sábio abster-se-á de as querer conjugar, e abster-se-á também de repudiar uma ou outra. Terá contudo que seguir uma, saudoso da que não segue; ou repudiar ambas, erguendo-se acima de si mesmo em um nirvana próprio.
Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol o calor, onde quer que esteja. Feliz quem abdica da sua personalidade pela imaginação, e se deleita na contemplação das vidas alheias, vivendo, não todas as impressões, mas o espetáculo externo de todas as impressões alheias. Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.
O campônio, o leitor de novelas, o puro asceta - estes três são os felizes da vida, porque são estes três que abdicam da personalidade - um porque vive do instinto, que é impessoal, outro porque vive da imaginação, que é esquecimento, o terceiro porque não vive,e, não tendo morrido, dorme.
Nada me satisfaz, nada me consola, tudo - quer haja sido, quer não - me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero. "

Trecho 232 de "O Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa.

17 junho 2020

O Último Dia


Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?

Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia?
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia?

Corria prum shopping center
Ou para uma academia?
Pra se esquecer que já não dá tempo
Pro tempo que já se perdia

Andava pelado na chuva?
Corria no meio da rua?
Entrava de roupa no mar?
Trepava sem camisinha?

Abria a porta do hospício?
Trancava a da delegacia?
Dinamitava o meu carro?
Parava o tráfego e ria?

Música de Billy Brandão e Paulinho Moska, que faz parte do CD Pensar é Fazer Música, de Paulinho Moska, lançado em 1995.

16 junho 2020

Trecho 381 de O Livro do Desassossego

"Ninguém ainda definiu, com linguagem com que compreendesse quem o não tivesse experimentado, o que é o tédio. O a uns chamam tédio, não é mais aborrecimento; o que a outros o chamam, não é senão mal-estar; há outros, ainda, que chamam tédio ao cansaço. Mas o tédio, embora participe do cansaço, e do mal-estar, e do aborrecimento, participa deles como a água participa do hidrogênio e oxigênio, de que se compõe. Inclui-os sem a eles se assemelhar.
Se uns dão assim ao tédio um sentido restrito e incompleto, um ou outro lhe presta uma significação que em certo modo o transcende - como quando se chama tédio ao desgosto íntimo e espiritual da variedade e da incerteza do mundo. O que faz abrir a boca, que é o aborrecimento; o que faz mudar de posição, que é o mal-estar; o que faz não se poder mexer, que é o cansaço - nenhuma destas coisas é o tédio; mas também o não é o sentimento profundo da vacuidade das coisas, pelo qual a aspiração frustrada se liberta, a ânsia desiludida se ergue, e se forma na alma a semente da qual nasce o místico ou o santo.
O tédio é, sim, o aborrecimento do mundo, o mal-estar de estar vivendo, o cansaço de se ter vivido; o tédio é, deveras, a sensação carnal da vacuidade prolixa das coisas. Mas o tédio é, mais do que isto, o aborrecimento de outros mundos, quer existam quer não; o mal-estar de ter que viver, ainda que outro, ainda que de outro modo, ainda que noutro mundo; o cansaço, não só de ontem e de hoje, mas de amanhã também, da eternidade, se a houver, e do nada, se é ele que é a eternidade. Nem é só a vacuidade das coisas e dos seres que dói na alma quando ela está em tédio: é também a vacuidade de outra coisa qualquer, que não as coisas e os seres, a vacuidade da própria alma que sente o vácuo, que se sente vácuo, e que nele de si enoja e se repudia.
O tédio é a sensação física do caos, e de que o caos é tudo. O aborrecido, o mal-estante, o cansado sentem-se presos numa cela estreita. O desgostoso da estreiteza da vida sente-se algemado numa cela grande. Mas o que tem tédio sente-se preso em liberdade fruste numa cela infinita. Sobre o que se aborrece, ou tem mal-estar, ou fadiga, podem desabar os muros da cela, e soterrá-lo. Ao  que se desgosta da pequenez do mundo podem cair as algemas, e ele fugir, ou doer de as não poder tirar, e ele, com sentir a dor, reviver-se sem desgosto. Mas os muros da cela infinita não nos podem soterrar, porque não existem; nem nos podem sequer fazer viver pela dor as algemas que ninguém nos pôs.
E é isto que eu sento ante a beleza plácida desta tarde que finda imperecivelmente. Olho o céu alto e claro, onde coisas vagas, róseas, como sombras de nuvens, são uma penugem impalpável de uma vida alada e longínqua. Baixo os olhos sobre o rio, onde a água, não mais que levemente trêmula, é de um azul que parece espelhado de um céu mais profundo. Ergo de novo os olhos ao céu, há já, entre o que de vagamente colorido se esfia sem farrapos no ar invisível, um tom algendo de branco baço, como se alguma coisa também das coisas, onde são mais altas e frustes, tivesse um tédio material próprio, uma impossibilidade de ser o que é, um corpo imponderável de angústia e de  desolação.
Mas quê? Que há no ar alto mais que o ar alto, que não é nada? Que há no céu mais que uma cor que não é dele? Que há nesses farrapos de menos que nuves, de que já duvido, mais que uns reflexos de luz materialmente  incidentes de um sol submisso? que há em tudo isto senão eu? Ah, mas o tédio é isso, é só isso. É que em tudo isso - céu, terra, mundo, - o que há em tudo isto não é senão eu!"

Trecho número 381 do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa.

15 junho 2020

O Dia Em Que A Terra Parou


"Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, eu sonhei...
Com o dia em que a terra parou
Com o dia em que a terra parou

Foi assim num dia em que todas as pessoas do planeta inteiro
Resolveram que ninguém is sair de casa
Em todo o planeta ninguém saiu de casa.
Ninguém.

O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão também não tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar

No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...

E nas igrejas nem um sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá
E os fiéis não saíram pra rezar
Pois sabiam que o padre também não tava lá
E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia o professor também não tava lá
E o professor não saiu pra lecionar
Pois sabia que não tinha nada pra ensinar

No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...

E o comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá

E o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
E o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar

No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...

Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, acordei...

No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou..."


Música de Raul Seixas e Cláudio Roberto que dava título ao então LP de Raul Seixas lançado em 1977. Antecipou uma situação que seria vivida no ano de 2020. Como aqueles filmes de ficção das décadas de 60 ou 70, ninguém imaginava que isso fosse acontecer. No início dos anos 90, Caetano fez uma música que também falava nessa falta de normalidade cotidiana...

Fora da Ordem


"Vapor Barato, um mero serviçal do narcotráfico,
Foi encontrado na ruína de uma escola em construção
Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína
Tudo é menino e menina no olho das rua
O asfalto, a ponte, o viaduto ganindo pra lua
Nada continua
E o cano da pistola que as crianças mordem
Reflete todas as cores da paisagem da cidade que é muito mais bonita e
Muito mais intensa do que no cartão postal.

Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial.

Escuras coxas duras tuas duas de acrobatas mulata,
Tua batata da perna moderna, a trupe intrépida em que fluis
Te encontro em Sampa de onde mal se vê quem sobe ou desce a rampa
Alguma coisa em nossa transa é quase luz forte demais
Parece pôr tudo à prova, parece fogo, parece, parece paz
Parece paz
Pletora de alegria, um show de Jorge Benjor dentro de nós
É muito, é grande, é total.

Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial.

Meu canto esconde-se como um bando de Ianomâmis na floresta
Na minha testa caem, vêm colocar-se plumas de um velho cocar
Estou de pé em cima do monte de imundo lixo baiano
Cuspo chicletes do ódio no esgoto exposto do Leblon
Mas retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon
Eu sei o que é bom
Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final.

Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial"

Música que abre o CD de 1991 de Caetano Veloso. Olhando hoje, parece visionário, assim como outro grande compositor, que também antecipou esse momento atual: Raul Seixas! Em 2017, Maria Alcina fez um disco totalmente dedicado à obra de Caetano, intituluado Espírito de Tudo. Fora da Ordem foi incluída no repertório!

14 junho 2020

Trecho 260 de O Livro do Desassossego

" A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. O que sinto, na verdadeira substância com o que sinto, é absolutamente incomunicável; e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é. Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, quer dizer tais coisas como sendo as que sinto, que ele, lendo-as, sinta exatamente o que eu senti. E como este outrem é, por hipótese de arte, não esta ou aquela pessoa, mas toda a gente, isto é, aquela pessoa que é comum a todas as pessoas, o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano típico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti.
Tudo quanto é abstrato é difícil de compreender, porque é difícil de conseguir para ele a atenção de quem o leia. Darei, por isso, um exemplo simples, em que as abstrações que formei se concretizarão. Suponha-se que, por um motivo qualquer, que pode ser o cansaço de fazer contas ou o tédio de não ter que fazer, cai sobre mim uma tristeza vaga da vida, uma angústia de mim que me perturba e inquieta. Se vou traduzir esta emoção por frases que de perto a cinjam, quanto mais de perto a cinjo, mais a dou como propriamente minha, menos, portanto, a comunico a outros. E, se não há comunicá-la a outros, é mais justo e mais fácil senti-la sem a escrever.
Suponha-se, porém, que desejo comunicá-la a outros, isto é, fazer dela arte, pois a arte é a comunicação aos outros da nossa identidade íntima com eles; sem o que nem há comunicação nem necessidade de a fazer. Procuro qual será a emoção humana vulgar que tenha o tom, o tipo, a forma desta emoção em que estou agora, pelas razões inumanas e particulares de ser um guarda-livros cansado ou um lisboeta aborrecido. E verifico que o tipo de emoção vulgar que produz, na alma vulgar, esta mesma emoção é a saudade da infância perdida.
Tenho a chave para a porta do meu tema. Escrevo e choro a minha infância perdida; demoro-me comovidamente sobre os pormenores de pessoas e mobília da velha casa da província; evoco a felicidade de não ter direitos nem deveres, de ser livre por não saber pensar nem sentir - e esta evocação, se for bem feita como prosa e visões, vai despertar no meu leitor exatamente a emoção que eu senti, e que nada tinha com infância.
Menti? Não, compreendi. Que a mentira, salvo a que é infantil e espontânea, e nasce da vontade de estar a sonhar, é tão-somente a noção da existência real dos outros e da necessidade de conformar a essa existência a nossa, que se não pode conformar a ela. A mentira é simplesmente a linguagem ideal da alma, pois, assim como nos servimos de palavras, que são sons articulados de uma maneira absurda, para em linguagem real traduzir os mais íntimos e sutis movimentos da emoção e do pensamento, que as palavras forçosamente não poderão nunca traduzir, assim nos servimos da mentira e da ficção para nos entendermos uns com os outros, o que, com a verdade, própria e intransmissível, se nunca poderia fazer.
A arte mente porque é social. E há só duas grandes formas de arte - uma que se dirige à nossa alma profunda, a outra que se dirige à nossa alma atenta. A primeira é poesia, o romance a segunda. A primeira começa a mentir na própria estrutura; a segunda começa a mentir na própria intenção. Uma pretende dar-nos a verdade por meio de linhas variadamente regradas, que mentem à inerência da fala; outra pretende dar-nos a verdade por uma realidade que todos sabemos bem que nunca houve.
Fingir é amar. Nem vejo nunca um lindo sorriso ou um olhar significativo que não medite, de repente, e seja de quem for o olhar ou o sorriso, qual é, no fundo da alma em cujo rosto se sorri ou olha, o estadista que nos quer comprar ou a prostituta que quer que a compremos. Mas o estadista que nos compra amou, ao menos, o comprar-nos; e a prostituta, a quem compremos, amou ao menos, o comprarmo-la. Não fugimos, por mais que queiramos, à fraternidade universal. Amamo-nos todos uns aos outros, e a mentira é o beijo que trocamos.

Trecho número 260 de "O Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa.

14 janeiro 2017

Medo de quê?

 A recusa ao diferente diz respeito não apenas àquele que exclui, ofende e muitas vezes comete violência física, mas também à sociedade que gerou valores que padronizam o amor e o prazer


Em 2010, uma palavra tomou conta dos noticiários televisivos no horário nobre, ao menos por alguns dias: homofobia. Essa repercussão foi uma reação a alguns crimes de grande visibilidade, com o ponto em comum de serem dirigidos contra jovens gays, em áreas nobres de grandes cidades brasileiras. Os debates se multiplicaram na internet, nos jornais impressos, nos programas de rádio e televisão; desde então, a palavra retorna na pauta de tempos em tempos. No ar e na telinha, paira uma sensação de medo e insegurança (Cassal, 2012).

De acordo com Borrilo, a homofobia "pode ser definida como hostilidade geral, psicológica e social contra aquelas e aqueles que, supostamente, sentem desejo ou têm práticas sexuais com indivíduos de seu próprio sexo. Forma específica de sexismo, a homofobia rejeita igualmente, todos aqueles que não se conformam com o papel predeterminado para seu sexo biológico". Um grande conceito que nomeia sentimentos e práticas de exclusão, violência, repulsa e eliminação de pessoas com práticas sexuais ou manifestações de gênero que não correspondam às normas sociais vigentes.

As notícias de homofobia invadem nossas casas. No domingo, na paz do almoço de família, aquela prima que você não gosta resolve comentar os noticiários: "Tá vendo, quem mandou dar pinta na rua. Tava pedindo. Era só se comportar, tipo meu amigo Fabinho. Quem olha até pensa que ele é homem".

A frase da prima ecoa na sala de jantar, no trabalho, no jornal e na televisão. Mulheres e homens cultos, educados e bem-vestidos ficam horrorizados ora com a barbaridade do ato, ora com a ousadia da existência da diferença no espaço público. Mas a violência se repete demais para ser dado de um preconceito individual. Trata-se de punição aos sujeitos desviantes das normas sexuais e de gênero, para eliminação dos seus modos de existência. Em vários casos de homofobia, trata-se do assassinato de corpos mas, em muitos acontecimentos de cotidiano, é apenas um ajuste, um lembrete, uma correção. Quando especialistas e o senso comum concordam que um jovem gay deve "saber se comportar" em espaço público, para sua própria proteção, o discurso homofóbico legitima a agressão física e transforma vítimas em responsáveis individuais. O tiro, a faca, o discurso e a lâmpada esquartejam pessoas por conta do desejo e atingem a todos nós: matam as possibilidades.


CONTROLE DOS CORPOS

A escolha da orientação sexual e da identidade de gênero para categorização das pessoas agredidas não se dá por acaso. O filósofo francês Michel Foucault explica que o século XVIII inaugurou um novo modo de organização das relações de poder, através da gestão controlada da vida. Nesse ponto, a sexualidade ocupa uma posição estratégica, pois possibilita regular ao mesmo tempo os corpos individuais e o desenvolvimento da população. Esse controle se dá através de normas; assignam de forma radicalmente diferente os corpos femininos e masculinos, que devem se unir em matrimônio com fins de reprodução. Mais do que prescrever, esse sistema de regras busca e investiga os desvios; transforma em manuais de psiquiatria, psicologia, medicina e pedagogia.

O poder explica, explicita, obriga os sujeitos a deporem minuciosamente sobre seus atos. Molda o modo como vivemos: nossos desejos, nossas questões e curiosidades. A partir das categorizações do século XVIII, a recém-criada psiquiatria constrói inúmeras categorias patológicas, inclusive a homossexualidade (que foi retirada da Classificação Internacional de Doenças - CID em 1990) e a transexualidade (que permanece até hoje na CID). Isso significa que, até hoje, o desejo sobre o próprio corpo, e em relação a outros corpos, é designado como doença, e um critério para inúmeras violências e violações de direitos. Trata-se de deslegitimar as pessoas a falarem de si próprias. No caso da homossexualidade, a identificação como patologia marcou esses sujeitos enquanto potencialmente perigosos, mentirosos, loucos, perversos: a psicologia e as ciências humanas se dedicaram muito para construir o homossexual como personagem que precisa de tratamento (Hocquenghem, 2009). Essa vontade de saber não é ingênua ou por acaso. Trata-se de um regime de poder que produz nossos corpos e desejos de forma padronizada.

A retirada da homossexualidade da CID foi resultado de décadas de luta de movimentos sociais. Entretanto, a transexualidade continua registrada como uma patologia, o que condiciona acesso a direitos como o de identidade e saúde à identificação como doente. Por isso, pessoas que vivenciam a transexualidade, unidas a militantes de vários gêneros e orientações sexuais, seguem na luta pela sua despatologização. Além disso, a homossexualidade continua em disputa clínica: desde a mudança do CID, há inúmeras denúncias de práticas profissionais de "conversão" de homossexuais, com o suposto objetivo de torná-los heterossexuais.

Por conta deste quadro, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) promulgou a Resolução 01/1999, a qual afirma a homossexualidade como orientação sexual e, por não se configurar uma patologia, nenhum psicólogo pode propor qualquer tipo de "cura". Mesmo assim, há diversas denúncias por conta de profissionais que propõem uma suposta "conversão" à norma. Processados eticamente pelo CFP, como prevê a legislação, esses psicólogos afirmam que o conselho os impede de acolher o sofrimento de seus pacientes homossexuais - ou de seus parentes preocupados, especialmente no caso de crianças e adolescentes que não atendem às expectativas de gênero. Ora, mas de que padecem os homossexuais que procuram os consultórios psicológicos?


DE QUE SOFREM OS HOMOSSEXUAIS?

Os homossexuais que pedem voluntariamente para tornarem-se heterossexuais não são considerados loucos, mas sofrem a dor de seus amores. Mas essa dor está marcada no corpo em silêncios, violências, agressões, xingamentos, exclusões. No assassinato de um homossexual a cada 24 horas, na demissão compulsória, no impedimento de gays doarem sangue, no estupro corretivo sofrido por lésbicas. Do mesmo modo, sofrem suas famílias, com medo da violência, da exclusão, dos assassinatos, das notícias de jornal. O flagelo que atinge esses sujeitos não é a homossexualidade em si, e sim os efeitos sociais construídos a partir das normatizações sexuais. Ao complexificar o olhar, podemos afirmar que homossexuais sofrem, enfim, de homofobia. Inclusive a homofobia praticada pela psicologia da "conversão sexual", que hostiliza e rejeita seus modos de existência ao designá-los como patológicos, anormais e passíveis de correção. Baseada no sofrimento e maquiada de boas intenções, essa psicologia discriminatória ganha cada vez mais espaço e institucionalidade, e legitima os assassinatos.

Muitos psicólogos e pesquisadores se debruçam sobre o sujeito autor das violências e exclusões, nomeado homofóbico, com o objetivo de modificar o quadro de violências e exclusões. Borrillo (2010), por exemplo, aponta estudos que identificam certas características comuns dos sujeitos agressores, como idade, gênero, escolaridade, poder aquisitivo e filiações políticas e religiosas. O autor destaca, porém, que o ponto determinante para a homofobia seria a personalidade, posto que se configura como sintoma de uma tentativa inconsciente de eliminar da porção homossexual de si próprio. Ora, nesse caso, o homofóbico seria um potencial cliente do psicólogo, tendo em vista o comportamento disfuncional e possivelmente adoecido, passível de intervenção e tratamento. A psicologia encontraria a origem do problema e apresentar-se-ia como solução.

Assim, a serpente morde sua própria cauda. A razão do sofrimento da homofobia é localizada mais uma vez em um corpo isolado; se não mais no homossexual, agora no homofóbico e o seu drama inconsciente. Mas a homofobia se dá como uma cena repetida em tantos lugares diferentes ao mesmo tempo, e devemos nos perguntar se não há algo mais que dirige o acontecimento. Poderíamos entender que tanto a homossexualidade quanto a homofobia seriam dados naturais e, portanto, repercutiriam em todo o corpo social. Mas Foucault nos alerta para o regime de poder que faz entender o sexo como dado natural e fundante da experiência humana, que é localizada social e historicamente. A associação da homofobia a uma psicopatologia desconsidera os processos sociais subjacentes ao desejo e à repulsa, e mascara o problema mais profundo e complexo: vivemos em uma sociedade extremamente violenta, em que a destruição daquele considerado como Outro não é um dado digno de nota, de revolta, de choro e de luto (Butler, 2010).

Falar da importância das mortes e da escolha dos sujeitos assassinados não pode se reduzir a uma discussão sobre a psicopatologia. A professora Guacira Louro (2004) critica esse modo de entender o fenômeno, pois "seja para considerar a sexualidade como originariamente 'natural', seja para considerá-la como socialmente construída, esses discursos não escapam da referência à heterossexualidade como norma". A violência da homofobia nos faz tomar a homossexualidade como origem dos problemas; mas essa é uma falsa questão! Veja bem, a homossexualidade como um dado fundamental na vivência de alguns sujeitos foi criada antes do próprio conceito de heterossexualidade; a descrição do desvio serve antes de tudo para definir e delimitar as normas segundo as quais vivemos. Precisamos colocar em questão a ideia da própria heterossexualidade como vivência normal, saudável e esperada do desejo humano.

Muitas violências homofóbicas nas ruas vêm acompanhadas de frases como "viado tem que morrer" ou "se eu te matar, faço um favor pra sua família". Outras atingem pessoas que se identificam como heterossexuais. Muitas vezes, ações corretivas supostamente preventivas são dirigidas a crianças e adolescentes em absoluta experimentação curiosa dos seus corpos e dos papéis de gênero. Do século XIX até hoje, diferentes profissionais do psiquismo falam do homossexual como sujeito doente e perigoso. No final das contas, as agressões estão mais ligadas a contextos, aparências e relações que são associadas à homossexualidade, como as manifestações públicas de afeto entre pessoas do mesmo gênero e a aparência de pessoas em desacordo com a expectativa que é atribuída ao seu sexo (Cassal, 2012). Trata-se de um desejo por nomear, classificar e identificar todos os sujeitos, num esforço que nunca acaba. O prazer, o amor e as performances de gênero ficam submetidas a um "armário" que constrange os sujeitos e obriga-os a assumiram uma condição chamada de diferente, ou viverem o silêncio da exclusão (Sedgwick, 2007). Não se fala das possibilidades de alegria na vida: a homossexualidade é tomada como sinônimo de sofrimento. As violações também não são discutidas, porque espera-se que estejam ligadas à identidade do homofóbico, permeado de ódio e desejo de eliminação.

A homofobia não pode ser explicada simplesmente por quem são a vítima e o agressor. Fazer isso é produzir um silenciamento do ato político que é a violência. Precisamos falar e discutir publicamente esses acontecimentos. Despendes (2013) usa suas próprias vivências para afirmar que os agredidos e prejudicados devem falar sobre o que viveram e vivem, para que não se esqueçam, mas também não se elimine a potência do sujeito - há muita vida por vir. O psicólogo Luis Antônio Baptista (1999), por sua vez, entende que o ato do agressor é consequência de uma série de falas e práticas sutis que tornam a violência e o assassinato algo possível. É produção e responsabilidade de todos nós. Por que a homossexualidade assusta a sociedade? Ter a heterossexualidade como norma não produz nada além da violência e a ilusão de que alguns heterossexuais estão protegidos da violência. Como descreve Baptista (1999): "Nossa história nos aponta não para o fim desses atos, mas para a reedição e aperfeiçoamento dessas mórbidas estratégias. (...) as ruas de São Paulo, as praias do Rio de Janeiro, são espaços que estilhaçam os espelhos de uma burguesia que se deseja ver asséptica, segura e feliz. São espaços que estilhaçam uma ética que se diz universal, mas que necessita da ação da polícia e das grades dos condomínios fechados para o seu bom funcionamento". Precisamos mudar a estratégia de enfrentamento, para não reforçar as estigmatizações de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais para acabar com o mito de que um comportamento de gênero considerado adequado é a única possibilidade segura; para afirmar que homofobia é assunto que interessa a todos os sujeitos. Em última instância, somos todos autores e vítimas de um processo que coage e violenta nossos corpos e os modos como nos comportamos e amamos.


ENFRENTAMENTO

É necessário, portanto, pensarmos sobre algumas políticas de enfrentamento à homofobia. Observamos que as principais estratégias estão centradas na contenção do sujeito identificado como homofóbico, especialmente a criminalização da homofobia e a punição de estabelecimentos públicos e privados por discriminação. Estas têm sua importância, mas dois pontos importantes têm chamado atenção dos pesquisadores e militantes: as questões de gênero e a centralidade na patologia (Borrillo, 2010). Em primeiro lugar, o prefixo "homo" tem sido interpretado erroneamente como relativo a "homem" (masculino). O sistema social em que vivemos baseia-se na divisão desigual de gêneros, que inviabiliza e desqualifica as mulheres e elementos considerados do feminino (Despendes, 2013). Tente os seguintes exercícios. Jogue palavras como homossexual e homofobia na internet, e veja quem são os sujeitos retratados. Busque as principais lideranças dos movimentos de diversidade sexual no seu estado e no Brasil; quantas são mulheres? Por fim, busque outros artigos como esse e veja quantos falam de fato sobre mulheres lésbicas. Quando falamos das muitas experiências transgênero, a coisa fica ainda mais complicada. Travestis e transexuais estão expostos a muito mais violência nas ruas e assassinatos, bem como à exclusão de políticas públicas e garantia de direitos, porque suas demandas não são (necessariamente) ligadas à orientação sexual, e sim ao reconhecimento das performances de gênero nas quais se identificam. As políticas públicas afirmativas e de garantia de direitos ainda têm muito a avançar com essas populações, não porque seus corpos sejam mais vulneráveis, mas sim porque a invisibilidade é um modo sutil e extremamente potente de eliminação dos sujeitos tidos como indesejados. As pessoas são coagidas e mortas cotidianamente, e nem tocamos no assunto. Por essas razões, alguns movimentos feministas e transfeministas reivindicam o uso dos termos "lesbofobia" e "transfobia", para dar visibilidade às necessidades específicas e urgentes dessas pessoas.

Enfrentar a homofobia no espaço público é retomar a rua como espaço de encontros. Território para todos, com vestimentas, paixões e comportamentos variados. Muitas vezes, esses encontros nos surpreendem, mas é importante para tirar-nos do lugar-comum. A rua é o espaço do debate democrático sobre as violências e as políticas públicas, bem como de demonstrações de afeto, de experimentações das performances de gênero. Enfrentar a homofobia é falar de possibilidades, de amor e de prazer, não só do outro, mas também dos nossos. Como vivemos, e que práticas são produzidas, a respeito disso? A pergunta que fica seria: quando o prazer do outro me incomoda, o que isso diz não só a mim, mas, principalmente, de todos nós?


Texto de Luan Carpes Barros Cassal retirado da Revista "Sociologia", Editora Escala.