GRAMÁTICA É UM SABER FALAR, INSTRUÍDO POR UMA TRADIÇÃO. NÃO É A MERA DESCRIÇÃO DA FALA, NEM COMPÊNDIO, MAS UMA TÉCNICA QUE PERMITE A DUAS PESSOAS ENTENDEREM UMA A OUTRO.
É curioso que, sendo a linguagem uma faculdade inerente aos humanos, dela tenhamos ainda um conhecimento muito imperfeito. Quero referir-me à linguagem propriamente dita, e não ao uso do termo em aplicações ou de sentido extensivo, quando nos referimos à linguagem dos gestos, das cores, dos sinais de trânsito e correlatos.
O primeiro engano é o que nos leva a reduzir a linguagem ao domínio da Língua, isto é, penetrar nos domínios da linguagem é limitar-se a saber uma Língua.
Desde cedo, precisamos nos convencer de que não falamos só com a Língua; há a necessidade de cultivar outros saberes, tão importantes e necessários para cumprir a função primeira da linguagem, que é a comunicação entre pessoas, presentes ou ausentes.
Não existe os diferentes saberes um mais importante que o outro, já que todos concorrem para a perfeita comunicação, traduzindo conhecimentos, notícias, desejos, sentimentos, ordens e o que nos vai no espírito e na alma.
Está claro, e os antigos já a punham em primeiro lugar na grade curricular mais antiga do Ocidente - que a gramática é a que precisamos dominar antes das demais, não porque seja a mais importante, mas sim a que serve de instrumental, de matéria-prima para a exteriorização dos outros saberes. Por gramática não me refiro ao compêndio gramatical, a uma descrição do falar, e sim a uma técnica, a um saber falar, instituído por uma tradição.
Os três saberes
Essa técnica do saber falar é a que se patenteia quando duas pessoas se comunicam mediante sua Língua, independentemente de ela já ter essa técnica descrita num registro gramatical e seu léxico levantado num dicionário. Por isso, é fácil entender que ainda há grande número de Línguas faladas não descritas em tratados gramaticais e dicionários. E enriquece-se esse saber idiomático com a leitura de uma gramática e um dicionário.
Ao lado do saber idiomático, temos de dominar as regras elementares do pensar, e conhecer o mundo em que estamos inseridos, para que possamos falar "com sentido", isto é, com congruência, com articulação do nosso pensamento. Não é por causa do idioma que não precisamos declarar que uma pessoa tem pernas ou duas pernas, pois isso já nos está dado pelo nosso saber do mundo, pelo nosso conhecimento das pessoas de nosso mundo. Ao dizer que vemos uma pessoa com pernas ou com duas pernas não cometemos um erro de Língua, mas algo desnecessário. Já não será desnecessário dizer que vemos alguém com pernas longas, ou curtas, feias ou bonitas, direitas ou tortas, pois as pessoas do nosso mundo apresentam essas diferenças que, numa descrição, precisam ser assinaladas.
Nesse saber entra a nossa cultura geral das coisas, já que falamos sobre algo, ou melhor, sobre algo que conhecemos. E enriquece-se a cultura geral pela leitura e pelo estudo.
Outro saber importante é o saber construir o texto, falado ou escrito. Não basta saber o que dizer nem saber dizer algo com auxílio do idioma; é preciso saber "construir" o texto, isto é, adequá-lo ao assunto, à(s) pessoa (s) a quem se dirige, ao assunto e à situação. Há um texto adequado para falar a crianças e a adultos, há outro para falar numa excursão ou na sala de aula; há outro para falar, ainda que de um mesmo tema, para crianças do ensino fundamental, para jovens universitários, para professores pós-graduados. E enriquece-se esse saber expressivo com a leitura reflexiva dos grandes escritores.
Texto de Evanildo Bechara retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 2, Editora Segmento, São Paulo, Outubro/Novembro de 2005.
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