Grande parte dos psiquiatras e neurocientistas considera que mente e cérebro são a mesma coisa. Para eles, esse é um pressuposto indiscutível. As mentes seriam, a esta altura do desenvolvimento científico, criação de psicólogos ou especulação de filósofos. Mas parece que o conceito de mente, e com ele o problema mente-cérebro, teima em não desaparecer.
É muito comum ocorrerem tentativas frustradas de diagnóstico de dores e quando elas são definitivamente malsucedidas, remete-se o doente ao psicólogo para buscar o "fundo emocional" de sua doença. Isso ocorre quando nenhuma anomalia física é encontrada e é a partir daí que o mental começa a ganhar uma existência - mesmo que apenas fantasmagórica. O mental reaparece como dotado de poderes causais, pois subitamente é preciso inferir a eficácia causal de algo inobservável, sem peso, e que não ocupa lugar no espaço.
Os médicos parecem não se lembrar - alguns talvez nem saber - que esse era o quadro típico das histéricas de Freud: sem nenhuma lesão física que pudesse ocasioná-los, apresentavam uma série de sintomas em seu corpo. Esse era o quadro típico da histeria de conversão que deu início à Psicanálise.
Mas não é apenas na qualidade de um ser fantasmagórico que pode puxar alavancas que o conceito de mente ainda existe. Não é apenas para os médicos justificarem suas buscas detetivescas de causas primeiras - por vezes sem sucesso - que o mental adquire cidadania ontológica.
Há também um outro tipo de causação que nos faz ter de admitir uma ontologia para o mental. Nesse outro tipo, o que está em jogo não é a causação do mental em direção ao físico, mas seu oposto. Por exemplo: pessoas com depressão apresentam queda do nível de certos neurotransmissores em seu cérebro. Medicação antidepressiva pode repor os níveis normais dessas substâncias, mas, assim mesmo, haverá pessoas que não sairão da depressão. Elas precisarão de psicoterapia, além de medicação antidepressiva. Por outro lado, há casos de depressão que podem ser curados apenas pela psicoterapia.
Isso tem levado à conclusão de que há um componente mental associado à depressão. Constatou-se então um dado clínico importante: nas depressões ocorre não somente a queda de níveis de neurotransmissores, como também algum evento traumático na vida da pessoa. Um evento que poderá ser traumático para alguns e não para outros. Dependerá do significado que ele assumir na história de vida de uma pessoa. Nesse caso, temos algo ainda mais complicado do que uma mente alavancando movimentos musculares ou lesões somáticas. Trata-se de algo mais nebuloso, pois, afinal de contas, o que é um significado? Como pode um significado atuar como "causa mental"?
As palavras e seus significados agem sobre o cérebro. Essa é a ideia que temos hoje acerca das psicoterapias, da psicanálise e de todas as curas pela fala. Vários estudos, utilizando-se inclusive de neuroimagem parecem apontar nessa direção. Mas como será que o significado das palavras pode alterar o cérebro de uma pessoa? Demos uma volta para reencontrar o problema da causação mental.
Essa é uma questão que tem ganhado grande dimensão na Filosofia da mente. Um de seus maiores estudiosos é o filósofo Jaegwon Kim. Ele observa que os materialistas tentam tomar um atalho curto demais para resolvê-la. Como para eles, estados mentais são estados cerebrais, não há nenhum problema em um estado cerebral causar outro. Mas o problema da causação mental não é tão simples assim, pois, pelo visto, ainda não conseguimos nos livrar da mente: ela ainda é necessária para explicar várias coisas.
Há, ainda, várias outras facetas do problema da causação mental. Podemos pensar que problemática é a causação do mental para o físico ou cerebral e que o mesmo não ocorreria para o mental. Mas será que um estado mental pode causar outro? Certamente o que liga um estudo mental a outro não é uma relação causal, como ocorre com as coisas que observamos no mundo. Nesse sentido não poderíamos falar de uma causação do mental, embora isso deixe em aberto saber que tipo de relação estados mentais mantêm entre si.
Um outro aspecto do problema da causação mental é saber se a consciência interfere na causação do mental para o físico. Os filósofos vivem procurando uma função para a consciência, sem conseguir atribuir-lhe nenhuma.. Os psicoterapeutas, contudo, veem nela um papel cognitivo importante na modificação do comportamento. É uma expansão da consciência - e não somente de informação - que leva uma pessoa a descobrir quais são os condicionantes de seu comportamento para então começar a poder modificá-lo. Isso basta para podermos atribuir à consciência um papel causal importante.
Ao contrário do que supõem psiquiatras e neurocientistas, o problema mente-cérebro está longe de ser resolvido. É isso o que nos mostra o problema da causação mental. Esses são problemas que dificilmente desaparecerão, pois fazem parte do nosso 'imaginário filosófico'. Os índios não correlacionavam dores de estômago com a ingestão de alimentos. A eles faltava o aprendizado da ideia de causalidade. De modo inverso, não conseguimos dissociar pensamento intencional de movimentos musculares a eles correspondentes. Talvez este seja um resquício de pensamento mágico, tão mágico quanto os dois índios que achavam que eram demônios que causavam suas dores de estômago. Não será essa crença apenas um mito? Um item de pensamento mágico reforçado pela percepção habitual do mundo e pela psicologia popular?
Uma observação importante é o fato de quase nunca associarmos causação mental com nossas ações que seriam causadas por nossas intenções, mas a associarmos com fatos anômalos como, por exemplo, a psicocinese, ou seja, fenômenos esporádicos nos quais movemos objetos pela ação do pensamento. Causação mental estaria muito mais associada ao mágico do que ao habitual. Ora, será a causação mental um tema para o antropólogo cognitivo e não para o filósofo?
Texto de João de Fernandes Teixeira (Bacharel em Filosofia pela USP; mestre em Filosofia da Ciência pela UNICAMP; PhD pela University of Essex na Inglaterra; pós-doutorado sob orientação de Daniel Dennet nos Estados Unidos). Material retirado da Revista Filosofia - Ciência & Vida, número 22, Editora Dibra/Nova Escala, São Paulo, 2008.
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