EXPRESSÕES DA LINGUAGEM ORAL QUE FREQUENTAM NOSSO COTIDIANO CARREGAM SÉCULOS DE HISTÓRIA DESCONHECIDA PELA MAIORIA DAS PESSOAS. ESSE NÃO É UM FENÔMENO DA LÍNGUA E DA CULTURA PORTUGUESA, MAS DE TODA A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL.
A cultura moderna reflete, em suas manifestações, a herança clássica, presente entre eruditos e iletrados cidadãos. Vamos ensaiar, então, um passeio lítero-histórico, investigando o que herdamos da mitologia greco-romana.
Pela ordem cronológica, deveríamos começar pela Grécia, cuja mitologia e cultura "civilizaram" os "bárbaros" romanos, originando o berço da civilização ocidental. Mas, supersticiosos que somos, não cometamos o erro crasso de perder a oportunidade de nos juntarmos aos romanos para começar com o pé direito, como eles faziam nas grandes celebrações. Entrar com o pé direito ou começar com o pé direito é uma expressão que remonta à crença dos antigos romanos de que, adentrando as festas com o pé destro evitariam ali acontecimentos nefastos. Essa crença, materializada em expressão linguística, extrapolou o âmbito dessas festas e passou a ser válida em outras situações.
Por falar em erro crasso, esse dito veio também da antiga Roma, onde havia o Triunvirato - regime do governo no qual três pessoas dividiam o poder. O primeiro foi composto por Caio Júlio, Pompeu e Crasso. A esse último último incumbia atacar o pequeno povo de Partos. Confiante no êxito de sua missão, abandonou as formações técnicas e estratégicas bélicas romanas e atacou, escolhendo um caminho estreito e de pouca visibilidade, o que permitiu aos partos. em menor número, vencer os romanos. Crasso, líder das tropas, foi o primeiro a cair. Daí se dizer hoje que quando alguém reúne todas as condições para acertar, mas comete um erro estúpido, seja por falta de inteligência, de sensibilidade ou mesmo de instrução, comete um erro crasso.
É trabalho de Hércules selecionar expressões capazes de nos conduzir a um passeio lítero-histórico no curto espaço desta coluna. Afinal, debruçar-se sobre elas e suas histórias pode se tornar o calcanhar de Aquiles mesmo de redatores experientes. Dessa forma chega-se a trabalho hercúleo ou trabalho de Hércules, que querem dizer trabalho difícil e remetem às 12 façanhas de Hércules, nome latino dado ao herói da mitologia grega Héracles, que entre outros feitos, matou o leão de Nemeia e a hidra de Lerna, capturou o Minotauro, domou as éguas de Diomedes e colheu as maçãs de ouro do jardim das Hespérides.
Quanto ao calcanhar de Aquiles, consta, na mitologia grega, que Tétis, mãe de Aquiles, a fima de tornar seu filho indestrutível, mergulhou-o num rio mágico, segurando-o pelo calcanhar. Na Guerra de Tróia, Aquiles foi atingido justamente na única parte de seu corpo que não tinha recebido a proteção mágica: o calcanhar. Daí, o ponto fraco de uma pessoa ser conhecido como seu calcanhar de Aquiles.
Jogo empatado para Grécia e Roma, que contribuem igualmente com suas tradições. Poderia ficar assim, mas há o recurso ao voto de Minerva, o voto de desempate, da deusa romana Minerva, equivalente à grega Atena, deusa da sabedoria, das artes e da estratégia de guerra. O voto é seu, leitor!
Texto de Márcia Araújo Almeida retirado da Revista Nossa Língua, Maio de 2011, Duetto Editorial, São Paulo.
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