Pense na palavra folclore. O quem vem à sua cabeça? Saci-pererê, mula-sem-cabeça, bumba-meu-boi... Parece algo ligado à vida nas fazendas e cidades do interior, distante do dia-a-dia das grandes cidades, não é? Ou então, faz lembrar aquele livro empoeirado que fica lá no alto da estante e que ninguém lê e só se recorda dele uma vez no ano. Mas será que é isso mesmo?
A palavra vem do inglês: folk quer dizer povo e lore, saber. Logo, folclore é o saber do povo, tudo aquilo que o povo sabe, inventa, aprende, ensina. A maneira de viver, o jeito de entender o mundo, o modo de se expressar por meio das palavras e da arte - tudo isso é folclore, ou melhor, cultura popular. Portanto, está muito mais perto de nossas vidas do que podemos imaginar.
Como o Brasil é muito grande, em cada região do país o povo brasileiro se expressa de uma maneira diferente, apresentando brincadeiras, danças, cantigas e vocabulário próprios ou típicos, como se costuma dizer.
Por falar em típicos, os pratos típicos, isto é, a culinária também é parte do folclore! Quando dizemos vatapá, logo nos lembramos da Bahia; a feijoada de feijão-preto nos faz pensar no Rio de Janeiro; o churrasco, no Rio Grande do Sul; o pão de queijo, em Minas Gerais.
Muitas vezes, um mesmo prato ou fruta vai mudando de nome à medida que vamos percorrendo as regiões do Brasil: a tangerina do Rio de Janeiro se chama mexerica em São Paulo, e, em Pernambuco, laranja-cravo; a fruta-de-conde do Rio de Janeiro é pinha em Pernambuco e ata no Maranhão. O prato feito de arroz com carne-seca é conhecido como Maria Isabel no Piauí e arroz-de-carreteiro no Rio Grande do Sul. A canjica carioca corresponde ao mungunzá pernambucano. Parece confuso? E ainda nem falamos dos mitos e das lendas, das cantigas de roda e brincadeiras infantis...
Brincadeira do Centro-Oeste
Essa é uma brincadeira com bola muito comum entre as meninas de Goiás: uma de cada vez joga a bola contra a parede. Enquanto a bola vai e volta para suas mãos, a menina vai dizendo vários comandos que ela tem de fazer sem deixar a bola cair no chão! Depois, é a vez de outra menina jogar. Quem conseguir não deixar a bola cair, ganha o jogo! É assim:
Ordem
Primeiro
Sem sair do lugar
Sem rir
Sem falar
Com uma mão (pega a bola com uma das mãos)
Com a outra (pega a bola com a outra mão)
Com um pé (fica num pé só)
Com o outro (fica no outro pé)
Com uma palma (bate palma antes de pegar a bola)
Com duas palmas (bate duas palmas)
Com uma pirueta (gira uma das mãos em torno da outra)
Com uma vira-volta (gira em torno de si mesma antes de pegar a bola de volta)
Esta versão de Goiás está no livro Folclore Brasileiro - Goiás, de Regina Lacerda (uma publicação da FUNARTE, 1977). Na versão carioca, há uma pequena variação no final da brincadeira. Depois da pirueta, as meninas falam assim:
Coração (cruza as mãos no peito)
Descanso (põe uma das mãos em cada coxa)
Perdão (ajoelha)
Xô, Araruna
(uma cantiga popular da Paraíba)
Xô, xô, xô, Araruna!
Xô, xô, xô, Araruna!
Xô, xô, xô, Araruna!
Deixa o arroz semear
Tenho um pássaro preto, Araruna
Que veio lá do Pará
Tenho um pássaro preto, Araruna
Que veio lá do Pará
Xô, xô, xô, Araruna!
Xô, xô, xô, Araruna!
Xô, xô, xô, Araruna!
Deixa o arroz semear
Pense no folclore como um grande quebra-cabeças em que cada peça é fundamental. Se faltar uma dança, uma lenda ou uma recita culinária, o quebra-cabeças ficará incompleto. Essas são as peças que formam esse jogo chamado cultura brasileira. É o que faz o Brasil diferente de outros países. Quanto mais se brinca com esse jogo, mais se conhece a riqueza do nosso país.
Que tal se você pesquisasse entre seus amigos e parentes para saber quem é de outra região do país? Pergunte, então, sobre comidas típicas, danças, cantigas e lendas características desse local. Depois, compare com as comidas, danças, cantigas e lendas típicas de sua região. Veja as semelhanças e diferenças.
Vamos todos cirandar
A ciranda é uma dança típica da região das praias pernambucanas. Os integrantes da ciranda dançam de mãos dadas formando uma grande roda e movimentando-se em círculo. Os braços acompanham o ritmo da ciranda que é marcado com os pés. O mestre cirandeiro (ou cirandeira) vai entoando versos de improviso enquanto os outros prosseguem repetindo o refrão.
A ilha de Itamaracá é conhecida por suas cirandas que acontecem durante o ano todo! Sua cirandeira mais famosa se chama Lia. Existe uma ciranda que tem um refrão que fala sobre isso:
"Essa ciranda
quem me deu foi Lia
que mora na Ilha
de Itamaracá."
Mas quem afinal inventou essas danças, as cantigas de roda e as receitas culinárias? Experimente perguntar em casa sobre uma receita que você goste e procure saber quem ensinou a fazê-la. Se puder, tente falar com quem ensinou e procure saber onde aprendeu... E assim por diante. Você vai ver que não tem fim! O mesmo acontecerá com as cantigas de roda, as brincadeiras e os jogos infantis, as lendas e histórias de fada. São ensinamentos que vão passando de pai para filho, de geração a geração, e, nessa passagem do tempo, vão se modificando, adquirindo novos contornos, mas mantendo a estrutura original. É assim que o folclore se preserva e se mantém vivo.
Doce delícia
Aqui vai uma receita saborosa e fácil de fazer. Com poucos ingredientes é possível preparar um delicioso bolo de cenoura! Esta receita faz parte da culinária do Mato Grosso do Sul, mas ficou popular também no Rio de Janeiro.
INGREDIENTES:
2 cenouras médias
3 ovos inteiros
meia xícara de óleo
1 xícara e meia de açúcar
2 xícaras de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento
1 pitada de sal
MODO DE FAZER:
Descasque e pique as cenouras. Bata no liquidificador com os ovos e a óleo. Coloque esta massa numa tigela e acrescente o açúcar, a farinha e o fermento peneirados. Misture tudo sem esquecer a pitada de sal. Unte uma forma com margarina e passe farinha de trigo. Despeje a massa na forma e leve ao forno pré-aquecido. Quando o cheiro do bolo perfumar a casa, enchendo a nossa boca de água, é sinal de que está pronto! Depois de esfriar, retire da forma e... Bom apetite!
A cultura de um povo é um bem precioso que deve ser cuidado e cultivado. Tire a poeira da palavra folclore e brinque com as possibilidades que ela oferece. Pode ser muito divertido!
Texto de Edith Lacerda retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 12, Número 94, Agosto de 1999.