Da próxima vez que passar perto de restingas, capoeiras ou beiras de mata, fique bem atento para qualquer vulto vermelho por trás da folhagem. Pode ser que você aviste um tiê-sangue, ave que só existe no litoral do Brasil e cujo nome foi inspirado em suas penas, vermelhas como o sangue. O tiê possui ainda as asas e a cauda negras e uma mancha branca reluzente no bico. Só não espere tanto de seu canto, porque... não tem nada de especial!
As cores vivas e contrastantes do tiê-sangue atraem o interesse dos criadores de passarinhos. Só que não adianta querer criar essa ave em cativeiro para apreciar sua beleza, porque, na gaiola, ela fica com uma coloração pálida e sem graça. O vermelho vivo da plumagem depende dos frutos de que se alimenta, alguns contêm um pigmento chamado astaxantina. Assim, se não receber a mesma variedade de frutos em cativeiro, o tiê fica com uma cor alaranjada, desbotada. Sinal de que em liberdade as aves são mais felizes e mais bonitas, não acha?
Mas, no caso do tiê-sangue, a beleza da plumagem é privilégio dos machos da espécie. De vermelho, as fêmeas têm apenas os olhos. No resto, a coloração delas é castanha, geralmente pálida e mais escura. Os filhotes com poucos meses de vida também são assim, porém, com uma cor ferrugem no ventre, olhos cinzentos e um jeito meio estabanado e descuidado de agir. Às vezes, ficam bem visíveis, porque não são ariscos e desconfiados como os adultos. Nessa idade ainda não dá para diferenciar o macho da fêmea, porque as penas vermelhas dos machos só aparecem por volta de um ano de vida. Enquanto não crescem totalmente - estando, digamos, na adolescência -, eles têm um aspecto malhado que os fez ficarem conhecidos como "machos pintões".
Uma espécie muito sociável
O tiê-sangue vive sempre em grupos, cuja constituição varia com o tempo. No período de reprodução - que vai de julho a fevereiro -, eles são formados por machos e fêmeas adultos e seus filhotes, com poucos meses de vida. No entanto, basta os filhotes ficarem um pouco mais crescidos para a situação mudar: as fêmeas jovens saem de casa! Partem à procura de outros grupos em que possam se instalar e encontrar parceiros para se reproduzir. O fenômeno é conhecido como "dispersão natal" e já observado em outras espécies de aves, mas ainda não se sabe por que acontece.
Uma das hipóteses sugere que as fêmeas jovens vão embora para deixar o terreno livre para suas mães, que sendo mais experientes, têm direito de ficar com os melhores machos. Os machos mais disputados são aqueles que defendem os melhores territórios (área com comida e lugares adequados para a construção de ninhos) e ajudam a fêmea a criar seus filhotes.
O macho jovem, ao contrário da fêmea, permanece ajudando os pais a cuidar de seus irmãos mais novos. Ele ganha experiência e se familiariza com o ambiente, tentando conquistar territórios vizinhos para aumentar a área ocupada pelo grupo e para, futuramente, se reproduzir. Acredita-se que ele herde o território do pai, quando este morre.
Mãe para tiê nenhum botar defeito
Quando chega a hora da fêmea do tiê pôr seus ovos, ela constrói o próprio ninho, aberto e com a forma de uma tigela com paredes bem espessas. Logo após a construção, que leva cerca de quatro dias, a fêmea põe dois ou três belos ovos azul-claros bem lustrosos, salpicados de preto. Os filhotes nascem todos no mesmo dia, depois de 12 ou 13 dias, com os olhos fechados e o corpo coberto apenas por uma penugem bem rala.
Durante os cinco primeiros dias de vida, a mãe tiê-sangue deita sobre os filhotes para aquecê-los e protegê-los do sol, da chuva e do vento. Eles saem do ninho depois de dez dias e ficam escondidos no meio da folhagem e dos arbustos, sendo ainda alimentados pelos adultos. Mesmo que ainda não saibam voar, o ideal é que saiam do ninho o quanto antes, porque lá eles estão muito vulneráveis a ataques de predadores. Afinal, para estes, não existe nada mais atraente do que um ninho com cabecinhas se agitando, piando e pedindo comida.
O tiê-sangue alimenta-se principalmente de frutos. Para os filhotes, entretanto, o cardápio é incrementado com muitas lagartas, insetos adultos e pequenas pererecas! Para nós, pode não parecer muito apetitoso, mas esta é a forma de as mães darem proteína de origem animal para seus filhotes, o que é muito importante nessa fase de crescimento. Isso mostra que as mães, não importa de que espécie, sabem das coisas!
Texto de Gloria Castiglioni e Luiz Pedreira Gonzaga (Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro) retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 14, Número 120, Dezembro de 2001, Ministério da Educação, FNDE.