27 dezembro 2025

Couraça da Caridade (98)

                           "Sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e da caridade." - Paulo.                          (I TESSALONICENSES, 5:8.)


Paulo foi infinitamente sábio quando aconselhou a couraça da caridade aos trabalhadores da luz.

Em favor do êxito desejável na missão de amor a que nos propomos, em companhia do Cristo, antes de tudo é indispensável preservar o coração.

E se não agasalharmos a fonte do sentimento nas vibrações do ardente amor, servidos por uma compreensão elevada nos círculos da experiência santificante em que nos debatemos na arena terrestre, é muito difícil vencer na tarefa que o Senhor nos confia.

A irritação permanente, diante da ignorância, adia as vantagens do ensino benéfico.

A indignação excessiva, perante a fraqueza, extermina os germes frágeis da virtude.

A ira frequente, no campo da luta, pode multiplicar-nos os inimigos sem qualquer proveito para a obra a que nos devotamos.

A severidade demasiada, à frente de pessoas ainda estranhas aos benefícios da disciplina, faz-se acompanhar de efeitos contraproducentes por escassez de educação do meio em que se manifesta.

Compreendendo, assim, que o cristão se acha num verdadeiro estado de luta, em que, por vezes, somos defrontados por sugestões da irritação  intemperante, da indignação inoportuna, da ira injustificada ou da severidade destrutiva, o apóstolo dos gentios receitou-nos a couraça da caridade, por sentinela defensiva dos órgãos centrais de expressão da vida.

É indispensável armar o coração de infinito entendimento fraterno para atender ao ministério em que nos empenhamos.

A convicção e o entusiasmo da fé bastam para começar honrosamente, mas para continuar o serviço, e terminá-lo com êxito, ninguém poderá prescindir da caridade paciente, benigna e invencível.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

22 dezembro 2025

Templários de ontem e de hoje

A mais poderosa das ordens de cavalaria se tornou igualmente, depois de seu brutal desaparecimento, a mais misteriosa. Hoje, ainda, os Templários continuam fascinando entre busca do Graal, esoterismo e caça ao tesouro.


"Ó filhos de Deus, é necessário que partam sem tardar em socorro de seus irmãos que habitam nos países do Oriente. Um povo vindo da Pérsia, os turcos, invadiu seu país. Por isso os exorto e lhes suplico para que partam em auxílio dos cristãos e rechacem esse povo nefasto para longe de nossos territórios. [Sejam] doravante cavaleiros de Cristo." É com estas palavras que em 1098 o papa Urbano II lança a aventura da primeira Cruzada. No ano seguinte, Jerusalém é retomada aos muçulmanos, conquista frágil que deve ser consolidada.

Foi então que, em 1118, Hugues de Payns, cavaleiro da região de Champagne, e oito de seus companheiros se propõem dedicar sua vida na proteção dos peregrinos que se dirigem à Terra Santa. Estabelecidos por Balduíno II, rei de Jerusalém, na mesquita de Al-Aqsa, edificada sobre parte das ruínas do templo de Salomão, esses "Pobres Cavaleiros de Cristo" recebem o apoio de Bernardo de Clairvaux, antes que o concílio de Troyes aprove a regra dessa "milícia de Deus".


Pobreza dos cavaleiros e poder financeiro da Ordem


A regra dos Templários, extraída da  regra cisterciense de São Bento, é marcada sobretudo por grande austeridade: os irmãos reconhecidos por seu hábito branco com uma cruz vermelha na frente, fazem os votos de obediência, pobreza e castidade. Devem assistir à missa todos os dias, vestir-se de modo simples e comer aos pares no mesmo prato.

Votados à defesa dos peregrinos e dos caminhos que conduzem à Terra Santa, os Templários tomam parte sempre mais ativa nos combates sangrentos em que se enfrentam cristãos e muçulmanos. A fim de desempenhar esse novo papel, os monges-soldados se cercam de numerosos auxiliares: capitães de exército, capelães e servidores. Na chefia da Ordem, o Grão-Mestre é assistido por um Conselho, o Capítulo e por oficiais. Os territórios protegidos e logo administrados pelos Templários são divididos em províncias. Desenvolve-se assim toda uma rede de comendadorias que são a um tempo praças fortes e áreas de cultivo, mas também "sucursais" encarregadas de recolher dinheiro destinado a financiar as operações no Oriente.

O ideal cavaleiresco e religioso dos Templários suscita tamanho respeito que a ordem se enriquece consideravelmente. Os donativos afluem e muitos jovens, oriundos das melhores famílias, abandonam tudo para aumentar as fileiras dessa piedosa cavalaria. No início do século XIV, não menos de duas mil comendadorias se espalham pelos reinos da Europa e até na Palestina, constituindo uma vasta e segura rede capaz de angariar e fazer circular somas consideráveis, de tal modo que os Templários se tornaram poderosos banqueiros, cuja fortuna não deixa de atiçar a cobiça.


Nas chamas da fogueira


Os reveses sofridos pelos francos na Terra Santa anunciam o fim dos Templários. Desde a perda definitiva da Palestina em 1291, de fato, não têm mais razão de existir e a ordem já se dedica quase somente a defender seus interesses financeiros. Isso para grande dano do rei da França Filipe, o Belo, a qual não esquecera que em 1250 os Templários haviam recusado emprestar o dinheiro do resgate exigido para libertar seu avô, São Luís, que havia caído nas mãos dos muçulmanos. Se o soberano cobiça as riquezas da Ordem, está igualmente animado por uma piedade sincera e não fica  insensível aos rumores persistentes que circulam, denunciando os Templários como hereges.

A questão é confiada a um dos fiéis conselheiros do rei, Filipe de Nogaret, que desencadeia, em vários pontos do reino, a mais espetacular operação policial jamais vista. No dia 13 de outubro de 1307, quase uma centena de dignatários da Ordem é detida, inclusive o Grão-Mestre Jacques de Molay. Sob tortura, todos confessam uma conduta ímpia e atos sacrílegos que os condenam. O Papa Clemente V tenta interceder em favor dos Templários, porquanto vários deles renegam suas confissões. Mas Filipe, o Belo, se mostra inflexível. Trinta e seis cavaleiros morrem por causa dos maus tratos que lhes são infligidos, 54 são queimados vivos em maio de 1310. O papado, cujo apoio até então nunca havia faltado, resolve dissolver a Ordem em 1312. Por sua vez, Jacques de Molay se retrata. Considerado como relapso - isto é, convencido de ter recaído na heresia ao renegar suas confissões - também é condenado à fogueira. Seu suplício teve lugar no dia 18 de março de 1314. Com ele desaparece nas chamas da Inquisição a Ordem religiosa e militar mais poderosa que a Idade Média conhecera, perigosa rival de um rei da França decidido em se apoderar de suas riquezas. Poderosa demais, sem dúvida, para desaparecer definitivamente; começa então a segunda vida dos Templários, subterrânea e lendária.


Sodomitas, maometanos e esotéricos


O processo dos Templários tinha o único objetivo de desacreditar a Ordem e, para tanto, nada poderia ser mais eficaz do que as mais loucas acusações, confirmadas por confissões perturbadoras. Alguns deles reconheceram, de fato, sob tortura, não somente cuspir na cruz, mas também se entregar à sodomia entre eles. Alguns evocaram o culto de um misterioso ídolo, Bafomet, cuja descrição varia de uma testemunha a outra: figura demoníaca, personagem andrógino, de madeira ou de metal, dele, no entanto, jamais foi encontrado vestígios em nenhuma comendadoria. Alguns pensam que a chave da abóbada da igreja de Saint-Merry de Paris representa, sob os traços de um demônio a um tempo barbudo e de fartos seios, Bafomet, e que seu nome seria a deformação daquele do profeta Maomé. De fato, é uma acusação recorrente feita aos Templários: sua demasiada intensa proximidade com os sarracenos. É verdade que elementos  arquitetônicos muçulmanos foram importados no Ocidente por intermédio dos Templários. Entre eles, motivos decorativos simbólicos e iniciáticos orientais que influenciaram a arte gótica nascente. A partir daí fazer os cavaleiros do Templo magos alquimistas versados nos segredos do Oriente, basta um passo.

E para fazer desses monges-soldados depositários de um grande segredo, não se deixa de constatar o estranho ritual que preside a entrada na Ordem, um ritual parecido certamente com a imposição da armadura ao cavaleiro, mas que deixa entrever muitos aspectos misteriosos. De fato, o futuro cavaleiro deve solicitar três vezes sua "entrada no Templo", antes de ser aceito. Cercado de doze Templários, pronuncia seus três votos e presta juramento de joelhos, depois de ter ouvido uma fórmula enigmática que o previne de que "de nossa Ordem, só vês a casca que está por fora"... Misteriosa igualmente a constante referência à simbologia dos números: os Templários fazem três votos, têm direito a três cavalos, três comunhões por ano, comem carne três vezes por semana... Quanto à figura geométrica do triângulo equilátero, que orna com frequência suas capelas, refletiria a simbologia medieval clássica ou um código ocultando uma mensagem esotérica?


Séculos de caça ao tesouro


Muita estranheza e mistério cerca realmente a ordem dos Templários para que ainda hoje não se acredite na dissimulação de um segredo que não deve ser revelado a qualquer custo. Quando de seu processo, o comendador do Templo de Laon, Gervais de Beauvais, não evocou porventura a existência de uma regra secreta conhecida somente por reduzido número de iniciados? Dessa pretensa regra secreta nada se saberá até o final do século XVIII, quando o bispo de Copenhague julga ter encontrado uma descrição dela num manuscrito conservado no Vaticano... Manuscrito que deixará que seja furtado! Em 1877, é um erudito alemão, Mertzdorff, que exuma de uma loja maçônica em Hamburgo um documento que nada mais seria que a famosa regra secreta dos Templários. Os especialistas confirmaram em seguida que se tratava de documento falso, mas assim mesmo fez correr muita tinta e alimentou abundantemente a imaginação de muitos.

Outro pretenso segredo fez correr mais tinta ainda e contribui para adensar a cortina de mistério que cerca os Templários: é o de seu fabuloso tesouro. A Ordem, é verdade, era imensamente rica - fortuna que não é estranha à sua ruína - e, se seus bens fundiários e imobiliários foram transferidos à Ordem rival dos Hospitalários, não foi encontrado tesouro algum em nenhuma das comendadorias. Advertidos do complô que se tramava contra eles, cavaleiros teriam podido fugir para pôr esse tesouro em lugar seguro? Muitos escavam ainda... Esperavam encontrá-lo no castelo de Gisors, naquele Chinon, onde foram detidos dignitários da Ordem, na região de Auvergne, na floresta do leste na região de Champagne, na Inglaterra... Não seria o tesouro dos Templários que o padre Saunières, pároco de Rennes-le-Château, que se tornou repentinamente rico, teria descoberto em 1886?


Uma posteridade ao mesmo tempo fantástica e trágica


Misturando ideal cavaleiresco das cruzadas, fascínio do Oriente, fervor religioso da Idade Média e isca do ganho, a lenda dos Templários suscitou um grande número de autoproclamados herdeiros da Ordem. O mais célebre é, sem dúvida, Bernard Fabré-Palaprat, um médico oriundo de uma loja maçônica parisiense, que fundou uma organização templária e se proclamou o 22º Grão-Mestre de uma Ordem que teria, segundo ele, atravessado os séculos na maior discrição, sob a autoridade de personalidades tão célebres como Bertrand du Guesclin ou o Grande Condé. No dia 18 de março de 1808, Fabré-Palaprat chegou até a organizar, com grande pompa, a comemoração do suplício de Jacques de Molay, obtendo para isso o aval das autoridades. Napoleão mandou cercar a cerimônia com um destacamento da infantaria, sem dúvida para controlar os atos desses singulares Templários.

O "boato Templário" alimentou mais recentemente uma nova lenda que faz dos cavaleiros do Templo os guardiões do Graal. Em 1982, três jornalistas anglo-saxões publicam O Enigma Sagrado, no qual afirmam - entre outras elucubrações - que a dinastia dos Merovíngios descenderia dos amores de Cristo por Maria Madalena e que uma Ordem secreta, o Priorado de Sião, fundado em 1099 durante a primeira cruzada, seria o guardião do santo Graal. O próprio Priorado de Sião reaparece em 2003 no livro Código da Vinci, de Dan Brown. O Priorado estaria na origem dos Templários, encarregados de preservar um estrondoso segredo que ameaçaria a cristandade (sempre os amores  comprometedores de Jesus pela bela Maria Madalena!). Estranha sociedade secreta, de fato, esse Priorado de Sião, nascido da imaginação de certo Pierre Plantard, iluminado e mitômano, e cujos estatutos de associação pela lei de 1901 foram registrados no dia 7 de maio de 1956 (e não em 1099!) numa subprefeitura da Alta Saboia...

Em torno da lenda - ou das lendas - dos Templários constituiu-se também considerável número de seitas; a mais tristemente célebre delas é a OTS, ou Ordem do Templo Solar, fundada em 1984 por Joseph Di Mambro e um médico belga, Luc Jouret. Supondo estar inscrita na continuidade da cavalaria espiritual do Templo, composto por fanáticos, entrou na história em 1994 com o suicídio coletivo de 48 de seus membros que acreditavam, uma vez purificados pelo fogo, tornar-se autênticos "mestres secretos do Templo"...

Desse modo, uma Ordem perfeitamente pública fundada por cavaleiros íntegros, não deixou de suscitar, no decorrer dos séculos, sociedades secretas e às vezes perigosas, apresentando-se como guardiões dela, e hoje ainda continua a alimentar muitos mitos.


A MALDIÇÃO DOS TEMPLÁRIOS

"Papa Clemente, juiz iníquo e cruel carrasco, cavaleiro Guillaume de Nogaret, rei Filipe, antes de decorra um ano eu os convoco a comparecer perante o tribunal de Deus. Sejam malditos, vocês e sua descendência!" Essas imprecações, pronunciadas contra aqueles que haviam decretado sua perdição, Jacques de Molay as proferiu enquanto caminhava para o suplício. Palavras ameaçadoras e premonitórias: 42 dias depois, Clemente V morria; depois se seguiria a vez de Guillaume de Nogaret, sem dúvida envenenado. Filipe, o Belo, ferido num acidente de caça alguns meses mais tarde, juntou-se aos outros dois na morte no dia 29 de dezembro de 1314. Se seus três filhos reinaram, nenhum deles teve descendência, de modo que o ramo direto dos Capetíngios se extinguiu. Acaso da história ou cumprimento da maldição dos Templários, o ramo dos Valois desaparecerá também com três irmãos que reinarão  sucessivamente sem posteridade, exatamente como os Bourbons diretos, porquanto nenhum dos filhos de Luís XVI, de Luís XVIII e de Carlos X chegou a reinar.


UMA REGRA SECRETA E HERÉTICA

Extrato da falsa regra secreta revelada por Mertzdorff no século XIX:

"Art. 5.6.7. Como é necessário assegurar-se acerca das pessoas aptas a receber a iniciação. Mostrar-lhes a insuficiência da regra comum, atraí-los para fora da [...] Igreja, cujo ensinamento é vazio. A Igreja não passa da sinagoga do Anticristo. Os eleitos, porém, se elevam nas alturas da Verdade.

Art. 11. Ritual de recepção dos eleitos; juramento de guardar o segredo da Ordem; a menor indiscrição será punida com a morte. O preceptor beijará o neófito sucessivamente na boca, para lhe transmitir o sopro, no peito sagrado, que comanda a força criadora, no umbigo e, finalmente, no membro viril, imagem do princípio criador masculino.

Art. 12. Ato de fé em Deus criador e em seu filho que não nasceu, não morreu, não foi crucificado e não ressuscitou. [...]

Art.13. O neófito calcará a cruz aos pés e cuspirá nela, em seguida receberá a túnica branca com o cinto.

Art. 16. Os estatutos secretos [...] jamais serão colocados nas mãos de nenhum irmão."


Th. Mertzdorff, Die Geheimstatuten des Ordens der 

Tempelherren, Halle, 1877,

citado por P.A. Riffard, L'Esotérisme,

Paris, Robert Laffont, 1990.


NAS ORIGENS DA FRANCO-MAÇONARIA?

Quando no decorrer do século XVIII, a franco-maçonaria se difunde na Europa, uma lenda circula, contando que Jacques de Molay, vendo-se perdido, designou seu sobrinho, o conde Beaujeu, para sucedê-lo. Com alguns companheiros, que haviam furado o cerco dos soldados do rei, este se teria refugiado na Escócia, a fim de perpetuar as tradições templárias. A dinastia dos Stuart teria em seguida herdado esse encargo. Ora, foi provavelmente Jaime II Stuart que, na época de seu exílio na França a partir de 1688, teria introduzido a franco-maçonaria no continente. Para alguns, o elo se fecha: os franco-maçons são os Templários dos novos tempos. Essa tese, hoje refutada, foi particularmente defendida por um barão alemão, Karl von Hund, que funda em 1751 a Estrita Observância Templária, cujos rituais e graus se inspiram na Ordem de Templo. Esse rito será em seguida assumido pelo Rito Escocês Retificado e pelo Rito Antigo e Aceito, ambos ainda praticados e cujo 18º grau, o de cavaleiro Kadosh, "relembra a Ordem dos Templários e nela se inspira".


Texto retirado da Revista Sociedades Secretas - Volume II, de Jean-François Signier e Renaud Thomazo, Editora Larousse, São Paulo, 2008.

21 dezembro 2025

Trecho 55

Por mais que pertença, por alma, à linhagem dos românticos, não encontro repouso senão na leitura dos clássicos. A sua mesma estreiteza, através da qual a clareza se exprime, me conforta não sei de quê. Colho neles uma impressão alacre de vida larga, que contempla amplos espaços sem os percorrer. Os mesmos deuses pagãos repousam do mistério.

A análise sobrecuriosa das sensações - por vezes das sensações que supomos ter -, a identificação do coração com a paisagem, a revelação anatômica dos nervos todos, o uso do desejo como vontade e da aspiração como pensamento - todas estas coisas me são demasiado familiares para quem em outrem me tragam novidade, ou me deem sossego. Sempre que as sinto, desejaria exatamente porque as sinto, estar sentindo outra coisa. E, quando leio um clássico, essa outra coisa é-me dada.

Confesso-o sem rebuço nem vergonha... Não há trecho de Chateaubriand ou canto de Lamartine - trechos que tantas vezes parecem ser a  voz do que eu penso, cantos que tanta vez parecem ser-me ditos para conhecer - que me enleve e me erga como um trecho de prosa de Vieira ou uma ou outra ode daquele nossos poucos clássicos que seguiram deveras a Horácio.

Leio e estou liberto. Adquiro objetividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a  grande clareza do mundo externo, toda ela notável, o sol que vê todos, a lua que malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que acabam em mar, a solidez negra das árvores que acenam verdes em cima, a paz sólida dos tanques das quintas, os caminhos tapados pelas vinhas, nos declives breves das encostas.

Leio como quem abdica. E, como a coroa e o manto régios nunca são tão grandes como quando o Rei que parte os deixa no chão, deponho sobre os mosaicos das antecâmaras todos os meus triunfais do tédio e do sonho, e subo a escadaria com a única nobreza de ver.

Leio como quem passa. E é nos clássicos, nos calmos, no que, se sofrem, o não dizem, que me sinto sagrado transeunte, ungido peregrino contemplador sem razão do mundo sem propósitos, Príncipe do Grande Exílio, que deu, partindo-se, ao último mendigo, a esmola extrema da sua desolação.


Trecho 55 do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, Companhia das Letras/Editora Schwarcz, São Paulo, 2001, 4ª Edição.

20 dezembro 2025

A Palavra da Cruz (97)

 "Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós que somos salvos é o poder de Deus." - Paulo. (I CORÍNTIOS, 1:18.)


A mensagem da cruz é dolorosa em todos os tempos.

Do Calvário desceu para o mundo uma voz, a princípio desagradável e incompreensível.

No martirológio do Mestre situavam-se todos os argumentos de negação superficialmente absoluta.

O abandono completo dos mais amados.

A sede angustiosa.

Capitulação irremediável.

Perdão espontâneo que expressava humilhação plena.

Sarcasmo e ridículo entre ladrões.

Derrota sem defensiva.

Morte infamante.

Mas o Cristo usa o fracasso aparente para ensinar o caminho da Ressurreição Eterna, demonstrando que o "eu" nunca se dirigirá para Deus, sem o aprimoramento e sem a sublimação de si próprio.

Ainda hoje, a linguagem da cruz é loucura para os que permanecem interminavelmente no círculo de reencarnações de baixo teor espiritual; semelhantes criaturas não pretendem senão mancomunar-se com a morte, exterminando as mais belas florações do sentimento. Dominam a muitos, incapazes do próprio domínio, ajuntam tesouros que a imprudência desfaz e tecem fios escuros de paixões obcecantes em que sucumbem, vezes sem conto, à maneira da aranha encarcerada nas próprias teias.

Repitamos a mensagem da cruz ao irmão que se afoga na carne e ele nos classificará à conta de loucos, mas todos nós, que temos sido salvos de maiores quedas pelos avisos da fé renovadora, estamos informados de que, nos supremos testemunhos segue o discípulo para o Mestre, quanto o Mestre subiu para o Pai, na glória oculta da crucificação.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Trecho 45 do Livro do Desassossego

Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira de tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino...


Trecho do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, Editora Companhia das Letras/Editora Schwarcz, São Paulo, 4ª Edição,2001.

14 dezembro 2025

Além dos Outros (96)

 "Não fazem os publicanos também o mesmo?" - Jesus. (MATEUS, 5:46.)


Trabalhar no horário comum irrepreensivelmente, cuidar dos deveres domésticos, satisfazer exigências legais e exercitar a correção de proceder, fazendo o bastante na esfera das obrigações inadiáveis, são tarefas peculiares a crentes e descrentes na senda diária.

Jesus, contudo, espera algo mais do discípulo.

Correspondes aos impositivos do trabalho diuturno, criando coragem, alegria e estímulo, em derredor de ti?

Sabes improvisar o bem, onde outras pessoas se mostraram infrutíferas?

Aproveitas, com êxito, o material que outrem desprezou por imprestável?

Aguardas, com paciência, onde outros desesperaram?

Na posição de crente, conservas o espírito de serviço, onde o descrente congelou o espírito de ação?

Partilhas a alegria de teus amigos, sem inveja e sem ciúme, e participas do sofrimento de teus adversários, sem falsa superioridade e sem alarde?

Que dás de ti mesmo no ministério da caridade?

Garantir o continuísmo da espécie, revelar utilidade geral e adaptar-se aos movimentos da vida são característicos dos próprios irracionais.

O homem vulgar, de muitos milênios para cá, vem comendo e bebendo, dormindo e agindo sem diferenças fundamentais, na ordem coletiva. De vinte séculos a esta parte, todavia, abençoada luz resplandece na Terra com os ensinamentos do Cristo, convidando-nos a escalar os cimos da espiritualidade superior. Nem todos a percebem, ainda, não obstante envolver a todos. Mas, para quantos se felicitam em suas bênçãos extraordinárias, surge o desafio do Mestre, indagando sobre o que de extraordinário estamos fazendo.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

08 dezembro 2025

Victor, o "selvagem de Aveyron"

O "menino selvagem" Victor de Aveyron é um dos casos mais conhecidos de seres humanos  criados livres em ambientes selvagens. Provavelmente abandonado numa floresta aos 4 ou 5 anos, foi objeto de curiosidade e provocou discussões acaloradas principalmente na França, onde o caso ocorreu.

Sua história oficial começa em 1797, quando um menino inteiramente nu, que fugia do contato com as pessoas, foi visto pela primeira vez na floresta de Lacaune. Em 9 de janeiro de 1800 foi registrado seu aparecimento num moinho em Saint-Sernein, distrito de Aveyron. Tinha a cabeça, os braços e os pés nus; farrapos de uma velha camisa cobriam o resto do corpo. Era um menino de cerca de 12 anos de idade, media 1,36m, tinha a pele branca e fina, rosto redondo, olhos negros e fundos, cabelos castanhos e nariz comprido e aquilino. Sua fisionomia foi descrita como graciosa; sorria involuntariamente e seu corpo apresentava a particularidade de estar coberto de cicatrizes.

Victor não pronunciava nenhuma palavra e parecia não entender nada do que falavam com ele. Apesar do rigoroso inverno europeu, rejeitava roupas e também o uso de cama, dormindo no chão sem colchão. Quando procurava fugir, locomovia-se apoiado nas mãos e nos pés, correndo como os animais quadrúpedes.


Estudo sociológico do caso

Alguns médicos, como os franceses Esquirol (1772-1840) e Pinel (1745-1826), diagnosticaram o menino selvagem como idiota (nomenclatura que hoje corresponde à deficiência mental grave). Talvez por essa razão tenha sido abandonado pelos pais.

O médico psiquiatra Jean-Marie Gaspard Itard, diretor de um instituto de surdos-mudos, não compartilhava da opinião dos colegas. Propôs uma questão: quais as consequências da privação do convívio social e da ausência absoluta da educação social humana para a inteligência de um adolescente que viveu assim, separado de indivíduos de sua espécie? Ele acreditava que a situação concreta de abandono e afastamento da civilização explicava o comportamento diferente do menino Victor, contrapondo-se ao diagnóstico de deficiência mental para o caso.

Em seu livro A educação de um homem selvagem, publicado em 1801, Itard apresenta seu trabalho com o menino selvagem de Aveyron, descrevendo as etapas de sua educação: ele já é capaz de sentar-se convenientemente à mesa, tirar a água necessária para beber, levar ao seu benfeitor as coisas de que necessita; diverte-se ao empurrar um pequeno carrinho e começa também a ler. Cinco anos mais tarde já fabricava pequenos objetos e podava as plantas da casa. A partir desses resultados Itard reforçou sua tese de que os hábitos selvagens e a aparente deficiência mental iniciais eram apenas e tão-somente resultados de uma vida afastada de seus semelhantes e da civilização.

Acompanhando de perto e trabalhando vários anos com Victor para educá-lo, Itard formula a hipótese de que a maior parte das deficiências intelectuais e sociais não é inata, mas tem sua origem na ausência da socialização, na falta de comunicação com os semelhantes, principalmente pela palavra. Aproximando-se da visão sociológica dos fatos sociais, o pesquisador concluiu que o isolamento social prejudica a sociabilidade do indivíduo. E a sociabilidade é a base da vida em sociedade. Os estudos de Itard reforçam um dos fundamentos da Sociologia: os fatos sociais, embora exteriores, são introjetados pelo indivíduo e exercem sobre ele um poder coercitivo, já que determinam seu comportamento.


Texto retirado do livro Introdução à Sociologia, de Pérsio Santos de Oliveira, Editora Ática, 20ª Edição, São Paulo, 2001.

06 dezembro 2025

Vê e Segue (95)

 "Uma coisa sei: eu era cego e agora vejo." - (JOÃO, 9:25.)


Apesar de o trabalho renovador do Evangelho, nos círculos da consolação e da pregação, desdobrar-se, diante das massas, semeando milagres de reconforto na alma do povo, o serviço sutil e quase desconhecido do aproveitamento da Boa Nova é sempre individual e intransferível.

Os aprendizes da vida cristã, na atividade vulgar do caminho, desfrutam do conceito de normalidade, mas se não gozam de vantagens observáveis no imediatismo da experiência humana, quais sejam as da consolação, do estímulo ou da prosperidade material, de maneira a gravarem o ensinamento vivo de Jesus, nas próprias vidas, passam à categoria de pessoas estranhas, muita vez ante os próprios companheiros de mistério.

Chegando a semelhante posição, e se sabe aproveitar a sublime oportunidade pela submissão e diligência, o discípulo experimenta completa transposição de plano.

Modifica a tabela de valores que o rodeiam.

Sabe onde se ocultam os fundamentos eternos.

Descortina esferas novas de luta, através da visão interior que outros não compreendem.

Descobre diferentes motivos de elevação, por intermédio do sacrifício pessoal, e identifica fontes mais altas de incentivo ao esforço próprio.

Em vista disso, frequentemente provoca discussões acesas, com respeito à atitude que adota à frente de Jesus.

Por ver, com mais clareza, as instruções reveladas pelo Mestre, é tido à conta de fanático ou retrógrado, idiota ou louco.

Se, porém, procuras efetivamente a redenção com o Senhor, prossegue seguro de ti mesmo; repara, sem aflição e sem desânimo, as contendas que a ação genuína de Jesus em ti recebe de corações incompreensivos e estacionários, repete as palavras do cego que alcançou a visão e segue para diante.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

04 dezembro 2025

Introdução do livro Jacques DeMolay

O estímulo para que o presente livro pudesse vir à luz, foi colhido com muito carinho, do entusiasmo que Alberto Mansur foi tomado para introduzir no Brasil, o trabalho fenomenal junto à nossa mocidade dos "Capítulos De Molay".

É difícil saber de onde Mansur retira tanta força para o trabalho, pois, além de sua atividade profissional profana, está à testa do Supremo Conselho do Grau 33 da Maçonaria, para a República Federativa do Brasil.

Como Soberano Grande Comendador, é convidado a participar ativamente, em todas as reuniões interamericanas e internacionais, o que equivale a uma ausência constante do Rio de Janeiro.

Esse trabalho, de per si, já seria, mais do que suficiente para absorver todo pouco tempo de folga, que restaria a esse homem tão dinâmico.

Mas não. Entusiasmado com o que lhe foi dado assistir nos Estados Unidos da América do Norte, trouxe para nosso País, o extraordinário "Capítulo De Molay", formando em cada Estado da União, grupos de 25 jovens, para dar-lhes uma orientação sadia com o fito de prepará-los ao ingresso da maioridade.

Nós todos, sabemos como é difícil para um adolescente tornar-se adulto! Não porque tenhamos sido, obviamente, todos nós, também, adolescentes, mas porque a cada ano que passa, esses jovens tão assediados pelos fatores negativos, como o mau exemplo dos mais velhos, a droga e a violência.

Esse trabalho, que só é combatido por aqueles que "não gostam da juventude" e os há, por inacreditável que possa ser, tem grande afinidade com a Maçonaria.

Há mais de 60 anos, em 1919, a "ORDEM DE MOLAY" foi fundada em Kansas City - USA, pelo maçom Frank S. Land e nove meninos, como uma nova e promissora ideia objetivando preparar melhores cidadãos.

Em um folheto que recebemos, vem formuladas as seguintes questões que reproduzimos:

"DE MOLAY em síntese. Você sabia?...

Que mais de 3 milhões de jovens já se ajoelharam perante os altares da Ordem De Molay em todo mundo, e que, atualmente, existem mais que 111.000 De Molay em 12 países...

Que o ingresso de rapazes entre a idade de 13 e 21 anos não é restrito somente a filhos ou parentes de maçons...

Que De Molay é uma organização que inspira os jovens a se tornarem melhores filhos, melhores homens e melhores líderes...

Que a iniciação ritualística é uma cerimônia solene que reafirma nos jovens os ideais de boa cidadania e de amor filial...

Que diversos Senior De Molay (membro que completa mais de 21 anos de idade) entre eles John Wayne, Walt Disney, Henri C. Clausen, se tornaram líderes em suas diversas atividades na vida...

Que uma média de 50% de todos os De Molay ao completarem 21 anos de idade ingressam na Maçonaria...

Que mais de 150 De Molays chegaram a ser Grão-Mestres em diversas Grandes Lojas Norte-Americanas e grande número deles atingiram o Grau 33, Inspetor Geral da Ordem Maçônica...

Que a Ordem De Molay é a maior organização fraternal de jovens em todo o mundo!"

Alguém, poderia se confundir e questionar: mas... a Ordem do Templo prossegue?

Não se confunda "Ordem do Templo" com "Ordem De Molay", esse trabalho junto aos jovens nada tem a ver com os Templários!

No entanto, o trabalho é de inspiração maçônica e a Maçonaria, evidentemente, pode ser remanescente templárica!

Como apêndice, neste livro, inserimos algumas bases da "Ordem De Molay", como "Capítulos De Molay e lá o leitor buscará respostas a suas dúvidas.

Nos foi dado, já, por várias vezes, assistir às cerimônias, tanto no Rio de Janeiro, como em Goiânia, de um Capítulo De Molay, e os jovens repetem, como profunda simbologia o sacrifício de Jacques De Molay.

Nessas oportunidades, inquirimos a esse jovens e a seus dirigentes sobre o Templarismo, sobre a Ordem do Templo e notamos que o conhecimento histórico é muito escasso.

Isso decorre da falta, entre nós brasileiros, de literatura sobre o assunto.

 Existem centenas de obras sobre a Ordem do Templo em todo o mundo, especialmente, na França e na Alemanha.

Não temos nenhuma traduzida; raras notícias em alguns livros não específicos.

O saudoso escritor maçônico Adelino de Figueiredo Lima, já há algum tempo, escreveu bela obra intitulada: "Os Templários", que merece ser lida, pois, revela um trabalho de fôlego.

Ousamos afirmar que nosso modesto livro, quase se torna uma complementação aos "Templários" de Adelino Figueiredo Lima, visto sob outro prisma.

O leitor, tendo ambas as obras, poderá aquilatar do esforço para sintetizar fatos que demandaram duzentos anos entre a fundação da Ordem do Templo até a sua destruição.

O nosso propósito é apresentar a tese de que os Templários aperfeiçoaram a Maçonaria operativa.

Paralelamente, o nosso desejo é de que os jovens da "Ordem De Molay", do Brasil, possam conhecer, um pouco mais, a respeito de seu ilustre patrono, Jacques De Molay.

Inicialmente, quando Alberto Mansur trouxe a "Ordem De Molay" para o Brasil, levantaram-se algumas vozes "nacionalistas" dizendo da inconveniência de buscarmos fora da Pátria, um trabalho social de eugenia, de educação para a Arte Real.

Receptivo a essa "reação", Mansur tudo fez para "nacionalizar" o movimento, no que foi exitoso.

Os dirigentes norte-americanos, não têm interesse algum, na hegemonia do movimento. Nacionalizaram os Capítulos De Molay; a Bandeira que tremula nas sessões, é exclusivamente a do Brasil; a história a ser estudada é a Pátria, o laboratório é a Nação onde esses jovens vivem.

Assim, Alberto Mansur foi agraciado com o título de Grande Mestre do Supremo Conselho da Ordem De Molay para o Brasil.

Então, ninguém poderá pôr qualquer objeção a essa bênção para os jovens brasileiros, para a Sociedade e para a Maçonaria.

Nosso trabalho objetiva, exclusivamente, apresentar um panorama geral a respeito daquele movimento iniciado no século XIV, passagem da Idade Média para o Renascimento.

Não queiram os leitores exigir, demasiadamente, de nosso esforço; alguém precisa se apresentar para a "missão" de ilustrar os menos cultos, dando-lhes a oportunidade de encontrar em nossas editoras e livrarias, o material suficiente para a compreensão do que era a Maçonaria há séculos passados, quando, ainda, se dedicava exclusivamente ao trabalho operativo.

Posteriormente, diante do surgimento da Universidade, o trabalho operativo das Instituições, tanto religiosas como filosóficas e dos principais movimentos antes e depois da Idade Média, já não tinha razão de ser, porque, como acontecia na época do Rei Salomão, que a arte de construir era mantida em grande segredo, transmitido de pai para filho, com a responsabilidade de não divulgá-lo, a Universidade "popularizou" esses segredos tendo qualquer um do povo, a oportunidade de se dedicar à Construção Civil.

Passou a Maçonaria a ser especulativa, a construir o Templo interno de cada Iniciado.

A Maçonaria não tem interesse, atualmente, em participar de obras sociais, a não ser, obviamente, através do esforço pessoal e individual, como obrigação, do maçom-cidadão.

A Ordem do Templo, em sua época absorveu todas as grandes lições dos diversos povos; do Oriente ao Ocidente conhecidos, nada escapara aos Grão-Mestres da Ordem.

Os sigilos ocultados ao vulgo profano, eram necessários, para a preservação; no entanto, como veremos, de nada lhes valeu o sacrifício, porque esses sigilos, não preservaram a continuidade da obra idealística.

Frequentemente, maçons menos avisados e de certa forma menos cultos, nos criticam porque em nossos livros "revelamos os segredos" da Maçonaria que "deveriam permanecer ocultos!"

Nada disto! Não há segredo dentro da Filosofia Maçônica, e muito menos, razão de tê-los preservados!

O que pode haver, são certas senhas, sinais, palavras que devem ser sigilosas mas apenas, sob o ponto de vista de uma "tradição" porque em todas as Bibliotecas do Mundo, esses "sigilos e segredos" são desvendados; e são dessas obras, que todos vão se abastecer para a complementação dos seus conhecimentos!

Mas... Se não existisse a crítica, mesmo a maldosa, resultado de inveja torpe, os escritores não revidariam com tanto ímpeto e essa força e isto proporciona grande vantagem para o leitor!

As vozes que clamam no deserto, permanecem no deserto da estreiteza do conhecimento maçônico.

A cada livro nosso que a Providência permite que venha a público, os mesmos críticos se reanimam e prosseguem na sua árida missão; por outro lado, fazem prosélitos, mas... Os cães ladram e a caravana passa!

Convidamos um ilustre maçom, membro emérito do Supremo Conselho, para prefaciar este livro; acedeu com boa vontade e a sua bondade dá relevo ao nosso trabalho.

Erwin Seignemartin, conquistou dentro da Maçonaria Simbólica e Filosófica, todas as posições. Seus escritos continuam a abrilhantar os nossos jornais; seu discurso é atraente, ameno, contando em preâmbulo, chistes interessantes, para após, entregar a sua profunda mensagem, fruto de sua experiência e de seu amor fraterno.

Agradecemos a sua gentileza e a sua colaboração.

Walmor Bittencourt Corrêa é um jovem artista; seus desenhos já são apresentados em exposições coletivas e individuais; catarinense, estudante de arquitetura, é nosso amigo. Seu traço é vigoroso e reflete, com perfeição, a sutileza e o bom gosto; quando lhe pedimos, quase, como uma constante, mais uma capa, ele sorri; gosta de fazê-la e tem embelezado nossa modesta obra. O nosso agradecimento.

Francisco Molinaro, esse jovem avelhantado; são oitenta anos de idade que não se notam; aos domingos nada no mar de Copacabana alguns quilômetros, mantendo um físico invejável; espiritualista, dinâmico, sabe dirigir a Gráfica Aurora, apoiado no ombro amigo de seu filho Natal. Porém, é insaciável; quer mais um original, sempre mais um, e quando o enviamos, se entusiasma e não mede sacrifícios para aprontar a edição, deixando de lado, outros trabalhos, quiçá mais importantes. A beleza de sua personalidade está em não ser ele maçom.

Mas não o será mesmo? Pelo menos o seu comportamento supera em muito o da grande maioria de maçons, especialmente, daqueles que nós gostamos, e nos perdoem os leitores de denominar de "profanos de avental", sim, aqueles que ingressam na ordem mas nada perdem da bagagem que trazem do mundo profano; não se iniciam, são apenas, "iniciados pelos demais".

Lançamos o 16º livro. Até quando poderemos escrever? Nos perguntamos constantemente, este será o último?

O Grande Arquiteto do Universo, que é Deus, nos tem dado a inspiração, a persistência e o ânimo. Se Ele quiser, prosseguiremos.

Sim, o trabalho é compensador e nós, nos rendemos à máxima dos Templários: "Deus o quer"!

Os leitores hão de ficar surpresos com as revelações sobre o relacionamento entre Filipe o Belo, ou o Formoso como querem alguns, e o Papa Bonifácio; relacionamento de sodomia como tão claramente informa Dante Alighieri em sua Divina Comédia.

Esse aspecto seja por pudor, seja para preservar a imagem de um Papa, é pouco conhecido; sabemos não ser uma contribuição relevante, a "descoberta" que a pesquisa traz, mas é um fato histórico que nos conduz a compreender do porque Filipe imputava aos Templários, em suas cerimônias, a infâmia da prática sodômica.

Na parte em que descremos os grafitos, constataremos que o triponto tão usado pela Maçonaria, é originário dos Templários, bem como a influência da Ordem do Templo, nas grandes construções da Idade Média que alguns historiadores maçônicos restringem a autoria, exclusivamente, aos "Pedreiros Livres", aos "free masons".

No Brasil, o culto à Cruz de Caravaca é muito difundido, mas nada encontramos sobre a sua verdadeira origem

A colaboração templárica vem esclarecer uma parte que, ainda entre nós era pouco conhecida; muitos maçons são seguidores dessa Cruz e a Maçonaria Filosófica a usa, com o nome de Cruz Patriarcal.

A análise comparativa entre os Templários e os Maçons, vem enriquecer os nossos conhecimentos.

Cremos que estamos entregando uma obra, modesta, mas instrutiva e fazemos votos para que haja aproveitamento.

Por fim, lembramos aos que têm influência junto a Igreja de que já chegou o momento de reabilitar Jacques De Molay.

Em nossa campanha como candidato ao Grão-Mestrado, propugnamos isto e fomos duramente atacados, porque a falta de conhecimento sobre o personagem é gritante.

Nossa esperança, agora, está na "Ordem De Molay"; esses bravos jovens, por certo, terão maior interesse em contactar com o seu Patrono e dar-lhe na história o lugar merecido.

O nosso profundo agradecimento ao irmão e amigo Wilton Cunha, Grande Secretário Geral da Ordem DEMOLAY, pela contribuição inserida como honroso apêndice que vem dar um "sentido" final ao presente e modesto trabalho.


Introdução do livro Jacques De Molay, de Rizzardo da Camino, Editora Aurora, série Literatura Maçônica, Rio de Janeiro, 1985.

02 dezembro 2025

Prefácio do livro Jacques DeMolay

Em nosso País, a literatura maçônica é reconhecida e deploravelmente restrita. Os poucos estudiosos e autores de obras maçônicas existentes entre nós, por certo, não escrevem visando a pingues lucros. O mais provável é que se lançam a essa ingrata empreitada por obstinação, por apego à Maçonaria, ou mesmo, por desejo de compartilhar seus conhecimentos e sua vivência maçônica com seus irmãos.

É improvável que esses poucos escritores percam horas e horas em pesquisas e leituras, com vistas a uma incerta lucratividade, pois quando conseguem, depois de penosa expectativa recobrar o dinheiro dispendido com a impressão do livro, dão-se por satisfeitos. Talvez resida aí a razão de existirem tão poucos abnegados escritores no meio maçônico brasileiro.

Por isso, quando surge uma nova obra de autoria de escritor brasileiro, é ela aclamada com entusiasmo e até com certo orgulho patriótico.

Rizzardo da Camino é um desses brasileiros. Com uma já apreciável bagagem literária que já se aproxima de dezessete volumes, brinda-nos, agora, com uma nova obra de leitura agradável por não ser escrita em estilo sentencioso, sendo de fácil assimilação até por quem seja estranho ao assunto.

Este novo livro de Rizzardo da Camino, traça o perfil de Jacques De Molay e sua época, demorando-se no estudo dos Templários, Ordem da qual De Molay foi o último Grão-Mestre.

A intrigante saga dos Cavaleiros Templários é exaustiva e seguramente desenvolvida neste livro. Ao lermos a obra, remontamos à fascinantes Era Medieval e às suas lendárias figuras que se apresentam como se vivas fossem na pena competente de Rizzardo.

Há uma escola que atribui a origem da Maçonaria à Ordem dos Cavaleiros Templários, enquanto que outra prefere ligá-la à construção do Templo de Salomão. A primeira seria então a Maçonaria místico-cavaleirística e a segunda, bíblico-simbólica. Rizzardo da Camino disseca a conotação Templário-Maçônica nesta sua obra.

A Ordem dos Cavaleiros Templários, fundada em Jerusalém em 1118 é irresistivelmente fascinante. Criada pela Igreja Cristã para combater os ímpios, acabou sendo dissolvida pela própria Igreja, através do Rei Filipe, o Belo, que condenou Jacques De Molay à fogueira, no dia 18 de março de 1314.

Jacques De Molay tornou-se figura presente na Maçonaria, particularmente, nos graus filosóficos. É, também, o patrono do que se poderia denominar de "escotismo" maçônico. Empresta o seu nome a uma organização para-maçônica que congrega cerca de três milhões de jovens em todo o mundo.

Por que foi o nome de Jacques De Molay escolhido como patrono da juventude maçônica? Seu idealizador, o maçom Frank S. Land apresentou o nome de diversas personalidades com suas biografias a um punhado de jovens do Estado de Missouri que almejavam fundar uma sociedade para-maçônica.

Esses jovens, fascinados pela história, integridade e martírio de De Molay em defesa de suas convicções, não hesitaram em escolher seu nome para seu patrono. E hoje, a organização De Molay espalha-se pelo mundo chegando ao Brasil onde se formam os primeiros Capítulos da Ordem que têm por objetivo conduzir os jovens pelo caminho da retidão e princípios da boa moral.

Esta obra de Rizzardo de Camino é, pois, não só oportuna como altamente instrutiva já que analisa minuciosamente a Ordem dos Templários e, por extensão, a figura ímpar de Jacques De Molay que, não obstante, passados 670 anos, ainda constitui uma inspiração para os maçons.

Rizzardo, já com tantos livros publicados, revela-se nesta obra como um contista, tal é o accessível estilo empregado. Gaúcho, advogado, estudioso e praticante de Yoga e da filosofia transcendental, espiritualista, escotista e jornalista. Rizzardo iniciou-se na Maçonaria em 1946 e, daí em diante, a ela se dedicou inteiramente, voltando-se para as letras maçônicas e revelando-se um dos poucos escritores de obras sobre a Maçonaria dono de um estilo que, apesar de didático, torna-se de leitura agradável e ao alcance de todos.

Já conhecia Rizzardo da Camino pelos seus escritos. Vim a conhecê-lo pessoalmente em Araxá onde havíamos ambos sido convidados para pronunciar palestras no 1º Seminário Maçônico de Araxá, patrocinado pela Loja "Ação e Silêncio".

Desde logo, identifiquei-me com os conceitos, ideias e exame panorâmico da Maçonaria expendidos por Rizzardo e, em Araxá, se solidificou uma amizade que a distância e as vicissitudes não abalaram.

Foi lá mesmo em Araxá que recebi o convite para prefaciar esta última - mas não derradeira, espera-se - obra de Da Camino, muito embora lhe tenha feito sentir que, no panorama maçônico nacional, havia um infindável número de maçons mais credenciados e capacitados para fazê-lo. Sua insistência muito me desvaneceu e agora, sinto-me feliz pela oportunidade de prefaciar uma obra sobre uma figura pela qual tenho particular fascínio: JACQUES DE MOLAY.


Texto de Erwin Seignemartin para o prefácio do livro Jacques De Molay, de Rizzardo da Camino, Editora Aurora, série Literatura Maçônica, Rio de Janeiro, 1985.