Tão espantosa quanto a origem de um termo é a mudança de sentido ao longo dos séculos.
A evolução de significado de uma palavra depende de trocas fonéticas e semânticas, de condicionamentos históricos e sociais. Forma, contudo, história e vida em comum.
Cada época usa, molda e recicla as palavras segundo seus fins. Muitas mudam de som e forma, mas alterações não menos drásticas ocorrem com o sentido delas. Há casos em que um significado muito antigo deixa de existir ou ser usado e só o novo sentido permanece. Em outros, a visão de mundo de um povo faz com que uma palavra herdada de outros povos ganhe ricas conotações.
Há quem chame o interesse por esse tipo de estudo de "semântica histórica". Na prática, a expressão batiza o estudo das diferenças, alterações e diversidade de significação (a chamada polissemia) de uma palavra no tempo, assim como as nuances de sentido e pluralidades de uso em outros instantes da Língua, por meio dos contextos de distanciamento de suas origens. Não interessa tanto a origem de um vocábulo, como requer a etimologia, mas a evolução de seus sentidos.
Esse tipo de interesse se deve, talvez, à intuição de que toda palavra tem uma história pra contar. Como se vivesse sua saga particular, com tramas, subtramas e reviravoltas as mais surpreendentes.
Imagine a saga vivida no boca-a-boca de séculos por um termo de acepção tão cristalina como "obeso". Sua etimologia é o exato oposto da atual significação. O latim obesu, explica Antenor Nascentes em seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1932), significava "fraco", "delgado". Magro, enfim. Nascentes atribui a inversão de 360 graus a equívoco no uso popular do termo ou a antífrase (usar vocábulo ou frase de sentido oposto ao que se quer, por ironia ou eufemismo supersticioso - os gregos antigos, por exemplo, chamavam as Fúrias de "Eumênides", "benfazejas").
O hoje não tão lembrado Mansur Guérios analisa a reviravolta sofrida pela palavra "abrigo", desde os tempos do Mediterrâneo antigo. Segundo o seu pequeno Dicionário de Etimologia da Língua Portuguesa, apricus significava "exposto ao sol para preservar a umidade" para os latinos antigos. Antenor Nascentes confirma a origem do verbo "abrigar" como o latim apricare, "expor ao sol".
- Estando exposto ao sol, preservava da sombra, do frio, da umidade.
Da acepção primária, diz Nascentes, deduziu-se o sentido de lugar protetor. Pode ser. Mas outro autor, citado por ele, Friedrich Diez, dá, em Etymologisches Wörterbuch der Romanischen Sprachen (1876-1877), outra matriz ao termo: o gótico barigan (cobrir), o que desabonaria a ideia da inversão. Seria perfeito se o termo viesse mesmo do verbo apricare (aquecer ao sol), à semelhança do Coliseu, ao mesmo tempo abrigo e descoberto. Assim como é agradável acreditar que o uso fez a ideia contida no termo deslizar para "pôr em lugar seguro", por fim, "proteger", como garante Guérios.
Intuições Definitivas
A intuição popular, mãe da fantasia etimológica, estabelece relações inusuais entre palavras. É uma ironia que aquilo que descongestionava poros ou intestinos, o prosaico "purgante", tenha sido chamado de aperitivum. Sim, o nome dado aos petiscos e tira-gostos, estimulantes do prato principal ou do chopinho, recebe o batismo daquilo que um dia foi usado em via oposta. Guinada total, provocada pela semelhança fonética com appetitus ("apetite"), vontade de comer ou beber. "Aperitivo", que só ajudava alguma coisa a sair do corpo, passou a nomear tudo o que abre o apetite e, portanto, ajuda algo a entrar no corpo.
As mutações provocadas pelo tempo têm sua leveza poética. Ter calma, por exemplo, chegou a ser algo infernal para os gregos antigos. O grego kauma e seu derivado latino calma significavam "calor", "quente". Como no Mediterrâneo o período mais quente coincide com a falta de ventos, contagiante preguiça dos dias parados, kauma sofreu contágio, diz Silveira Bueno em Tratado de Semântica Brasileira (Saraiva, 1965). Daí o sentido de tranquilidade e ausência de movimentos contaminar o termo. A quietude está naquilo que é a própria tormenta.
O significado original de "açúcar", diz Gabriel Nascentes, é "grãos de areia", pois originário do sânscrito çarkara, do prácrito sakkar, chegando até nós pelo árabe assukar. A aventura que fez com que a palavra se firmasse no espanhol como azúcar, no italiano zucchero, no francês sucre, e no português é da alçada da etimologia e da semântica histórica.
Houve tempo em que "abandonar" era bom sinal, uma distinção até. Derivada do francês "laisser à bandon" (deixar em poder de: bann é "poder", "jurisdição"), que se tornou o verbo abandonner (português "abandonar"; inglês to ban, proibir). De ban veio "banir" português e o bandon (poder, autoridade); francês (de onde veio "abandonar").
"Celeuma" veio do grego xéleuma, canto dos remadores. Virou sinônimo de vozearia de escravos e daí, pejorativamente, migrou para o sentido de algazarra, diz Ramiz Galvão em Vocabulário da Língua Grega, de 1909 (Garnier, 1994). "Formidável" vem do latim formidabile, herança de formid (formido). Até o século 19, significava "apavorante". Hoje, é o que desperta admiração. Silveira Bueno atribui a mudança radical à interrupção na transmissão do sentido de uma geração para outra. Por sua hipótese, entre uma criança do século 19 e outra do 20, uma separação no ciclo de aprendizado da Língua fez com que houvesse uma "descontinuidade" do sentido. A saber.
A inversão de sentido, pouco importa se fenômeno raro, torna palpável a aventura das palavras ao longo de séculos. E ilumina a Língua como depositária de experiências remotas, tão banalizadas no cotidiano, que suas motivações originais nos escapam. Conhecer a história de uma palavra é, por isso, desvendar um pedaço de uma cultura. Se um termo é produto da necessidade dos falantes de expressar uma situação, um estado de espírito ou objeto, então ele é o testemunho do que pensam os falantes de uma Língua.
Texto de Luiz Costa Pereira Júnior retirado da Revista Língua Portuguesa Especial Etimologia - A Origem das Palavras, Número 2, Editora Segmento, São Paulo, Março de 2007.
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