22 junho 2020
Hoje
Qualquer coisa menos superficial
Qualquer coisa que elevem os teus sonhos
Mas fujam do mundo imoral
Deixa eu te dizer
Que o amor é fogo que arde forte para dois
Que muda tudo, finda o peito,
E só depois
Te enche de pleno prazer
A gente sofre a dor da sorte
E se parte para vencer
É pura morte, desventura
Viver de vaidade para quê
Hoje a gente vê
Que o dia é duro para chegar até o final
Que cada um possui uma dose de demônios
E a luta é um feito fatal
Fácil perceber
Que o padrão virou doença secular
Moldar o corpo se tornou tão instintivo
E a mente parou de malhar
A gente sofre a dor da sorte
E se parte para vencer
É pura morte, desventura,
Viver de vaidade para quê?
Tudo tem um jeito
Tudo tem um preço
O apreço é o preço da hora
É tudo questão de ser
Somos o que somos
Somos quem seremos
Somos o aqui, o agora
Somos iguais ao morrer
A gente sofre a dor da sorte
E se parte para vencer
É pura morte, desventura
Viver de vaidade para quê?
A gente sofre a dor da sorte
E se parte para vencer
É pura morte, desventura
Viver de vaidade para quê?
Música que abre o CD Arsênico, de Romero Ferro, lançado em 2015.
19 junho 2020
Amor Mais Que Discreto
Avesso
Nós já temos encontro marcado
Eu só não sei quando
Se daqui a dois dias
Se daqui a mil anos
Com dois canos pra mim apontados
Ousaria te olhar, ousaria te ver
Num insuspeitável bar, pra decência não nos ver
Perigoso é te amar, doloroso querer
Somos homens pra saber o que é melhor pra nós
O desejo a nos punir, só porque somos iguais
A idade Média é aqui
Mesmo que me arranquem o sexo, minha honra, meu prazer
Te amar eu ousaria
E você, o que fará se esse orgulho nos perder?
No clarão do luar, espero
Cá nos braços do mar me entrego
Quanto tempo levar, quero saber se você
É tão forte que nem lá no fundo irá desejar
O que eu sinto, meu Deus, é tão forte!
Até pode matar
O teu pai já me jurou de morte por eu te desviar
Se os boatos criarem raízes
Ousarias me olhar?
Ousarias me ver?
Dois meninos num vagão e o mistério do prazer
Perigoso é me amar, obscuro querer
Somos grandes para entender, mas pequenos pra opinar
Se eles vão nos receber
É mais fácil condenar ou noivados pra fingir
Mesmo que chegue o momento que eu não esteja mais aqui
E meus ossos virem adubo
Você pode me encontrar no avesso de uma dor
No clarão do luar, espero
Cá nos braços do mar me entrego
Quanto tempo levar, quero saber se você
É tão forte que nem lá no fundo irá desejar...
Música do CD "Leve", de Jorge Vercilo, lançado em 2000.
18 junho 2020
Trecho 232 de O Livro do Desassossego
A segunda é de que, sendo desejo de toda alma nobre o percorrer a vida por inteiro, ter experiência de todas as coisas, de todos os lugares e de todos os sentimentos vividos, e sendo isto impossível, a vida só subjetivamente pode ser vivida por inteiro, só negada pode ser vivida na sua substância total.
Estas duas verdades são irredutíveis uma à outra. O sábio abster-se-á de as querer conjugar, e abster-se-á também de repudiar uma ou outra. Terá contudo que seguir uma, saudoso da que não segue; ou repudiar ambas, erguendo-se acima de si mesmo em um nirvana próprio.
Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol o calor, onde quer que esteja. Feliz quem abdica da sua personalidade pela imaginação, e se deleita na contemplação das vidas alheias, vivendo, não todas as impressões, mas o espetáculo externo de todas as impressões alheias. Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.
O campônio, o leitor de novelas, o puro asceta - estes três são os felizes da vida, porque são estes três que abdicam da personalidade - um porque vive do instinto, que é impessoal, outro porque vive da imaginação, que é esquecimento, o terceiro porque não vive,e, não tendo morrido, dorme.
Nada me satisfaz, nada me consola, tudo - quer haja sido, quer não - me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero. "
Trecho 232 de "O Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa.
17 junho 2020
O Último Dia
16 junho 2020
Trecho 381 de O Livro do Desassossego
15 junho 2020
O Dia Em Que A Terra Parou
"Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, eu sonhei...
Com o dia em que a terra parou
Com o dia em que a terra parou
Foi assim num dia em que todas as pessoas do planeta inteiro
Resolveram que ninguém is sair de casa
Em todo o planeta ninguém saiu de casa.
Ninguém.
O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão também não tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
E nas igrejas nem um sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá
E os fiéis não saíram pra rezar
Pois sabiam que o padre também não tava lá
E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia o professor também não tava lá
E o professor não saiu pra lecionar
Pois sabia que não tinha nada pra ensinar
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
E o comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá
E o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
E o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, acordei...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou..."
Música de Raul Seixas e Cláudio Roberto que dava título ao então LP de Raul Seixas lançado em 1977. Antecipou uma situação que seria vivida no ano de 2020. Como aqueles filmes de ficção das décadas de 60 ou 70, ninguém imaginava que isso fosse acontecer. No início dos anos 90, Caetano fez uma música que também falava nessa falta de normalidade cotidiana...
Fora da Ordem
14 junho 2020
Trecho 260 de O Livro do Desassossego
Tenho a chave para a porta do meu tema. Escrevo e choro a minha infância perdida; demoro-me comovidamente sobre os pormenores de pessoas e mobília da velha casa da província; evoco a felicidade de não ter direitos nem deveres, de ser livre por não saber pensar nem sentir - e esta evocação, se for bem feita como prosa e visões, vai despertar no meu leitor exatamente a emoção que eu senti, e que nada tinha com infância.
Menti? Não, compreendi. Que a mentira, salvo a que é infantil e espontânea, e nasce da vontade de estar a sonhar, é tão-somente a noção da existência real dos outros e da necessidade de conformar a essa existência a nossa, que se não pode conformar a ela. A mentira é simplesmente a linguagem ideal da alma, pois, assim como nos servimos de palavras, que são sons articulados de uma maneira absurda, para em linguagem real traduzir os mais íntimos e sutis movimentos da emoção e do pensamento, que as palavras forçosamente não poderão nunca traduzir, assim nos servimos da mentira e da ficção para nos entendermos uns com os outros, o que, com a verdade, própria e intransmissível, se nunca poderia fazer.
A arte mente porque é social. E há só duas grandes formas de arte - uma que se dirige à nossa alma profunda, a outra que se dirige à nossa alma atenta. A primeira é poesia, o romance a segunda. A primeira começa a mentir na própria estrutura; a segunda começa a mentir na própria intenção. Uma pretende dar-nos a verdade por meio de linhas variadamente regradas, que mentem à inerência da fala; outra pretende dar-nos a verdade por uma realidade que todos sabemos bem que nunca houve.
Fingir é amar. Nem vejo nunca um lindo sorriso ou um olhar significativo que não medite, de repente, e seja de quem for o olhar ou o sorriso, qual é, no fundo da alma em cujo rosto se sorri ou olha, o estadista que nos quer comprar ou a prostituta que quer que a compremos. Mas o estadista que nos compra amou, ao menos, o comprar-nos; e a prostituta, a quem compremos, amou ao menos, o comprarmo-la. Não fugimos, por mais que queiramos, à fraternidade universal. Amamo-nos todos uns aos outros, e a mentira é o beijo que trocamos.
Trecho número 260 de "O Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa.
14 janeiro 2017
Medo de quê?
A recusa ao diferente diz respeito não apenas àquele que exclui, ofende e muitas vezes comete violência física, mas também à sociedade que gerou valores que padronizam o amor e o prazer
Em 2010, uma palavra tomou conta dos noticiários televisivos no horário nobre, ao menos por alguns dias: homofobia. Essa repercussão foi uma reação a alguns crimes de grande visibilidade, com o ponto em comum de serem dirigidos contra jovens gays, em áreas nobres de grandes cidades brasileiras. Os debates se multiplicaram na internet, nos jornais impressos, nos programas de rádio e televisão; desde então, a palavra retorna na pauta de tempos em tempos. No ar e na telinha, paira uma sensação de medo e insegurança (Cassal, 2012).
De acordo com Borrilo, a homofobia "pode ser definida como hostilidade geral, psicológica e social contra aquelas e aqueles que, supostamente, sentem desejo ou têm práticas sexuais com indivíduos de seu próprio sexo. Forma específica de sexismo, a homofobia rejeita igualmente, todos aqueles que não se conformam com o papel predeterminado para seu sexo biológico". Um grande conceito que nomeia sentimentos e práticas de exclusão, violência, repulsa e eliminação de pessoas com práticas sexuais ou manifestações de gênero que não correspondam às normas sociais vigentes.
As notícias de homofobia invadem nossas casas. No domingo, na paz do almoço de família, aquela prima que você não gosta resolve comentar os noticiários: "Tá vendo, quem mandou dar pinta na rua. Tava pedindo. Era só se comportar, tipo meu amigo Fabinho. Quem olha até pensa que ele é homem".
A frase da prima ecoa na sala de jantar, no trabalho, no jornal e na televisão. Mulheres e homens cultos, educados e bem-vestidos ficam horrorizados ora com a barbaridade do ato, ora com a ousadia da existência da diferença no espaço público. Mas a violência se repete demais para ser dado de um preconceito individual. Trata-se de punição aos sujeitos desviantes das normas sexuais e de gênero, para eliminação dos seus modos de existência. Em vários casos de homofobia, trata-se do assassinato de corpos mas, em muitos acontecimentos de cotidiano, é apenas um ajuste, um lembrete, uma correção. Quando especialistas e o senso comum concordam que um jovem gay deve "saber se comportar" em espaço público, para sua própria proteção, o discurso homofóbico legitima a agressão física e transforma vítimas em responsáveis individuais. O tiro, a faca, o discurso e a lâmpada esquartejam pessoas por conta do desejo e atingem a todos nós: matam as possibilidades.
CONTROLE DOS CORPOS
A escolha da orientação sexual e da identidade de gênero para categorização das pessoas agredidas não se dá por acaso. O filósofo francês Michel Foucault explica que o século XVIII inaugurou um novo modo de organização das relações de poder, através da gestão controlada da vida. Nesse ponto, a sexualidade ocupa uma posição estratégica, pois possibilita regular ao mesmo tempo os corpos individuais e o desenvolvimento da população. Esse controle se dá através de normas; assignam de forma radicalmente diferente os corpos femininos e masculinos, que devem se unir em matrimônio com fins de reprodução. Mais do que prescrever, esse sistema de regras busca e investiga os desvios; transforma em manuais de psiquiatria, psicologia, medicina e pedagogia.
O poder explica, explicita, obriga os sujeitos a deporem minuciosamente sobre seus atos. Molda o modo como vivemos: nossos desejos, nossas questões e curiosidades. A partir das categorizações do século XVIII, a recém-criada psiquiatria constrói inúmeras categorias patológicas, inclusive a homossexualidade (que foi retirada da Classificação Internacional de Doenças - CID em 1990) e a transexualidade (que permanece até hoje na CID). Isso significa que, até hoje, o desejo sobre o próprio corpo, e em relação a outros corpos, é designado como doença, e um critério para inúmeras violências e violações de direitos. Trata-se de deslegitimar as pessoas a falarem de si próprias. No caso da homossexualidade, a identificação como patologia marcou esses sujeitos enquanto potencialmente perigosos, mentirosos, loucos, perversos: a psicologia e as ciências humanas se dedicaram muito para construir o homossexual como personagem que precisa de tratamento (Hocquenghem, 2009). Essa vontade de saber não é ingênua ou por acaso. Trata-se de um regime de poder que produz nossos corpos e desejos de forma padronizada.
A retirada da homossexualidade da CID foi resultado de décadas de luta de movimentos sociais. Entretanto, a transexualidade continua registrada como uma patologia, o que condiciona acesso a direitos como o de identidade e saúde à identificação como doente. Por isso, pessoas que vivenciam a transexualidade, unidas a militantes de vários gêneros e orientações sexuais, seguem na luta pela sua despatologização. Além disso, a homossexualidade continua em disputa clínica: desde a mudança do CID, há inúmeras denúncias de práticas profissionais de "conversão" de homossexuais, com o suposto objetivo de torná-los heterossexuais.
Por conta deste quadro, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) promulgou a Resolução 01/1999, a qual afirma a homossexualidade como orientação sexual e, por não se configurar uma patologia, nenhum psicólogo pode propor qualquer tipo de "cura". Mesmo assim, há diversas denúncias por conta de profissionais que propõem uma suposta "conversão" à norma. Processados eticamente pelo CFP, como prevê a legislação, esses psicólogos afirmam que o conselho os impede de acolher o sofrimento de seus pacientes homossexuais - ou de seus parentes preocupados, especialmente no caso de crianças e adolescentes que não atendem às expectativas de gênero. Ora, mas de que padecem os homossexuais que procuram os consultórios psicológicos?
DE QUE SOFREM OS HOMOSSEXUAIS?
Os homossexuais que pedem voluntariamente para tornarem-se heterossexuais não são considerados loucos, mas sofrem a dor de seus amores. Mas essa dor está marcada no corpo em silêncios, violências, agressões, xingamentos, exclusões. No assassinato de um homossexual a cada 24 horas, na demissão compulsória, no impedimento de gays doarem sangue, no estupro corretivo sofrido por lésbicas. Do mesmo modo, sofrem suas famílias, com medo da violência, da exclusão, dos assassinatos, das notícias de jornal. O flagelo que atinge esses sujeitos não é a homossexualidade em si, e sim os efeitos sociais construídos a partir das normatizações sexuais. Ao complexificar o olhar, podemos afirmar que homossexuais sofrem, enfim, de homofobia. Inclusive a homofobia praticada pela psicologia da "conversão sexual", que hostiliza e rejeita seus modos de existência ao designá-los como patológicos, anormais e passíveis de correção. Baseada no sofrimento e maquiada de boas intenções, essa psicologia discriminatória ganha cada vez mais espaço e institucionalidade, e legitima os assassinatos.
Muitos psicólogos e pesquisadores se debruçam sobre o sujeito autor das violências e exclusões, nomeado homofóbico, com o objetivo de modificar o quadro de violências e exclusões. Borrillo (2010), por exemplo, aponta estudos que identificam certas características comuns dos sujeitos agressores, como idade, gênero, escolaridade, poder aquisitivo e filiações políticas e religiosas. O autor destaca, porém, que o ponto determinante para a homofobia seria a personalidade, posto que se configura como sintoma de uma tentativa inconsciente de eliminar da porção homossexual de si próprio. Ora, nesse caso, o homofóbico seria um potencial cliente do psicólogo, tendo em vista o comportamento disfuncional e possivelmente adoecido, passível de intervenção e tratamento. A psicologia encontraria a origem do problema e apresentar-se-ia como solução.
Assim, a serpente morde sua própria cauda. A razão do sofrimento da homofobia é localizada mais uma vez em um corpo isolado; se não mais no homossexual, agora no homofóbico e o seu drama inconsciente. Mas a homofobia se dá como uma cena repetida em tantos lugares diferentes ao mesmo tempo, e devemos nos perguntar se não há algo mais que dirige o acontecimento. Poderíamos entender que tanto a homossexualidade quanto a homofobia seriam dados naturais e, portanto, repercutiriam em todo o corpo social. Mas Foucault nos alerta para o regime de poder que faz entender o sexo como dado natural e fundante da experiência humana, que é localizada social e historicamente. A associação da homofobia a uma psicopatologia desconsidera os processos sociais subjacentes ao desejo e à repulsa, e mascara o problema mais profundo e complexo: vivemos em uma sociedade extremamente violenta, em que a destruição daquele considerado como Outro não é um dado digno de nota, de revolta, de choro e de luto (Butler, 2010).
Falar da importância das mortes e da escolha dos sujeitos assassinados não pode se reduzir a uma discussão sobre a psicopatologia. A professora Guacira Louro (2004) critica esse modo de entender o fenômeno, pois "seja para considerar a sexualidade como originariamente 'natural', seja para considerá-la como socialmente construída, esses discursos não escapam da referência à heterossexualidade como norma". A violência da homofobia nos faz tomar a homossexualidade como origem dos problemas; mas essa é uma falsa questão! Veja bem, a homossexualidade como um dado fundamental na vivência de alguns sujeitos foi criada antes do próprio conceito de heterossexualidade; a descrição do desvio serve antes de tudo para definir e delimitar as normas segundo as quais vivemos. Precisamos colocar em questão a ideia da própria heterossexualidade como vivência normal, saudável e esperada do desejo humano.
Muitas violências homofóbicas nas ruas vêm acompanhadas de frases como "viado tem que morrer" ou "se eu te matar, faço um favor pra sua família". Outras atingem pessoas que se identificam como heterossexuais. Muitas vezes, ações corretivas supostamente preventivas são dirigidas a crianças e adolescentes em absoluta experimentação curiosa dos seus corpos e dos papéis de gênero. Do século XIX até hoje, diferentes profissionais do psiquismo falam do homossexual como sujeito doente e perigoso. No final das contas, as agressões estão mais ligadas a contextos, aparências e relações que são associadas à homossexualidade, como as manifestações públicas de afeto entre pessoas do mesmo gênero e a aparência de pessoas em desacordo com a expectativa que é atribuída ao seu sexo (Cassal, 2012). Trata-se de um desejo por nomear, classificar e identificar todos os sujeitos, num esforço que nunca acaba. O prazer, o amor e as performances de gênero ficam submetidas a um "armário" que constrange os sujeitos e obriga-os a assumiram uma condição chamada de diferente, ou viverem o silêncio da exclusão (Sedgwick, 2007). Não se fala das possibilidades de alegria na vida: a homossexualidade é tomada como sinônimo de sofrimento. As violações também não são discutidas, porque espera-se que estejam ligadas à identidade do homofóbico, permeado de ódio e desejo de eliminação.
A homofobia não pode ser explicada simplesmente por quem são a vítima e o agressor. Fazer isso é produzir um silenciamento do ato político que é a violência. Precisamos falar e discutir publicamente esses acontecimentos. Despendes (2013) usa suas próprias vivências para afirmar que os agredidos e prejudicados devem falar sobre o que viveram e vivem, para que não se esqueçam, mas também não se elimine a potência do sujeito - há muita vida por vir. O psicólogo Luis Antônio Baptista (1999), por sua vez, entende que o ato do agressor é consequência de uma série de falas e práticas sutis que tornam a violência e o assassinato algo possível. É produção e responsabilidade de todos nós. Por que a homossexualidade assusta a sociedade? Ter a heterossexualidade como norma não produz nada além da violência e a ilusão de que alguns heterossexuais estão protegidos da violência. Como descreve Baptista (1999): "Nossa história nos aponta não para o fim desses atos, mas para a reedição e aperfeiçoamento dessas mórbidas estratégias. (...) as ruas de São Paulo, as praias do Rio de Janeiro, são espaços que estilhaçam os espelhos de uma burguesia que se deseja ver asséptica, segura e feliz. São espaços que estilhaçam uma ética que se diz universal, mas que necessita da ação da polícia e das grades dos condomínios fechados para o seu bom funcionamento". Precisamos mudar a estratégia de enfrentamento, para não reforçar as estigmatizações de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais para acabar com o mito de que um comportamento de gênero considerado adequado é a única possibilidade segura; para afirmar que homofobia é assunto que interessa a todos os sujeitos. Em última instância, somos todos autores e vítimas de um processo que coage e violenta nossos corpos e os modos como nos comportamos e amamos.
ENFRENTAMENTO
É necessário, portanto, pensarmos sobre algumas políticas de enfrentamento à homofobia. Observamos que as principais estratégias estão centradas na contenção do sujeito identificado como homofóbico, especialmente a criminalização da homofobia e a punição de estabelecimentos públicos e privados por discriminação. Estas têm sua importância, mas dois pontos importantes têm chamado atenção dos pesquisadores e militantes: as questões de gênero e a centralidade na patologia (Borrillo, 2010). Em primeiro lugar, o prefixo "homo" tem sido interpretado erroneamente como relativo a "homem" (masculino). O sistema social em que vivemos baseia-se na divisão desigual de gêneros, que inviabiliza e desqualifica as mulheres e elementos considerados do feminino (Despendes, 2013). Tente os seguintes exercícios. Jogue palavras como homossexual e homofobia na internet, e veja quem são os sujeitos retratados. Busque as principais lideranças dos movimentos de diversidade sexual no seu estado e no Brasil; quantas são mulheres? Por fim, busque outros artigos como esse e veja quantos falam de fato sobre mulheres lésbicas. Quando falamos das muitas experiências transgênero, a coisa fica ainda mais complicada. Travestis e transexuais estão expostos a muito mais violência nas ruas e assassinatos, bem como à exclusão de políticas públicas e garantia de direitos, porque suas demandas não são (necessariamente) ligadas à orientação sexual, e sim ao reconhecimento das performances de gênero nas quais se identificam. As políticas públicas afirmativas e de garantia de direitos ainda têm muito a avançar com essas populações, não porque seus corpos sejam mais vulneráveis, mas sim porque a invisibilidade é um modo sutil e extremamente potente de eliminação dos sujeitos tidos como indesejados. As pessoas são coagidas e mortas cotidianamente, e nem tocamos no assunto. Por essas razões, alguns movimentos feministas e transfeministas reivindicam o uso dos termos "lesbofobia" e "transfobia", para dar visibilidade às necessidades específicas e urgentes dessas pessoas.
Enfrentar a homofobia no espaço público é retomar a rua como espaço de encontros. Território para todos, com vestimentas, paixões e comportamentos variados. Muitas vezes, esses encontros nos surpreendem, mas é importante para tirar-nos do lugar-comum. A rua é o espaço do debate democrático sobre as violências e as políticas públicas, bem como de demonstrações de afeto, de experimentações das performances de gênero. Enfrentar a homofobia é falar de possibilidades, de amor e de prazer, não só do outro, mas também dos nossos. Como vivemos, e que práticas são produzidas, a respeito disso? A pergunta que fica seria: quando o prazer do outro me incomoda, o que isso diz não só a mim, mas, principalmente, de todos nós?
Texto de Luan Carpes Barros Cassal retirado da Revista "Sociologia", Editora Escala.