sábado, 30 de novembro de 2024

Diante do Senhor (48)

          "Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra."                   - Jesus. (JOÃO, 8:43)


A linguagem do Cristo sempre se afigurou a muitos aprendizes indecifrável e estranha.

Fazer todo o bem possível, ainda quando os males sejam crescentes e numerosos.

Emprestar sem exigir retribuição.

Desculpar incessantemente.

Amar os próprios adversários.

Ajudar aos caluniadores e aos maus.

Muita gente escuta a Boa Nova, mas não lhe penetra os ensinamentos.

Isso ocorre a muitos seguidores do Evangelho, porque se utilizam da força mental em outros setores. Creem vagamente no socorro celeste, nas horas de amargura, mostrando, porém, absoluto desinteresse ante o estudo e ante a aplicação das leis divinas.

A preocupação da posse lhes absorve a existência.

Reclamam o ouro do solo, o pão do celeiro, o linho usável, o equilíbrio da carne, o prazer dos sentidos e a consideração social, com tamanha volúpia que não se recordam da posição de simples  usufrutuários do mundo em que se encontram, e nunca refletem na transitoriedade de todos os patrimônios materiais, cuja função única é a de lhes proporcionar adequado clima ao trabalho na caridade e na luz, para engrandecimento do espírito eterno.

Registram os chamamentos do Cristo, todavia, algemam furiosamente a atenção aos apelos da vida primária.

Percebem, mas não ouvem.

Informam-se, mas não entendem.

Nesse campo de contradições, temos sempre respeitáveis personalidades humanas e, por vezes, admiráveis amigos.

Conservam no coração enormes potenciais de bondade, contudo, a mente deles vive empenhada no jogo das formas perecíveis.

São preciosas estações de serviço aproveitável, com o equipamento, porém, ocupado em atividades mais ou menos inúteis.

Não nos esqueçamos, pois, de que é sempre fácil assinalar a linguagem do Senhor, mas é preciso apresentar-lhe o coração vazio de resíduos da Terra, para receber-lhe, em espírito e verdade, a palavra divina.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

O Receptivo

Uma vez Gil me disse que havia jogado o I Ching fazendo a seguinte pergunta: "O que eu sou, afinal?" A resposta do oráculo recaiu no hexagrama número dois, todo formado de linhas abertas - "O Receptivo", que tem como imagem "a terra" e como atributo "a devoção".

A nitidez daquilo me impressionou, por ser tão próximo da forma como o reconheço, como o reconhecem, como vários que ele próprio se reconhece. Talvez isso seja o que seja ser alguma coisa - o ponto onde todos esses olhares convergem.

Na verdade, a questão parecia se referir ao mais íntimo de seu íntimo. Mas em Gil isso não difere em nada da maneira como ele soa publicamente, de forma explícita, a cada canção, a cada verso de cada canção, a cada palavra de cada verso ou declaração; em cada palco, acorde, atitude.

Gil é o receptivo. Luz onde as sombras se assentam, e que lhes dá contorno. Clareza que abraça o mistério sem temor. O maleável. "Transcorrendo, transformando, tempo e espaço navegando todos os sentidos." A natureza, o princípio feminino ("a porção melhor que trago em mim agora"), o que recebe.

É assim que as palavras se articulam nos encadeamentos rítmicos, melódicos, semânticos de suas canções. O "abacateiro" que atrai "acataremos"; "bárbara bela que se torna "barbarela", ali onde Jeca Total vê Gabriela; o vermelho da rosa no sorvete; o sonho e o fim do sonho ao mesmo tempo dissolvendo a noite e a pílula, da "boca do dia" à "barriga de Maria"; a "dura caminhada" na "cama de tatame"; o "baú de prata" porque "prata é a luz do luar"; o "adeus" se dirigindo à "deusa", com o deslocamento cinematográfico do "a"; o tempo que vai e onde vai dar, menina, do perpétuo socorrei.

Tudo parece fazer sentido na medida em que deixa o sentido se fazer. O casual aberto ao intencional aberto ao casual, como círculos concêntricos se expandindo a partir da pedra, atirada com mira sobre a água sem alvo. Água cristalina não porque reflete, mas porque corre. Onde a limpidez do sentido vem de sua adequação ao ritmo, à linha melódica; clareza vindo da fluência. Cadência.

Como a letra de "Batmacumba" (parceria com Caetano), que condensa tantos significados enquanto parece estar apenas traduzindo onomatopaicamente a batida do tambor. Ali onde fala da tribo também faz dançar.

Gil deixa que as palavras se digam, se liguem umas às outras, imantadas pela música, para dizer o que ele tem a dizer.

Que baixe o santo, que a musa cante, que o vento sopre, que desça a inspiração, que se creia na ideia de inspiração. Que se cumpra o pedido da "deusa música", e se deixe "derramar o bálsamo, fazer o canto, cantar o cantar". Que o destino e a vontade, ação e inação, coincidam, colidam no mesmo gesto. "Mesmo porque tudo sempre acaba sendo o que era de se esperar." Que haja fé, sem esforço, pois nenhum esforço possível pode gerar a fé. Que a raiz seja a antena e o cesto a parabólica. Que descobrir seja inventar e que a meta dessa "metade do infinito" seja "simplesmente metáfora".

Essa entrega, esse espírito aberto ao mundo, essa leitura pessoal da exigência de cada circunstância e sua transformação em autoexigência, como traço da personalidade de Gil, acabaram se traduzindo, sem paradoxo, em intervenção radical, convicta, afirmativa das questões que foram compondo seu ideário. Gil teve sempre a coragem de dizer as coisas em que acreditava nos momentos precisos. Seja ao cantar "miserere nobis", ou "o melhor lugar do mundo é aqui e agora", ou "manda descer para ver Filhos de Gandhi"; ou "quanto mais purpurina, melhor"; ou ainda "sou um punk da periferia", assim na primeira pessoa - tocando pontos nevrálgicos de contextos muitas vezes adversos, aos quais  respondeu com integridade e paciência. "Eu não sou essa quietude, eu sou a minha quietude, não a deles", afirmava ele em 1979, em entrevista ao Folhetim.

Sua quietude inquieta deu conta de abordar e abraçar, com lucidez visionária, questões tão diversas como a contracultura, o sincretismo religioso, a negritude, a valorização da informação cultural africana e oriental entre nós, a ecologia, a política, a tecnologia, o carnaval, a macrobiótica, a cultura pop, a ciência, a meditação, as relações familiares, as relações de amor e amizade, as relações sociais, as relações de trabalho, a ancestralidade, o mundo moderno e a consciência primitiva - em formas que transitam livremente entre o baião, o funk, o rock, o afoxé, o samba, o reggae etc. e ao mesmo tempo sem ser nada disso; cumprindo apenas o sotaque particularíssimo de seu violão.

É assim que Gil foi construindo seu nicho de linguagem. Seria pouco apontar o quanto a moderna música popular do Brasil deve a ele tudo que conquistou em termos de construção, acabamento, atitude. Melhor notar o quanto nele se aprofundou a afinidade com a natureza da própria música. Pois não há como não pensar que essa reverência é uma condição dela; que a relação de qualquer um com a música é a de um ser receptivo. E por isso Gil é esse banho, essa aula, essa tradição viva; não pelo que fez, mas pelo que faz. Pela capacidade de manter potente sua linguagem, atualizando fisicamente o passado, a cada nova onda que ele espraia de seu convés, até banhar nossos pés, na praia.


Texto de Arnaldo Antunes retirado do livro Gilberto Gil Todas as Letras, organização de Carlos Rennó, Companhia das Letras, São Paulo, 2003.

domingo, 24 de novembro de 2024

14. Língua de sinais é um tipo de mímica

Muitos pensam que Línguas de Sinais são como mímica, isto é, gestos que imitam propriedades dos objetos a que fazem referência. Mas não basta imitar o movimento, a forma ou outra propriedade de algo. Para serem eficazes, os sinais têm de ser compartilhados e estruturados numa sintaxe comum.


Texto de Ataliba T. de Castilho, professor da USP.

Mitos Ideológicos, 100 Mitos retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.


13. Os escritores são a referência da gramática

A chamada norma padrão é um ideal de Língua que se baseia em boa parte do registro de grandes escritores do passado. Mas são os escritores que mais rompem com os padrões de um Idioma. Quando tomados como exemplos do Português padrão, comete-se uma injustiça com eles, e instaura-se um comando de autoridade precário.


Texto de Ataliba T. de Castilho, professor da USP.

Mitos Ideológicos, 100 Mitos retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.


12. Só há uma gramática no Brasil

Para a maioria, só há uma gramática usada no Brasil. A Língua se resume à gramática tradicional, de caráter normativo, que estabelece a forma como se deve falar ou escrever. Mas há mais de uma gramática circulante nas bocas e páginas brasileiras. Não só divergências entre gramáticos sobre os casos que analisam, as doutrinas que adotam. Mas de gramáticas concorrentes para os mesmos casos (a concordância, por exemplo, com o núcleo do sujeito em "a maioria das pessoas é", com o termo mais próximo em "a maioria das pessoas são", com interferência semântica, em que coletivos e nomes em plural levam a concordância ao plural, em "a maioria são"). Mesmo o que se considera desvio da gramática padrão pode obedecer a uma gramática própria.


Texto de Ataliba T. de Castilho, professor da USP.

Mitos Ideológicos, 100 Mitos retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

sábado, 23 de novembro de 2024

Autolibertação (47)

 "... Nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podemos levar dele." - Paulo.         (I TIMOTÉO, 6:7.)


Se desejas emancipar a alma das grilhetas escuras do "eu", começa o teu curso de autolibertação, aprendendo a viver "como possuindo tudo e nada tenho", "com todos e sem ninguém".

Se chegaste à Terra na condição de um peregrino necessitado de aconchego e socorro e se sabes que te retirarás dela sozinho, resigna-te a viver contigo mesmo, servindo a todos, em favor do teu crescimento espiritual para a imortalidade.

Lembra-te de que, por força das leis que governam os destinos, cada criatura está ou estará em solidão, a seu modo, adquirindo a ciência da autossuperação.

Consagra-te ao bem, não só pelo bem de ti mesmo, mas, acima de tudo, por amor ao próprio bem.

Realmente grande é aquele que conhece a própria pequenez, ante a vida infinita.

Não te imponhas, deliberadamente, afugentando a simpatia; não dispensarás o concurso alheio na execução de tua tarefa.

Jamais suponhas que a tua dor seja maior que a do vizinho ou que as situações do teu agrado sejam as que devam agradar aos que te seguem. Aquilo que te encoraja pode espantar a muitos e o material de tua alegria pode ser um veneno para teu irmão.

Sobretudo, combate a tendência ao melindre pessoal com a mesma persistência empregada no serviço de higiene do leito em que repousas. Muita ofensa registrada é peso inútil ao coração. Guardar o sarcasmo ou o insulto dos outros não será o mesmo que cultivar espinhos alheios em nossa casa?

Desanuvia a mente, cada manhã, e segue para diante, na certeza de que acertaremos as nossas contas com Quem nos emprestou a vida e não com os homens que a malbaratam.

Deixa que a realidade te auxilie a visão e encontrarás a divina felicidade do anjo anônimo, que se confunde na glória do bem comum.

Aprende a ser só, para seres mais livre no desempenho do dever que te une a todos, e, de pensamento voltado para o Amigo Celeste, que esposou o caminho estreito da cruz, não nos esqueçamos de advertência de Paulo, quando nos diz que, com alusão a quaisquer patrimônios de ordem material, "nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podemos levar dele".


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

O Capitão-Mor

O capitão-mor, mestre-de-campo, tinha desaparecido, misteriosamente, da cidade. Ninguém sabia dele, nem para onde tinha ido, era o zunzum das ruas. Foi visto pela última vez atravessando a ponte do Carmo...

Corria qualquer coisa... Visitas fora de hora a uma casada, de marido fero que sempre andava por longe, mineirando seu ouro, recoveiro, com suas bestas carregando ouro alheio.

Tinha seguido em diligência para os fortes de Mato Grosso - diziam. O Quartel achou mais prudente aquietar com o caso. Família ele não tinha aqui, nem mesmo parente ou aderente. Falavam que sua gente era da Bahia, mas ele mesmo tinha vindo foi de Cuiabá.

Desapareceu inesperadamente, metido na sua farda. Algum crime?... Alguma vingança?... Alguma emboscada?... Coisas difíceis de apurar naquele tempo, com a cidade rodeada de bugres e quilombos negros por toda parte. Algum índio mancomunado com um escravo devia ter tramado a perdição dele. Fuga... Seria impossível. Suicídio... Sempre se acharia o corpo. Monte violenta? Deixaria um rastro, uma pista.

Passado o tempo regimental da espera, dentro e fora de Vila Boa, foi dada no livro competente de Folhas e Baixas do Quartel-Mor da Cavalaria Real a seguinte nota:

"Obs: capitão-mor, mestre-de-campo: Aleixino Teotônio Tordovil Durado - Desapareceu deste Regimento, no dia 29 de julho de 1789, vestido com seu fardamento de 1º uniforme. Inculcas infrutuosas".

Com pouco mais o caso estava esquecido e o quartel mesmo punha pedra em cima. Era melhor que ninguém mais falasse naquilo. E ninguém mais falou.

O capitão passou para muitos ter voltado para Cuiabá. Pessoa vinda dali afirmara mesmo ter estado com ele em Coxim.

Não houve pai nem mãe, nem mulher, filho, irmão, amigo ou parente que procurasse por ele, que pedisse notícias. Os anos se passaram. A corporação militar a que ele pertencia passou por reformas várias e acabou desaparecendo. E o quartel mesmo teve outro destino. As gerações que vieram depois nunca mais ouviram falar do capitão sumido. Quando, por acaso, se tocava no assunto, este era tido como lenda, contada pelos antigos e se concluía por sua volta para Cuiabá, numa missão secreta de alçada. Mensagens ásperas trocadas entre altos magistrados, a propósito de doze arrobas de ouro que a Casa da Fundição de Vila Boa devia entregar anualmente, por Carta Régia, para o Provedor das Casas dos Quintos daquela cidade, atendendo a deficiência de suas  residas. Era sempre o capitão-mor a pessoas indicada para portar essas epístolas, pesadas de obreias e nem sempre amistosas, onde turravam cheios de reverências, à moda antiga, e a propósito de arrobas de ouro, o senhor Ouvidor das minas de Vila Boa e o seu colega, o ouvidor das minas de Cuiabá.

Um século mais tarde, na Cidade de Goiás, na antiga Rua Joaquim Rodrigues, depois 13 de Maio, atualmente Joaquim de Bastos, quando foram desmanchar a parede interna de uma casa velha para suprimir uma alcova escura e alargar uma sala pequena, acharam, dentro do paredão demolido, numa estacada de aroeira, duas tíbias, ligadas a um torno com pedaços de correntes com os braços algemados para trás e uma mordaça de ferro metida entre os maxilares quebrados, um esqueleto de homem, ainda com pedaços de farda, restos de galão e dragonas de canutão. Do antigo oficial-mor, graduado.


Crônica de Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, retirado do livro O Tesouro da Casa Velha, Global Editora, São Paulo, 1989.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Sorôco, sua mãe, sua filha

Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo. A gente reparando notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso daí de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.

As muitas pessoas já estavam de ajuntamento, em beira do carro, para esperar. As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo - o movimento. Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do curral de embarque de bois, antes da guarita do guarda-chaves, perto dos empilhados de lenha. Sorôco ia trazer as duas, conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum.

A hora era de muito sol - o povo caçava jeito de ficarem debaixo da sombra das árvores de cedro. O carro lembrava um canoão no seco, navio. A gente olhava: nas reluzências do ar, parecia que ele estava torto, que nas pontas se empinava. O borco bojudo do telhadinho dele alumiava em preto. Parecia coisa de invento de muita distância, sem piedade nenhuma, e que a gente não pudesse imaginar direito nem se acostumar de ver, e não sendo de ninguém. Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe.

O Agente da estação apareceu, fardado de amarelo, com o livro de capa preta e as bandeirinhas verde e vermelha debaixo do braço. - "Vai ver se botaram água fresca no carro..." - ele mandou. Depois, o guarda-freios andou mexendo nas mangueiras de engate. Alguém deu aviso: - "Eles vêm!... Apontavam, da Rua de Baixo, onde morava Sorôco. Ele era um homenzão, brutalhudo de corpo, com a cara grande, uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alpercatas: as crianças tomavam medo dele; mais, da voz, que era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava. Vinham vindo, com o trazer de comitiva.

Aí, paravam. A filha - a moça - tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras - o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas - virundangas: matéria de maluco. A velha só estava de preto com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docemente. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam.

Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada lado. Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro. Todos ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa daqueles transmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta de Sorôco - para não parecer pouco caso. Ele hoje estava calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos. E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele respondia: - "Deus vos pague essa despesa..."

O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais. De antes, Sorôco aguentara de repassar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Daí, com s anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências, de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por forma que, por força disse, agora iam remir com as duas, em hospícios. O se seguir.

De repente, a velha se desapareceu do braço de Sorôco, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. - "Ela não faz nada, seo Agente..." - a voz de Sorôco estava muito branda: - "Ela não acode, quando a gente chama..." A moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito antigo - um amor extremoso. E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém não entendia. Agora elas cantavam junto, não paravam de cantar.

Aí que já estava chegando a horinha do trem, tinham de dar fim aos aprestes, fazer as duas entrar para o carro de janelas enxequetadas de grades. Assim, num consumiço, sem despedida nenhuma, que elas nem haviam de poder entender. Nessa diligência, os que iam com elas, por bem-fazer, na viagem comprida, eram o Nenêgo, despachado e animoso, e o José Abençoado, pessoa de muita cautela, estes serviam para ter mão nelas, em toda juntura. E subiam também no carro uns rapazinhos, carregando as trouxas e malas, e as coisas de comer, muitas, que não iam fazer míngua, os embrulhos de pão. Por derradeiro, o Nenêgo, ainda se apareceu na plataforma, para os gestos de que tudo ia em ordem. Elas não haviam de dar trabalhos.

Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçoo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.

Sorôco.

Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre

Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mas de barba quadrada, surdo - o que nele mais espantava. O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras. Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, exemploso. E, lhe falaram: - "O mundo esta dessa forma..." Todos, no arregalado respeito, tinham as vistas neblinadas. De repente, todos gostavam demais de Sorôco.

Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou pra ir-se'embora. Estava voltando para casa, como se estivesse indo para longe, fora de conta.

Mas, parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, parar de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num rompido - ele começou a cantar, forte, mas sozinho para si - e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.

A gente se esfriou, se afundou - um instantâneo. A gente... E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E com as vozes tão Altas! Todos caminhando, com ele, Sorôco, e canta que cantando, atrás deles, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação.

A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.


Conto de João Guimarães Rosa retirado do livro Primeiras Estórias, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2005.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Ele me bebeu

É. Aconteceu mesmo.

Serjoca era maquiador de mulheres. Mas não queria nada com mulheres. Queria homens.

E maquiava Aurélia Nascimento. Aurélia era bonita e, maquilada, ficava deslumbrante. Era loura, usava peruca e cílios postiços. Ficaram amigos. Saíam juntos, essa coisa de ir jantar em boates.

Toda as vezes que Aurélia queria ficar linda ligava para Serjoca. Serjoca também era bonito. Era magro e alto.

E assim corriam as coisas. Um telefonema e marcavam encontro. Ela se vestia bem, era caprichada. Usava lentes de contato. E seios postiços. Mas os seus mesmos eram lindos, pontudos. Só usava os postiços porque tinha pouco busto. Sua boca era um botão de vermelha rosa. E os dentes grandes, brancos.

Um dia, às seis horas d atarde, na hora do pior trânsito, Aurélia e Serjoca estavam em pé junto do Copacabana Palace e esperavam inutilmente um táxi. Serjoca, de cansaço, encostara-se numa árvore. Aurélia impaciente. Sugeriu que dessem ao porteiro dez cruzeiros para que ele lhes arranjasse uma condução. Serjoca negou: era duro para soltar dinheiro.

Eram quase sete horas. Escurecia. O que fazer?

Perto deles estava Affonso Carvalho. Industrial de metalurgia. Esperava o seu Mercedes com chofer. Fazer calor, o carro era refrigerado, tinha telefone e geladeira. Affonso fizera quarenta anos no dia anterior.

Viu a impaciência de Aurélia que batia com os pés da calçada. Interessante essa mulher, pensou Affonso. E quer carro. Dirigiu-se a ela:

- A senhorita está achando dificuldade de condução?

- Estou aqui desde as seis horas e nada de um táxi passar e nos pegar! Já não aguento mais.

- Meu chofer vem daqui a pouco, disse Affonso. Posso levá-los a alguma parte?

- Eu lhe agradeceria muito, inclusive porque estou com dor no pé.

Mas não disse que tinha calos. Escondeu o defeito. Estava maquiladíssima e olhou com desejo o homem. Serjoca muito calado.

Afinal veio o chofer, desceu, abriu a porta do carro. Entraram os três. Ela na frente, ao lado do chofer, os dois atrás. Tirou discretamente o sapato e suspirou de alívio.

- Para onde vocês querem ir?

- Não temos propriamente destino, disse Aurélia cada vez mais acesa pela cara máscula de Affonso.

Ele disse:

- E se fôssemos ao Number One tomar um drinque?

- Eu adoraria, disse Aurélia. Você não gostaria, Serjoca?

- É claro, preciso de uma bebida forte.

Então forma para a boate, a essa hora quase vazia. E conversaram. Affonso falou de metalurgia. Os outros dois não entendiam nada. Mas fingiam entender. Era tedioso. Mas Affonso estava entusiasmado e, embaixo da mesa, encostou o pé no pé de Aurélia. Justo o pé que tinha calo. Ela correspondeu, excitada. Aí Affonso disse:

- E se fôssemos jantar na minha casa? Tenho hoje escargots e frango com trufas. Que tal?

- Estou esfaimada.

E Serjoca mudo. Estava também aceso por Affonso.

O apartamento era atapetado de branco e lá havia escultura de Bruno Giorgi. Sentaram-se, tomaram outro drinque e foram para a sala de jantar. Mesa de jacarandá. Garçom servindo à esquerda. Serjoca não sabia comer escargots e atrapalhou-se todo com os talheres especiais. Não gostou. Mas Aurélia gostou muito, se bem que tivesse medo de ter hálito de alho. Mas beberam champanha francesa durante o jantar todo. Ninguém quis sobremesa, queriam apenas café.

E foram para a sala. Aí Serjoca se animou.

E começou a falar que não acabava mais. Lançava olhos lânguidos para o industrial. Este ficou espantado com a eloquência do rapaz bonito. No dia seguinte telefonaria para Aurélia para lhe dizer: o Serjoca é um amor de pessoa.

E marcaram novo encontro. Desta vez num restaurante, o Albamar. Comeram ostras para começar. De novo Serjoca teve dificuldade de comer as ostras. Sou um errado, pensou.

Mas antes de se encontrarem, Aurélia telefonou para Serjoca: precisava de maquilagem urgente. Ele foi à sua casa.

Então, enquanto era maquilada, pensou: Serjoca está me tirando o rosto.

A impressão era a de que ele apagava os seus traços: vazia, uma cara só de carne. Carne morena.

Sentiu mal-estar. Pediu licença e foi ao banheiro para se olhar no espelho. Era isso mesmo que ela imaginara: Serjoca tinha anulado o seu rosto. Mesmo os ossos - e tinha uma ossatura espetacular - mesmo os ossos tinham desaparecido. Ele está me bebendo, pensou, ele vai me destruir. E é por causa do Affonso.

Voltou sem graça. No restaurante quase não falou. Affonso falava mais com Serjoca, mal olhava para Aurélia: estava interessado no rapaz.

Enfim, enfim acabou o almoço.

Serjoca marcou encontro com Affonso para de noite. Aurélia disse que não podia ir, estava cansada. Era mentira: não ia porque não tinha cara para mostrar.

Chegou em casa, tomou um longo banho de imersão com espuma, ficou pensando: daqui a pouco ele me tira o corpo também. O que fazer para recuperar o que fora seu? A sua individualidade?

Saiu da banheira pensativa. Enxugou-se com uma toalha enorme, vermelha. Sempre pensativa. Pesou-se na balança: estava com bom peso. Daí a pouco ele me tira também o peso, pensou.

Foi ao espelho. Olhou-se profundamente. Mas ela não era mais nada.

Então - então de súbito deu uma bruta bofetada no lado esquerdo do rosto. Para se acordar. Ficou parada olhando-se. E, como se não bastasse, deu mais duas bofetadas na cara. Para encontrar-se

E realmente aconteceu.

No espelho viu enfim um rosto humano, triste, delicado. Ela era Aurélia Nascimento. Acabara de nascer. Nas-ci-men-to.


Conto de Clarice Lispector retirado do livro A Via Crucis do Corpo, Editora Nova Fronteira, 2ª Edição, Rio de Janeiro, 1984.

domingo, 17 de novembro de 2024

Pólvora e Cocaína

Já houve quem dissesse por aí que o Rio de Janeiro é a cidade das explosões.

Na verdade, não há semana em que os jornais não registrem uma aqui e ali, na parte rural.

A ideia que se faz do Rio é de que é ele um vasto paiol, e vivemos sempre ameaçados de ir pelos ares, como se estivéssemos a bordo de um navio de guerra, ou habitando uma fortaleza cheia de explosivos terríveis.

Certamente que essa pólvora terá toda ela emprego útil; mas, se ela é indispensável para certos fins industriais, convinha que se averiguassem bem as causas das explosões, se são acidentais ou propositais, a fim de que fossem removidas na medida do possível.

Isto, porém, é que não se tem dado e creio que até hoje não têm as autoridades chegado a resultados positivos.

Entretanto, é sabido que certas pólvoras, submetidas a dadas condições, explodem espontaneamente e tem sido essa a explicação para uma série de acidentes  bastantes dolorosos, a começar pelo do "Maine", na baía de Havana, sem esquecer também o de "Aquidabã".

Noticiam os jornais que o governo vende, quando avariada, grande quantidade dessas pólvoras.

Tudo está a indicar que o primeiro cuidado do governo devia ser não entregar a particulares tão perigosas pólvoras, que explodem assim sem mais nem menos pondo pacíficas vidas em constante perigo.

Creio que o governo não é assim um negociante ganancioso que vende gêneros que possam trazer a destruição de vidas preciosas; e creio que não é, porquanto anda sempre zangado com os farmacêuticos que vendem cocaína aos suicidas.

Há sempre no Estado curiosas contradições.


Crônica de Lima Barreto originalmente publicada em Vida Suburbana, 5-1-1915. Retirado do livro Crônicas Escolhidas, Editora Ática, São Paulo, 1995.

sábado, 16 de novembro de 2024

Na Cruz (46)

 "Ele salvou a muitos e a si mesmo não pôde salvar-se." - (MATEUS, 27:42.)


Sim, ele redimira a muitos...

Estendera o amor e a verdade, a paz e a luz, levantara enfermos e ressuscitara mortos.

Entretanto, para ele mesmo erguia-se a cruz entre ladrões.

Em verdade, para quem se exaltara tanto, para quem atingira o pináculo, sugerindo indiretamente a própria condição de Redentor e Rei, a queda era enorme...

Era o Príncipe da paz e achava-se vencido pela guerra dos interesses inferiores.

Era o Salvador e não se salvava.

Era o Justo e padecia a suprema injustiça.

Jazia o Senhor flagelado e vencido.

Para o consenso humano era a extrema perda.

Caíra, todavia, na cruz.

Sangrando, mas de pé.

Supliciado, mas de braços abertos.

Relegado ao sofrimento, mas suspenso da Terra.

Rodeado de ódio e sarcasmo, mas de coração içado ao Amor.

Tombara, vilipendiado e esquecido, mas, no outro dia, transformava a própria dor em glória divina. Pendera-lhe a fronte, empastada de sangue, no madeiro, e ressurgia, à luz do sol, ao hálito de um jardim.

Convertia-se a derrota escura em vitória resplandecente. Cobria-se o lenho afrontoso de claridades celestiais para a Terra inteira.

Assim também ocorre no círculo de nossas vidas.

Não tropeces no fácil triunfo ou na auréola barata dos crucificadores. Toda vez que as circunstâncias te compelirem a modificar o roteiro da própria vida, prefere o sacrifício de ti mesmo, transformando a tua dor em auxílio para muitos, porque todos aqueles que recebem a cruz, em favor dos semelhantes, descobrem o trilho da eterna ressurreição.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

O Veado e a Onça

Há muitos e muitos anos, quando as mulheres e os homens que viviam por aqui eram índios, quando o chão era só de terra e quem voava mais alto no céu era o gavião, morava lá no fundo da mata um veado que um dia resolveu fazer uma casa.

Andou de um lado para outro para escolher um lugar. Descobriu um platô interessante, no alto de um barranco, onde não ficava passando bicho toda hora. Era perto de um rio encachoeirado, se ele quisesse beber água. Era protegido por muitas árvores grandes, que não deixavam o vento chegar muito forte.

O veado resolveu que era aquele o lugar que queria e começou a limpar o terreno. Arrancou uns matos rasteiros, tirou umas moitas que estavam atrapalhando, cortou os galhos mais baixos das árvores.

Trabalhou o dia inteiro. Quando o sol foi se pondo, estava cansado e foi dormir na casa dos pais, para voltar no dia seguinte.

Quando já era noite alta e a lua brilhava no céu, apareceu por ali uma onça que ultimamente vinha pensando muito em fazer uma casa. Aproveitava quando saía pra caçar e procurava um terreno bom.

A onça viu aquela clareira já limpinha e disse:

- Que bom! Este lugar é perfeito! O deus da mata está me ajudando! Vou logo cortar umas varas para fazer os esteios da casa e amanhã à noite eu começo...

Trabalhou a noite inteira. Quando o sol foi nascendo, estava cansada e foi dormir na casa dos pais, para voltar na noite seguinte.

Daí a pouco chegou o veado. Viu aquela pilha de varas cortadas e preparadas e disse:

- Que bom! Estas varas estão perfeitas! O deus da mata está me ajudando! Vou marcar o lugar da casa e fincar os esteios no chão, bem firme...

Trabalhou o dia inteiro. Quando o sol foi se pondo, estava cansado e foi dormir na casa dos pais, para voltar no dia seguinte.

Daí a pouco chegou a onça. Viu os esteios já colocados e disse:

- Que bom! O deus da mata continua me ajudando!

Foi até um taquaral ali perto e tirou uma porção de taquaras, que são uma espécie de bambu, levinho. Fez uma pilha enorme.

Trabalhou a noite inteira. Quando o sol foi nascendo, estava cansada e foi dormir na casa dos pais, para voltar na noite seguinte.

Daí a pouco chegou o veado. Viu aquela pilha de taquaras e disse:

- Que bom! O deus da mata continua me ajudando!

Foi pegando as taquaras uma a uma e fincando entre os esteios, nuns espacinhos pequenos, só deixando livre o lugar das portas e janelas. Depois, cortou uma porção de cipós e embiras para no outro dia amarrar o resto das taquaras atravessadas por cima daquelas, fazendo uns quadrados.

Trabalhou o dia inteiro. Quando o sol foi se pondo, estava cansado e foi dormir na casa dos pais, para voltar no dia seguinte.

Daí a pouco chegou a onça. Viu as paredes adiantadas, os cipós e as embiras cortados e disse:

- Que bom! O deus da mata continua me ajudando!

Tratou de usar os cipós e as embiras para prender o resto das taquaras, fazendo uma malha forte de quadrados.

Trabalhou a noite inteira. Quando o sol foi nascendo, estava cansada e foi dormir na casa dos pais, para voltar na noite seguinte.

Daí a pouco chegou o veado. Viu aquela malha de taquaras pronta e disse:

- Que bom! O deus da mata continua me ajudando!

Foi buscar água no rio, misturou com a terra do alto do barranco, fez um barro bem barrento e foi jogando sobra a palha de taquaras para fechar os quadrados e ir fazendo as paredes. Conseguiu completar duas antes de escurecer.

Trabalhou o dia inteiro. Quando o sol foi se pondo, estava cansado e foi dormir na casa dos pais, para voltar no dia seguinte.

Daí a pouco chegou a onça. Viu aquelas duas paredes fechadas e disse:

- Que bom! O deus da mata continua me ajudando!

Foi buscar mais água no rio, misturou com mais terra do alto do barranco, fez um barro bem barrento, trabalhou a noite toda e completou as outras duas paredes.

Quando o sol foi nascendo, estava cansada e foi dormir na casa dos pais, para voltar na noite seguinte.

E assim ficaram os dois. O veado alisou as paredes, a onça fez a cumeeira; o veado cortou folhas de palmeiras, a onça cobriu o telhado; o veado foi buscar bambu grosso, a onça fez um encanamento que levava água do rio até a casa; o veado serrou uma tábuas, a onça fez janelas e portas.

Trabalharam muito, dia e noite, sempre achando que o deus da mata estava ajudando. Até que a casa ficou pronta.

No fim do último dia de trabalho, todo animado, o veado resolveu que não ia dormir na casa dos pais: ia ficar ali para passar a primeira noite em sua casinha nova.

Tomou banho, comeu umas folhas gostosas, fez uma fogueirinha no quintal para espantar mosquito e ficou em frente da casa olhando as estrelas e esperando o sono chegar.

Mas quem chegou foi a onça. Quando viu aquela cena, ficou furiosa:

- Mas que folga! Então não se pode mais nem sair para visitar uns parentes que logo aparece um malandro para invadir a nossa casa? Saia daqui imediatamente!

O veado bem que ficou com medo, afinal onça é onça... Mas ele tinha trabalhado muito para fazer aquela casa e não ia entregar assim, para a primeira valentona que aparecesse:

- Desculpe, Dona Onça, mas deve haver algum engano. Esta casa é minha, fui eu que fiz. Quem sabe a senhora se enganou de lugar, assim, no escuro?

Primeiro, a onça ficou ainda mais furiosa ao ouvir aquilo. Rosnou e berrou:

- Está achando que eu sou idiota, é? Que não sei onde foi que eu mesma trabalhei tantas noites?

Mas o veado ficou firme:

- A senhora me desculpe, mas quem trabalhou aqui fui eu, muitos dias. Limpei o terreno, finquei os esteios, levantei as paredes, preparei o telhado, o encanamento, as portas e as janelas...

A onça foi desconfiando de alguma coisa e respondeu, já berrando menos:

- E eu cortei as varas e as taquaras, completei as paredes, botei a palha no telhado, fiz o encanamento, fechei as portas e as janelas...

Ouvindo isso, o veado entendeu alguma coisa. Os dois se olharam ressabiados, cada um deu um sorriso sem graça...

- Quer dizer que era você... - disse a onça...

- E o tempo todo eu achava que era o deus da mata me ajudando... - disse o veado.

- Pois é... Eu também achava - confessou ela.

- Então eu trabalhava de dia e a senhora trabalhava de noite...

Os dois entenderam tudo. Mas havia um problema: de quem era a casa, agora que estava pronta?

Todos os dois achavam que eram donos da casa, e não queriam desistir.

- Tenho uma ideia! - exclamou a onça. - Se nós fizemos a casa juntos, podemos morar juntos. Somos sócios...

"Morar com uma onça?", pensou o veado. "Não pode dar certo..."

- Acho até que vai ser muito bom - insistiu ela. - Você sai de dia para pastar, eu saio de noite para caçar. Nós não vamos nos encontrar nunca. E vai ter sempre alguém na casa, ela vai estar sempre bem cuidadinha...

"Vai ser perfeito", pensava a onça. "Fico com uma casa ótima, que nem deu muito trabalho, e ainda guardo uma reserva de comida dentro dela. Se algum dia não encontrar caça, créu! É só comer o sócio!"

O veado acabou concordando, porque não queria entregar a casa que lhe dera tanto trabalho. Mas sabia que aquela sociedade era muito arriscada e tratou de ficar atento ao perigo.

Durante alguns dias, a combinação deles funcionou. Mas a onça não aguentava mais de vontade de comer o veado e resolveu começar a assustá-lo, pensando que se ele tivesse medo dela, não ia lutar quando ela avançasse nele um dia. E para mostrar que era forte e sabia matar, passou a trazer para casa os restos da caçada da noite.

O veado acordava cedo, ia saindo, e lá vinha a onça com um coelho, uma paca ou um quati que ela mesma tinha caçado.

O veado foi ficando cada dia mais preocupado e acabou contando para os amigos o que tinha acontecido. Todos resolveram ajudar. Um deles disse:

- Eu vi na aldeia dos homens uma pele de onça esticada para secar no sol. Podíamos pedir emprestada...

- Isso mesmo! - concordou o veado. - Vou dizer que é um tapete novo para a casa.

E assim fizeram.

Quando vinham voltando com a pele de onça, aí, sim, foi que o deus da mata ajudou. Porque encontraram no caminho o cadáver de uma onça que tinha despencado de uma ribanceira o morrido. Resolveram levar também.

Era pesadíssima! Precisaram juntar quatro veados fortes para conseguir levar, e toda hora ela escorregava, eles tinham que aparar com a ajuda dos chifres, e ela foi ficando toda espetada. Finalmente, quando já estava anoitecendo, chegaram perto da casa.

O dono da casa foi na frente, com a pele de onça. Os quatro amigos vinham mais atrás, devagar.

Chegando no quintal, com a pele enrolada, ele viu duas onças, e a que dividia a casa com ele foi dizendo:

- Você não incomoda, não é? Chamei uma amiga para vir jantar comigo hoje...

Ele levou um susto, ficou com o coração batendo apressado. Mas aguentou firme, e respondeu como se não ligasse:

- Me incomodar? Por quê? Acho ótimo! Eu estava mesmo querendo dar uma festa hoje, para inaugurar este tapete novo que eu trouxe para nossa casa...

E desenrolou a pele.

As duas onças esperavam por tudo, menos por aquilo. A dona da casa engoliu em seco e perguntou:

- Onde foi que o senhor conseguiu isso, compadre?

E o veado reparou que, pela primeira vez na vida, ela o chamava de senhor... Sinal de respeito. Respondeu, com um ar distraído, aproveitando para chamar a onça de você:

- Cacei lá para as bandas da figueira-brava... Como você deve saber, nós, os veados, temos um jeito secreto de dar chifrada em onça, que é tiro e queda. Ela morre na hora. Por isso é que casa de veado é sempre quentinha, toda forrada de pele de onça, bem macia. Você não sabia?

As duas se entreolharam. Ele continuou:

- Mas vocês não precisam ficar com medo. Acho que com estas duas peles já dá para forrar quase todo o chão da casa...

- O senhor disse duas? Mas é uma só...

- Uma aqui na minha mão, já pronta... A outra eu larguei ali no terreiro, e os meus amigos vão me ajudar a esfolar... - disse ele, apontando para o cadáver todo marcado de chifradas, no chão do quintal, com quatro veados enormes ao lado.

As duas começaram a tremer, eu m dos veados olhou para elas e exclamou:

- Oba! Mais dois tapetes!

O dono da casa se adiantou, com um ar protetor, e disse:

- Não, nestas aqui ninguém toca. Uma é minha sócia, outra é minha hóspede...

Mas as onças foram recuando, meio sem graça, e a dona da casa disse:

- Na verdade, compadre, eu estava só esperando o senhor chegar para me despedir. Eu estou de mudança, sabe?

- É... - confirmou a outra - Ela vai morar comigo. Eu tenho uma caverna muito jeitosa, fresquinha, com bastante espaço, e ando querendo companhia...

Na mesma hora, o veado aprovou a ideia:

- Bom, se é assim, seja feliz! E não me leve a mal, mas confesso que até acho bom, porque então meus amigos podem vir morar comigo, e num instante vamos conseguir as outras peles que faltam para forrar as paredes e o resto do chão...

Fez uma pausa e perguntou:

- Aliás, você não quer me deixar o endereço novo, explicar bem explicado onde fica essa caverna?

A onça foi se afastando com a amiga. Já saindo da clareira, se virou para trás e disse:

- É muito longe, compadre, muito longe. O senhor não ia achar... Muito longe!

Devia ser. Porque elas nunca mais voltaram. Nunca mais mesmo.


Retirado do livro Histórias à Brasileira - a Moura Torta e outras, Volume 1, recontadas por Ana Maria Machado, Editora Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2007.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

A Importância dos Sonhos (trechos)

O homem utiliza a palavra escrita ou falada para expressar o que deseja transmitir. Sua linguagem é cheia de símbolos, mas ele também, muitas vezes, faz uso de sinais ou imagens não estritamente descritivos.

O que chamamos símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós. O que simbolizamos exatamente ainda é motivo de controversas suposições.

Uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem têm um aspecto "inconsciente" mais amplo, que nunca é precisamente definido ou de todo explicado. E nem podemos ter esperanças de defini-la ou explicá-la. Quando a mente explora um símbolo, é conduzida a ideias que estão fora do alcance da nossa razão. A imagem de uma roda pode levar nossos pensamentos ao conceito de um sol "divino" mas, neste ponto, nossa razão vai confessar a sua incompetência: o home é incapaz de descrever um ser "divino". Quando, com toda a nossa limitação intelectual, chamamos alguma coisa de "divina", estamos dando-lhe apenas um nome, que poderá estar baseado em uma crença, mas nunca em uma evidência concreta.

Por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana é que frequentemente utilizamos termos simbólicos como representação de conceitos que não podemos definir ou compreender integralmente. Esta é uma das razões por que todas as religiões empregam uma linguagem simbólica e se exprimem através de imagens. Mas este uso consciente que fazemos de símbolos é apenas um aspecto de um fato psicológico de grande importância: o homem também produz símbolos, inconsciente e  espontaneamente, na forma de sonhos.

O homem, como podemos perceber ao refletirmos um instante, nunca percebe plenamente uma coisa ou a entende por completo. Ele pode ver, ouvir, tocar e provar. Mas a que distância pode ver, quão acuradamente consegue ouvir, o quanto lhe significa aquilo em que toca e o que prova, tudo isso depende do número e da capacidade dos seus sentidos. Os sentidos do homem limitam a percepção que este tem do mundo à sua volta. Utilizando instrumentos científicos pode, em parte, compensar a deficiência dos sentidos. Consegue, por exemplo, alongar o alcance da sua visão através do binóculo ou apurar a audição por meio de amplificadores elétricos. Mas a mais elaborada aparelhagem nada pode fazer além de trazer ao seu âmbito visual objetos ou muito distantes ou pequenos e tornar mais audíveis sons fracos. Não importa que instrumentos ele empregue; em um determinado momento há de chegar a um limite de evidências e de convicções que o conhecimento consciente não pode transpor.

Além disso, há aspectos inconscientes na nossa percepção da realidade. O primeiro deles é o fato de que, mesmo quando os nossos sentidos reagem a fenômenos reais, a sensações visuais e auditivas, tudo isto, de certo modo, é transposto da esfera da realidade para a da mente. Dentro da mente estes fenômenos tornam-se acontecimentos psíquicos cuja natureza extrema nos é desconhecida (pois a psique não pode conhecer sua própria substância). Assim, toda experiência contém um número indefinido de fatores desconhecidos, sem considerar o fato de que toda realidade concreta sempre tem alguns aspectos que ignoramos desde que não conhecemos a natureza extrema da matéria em si.

Há, ainda certos acontecimentos de que não tomamos consciência. Permanecem, por assim dizer, abaixo do limiar da consciência. Aconteceram, mas foram absorvidos subliminarmente, sem nosso conhecimento consciente. Só podemos percebê-los nalgum momento de intuição ou por um processo de intensa reflexão que nos leve à subsequente realização de que devem ter acontecido. E apesar de termos ignorado originalmente a sua importância emocional e vital, mais tarde brotam do inconsciente como uma espécie de segundo pensamento. Este segundo pensamento pode aparecer, por exemplo, na forma de um sonho. Geralmente, o aspecto inconsciente de um acontecimento nos é revelado  através de sonhos, onde se manifesta não como um pensamento racional, mas como uma imagem simbólica. Do ponto de vista histórico, foi o estudo dos sonhos que permitiu, inicialmente, aos psicólogos investigarem o aspecto inconsciente de ocorrências psíquicas conscientes.

Fundamentos nestas observações é que os psicólogos admitem a existência de uma psique inconsciente apesar de muitos cientistas e filósofos negarem-lhe a existência. Argumentaram ingenuamente que tal pressuposição implica a existência de dois "sujeitos" ou (em linguagem comum) de duas personalidades dentro do mesmo indivíduo. E estão inteiramente certos: é exatamente isto o que ela implica. É uma das maldições do homem moderno esta divisão de personalidades. Não é, de forma alguma, um sintoma patológico: é um fato normal, que pode ser observado em qualquer época e em quaisquer lugares.

O que chamamos psique não pode, de modo algum, ser identificado com a nossa consciência e o seu conteúdo. Quem quer que negue a existência do inconsciente está, de fato, admitindo que hoje em dia temos um conhecimento total da psique. É uma suposição evidentemente tão falsa quanto a pretensão de que sabemos tudo a respeito do universo físico. Nossa psique faz parte da natureza e o seu enigma é, igualmente, sem limites. Assim, não podemos definir nem a psique nem a natureza.

A consciência é uma aquisição muito recente da natureza e ainda está num estágio "experimental". É frágil, sujeita a ameaças de perigos específicos e facilmente danificável. Como já observaram os antropólogos, um dos acidentes mentais mais comuns entre os povos primitivos é o que eles chamam "a perda da alma" - que significa, como bem indica o nome, uma ruptura (ou, mais tecnicamente, uma associação) da consciência.

Os fatos, com os quais nos familiarizamos através dos estudos dos antropólogos, não são tão irrelevantes para a nossa civilização como parecem. Também nós podemos sofrer uma dissociação e perder nossa identidade. Podemos ser dominados e perturbados por nossos humores, ou tornamo-nos insensatos e incapazes de recordar fatos importantes que nos dizem respeito e a outras pessoas, provocando a pergunta: "Que diabo se passa com você?". Pretendemos ser capazes de "nos controlarmos", mas o controle de si mesmo é virtude das mais raras e extraordinárias. Podemos ter a ilusão de que nos controlamos, mas um amigo facilmente poderá dizer-nos coisas a nosso respeito de que não tínhamos a menor consciência.

Não resta dúvida de que, mesmo no que chamamos "um alto nível de civilização", a consciência humana ainda não alcançou um grau razoável de continuidade. Ela ainda é vulnerável e suscetível à fragmentação. Esta capacidade que temos de isolar parte de nossa mente é, na verdade, uma característica valiosa. Permite que nos concentremos em uma coisa de cada vez, excluindo tudo o mais que também solicita a nossa atenção. Mas existe uma diferença radical entre uma decisão consciente, que separa e suprime temporariamente uma parte da nossa psique, e uma situação na qual isto acontece de maneira espontânea, sem o nosso conhecimento ou consentimento e mesmo contra as nossas intenções. O primeiro processo é uma conquista do ser civilizado, o segundo é aquela "perda da alma" dos primitivos e pode ser causa patológica de uma neurose.

Portanto, mesmo nos nossos dias, a unidade da consciência ainda é algo precário e que pode ser facilmente rompido. A faculdade de controlar emoções que, de um certo ponto de vista, é muito vantajosa, seria, por outro lado, uma qualidade bastante discutível já que despoja o relacionamento humano de toda a sua variedade, de todo o colorido e de todo o calor.

É sob esta perspectiva que devemos examinar a importância dos sonhos - fantasias inconscientes, evasivas, precárias, vagas e incertas do nosso inconsciente. Para melhor explicar meu ponto de vista gostaria de contar como ele se foi desenvolvendo com o passar dos anos e como cheguei à conclusão de que os sonhos são o mais fecundo e acessível campo de exploração para quem deseje investigar a faculdade de simbolização do homem.

Os sonhos têm uma significação própria, mesmo quando provocados por alguma perturbação emocional em que estejam também envolvidos os complexos habituais do indivíduo. (Os complexos habituais do indivíduo são pontos sensíveis da psique que reagem mais rapidamente aos estímulos ou perturbações externas.) É por isso que a livre associação pode levar de um sonho qualquer aos pensamentos secretos mais críticos.

Nesta altura ocorreu-me, no entanto, que se até ali eu estivera certo, podia-se razoavelmente deduzir que os sonhos têm uma função própria, mais especial e significativa. Muitas vezes os sonhos têm uma estrutura bem definida, com um sentido evidente indicando alguma ideia ou intenção subjacente - apesar de estas últimas não serem imediatamente inteligíveis. Comece, pois, a considerar se não deveríamos prestar mais atenção à forma e ao conteúdo do sonho em vez de nos deixarmos conduzir pela livre associação de uma série de ideias para então chegar aos complexos, que poderiam ser facilmente  atingidos também por outros meios.

Este novo pensamento foi decisivo para o desenvolvimento da minha psicologia. A partir deste momento desisti, gradualmente, de seguir as associações que se afastassem muito do texto de um sonho. Preferi, antes, concentrar-me nas associações com o próprio sonho, convencido de que o sonho expressaria o que de específico o inconsciente estivesse tentando dizer.

Esta mudança de atitude acarretou uma consequente mudança nos meus métodos, uma nova técnica que levava em conta todos os vários e amplos aspectos do sonho. Uma história narrada pelo nosso espírito consciente tem início, meio e fim; tal não acontece com o sonho. Suas dimensões de espaço e tempo são diferentes. Para entendê-lo é necessário examiná-lo sob todos os seus aspectos - exatamente como quando tomamos um objetivo desconhecido nas mãos e o viramos e reviramos até nos familiarizarmos com cada detalhe.

Para conhecer e entender a organização psíquica da personalidade global de uma pessoa é importante avaliar quão relevante é a função de seus sonhos e imagens simbólicas.

A maioria das pessoas sabe, por exemplo, que o ato sexual pode ser simbolizado por uma imensa variedade de imagens (ou representado sob forma alegórica). Cada uma destas imagens pode, por um processo associativo, levar à ideia da relação sexual e aos complexos específicos que incluem no comportamento sexual de um indivíduo. Mas, da mesma maneira, podemos  desenterrar estes complexos graças a um devaneio em torno de um grupo de letras indecifráveis do alfabeto russo. Fui assim, levado a admitir que um sonho pode conter outra mensagem além de uma alegoria sexual, e que isto acontece por motivos determinados. Para ilustrar esta observação:

Um homem sonha que enfiou uma chave numa fechadura, ou que está empunhando um pesado pedaço de pau, ou que está forçando uma porta com aríete. Cada um destes sonhos pode ser considerado uma alegoria, um símbolo sexual. Mas o fato de o inconsciente ter escolhido, por vontade própria, uma destas imagens específicas - a chave, o pau, ou o aríete - é também de maior significação. A verdadeira tarefa é compreender por que a chave foi escolhida em lugar do pau, ou por que o pau em lugar do aríete. E vamos algumas vezes descobrir que não é ato sexual que ali está representado mas algum aspecto psicológico inteiramente diverso.

Na Idade Média, muito antes de os filósofos terem demonstrado que trazemos em nós, devido a nossa estrutura glandular, ambos os elementos - o masculino e o feminino -,dizia-se que "todo homem traz dentro de si uma mulher". É a este elemento feminino, que há em todo homem, que chamei "anima". Este aspecto "feminino" é, essencialmente, uma certa maneira, inferior, que tem o homem de se relacionar com o seu ambiente e sobretudo com as mulheres, e que ele esconde tanto das outras pessoas quanto dele mesmo. Em outras palavras, apesar de a personalidade visível do indivíduo parecer normal, ele poderá estar escondendo dos outros - e mesmo dele próprio - a deplorável condição da sua "mulher interior".

Fácil compreender por que quem sonha tem tendência para ignorar e até rejeitar a mensagem do seu sonho. A consciência resiste, naturalmente, a tudo que é inconsciente e desconhecido. Já assinalei a existência, entre os povos primitivos, daquilo a que os antropólogos chamam "misoneísmo", um medo profundo e supersticioso ao novo. Ante acontecimentos desagradáveis, os primitivos têm as mesmas reações do animal selvagem. Mas o homem "civilizado" reage a ideias novas da mesma maneira, erguendo barreiras psicológicas que o protegem do choque trazido pela inovação. Pode-se facilmente observar este fato na reação do indivíduo ao seu próprio sonho, quando ele é obrigado a admitir algum pensamento inesperado. Muitos pioneiros da filosofia, da ciência e mesmo da literatura têm sido vítimas deste conservadorismo inato dos seus contemporâneos. A psicologia é uma das ciências mais novas e, por tratar do funcionamento do inconsciente, encontrou inevitavelmente o misoneísmo na sua forma mais extremada.


Retirado de O Homem e seus Símbolos, concepção e organização de Carl Gustav Jung, Edição Especial Brasileira, 11ª Edição, Editora Nova Fronteira, tradução de Maria Lúcia Pinho, Rio de Janeiro, 1964.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Medo e Coragem

Na tradição afro-brasileira do candomblé, Oxalá é o deus da paz. Alegre, sonhador e calmo, o mais criativo dos deuses fazia uma certa confusão ao criar. Conta-se que tudo o que Oxalá ia encontrando pelos caminhos do mundo o encantava tanto que ele parava para aproveitar de sua beleza. Assim, quando viu as árvores, deitou-se à sombra delas e passou um longo tempo adormecido. Tomou a seiva de uma árvore, e seu sabor era tão doce que o embriagou. Quando se deparou com os rios, demorou mais tempo ainda banhando-se em suas águas. Resultado: o mundo nunca ficava pronto.

Os outros deuses foram se irritando com o belo e tranquilo Oxalá. Então Oduduá, a deusa da terra, ofereceu-se para apressar a criação do mundo. E concluiu tudo antes que Oxalá, que repousava sob uma árvore, despertasse.

Ao acordar de seus sonhos e ver o mundo criado, o deus da paz se enfureceu. E ninguém pode ser mais terrível, vingativo e destrutivo do que ele. Por quê? Porque Oxalá não consegue controlar a raiva, o ódio, sentimentos estranhos à sua natureza.

É por isso que Oxalá apenas encontra equilíbrio quando se aproxima de Ogum, o deus da guerra. Ogum é a personificação da velocidade, do movimento e da inquietude. É ele quem comanda as mudanças, abre os caminhos, controla o próprio medo transformando-o na mais pura coragem. Pode parecer estranho, mas Ogum, o deus da guerra, só luta para conquistar a paz. Ele sabe que sua principal missão é ensinar aos homens que a felicidade existe. Assim, é Oxalá quem ajuda o amigo Ogum a descansar, rir, divertir-se, confiar na vida e respirar aliviado. Em troca, o deus da guerra ajuda o deus da paz a dominar a própria ira, ter coragem, ir em frente, achar seus caminhos em vez de perder-se na beleza do sonhos.


Trecho do prefácio de Heloisa Pietro retirado do livro de contos organizado por ela intitulado O Livro dos Medos, Companhia das Letrinhas, 2ª Edição, 2007, São Paulo.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

11. Há Línguas melhores que outras

Cada situação de comunicação exige a sua variedade do idioma. Apesar disso, há a crença de que há variedades melhores que outras. A razão para que certas variantes de uma Língua tenham mais prestígio é social, não tem relação com motivações linguísticas. Os grupos com maior domínio social impõem os seus valores e a sua forma de falar, defendendo que esta é a mais correta.


Texto de Ataliba T. de Castilho, professor da USP.

Mitos Ideológicos, 100 Mitos retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

10. Pessoas cultas usam a norma culta

Qualquer manifestação linguística vem marcada pelo fenômeno da variação. Curiosamente, persiste entre nós a ideia de que a variedade padrão, a norma culta, escapa a essa heterogeneidade. Não é o que as pesquisas têm demonstrado. Desde os anos 1970, maiormente depois de 1978, os pesquisadores do Projeto de Estudo da Norma Urbana Linguística Culta passaram a constatar que a norma do Português Brasileiro é heterogênea. Depois disso, o Projeto de Gramática do Português Culto Falado no Brasil procedeu a uma descrição minuciosa da norma, com base nos materiais levantados pelo projeto anterior, identificando diferenças por toda parte. Elas não impedem a intercompreensão, mas existem.

Impossível resumir aqui a enorme bibliografia gerada pelos dois projetos. Mesmo assim, peço a atenção do leitor para o que Dinah Callou, João Antônio de Moraes e Yonne Leite descobriram, no capítulo intitulado "Mapeamento dos processos", publicado em Maria Bernardete M. Abaurre (Org.) A Construção Fonológica da Palavra (Contexto, 2013), que é o volume VII da série Gramática do Português Culto Falado no Brasil. Eles observaram seis processos: palatalização do /s/ em final de sílaba (meninos ou meninosh?), fricativização e posteriorização do /r/ antes e depois de vogal (comer ou comeR?), palatalização do /t/ e do /d/ diante de /i/ (dia ou djia?), vocalização do /l/ em final de sílaba (anil ou aniu), nasalação da vogal de consoante nasal (bànana ou bãnana?), elevação da vogal média pretônica [e] à [i] e [o] à [u] (pequeno ou piqueno? moleque ou muleque?).


Texto de Ataliba T. de Castilho, professor da USP.

Mitos Ideológicos, 100 Mitos retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

sábado, 9 de novembro de 2024

9. O Português europeu é o mais correto

Mito de origem colonialista. Torna fato que o Português no Brasil é corrompido, e a variedade original - portanto, de referência - é a de Portugal. Como constata Marcos Bagno em Preconceito Linguístico (Parábola, 1999: 23 - 28), há diferenças de uso de país a país - e diferença não é deficiência ou inferioridade. O efeito prático dessa ideia é fazer o brasileiro sentir-se em dívida ou desvantagem para com a tradição gramatical.


Texto de Sírio Possenti, professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Humor, Língua e Discurso.

Mitos Ideológicos, 100 Mitos retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

8. O padrão gramatical é universal

A maioria dos tratados de gramática surgiu por uma necessidade de padronização da linguagem. Com as variadas regiões geográficas e os seus sotaques, seria complicado para as pessoas, por exemplo, escreverem do jeito que cada um realmente fala. A gramática padroniza a Língua para que (ao menos) por meio da escrita possamos nos entender. O problema é que as pessoas ainda consideram a gramática dos tratados normativos como a única forma de linguagem em qualquer situação de comunicação em que se insiram. Mas cada ocasião e ambiente exige um registro gramatical.


Texto de Sírio Possenti, professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Humor, Língua e Discurso.

Mitos Ideológicos, 100 Mitos retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

7. Há línguas perfeitas

Um grande mito em relação às Línguas é que, em algum momento, teria havido Línguas perfeitas. Sua tradução quase diária é que teria havido, para cada Língua, uma época em que ela foi melhor, em que se falava mais corretamente. A forma mais comum deste mito (ou mentira), no dia a dia, é a tese da decadência da Língua (das Línguas). Os que defendem esta tese não sabem (ou fingem não saber) que ela é brandida desde sempre. Uma versão é o mito de babel, mas a tese repetida em Roma, Alexandria, na França, Inglaterra, é repetida nos EUA e, claro, no Brasil. Curiosamente, em cada época essa tese é defendida na Língua da época...


Texto de Sírio Possenti, professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Humor, Língua e Discurso.

Mitos Ideológicos, 100 Mitos retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

Somente Assim (45)

 "Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos." - Jesus. (JOÃO, 15:8)


Em nossas aflições, o Pai é invocado.

Nas alegrias, é adorado.

Na noite tempestuosa, é sempre esperado com ânsia.

No dia festivo, é reverenciado solenemente.

Louvado pelos filhos reconhecidos e olvidado pelo ingratos, o Pai dá sempre, espalhando as bênçãos de sua bondade infinita entre bons e maus, justos e injustos.

Ensina o verme a rastejar, o arbusto a desenvolver-se e o homem a raciocinar.

Ninguém duvide, porém, quanto à expectativa do Supremo Senhor a nosso respeito. De existência em existência, ajuda-nos a crescer e a servi-Lo, para que, um dia, nos integremos, vitoriosos, em seu divino amor e possamos glorificá-Lo.

Nunca chegaremos, contudo, a semelhante condição, simplesmente através dos mil modos de coloração brilhante dos nossos sentimentos e raciocínios.

Nossos ideais superiores são imprescindíveis, e no fundo assemelham-se às flores mais belas e perfumosas da árvore. Nossa cultura é, sem dúvida indispensável, e, em essência, constitui a robustez do tronco respeitável. Nossas aspirações elevadas são preciosas e necessárias, e representam as folhas vivas e promissoras.

Todos esses requisitos são imperativos da colheita.

Assim também ocorrer nos domínios da alma.

Somente é possível glorificar o Pai quando nos abrimos aos seus decretos de amor universal, produzindo para o bem eterno.

Por isso mesmo, o Mestre foi claro em sua afirmação.

Que nossa atividade, dentro da vida, produza muita fruto de paz e sabedoria, amor e esperança, fé e alegria, justiça e misericórdia, em trabalho pessoal digno e constante, porquanto, somente assim o Pai será por nós glorificado e só condição seremos discípulos do Mestre Crucificado e Redivivo.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Cecília e a Crônica

Embora só tardiamente Cecília Meireles viesse a publicar em livro as primeiras crônicas, era longa sua prática do gênero. Por mais de trinta anos, com breves intervalos, escreveu prosa circunstancial, de glosa ao cotidiano, com tal versatilidade, que poucos de nossos escritores poderiam mostra, no gênero, igual desembaraço. Do jornalismo, que exerceu, pelos anos de 30 e 40, na constância do dia a dia, lhe adveio a tarimba necessária à pronta manipulação do assunto, a habilidade no recorte do insólito, o registro do grotesco ou a graça da matização irônica. Primeiro no Diário de Notícias, depois em A Nação e A Manhã, sua pena se afina pelo exercício permanente. A "Página de Educação" lhe recolhe, no primeiro jornal, a coluna cotidiana - "Comentário" -, onde, no entusiasmo pelas novas ideias pedagógicas, treina o estilo polêmico, defendendo a influência da arte na educação, pregando a laicização da escola, criticando indecisões da política do governo ou ironizando a incapacidade de ministros relutantes. E entre uma e outra invertida, entre alusões zombeteiras, o comentário às gentes, às coisas, às datas, numa exploração oportuna da matéria cotidiana.

A partir de 1950, embora sem a obrigatoriedade do dia a dia que caracterizara seu trabalho naqueles jornais, é constante a presença de Cecília Meireles na imprensa brasileira. No Rio de Janeiro, é ainda o Diário de Notícias que lhe publica os comentários de viagens pelo mundo afora; em São Paulo, Minas Gerais e Sul do país, distribuem-se suas crônicas por numerosos periódicos, numa atividade que surpreende a quantos só venham a conhecer a Cecília cronista num primeiro livro tardio e publicado em coautoria. Por curiosa singularidade, as crônicas de Quadrante viriam não do jornal, em que Cecília iniciara um processo de comunicação mais ampla, mas do rádio, onde o processo termina.

Da colaboração escrita para programas radiofônicos nas emissoras Rádio Ministério da Educação e Cultura e Rádio Roquette Pinto nos primeiros anos de 60, se formou a bibliografia de Cecília Meireles como cronista: Quadrante (1962), Quadrante II, Escolha o seu sonho (1964), Vozes da cidade (1965) e Inéditos (1968). Os três primeiros títulos saíram ainda em vida da autora e a ela se deve a seleção das peças que publicou; os dois últimos são obras factícias, em parte (Vozes da cidade, pelo que toca a Cecília) e no todo (Inéditos, que, como os dois que o antecedem, inclui uma ou outra peça já publicada). O primeiro, o segundo e o quarto livros reúnem crônicas de diversos autores e reproduzem, na sua titulação, o nome dos programas radiofônicos em que se leram os respectivos textos. Só o título de Escolha o seu sonho foi dado pela autora.

A conveniência de que se reeditassem as crônicas de Inéditos favoreceu a reformulação do livro. Assim, juntaram-se-lhe os escritos incluídos em obras coletivas e desfez-se a imprecisão do título substituindo-se ele por Ilusões do Mundo, que, provindo de uma das crônicas, atende ao clima geral da obra e à concepção ceciliana do mundo como sonho, matéria de ilusão.

Registro do mundo circundante, a crônica de Cecília Meireles é também uma projeção de sua alma no universo das coisas. Alimenta-se da referencialidade, das coisas concretas, de fatos e situações que envolvem o ser humano em seu comércio diário, mas matiza subjetivamente tudo isso. No comentário da vida e suas situações risíveis ou pungentes, de entusiasmo ou revolta, tem sempre Cecília Meireles uma ironia sem travo ou uma ternura sem excesso, mas que sentimos morna e brotada de uma aceitação maior do mundo e seus desconcertos e do pobre ser humano que se esforça nos labirintos da vida.


Nota editorial escrita por Darcy Damasceno e retirada do livro Ilusões do Mundo, de Cecília Meireles, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1976.