14 janeiro 2026

As muitas vidas da palavra lusitana

                     IDIOMA TRADUZ VISÃO DE MUNDO QUE O POVO PORTUGUÊS          ESPALHOU AO LONGO DO TEMPO PELOS QUATRO CANTOS DO PLANETA E PELAS DIVERSAS CULTURAS QUE DOMINOU


Um idioma é depósito de um povo. Mas poucas Línguas ocidentais parecem ajustar-se tão bem quanto a Portuguesa ao papel de retrato falado das características de um cultura.

O povo português nasceu de misturas muitas. Sua tradição foi a de integrar-se à paisagem, aos climas, às crenças e aos povos que dominou. E o fez sem maiores tremeliques. Como lembra Ângela Dutra de Menezes, em O Português Que Nos Pariu (Relume Dumará), a Língua Portuguesa preserva a individualidade de um povo aventureiro, que circulou a África, chegou à China e ao Japão, avançou pela Índia e pela América. No auge da epopeia ultramarina do século 16, Portugal era um país pouco povoado - 1 milhão de habitantes na época do descobrimento do Brasil. Aderiu ao luxo da mistura muito mais que outros europeus para dominar colônias mais populosas que ele.

Assim, o descendente dos portugueses "aprendeu o amável jeito de olhar além da pele", mas "descobriu a hipocrisia, excelente aliada se a maior necessidade é tentar sobreviver", diz Ângela. É um tipo europeu que se acostumou a firmar a própria identidade a cada adversidade. Gente impetuosa diante dos chamados de além-mar, melancólica por causa de sua aventura, mas enfática, de quem não dá viagem perdida - não por acaso, foi a primeira a declarar-se nação independente na Europa. Esse mesmo português aprendeu as necessidades de ser cético, sonso e maleável diante dos contratempos, afinal, "em excesso de verdades constitui tolice acreditar numa só".


Características

O Idioma Português atua como um reservatório dessa identidade, maleável e também categórica. Põe à disposição do usuário duas formas de futuro subjuntivo ("quando eu for", "quando eu quiser ir") e uso de pronomes entre o verbo principal e o auxiliar ("hei de lhe oferecer" - isso, no Brasil).

Ao usar o pretérito, mais firme é o modo como o Português afirma sua diferença. "Enquanto outras linguagens equilibram dois verbinhos até para descrever os eventos corriqueiros, a Língua Portuguesa é incisiva: 'eu viajei' no lugar do cansativo 'eu tinha (havia) viajado'", diz a autora.

Hernani Donato, autor do insert sobre a Língua Portuguesa no livro A aventura das Línguas, de Hans Joachim Störig, deixa evidente que o professor alemão encarou como dificuldades do Idioma Português muito do que nos é característico. Störig se revela surpreso com o número de vogais e ditongos pronunciados com voz nasal, com terminação em "-ão", nasala vogais antes de outras vogais, e com a sílaba tônica acentuada de maneira tão forte que as outras sílabas parecem cochichadas dentro da palavra, o que faz as vogais não acentuadas mudarem de timbre. É o ser Português falado por sua Língua: musical e afirmativo.

Ao se reproduzir no outro lado do Atlântico, o falar Português se abrasileirou. Ganhou outras flexões, textura própria, nova música. "No Brasil fala-se Português com açúcar", diria Eça de Queiroz. Por um triz, não virou dialeto. Talvez seja questão de tempo. Para Antônio Cândido, a Língua Portuguesa não perdeu na América nada de "seu caráter grave, nem a têmpera máscula, nem o tom de funda melancolia". De quebra, ganhou suavidade e ternura.

Os portugueses deixaram entre nós sua herança, sua Língua. Com ela, tudo  o que a cultura lusa é e significa.


A maior palavra:

"Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico"

Essa vai ser difícil de exportar. Até prova em contrário, a maior palavra da Língua Portuguesa é uma expressão médica, muito rara no Brasil. Com 46 letras, descreve o estado de quem sofre uma doença causada pela aspiração de cinzas de um vulcão.

Deixou as 29 letras de "anticonstitucionalissimamente" a comer sabão.


Texto sem autoria (deve ser criação coletiva) retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

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