16 janeiro 2026

O diminutivo que aumenta

 O USO DO ADJETIVO SUPERLATIVO PODE TER PROLIFERADO POR CAUSA DE NOSSA HERANÇA BANTA


O diminutivo virou uma espécie de divisor de águas para o brasileiro. Em Portugal, onde a ambiguidade linguística tem menor voltagem e toda conversa arrisca-se a seguir o pé da letra, as pessoas tendem a flexionar o grau do substantivo com a consciência de que pão é pão, queijo é queijo - posto evidente que um diminutivo serve é para diminuir e um aumentativo, para aumentar. Leva-se talvez mais à risca a definição usual do diminutivo, a de um grau do substantivo que deixa implícita a ideia de uma dimensão. Além-mar a ênfase é outra. Quando convém, o diminutivo funciona como aumentativo no Brasil. Porque exploramos como ninguém o uso dos adjetivos com flexão típica do diminutivo, mas função superlativa, como se vê abaixo:

"Café Quentinho" - Aquele com o máximo de calor possível

"Menino Bonzinho" - Um verdadeiro poço de bondade

"Cerveja Geladinha" - A bebida quase no ponto de congelamento


Quando deus é diminutivo

Banto é o conjunto de 400 idiomas da família nigero-congolesa, como o quimbundo de Angola, a que mais influenciou o Brasil. As Línguas Bantas estão na África ao do Saara, entre a linha que liga o Golfo da Guiné à foz do Juba (Somália) até o Cabo.

Os africanos subsaarianos usam muito os prefixos. Chega a ser considerada uma de suas maiores características gramaticais. Eles dividem os substantivos em cerca de dez classes. Toda mudança que ocorre com nome ou verbo é indicada pelo prefixo.

A primeira sílaba classifica a palavra: remete a expressão a uma categoria da realidade (diz se um termo vai batizar gente, bicho, ser sobrenatural, se é objeto pequeno, qual o tempo verbal etc). Singular e o plural são definidos pela mudança de prefixo: "mu-" é singular e "ba-", plural, como mucongo, membro da etnia conga (plural bacongo).

Seria comum numa Língua Banta o diminutivo ser usado para aumentar a propriedade de um palavra. Das designações de "Deus" (Ruhanga - o criador, Leza - o todo-poderoso, Molino - o espírito), há Kalunga ou Calunga, pela grafia oficial do Brasil. Pertence à décima classe de palavras, a dos diminutivos "ca-". Significa deus, "aquele que por excelência junta". No Brasil, virou até nome de rede de papelarias, com "K".

Deus, da ordem dos diminutivos? Faz sentido, se pensarmos a lógica dos povos que ocuparam as senzalas nos tempos da escravidão.


Calunga

É deus e é diminutivo.

Na mitologia subsaariana, o Criador não tinha o prestígio que lhe dá a tradição judaico-cristã. Nem bem criou o mundo, entregou-se aos seus filhos divinos e aposentou-se. Cada filho é ancestral fundador das linhagens Bantas. Daí ser rara a devoção coletiva ao deus único. Em geral, o culto é aos espíritos secundários.

Para os bantos (ou mesmo não-bantos, como os iorubas da Nigéria que ocuparam a Bahia), a linhagem é tudo - as ancestrais perduram nos vivos e a reencarnação ocorre no clã, o avô reencarnado no filho e nos netos - até quando ainda vivo. Entre os balubas, a palavra "morrer" é usada para todo objeto. Se pratos se quebram, rios secam ou árvores caem, se não há mais remédio ou retorno à condição de plena existência, os balubas dizem que pratos, rios e árvores "morreram".


O Povo Banto

A palavra "banto", como conhecemos, estreou com o antropólogo W. H. I. Bleek (1827-1875). Significa "povo". Não se refere a uma unidade racial. Séculos de movimentações, guerras e doenças originaram uma variedade de cruzamentos em quase 500 povos diferentes, que mantiveram as suas raízes comuns, apesar de tudo. Banto não é, pois, uma raça, mas uma comunidade com hábitos culturais e dialetos tão parecidos que sua semelhança só faz sentido se houver raiz comum. Todos usam, por exemplo, o radical "-ntu" (munto no singular e banto no plural) para denominar a pessoa, o ser humano. Por isso, essas Línguas foram batizadas de Banto. Invenção de linguistas ocidentais.


Texto sem autoria identificada (possivelmente, deve ser criação coletiva) retirado do Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

Nenhum comentário:

Postar um comentário