06 novembro 2025

Introdução (do livro Sob a Sombra de Saturno)

Este livro se baseia na explanação apresentada no Centro Jung da Filadélfia, em abril de 1992. Explanação que já não era sem tempo. Evitara pessoalmente o tema durante toda uma década, embora o sofrimento, as aspirações e a cura dos homens ocupassem pouco a pouco meu tempo como analista junguiano.

Doze anos atrás, a proporção dos meus clientes era de nove mulheres para cada homem. Atualmente, a maioria dos meus clientes é do sexo masculino e a proporção é de seis homens para quatro mulheres. Acredito que a mudança também tenha ocorrido no consultório de outros terapeutas, e as razões para isso contribuíram igualmente à ascensão do movimento masculino. Evitara o tema porque muita coisa parecia em andamento. Na melhor das hipóteses, via o trabalho maciço de purificação acadêmica e emocional, e na pior, uma fenômeno pop-psíquico que eu considerava repugnante.

Preocupo-me muito com a cura e a transformação das pessoas, trabalho este em geral tão intenso, tão profundamente pessoal, que amiúde é fácil esquecer o mundo mais amplo e os grandes problemas sociais dos quais todos participamos e pelos quais somos todos feridos. Tornou-se, porém, cada vez mais claro para mim que as histórias de cada homem coincidiam de fato e apresentavam temas constantes. À semelhança do que as mulheres aprenderam antes de nós, comecei a perceber que a experiência coletiva dos homens é também parte inevitável da sua história pessoal. A trama e urdidura da história privada e da mitologia pública incorpora-se à formação do caráter individual.

Hoje, é claro, já existem muitos livros excelentes a respeito de vários aspectos do dilema dos homens modernos. Recorrerei de vez em quando a eles neste livro, diretamente, conscientemente, e com gratidão.

Todos participamos da luta rumo à comunidade, e cada uma das nossas vozes tem timbre diferente. Não me proponho oferecer contribuição original à erudição masculina, mas, sim, tomar questões complexas e destilar, integrar e expressá-las através de termos que sejam compreendidos por muitos. Também recorro à experiência clínica dos homens da terapia. A eles sou igualmente grato por me permitirem o uso de seus casos.

O objetivo de Sob a sombra de Saturno, portanto, é oferecer uma visão sinótica das feridas e da cura dos homens, e ainda examinar a situação existente nesta última década do século.

Mas, sobretudo, devo uma confissão: evitei falar do assunto por anos e anos, não apenas porque as questões me pareciam em contínua transição, mas porque também eu tenho sofrido por viver sob a sombra de Saturno e nem sempre estou certo com relação à minha posição no relacionamento com minha natureza masculina. O destino quis que eu nascesse homem. Durante anos simplesmente tomei como certo esse acidente e suas consequências, achando mais assustador do que libertador a tentativa de um passo para fora dessa sombra.

Nas páginas que seguem, citarei de vez em quando exemplos autobiográficos, não para agradar a mim próprio e sim porque os considero típicos e representativos. Como observou o pintor Tony Berlant: "Quanto mais pessoal e introspectiva a obra de arte, mais universal se torna".

Ao focalizar as questões masculinas, não tenho a intenção de minimizar as feridas das mulheres. Nós, do sexo masculino, temos grande dívida de gratidão para com as mulheres, que se manifestaram, não apenas para expressar a própria dor dentro da nossa cultura sexista, mas também para tornar os homens mais livres para serem mais plenamente eles mesmos. Seu cri de couer ajudou os homens a examinar com mais consciência as próprias feridas, e em decorrência disso todos ficamos mais bem servidos. O exemplo das mulheres lutando para se libertar das sombras do coletivo confere coragem e torna necessário que os homens realizem o mesmo. A não ser que os homens consigam emergir das trevas, continuaremos a ferir tanto as mulheres quanto a nós próprios, e o mundo jamais será lugar seguro ou saudável. Este trabalho, portanto, não é apenas para nós, mas também para os que nos rodeiam.

Em meados do século passado, o teólogo dinamarquês Sören Kierkegaard observou que não podemos salvar nossa era, senão expressar a convicção de que ela está perecendo. As forças inconscientes, as instituições públicas e as ideologias que nos orientam a vida possuem um momento de inércia tal que não esperaríamos ocasionar rápida mudança na sociedade e no papel desempenhado pelos sexos. Não obstante, o primeiro requisito é que os homens se tornem conscientes do fato de se apresentarem cruelmente feridos. A inconsciência do trauma deles faz com que firam vezes a fio tanto a si próprios quanto às mulheres. Sempre pergunto que restaria às mulheres senão passar a odiarem os homens que as oprimem, e aos homens quase analogamente, odiarem e temerem-se uns os outros.

Este livro, portanto, recorre ao trabalho de muitas pessoas, a fim de conduzir cada homem a maior consciência e incentivar o diálogo que precisa desabrochar para a cura. Se as imagens que governam consciente e inconscientemente nossa vida só podem ser analisadas e resolvidas com o sofrimento particular e individual, a crescente capacidade dos homens de confessarem sua dor e sua raiva, de conversarem cada vez mais uns com os outros, também, ajudará a curar as feridas do mundo.

Convido o leitor, ou leitora, a se ver na jornada aqui descrita. No caso das mulheres, a descrição da luta com o complexo materno, por exemplo, será útil na compreensão da estranha ambivalência que parece afligir os homens em suas vidas. A jornada masculina tem muitas passagens, muitos perigos. Os rigores e as tarefas que identificamos são os mais prováveis de vivenciarmos. É falsa a ideia de que aquilo que desconhecemos não nos magoaria; na verdade, o que não conhecemos nos fere fundo, e à semelhança de Sansão conseguiríamos, então, deitar cegamente o templo por sobre nossas próprias cabeças.

Para que cada qual passe a ter mais consciência das transições e dos tormentos masculinos, sou obrigado a contar segredos masculinos. Revelo-os para que as mulheres entendam melhor o assunto. Alguns desses segredos talvez sejam novos para os próprios homens, embora duvide seriamente de que um único leitor do sexo masculino deste livro vá discordar de que aponte as feridas que ele tem carregado no seu coração solitário e assustado. Que não encerremos a ferida e o medo, ao menos acabemos com a solidão.

O título deste livro alude ao fato de tantos os homens quanto as mulheres padecerem sempre sob a pesada sombra das ideologias, umas conscientes, algumas herdadas da família e do grupo étnico, e outras ainda como parte da estrutura da história da nação e de seu chão mítico. Essa sombra representa o peso opressivo sobre a alma. Os homens padecem sob ela, com o espírito oprimido e definhado. A experiência dessa sombra opressiva é saturnina. As definições do que significa ser homem - os papéis e as expectativas masculinas, a competição e a animosidade, a humilhação e a desvalorização de muitas das melhores qualidades e capacidades dos homens - conduzem à esmagadora opressão. Esse fardo sempre esteve presente, porém hoje em dia os homens de coragem estão começando a questionar a necessidade de viver sob esse jugo.

Saturno era o deus romano da agricultura. Por um lado, na qualidade de deus da geração, ajudou a criar a antiga civilização romana; por outro, vinha associado a uma multidão de histórias obscuras e sangrentas. Sua encarnação grega primeva, Crono, nasceu  do princípio masculino Urano e do princípio Geia ou Gaia. Urano odiava os filhos por temer o potencial deles; conta a lenda que fora "o primeiro a maquinar ações vergonhosas". Sua mulher, Gaia, fabricou uma foice e induziu Crono a atacar o pai. Crono golpeou e cortou o falo do próprio pai. Terríveis gigantes nasceram das gotas de sangue que caíram sobre a terra. O mar, fecundado e salpicado de esperma, deu luz à Afrodite, cujo nome significa "nascida da espuma".

Crono-Saturno substituiu o pai, tornando-se tirano de igual magnitude. Sempre que ele e sua consorte Reia tinham filhos, ele comia. A única criança que conseguiu evitar essa sina foi Zeus. Por sua vez, Zeus liderou uma revolta contra o próprio pai, dando início a uma guerra de dez anos. Muitas forças civilizadoras emergiram com o triunfo de Zeus, mas também ele se tornou prisioneiro do complexo do poder e tornou-se dominador.

Assim, a história de Crono-Saturno envolve poder, ciúme, insegurança - violência para com o princípio do eros, com a geração e com a terra. Como Jung comentou certa vez, na presença do poder o amor nunca está presente. Junto com a grande capacidade de aquisição do poder dramatizada pelos deuses, vemos sua corrupção no complexo do poder. O poder em si é neutro, mas sem eros ele é perseguido pelo medo e pela ambição compensatória, arremessado em direção a fins violentos. Como observou Shakespeare, "inquieta permanece a cabeça que usa coroa".

A maioria dos homens ao longo da história cresceram sob a sombra deste legado saturnino. Sofreram com a corrupção do poder, movidos pelo medo, ferindo a si e aos semelhantes. Se os homens modernos sentem que não há alternativas, que o legado de Saturno é a única possibilidade que existe, eu não penso assim.

Sob a sombra de Saturno é oferecido ao leitor como forma de identificar algumas dentre as inúmeras maneiras pelas quais este mito obscuro marcou nossa alma. Minha esperança é que leve cada um a se voltar para dentro de si em busca de maior liberdade pessoal.


OS OITO SEGREDOS 

QUE OS HOMENS CARREGAM


1. A vida dos homens é tão governada por expectativas restritivas com relação ao papel que devem desempenhar quanto a vida das mulheres.

2. A vida dos homens é basicamente governada pelo medo.

3. O poder feminino é imenso na organização psíquica dos homens.

4. Os homens conluiam-se numa conspiração de silêncio cujo objetivo é reprimir sua verdade emocional.

5. O ferimento é necessário porque os homens precisam abandonar a Mãe e transcender o complexo materno.

6. A vida dos homens é violenta porque suas almas foram violadas.

7. Todo homem carrega consigo profundo anseio pelo seu pai e pelos Pais tribais.

8. Para que os homens fiquem curados, precisam ativar dentro de si o que não receberam do exterior.


Introdução do livro Sob a Sombra de Saturno - a ferida e a cura dos homens, de James Hollis, Paulus Editora, São Paulo, 5ª Edição, 2019.

05 novembro 2025

Capítulo 13 - Em Resumo (Do livro Sobre o Poder Pessoal - Rogers)

Toda revolução social é precedida por, ou traz consigo, uma mudança na percepção do mundo e/ou uma mudança na percepção do possível. Como não podia deixar de ser, essas novas maneiras de ver são, a princípio, consideradas como um contra-senso ridículo, ou coisa pior do que isso, pelo senso comum coletivo da época.

A revolução de Copérnico é, sem dúvida, o principal exemplo. Pensar que a Terra não era o centro do universo, que girava em torno do Sol e era parte de uma vasta galáxia, não era apenas absurdo, era uma heresia que solapava a religião e a civilização. Há também exemplos menos importantes. Era enorme absurdo pensar que organismos invisíveis, que ninguém podia ver, pudessem ser causa de doenças. A crença de que escravos não eram objetos para serem comprados e vendidos como gado, mas sim pessoas com plenos direitos humanos, não era somente um pensamento nocivo, contrário à História e à Bíblia: era também economicamente perturbador e perigoso. A noção revelada por uma fórmula matemática obscura de que a menor porção da matéria, o átomo, uma vez rompido, poderia libertar uma força incalculável, era evidentemente apenas um excêntrico rebento da ficção científica.

Entretanto, todas essas "ridículas" mudanças perceptuais alteraram a face e a natureza de nosso mundo. Foi o "senso comum" que passou a ser gradualmente ridículo.

Vejamos um exemplo corriqueiro da maneira pela qual esta mudança acontece. Era um fato perfeitamente óbvio para todos - e além disso apoiado pelas Sagradas Escrituras - que a Terra era plana, e aqueles que sugeriram que ela era esférica eram hereges perigosos. Mas, quando Colombo navegou para o Novo Mundo, sem com isso cair da extremidade da Terra, essa experiência real, essa evidência de que a concepção anteriormente aceita era um erro, forçou uma mudança no modo de se perceber a Terra. E essa mudança não ocorreu apenas na geografia. Contribuiu para uma reavaliação desse novo campo denominado ciência. Pôs em dúvida o papel do homem nesse contexto mais amplo. Questionou até mesmo a Bíblia, como enciclopédia de conhecimento factual. Abriu a mente humana a possibilidade até então desconhecidas. Levou a visões de continentes a serem descobertos e países a serem explorados. Alterou toda a estrutura perceptual de vida de homens e mulheres ficaram amedrontados e foram estimulados e transformados pela perspectiva. O impossível passou a ser possível.

Não foram as teorias relacionadas à terra que causaram tudo isso. Elas já existiam há muito tempo. A mudança foi forçada pela evidência de que as teorias tinham validade.

Parece-me quase do mesmo tipo, a evidência da eficácia da abordagem centrada na pessoa que pode transformar uma revolução, pequena e silenciosa, em uma mudança muito mais significativa, da maneira pela qual a humanidade percebe o possível. Estou próximo demais dos fatos para saber se este será um acontecimento menor ou maior, mas acredito que represente uma mudança radical. Como toda corrente que flui em torno das raízes da cultura, ameaçando minar-lhe as acalentadas concepções e os longos caminhos batidos, constitui uma força assustadora, força que, como de costume, choca-se com todo o peso do senso comum da cultura.

O que desejo fazer é comparar vários elementos do senso comum com as provas que os contradizem. Vou fazê-lo de modo bastante resumido, visto que a demonstração já foi apresentada neste livro.

É incorrigivelmente idealista pensar que o organismo humano é basicamente digno de confiança.

- Mas -

A pesquisa e as ações baseadas nessa hipótese tendem a confirmar essa opinião - até mesmo a confirmá-la com força.

É absurdo pensar que podemos conhecer os elementos que tornam o desenvolvimento psicológico humano possível.

- Mas -

Tais elementos têm sido definidos e identificados como condições de atitudes, medidos e demonstrados como eficazes.

É ridículo pensar que a terapia pode ser democratizada.

- Mas -

Quando o relacionamento terapêutico é igualitário, quando cada um assume a responsabilidade por si mesmo no relacionamento, o crescimento independente (e mútuo) é muito mais rápido.

É irracional pensar que uma pessoa com problemas possa melhorar sem o aconselhamento e orientação de um psicoterapeuta experiente.

- Mas -

Há muitas provas de que, em um relacionamento marcado por condições facilitadoras, a pessoa com problemas pode assumir a autoexploração e tornar-se autodeterminada, de maneira profundamente lúcida.

É perigoso pensar que indivíduos psicóticos podem ser tratados como pessoas.

- Mas -

Está provado que este é o caminho mais rápido pelo qual o psicótico pode servir-se de seu próprio problema como material a ser assimilado em seu crescimento pessoal.

É impreciso e ineficaz não controlar as pessoas.

- Mas -

Sabe-se que, quando o poder é deixado às pessoas e quando somos verdadeiros, compreensivos e interessados por elas, ocorrem mudanças construtivas no comportamento, e elas manifestam mais força, poder e  responsabilidade.

Uma família ou um casamento sem uma forte autoridade reconhecida está fadada ao insucesso.

- Mas -

Demonstrou-se que, quando o controle é compartilhado, quando condições facilitadoras estão presentes, ocorrem relacionamentos importantes, saudáveis e enriquecedores.

Precisamos assumir a responsabilidade pelos jovens, visto que não são capazes de autogovernar-se. É estúpido pensar de outra forma.

- Mas -

Em clima facilitador, o comportamento responsável desenvolve-se e floresce tanto entre jovens quanto entre pessoas mais idosas.

Os professores precisam ter controle sobre seus alunos.

- Mas -

Confirmou-se que, onde os professores compartilham o poder e confiam em seus alunos, a aprendizagem autodirigida atinge melhores resultados do que nas classes controladas pelo professor.

Os professores precisam ser firmes, rigorosos na disciplina e severos na avaliação, se desejam que ocorra a aprendizagem.

- Mas -

Comprovou-se que o professor que compreende com empatia o significado que a escola tem para o estudante, que o respeita como pessoa e que é autêntico nos relacionamentos, promove um clima de aprendizagem efetivamente superior quanto aos efeitos, em relação ao professor que age de acordo com o "senso comum".

Os professores devem ensinar o que os alunos precisam saber.

- Mas -

A aprendizagem significativa é maior quando os alunos escolhem, dentre uma ampla variedade de opções e recursos, o que eles precisam e querem saber.

É óbvio que em qualquer organização deve haver um chefe. Qualquer outra ideia é absurda.

- Mas -

Tem sido demonstrado que os líderes que confiam nos membros da organização, que compartilham e difundem o controle e que mantêm comunicação livre e pessoal, conseguem melhor moral, organizações mais produtivas e facilitam o desenvolvimento de novos líderes.

Grupos oprimidos devem revoltar-se. A revolução violenta é o único caminho para os oprimidos obterem poder e melhorarem suas vidas.

- Mas -

A história confirma a opinião de que, mesmo se bem sucedida, a revolução simplesmente conduz a uma nova tirania que substitui a antiga. Uma revolução não-violenta, baseada na abordagem centrada na pessoa, e que dá poder ao oprimido, parece ser muito mais promissora.

Profundas rivalidades religiosas bem como rancores provenientes de preconceitos culturais e raciais não têm solução. É pura fantasia pensar que eles possam ser reconciliados.

- Mas -

O fato é que existem inúmeros exemplos em pequena escala para mostrar que melhoria na comunicação, redução da hostilidade e medidas para resolver as tensões, são de todo possíveis e se apoiam na abordagem experimental de grupos intensivos.

Um encontro ou um workshop precisam ser organizados por um ou mais líderes responsáveis. Qualquer outra maneira é irrealista e quixotesca.

- Mas -

Tem-se demonstrado que um grande e complexo empreendimento pode ser centrado na pessoa, do começo ao fim - em seu planejamento, desenvolvimento e resultados - e que tal concentração de pessoas, sentindo seu próprio poder, pode agir criativamente em novas e inexploradas áreas - resultado que não poderia ser conseguido por métodos habituais.

É óbvio que, em uma situação estritamente controlada com todo o poder concentrado numa elite, as pessoas sem poder não exercem nenhuma influência significativa.

- Mas -

Em uma situação quase perfeita de laboratório, os membros sem poder de um acampamento diurno, que vieram a respeitar sua própria força por serem tratados de maneira centrada na pessoa, mostraram-se extremamente poderosos.

Nos anos sessenta houve uma tendência a mudanças sociais de base, mas agora isto desapareceu. Somente um sonhador não reconheceria isto.

- Mas -

Cada vez mais pessoas, adeptas da abordagem centrada na pessoa aplicada à vida, estão se infiltrando nas escolas, na vida política, nas organizações, assim como estabelecendo estilos diferentes de vida. Estão vivendo novos valores e constituem um contínuo e crescente fermento de mudança social.

As pessoas não mudam.

- Mas -

Um novo tipo, com valores muito diferentes dos que constituem nossa atual cultura, está emergindo em número cada vez maior, vivendo e agindo de acordo com modos que rompem com o passado.

Nossa cultura está se tornando cada vez mais caótica. Precisamos voltar atrás.

- Mas -

Uma revolução silenciosa está se desenvolvendo em quase todas as áreas. Ela promete levar-nos em direção a um mundo mais humano, mais centrado na pessoa.


Texto de Carl R. Rogers retirado do livro Sobre o Poder Pessoal, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, 1978.

04 novembro 2025

O Ego: a dimensão consciente da personalidade

Embora suas bases sejam em si mesmas relativamente desconhecidas e inconscientes, o ego é, por excelência, um fator consciente. É inclusive adquirido, em termos empíricos, ao longo da vida. Parece surgir, em primeiro lugar, da colisão entre o fator somático e o meio ambiente, e, depois de estabelecido como sujeito, prossegue desenvolvendo-se a partir de outras colisões com o mundo exterior e interior.

Apesar da ilimitada extensão de suas bases, o ego nunca é mais e nunca é menos que a consciência como um todo. Como fator consciente, o ego poderia ser, pelo menos no plano teórico, descrito de forma completa. Isso porém nunca chega a ser mais do que uma imagem da personalidade consciente; todos os aspectos desconhecidos ou inconscientes para o sujeito estarão ausentes. A imagem completa teria que incluí-los. Mas uma descrição total da personalidade, mesmo teórica, é absolutamente impossível porque a porção inconsciente que a compõe não pode ser apreendida pelos recursos cognitivos. Essa porção inconsciente, como a experiência o tem generosamente comprovado, não é de maneira alguma destituída de importância. Pelo contrário, as qualidades mais decisivas de uma pessoa são em geral inconscientes e podem ser percebidas apenas pelos outros, ou têm que ser laboriosamente descobertas com ajuda externa.

Está claro, então, que a personalidade como um fenômeno total não coincide com o ego, quer dizer, com a personalidade consciente, mas forma uma entidade que precisa ser distinguida do ego. Sem dúvida, a necessidade dessa distinção só recai sobre uma psicologia que admite o fator do inconsciente e, para ela, essa distinção é da mais lapidar importância.

Sugeri que se chamasse a personalidade total que, embora presente, não pode ser plenamente conhecida, de Self (si-mesmo). Por definição, o ego está subordinado ao Self e mantém com ele uma relação de parte para o todo. Dentro do campo da consciência, como dissemos, ele tem livre-arbítrio. Com isso não estou querendo dizer nada de filosófico, apenas me refiro ao bem conhecido fato psicológico de se ter "liberdade de escolha" - ou melhor, o sentimento subjetivo de liberdade. Mas, da mesma forma como nosso livre-arbítrio choca-se com as necessidades que vêm do mundo externo, também no mundo interior subjetivo essa função encontra seus limites fora do campo da consciência, ao entrar em conflito com os fatos do Self. E, assim como as circunstâncias e eventos externos "acontecem" conosco e limitam nossa liberdade, também o Self atua sobre o ego como uma ocorrência objetiva diante da qual o livre-arbítrio pode fazer muito pouco. Na realidade, é bem sabido que o ego não só nada pode fazer contra o Self, como é às vezes realmente assimilado por componentes inconscientes da personalidade em seu processo de desenvolvimento, sendo por eles profundamente alterado.

Diante da natureza dessa função, é impossível oferecer uma descrição geral do ego, exceto em termos formais. Qualquer outro modo de observação teria que admitir a individualidade que aliás se constitui em uma de suas principais características. Embora os numerosos elementos que compõem este complexo fator sejam em si os mesmos em toda parte, são infinitamente variados em sua clareza, tonalidade emocional e abrangência. O resultado de sua combinação - o ego - é, portanto, e até onde é possível julgar, individual e único, conservando até certo ponto sua identidade. Sua estabilidade é relativa porque às vezes podem se dar mudanças extensas na personalidade. Essas alterações não são necessariamente sempre patológicas, podem ser decorrentes do próprio processo de desenvolvimento e, nessa medida, pertencer à variação normal.

Sendo o ponto de referência do campo da consciência, o ego é o sujeito de todas as bem-sucedidas tentativas de adaptação passíveis de serem alcançadas pela vontade. Portanto, o ego desempenha uma parte significativa dentro da economia psíquica. É tão importante a sua posição nesse sentido que há bons motivos para se alimentar a falsa noção de que o ego é o centro da personalidade e que o campo da consciência é a psique em si. Afora as alusões encontradas em Leibniz, Kant, Schelling e Schopenhauer, e os esboços filosóficos de Carus e von Hartmann, é somente a partir do final do século XIX que a moderna psicologia com seu método indutivo descobriu os fundamentos da consciência e comprovou empiricamente a existência de uma psique fora do campo consciente. Com essa descoberta, a posição do ego até então absoluta tornou-se relativa, o que quer dizer que, embora conserve seu atributo de centro do campo da consciência, é discutível se funciona ou não como centro da personalidade. O ego é parte da personalidade, não a personalidade inteira. Como já disse, é simplesmente impossível estimar se sua parcela de participação é grande ou pequena, e até onde é livre ou depende das qualidades da psique "extraconsciente". Podemos dizer apenas que sua liberdade é limitada e sua dependência comprovada de maneira muitas vezes decisiva.


Texto de Carl Gustav Jung retirado do livro Espelhos do Self - As imagens arquetípicas que moldam a sua vida, vários autores, organização de Christine Downing, Editora Cultrix, São Paulo, 1998.

O texto integral desse ensaio encontra-se no livro Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo, C.G. Jung, Editora Vozes, RJ, 1982, Obras Completas.

03 novembro 2025

Ser Homem

"Quando eu era pequeno - engraçado - eu me sentia mais próximo da minha mãe que do meu pai, ela era mais afetuosa, mas eu sabia que era a opinião do meu pai sobre mim que contava, era a sua aprovação que eu realmente queria. Por quê? Não sei. Mas eu ainda sou assim, num certo sentido: amo muito minha esposa, nós somos felizes juntos, mas para me sentir realmente feliz eu preciso, acima de tudo, fazer parte do mundo dos homens e ser reconhecido pelos outros homens como um homem bem-sucedido."

Num sentido concreto, o que "conta" para os homens numa sociedade patriarcal são as relações entre eles próprios - muito mais do que as relações entre homens e mulheres. Os homens procuram nos outros aprovação, aceitação, legitimação e respeito. Os homens veem os outros homens como árbitros do que é real, como guardiães da sabedoria e detentores e controladores do poder.

Mas é possível para os homens sentirem-se próximos de outros homens na nossa sociedade? Compartilhar sentimentos? Como é que eles são educados em nossa sociedade? O que significa ser um homem? O que é que eles aprendem de seus pais a respeito do que significa ser homem? E eles se sentem próximos de seus pais na infância? Como se sentem a respeito de suas amizades com outros homens? Como é que as relações com outros homens se comparam com as relações com mulheres? Que padrões de comportamento e aprovação os homens estabelecem uns para os outros? Como foi que o papel tradicional afetou a capacidade dos homens de se sentirem próximos uns dos outros?

Paradoxalmente, embora os homens se vejam uns aos outros como "aquele que é importante", a maioria tem medo de se aproximar demais. "Sentimentos" por outros homens devem ser expressos apenas de forma casual, e não devem ultrapassar a admiração e o respeito. Assim, as relações entre homens costumam se basear numa aceitação mútua de papéis e posições, numa integração no grupo, ao invés de numa discussão pessoal e íntima sobre suas vidas e sentimentos. Como disse um homem, "nós somos mais colegas do que amigos". Nossa cultura glorifica e ao mesmo tempo limita severamente as relações entre homens, mesmo aquelas entre pais e filhos. Ainda assim, alguns homens afirmaram ter um sentimento profundo de afinidade e companheirismo para com outros homens.

Como são as amizades íntimas entre os homens? Como se sentem os homens sobre isso? O que elas significam dentro de suas vidas? Como os homens gostam de passar o tempo juntos? O que é que eles veem de mais importante nos outros homens? Como se relacionavam quando meninos - incluindo as relações físicas? Como se sentem ao demonstrar seus sentimentos ou afeição para com outros homens?


Trecho inicial do livro O Relatório Hite sobre a sexualidade masculina, Shere Hite, Difel - Difusão Editorial S.A., São Paulo, 1981/1982.

12 outubro 2025

Escrevendo

Não me lembro mais onde foi o começo, foi por assim dizer escrito todo ao mesmo tempo. Tudo estava ali, ou devia estar, como no espaço-temporal de um piano aberto, nas teclas simultâneas do piano. Escrevi procurando com muita atenção o que se estava organizando em mim e que só depois da quinta paciente cópia é que passei a perceber. Meu receio era de que, por impaciência com a lentidão que tenho em compreender, eu estivesse apressando antes da hora um sentido. Tinha a impressão de que, mais tempo eu me desse, e a história diria sem convulsão o que ela precisava dizer. Cada vez mais acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor. - Ele se levantou todo ao mesmo tempo, emergindo mais aqui do que ali. Eu interrompia uma frase no capítulo 10, digamos, para escrever o que era o capítulo 2, por sua vez interrompido durante meses porque escrevia o capítulo 18. Esta paciência eu tive, e com ela aprendia: a de suportar, sem nenhuma promessa, o grande incômodo da desordem. Mas também é verdade que a ordem constrange. - Como sempre, a dificuldade maior era a da espera. (Estou me sentindo mal, diria a mulher para o médico. É que a senhora vai ter um filho. E eu que pensava que estava morrendo, responderia a mulher. A alma deformada, crescendo, se avolumando, sem nem ao menos se saber que aquilo é espera. Às vezes, ao que nasce morto, sabe-se que se esperava.) - Além da espera difícil, a paciência de recompor paulatinamente a visão que foi instantânea. E como se isso não bastasse, infelizmente não sei "redigir", não consigo "relatar" uma ideia, não sei "vestir uma ideia com palavras". O que vem à tona já vem com ou através de palavras, ou não existe. - Ao escrevê-lo, de novo a certeza só aparentemente paradoxal de que o que atrapalha ao escrever é ter de usar palavras. É incômodo. Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de alisar uma cabeça de menino ou de passear pelo campo, jamais teria entrado pelo caminho da palavra. Faria o que tanta gente que não escreve faz, e exatamente com a mesma alegria e o mesmo tormento de quem escreve, e com as mesmas profundas decepções inconsoláveis: não usaria palavras. O que pode vir a ser a minha solução. Se for, bem-vinda.


Crônica de Clarice Lispector retirada do livro Para Não Esquecer, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2019.

11 outubro 2025

Demonstrações do Céu (92)

 "Disseram-lhe, pois: que sinal fazes tu para que o vejamos, e creiamos em ti? - (JOÃO, 6:30.)


Em todos os tempos, quando alguém na Terra se refere às coisas do Céu, verdadeira multidão de indagadores se adianta pedindo demonstrações objetivas das verdades anunciadas.

Assim é que os médiuns modernos são constantemente assediados pelas exigências de quantos se colocam à procura da vida espiritual.

Esse [e vidente e deve dar provas daquilo que identifica.

Aquele escreve em condições supranormais e é constrangido a fornecer testemunho das fontes de sua inspiração.

Aquele outro materializa os desencarnados e, por isso, é convocado ao teste público.

Todavia, muita gente se esquece de que todas as criaturas do Senhor exteriorizam os sinais que lhes dizem respeito.

O mineral é reconhecido pela utilidade.

A árvore é selecionada pelos frutos.

O firmamento espalha mensagens de luz.

A água dá notícias do seu trabalho incessante.

O ar esparge informações, sem palavras, do seu poder na manutenção da vida.

E entre os homens prevalecem os mesmos imperativos.

Cada irmão de luta é examinado pelas suas características.

O tolo dá-se a conhecer pelas puerilidades.

O entendido revela mostras de prudência.

O melhor demonstra as virtudes que lhe são peculiares.

Desse modo, o aprendiz do Evangelho, ao solicitar revelações do Céu para a jornada da Terra, não deve olvidar as necessidades de revelar-se firmemente disposto a caminhar para o Céu.

Houve dia em que a turba vulgar dirigiu-se ao próprio Salvador que a beneficiava, perguntando: - "que sinal fazes tu para que o vejamos, e creiamos em ti?"

Imagina, pois, que se ao Senhor da Vida foi dirigida semelhante interrogativa, que indagação não se fará do Alto a nós mesmos, toda vez que rogarmos sinais do Céu, a fim de atendermos ao nosso simples dever?


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Donas do nosso lar

Empregadas domésticas são figuras folclóricas em qualquer lar. Imagina numa casa de bibas. Normalmente conservadoras, elas chegam desconfiadas. "Dois homens e uma cama! Há algo de esquisito nessa casa!" Para logo depois virarem grandes aliadas no espetáculo de vaudeville que, muitas vezes, se transforma o dia-a-dia de dois gays vivendo sob o mesmo teto.

O primeiro contato com essas rainhas dos nossos lares é o mais difícil. Como dizer para aquela senhora, com saia até o joelho, coque no cabelo, a maior pinta de evangélica radical, que ali moram você e seu namorado? Mais fácil contar pra mãe, né? Ela, ao menos, a gente conhece. Mas não adianta esconder, porque um dia os dois acabam pegos juntos no chuveiro. E aí a empregada vai embora revoltada e fazendo fofoca com o porteiro.

Só não passa por essa dificuldade quem faz a linha Act up e diz logo de cara: "Antônia, aqui também mora o Pedro e nós somos bichas. Você entendeu?" Assim mesmo, com esse vocabulário, porque se sofisticar com somos gays, homossexuais, transviados, pederastas... Ela vai perguntar em seguida: "São o quê, patrão?" Então, você terá que explicar de qualquer maneira: "Bichas, Antônia! Nós somos bichas. Entendeu agora?"

A alternativa pra não enfrentar a conversa é ter a sorte de contratar uma empregada enrustida, como a Dulce. Ela trabalha para duas bibas empresários faz 17 anos. Eles são muito gays e completamente assumidos. Mas não há santo que faça Dulce reconhecer isso. Quando tem festa no apartamento da dupla, a empregada enrustida vira atração, pobrezinha:

- Dulce, preciso lhe contar. Marcelo e Sérgio estão juntos todos esses anos. Casados, feito homem e mulher, fazem sexo e tudo. Só você ainda não sabe.

- Não levanta esse falso, seu Henrique.

- Verdade, você não vê? Eles dormem até na mesma cama.

- Imagina, seu Marcelo e seu Sérgio, que não podem ver mulher de saia.

Inexplicavelmente, ela duvida. E ainda testemunha contra a calúnia, mesmo sendo a única mulher a dormir naquela casa.

Outro estilo clássico de empregada de gays é a de fachada. Ela dá a maior força, mas não aprova que os patrões deem muita pinta. Acha necessário disfarçar e sempre dá um jeito de falar de noitadas com mulheres com as visitas, que naturalmente pensam que ela é louca. A Francisca, por exemplo, chega ao requinte de mentir ao telefone, sempre que pega uma ligação dos pais do seu patrão biba. "Deixa eu vê se ele já saiu do quarto. Você conhece o danado do seu filho. Chegou com uma mulher e tá trancado na maior safadeza."

Pouco importa pra elas que você não esconda sua homossexualidade. Generosas como mães zelosas, querem nos proteger a todo custo. Mas, às vezes, atrapalham. Vera Lúcia, por exemplo, sempre deixa de saia justa os paqueras de uma biba dom Juan. Bem-sucedido com homens, na cama dele não faltam belos jovens. Mas Vera Lúcia, muito simpática, num esforço de memória, sempre chama o rapaz pelo nome do visitante de outra noite qualquer. "Olha, seu Eduardo, fiz vitamina de abacate como o senhor gosta." A biba que já alertou mil vezes - "Vera Lúcia quando você vir homem aqui não abra a boca, sua anta!" - quase morre de vergonha, ou de medo de ser tomado por promíscuo, e fala desolado para a lesada: "Fofa, esse é o Marcos." Quem, no entanto, consegue manter empregada despachada de boca calada? "Gente, nem reconheci. E o seu Marcos gosta de quê mesmo no café?"

Para os enrustidos, ter empregada aliada é gênero de primeira necessidade. Um conhecido, filho de família rica e tradicional do Rio Grande do Sul, tem uma ótima para os seus propósitos. Esperta passista do Salgueiro, Cleonice é treinada para sumir com tudo gay do apartamento em 23 minutos. Basta um parente qualquer ligar, mesmo do aeroporto, já no Rio de Janeiro, dizendo que vai pra lá e ela dispara feito um raio. Em tempo cronometrado, escamoteia porta-retratos, livros, revistas, bilhetes, deixa calcinha lavada esquecida no box, até o quadro do Vitor Arruda desaparece da parede. Cleonice é tão pós-graduada nas paranoias do patrão que, em época de visita, troca invariavelmente os nomes das bibas que ligam pra ele. Nem a gente escapou dessa.

- Seu Patrick, dona Nelsa da Revista Playboy lá no telefone.

Foi indisfarçável o espanto dos parentes diante de nome tão improvável. Restou à biba esforçada um sorriso amarelo e a saída de emergência.

- Família excêntrica, a da gatinha.


Editorial de Nelson Feitosa para a hoje extinta revista Sui Generis, ano 3, número 24, SG Press Editora, Rio de Janeiro, 1997.

04 outubro 2025

Problemas do Amor (91)

"... que vosso amor cresça cada vez mais no pleno conhecimento e em todo discernimento." - Paulo (FILIPENSES. 1:9.)


O amor é a força divina do Universo.

É imprescindível, porém, muita vigilância para que não a desviemos na justa aplicação.

Quando um homem se devota, de maneira absoluta, aos seus cofres perecíveis, essa energia, no coração dele, denomina-se "avareza"; quando se atormenta, de modo exclusivo, pela defesa do que possui, julgando-se o centro da vida, no lugar em que se encontra, essa mesma força converte-se nele em "egoísmo"; quando só vê motivos para louvar o que representa, o que sente e o que faz, com manifesto desrespeito pelos valores alheios, o sentimento que predomina em sua órbita chama-se "inveja".

Paulo, escrevendo a amorosa comunidade filipense, formula indicação de elevado alcance. Assegura que "o amor deve crescer, cada vez mais, no conhecimento e no discernimento, a fim de que o aprendiz possa aprovar as coisas que são excelente".

Instruamo-nos, pois, para conhecer.

Eduquemo-nos para discernir.

Cultura intelectual e aprimoramento moral são imperativos da vida, possibilitando-nos a manifestação do amor, no império da sublimação que nos aproxima de Deus.

Atendamos ao conselho apostólico e cresçamos em valores espirituais para a eternidade, porque muitas vezes, o nosso amor é simplesmente querer e tão-somente com o "querer" é possível desfigurar, impensadamente, os mais belos quadros da vida.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

28 setembro 2025

O último lírico Mário Quintana

Esta nova antologia de Mário Quintana, como as anteriores, não pretende substituir-se à sua obra ou dela extrair o melhor, o suco, a nata. Muito menos o essencial de sua poesia. Pela própria natureza de sua obra, qualquer antologia que dele se faça resulta em duas antologias: a do que foi incluído e a do que não foi incluído. Não intentei sequer estabelecer uma ordem de preferência, uma direção de leitura. O próprio poeta, na antologia de 1981, eliminou a cronologia dos poemas. Preocupei-me em escolher para um leitor de primeira viagem, sempre pensando na obra de Mário Quintana como um lado indivisível.

Essa obra é bastante peculiar por sua estreita unidade, cada poema é um fragmento do poema geral que Mário Quintana vem compondo ao longo de toda a sua vida. Dos sonetos de A Rua dos Cataventos, passando pela prosa lírica do Caderno H, até os livros mais recentes, como A Vaca e o Hipogrifo e Esconderijos do Tempo, sua obra mantém uma qualidade, marca, timbre, ressonância ou maneira que só posso definir como quintanidade. Muitos dos pequenos poemas em prosa ou verso de Quintana, isolados, pouco significam além de uma distração lúdica, um jogo sutil de percepção das coisas e dos seres. Mas dentro de sua obra, lado a lado com outras páginas, eles se iluminam repentinamente - o borrifo irisado da cachoeira vai juntar-se às águas profundas que correm para o estuário de sua poesia, sob cuja aparente amenidade às vezes se oculta um Estige assustador.

Uma antologia de Mário Quintana dificilmente podia deixar de fora todos ou quase todos os sonetos de seu memorável livro de estreia, A Rua dos Cataventos, ao qual ele ficou devendo sua instantânea popularidade. O tempo se encarregou de provar que esses sonetos, longe de refletirem um retardo na adoção de novos postulados estéticos, mostravam um tratamento novo dessa forma fixa, tornando-a mais fluida, mais dúctil, mais aberta. O soneto deixava de ser a forma, era um poema liberto das varas rituais.

Outro livro cuja inclusão in totum seria quase obrigatória é o pequenino Aprendiz de Feiticeiro, pouco mais que uma plaquete. Não posso negar minha especial admiração, diria até minha paixão, por esse livrinho, que passou um tanto quanto despercebido da crítica quando de seu lançamento em 1950 (hoje é uma raridade da qual ninguém se desfaz nem a peso de ouro). Essa admiração eu a partilhava com o saudoso Augusto Meyer, a quem tanto devo para a melhor compreensão da grandeza de Quintana, ele próprio, Augusto, um excelente poeta. Lembro-me de nossas infindáveis conversas a respeito do lírico de Alegrete, cidade que ele colocou no mapa literário brasileiro. Havia entre nós uma espécie de cumplicidade afetiva. Hoje me dou conta de que, para Augusto Meyer, a princípio deve ter parecido estranho que um jovem crítico nordestino se interessasse tão obsessivamente por dois poetas gaúchos bem gaúchos, que na melhor das hipóteses a crítica oficial considerava menores, e as novas gerações, na sua faina epigônica, deixavam de observar mais detidamente: o até hoje injustiçado Felipe d'Oliveira e Mário Quintana. Para alguns de meus companheiros de geração literária foi um verdadeiro choque meu artigo "Assassinemos o poeta", no qual confessei minha admiração pelo poeta do Aprendiz, contraposta ao cansaço, ao tédio pelas glórias convencionais de nossa poesia.

Um terceiro livro de Mário Quintana que considero indispensável a quem deseje penetrar no mundo fascinante de sua obra é o das Canções, publicado em 1946. Até hoje ainda me surpreende o fato de que, no meio de nossos milhares de exegetas universitários recém-formados, poucos se deram ao trabalho de mergulhar as mãos nessa verdadeira arca de preciosidades poéticas. Criou-se entre nós a mística de que só se deve estudar os autores difíceis, constituindo dificuldade, para esse critério, o hermetismo da linguagem, o inusitado do vocabulário e da sintaxe, que de fato permitem elocubrações e interpretações no mais das vezes gratuitas. Não só Mário Quintana, outros poetas e alguns romancistas brasileiros têm pago por parecerem demasiado fáceis para a sede decifratória de nossos escoliastas.

A verdade é que, sob o campo visual da poesia de Mário Quintana, se esconde uma teia infinita de raízes, um entrançado de sentidos, duplos sentidos, alusões. elipses, subentendidos, um código vivencial de cuja tradução o poeta é o único a possuir a chave. E sua aparente simplicidade formal, aos olhos de leitores mais atentos, encobre uma extraordinária riqueza de recursos poéticos, de sutilezas verbais, de soluções rímicas e rítmicas; revela-se também o conhecimento, por parte do poeta, das grandes fontes da poesia universal.

Os quintanólogos (são poucos, mas conhecem a matéria a fundo) estudam com particular atenção um quarto livro do poeta, que é o Sapato Florido (1948). É absolutamente essencial à compreensão do quintanismo. Por ser fragmentário e quase todo em prosa, sempre ocupa lugar menor nas antologias. Quintana cultiva um tipo de prosa poética que às vezes se confunde com o poema em prosa ou com o pequeno conto lírico. Não poucas vezes, tudo se resume a uma frase, uma linha: "As folhas enchem de ff as vogais do vento", um fragmento de verso: "... o dia exato alinha os seus cubos de vidro", uma alusão: "Sua vida era um tango argentino", que pode exigir do leitor algumas leituras: "Acabo de ver um negrinho comendo um ovo. Hein, Lin Yutang?". Pode conter uma sugestão retomada ou expandida em verso ou poema de outro livro.

Também Espelho Mágico (1951), conjunto de 111 quadras ou quartetos em que à filosofia da vida e da arte se mesclam notas de humor e cepticismo, é pobremente representada nas antologias de Quintana, inclusive nesta. Várias dessas páginas, sobretudo as mais amargas e as mais pitorescas - inevitável predileção do público! - correm hoje o Brasil anonimamente, o que é uma forma de incorporação à alma e à sabedoria popular.

Esses cinco primeiros livros foram reunidos pela Editora Globo em 1962 no volume Poesias. Este e a Antologia Poética que Rubem Braga organizou em 1966 foram decisivos para que Mário Quintana atingisse uma audiência nacional. Deixou de se o "poeta de Porto Alegre" para se transformar num dos grandes nomes da poesia brasileira, reconhecimento algo tardio mas sempre válido.

A Antologia Poética apresentou mais um importante aspecto: a inclusão dos Novos Poemas. Em 1976, o poeta voltaria a incluir esses poemas na coletânea Apontamentos de História Sobrenatural, dando assim organicidade à sua obra (afinal, antologia é antologia).

Em 1973 havia saído um volume de seu lendário Caderno H (título de sua seção no Correio do Povo), quase totalmente de prosa variada, vale dizer, sem a preocupação intrinsecamente poética do Sapato Florido. Uma dessas páginas, a Carta a um jovem poeta, que reproduzo na antologia, corresponde a um depoimento sobre a formação e a arte poética do escritor.

Mais recentes são os Quintanares (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977) e Esconderijos do Tempo (1980). Em 1981 aparecia a Nova Antologia Poética, seleção dos livros anteriores.

Essa antologia tem uma particularidade. O poeta virtualmente remanejou sua obra, deixando de lado o tradicional critério de livro por livro. O resultado foi surpreendente. Revelou a extraordinária unidade da poesia de Mário Quintana, sua atualidade (no sentido de que um bom poema deve atravessar o tempo sem ficar datado) e a multiplicidade de sua inspiração. Assim, a imagem do poeta sai extremamente enriquecida, pode-se mesmo aventar a sugestão de que a Nova Antologia Poética é um novo livro de Mário Quintana. A sensação de novidade impregna até o leitor antigo, algo como uma peça musical com novo arranjo, novo acompanhamento ou transcrita para instrumentos novos. Alguns poemas como que florescem.

Louvei-me na lição do próprio poeta para não obedecer, também, à ordem cronológica dos poemas, misturando os livros. Meu pensamento inicial era dividir a antologia segundo uma subjetiva ordem temática: o poeta fala da poesia, o poeta fala do amor e da morte, o poeta lembra a infância, o poeta vê a paisagem, o poeta sorri, o poeta canta... Diluí a intenção original para evitar o artificialismo numa alheia, ou pior, o didatismo. Procurei, no entanto, exemplificar o elegíaco, o lírico, o descritivo, a prosa, o chiste, a recordação, a saudade. Tudo em Quintana é tão bom, que o leitor pode lê-lo em qualquer sentido, indiferente à numeração das páginas.

O Brasil, ao contrário do que muitos imaginam, tem produzido pouquíssimos poetas líricos. Talvez o último lírico puro que tivemos foi ainda Casimiro de Abreu. No correr dos séculos, poetas que podiam ter sido excelentes líricos, deixaram-se iludir pelo som cavernoso da tuba épica, escrevendo longos poemas que só nos enchem de tédio. Outros enveredaram pela poesia dramática, pela poesia patriótica, pelos hinos e pelas odes ("Nobre animal, o poeta"), sem que muita coisa restasse de tanto esforço bem intencionado. Mesmo as elegias, que já foram moda, só resistem quando um pouco mais que o talento as legitima.

Apesar da poesia lírica ser a que apresenta maior resistência à passagem do tempo, apurando-se e quintessenciando-se com esta (em mais de um sentido, a grande lírica do Ocidente foi produzida pelos trovadores medievais), os tratados de estética e os manuais de arte poética insistem na velha superstição dos gêneros maiores e menores, como se Homero, Virgílio, Dante e Camões houvessem deixado prole à altura. Os conteúdos da lírica, seu inato individualismo, sua aderência às emoções e seu imediatismo afetivo levam os teóricos à presunção de que o lírico seja um eterno disponível, um improvisador bem dotado, vivendo de inspirações momentâneas; ou, em linguagem mais moderna, um receptivo e não um produtor de mensagens, um recriador e não um criador. A verdade é bem outra: além do talento, do gênio, que marcam os grandes líricos, eles devem possuir rigoroso domínio da forma e ter uma agilidade criadora que lhes permita passar de um estado a outro, de uma inspiração a outra, sem afundar nos lugares-comuns que só fazem engrossar o lixo poético.

Um lirismo quase puro como o de Mário Quintana é raro em nossa poesia moderna. Ele soube manter-se fiel ao seu gênio poético, à sua vocação lírica, quando tantos em torno dele se esgotavam em caminhos equivocados. Autêntico, elaborado e musical, ele tornou-se o que é, não um dos maiores poetas brasileiros, como também um dos grandes líricos contemporâneos - irmão inteiros dessa família que se faz compreender em qualquer tempo e em qualquer Língua.


Texto de Fausto Cunha retirado do prefácio do livro Os Melhores Poemas de Mário Quintana, Global Editora, 3ª Edição, São Paulo, 1987.

21 setembro 2025

É preciso romper a regra do silêncio

A questão da homossexualidade na nossa sociedade está mergulhada na hipocrisia. Em uma falsidade sofisticada, que faz mal para todo mundo e tanto mata quanto engorda. Ela sobrevive regulamentada por uma lei silenciosa, objetiva e eficaz, cujo texto diz apenas "não seja gay, se for, não fale". A regra condena gays e lésbicas a uma existência velada. Ou a uma não-existência. E, o pior, a gente aceita. Ninguém tem o poder de não ser gay, mas todos respeitam a segunda imposição, vivendo sua homossexualidade em silêncio, como um crime.

Nesses dois anos como editor da Sui Generis, pude ter a medida do alcance dessa norma, que nos obriga a ficar enrustidos às portas do século XXI. Repetida à exaustão, ela vale até nos veículos de comunicação. O Jornal do Brasil deu um bom exemplo. Na capa de 9 de maio, publicou foto da cantora Leila Pinheiro abraçada à atriz Cláudia Jimenez. O texto dizia que comemoravam a premiação de Guinga, vencedor de um Prêmio Sharp. Mas, por que estamparam elas ali tão íntimas se não ganharam prêmio algum? Na verdade, Jimenez vinha dando entrevistas sobre o fim de sua relação amorosa. O jornal completou a história, que nem sequer fora contada às claras, insinuando por meio da foto um reatamento. Essa era a mensagem consciente. Mais grave era a outra informação, silenciosa, que chegou e chega ao inconsciente do público sempre que o tema é tratado desta forma: homossexualismo é tão vergonhoso que não deve ser encarado abertamente.

Uma semana depois, a revista Super TV do JB entrevistou a atriz. O máximo de sinceridade obtido: "Eu não sou, eu estou", disse Jimenez. Mas, meu Deus! Não é o quê? Está o quê? Por que lésbica, gay, homossexual são palavras graves ao ponto de nem serem pronunciadas? O cantor Orlando Morais, marido de Glória Pires, disse-nos em entrevista: "Acho uma cretinice o repórter perguntar ao entrevistado se ele é homossexual." Por quê? Leviano, vil, antiético, covarde é um homossexual - anônimo ou famoso - aceitar a humilhação de viver escondido. Cretino, um sinônimo pouco inteligente, é achar mais seguro ficar calado, quando romper com a regra do silêncio significa tirar a sociedade desse ciclo hipócrita.

Revelar-se gay traduz um ato político no sentido maior. Difere do exibicionismo de expor a vida privada gratuitamente. Assumir-se é pensar no coletivo. Ajudar milhões de pessoas que, contaminadas pela ignorância, são impedidas de viver plenamente. Quando um gay anônimo respeitado se assume, coloca em choque preconceitos cultivados na família, vizinhança e trabalho. Quando uma pessoa famosa se assume, o efeito é multiplicador pelo tamanho da sua audiência. Se todos os gays e lésbicas agissem assim, daríamos fim a esse estranhamento.

Mas raros indivíduos se assumem. Comigo ocorreu o mesmo. Minha família fazia de conta que não sabia, eu fingia que não sabia que ela fingia que não sabia. A troco de quê fingíamos todos? Há quatro anos, quando eu e o meu atual namorado decidimos morar juntos, abri o jogo com meus pais, duas irmãs e um irmão. Alcancei a liberdade ao encerrar o ciclo de mentiras em que me envolvera desde a adolescente. Para eles, parece ter sido um alívio também. Hoje continuamos muito próximos, o que seria impossível se prosseguíssemos naquela hipocrisia.

A anulação do estranhamento funciona num curso simples. O estereótipo de marginal, sujo, frágil, vergonhoso não encaixava com o que minha família conhecia de mim. Dizer que eu era gay os levou a pensar nos próprios preconceitos. Logo concluíram que havia algo de errado com seus tabus, não comigo. Com meu irmão isso ficou mais claro. Professor e campeão de jiu-jítsu, envolvido desde os 11 anos nesse meio que preza a hipermasculinidade, ele é hoje, aos 21, um jovem hétero "desencanado. Não duvido que sua postura seria outra se algo não colocasse em choque o que sempre lhe disseram sobre bichas e viados (termos que, a propósito, nunca mais o ouvi usar para ofender alguém).

Os grandes resultados, entretanto, surgem de atitudes como a de Renato Russo, que influenciou gerações com sua postura assumida. É bem provável que fãs de Russo, que namoravam ao som de suas músicas, reconheçam mais facilmente a homossexualidade como algo moralmente válido do que seus pais, que cresceram tendo gays e lésbicas como uma abstração pecaminosa.


Texto de Nelson Feitosa publicado na Revista IstoÉ número 1447 de 25.06.1997, Editora Três, São Paulo.