18 janeiro 2026

Idioma e Identidade

Na clássica história de Babel o que mais chama a atenção é, claro, a confusão dos idiomas que se instala quando Deus pune este projeto arrogante. O que fica num segundo plano é o projeto propriamente dito, o projeto da torre. É a materialização de uma blasfêmia, como a Bíblia bem claro, mas é, reconheçamos, um projeto arrojado e que, aparentemente, unia toda a humanidade. Concluída, a torre de Babel representaria uma mensagem universal, uma mensagem que todos os  homens entenderiam. Mensagem abominável, do ponto de vista de Jeová, mas mensagem, de qualquer modo, como é mensagem todo monumento. Essa mensagem unificadora nunca foi concluída, por causa exatamente do caos linguístico; e foi então substituída por um novo projeto comum, menos ambicioso e mais lógico; o projeto de um idioma universal de que o Esperanto do doutor Zamenhoff é o grande exemplo.. Dito projeto não chegou a decolar, mas caracterizou como válida a aspiração humana de união. De fato, unidade e diversidade são dois polos da nossa sociedade cotidiana, como o são a globalização e a regionalização. Correspondem a duas necessidades básicas da pessoa, a necessidade de uma identidade pessoal e grupal e a necessidade de dissolver-se no todo em que se constitui a condição humana.

O Brasil é um exemplo disso. Por causa de sua extensão classicamente é conhecido como um país continental. E, sendo do tamanho de um continente, poderia ter vários idiomas, como acontece em regiões, aliás muito menores, da Europa. Não, o idioma é um só. Mas é um só diferenciado de acordo com as regiões. O linguajar do gaúcho é muito diferente do linguajar do nordestino, ou do paulista, ou do carioca. Dei-me conta disso quando escrevi o prefácio para um livro de contos do grande escritor rio-grandense-do-sul Simões Lopes. Quando recebi da editora o livro, fiquei impressionado com o tamanho do glossário, que daria até um volume à parte. O que é explicável: pouca gente fora do Rio Grande do Sul sabe, por exemplo, o que é um tirador, aquele avental de couro que o gaúcho usa para conter a rês. E, pouca gente usa o "tu" como pronome da segunda pessoa.


O Efeito TV

A situação poderia permanecer assim por muito tempo, talvez indefinidamente. Mas então surgem as redes de TV, e o Brasil, de sul a norte e de leste a oeste, começa a ouvir um idioma único. O resultado é a homogeneização, que chega a todo o país e põe em xeque as nuances regionais.

No Rio Grande do Sul o "tu" começa a dar lugar ao "você", primeiro nos programas de rádio e TV, logo na conversa informal. O "tu" ainda permanece nos lares e nos bares, mas quem sabe por quanto tempo? E quem imaginaria, por outro lado, a quantidade de anglicismos que, por causa do papel hegemônico dos Estados Unidos, tem penetrado na linguagem corrente?

Caprichosos e às vezes imprevisíveis são os caminhos do idioma, como caprichosos e à vezes imprevisíveis são os caminhos da humanidade, que ora levam à identidade individual/grupal ora à identidade universal. E caprichoso e imprevisível é o destino dos projetos nessa área. Os construtores da torre de Babel que o digam.


Texto de Moacyr Scliar retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

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