CONHECIMENTO DO IDIOMA PODE SER USADO PARA PERCEBER AS SEMELHANÇAS COM OUTRAS TRADIÇÕES DERIVADAS DO LATIM
A afirmação de que conhecer o Português ajuda a entender outras Línguas não é nova. Mas o que ela significa, de fato, poucas vezes é explicado. Longe de servir a uma pregação ufanista que o Português seja uma Língua riquíssima e atribuir-lhe características que pretensamente só se encontram nesse idioma, é preciso lembrar que o idioma formou-se e ainda se forma num contexto comum a muitas outras Línguas.
Portugal é um país europeu e cristão e só isso basta para que muitas características de outras Línguas europeias de tradição cristã sejam similares. Nesse sentido, o Basco, o Húngaro, o Finlandês e o Estoniano possuem similaridades, por participarem desse mesmo ambiente, apesar de serem Línguas totalmente distintas dos grupos majoritários europeus (românico, germânico, eslavo, etc.).
Por outro lado, os Bálcãs e o Leste Europeu formam um subconjunto em que muitas similaridades ali encontradas não se veem na Europa Ocidental, cuja Língua de escrita durante a Idade Média sempre foi o Latim. Da mesma forma, há semelhanças entre os países muçulmanos (da Malásia ao Marrocos), por causa da influência do Árabe, ou no Extremo Oriente, por causa do Chinês.
Além do Latim, o Francês foi uma Língua que divulgou formações lexicais nos séculos 18 e 19, bem como o alemão foi responsável pelos neologismos dos países nórdicos, o Húngaro e as Línguas Eslavas no mesmo período. A partir do século 20, foi o Inglês que se tornou responsável por isso.
Assim, a ideia de "trancar à chave", deixando algumas pessoas de fora, derivou uma ideia mais abstrata de "excluir" já no Grego antigo, com o verbo ekkleío (de ek- "para fora" e a raiz de kleís "chave"). Por ter grande força metafórica, o latim imitou essa forma para ex-cludere (de ex- "para fora" e claudere "fechar à chave"), por sua vez imitado pelo alemão aus-schlieben, pelo Norueguês ute-lukke, pelo Húngaro ki-zár, pelo Russo iz-kljuèit', todos com a mesma montagem. Essa transmissão cultural da metáfora, apesar de formas tão distintas, chama-se decalque e é um empréstimo indireto: assim, quando se diz hot dog, usa-se um empréstimo do Inglês, mas em cachorro-quente, trata-se de um decalque.
Transmissão sonora
Outra forma de transmissão cultural pelas palavras se dá pela herança e aqui convém fazer uma distinção. Há as heranças legítimas, de pai para filho: a palavra se torna difícil de reconhecer, mas com a ajuda de certas transformações sonoras, pode-se verificar a real afiliação da palavra com a Língua antecessora.
Assim, "testa" vem do Latim testam e o mesmo se pode dizer de tête do Francês. Na passagem do Latim para as duas Línguas cai o m final, mas o a final permanece no Português, enquanto no Francês se torna e. O mesmo se pode dizer do s latino, conservado no Português e perdido no Francês. Daí se percebe que "festa" é fête em Francês, e que "estrela" é étoile: o e medial se tornou oi, como em "pêra" e poire.
Essas transformações, metaplasmos, nem sempre explicam tudo: se o fizessem, afirmar-se-ia indiretamente que as Línguas sofrem modificações mecânicas previsíveis, o que nem sempre ocorre. Ambas, "estrela" e étoile vêm do latim stellam: em ambas, acrescentou-se um e- inicial (o que não ocorre no Italiano stella nem no Romeno stea) e o Português acrescentou um r que não aparece em outras Línguas (mas que não aparece em composto como constelação ou estelar). Esse r, contudo não é uma transformação previsível, mas algo que surgiu por analogia, isto é, por semelhança com outras formas semanticamente aparentadas: possivelmente com astro. Assim os neogramáticos do século 19 explicavam as transformações sonoras: pelos metaplasmos ou pela analogia.
Intermediários
Mas há um segundo tipo de herança, que é um empréstimo disfarçado: nem toda palavra de origem latina no Português foi herdada de pai para filho. Sempre houve pessoas ocultas, que conheciam bem o latim e ressuscitavam palavras abandonadas pela fala cotidiana.
Infelizmente, no caso do Português, palavras desse tipo são quase sempre empréstimos. É raro uma palavra transcultural ligada a alguma área do conhecimento ter origem no Português (curiosa exceção é "antropônimo"): quase tudo vem do Francês ou do Alemão via Francês (e, atualmente, do Inglês). Assim, "fanatismo" aparentemente vem de fanático + -ismo, mas por que não é fanaticismo (como no Inglês fanaticism)? Ora, na verdade, quem cunhou a palavra foram os franceses: fanatisme em 1688; no Português ela só aparece em 1752.
Conhecer o étimo do Português facilita a compreensão de alguns problemas das Línguas estrangeiras como sua grafia: por difficile em francês se escreve com ff (como o Inglês difficult)? A palavras é Latina: difficilis e os ff (ambos pronunciados antigamente) provém de assimilação de sf na composição dis + facilis > disfacilis > difficilis (a transformação do a em i é fenômeno chamado apofonia que ocorre em Latim quando um prefixo se soma a um radical). Daí se entende por que outros empréstimos cultos têm a mesma característica: diffamer "difamar", différent "diferente", diffusion " difusão".
Por outro lado lado, dynamique "dinâmico" se escreve com y e com um n só porque não tem nada a ver com esse caso: a palavra remonta ao grego dynamikós "poderoso" (derivada de dy + namis "força"), foi ressuscitada por algum francês culto do século 17 e importada pelo Português com a grafia dynamico, só no século 19. O problema é que a grafia francesa e a inglesa são etimológicas, a do Português não é mais: saber etimologia para entender suas idiossincrasias gráficas é, portanto, imprescindível.
Texto de Mário Eduardo Viaro retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Editora Segmento, São Paulo, Fevereiro de 2006.