13 janeiro 2026

Concreto e Abstrato

COMPOSITORES COMO GILBERTO GIL E POETAS COMO JOÃO CABRAL DE MELO NETO MOSTRAM QUE NEM SEMPRE É FÁCIL DISTINGUIR UM SUBSTANTIVO DE OUTRO


Referindo-se a América, poema de A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto exaltava o que lhe parecia essencial no fazer poético: a concretização do abstrato e a abstratização do concreto. O mestre  pernambucano exemplificava sua afirmação com este trecho: "Só o primeiro cão, / em frente do homem /  cheirando o futuro". Para Cabral, "cheirar o futuro" era a exata dimensão da concretização do abstrato.

Um dia, numa das "inesquecíveis" aulas sobre as classificações do substantivo, aprendemos na escola que "concreto dá pra pegar; abstrato não dá pra pegar". E começa a confusão: Deus é concreto ou abstrato? E fada? E saci? E luz? E alma? E isso? E aquilo? E nada! Abismo. Mistério. Não foi à toa que Drummond terminou seu célebre poema Aula de Português com estas palavras: O Português são dois; o outro, mistérios." O outro Português é o da aula de Português, o da aula de Gramática.

Ao tratar do capítulo da classificação dos substantivos, os queridos colegas talvez não precisassem chegar ao ponto de citar o pensamento de Cabral, quiçá muito profundo para mentes, corações e espíritos jovens, mas poderiam fazê-lo (aos jovens) ouvir (e ler e entender) a memorável Rebento, de Gilberto Gil. Diz a canção: "Rebento, substantivo abstrato / O ato, a criação, o seu momento (...) / Rebento, tudo que nasce é rebento / Tudo que brota, que vinga, que medra / Rebento raro como flor na pedra / Rebento farto como trigo ao vento."

Pensando bem, parece que Gil segue os passos sugeridos por Cabral. Substantivo abstrato (já que designa "o ato de rebentar" - um dos valores dos abstratos é justamente o de indicar o "ato de"), "rebento" logo se concretiza ("raro como flor na pedra, "farto como trigo ao vento"). Como se vê, é difícil, quase impossível separar o abstrato do concreto.

Definido como "palavra com que se nomeia uma ação, qualidade, estado ou sentimento dos seres, dos quais se pode separar e sem os quais não poderia existir", o substantivo abstrato passa a concreto num piscar de olhos, como na canção de Gil. Por ser "o ato de rebentar", "rebento" se define como abstrato, mas concretiza-se quando "brota", "vinga", "medra", nas palavras de Gil. "Medra", por sinal, não significa "tem medo". Significa "cresce", "avança".

Se recorrermos à etimologia, constataremos que a palavra "abstrato" é da família de "abstrair", que vem do latim abstrabere e significa "separar", "arrancar", "desatar", "desligar", "afastar-se", "separar-se". De fato, o primeiro significado que os dicionários dão para "abstrair" é "separar", o que confirma a definição de abstrato do parágrafo anterior e torna compreensível o significado filosófico de abstrair e de abstração.

A letra da canção de Gil caminha e consolida o pensamento de Cabral: "Outras vezes Rebento simplesmente / No presente do indicativo / Como a corrente de um cão furioso / Como as mãos de um lavrador ativo (...) / Rebento, a reação imediata / A cada sensação de abatimento / Rebento, o coração dizendo 'bata' / A cada bofetão do sofrimento." O tiro certeiro de Gil se dá justamente na passagem do substantivo para a primeira pessoa do singular do presente do indicativo, o que explica quão tênue é a linha que separa o concreto do abstrato.

Alguém ainda se habilita a dizer que "concreto dá pra pegar, abstrato não dá pra pegar"?


Texto de Pasquale Cipro Neto, retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1 Editora Segmento, São Paulo, 2005.

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