07 janeiro 2026

Multifacetado

                                    O ambicioso projeto de Fernando Pessoa incluía recriar                                    a literatura e a própria personalidade de poeta


Fernando Pessoa foi um criador de poemas e de poetas. Ele não assinou, simplesmente, seus poemas com "pseudônimos", mas foi além: inventou "heterônimos", outras pessoas com personalidade distintas, dotadas de vida, pensamentos e estilo próprio, diferentes em tudo do próprio Pessoa.

"Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não. Para criar, destruí-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças" (Livro do Desassossego).

Desse ambicioso projeto de criação e recriação da poesia, da Literatura e da própria identidade concebido por Pessoa, nasceu uma grande obra dramática, encenada pelos heterônimos, em que esses personagens dialogam entre si num processo metalinguístico que ultrapassa as fronteiras da Literatura, daí o título dado pelo poeta a grande parte de sua obra heteronímica: Ficção de Interlúdio.

Na linguagem teatral, "interlúdio" é uma cena menor que ocorre entre os atos de uma peça, e, por analogia, teríamos na heteronímia de Fernando Pessoa peças poéticas que, por sua vez, estão dentro de uma enorme peça poética que é a Literatura. Nesse jogo de cenas e de atores múltiplos constrói-se uma das obras mais singulares e intrigantes de toda Literatura: um grande baile poético de máscaras.

Para entendermos melhor esse grandioso projeto, é preciso compreender o mundo de Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro - os heterônimos mais bem acabados de Pessoa - com suas personalidades tão díspares quanto os estilos que o poeta desdobrou.


As Personas do Poeta

Ricardo Reis: representa a tendência clássica da poética de Pessoa. Sua linguagem é contida e seus versos são em geral curtos e formais. No tocante à filosofia, busca no estoicismo e no epicurismo (saúde do corpo e da mente) o equilíbrio para aproveitar a vida sem exageros.

"Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és.

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive".


Álvaro de Campos: é um poeta moderno e conflituoso, dividido entre o entusiasmo com a civilização e com o progresso tecnológico, e a angústia metafísica da vida. Essa modernidade contraditória se deixa entrever em sua poesia racional e sentimental.

"Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica

Fora disso sou doido, com todo direito de sê-lo"


"Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? (...)

Vão para o diabo sem mim,

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!"


Alberto Caeiro: é o mais simples e objetivo de todos os heterônimos de Pessoa. Busca na ordem natural das coisas e compreensão do mundo, eliminando a subjetividade e traduzindo nas sensações a sua objetividade absoluta. É o poeta que se opõe-se ao intelectualismo, à abstração, à metafísica e ao misticismo, contrariando, inclusive, o ortonômio Fernando Pessoa "ele-mesmo". A importância de Caeiro para os demais heterônimos e o jogo de cena dialógico criado por Pessoa ficam evidentes nos versos de Álvaro de Campos:

"Meu mestre e meu guia

A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,

Seguro como um dia mostrando tudo

Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade"


Fernando Antônio Nogueira Pessoa: ficou órfão de pai aos 5 anos, mudando-se para Durban (África do Sul), onde passou a estudar até concluir o colégio. Em 1905, já em Portugal, matriculou-se num curso de Letras em Lisboa, abandonando-o em seguida. Torna-se crítico literário em 1912 e, três anos depois, passa a liderar o grupo da revista Orpheu. Morre em 1935.


Retirado do Guia Vestibular Enem 2013, Revista Língua Portuguesa Especial, vários autores, Editora Segmento, São Paulo.

06 janeiro 2026

A bolha de sabão em números

Como a arte inspirou a matemática (e vice-versa) no estudo de figuras geométricas


No século 19, o alemão Karl Weierstrass (1815-1897) conseguiu seu título de doutor honoris causa por desenvolver uma série de ferramentas matemáticas e dar maior rigor às provas de teoremas. Ele já tinha passado dos 40 anos, idade considerada tardia para descobertas matemáticas, e lecionava havia 14 anos no ensino secundário quando publicou seus trabalhos e foi reconhecido como um grande talento matemático. Logo em seguida, recebeu vários convites e escolheu lecionar na Universidade de Berlim. Sua fama de excelente professor atraía estudantes de todas as partes do mundo.

Os trabalhos de Weierstrass foram aplicados muito tempo depois pelo matemático brasileiro Celso Costa, da Universidade Federal Fluminense, que tentava descobrir em seu doutorado uma nova figura geométrica. Para chegar a ela, usou estudos, particularmente funções, desenvolvidas pelo matemático alemão. O que Costa buscava era algo que vinha movimentando pesquisadores de todo o mundo por 200 anos: descrever matematicamente a forma de novas superfícies mínimas.

A ideia surgiu no começo dos anos 80, quando o brasileiro estava no cinema. "Eu assistia a um filme sobre Escola de Samba e um sambista desfilava com um bizarro chapéu de três abas. Naquele momento tive a inspiração crucial e final do modo como a figura geométrica da superfície que eu buscava se apresentava no espaço." No século 18, quando tiveram início as pesquisas sobre esse tema, foram descritas três superfícies mínimas: o plano, o catenóide e o helicóide. Depois disso, ninguém descobriu mais nenhuma.

O material utilizado nos primeiros trabalhos era a película de sabão, que acabou sendo útil para a construção da teoria matemática sobre essas superfícies.

E aquela mistura de água com sabão e a argola que se usa para soltar bolhas no ar ainda pode ser usada para explicar o que são superfícies mínimas. A película que se forma na argola antes que ela seja movimentada no ar é a primeira das superfícies mínimas: o plano. A segunda (catenóide) é obtida quando assopramos a argola e a película forma um bojo, antes de chegar a se fechar em bola. Devemos imaginar que a borda inicial formada pela argola seja mantida, ou seja, a superfície é limitada pelas duas bordas e vazada. A terceira (helicóide) é obtida se deformarmos a argola em forma de hélice. As formas que a película vai adquirir no espaço são as superfícies mínimas, ou as superfícies de menor área que cobre um determinado bordo (nesse caso, a argola).

A nova superfície descoberta em 1982 por Costa, que levou seu nome, teve grande repercussão no mundo da matemática por resolver um problema antigo. Muitos matemáticos tentavam provar a existência (ou não) de superfícies como a do brasileiro. Além disso, a partir dela, foi possível desenvolver técnicas que permitem hoje a solução de muitos outros problemas na área de superfícies mínimas. O trabalho acabou  dando origem a uma série de pesquisas que resultaram na descoberta de novas superfícies, teoremas e novos problemas matemáticos.

Para cada superfície mínima existem equações que geram o objeto em três dimensões. Para as três primeiras figuras descobertas no século 18, as equações eram relativamente simples e facilmente relacionáveis com o objeto em 3D. Mas as equações da superfície já apresentam muitas complicações para a visualização da figura em três dimensões. Então, a partir da descoberta do brasileiro, Hoffman e Meeks, dois americanos da Universidade de Massachusetts, fizeram a imagem computacional exata da superfície. Posteriormente, a descoberta do brasileiro acabou influenciando também o desenvolvimento da computação gráfica.

A superfície Costa tem a forma de um toro - como as boias do tipo pneu que os banhistas usam para flutuar nas piscinas - com três buracos. Depois de visualizada por computador, foi a vez dessa curiosa superfície geométrica inspirar vários artistas pelo mundo, que acabaram ganhando prêmios com esculturas da superfície Costa, seja em material permanente - metal ou concreto - ou em blocos de gelo nos festivais de inverno dos países frios.


Texto de Carmen Kawano retirado da Revista Galileu, número 150, Janeiro de 2004, Editora Globo, Rio de Janeiro.


05 janeiro 2026

O Mistério da Causação Mental

Grande parte dos psiquiatras e neurocientistas considera que mente e cérebro são a mesma coisa. Para eles, esse é um pressuposto indiscutível. As mentes seriam, a esta altura do desenvolvimento científico, criação de psicólogos ou especulação de filósofos. Mas parece que o conceito de mente, e com ele o problema mente-cérebro, teima em não desaparecer.

É muito comum ocorrerem tentativas frustradas de diagnóstico de dores e quando elas são definitivamente malsucedidas, remete-se o doente ao psicólogo para buscar o "fundo emocional" de sua doença. Isso ocorre quando nenhuma anomalia física é encontrada e é a partir daí que o mental começa a ganhar uma existência - mesmo que apenas fantasmagórica. O mental reaparece como dotado de poderes causais, pois subitamente é preciso inferir a eficácia causal de algo inobservável, sem peso, e que não ocupa lugar no espaço.

Os médicos parecem não se lembrar - alguns talvez nem saber - que esse era o quadro típico das histéricas de Freud: sem nenhuma lesão física que pudesse ocasioná-los, apresentavam uma série de sintomas em seu corpo. Esse era o quadro típico da histeria de conversão que deu início à Psicanálise.

Mas não é apenas na qualidade de um ser fantasmagórico que pode puxar alavancas que o conceito de mente ainda existe. Não é apenas para os médicos justificarem suas buscas detetivescas de causas primeiras - por vezes sem sucesso - que o mental adquire cidadania ontológica.

Há também um outro tipo de causação que nos faz ter de admitir uma ontologia para o mental. Nesse outro tipo, o que está em jogo não é a causação do mental em direção ao físico, mas seu oposto. Por exemplo: pessoas com depressão apresentam queda do nível de certos neurotransmissores em seu cérebro. Medicação antidepressiva pode repor os níveis normais dessas substâncias, mas, assim mesmo, haverá pessoas que não sairão da depressão. Elas precisarão de psicoterapia, além de medicação antidepressiva. Por outro lado, há casos de depressão que podem ser curados apenas pela psicoterapia.

Isso tem levado à conclusão de que há um componente mental associado à depressão. Constatou-se então um dado clínico importante: nas depressões ocorre não somente a queda de níveis de neurotransmissores, como também algum evento traumático na vida da pessoa. Um evento que poderá ser traumático para alguns e não para outros. Dependerá do significado que ele assumir na história de vida de uma pessoa. Nesse caso, temos algo ainda mais complicado do que uma mente alavancando movimentos musculares ou lesões somáticas. Trata-se de algo mais nebuloso, pois, afinal de contas, o que é um significado? Como pode um significado atuar como "causa mental"?

As palavras e seus significados agem sobre o cérebro. Essa é a ideia que temos hoje acerca das psicoterapias, da psicanálise e de todas as curas pela fala. Vários estudos, utilizando-se inclusive de neuroimagem parecem apontar nessa direção. Mas como será que o significado das palavras pode alterar o cérebro de uma pessoa? Demos uma volta para reencontrar o problema da causação mental.

Essa é uma questão que tem ganhado grande dimensão na Filosofia da mente. Um de seus maiores estudiosos é o filósofo Jaegwon Kim. Ele observa que os materialistas tentam tomar um atalho curto demais para resolvê-la. Como para eles, estados mentais são estados cerebrais, não há nenhum problema em um estado cerebral causar outro. Mas o problema da causação mental não é tão simples assim, pois, pelo visto, ainda não conseguimos nos livrar da mente: ela ainda é necessária para explicar várias coisas.

Há, ainda, várias outras facetas do problema da causação mental. Podemos pensar que problemática é a causação do mental para o físico ou cerebral e que o mesmo não ocorreria para o mental. Mas será que um estado mental pode causar outro? Certamente o que liga um estudo mental a outro não é uma relação causal, como ocorre com as coisas que observamos no mundo. Nesse sentido não poderíamos falar de uma causação do mental, embora isso deixe em aberto saber que tipo de relação estados mentais mantêm entre si.

Um outro aspecto do problema da causação mental é saber se a consciência interfere na causação do mental para o físico. Os filósofos vivem procurando uma função para a consciência, sem conseguir atribuir-lhe nenhuma.. Os psicoterapeutas, contudo, veem nela um papel cognitivo importante na modificação do comportamento. É uma expansão da consciência - e não somente de informação - que leva uma pessoa a descobrir quais são os condicionantes de seu comportamento para então começar a poder modificá-lo. Isso basta para podermos atribuir à consciência um papel causal importante.

Ao contrário do que supõem psiquiatras e neurocientistas, o problema mente-cérebro está longe de ser resolvido. É isso o que nos mostra o problema da causação mental. Esses são problemas que dificilmente desaparecerão, pois fazem parte do nosso 'imaginário filosófico'. Os índios não correlacionavam dores de estômago com a ingestão de alimentos. A eles faltava o aprendizado da ideia de causalidade. De modo inverso, não conseguimos dissociar pensamento intencional de movimentos musculares a eles correspondentes. Talvez este seja um resquício de pensamento mágico, tão mágico quanto os dois índios que achavam que eram demônios que causavam suas dores de estômago. Não será essa crença apenas um mito? Um item de pensamento mágico reforçado pela percepção habitual do mundo e pela psicologia popular?

Uma observação importante é o fato de quase nunca associarmos causação mental com nossas ações que seriam causadas por nossas intenções, mas a associarmos com fatos anômalos como, por exemplo, a psicocinese, ou seja, fenômenos esporádicos nos quais movemos objetos pela ação do pensamento. Causação mental estaria muito mais associada ao mágico do que ao habitual. Ora, será a causação mental um tema para o antropólogo cognitivo e não para o filósofo?


Texto de João de Fernandes Teixeira (Bacharel em Filosofia pela USP; mestre em Filosofia da Ciência pela UNICAMP; PhD pela University of Essex na Inglaterra; pós-doutorado sob orientação de Daniel Dennet nos Estados Unidos). Material retirado da Revista Filosofia - Ciência & Vida, número 22, Editora Dibra/Nova Escala, São Paulo, 2008.

04 janeiro 2026

Dicionário do Feng Shui

Ambiente: todo local onde se tem o objetivo de aplicar a técnica do Feng Shui.

Aromaterapia: é uma das técnicas mais antigas da história de cura e tratamentos que utilizam óleos e essências extraídos de plantas.

Aura: é um halo energético colorido que emana do corpo bioplasmático, circundando a periferia do corpo físico, em forma ovóide. Também é conhecida pelos nomes de Psicosfera e Campo Luminoso.

Auspicioso: de bons presságios; promissor.

Ba-guá (pa kua): octógono símbolo do Feng Shui que representa os principais aspectos da vida (Trabalho; Espiritualidade; Família; Prosperidade; Sucesso; Relacionamentos; Criatividade; Amigos). É representado por oito trigramas que originam os 64 hexagramas do I Ching. Quando aplicado à planta da casa ou em qualquer local tem como objetivo harmonizar o ambiente.

Chakras: palavra em sânscrito usada pelas técnicas alternativas para designar os órgãos do corpo. Também são chamados de Vórtices de Energia.

Chen: um dos oito trigramas. Seu significado é Trovão.

Ch'i (Chi): a energia vital. Dentro da filosofia do Feng Shui, o Ch'i deve estar sempre presente nos ambientes para que haja harmonia.

Chien: um dos oito trigramas. Seu significado é Céu.

Corpo Energético: é aquele que contém o campo  de força do indivíduo. Também é conhecido como corpo bioplasmático, duplo-etérico ou etérico.

Corpo Espiritual: é um corpo sutil, imaterial, luminoso e que comanda o físico e o energético.

Corpo Físico: é o denso e material, constituído por ossos, músculos, nervos, pele, órgãos, glândulas, veias e artérias que formam a estrutura humana.

Cromologia: é a ciência que estuda as cores pelo aspecto físico, incluindo a sua origem no espectro eletromagnético e suas características, como comprimento de onda, frequência, velocidade, etc.

Cromosofia: significa sabedoria das cores, ou seja, conhecimento transcendental das cores e sua influência sobre a psique do ser humano.

Cromoterapia: é a ciência que utiliza as cores para melhorar o funcionamento dos órgãos e sistemas do organismo, estabelecendo a cura.

Cheh Ming (CM): literalmente significa "perda total dos descendentes", esta é uma das áreas desfavoráveis, segundo a Escola da Bússola. É considerada a pior das áreas, somente boa para a cozinha, desde o fogão esteja voltado para uma área favorável. Essa área não deve coincidir com a entrada da casa.

Dragão: principal símbolo do Feng Shui. Acredita-se que o espírito ou respiração cósmica do dragão tem a capacidade de influenciar as forças naturais, trazendo boa ou má sorte.

Elementos: segundo a crença chinesa, os cinco elementos terra, madeira, fogo, metal e água oferecem indicações essenciais para a prática do Feng Shui.

Escola da Forma: é uma das correntes do Feng Shui que valoriza o relevo.

Escola da Bússola: é uma das interpretações do Feng Shui que considera os pontos cardeais e o norte magnético. A numerologia pessoal, o mapa astral da pessoa e os cinco elementos também são fatores importantes para essa corrente.

Escola do Chapéu Negro: esta corrente trabalha com os símbolos do subconsciente. A escola do Chapéu Negro é a mais praticada no Ocidente, porque trabalha com o ba-guá.

Feng Shui: Feng significa 'vento' e Shui significa 'água'. O Feng Shui é uma técnica oriental desenvolvida há mais de 3 mil anos, baseada no equilíbrio dos 5 elementos; nos ensinamentos do I Ching; no Yin e Yang e na filosofia taoísta. O objetivo da técnica é energizar os ambientes levando em conta a iluminação, o espaço, as cores e os objetos escolhidos. A organização e a limpeza também são fatores importantes para a harmonia do todo.

Fitoterapia: essa palavra vem do grego Therapeia, que significa tratamento e Phyton, que quer dizer Vegetal. A Fitoterapia é a cura através das plantas.

Foto-Kirlian: ou foto-aura é o nome da fotografia em que é possível ver a aura. Atualmente essa foto é tirada das pontas dos dedos, sendo que cada um deles fornece a informação relativa a determinado órgão e sistemas do organismo.

Flecha Envenenada: uma estrutura ou reta da qual emana a energia negativa ou Sha, levando má sorte.

Forma Sinuosa: um dos aspectos relevantes da arquitetura, dentro da filosofia do Feng Shui.

Fu Wei (FW): literalmente significa "harmonia global", esta é uma das áreas auspiciosas, segundo a Escola da Bússola. Esse é um ótimo lugar para a paz e a boa sorte.

Guá: os aspectos da vida representados no ba-guá são chamados de Guás, assim como as áreas da casa.

Helioterapia: ciência que utiliza os raios solares para o fim terapêutico. Também conhecida como banho-se-sol, esta foi uma das técnicas mais utilizadas no Egito, Grécia, Império Romano, Índia e China.

Hexagrama: figura de seis linhas, das quais surgem 64 no I Ching.

Hidroterapia: consiste na realização de exercícios no meio aquático, sob orientação de fisioterapeutas. A atividade hidroterápica favorece a independência, autoexpressão, criatividade, sociabilização e autoconfiança, sendo estes importantes aspectos da reabilitação.

Ho Hai (HH): literalmente significa "acidentes e infortúnios", esta é uma das áreas desfavoráveis, segundo a Escola da Bússola. Essa é uma área de perda financeira, boa apenas para a despensa.

Hong Fan: é um tratado de filosofia que acredita que a origem do universo surgiu da combinação dos elementos Água, Fogo, Madeira, Metal e Terra.

I Cing: oráculo que concentra os conhecimentos da filosofia chinesa originários do Feng Shui e interpreta o fluxo das mudanças da vida.

Kan: um dos oito trigramas. Seu significado é Água

Ken: um dos oito trigramas. Seu significado é Montanha.

Kua: um dos oito lados do Pa Kua, ou Ba-guá. Cada Kua identifica as localizações auspiciosas e desfavoráveis do indivíduo.

Kun: um dos oito trigramas. Seu significado é Terra.

Li: um dos oito trigramas. Seu significado é Fogo.

Lui Sha (LS): literalmente significa "seis mortes", esta é uma das áreas desfavoráveis, segundo a Escola da Bússola. Causa doenças e dificuldades legais, mas também é considerada uma boa área para despensa.

Lo Pan: bússola magnética rodeada por um disco com forma de rede e caracteres chineses que fornece uma série de dados. É um dos instrumentos utilizados pela Escola da Bússola.

Lo Shu: quadro mágico com números que distribui as estrelas (aspectos da vida). Também é um dos instrumentos utilizados pela Escola da Bússola.

Mantras: frases sagradas que devem ser repetidas como ritual de purificação logo após a aplicação do ba-guá e instalação dos objetos desejados nos guás. Os mantras normalmente são feitos em forma de cantos e sons sagrados. Essa técnica faz parte da interpretação da Escola do Chapéu Negro.

Mudras: posições das mãos em gestos rituais. Também é uma maneira de purificação que faz parte da corrente da Escola do Chapéu Negro.

Nien Yen (NY): literalmente significa "longevidade com descendentes ricos", esta é uma das áreas auspiciosas, segundo a Escola da Bússola. Essa localização melhora os relacionamentos.

Oráculo: divindade que responde a consultas e orienta o crente.

Pa Kua: outra designação para o nome ba-guá.

Radiestesia: prática milenar desenvolvida pelos egípcios e chineses e sistematizada na França. Tem como objetivo captar e perceber as radiações e vibrações existentes em uma casa, em qualquer ambiente.

Respiração Cósmica do Dragão: é de extrema importância dentro da prática de Feng Shui, porque define localizações auspiciosas e desfavoráveis.

Sha (Shar Chi): é a energia negativa, dentro do Feng Shui.

Sheng Chi (SC): literalmente significa "Ch'i crescente do leste", esta é uma das áreas auspiciosas, segundo a Escola da Bússola. Essa localização atrai dinheiro e prosperidade.

Sopro da Morte: é a energia negativa ou Sha.

Sun: um dos oito trigramas. Seu significado é vento.

Tai Chi: é o centro do ba-guá e representa o equilíbrio das forças. Está ligado à saúde. O seu elemento é a Terra e a cor marrom ou amarelo.

Tao: "O Caminho", uma filosofia ou modo de vida. Círculo dividido por uma linha sinuosa que delimita duas partes, o Yin e o Yang, duas forças complementares dentro da filosofia do Feng Shui.

Taoísmo: o uso da palavra taoísmo provém da obra Tao Te King (ou Tao Te Ching), atribuída ao filósofo chinês Lao Tsé, que tinha como princípio tornar-se um manual para os monarcas, ensinando-os a governar. No entanto, o seu significado era mais profundo. O filósofo defendia  a não-ação, ou seja, que as energias devem fluir livremente.

Tien Yi (TY): literalmente significa "doutor do céu", esta é uma das áreas auspiciosas, segundo a Escola da Bússola. Essa é uma boa área para quem tem problemas de saúde.

Trigramas: são oito os trigramas que compõem o ba-guá. Cada trigrama representa a combinação de três linhas interrompidas e/ou contínuas. O trigrama é resultado da combinação das linhas que representam o Yin e o Yang.

Tui: um dos oito trigramas. Seu significado é Lago.

Wu Kwei (WK): literalmente significa "cinco fantasmas", esta é uma das áreas desfavoráveis, segundo a Escola da Bússola. Representa perigo de fogo, roubo e brigas.

Yang: é a força masculina dentro do Tao, representada pelo branco. Está ligada às cores vivas e, por isso, é a face luminosa e dinâmica do cosmos.

Yin:  e a força feminina dentro do Tao. Está ligada à cores escuras e é representada pelo preto. Por ser a força feminina está associada ao lado passivo e suave do universo.


Retirado da Revista Vida em Equilíbrio, Edição 01 e Edição 02; Março e Agosto de 2001, Editora Casa Dois, São Paulo. Editores: Luiz Fernando Cyrillo e Renato Sawaia Sáfadi. Redação: Marcos Vinícius Guaraldo, Rachel Crescenti, Thaís Lauton. Colaboradores: Evelyn Muller, Nicola Labate e Victor Fernandes.

03 janeiro 2026

Persiste e Segue (99)

"Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados." - Paulo. (HEBREUS, 12:12.)


O lavrador desatento quase sempre escuta as sugestões do cansaço. Interrompe o serviço, em razão da tempestade, e a inundação lhe rouba a obra começada e lhe aniquila a coragem incipiente. Descansa, em virtude dos calos que a enxada lhe ofereceu, e os vermes se incumbem de anular-lhe o serviço.

Levanta as mãos, no princípio, mas não sabe "tornar a levantá-las", na continuidade da tarefa, e perde a colheita.

O viajor, por sua vez, quando invigilante, não sabe chegar convenientemente ao termo da jornada. Queixa-se da canícula e adormece na penumbra de ilusórios abrigos, onde inesperados perigos o surpreendem. De outras vezes, salienta a importância dos pés ensanguentados e deita-se às margens da senda, transformando-se em mendigo comum.

Usa os joelhos sadios, não se dispondo, todavia, a mobilizá-los quando desconjuntados e feridos, e perde a alegria de alcançar a meta na ocasião prevista.

Assim acontece conosco na jornada espiritual.

A luta é o meio.

O aprimoramento é o fim.

A desilusão amarga.

A dificuldade complica.

A ingratidão dói.

A maldade fere.

Todavia, se abandonarmos o campo do coração por não sabermos levantar as mãos, de novo, no esforço persistente, os vermes do desânimo proliferam, precípites, no centro de nossas mais caras esperanças, e se não quisermos marchar, de joelhos desconjuntados, é possível sejamos retidos pela sombra de falsos refúgios, durante séculos consecutivos.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

02 janeiro 2026

Cooperação Universal nos Direitos Humanos

 Sem a cidadania, os Direitos Humanos se anulam e deixam de oferecer benefícios à sociedade. Nesse cenário, a educação mostra-se fundamental para a criação de indivíduos que vão propiciar e usufruir desses conceitos


E se, pela verdade de monsieur de La Palisse, se poderia afirmar que, sem Direitos Humanos não haveria Cidadania, o oposto também se pode colocar, isto é, sem Cidadania os Direitos Humanos não existiriam. Na circunstância, a ordem dos valores e a eventual e aparente dependência recíproca, poderá não afetar o objetivo final, que não privilegia apenas um dos elementos do binômio, mas pelo contrário reparte-se, justamente, por aqueles valores. É evidente que se defende um cidadão no pleno uso dos seus Direitos Humanos que provieram dos direitos naturais e de todos os outros que, entretanto, foram sendo concebidos pelos homens. Cidadania e Direitos Humanos são, pois, um binômio que não se pode dissociar, sob pena de ambos os valores ficarem reduzidos aos próprios conceitos e sem qualquer eficácia e benefício para o indivíduo e para a sociedade.

Viver em Cidadania pressupõe: uma forte sensibilidade para o exercício pleno e responsável de direitos e deveres; implica uma determinação inequívoca, sem hesitações, para enfrentar as dificuldades que se deparam numa sociedade ainda pouco preparada para estes valores; exige uma aprendizagem permanente ao longo da vida e estabelece um conjunto de normativos que visam o cumprimento das regras fixadas pela comunidade, seja pelo direito positivo, seja pela via consuetudinária. A educação em geral e a educação cívica em particular desempenham, tanto neste como noutros domínios, um papel essencial na formação de cidadãos responsável, nas muitas dimensões que cada indivíduo contém em si mesmo e que exerce em situações e circunstâncias oportunas, porque: "A educação deve instrumentalizar o home com um ser capaz de agir sobre o mundo e, ao mesmo tempo, compreender a ação exercida. A escola não é a transmissora de um ser acabado e definitivo, não devendo separar teoria e prática, educação e vida. A escola ideal não separa cultura, trabalho e educação." (Maria Lúcia Arruda Aranha)

Os Direitos Humanos, enquanto seleção universal de valores, são necessários ainda que existam diferenças culturais e que num determinado país se superiorizem alguns valores de natureza mais espiritual, enquanto noutros se dê maior atenção àqueles que defendem questões no âmbito material, como o bem-estar social, habitacional e emprego. Igualmente, eles são decisivos na construção de uma sociedade mais humana e, porventura, moderadora dos conflitos, podendo em certas épocas e espaços ser também fonte de divergências em circunstâncias bem identificadas, precisamente porque ainda não há uniformidade na educação para os Direitos Humanos em todos os países, e muito menos exemplos concretos e permanentes de boas-práticas. Contudo, todas as reflexões, divulgação e implementação destes conhecimentos nunca serão demais.

Atualmente, aborda-se a educação em várias vertentes, elaboram-se conceitos, metodologias, estratégias e objetivos para a educação moral, ambiental, sexual, cívica, enfim, a educação apresenta-se, em termos de especialização, cada vez mais fragmentada, em parcelas que, sendo autênticas especialidades, deixam perder de vista o todo, quando, em boa verdade, a educação para os Direitos Humanos possibilita uma visão globalizante no que respeita à formação do cidadão, porque: "A educação em matéria de Direitos Humanos fornece o quadro de valores partilhados, onde todas as perspectivas se intersectam. Por exemplo, a educação para a paz engloba a dignidade humana e o direito à paz a segurança. A educação multicultural fundamenta-se nos princípios da não discriminação e no reconhecimento e aceitação da identidade cultural. A educação para os direitos permite aos alunos comparar os direitos do seu país com as normas internacionais de Direitos Humanos. Os Direitos Humanos contemplam todas estas dimensões!" (Seleção de Textos, in Noésis, 2000:21)

Ignorar a Declaração Universal dos Direitos do Homem, subscrita no contexto da Organização das Nações Unidas pelos países signatários, revela-se prejudicial para todas as dimensões da pessoa humana, para as comunidades e sociedades alargadas. Os indivíduos, as famílias, os grupos, as empresas, as organizações, quaisquer que sejam a sua natureza, ideologia e fins, não estão dispensados, bem pelo contrário, estarão vinculados ao cumprimento daqueles que, supostamente, de boa-fé e com determinação de os respeitarem, assinarem tão importante documento universal, integrando, inclusivamente, o ordenamento jurídico-constitucional dos países democráticos subscritores.

O reforço dos vínculos humanitários entre países, de cooperação a vários níveis e da solidariedade entre os povos, são comportamentos que urge estimular, apoiar, substancialmente, com todos os recursos adequados, para que a teia se alargue de tal maneira que, ao fim de um determinado tempo, todas as nações se possam entender, cooperar, desenvolver e consolidar os valores universais, que a todos devem unir na paz, na justiça, no bem-estar geral de todas as pessoas, sem exceção. Entre outros, um bom exemplo do que duas nações podem desenvolver, verifica-se logo nos princípios fundamentais do "Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta entre o Brasil e Portugal". Com efeito, ali se pode ler: "1) O desenvolvimento econômico, social e cultural, alicerçado no respeito dos direitos e liberdades fundamentais, enunciados na Declaração Universal do Direitos do Homem, no princípio da organização democrática da sociedade e do Estado, e na busca de uma maior e mais ampla justiça social; 2) O estreitamento dos vínculos entre os dois países, com vista à garantia da paz e do progresso nas relações internacionais, à luz dos objetivos e princípios consagrados na Carta das Nações Unidas;" (Art. 1º)


Texto de Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo retirado da Revista Filosofia - Ciência & Vida, Ano II, número 22, Editora Dibra Nova Escala, São Paulo, 2008.

01 janeiro 2026

Em busca da energia positiva

Equilíbrio. Esse talvez seja o desejo de todos que resolvem entender o Feng Shui e fazer uso dessa técnica milenar chinesa para beneficiar sua casa, seu escritório ou até mesmo seu jardim.

E para entrar de cabeça nesse tema, que tem tido cada vez mais adeptos, é preciso pensar em uma nova concepção de vida, cheia de ensinamentos que servem como proteção contras as energias negativas.

Apesar de só agora estar sendo mais difundido no Ocidente, o Feng Shui é aplicado no Oriente há pelo menos, 3 mil anos. A importância dessa técnica é tão grande dentro da concepção chinesa que até mesmo o nome Feng Shui designa energias fundamentais de vida. Feng significa 'vento' e representa uma energia em constante movimento, e Shui significa 'água' e representa a força capaz de fluir ou estagnar. Essas duas energias essenciais para a sobrevivência do ser humano caracterizam a importância da aplicação do Feng Shui.

O principal objetivo dessa técnica é harmonizar os ambientes para que a energia vital, o Ch'i, possa fluir livremente. Para que isso seja possível, é preciso fazer um estudo aprofundado do local onde a técnica vai ser aplicada. Muitas vezes, no entanto, não é preciso fazer grandes modificações para se obter a  harmonia. Um dos principais ensinamentos da técnica é, que para libertar o Ch'i, é preciso deixar que ele circule livremente, sem empecilhos, assim como o vento deve circular por dentro de uma casa.

A prática de Feng Shui utiliza linhas de energia auspiciosas, conhecidas pelos chineses como "a respiração cósmica do Dragão" ou Sheng Chi e evita as linhas desfavoráveis, conhecidas como "o sopro da morte" ou Shar Chi.

Segundo o Feng Shui, tudo o que fica amontoado, quebrado e sem uso, estagna a energia e você ou seus familiares podem sofrer com falta de vitalidade orgânica, cansaço e opressão. Para resolver esse problema tudo deve funcionar.

Mas o Feng Shui também pode ser aplicado através de objetos, cores, elementos da natureza e formas.

Muitas vezes o fato de você não conseguir um bom emprego, não realizar um sonho ou não melhorar o relacionamento com os seus familiares pode estar ligado à maneira com a qual você administra a sua vida. Por isso, você vai ter a oportunidade de conhecer , entender e aplicar alguns ensinamentos no seu dia-a-dia. Com certeza, o Feng Shui trará boas vibrações para a sua vida.


CLÁSSICO E MODERNO FENG SHUI

Até pouco tempo atrás, grande parte da literatura e dos textos reservados ao Feng Shui só eram disponíveis em chinês e os preceitos da técnica não eram bem conhecidos no Ocidente. Somente em Taiwan e Hong Kong o material teórico sobre o assunto era disponível livremente. Um dos fatores que colaboram para a pouca difusão da técnica foi a restrição da prática do Feng Shui apenas às classes dirigentes, ao imperador e seus ministros. Por esse motivo alguns textos permanecem obscuros ainda hoje. Além da linguagem arcaica, os textos davam margem a várias interpretações. Os praticantes do Feng Shui na corte imperial chinesa eram chamados mandarins eruditos. Eles desfrutavam de posição privilegiada na corte, porque detinham um profundo conhecimento dos textos clássicos chineses, entre eles o I Ching, conhecido como Livro das Mutações. Nos textos clássicos chineses o Feng Shui é descrito pelos caracteres "tian ling di li ren he", que literalmente significam "influência celestial auspiciosa, topografia benéfica, ações humanas harmoniosas". A influência celestial é compreendida através da astronomia, astrologia e I Ching. Já para entender a topografia é preciso estudar diversos aspectos topográficos, tais como colinas, vales e cursos de água, chuvas e marés. O conhecimento das ações humanas é adquirido pela compreensão das forças sociais, culturais, políticas e religiosas.

Segundo dados históricos, o Feng Shui é praticado na China desde a dinastia Tang (618-907 d.C.). Seu fundador ou mais antigo praticante foi o mestre Yang Yun-Sang. Mestre Yang era um dos mandarins da corte do imperador Tang. Seus textos foram preservados ao longo da história e continuam sendo estudados pelos praticantes da técnica. Embora atualmente o Feng Shui seja utilizado como um técnica de harmonização de ambientes, sua origem vem da necessidade dos chineses em escolher estrategicamente os terrenos de suas construções, a fim de evitar enchentes devastadoras, secas, tufões, terremotos e ciclones que causavam muitas vítimas. Para garantir a boa qualidade de vida, os ambientes da casa eram definidos de acordo com os quatro pontos cardeais.

A utilização do Feng Shui logo ultrapassou as barreiras da China e chegou a todo o Extremo Oriente. Conforme diferentes mestres interpretavam a técnica foram surgindo novas escolas.


AS ESCOLAS E SUAS INTERPRETAÇÕES

Apesar do conceito maior desta técnica oriental pregar a paz e a harmonia entre o ambiente e seu usuário, o Feng Shui não se deteve apenas a uma única interpretação. No decorrer dos tempos, uma série de correntes foram se desenvolvendo, obtendo adeptos e novas explicações. Essas linhas de pensamento foram denominadas escolas, que hoje dividem-se em três ramos: Escola da Forma, Escola da Bússola e Escola do Chapéu Negro. Com interpretações mais ou menos complexas, essas correntes valorizam aspectos diferentes para chegarem ao mesmo objetivo: a harmonia entre a matéria e o indivíduo.


ESCOLA DA FORMA

Criada desde o século X, esta tradicional técnica do Feng Shui valoriza o relevo e também os pontos cardeais.

Para a Escola da Forma o mais importante é o relevo e por este motivo é imprescindível que antes seja feita uma análise da topografia do terreno onde a casa será construída.

Em seguida é a hora de colocar em prática a Teoria dos Quatro Animais. Nesse princípio, leva-se em consideração os pontos cardeais, sendo que estes devem estar diretamente relacionados ao animal.

Ao norte, a Tartaruga Preta, símbolo do inverno, representa o lado misterioso e lento. Ao sul, a Fênix Vermelha, símbolo do verão, traz boa sorte. Ao leste, a figura do Dragão Verde, enérgico e fértil, símbolo da primavera, traz proteção à cultura e à sabedoria. E a oeste, o Tigre Branco, símbolo do outono, representa o imprescindível e o aventureiro.

Assim como a ordem dos animais é importante, também é preciso que eles estejam relacionados aos símbolos da natureza representados na forma de topografia, de maneir aque o Ch'i possa fluir.

A fim de que a Tartaruga Preta, localizada ao norte, proteja a construção e o terreno é preciso que haja uma montanha alta. Já ao sul, lugar onde situa-se a Fênix Vermelha não deve existir qualquer tipo de elevação já que a ave deve ficar livre. O Dragão Verde deve encontrar uma elevação que sirva como trono e o Tigre Branco, apenas uma pequena elevação que dê liberdade ao animal.


ESCOLA DA BÚSSOLA

A linha de pensamento mais adotada no Oriente une a astrologia chinesa a uma série de indicações, e encara o ser humano como sendo a energia mais importante do ambiente.

Comparada às demais correntes, a Escola da Bússola interpreta a técnica do Feng Shui de uma maneira mais complexa. Essa corrente valoriza, além dos pontos cardeais, o mapa astral de cada pessoa, seu elemento (Madeira, Metal, Fogo, Terra, Água), seu número pessoal e os ciclos da astrologia chinesa.

Além desses aspectos, para definir a arquitetura da casa utiliza-se o Lo Pan e o Lo Shu, que darão as informações necessárias para a realização do projeto.

Conforme as respostas vão sendo obtidas, é possível definir uma série de aspectos da vida, tais como a energia vinda do céu que atua sobre você, os tipos energéticos e as áreas auspiciosas da casa. Também é possível cruzar o seu tipo básico de energia com a de seu companheiro e apontar as direções mais favoráveis para definir os ambientes e instalar os móveis.

A interpretação da Escola da Bússola também mostra que é importante levar em consideração as cores, formas e materiais dos móveis, porque eles estão diretamente relacionados aos cinco elementos, representados pela Madeira, Metal, Fogo, Terra a Água. Outro destaque dessa interpretação é que os elementos têm o poder de estabelecer a cura do ambiente e, por isso, não devem estar no local através de símbolos. Isto é, é preciso que o próprio elemento esteja no ambiente. Se a casa estiver precisando do elemento água para estabelecer a cura, é necessário que 10% da área construída da casa seja equivalente à quantidade de água (exemplo: 200 m2 de área construída, 20 litros de água).


ESCOLA DO CHAPÉU NEGRO

Essa corrente surgiu há 20 anos nos Estados Unidos. O mestre chinês, Thomas Lin Yun uniu os preceitos do Feng Shui à filosofia do budismo tântrico e, com isso, conquistou os ocidentais.

Esta interpretação do Feng Shui é baseada na simbologia. O símbolo maior dessa corrente é o baguá, octógono que abriga os guás: Trabalho, Amigos, Criatividade, Relacionamentos, Sucesso, Prosperidade, Família e Espiritualidade. Para colocar o baguá é preciso alinhar o guá Trabalho à parede da porta de entrada. Colocado sob a planta da casa o ba-guá define elementos, cores e objetos que devem estar nos ambientes.

Também é possível definir os melhores locais para serem instalados os cômodos da casa.

O centro do ba-guá é chamado Tai Chi e nele estão as forças Yin e Yang que juntas constituem o Tao, "o caminho", princípio da harmonia entre o céu e a terra. Os espaços Yin são representados por cores escuras, móveis com linhas curvas, pé direito baixo, sofás baixos e almofadas macias, isso porque o Yin é a energia feminina.

Já o Yang representa a energia masculina, é representado pelas cores claras, móveis com linhas retas, pé direito alto e objetos altos. Todo esse equilíbrio vai fazer com que o Ch'i flua livremente.


ENERGIAS FUNDAMENTAIS

A origem do universo pode ser explicada pela combinação dos 5 Elementos da Natureza: Água, Fogo, Madeira, Metal e Terra. Essa é a afirmação do tratado de filosofia Hong Fan, que afirma que todas as coisas foram formadas a partir dessa combinação

No Feng Shui, os e Elementos são utilizados como uma das ferramentas essenciais de harmonização, isso porque eles interagem no ambiente físico proporcionando boa ou má sorte, que são os relacionamentos cíclicos produtivo e destrutivo. No ciclo produtivo, o fogo produz a terra, a terra cria o metal, o metal segura a água, a água nutre a madeira e a madeira alimenta o fogo. No ciclo destrutivo, a madeira consome a terra, a terra represa a água, a água apaga o fogo, o fogo derrete o metal e o metal derruba a madeira. Os elementos podem ser utilizados como "curas" e estão associados a várias sensações que experimentamos todos os dias, tais como cores, odores, sabores, direções e números. Todas as escolas de Feng Shui são grandemente influenciadas pela teoria dos 5 Elementos. Conheça cada uma dessas energias e seus ciclos vitais.


MADEIRA

A madeira simboliza o início do ciclo vital por simbolizar a energia que se expande em todas as direções. É nesta fase do ciclo que as coisas emergem e começam a crescer. É representada pela cor verde e pelo nascer do sol. Sua direção é o leste e a estação do ano, Primavera. A imagem do Dragão Verde também está associada a esse elemento.


METAL

É o crepúsculo do ciclo natural. Está associado à imagem do Tigre Branco. É representado pela cor branca e cores metálicas. Sua estação do ano é o Outono e sua direção, oeste. Por ser produzido pelo movimento interior da energia, é o mais denso de todos os elementos e indica que a energia está decrescendo. Se manifesta no sol poente.


FOGO

É o auge do ciclo vital, porque a energia do fogo projeta-se para cima. É representado pelo Verão e pela lua cheia, brilhante e total. Está associada à Fênix Vermelha e sua direção é o sul.


TERRA

Define-se como a pausa do ciclo vital. A energia da Terra move-se horizontalmente em volta de seu próprio eixo e por esse motivo afeta o período de mudanças entre cada estação. É representada pelo amarelo e pela lua antes dela ficar minguante, grande, dourada e cheia.


ÁGUA

Representa o início de um novo ciclo, quando as coisas alcançam seu ponto máximo de descanso. A energia da Água move-se de cima para baixo. É representada pelo Inverno e pelas cores preto e azul. Associa-se à Tartaruga Preta.


O CICLO DESTRUTIVO

Neste ciclo, os elementos exercem um poder de controle da intensidade e influenciam uns aos outros. Um dos objetivos do Feng Shui é tentar amenizar a ação desses elementos nos ambientes.


Retirado da Revista Vida em Equilíbrio, Edição 01, Março de 2001, Editora Casa Dois, São Paulo. Editores: Luiz Fernando Cyrillo e Renato Sawaia Sáfadi. Redação: Marcos Vinícius Guaraldo, Rachel Crescenti, Thaís Lauton. Colaboradores: Evelyn Muller, Nicola Labate e Victor Fernandes.

30 dezembro 2025

Evolução

Chamo-me Inácio; ele, Benedito. Não digo o resto dos nossos nomes por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará. Inácio basta. Contentem-se com Benedito. Não é muito, mas é alguma coisa, e está com a filosofia de Julieta: "Que valem nomes? perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá sempre o mesmo cheiro." Vamos ao cheiro de Benedito.

E desde logo assentamos que ele era o menos Romeu deste mundo. Tinha quarenta e cinco anos, quando o conheci; não declaro em que tempo, porque tudo neste conto há de ser misterioso e truncado. Quarenta e cinco anos, e muitos cabelos pretos; para os que o não eram, usava um processo químico, tão eficaz que não se lhe distinguiam os pretos dos outros - salvo ao levantar da cama; mas ao levantar da cama não aparecia a ninguém. Tudo mais era natural, pernas, braços, cabeça, olhos, roupa, sapatos, corrente do relógio e bengala. O próprio alfinete de diamante, que trazia na gravata, um dos mais lindos que tenho visto, era natural e legítimo; custou-lhe bom dinheiro; eu mesmo o vi comprar na casa do... Lá me ia escapando o nome do joalheiro; - fiquemos na rua do Ouvidor.

Moralmente, era ele mesmo. Ninguém muda de caráter, e o do Benedito era bom, - ou para melhor dizer, pacato. Mas, intelectualmente, é que ele era menos original. Podemos compará-lo a uma hospedaria bem afreguesada, aonde iam ter ideias de toda parte e de toda sorte, que se sentavam à mesa com a família da casa. Às vezes, acontecia acharem-se ali duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipáticas; ninguém brigava, o dono da casa impunha aos hóspedes a indulgência recíproca. Era assim que ele conseguia ajustar uma espécie de ateísmo vago com duas irmandades que fundou, não sei se na Gávea ou no Engenho Velho. Usava assim, promiscuamente, a devoção a irreligião e as meias de seda. Nunca lhe vi as meias, note-se; mas ele não tinha segredos para os amigos.

Conhecemo-nos em viagem para Vassouras. Tínhamos deixado o trem e entrado na diligência que nos ia levar da estação à cidade. Trocamos algumas palavras, e não tardou conversarmos francamente, ao sabor das circunstâncias que nos impunham a convivência, antes mesmo de saber quem  éramos.

Naturalmente, o primeiro objeto foi o progresso que nos traziam as estradas de ferro. Benedito lembrava-se do tempo em que toda a jornada era feita às costas de burro. Contamos então algumas anedotas, falamos de alguns nomes, e ficamos de acordo em que as estradas de ferro eram uma condição de progresso do país. Quem nunca viajou não sabe o valor que tem uma dessas banalidades graves e sólidas para dissipar os tédios do caminho. O espírito areja-se, os próprios músculos recebem uma comunicação agradável, o sangue não falta, fica-se em paz com Deus e os homens.

- Não serão os nossos filhos que verão todo este país cortado de estradas, disse ele.

- Não, decerto. O senhor tem filhos?

- Nenhum.

- Nem eu. Não será ainda em cinquenta anos, e, entretanto, é a nossa primeira necessidade. Eu comparo o Brasil a uma criança que está engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.

- Bonito ideia! Exclamou Benedito faiscando-lhe os olhos.

- Importa-me pouco que seja bonita, contando que seja justa.

- Bonita e justa, redarguiu ele com amabilidade. Sim,  senhor, tem razão: - o Brasil está engatinhando, só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.

Chegamos a Vassouras; eu fui para a casa do juiz municipal, camarada antigo; ele demorou-se um dia e seguiu para o interior. Oito dias depois voltei ao Rio de Janeiro, mas sozinho. Uma semana mais tarde, voltou ele; encontramo-nos no teatro, conversamos muito e trocamos notícias; Benedito acabou convidando-me a ir almoçar com ele no dia seguinte. Fui. Deu-me um almoço de príncipe, bons charutos e palestra animada. Notei que a conversa dele fazia mais efeito no meio da viagem - arejando o espírito e deixando a gente em paz com Deus e os homens; mas devo dizer que o almoço pode ter prejudicado o resto. Realmente era magnífico; e seria impertinência histórica pôr a mesa de Luculo na casa de Platão. Entre o café e o cognac, disse-me ele, disse-me ele, apoiando o cotovelo na borda da mesa, e olhando para o charuto que ardia:

- Na minha viagem agora, achei ocasião de ver como o senhor tem razão com aquela ideia do Brasil engatinhando.

- Ah?

- Sim, senhor; é justamente o que o senhor dizia na diligência de Vassouras. Só começaremos a andar quando tivermos muitas estradas de ferro. Não imagina como isso é verdade.

E referiu muita coisa, observações relativas aos costumes do interior, dificuldades da vida, atraso, concordando, porém, nos bons sentimentos da população e nas aspirações de progresso. Infelizmente, o governo não correspondia às necessidades da pátria; parecia até interessado em mantê-la atrás das outras nações americanas. Mas era indispensável que nos persuadíssemos de que os princípios são tudo e os homens nada. Não se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos; e abyssus abyssum invocat. Depois foi mostra-me outras salas. Eram todas alfaiadas com apuro. Mostrou-me as coleções de quadros, de moedas, de livros antigos, de selos, de armas; tinha espadas e floretes, mas confessou que não sabia esgrimir. Entre os quadros vi um lindo retrato de mulher. Perguntei-lhe quem era. Benedito sorriu.

- Não irei adiante, disse eu sorrindo também.

- Não, não há que negar, acudiu ele; foi uma moça de quem gostei muito. Bonita, não? Não imagina a beleza que era. Os lábios eram mesmo de carmim e as faces de rosa; tinha os olhos negros, cor da noite. E que dentes! Verdadeiras pérolas. Um mimo da natureza.

Em seguida, passamos ao gabinete. Era vasto, elegante, um pouco trivial, mas não lhe faltava nada. Tinha duas estantes, cheias de livros muito bem encadernados, um mapa-múndi, dois mapas do Brasil. A secretária era de ébano, obra fina; sobre ela, casualmente aberto, um almanak de Laemmert. O tinteiro era de cristal, - "cristal de rocha", disse-me ele, explicando o tinteiro, como explicava as outras coisas. Na sala contígua havia um órgão. Tocava órgão, e gostava muito de música, falou dela com entusiasmo, citando as óperas. os trechos melhores, e noticiou-me que, em pequeno, começara a aprender flauta; abandonou-a logo, - o que foi pena, concluiu, porque é, na verdade, um instrumento muito saudoso. Mostrou-me ainda outras salas, fomos ao jardim, que era esplêndido, tanto ajudava a arte à natureza, e tanto a natureza coroava a arte. Em rosa, por exemplo (não há negar, disse-me ele, que é a rainha das flores) em rosas, tinha-as de toda casta e de todas as regiões.

Saí encantado. Encontramo-nos algumas vezes, na rua, no teatro, em casa de amigos comuns, tive ocasião de apreciá-lo. Quatro meses depois fui à Europa, negócio que me obrigava à ausência de um ano. Ele ficou cuidando da eleição; queria ser deputado. Fui eu mesmo que o induzi a isso, sem a menor intenção política, mas com o único fim de lhe ser agradável; mal comparando, era como se lhe elogiasse o corte do colete. Ele pegou a ideia e apresentou-se. Um dia, atravessando uma rua de Paris, dei subitamente com o Benedito.

- Que é isto? exclamei.

- Perdi a eleição, disse ele, e vim passear à Europa.

Não me deixou mais. Viajamos juntos o resto do tempo. Confessou-me que a perda da eleição não lhe tirara a ideia de entrar no parlamento. Ao contrário, incitara-o mais. Falou-me de um grande plano.

- Quero vê-lo ministro, disse-lhe.

Benedito não contava com esta palavra, o rosto iluminou-se-lhe; mas disfarço depressa.

- Não digo isso, respondeu. Quando, porém, seja ministro, creia que serei tão somente ministro industrial. Estamos fartos de partidos; precisamos desenvolver as forças vivas do país, os seus grandes recursos. Lembra-se do que nós dizíamos na diligência de Vassouras? O Brasil está engatinhando; só andará com estradas de ferro.

- Tem razão, concordei um pouco espantado. E por que é que eu mesmo vim à Europa? Vim cuidar de uma estrada de ferro. Deixo as coisas arranjadas em Londres.

- Sim?

- Perfeitamente.

Mostrei-lhe os papéis. Ele viu-os deslumbrado. Como eu tivesse então recolhido alguns apontamentos, dados estatísticos, folhetos, relatórios, cópias de contratos, tudo referente a matérias industriais e lhos mostrasse, Benedito declarou-me que ia também coligir algumas coisas daquelas. E, na verdade, vi-o andar por ministérios, bancos, associações, pedindo muitas notas e opúsculos, que amontoava nas malas; mas o ardor com que o fez, se foi intenso, foi curto; era de empréstimo. Benedito recolheu com muito mais gosto os anexins políticos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um vasto arsenal deles. Nas conversas comigo repetia-os muita vez, à laia de experiência; achava neles grande prestígio e valor inestimável. Muitos eram de tradição inglesa, e ele os preferia aos outros, como trazendo em si um pouco da Câmara dos Comuns. Saboreava-os tanto que eu não sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele aparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, optaria por essas formas curtas, tão cômodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomáticas, que não forçam a reflexão, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.

Regressamos juntos; mas eu fiquei em Pernambuco, e tornei mais tarde a Londres, donde vim ao Rio de Janeiro, um ano depois. Já então Benedito era deputado. Fui visitá-lo; achei-o preparando o discurso de estreia. Mostrou-me alguns apontamentos, trechos de relatórios, livros de economia política, alguns com páginas marcadas, por meio de tiras de papel rubricadas assim: - Câmbio, Taxa das terras, Questão dos cereais em Inglaterra, Opinião de Stuart Mill, Erro de Thiers sobre caminhos de ferro, etc. Era sincero, minucioso e cálido. Falava-me daquelas coisas, como se acabasse de as descobrir, expondo-me tudo, ab ovo; tinha  a peito mostrar aos homens práticos da Câmara que também ele era prático. Em seguida, perguntou-me pela empresa; disse-lhe o que havia.

- Dentro de dois anos conto inaugurar o primeiro trecho da estrada.

- E os capitalistas ingleses?

- Que têm?

- Estão contentes, esperançados?

- Muito; não imagina.

Contei-lhe algumas particularidades técnicas, que ele ouviu distraidamente, - ou porque a minha narração fosse em extremo complicada, ou por outro motivo. Quando acabei, disse-me que estimava ver-me entregue ao movimento industrial; era dele que precisávamos, e a este propósito fez-me o favor de ler o exórdio do discurso que deveria proferir dali a dias.

- Está ainda em borrão, explicou-me; mas as ideias capitais ficam. E começou: "No meio da agitação crescente dos espíritos, do alarido partidário que encobre as vozes dos legítimos, permiti que alguém faça ouvir  uma súplica da nação. Senhores, é tempo de cuidar, exclusivamente, - notai que digo exclusivamente, - dos melhoramentos materiais do país. Não desconheço o que se me pode replicar; dir-me-eis que uma nação não se compõe só de estômago para digerir, mas de cabeça para pensar e de coração para sentir. Respondo-vos que tudo isso não valerá nada ou pouco, se ela não tiver pernas para caminhar; e aqui repetirei o que, há alguns anos, dizia eu a um amigo, em viagem pelo interior: o Brasil é uma criança que engatinha; só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro..."

Não pude ouvir mais nada e fiquei pensativo. Mais que pensativo, fiquei assombrado, desvairado diante do abismo que a psicologia rasgava aos meus pés. Este homem é sincero, pensei comigo, está persuadido do que escreveu. E fui por aí abaixo até ver se achava a explicação dos trâmites por que passou aquela recordação da diligência de Vassouras. Achei (perdoem-me se há nisto enfatuação), achei ali mais um efeito da lei da evolução, tal como a definiu Spencer, - Spencer ou Benedito, um deles.


Cognac: é um tipo de brandy francês, um destilado de vinho com denominação de origem controlada, produzido na região de Cognac, na França, seguindo regras estritas de dupla destilação em alambiques de cobre e envelhecimento mínimo de dois anos em carvalho francês, resultando em uma bebida rica em aromas e sabores complexos, apreciada pura ou em coquetéis.

Abyssus abyssum invocat: é uma frase em latim que significa "o abismo chama o abismo", vinda do Salmo 42 ou 41 e expressa a ideia de que uma falha ou profundidade leva a outra; ou que um desastre/problema atrai ou invoca outro, criando um ciclo contínuo de desgraça ou profundidade. É frequentemente usada para descrever situações onde a miséria, o desespero ou a falta se perpetuam.

Reforçando

Significado e Origem

Tradução: "O abismo chama o abismo" ou "O profundo clama ao profundo".

Origem Bíblica: A frase é uma citação do Salmo 42:7; uma passagem que fala de angústia profunda e da busca por Deus em meio ao sofrimento.

Sentido Figurado: Indica que uma dificuldade ou uma falta atrai outra, uma cascata de problemas ou um estado de desespero que chama por mais desespero.

Ab Ovo: desde o início; desde o princípio.


Conto de Machado de Assis retirado do livro Os Melhores Contos, seleção de Domício Proença Filho, 6ª Edição, Global Editora, São Paulo, Abril de 1991.

28 dezembro 2025

Tentação

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoas esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Os pelos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.


Conto de Clarice Lispector retirado do livro Felicidade Clandestina, Editora Nova Fronteira, 3ª Edição, Rio de Janeiro, 1981.

Cem Anos de Perdão

Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então, é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.

Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. "Aquele branco é meu." "Não, eu já disse que os brancos são meus." "Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes." Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.

Começou assim. Numa das brincadeiras de "essa casa é minha", paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.

Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

Então, não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel; vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.

Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela ainda é mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.

E, de repente - ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.

O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.

Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.

Foi tão bom.

Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.

Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.

Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.


Conto de Clarice Lispector retirado do livro Felicidade Clandestina, Editora Nova Fronteira, 3ª Edição, Rio de Janeiro, 1981.