quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Quase Nada

De você sei quase nada

Pra onde vai ou porque veio

Nem mesmo sei

Qual é a parte

Da tua estrada

No meu caminho

Será um atalho

Ou um desvio

Um rio raso

Um passo em falso

Um prato fundo

Pra toda fome

Que há no mundo

Noite alta que revele

O passeio pela pele

Dia claro madrugada

De nós dois não sei mais nada

Se tudo passa como se explica

O amor que fica nessa parada

Amor que chega sem dar aviso

Não é preciso saber mais nada


Música de Zeca Baleiro & Alice Ruiz gravada por ele em seu CD Líricas de 2000 lançado pela MZA Music/ Universal Music.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

O Poeta da Roça

 Sou fio das mata, cantô da mão grossa,

Trabaio na roça, de inverno e de estio.

A minha chupana é tapada de barro,

Só fumo cigarro de páia de mio.


Sou poeta das brenha, não faço o papé

De argum menestré, ou errante cantô

Que veve vagando, com sua viola,

Cantando, pachola, à percura de amô.


Não tenho sabença, pois nunca estudei,

Apenas eu sei o meu nome assiná.

Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,

E o fio do pobre não pode estudá.


Meu verso rastêro, singelo e sem graça,

Não entra na praça, no rico salão,

Meu verso só entra no campo e na roça,

Nas pobre paioça, da serra ao sertão.


Só canto o buliço da vida apertada,

Da lida pesada, das roça e dos eito.

E às vêz, rescordando a feliz mocidade,

Canto uma sôdade que mora em meu peito.


Eu canto o cabôco com suas caçada,

Nas noite assombrada que tudo apavora,

Por dentro da mata, com tanta corage

Topando as visage chamada caipora.


Eu canto o vaquêro vestido de côro,

Brigando com o tôro no mato fechado,

Que pega na ponta do brabo novio,

Ganhando lugio do dono do gado.


Eu canto o mendigo de sujo farrapo,

Coberto de trapo e mochila na mão,

Que chora pedindo um socorro dos home,

E tomba de fome, sem casa e sem pão.


E assim, sem cobiça dos cofre luzente,

Eu vivo contente e feliz com a sorte,

Morando no campo, sem a cidade,

Cantando as verdade das coisa do Norte.


Poema de Patativa do Assaré retirado do livro Ofício de Poeta, série Literatura em minha casa, Volume 1 - Poesia; Editora Scipione, São Paulo, 2003.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

As Palavras

1

Este é um planeta de palavras

neutras movíveis e versáteis

que de rodízio pela ponte

vão ter à margem oposta


Candentes em água fria

petrificadas no fogo

tumultuam-se as palavras

umas prontas para o jogo 

outras intactas à sorte


Mantêm auras de mistério

nos percursos de ida e volta

conforme o sangue que as gera

o incentivo que as abrasa

conforme a língua que as solta

ou que as segura na raça.


2

Os cardos se abriram

fecharam-se os lírios

horizontes amplos

estreitaram o âmbito

só pela palavra

que em tempo de espera

nos foi sonegada.


A casa estremece

no próprio alicerce

pelo desatino

de alguma palavra

de metal ferino

que nos fira o ouvido

sem qualquer preparo.


Os verdes ondulam

ao longo das várzeas

espelhos se aclaram

no colo das grutas

por palavra terna

que a alma nos enleva

no momento exato.


Ó cores nascidas

ó sombras criadas

ó fontes detidas

ó águas roladas

ó campos abertos

 por simples palavras.


3

Segredos expostos

tingem de rubor

a palavra rosa


Como que em deslize

tocam-se cristais

na palavra brisa


Algo se insinua

de abandono e flauta

na palavra azul


Desgastados mantos

pesam sobre o leito

da palavra fama


Espinheiro agreste

rompe raiva e ruge

na palavra guerra


Não há luz que corte

o ermo corredor

da palavra morte.


Poema de Henriqueta Lisboa retirado do livro Ofício de Poeta, da série Literatura em minha casa, Volume 1 - Poesia, Editora Scipione, São Paulo, 2003.

domingo, 27 de novembro de 2022

Companheiro Fiel

 Se estou trabalhando

- seja a que hora for -

Gatinho se deita ao lado

do meu computador.


Se vou para a sala

e deito no sofá,

ele logo vai pra lá.


Se à mesa me sento

a escrever poesia

e da sala me ausento

pela fantasia,

volto à realidade

quando, sem querer,

toco de resvés

numa coisa macia.


Já sei, não pago dez:

é o Gatinho

que sem eu saber

veio de mansinho

deitar-se a meus pés.


Poema de Ferreira Gullar retirado do livro Palavras de Encantamento, série Literatura em minha casa - Volume 1 - Poesias, Editora Moderna, São Paulo, 2001.

sábado, 26 de novembro de 2022

Ouvir com Atenção

    Uma das dificuldades, no inter-relacionamento pessoal, é constituída pela falta de cuidado nas conversações.

    As criatura, dominadas pelos conflitos, perdem, a pouco e pouco, a habilidade para bem ouvir.

    Todos desejam falar, atropeladamente, impondo ideias, discutindo temas não pensados, oferecendo informações sem substância, num afã de apresentar-se, de dominar a situação, de tornar-se o centro de interesse geral.

    Os resultados são os desastres nas relações humanas.

    Surgem, então, técnicas que preparam o homem para relacionar-se com o seu próximo; contudo, se ele não se capacita ao esforço de ouvir com serenidade, malogram as belas formulações.

    Ouvir é uma arte como outra qualquer que exige interesse e propõe cuidados.

    Pode-se ouvir, indiscriminadamente, ruídos, tumultos, sem assimilação de conteúdo.

    Os sons ferem os tímpanos, todavia a arte de ouvir as conversas impõe o respeito por quem está falando.

    Sem consideração pelo interlocutor, quaisquer assuntos perdem a importância, quando não geram polêmicas inúteis, desagradáveis.

    Ouve, sem tensão; mas, com atenção.

    Abre-te à conversação sincera, deixando que o outro fale, sem interrupção.

    Quando chegar a tua vez, sê conciso, claro e cortês.

    A palavra que abençoa, também pode ferir. Sê, pois, zeloso.

    Procura ouvir sem preconceito; porém, com respeito.

    O que ouças, deve ser digerido, a fim de ser bem assimilado.

    Evita ouvir, discutindo mentalmente, recusando-te, julgando, protestando.

    Dominado pelo emocional, perderás o melhor da palavra, confundindo o raciocínio.

    Ouve, desse modo, sem ansiedade, sem rebeldia interior.

    Quando não entendas o pensamento, pede para que seja repetido; se te não surge clara a ideia, propõe esclarecimento.

    O homem fala para melhor entender o seu próximo. Ouvindo-o com equilíbrio, pode dirimir os equívocos e aprender tudo quanto esteja ao alcance.

    Convidado a ouvir, despe-te dos pontos de vista a que te entregas, a fim de poderes absorver o conteúdo dos pensamentos que te sejam apresentados.

    Lentamente perceberás que, ouvindo, redescobrirás mil melodias, palavras e mensagens a que já não davas importância, perdidas no tumulto do que eliminaste por automatismo, deixando de escutá-las.

    Quem ouve bem, aprende, entesoura e renova-se, sabendo selecionar o que lhe é útil, daquilo que deve ser racionalmente dispensado.

    Ouve, portanto, sem perturbação, a fim de lograres precisão


Texto retirado do livro Momentos de Harmonia; Divaldo Franco pelo Espírito Joanna de Ângelis; Livraria Espírita Alvorada Editora, Salvador, 3ª Edição, 2014.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Exageros/ Exagerado

 1.

No Polo Norte faz um frio enorme,

um frio polar,

que não é brincadeira.

Por isso, pra se esquentar,

o pinguim dorme 

dentro da geladeira.


2.

Noite escura.

Completo negrume.

Até parece que puseram fraldas

nos vaga-lumes.


3.

D. Pedro I resolveu subir

à montanha mais alta do mundo.

Tanto tempo demorou subindo,

que quando chegou lá em cima

já era D. Pedro II.


4.

Colombo o seu ovo afamado

pôs de pé. Eu, nem sentado.


5.

O homem olha o micróbio

pelo microscópio.

O micróbio olha o homem

pelo telescópio.


Amor da minha vida

Daqui até a eternidade

Nossos destinos foram traçados

Na maternidade


Paixão cruel desenfreada

Te trago mil rosas roubadas

Pra desculpar minhas mentiras

Minhas mancadas


Exagerado

Jogado aos teus pés

Eu sou mesmo exagerado

Adoro um amor inventado


Eu nunca mais vou respirar

Se você não me notar

Eu posso até morrer de fome

Se você não me amar


Que por você eu largo tudo

Vou mendigar, roubar, matar

Até nas coisas mais banais

Pra mim é tudo ou nada


Exagerado

Jogado aos teus pés

Eu sou mesmo exagerado

Adoro um amor inventado


Que por você eu largo tudo

Carreira, dinheiro, canudo

Até nas coisas mais banais

Pra mim é tudo ou nunca mais


Poema de José Paulo Paes retirado do livro Palavras de Encantamento, série Literatura em minha casa - Volume 1 - Poesias, Editora Moderna, São Paulo, 2001.


Música Exagerado, de Leoni/ Cazuza/ Ezequiel Neves gravada no então 1º LP de Cazuza lançado pela Gravadora Som Livre em 1985; relançado posteriormente em CD.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Ficção Científica

Depois de uma viagem

pelo espaço sideral,

o astronauta chegou

ao seu destino final:


Um planeta diferente

cujo em-cima estava em-baixo

e o atrás ficava na frente.


Um planeta tão estranho

que a sujeira era limpa

e a água tomava banho.


Um planeta mesmo louco

onde o muito era nada

e o tudo muito pouco.


Um planeta dos mais raros:

o seu ouro era de graça,

o lixo custava caro.


O astronauta não gostou

e foi-se embora. Quando

pensou estar muito longe,

viu-se outra vez chegando


num planeta onde, aliás,

o em-baixo ficava em-cima

e o frente estava por trás...


Poema de José Paulo Paes retirado do livro Palavras de Encantamento, da série Literatura em minha casa - Volume 1 - Poesias, Editora Moderna, São Paulo, 2001.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Mistérios do Passado

 Quando Cabral o descobriu,

será que o Brasil sentiu frio?


Diz a História que os índios comeram o bispo Sardinha.

Mas como foi que eles conseguiram abrir a latinha?


Qual o mais velho, diga num segundo:

D. Pedro I ou D. Pedro II?


De que cor era mesmo (eu nunca decoro)

o cavalo branco do Marechal Deodoro?


Poema de José Paulo Paes retirado do livro Palavras de Encantamento, série Literatura em minha casa - Volume 1 - Poesias, Editora Moderna, São Paulo, 2001.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Quem Eu Sou?/Sou Eu

 Eu às vezes não entendo!

As pessoas têm um jeito

de falar de todo mundo

que não deve ser direito.


Em cada lugar que eu vou,

na escola, na rua também,

ouço dizerem assim,

quando se fala de alguém:

- Você conhece Fulano,

que chegou de uma viagem?

- O pai dele é muito rico,

tem dois carros na garagem!

- E o Maneco, lá do clube?

Pensa que é rico também?

Precisa ver que horrível

é o tênis que ele tem!


Aí eu fico pensando

que isso não está bem.

As pessoas são quem são,

ou são o que elas têm?


Eu queria que comigo

fosse tudo diferente.

Se alguém pensasse em mim,

soubesse que eu sou gente.

Falasse do que eu penso,

lembrasse do que eu falo,

pensasse no que eu faço,

soubesse por que calo!


Porque eu não sou o que visto.

Eu sou do jeito que estou!

Não sou também o que eu tenho.

Eu sou mesmo quem eu sou!


Pedi pro sol me responder o que é o amor

Ele me falou é um grande fogo

Procurei nos búzios e tornei a perguntar

Eles me disseram o amor é um jogo

Lembrei que a lua tinha muito pra contar

Ela se abriu pra mim

Disse que o amor usa tantas fases

E uma luz que não tem fim


Eu pedi pro vento que soprasse o que é o amor

Ele garantiu é tempestade

Bandos de estrelas me contaram sem piscar

O amor é pura eternidade

Sem saber direito perguntei pro coração

Que sem medo respondeu

O amor é fogo, água, céu e terra

Sente o amor sou eu


Sou eu quem gera esse energia que conduz

Seu coração a essa estrada, essa luz

O amor é fogo, água, céu e terra

Sente o amor sou eu


Sou eu quem salva o teu caminho da ilusão

Eu que te consagro repetiu meu coração

O amor é fogo, água, céu e terra

Sente o amor sou eu


Poema de Pedro Bandeira retirado do livro Palavras de Encantamento, da série Literatura em minha casa - Volume 1 - Poesias, Editora Moderna, São Paulo, 2001.


Música Sou Eu de Isolda e Eduardo Dusek gravada por Simone em seu CD de 1993. A canção deu título ao disco lançado pela Gravadora CBS, hoje Sony Music.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Vai já pra dentro, menino!

 Vai já pra dentro, menino!

Vai já pra dentro estudar!

É sempre essa lengalenga

quando o que eu quero é brincar...


Eu sei que aprendo nos livros,

eu sei que aprendo no estudo,

mas o mundo é variado

e eu preciso saber tudo!


Há tanto pra conhecer,

há tanto pra explorar!

Basta os olhos abrir,

e com o ouvido escutar.


Aprende-se o tempo todo,

dentro, fora, pelo avesso,

começando pelo fim,

terminando no começo


Se me fecho lá em casa,

numa tarde de calor,

como eu vou ver uma abelha

a catar pólen na flor?


Como eu vou saber da chuva,

se eu nunca me molhar?

Como eu vou sentir o sol,

se eu nunca me queimar?


Como eu vou saber da terra,

se eu nunca me sujar?

Como eu vou saber da gentes,

sem aprender a gostar?


Quero ver com os meus olhos,

quero a vida até o fundo,

quero ter barro nos pés,

eu quero aprender o mundo!


Poema de Pedro Bandeira retirado do livro Palavras de Encantamento, da série Literatura em minha casa - Volume 1 - Poesias, Editora Moderna, São Paulo, 2001.