21 janeiro 2026

Para ler um outro mundo

 PROCURAR A TRAJETÓRIA DAS PALAVRAS É ESTABELECER RELAÇÕES DE SENTIDO ESTIMULANTES COM TUDO O QUE SE LÊ


Ler bem é ouvir o que as palavras nos dizem. E, para ouvi-las melhor, um dos recursos é a etimologia.

O que dizem as palavras quando as despimos, quando perscrutamos seu passado, suas reentrâncias, seu parentesco? Não dizem tudo, é verdade. Sempre falta à palavra outra palavra que a complemente e que a explique. Nathalie Sarraute, no livro O Uso das Palavras, imagina as palavras produzindo inúmeras ondulações. Captar essas ondulações, ler as entrelinhas, e as entreletras, é instrutivo, divertido e trabalhoso. Captá-las com outras palavras é o exercício de quem quer ler para valer. Tal esforço se renova infinitamente.

Como defendia Mário de Andrade, quem lida com palavras lida com elementos de consciência. Nas palavras, tomamos ciência e consciência do que somos, do que pensamos, do que pensam os outros, do que os outros são. Na leitura que ouve com atenção, as palavras iluminam nossa consciência. Mas pouco dizem os dicionários sobre o que as palavras dizem! Por isso os exercícios etimológicos atraem a atenção dos que esperam, em sua convivência com a linguagem, algo mais do que definições convencionais.

Palavras as mais desbotadas podem recuperar seu brilho e contundência. A palavra "importante", por exemplo. Uma palavra tão corriqueira é muito mais sugestiva do que pensamos. "Importante" ganha grande importância e nos aguça a consciência quando a ela associamos a ideia de "importação". Importare, no latim, é trazer de fora para dentro, trazer para si o que interessa é "comprar" o que consideramos

O escritor, o professor, o comunicador exportam. E, se exportam o importante, as pessoas se interessam! Recuperar o colorido da palavra "importante" é redescobrir o que diz a palavra, mesmo quando já emudecemos para ela. Ou melhor, dialogando com a palavra ouviremos o que ela diz... ou apenas sussurra. Mais ainda: suscitaremos que ela diga outras coisas importantes.

Nossas leituras podem ser mais criativas se, entre outros recursos, empregarmos com mais frequência esse instrumento que busca o étimo, garimpando, tocando os vestígios que remontam à origem. Lembrava o medievalista Étienne Gilson: "Na origem sempre reside o mistério." E o mistério (como explicam os etimólogos) é aquilo que se encontra silenciado (ou silencioso...), e requer um rito iniciático para ser conhecido.

Etimologizar no ato da leitura é iniciar-se nos mistérios da palavra, descerrar os lábios das palavras para ouvir seus sagrados segredos. A etimologia contribui para revelar o velado, descobrir o coberto. O leitor empenhado em procurar a origem das palavras poderá estabelecer relações de sentido estimulantes!


Perguntas sem resposta

Vamos à crônica de Clarice Lispector Eu sou uma pergunta, do livro A Descoberta do Mundo. São inúmeras interrogações sem resposta: "Por que escrevo?", "por que minto?", "Por que digo a verdade?", "Por que há o infinito?", "Por que há o tempo?", "Por que há uma galinha?" - e as perguntas de fundo são: o que significa ser um ser que vive a perguntar?

A pesquisa sobre as origens da palavra "pergunta" remete a praecuntáre, do latim popular, proveniente do clássico percontáre, referindo-se por sua vez a contus. Contus era uma vara, bastão ou lança com inúmeras utilidades. Poderia servir como arma de combate ou instrumento de caça, mas também para finalidades menos agressivas. O contus era usado pelo mestre de qualquer tipo de embarcação para ir tocando o fundo de um rio a fim de evitar o encalhe. E era utilizado pelos cegos. Em geral um bastão vigoroso, com ele os cegos podiam sondar o entorno para evitar obstáculos, buracos e encontrar seu rumo.

O prefixo "per-" indica movimento para todos os lados, como em "perquirir" (buscar com cuidado, procurar por toda a parte). Tanto o barqueiro como o cego lançam mão do contus para descobrir perigos e definir trajetos. Precisam conhecer o que existe ao seu redor e à sua frente. Perguntam porque desconhecem.

Deduzo que Clarice se vê como alguém que pergunta porque caminha e necessita caminhar. Ela é a própria pergunta em busca de seus caminhos. Mas quem pergunta admite não ver. E quem não vê pode tropeçar, encalhar, espatifar-se. Perguntar, ato de humildade, curiosidade urgente. Habitantes num mundo repleto de obstáculos e perigos, nossa função primordial é essa: perguntar sobre a realidade circundante

E não só a que nos circunda, mas também a que nos constitui. Ao  perguntar, e perguntar-se - "Por que escrevo?" - a escritora investiga sua própria essência, indaga a respeito da sua "navegabilidade" nos rios e mares da escrita. E assim, o texto de Clarice deixa de ser um rol de perguntas mais ou menos interessantes. Torna-se, à luz da etimologia da palavra "pergunta", um visível esforço por ver o invisível.


Pergunta viva

Afirmará alguém que a autora do texto  não tinha em mente a origem das palavras e a leitura pode ser mais fantasiosa do que rigorosa. No entanto, está aqui, precisamente, a força da consciência etimológica. O leitor interroga-se sobre significados e sentidos que a palavra ainda carrega em suas camadas, conheçamos ou não o teor dessa preciosa presença.

Mergulhando nessas camadas verbais, o leitor se dá conta de que ninguém escreve impunemente. As mutações sofridas pela palavra, no plano fonético e semântico, não aboliram as motivações profundas do seu surgimento. Embora "perguntar" nada mais tenha a ver com a materialidade de um bastão, esse bastão interrogante encontra-se, por assim dizer, embutido no verbo.

A propósito, o leitor que pesquisa a origem etimológica das palavras é também ele uma pergunta viva. Com seu bastão etimológico, envereda pelos caminhos que as palavras percorreram antes de chegar até nós. Atravessa as planícies dos idiomas modernos, entra na floresta do latim medieval, escala as montanhas do idioma grego, bebe na fonte do indo-europeu.

A etimologia como instrumento de leitura permite interpretar com novos olhos as palavras mais "inocentes", pois inocente nenhuma palavra é.


Texto de Gabriel Perissé, retirado da Revista  Língua Portuguesa Especial - Etimologia, Ano 1, Editora Segmento, São Paulo, Janeiro de 2006.


A leitura que não lê

A ideia do ato de ler para além da superfície do texto está expressa na própria evolução das palavras "ler" e "leitura". Legere, ancestral latino do verbo "ler", significava "colher" frutos nos mais remotos registros da antiga Roma. Várias palavras ligadas a "ler" denunciam sua origem agrícola. O verbo colligere descreve a ação de coletar e resumir ao mesmo tempo, reunir em coleção, e nos legou "coligir".

Entre o ato de ler e a leitura, no entanto, há uma sutil distância etimológica. "Leitura" surgiu já quando o sentido de ler passou a ser a ser o de percorrer, por meio da vista, algo escrito. "Ler" um texto, não colher uma hora, está registrado em Português desde o século 13. A palavra "leitura" surgiu, assim, do latim tardio lectura (comentário), veio do latim clássico lectio, lectionis, o derivado de legere, que deu em "lição" (no século 13 tinha a forma "liçon", em Português).

Ler é colher com os olhos, é capturar com a vista. A leitura seria um ato além, o de comentar. Há quem leia sem fazer, de fato, uma leitura, sem usar o ato de ler para captar as possibilidades do texto. A execução privada do ato de ler, a leitura seria então de algum modo diferente de ler, exigiria uma conduta mais ativa, enfatizando a autonomia de quem lê. (Luiz Costa Pereira Júnior)

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