Há muitos e muitos anos, quando as mulheres e os homens que viviam por aqui eram índios, quando o chão era só de terra e quem voava mais alto no céu era o gavião, morava lá no fundo da mata um veado que um dia resolveu fazer uma casa.
Andou de um lado para outro para escolher um lugar. Descobriu um platô interessante, no alto de um barranco, onde não ficava passando bicho toda hora. Era perto de um rio encachoeirado, se ele quisesse beber água. Era protegido por muitas árvores grandes, que não deixavam o vento chegar muito forte.
O veado resolveu que era aquele o lugar que queria e começou a limpar o terreno. Arrancou uns matos rasteiros, tirou umas moitas que estavam atrapalhando, cortou os galhos mais baixos das árvores.
Trabalhou o dia inteiro. Quando o sol foi se pondo, estava cansado e foi dormir na casa dos pais, para voltar no dia seguinte.
Quando já era noite alta e a lua brilhava no céu, apareceu por ali uma onça que ultimamente vinha pensando muito em fazer uma casa. Aproveitava quando saía pra caçar e procurava um terreno bom.
A onça viu aquela clareira já limpinha e disse:
- Que bom! Este lugar é perfeito! O deus da mata está me ajudando! Vou logo cortar umas varas para fazer os esteios da casa e amanhã à noite eu começo...
Trabalhou a noite inteira. Quando o sol foi nascendo, estava cansada e foi dormir na casa dos pais, para voltar na noite seguinte.
Daí a pouco chegou o veado. Viu aquela pilha de varas cortadas e preparadas e disse:
- Que bom! Estas varas estão perfeitas! O deus da mata está me ajudando! Vou marcar o lugar da casa e fincar os esteios no chão, bem firme...
Trabalhou o dia inteiro. Quando o sol foi se pondo, estava cansado e foi dormir na casa dos pais, para voltar no dia seguinte.
Daí a pouco chegou a onça. Viu os esteios já colocados e disse:
- Que bom! O deus da mata continua me ajudando!
Foi até um taquaral ali perto e tirou uma porção de taquaras, que são uma espécie de bambu, levinho. Fez uma pilha enorme.
Trabalhou a noite inteira. Quando o sol foi nascendo, estava cansada e foi dormir na casa dos pais, para voltar na noite seguinte.
Daí a pouco chegou o veado. Viu aquela pilha de taquaras e disse:
- Que bom! O deus da mata continua me ajudando!
Foi pegando as taquaras uma a uma e fincando entre os esteios, nuns espacinhos pequenos, só deixando livre o lugar das portas e janelas. Depois, cortou uma porção de cipós e embiras para no outro dia amarrar o resto das taquaras atravessadas por cima daquelas, fazendo uns quadrados.
Trabalhou o dia inteiro. Quando o sol foi se pondo, estava cansado e foi dormir na casa dos pais, para voltar no dia seguinte.
Daí a pouco chegou a onça. Viu as paredes adiantadas, os cipós e as embiras cortados e disse:
- Que bom! O deus da mata continua me ajudando!
Tratou de usar os cipós e as embiras para prender o resto das taquaras, fazendo uma malha forte de quadrados.
Trabalhou a noite inteira. Quando o sol foi nascendo, estava cansada e foi dormir na casa dos pais, para voltar na noite seguinte.
Daí a pouco chegou o veado. Viu aquela malha de taquaras pronta e disse:
- Que bom! O deus da mata continua me ajudando!
Foi buscar água no rio, misturou com a terra do alto do barranco, fez um barro bem barrento e foi jogando sobra a palha de taquaras para fechar os quadrados e ir fazendo as paredes. Conseguiu completar duas antes de escurecer.
Trabalhou o dia inteiro. Quando o sol foi se pondo, estava cansado e foi dormir na casa dos pais, para voltar no dia seguinte.
Daí a pouco chegou a onça. Viu aquelas duas paredes fechadas e disse:
- Que bom! O deus da mata continua me ajudando!
Foi buscar mais água no rio, misturou com mais terra do alto do barranco, fez um barro bem barrento, trabalhou a noite toda e completou as outras duas paredes.
Quando o sol foi nascendo, estava cansada e foi dormir na casa dos pais, para voltar na noite seguinte.
E assim ficaram os dois. O veado alisou as paredes, a onça fez a cumeeira; o veado cortou folhas de palmeiras, a onça cobriu o telhado; o veado foi buscar bambu grosso, a onça fez um encanamento que levava água do rio até a casa; o veado serrou uma tábuas, a onça fez janelas e portas.
Trabalharam muito, dia e noite, sempre achando que o deus da mata estava ajudando. Até que a casa ficou pronta.
No fim do último dia de trabalho, todo animado, o veado resolveu que não ia dormir na casa dos pais: ia ficar ali para passar a primeira noite em sua casinha nova.
Tomou banho, comeu umas folhas gostosas, fez uma fogueirinha no quintal para espantar mosquito e ficou em frente da casa olhando as estrelas e esperando o sono chegar.
Mas quem chegou foi a onça. Quando viu aquela cena, ficou furiosa:
- Mas que folga! Então não se pode mais nem sair para visitar uns parentes que logo aparece um malandro para invadir a nossa casa? Saia daqui imediatamente!
O veado bem que ficou com medo, afinal onça é onça... Mas ele tinha trabalhado muito para fazer aquela casa e não ia entregar assim, para a primeira valentona que aparecesse:
- Desculpe, Dona Onça, mas deve haver algum engano. Esta casa é minha, fui eu que fiz. Quem sabe a senhora se enganou de lugar, assim, no escuro?
Primeiro, a onça ficou ainda mais furiosa ao ouvir aquilo. Rosnou e berrou:
- Está achando que eu sou idiota, é? Que não sei onde foi que eu mesma trabalhei tantas noites?
Mas o veado ficou firme:
- A senhora me desculpe, mas quem trabalhou aqui fui eu, muitos dias. Limpei o terreno, finquei os esteios, levantei as paredes, preparei o telhado, o encanamento, as portas e as janelas...
A onça foi desconfiando de alguma coisa e respondeu, já berrando menos:
- E eu cortei as varas e as taquaras, completei as paredes, botei a palha no telhado, fiz o encanamento, fechei as portas e as janelas...
Ouvindo isso, o veado entendeu alguma coisa. Os dois se olharam ressabiados, cada um deu um sorriso sem graça...
- Quer dizer que era você... - disse a onça...
- E o tempo todo eu achava que era o deus da mata me ajudando... - disse o veado.
- Pois é... Eu também achava - confessou ela.
- Então eu trabalhava de dia e a senhora trabalhava de noite...
Os dois entenderam tudo. Mas havia um problema: de quem era a casa, agora que estava pronta?
Todos os dois achavam que eram donos da casa, e não queriam desistir.
- Tenho uma ideia! - exclamou a onça. - Se nós fizemos a casa juntos, podemos morar juntos. Somos sócios...
"Morar com uma onça?", pensou o veado. "Não pode dar certo..."
- Acho até que vai ser muito bom - insistiu ela. - Você sai de dia para pastar, eu saio de noite para caçar. Nós não vamos nos encontrar nunca. E vai ter sempre alguém na casa, ela vai estar sempre bem cuidadinha...
"Vai ser perfeito", pensava a onça. "Fico com uma casa ótima, que nem deu muito trabalho, e ainda guardo uma reserva de comida dentro dela. Se algum dia não encontrar caça, créu! É só comer o sócio!"
O veado acabou concordando, porque não queria entregar a casa que lhe dera tanto trabalho. Mas sabia que aquela sociedade era muito arriscada e tratou de ficar atento ao perigo.
Durante alguns dias, a combinação deles funcionou. Mas a onça não aguentava mais de vontade de comer o veado e resolveu começar a assustá-lo, pensando que se ele tivesse medo dela, não ia lutar quando ela avançasse nele um dia. E para mostrar que era forte e sabia matar, passou a trazer para casa os restos da caçada da noite.
O veado acordava cedo, ia saindo, e lá vinha a onça com um coelho, uma paca ou um quati que ela mesma tinha caçado.
O veado foi ficando cada dia mais preocupado e acabou contando para os amigos o que tinha acontecido. Todos resolveram ajudar. Um deles disse:
- Eu vi na aldeia dos homens uma pele de onça esticada para secar no sol. Podíamos pedir emprestada...
- Isso mesmo! - concordou o veado. - Vou dizer que é um tapete novo para a casa.
E assim fizeram.
Quando vinham voltando com a pele de onça, aí, sim, foi que o deus da mata ajudou. Porque encontraram no caminho o cadáver de uma onça que tinha despencado de uma ribanceira o morrido. Resolveram levar também.
Era pesadíssima! Precisaram juntar quatro veados fortes para conseguir levar, e toda hora ela escorregava, eles tinham que aparar com a ajuda dos chifres, e ela foi ficando toda espetada. Finalmente, quando já estava anoitecendo, chegaram perto da casa.
O dono da casa foi na frente, com a pele de onça. Os quatro amigos vinham mais atrás, devagar.
Chegando no quintal, com a pele enrolada, ele viu duas onças, e a que dividia a casa com ele foi dizendo:
- Você não incomoda, não é? Chamei uma amiga para vir jantar comigo hoje...
Ele levou um susto, ficou com o coração batendo apressado. Mas aguentou firme, e respondeu como se não ligasse:
- Me incomodar? Por quê? Acho ótimo! Eu estava mesmo querendo dar uma festa hoje, para inaugurar este tapete novo que eu trouxe para nossa casa...
E desenrolou a pele.
As duas onças esperavam por tudo, menos por aquilo. A dona da casa engoliu em seco e perguntou:
- Onde foi que o senhor conseguiu isso, compadre?
E o veado reparou que, pela primeira vez na vida, ela o chamava de senhor... Sinal de respeito. Respondeu, com um ar distraído, aproveitando para chamar a onça de você:
- Cacei lá para as bandas da figueira-brava... Como você deve saber, nós, os veados, temos um jeito secreto de dar chifrada em onça, que é tiro e queda. Ela morre na hora. Por isso é que casa de veado é sempre quentinha, toda forrada de pele de onça, bem macia. Você não sabia?
As duas se entreolharam. Ele continuou:
- Mas vocês não precisam ficar com medo. Acho que com estas duas peles já dá para forrar quase todo o chão da casa...
- O senhor disse duas? Mas é uma só...
- Uma aqui na minha mão, já pronta... A outra eu larguei ali no terreiro, e os meus amigos vão me ajudar a esfolar... - disse ele, apontando para o cadáver todo marcado de chifradas, no chão do quintal, com quatro veados enormes ao lado.
As duas começaram a tremer, eu m dos veados olhou para elas e exclamou:
- Oba! Mais dois tapetes!
O dono da casa se adiantou, com um ar protetor, e disse:
- Não, nestas aqui ninguém toca. Uma é minha sócia, outra é minha hóspede...
Mas as onças foram recuando, meio sem graça, e a dona da casa disse:
- Na verdade, compadre, eu estava só esperando o senhor chegar para me despedir. Eu estou de mudança, sabe?
- É... - confirmou a outra - Ela vai morar comigo. Eu tenho uma caverna muito jeitosa, fresquinha, com bastante espaço, e ando querendo companhia...
Na mesma hora, o veado aprovou a ideia:
- Bom, se é assim, seja feliz! E não me leve a mal, mas confesso que até acho bom, porque então meus amigos podem vir morar comigo, e num instante vamos conseguir as outras peles que faltam para forrar as paredes e o resto do chão...
Fez uma pausa e perguntou:
- Aliás, você não quer me deixar o endereço novo, explicar bem explicado onde fica essa caverna?
A onça foi se afastando com a amiga. Já saindo da clareira, se virou para trás e disse:
- É muito longe, compadre, muito longe. O senhor não ia achar... Muito longe!
Devia ser. Porque elas nunca mais voltaram. Nunca mais mesmo.
Retirado do livro Histórias à Brasileira - a Moura Torta e outras, Volume 1, recontadas por Ana Maria Machado, Editora Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2007.