A curiosidade sobre a história das palavras levou a étimos obtidos pela ciência e a suspeitas vindas da cultura, mas é preciso intervir no conflito entre ambas para melhor aproveitá-las
Etimologia é terreno a ser lipoaspirado. Muitas das controvérsias sobre a origem das palavras padecem de o étimo ser visto como patrimônio tributário tanto da ciência como da cultura. O litígio se instala ali onde a verificação não anula necessariamente a imaginação, e quando se sabe que a especulação raramente tem papel mais confiável que o da pesquisa, mas nem por isso é menos significativa.
Parte da semântica, do estudo das significações (no caso, históricas), a ciência etimológica investiga, de forma objetiva, o motivo de uma palavra assumir uma aparência e um sentido numa dada Língua. Essa ciência das origens chegou a um requinte de precisão notável, a uma sondagem cada vez mais próxima da reconstituição refinada e a progressivamente capaz de contornar as debilidades de base contidas em sua amostra.
Os estudos etimológicos conseguiram isso ao priorizarem a explicação fonética por trás das mudanças, e não apenas as formas antecedentes de um vocábulo. Foi preciso muito trabalho suado para isso, cruzando-se informações sobre as características fonéticas, os contextos históricos ou sociais e os intercâmbios diversos mantidos pelos povos. Os avanços, contudo, não tornaram a etimologia especialmente imune a aproximações nem sempre confiáveis e ilações a partir de vestígios frágeis.
Citemos alguns problemas correntes para filólogos e etimologistas profissionais, não meros palpiteiros da linguagem. Embora a base do nosso vocabulário seja latina, suas origens remontam a época anteriores à influência do império romano. E sabemos que, nas Línguas Indo-Europeias, o nome abstrato tem quase sempre origem concreta: de saída, o esforço está em distinguir a realidade das inúmeras camadas de ilusão.
Uma Língua Românica por vezes passa a usar uma palavra de origem latina em um sentido específico, transmitindo-a a outra. O Francês, o Espanhol e o Italiano fizeram muito isso com o Português, papel agora exercido também pelo Inglês. Com relativa frequência, há sobreposição de formas homônimas, mas de étimos diferentes, o que leva a sentidos divergentes. E, não raro, um mesmo étimo traz variantes formais e semânticas. Tudo depende do rumo que tomou e da época em que o termo passou, por exemplo, de uma Língua anterior para outra mais moderna.
Tal caldeirão de gorduras pode confundir o pesquisado e passa ao largo das preocupações do leigo sobre a origem das palavras. É preciso tirar o excesso, lipoaspirar a sobra, não só para fazer ciência mas para aproveitar melhor o que a cultura oferece à trajetória de uma dada palavra.
Os problemas de pesquisa são tão contundentes que fariam esmorecer o pesquisador menos empenhado. Por isso, perdoe Euclides da Cunha, um etimologista é antes de tudo um forte. Sabe que sua procura se apoia em resíduos, o que reduz o ritmo das passadas dadas a cada avanço.
Como, por princípio, não temos acesso à efetiva maneira como as palavras eram ditas e usadas no cotidiano antigo (o chiste anacrônico sobre a falta que fez um gravador digital no império romano), quem se intriga com a trajetória de um termo ou o fluir histórico de uma linguagem se vê obrigado a uma contínua adequação de objetos e métodos..
As relações entre ciência e cultura etimológica têm sido sinuosas e excludentes. Há um saber da ciência que nos vacina de "chutes bem intencionados" sobre o antepassado de uma palavra. Mas há também um saber da cultura que seria uma pena desprezar. Pois há cultura etimológica até em certezas insustentáveis (e alguns chutes descarados) no Crátilo, de Platão, no século 5 a.C.; no Etimologias, de Isidoro de Sevilha (560-636 d.C.); e mesmo em pesquisadores século 20, como o Antenor Nascentes de Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1932) ou o Silveira Bueno de Semântica Brasileira (1965).
Idealizadas com esforço, mas nem sempre com tanto critério e rigor, suas etimologias não contavam com informações sobre características fonéticas e traços evolutivos dos idiomas obtidos há relativo pouco tempo pelos filólogos. Quando o faziam, nem sempre cotejavam de forma sistemática o estado de uma Língua ao de outras com que porventura ela tenha, de algum modo, se relacionado.
Sabedoria intelectual
Mas, mesmo em seus delírios mais extravagantes, os pensadores da linguagem projetaram imagens que obedeciam a razões muito particulares. Cada falsa etimologia pode, assim, dizer muito pouco sobre a linguagem, mas pode dizer muito sobre a vida em sociedade que a fez circular, assim como sobre a visão de mundo e o sujeito que a imaginou.
As palavras ganharam muitos sentidos e formas até chegarem a nós, e as usamos com tanta familiaridade que nem prestamos muita atenção nelas. No entanto, essa experiência de mundo acumulada pelas culturas anteriores à nossa está contida nas palavras, em sua trajetória, em sua evolução, nas entrelinhas dos significados mais reveladores, nos detalhes da pronúncia que nos são mais característicos.
Está contida até nas grandes narrativas sobre palavras, ficcionalizadas pelos antigos, uma sabedoria intelectual que por vezes se consolida como etimologia popular, que não é de ninguém em particular, mas de todos em especial. Uma sabedoria que constitui ela mesma história própria, trajetória de pensar que não faz sombra às descobertas da ciência, mas tampouco deveria ser desconsiderada, sem mais - quando mais instigante seria incorporá-la à trajetória dos conhecimentos acumulados sobre uma dada palavra ou formulação expressiva.
É preciso ciência para nos alertar da etimologia popular, mas também invenção para anestesiar (desculpe o exagero da fórmula) a perda de ilusões pelas conquistas da etimologia científica. Se cada palavra contém um insight sobre a realidade, que terminou incorporado à linguagem de toda uma cultura, mesmo a falsa etimologia se agrega ao "currículo" da palavra, por mais efêmera que tenha sido sua circulação e consistência. Se não deve ser encarada como a "verdade" da história de uma palavra, uma construção cultural pode nos explicar muito do que passou pela mente daqueles que por ela apelam - no limite, pelo que passa por uma comunidade inteira de falantes e usuários de um idioma.
História viva
A cultura etimológica parte de uma inquietação tão antiga quanto recorrente, sobre se é possível entender algo do nosso cotidiano pelo passado das palavras que marcam a nossa vida. Hoje já se sabe que seria imprudente crer que as palavras não passam de ferramenta da comunicação, quando na prática passaram séculos de boca a boca, carregando por onde passaram a experiência de povos anteriores, muitos dos quais extintos. A etimologia popular não será jamais capaz de nos convencer de forma consistente ou nos enganar por muito tempo. Mas tampouco a etimologia científica está perto de dar a última palavra.
O estudo da história das palavras se tornou, assim, um campo com história própria, que se pode incorporar à trajetória do vocábulo. O cachorro morde o rabo. Há um tanto de petulância e muito de insolvência sistêmica em tal propósito: o conjunto de elementos conteria o conjunto maior que os incorpora.
Pois a etimologia é muito mais que a busca pela origem de palavras. É talvez a procura, hesitante e por vezes duvidosa, por uma narrativa maior. Não é só a história dos vocábulos, mas da humanidade que se fez linguagem. Por isso, investigar a evolução de um vocábulo talvez seja um caminho mais rico em possibilidades do que resgatar apenas a origem sustentável de um termo - assim como exige confiar no dado provado, que nos vacina do mito etimológico.
A própria ideia de que podemos desvendar uma origem, é preciso relembrar, é ela mesma um mito, e ancestral. A curiosidade que o passado das palavras desperta talvez seja, no fundo, correlata da tentativa de saber o que somos e de onde viemos. E permite mostrar o quanto se vê de modo diferente o mundo se deixarmos a linguagem nos contar um pouco de suas andanças por povos e eras distintas.
Na investigação etimológica, convergem o traço fonético e a afinidade semântica. Porque há leis fonéticas, é preciso ver a relação entre os fonemas de origem e das palavras derivadas. Mas com a rede de significados que afetaram a história de uso e as mutações de uma palavra, não se dá o mesmo. Desconhecer a cultura (de outros povos e do nosso) mina o projeto de almejar o sentido e a evolução de uma palavra.
Leis e ordens
As mutações fonéticas ocorrem de forma até regular, mas as semânticas não, seguem rumos não raro imprevistos. Os filólogos Kurt Baldinger e Bruno Fregni Basseto (este da USP, autor de Elementos de Filologia Românica, prêmio Jabuti em 2002) professaram em mais de uma ocasião a necessidade de, em lugar de verbetes com datas e étimos frios, os etimologistas criarem genuínas biografias das palavras, que focassem tais trilhas imprevisíveis. O futuro dos estudos etimológicos é buscar não só as origens, mas a trajetória que torna um vocábulo vivo para a cultura. E isso implicará resgatar as pegadas dessa trajetória, alertando para os passos dados com informes seguros ou infundados.
O resgate da etimologia para a vida cotidiana é talvez o caminho mais fértil para uma tomada de consciência sobre a nossa Língua, convém sempre repetir. Se soubermos o que repetirmos do passado ao nos expressar, talvez percebamos que o mundo nem sempre foi assim e não há motivo para mantê-lo como é.
Texto de Luiz Costa Pereira Júnior retirado da Revista Língua Portuguesa Especial Etimologia, Editora Segmento, São Paulo, 2011.
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