30 dezembro 2025

Evolução

Chamo-me Inácio; ele, Benedito. Não digo o resto dos nossos nomes por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará. Inácio basta. Contentem-se com Benedito. Não é muito, mas é alguma coisa, e está com a filosofia de Julieta: "Que valem nomes? perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá sempre o mesmo cheiro." Vamos ao cheiro de Benedito.

E desde logo assentamos que ele era o menos Romeu deste mundo. Tinha quarenta e cinco anos, quando o conheci; não declaro em que tempo, porque tudo neste conto há de ser misterioso e truncado. Quarenta e cinco anos, e muitos cabelos pretos; para os que o não eram, usava um processo químico, tão eficaz que não se lhe distinguiam os pretos dos outros - salvo ao levantar da cama; mas ao levantar da cama não aparecia a ninguém. Tudo mais era natural, pernas, braços, cabeça, olhos, roupa, sapatos, corrente do relógio e bengala. O próprio alfinete de diamante, que trazia na gravata, um dos mais lindos que tenho visto, era natural e legítimo; custou-lhe bom dinheiro; eu mesmo o vi comprar na casa do... Lá me ia escapando o nome do joalheiro; - fiquemos na rua do Ouvidor.

Moralmente, era ele mesmo. Ninguém muda de caráter, e o do Benedito era bom, - ou para melhor dizer, pacato. Mas, intelectualmente, é que ele era menos original. Podemos compará-lo a uma hospedaria bem afreguesada, aonde iam ter ideias de toda parte e de toda sorte, que se sentavam à mesa com a família da casa. Às vezes, acontecia acharem-se ali duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipáticas; ninguém brigava, o dono da casa impunha aos hóspedes a indulgência recíproca. Era assim que ele conseguia ajustar uma espécie de ateísmo vago com duas irmandades que fundou, não sei se na Gávea ou no Engenho Velho. Usava assim, promiscuamente, a devoção a irreligião e as meias de seda. Nunca lhe vi as meias, note-se; mas ele não tinha segredos para os amigos.

Conhecemo-nos em viagem para Vassouras. Tínhamos deixado o trem e entrado na diligência que nos ia levar da estação à cidade. Trocamos algumas palavras, e não tardou conversarmos francamente, ao sabor das circunstâncias que nos impunham a convivência, antes mesmo de saber quem  éramos.

Naturalmente, o primeiro objeto foi o progresso que nos traziam as estradas de ferro. Benedito lembrava-se do tempo em que toda a jornada era feita às costas de burro. Contamos então algumas anedotas, falamos de alguns nomes, e ficamos de acordo em que as estradas de ferro eram uma condição de progresso do país. Quem nunca viajou não sabe o valor que tem uma dessas banalidades graves e sólidas para dissipar os tédios do caminho. O espírito areja-se, os próprios músculos recebem uma comunicação agradável, o sangue não falta, fica-se em paz com Deus e os homens.

- Não serão os nossos filhos que verão todo este país cortado de estradas, disse ele.

- Não, decerto. O senhor tem filhos?

- Nenhum.

- Nem eu. Não será ainda em cinquenta anos, e, entretanto, é a nossa primeira necessidade. Eu comparo o Brasil a uma criança que está engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.

- Bonito ideia! Exclamou Benedito faiscando-lhe os olhos.

- Importa-me pouco que seja bonita, contando que seja justa.

- Bonita e justa, redarguiu ele com amabilidade. Sim,  senhor, tem razão: - o Brasil está engatinhando, só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.

Chegamos a Vassouras; eu fui para a casa do juiz municipal, camarada antigo; ele demorou-se um dia e seguiu para o interior. Oito dias depois voltei ao Rio de Janeiro, mas sozinho. Uma semana mais tarde, voltou ele; encontramo-nos no teatro, conversamos muito e trocamos notícias; Benedito acabou convidando-me a ir almoçar com ele no dia seguinte. Fui. Deu-me um almoço de príncipe, bons charutos e palestra animada. Notei que a conversa dele fazia mais efeito no meio da viagem - arejando o espírito e deixando a gente em paz com Deus e os homens; mas devo dizer que o almoço pode ter prejudicado o resto. Realmente era magnífico; e seria impertinência histórica pôr a mesa de Luculo na casa de Platão. Entre o café e o cognac, disse-me ele, disse-me ele, apoiando o cotovelo na borda da mesa, e olhando para o charuto que ardia:

- Na minha viagem agora, achei ocasião de ver como o senhor tem razão com aquela ideia do Brasil engatinhando.

- Ah?

- Sim, senhor; é justamente o que o senhor dizia na diligência de Vassouras. Só começaremos a andar quando tivermos muitas estradas de ferro. Não imagina como isso é verdade.

E referiu muita coisa, observações relativas aos costumes do interior, dificuldades da vida, atraso, concordando, porém, nos bons sentimentos da população e nas aspirações de progresso. Infelizmente, o governo não correspondia às necessidades da pátria; parecia até interessado em mantê-la atrás das outras nações americanas. Mas era indispensável que nos persuadíssemos de que os princípios são tudo e os homens nada. Não se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos; e abyssus abyssum invocat. Depois foi mostra-me outras salas. Eram todas alfaiadas com apuro. Mostrou-me as coleções de quadros, de moedas, de livros antigos, de selos, de armas; tinha espadas e floretes, mas confessou que não sabia esgrimir. Entre os quadros vi um lindo retrato de mulher. Perguntei-lhe quem era. Benedito sorriu.

- Não irei adiante, disse eu sorrindo também.

- Não, não há que negar, acudiu ele; foi uma moça de quem gostei muito. Bonita, não? Não imagina a beleza que era. Os lábios eram mesmo de carmim e as faces de rosa; tinha os olhos negros, cor da noite. E que dentes! Verdadeiras pérolas. Um mimo da natureza.

Em seguida, passamos ao gabinete. Era vasto, elegante, um pouco trivial, mas não lhe faltava nada. Tinha duas estantes, cheias de livros muito bem encadernados, um mapa-múndi, dois mapas do Brasil. A secretária era de ébano, obra fina; sobre ela, casualmente aberto, um almanak de Laemmert. O tinteiro era de cristal, - "cristal de rocha", disse-me ele, explicando o tinteiro, como explicava as outras coisas. Na sala contígua havia um órgão. Tocava órgão, e gostava muito de música, falou dela com entusiasmo, citando as óperas. os trechos melhores, e noticiou-me que, em pequeno, começara a aprender flauta; abandonou-a logo, - o que foi pena, concluiu, porque é, na verdade, um instrumento muito saudoso. Mostrou-me ainda outras salas, fomos ao jardim, que era esplêndido, tanto ajudava a arte à natureza, e tanto a natureza coroava a arte. Em rosa, por exemplo (não há negar, disse-me ele, que é a rainha das flores) em rosas, tinha-as de toda casta e de todas as regiões.

Saí encantado. Encontramo-nos algumas vezes, na rua, no teatro, em casa de amigos comuns, tive ocasião de apreciá-lo. Quatro meses depois fui à Europa, negócio que me obrigava à ausência de um ano. Ele ficou cuidando da eleição; queria ser deputado. Fui eu mesmo que o induzi a isso, sem a menor intenção política, mas com o único fim de lhe ser agradável; mal comparando, era como se lhe elogiasse o corte do colete. Ele pegou a ideia e apresentou-se. Um dia, atravessando uma rua de Paris, dei subitamente com o Benedito.

- Que é isto? exclamei.

- Perdi a eleição, disse ele, e vim passear à Europa.

Não me deixou mais. Viajamos juntos o resto do tempo. Confessou-me que a perda da eleição não lhe tirara a ideia de entrar no parlamento. Ao contrário, incitara-o mais. Falou-me de um grande plano.

- Quero vê-lo ministro, disse-lhe.

Benedito não contava com esta palavra, o rosto iluminou-se-lhe; mas disfarço depressa.

- Não digo isso, respondeu. Quando, porém, seja ministro, creia que serei tão somente ministro industrial. Estamos fartos de partidos; precisamos desenvolver as forças vivas do país, os seus grandes recursos. Lembra-se do que nós dizíamos na diligência de Vassouras? O Brasil está engatinhando; só andará com estradas de ferro.

- Tem razão, concordei um pouco espantado. E por que é que eu mesmo vim à Europa? Vim cuidar de uma estrada de ferro. Deixo as coisas arranjadas em Londres.

- Sim?

- Perfeitamente.

Mostrei-lhe os papéis. Ele viu-os deslumbrado. Como eu tivesse então recolhido alguns apontamentos, dados estatísticos, folhetos, relatórios, cópias de contratos, tudo referente a matérias industriais e lhos mostrasse, Benedito declarou-me que ia também coligir algumas coisas daquelas. E, na verdade, vi-o andar por ministérios, bancos, associações, pedindo muitas notas e opúsculos, que amontoava nas malas; mas o ardor com que o fez, se foi intenso, foi curto; era de empréstimo. Benedito recolheu com muito mais gosto os anexins políticos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um vasto arsenal deles. Nas conversas comigo repetia-os muita vez, à laia de experiência; achava neles grande prestígio e valor inestimável. Muitos eram de tradição inglesa, e ele os preferia aos outros, como trazendo em si um pouco da Câmara dos Comuns. Saboreava-os tanto que eu não sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele aparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, optaria por essas formas curtas, tão cômodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomáticas, que não forçam a reflexão, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.

Regressamos juntos; mas eu fiquei em Pernambuco, e tornei mais tarde a Londres, donde vim ao Rio de Janeiro, um ano depois. Já então Benedito era deputado. Fui visitá-lo; achei-o preparando o discurso de estreia. Mostrou-me alguns apontamentos, trechos de relatórios, livros de economia política, alguns com páginas marcadas, por meio de tiras de papel rubricadas assim: - Câmbio, Taxa das terras, Questão dos cereais em Inglaterra, Opinião de Stuart Mill, Erro de Thiers sobre caminhos de ferro, etc. Era sincero, minucioso e cálido. Falava-me daquelas coisas, como se acabasse de as descobrir, expondo-me tudo, ab ovo; tinha  a peito mostrar aos homens práticos da Câmara que também ele era prático. Em seguida, perguntou-me pela empresa; disse-lhe o que havia.

- Dentro de dois anos conto inaugurar o primeiro trecho da estrada.

- E os capitalistas ingleses?

- Que têm?

- Estão contentes, esperançados?

- Muito; não imagina.

Contei-lhe algumas particularidades técnicas, que ele ouviu distraidamente, - ou porque a minha narração fosse em extremo complicada, ou por outro motivo. Quando acabei, disse-me que estimava ver-me entregue ao movimento industrial; era dele que precisávamos, e a este propósito fez-me o favor de ler o exórdio do discurso que deveria proferir dali a dias.

- Está ainda em borrão, explicou-me; mas as ideias capitais ficam. E começou: "No meio da agitação crescente dos espíritos, do alarido partidário que encobre as vozes dos legítimos, permiti que alguém faça ouvir  uma súplica da nação. Senhores, é tempo de cuidar, exclusivamente, - notai que digo exclusivamente, - dos melhoramentos materiais do país. Não desconheço o que se me pode replicar; dir-me-eis que uma nação não se compõe só de estômago para digerir, mas de cabeça para pensar e de coração para sentir. Respondo-vos que tudo isso não valerá nada ou pouco, se ela não tiver pernas para caminhar; e aqui repetirei o que, há alguns anos, dizia eu a um amigo, em viagem pelo interior: o Brasil é uma criança que engatinha; só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro..."

Não pude ouvir mais nada e fiquei pensativo. Mais que pensativo, fiquei assombrado, desvairado diante do abismo que a psicologia rasgava aos meus pés. Este homem é sincero, pensei comigo, está persuadido do que escreveu. E fui por aí abaixo até ver se achava a explicação dos trâmites por que passou aquela recordação da diligência de Vassouras. Achei (perdoem-me se há nisto enfatuação), achei ali mais um efeito da lei da evolução, tal como a definiu Spencer, - Spencer ou Benedito, um deles.


Cognac: é um tipo de brandy francês, um destilado de vinho com denominação de origem controlada, produzido na região de Cognac, na França, seguindo regras estritas de dupla destilação em alambiques de cobre e envelhecimento mínimo de dois anos em carvalho francês, resultando em uma bebida rica em aromas e sabores complexos, apreciada pura ou em coquetéis.

Abyssus abyssum invocat: é uma frase em latim que significa "o abismo chama o abismo", vinda do Salmo 42 ou 41 e expressa a ideia de que uma falha ou profundidade leva a outra; ou que um desastre/problema atrai ou invoca outro, criando um ciclo contínuo de desgraça ou profundidade. É frequentemente usada para descrever situações onde a miséria, o desespero ou a falta se perpetuam.

Reforçando

Significado e Origem

Tradução: "O abismo chama o abismo" ou "O profundo clama ao profundo".

Origem Bíblica: A frase é uma citação do Salmo 42:7; uma passagem que fala de angústia profunda e da busca por Deus em meio ao sofrimento.

Sentido Figurado: Indica que uma dificuldade ou uma falta atrai outra, uma cascata de problemas ou um estado de desespero que chama por mais desespero.

Ab Ovo: desde o início; desde o princípio.


Conto de Machado de Assis retirado do livro Os Melhores Contos, seleção de Domício Proença Filho, 6ª Edição, Global Editora, São Paulo, Abril de 1991.

28 dezembro 2025

Tentação

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoas esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Os pelos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.


Conto de Clarice Lispector retirado do livro Felicidade Clandestina, Editora Nova Fronteira, 3ª Edição, Rio de Janeiro, 1981.

Cem Anos de Perdão

Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então, é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.

Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. "Aquele branco é meu." "Não, eu já disse que os brancos são meus." "Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes." Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.

Começou assim. Numa das brincadeiras de "essa casa é minha", paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.

Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

Então, não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel; vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.

Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela ainda é mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.

E, de repente - ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.

O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.

Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.

Foi tão bom.

Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.

Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.

Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.


Conto de Clarice Lispector retirado do livro Felicidade Clandestina, Editora Nova Fronteira, 3ª Edição, Rio de Janeiro, 1981.

27 dezembro 2025

Couraça da Caridade (98)

                           "Sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e da caridade." - Paulo.                          (I TESSALONICENSES, 5:8.)


Paulo foi infinitamente sábio quando aconselhou a couraça da caridade aos trabalhadores da luz.

Em favor do êxito desejável na missão de amor a que nos propomos, em companhia do Cristo, antes de tudo é indispensável preservar o coração.

E se não agasalharmos a fonte do sentimento nas vibrações do ardente amor, servidos por uma compreensão elevada nos círculos da experiência santificante em que nos debatemos na arena terrestre, é muito difícil vencer na tarefa que o Senhor nos confia.

A irritação permanente, diante da ignorância, adia as vantagens do ensino benéfico.

A indignação excessiva, perante a fraqueza, extermina os germes frágeis da virtude.

A ira frequente, no campo da luta, pode multiplicar-nos os inimigos sem qualquer proveito para a obra a que nos devotamos.

A severidade demasiada, à frente de pessoas ainda estranhas aos benefícios da disciplina, faz-se acompanhar de efeitos contraproducentes por escassez de educação do meio em que se manifesta.

Compreendendo, assim, que o cristão se acha num verdadeiro estado de luta, em que, por vezes, somos defrontados por sugestões da irritação  intemperante, da indignação inoportuna, da ira injustificada ou da severidade destrutiva, o apóstolo dos gentios receitou-nos a couraça da caridade, por sentinela defensiva dos órgãos centrais de expressão da vida.

É indispensável armar o coração de infinito entendimento fraterno para atender ao ministério em que nos empenhamos.

A convicção e o entusiasmo da fé bastam para começar honrosamente, mas para continuar o serviço, e terminá-lo com êxito, ninguém poderá prescindir da caridade paciente, benigna e invencível.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

22 dezembro 2025

Templários de ontem e de hoje

A mais poderosa das ordens de cavalaria se tornou igualmente, depois de seu brutal desaparecimento, a mais misteriosa. Hoje, ainda, os Templários continuam fascinando entre busca do Graal, esoterismo e caça ao tesouro.


"Ó filhos de Deus, é necessário que partam sem tardar em socorro de seus irmãos que habitam nos países do Oriente. Um povo vindo da Pérsia, os turcos, invadiu seu país. Por isso os exorto e lhes suplico para que partam em auxílio dos cristãos e rechacem esse povo nefasto para longe de nossos territórios. [Sejam] doravante cavaleiros de Cristo." É com estas palavras que em 1098 o papa Urbano II lança a aventura da primeira Cruzada. No ano seguinte, Jerusalém é retomada aos muçulmanos, conquista frágil que deve ser consolidada.

Foi então que, em 1118, Hugues de Payns, cavaleiro da região de Champagne, e oito de seus companheiros se propõem dedicar sua vida na proteção dos peregrinos que se dirigem à Terra Santa. Estabelecidos por Balduíno II, rei de Jerusalém, na mesquita de Al-Aqsa, edificada sobre parte das ruínas do templo de Salomão, esses "Pobres Cavaleiros de Cristo" recebem o apoio de Bernardo de Clairvaux, antes que o concílio de Troyes aprove a regra dessa "milícia de Deus".


Pobreza dos cavaleiros e poder financeiro da Ordem


A regra dos Templários, extraída da  regra cisterciense de São Bento, é marcada sobretudo por grande austeridade: os irmãos reconhecidos por seu hábito branco com uma cruz vermelha na frente, fazem os votos de obediência, pobreza e castidade. Devem assistir à missa todos os dias, vestir-se de modo simples e comer aos pares no mesmo prato.

Votados à defesa dos peregrinos e dos caminhos que conduzem à Terra Santa, os Templários tomam parte sempre mais ativa nos combates sangrentos em que se enfrentam cristãos e muçulmanos. A fim de desempenhar esse novo papel, os monges-soldados se cercam de numerosos auxiliares: capitães de exército, capelães e servidores. Na chefia da Ordem, o Grão-Mestre é assistido por um Conselho, o Capítulo e por oficiais. Os territórios protegidos e logo administrados pelos Templários são divididos em províncias. Desenvolve-se assim toda uma rede de comendadorias que são a um tempo praças fortes e áreas de cultivo, mas também "sucursais" encarregadas de recolher dinheiro destinado a financiar as operações no Oriente.

O ideal cavaleiresco e religioso dos Templários suscita tamanho respeito que a ordem se enriquece consideravelmente. Os donativos afluem e muitos jovens, oriundos das melhores famílias, abandonam tudo para aumentar as fileiras dessa piedosa cavalaria. No início do século XIV, não menos de duas mil comendadorias se espalham pelos reinos da Europa e até na Palestina, constituindo uma vasta e segura rede capaz de angariar e fazer circular somas consideráveis, de tal modo que os Templários se tornaram poderosos banqueiros, cuja fortuna não deixa de atiçar a cobiça.


Nas chamas da fogueira


Os reveses sofridos pelos francos na Terra Santa anunciam o fim dos Templários. Desde a perda definitiva da Palestina em 1291, de fato, não têm mais razão de existir e a ordem já se dedica quase somente a defender seus interesses financeiros. Isso para grande dano do rei da França Filipe, o Belo, a qual não esquecera que em 1250 os Templários haviam recusado emprestar o dinheiro do resgate exigido para libertar seu avô, São Luís, que havia caído nas mãos dos muçulmanos. Se o soberano cobiça as riquezas da Ordem, está igualmente animado por uma piedade sincera e não fica  insensível aos rumores persistentes que circulam, denunciando os Templários como hereges.

A questão é confiada a um dos fiéis conselheiros do rei, Filipe de Nogaret, que desencadeia, em vários pontos do reino, a mais espetacular operação policial jamais vista. No dia 13 de outubro de 1307, quase uma centena de dignatários da Ordem é detida, inclusive o Grão-Mestre Jacques de Molay. Sob tortura, todos confessam uma conduta ímpia e atos sacrílegos que os condenam. O Papa Clemente V tenta interceder em favor dos Templários, porquanto vários deles renegam suas confissões. Mas Filipe, o Belo, se mostra inflexível. Trinta e seis cavaleiros morrem por causa dos maus tratos que lhes são infligidos, 54 são queimados vivos em maio de 1310. O papado, cujo apoio até então nunca havia faltado, resolve dissolver a Ordem em 1312. Por sua vez, Jacques de Molay se retrata. Considerado como relapso - isto é, convencido de ter recaído na heresia ao renegar suas confissões - também é condenado à fogueira. Seu suplício teve lugar no dia 18 de março de 1314. Com ele desaparece nas chamas da Inquisição a Ordem religiosa e militar mais poderosa que a Idade Média conhecera, perigosa rival de um rei da França decidido em se apoderar de suas riquezas. Poderosa demais, sem dúvida, para desaparecer definitivamente; começa então a segunda vida dos Templários, subterrânea e lendária.


Sodomitas, maometanos e esotéricos


O processo dos Templários tinha o único objetivo de desacreditar a Ordem e, para tanto, nada poderia ser mais eficaz do que as mais loucas acusações, confirmadas por confissões perturbadoras. Alguns deles reconheceram, de fato, sob tortura, não somente cuspir na cruz, mas também se entregar à sodomia entre eles. Alguns evocaram o culto de um misterioso ídolo, Bafomet, cuja descrição varia de uma testemunha a outra: figura demoníaca, personagem andrógino, de madeira ou de metal, dele, no entanto, jamais foi encontrado vestígios em nenhuma comendadoria. Alguns pensam que a chave da abóbada da igreja de Saint-Merry de Paris representa, sob os traços de um demônio a um tempo barbudo e de fartos seios, Bafomet, e que seu nome seria a deformação daquele do profeta Maomé. De fato, é uma acusação recorrente feita aos Templários: sua demasiada intensa proximidade com os sarracenos. É verdade que elementos  arquitetônicos muçulmanos foram importados no Ocidente por intermédio dos Templários. Entre eles, motivos decorativos simbólicos e iniciáticos orientais que influenciaram a arte gótica nascente. A partir daí fazer os cavaleiros do Templo magos alquimistas versados nos segredos do Oriente, basta um passo.

E para fazer desses monges-soldados depositários de um grande segredo, não se deixa de constatar o estranho ritual que preside a entrada na Ordem, um ritual parecido certamente com a imposição da armadura ao cavaleiro, mas que deixa entrever muitos aspectos misteriosos. De fato, o futuro cavaleiro deve solicitar três vezes sua "entrada no Templo", antes de ser aceito. Cercado de doze Templários, pronuncia seus três votos e presta juramento de joelhos, depois de ter ouvido uma fórmula enigmática que o previne de que "de nossa Ordem, só vês a casca que está por fora"... Misteriosa igualmente a constante referência à simbologia dos números: os Templários fazem três votos, têm direito a três cavalos, três comunhões por ano, comem carne três vezes por semana... Quanto à figura geométrica do triângulo equilátero, que orna com frequência suas capelas, refletiria a simbologia medieval clássica ou um código ocultando uma mensagem esotérica?


Séculos de caça ao tesouro


Muita estranheza e mistério cerca realmente a ordem dos Templários para que ainda hoje não se acredite na dissimulação de um segredo que não deve ser revelado a qualquer custo. Quando de seu processo, o comendador do Templo de Laon, Gervais de Beauvais, não evocou porventura a existência de uma regra secreta conhecida somente por reduzido número de iniciados? Dessa pretensa regra secreta nada se saberá até o final do século XVIII, quando o bispo de Copenhague julga ter encontrado uma descrição dela num manuscrito conservado no Vaticano... Manuscrito que deixará que seja furtado! Em 1877, é um erudito alemão, Mertzdorff, que exuma de uma loja maçônica em Hamburgo um documento que nada mais seria que a famosa regra secreta dos Templários. Os especialistas confirmaram em seguida que se tratava de documento falso, mas assim mesmo fez correr muita tinta e alimentou abundantemente a imaginação de muitos.

Outro pretenso segredo fez correr mais tinta ainda e contribui para adensar a cortina de mistério que cerca os Templários: é o de seu fabuloso tesouro. A Ordem, é verdade, era imensamente rica - fortuna que não é estranha à sua ruína - e, se seus bens fundiários e imobiliários foram transferidos à Ordem rival dos Hospitalários, não foi encontrado tesouro algum em nenhuma das comendadorias. Advertidos do complô que se tramava contra eles, cavaleiros teriam podido fugir para pôr esse tesouro em lugar seguro? Muitos escavam ainda... Esperavam encontrá-lo no castelo de Gisors, naquele Chinon, onde foram detidos dignitários da Ordem, na região de Auvergne, na floresta do leste na região de Champagne, na Inglaterra... Não seria o tesouro dos Templários que o padre Saunières, pároco de Rennes-le-Château, que se tornou repentinamente rico, teria descoberto em 1886?


Uma posteridade ao mesmo tempo fantástica e trágica


Misturando ideal cavaleiresco das cruzadas, fascínio do Oriente, fervor religioso da Idade Média e isca do ganho, a lenda dos Templários suscitou um grande número de autoproclamados herdeiros da Ordem. O mais célebre é, sem dúvida, Bernard Fabré-Palaprat, um médico oriundo de uma loja maçônica parisiense, que fundou uma organização templária e se proclamou o 22º Grão-Mestre de uma Ordem que teria, segundo ele, atravessado os séculos na maior discrição, sob a autoridade de personalidades tão célebres como Bertrand du Guesclin ou o Grande Condé. No dia 18 de março de 1808, Fabré-Palaprat chegou até a organizar, com grande pompa, a comemoração do suplício de Jacques de Molay, obtendo para isso o aval das autoridades. Napoleão mandou cercar a cerimônia com um destacamento da infantaria, sem dúvida para controlar os atos desses singulares Templários.

O "boato Templário" alimentou mais recentemente uma nova lenda que faz dos cavaleiros do Templo os guardiões do Graal. Em 1982, três jornalistas anglo-saxões publicam O Enigma Sagrado, no qual afirmam - entre outras elucubrações - que a dinastia dos Merovíngios descenderia dos amores de Cristo por Maria Madalena e que uma Ordem secreta, o Priorado de Sião, fundado em 1099 durante a primeira cruzada, seria o guardião do santo Graal. O próprio Priorado de Sião reaparece em 2003 no livro Código da Vinci, de Dan Brown. O Priorado estaria na origem dos Templários, encarregados de preservar um estrondoso segredo que ameaçaria a cristandade (sempre os amores  comprometedores de Jesus pela bela Maria Madalena!). Estranha sociedade secreta, de fato, esse Priorado de Sião, nascido da imaginação de certo Pierre Plantard, iluminado e mitômano, e cujos estatutos de associação pela lei de 1901 foram registrados no dia 7 de maio de 1956 (e não em 1099!) numa subprefeitura da Alta Saboia...

Em torno da lenda - ou das lendas - dos Templários constituiu-se também considerável número de seitas; a mais tristemente célebre delas é a OTS, ou Ordem do Templo Solar, fundada em 1984 por Joseph Di Mambro e um médico belga, Luc Jouret. Supondo estar inscrita na continuidade da cavalaria espiritual do Templo, composto por fanáticos, entrou na história em 1994 com o suicídio coletivo de 48 de seus membros que acreditavam, uma vez purificados pelo fogo, tornar-se autênticos "mestres secretos do Templo"...

Desse modo, uma Ordem perfeitamente pública fundada por cavaleiros íntegros, não deixou de suscitar, no decorrer dos séculos, sociedades secretas e às vezes perigosas, apresentando-se como guardiões dela, e hoje ainda continua a alimentar muitos mitos.


A MALDIÇÃO DOS TEMPLÁRIOS

"Papa Clemente, juiz iníquo e cruel carrasco, cavaleiro Guillaume de Nogaret, rei Filipe, antes de decorra um ano eu os convoco a comparecer perante o tribunal de Deus. Sejam malditos, vocês e sua descendência!" Essas imprecações, pronunciadas contra aqueles que haviam decretado sua perdição, Jacques de Molay as proferiu enquanto caminhava para o suplício. Palavras ameaçadoras e premonitórias: 42 dias depois, Clemente V morria; depois se seguiria a vez de Guillaume de Nogaret, sem dúvida envenenado. Filipe, o Belo, ferido num acidente de caça alguns meses mais tarde, juntou-se aos outros dois na morte no dia 29 de dezembro de 1314. Se seus três filhos reinaram, nenhum deles teve descendência, de modo que o ramo direto dos Capetíngios se extinguiu. Acaso da história ou cumprimento da maldição dos Templários, o ramo dos Valois desaparecerá também com três irmãos que reinarão  sucessivamente sem posteridade, exatamente como os Bourbons diretos, porquanto nenhum dos filhos de Luís XVI, de Luís XVIII e de Carlos X chegou a reinar.


UMA REGRA SECRETA E HERÉTICA

Extrato da falsa regra secreta revelada por Mertzdorff no século XIX:

"Art. 5.6.7. Como é necessário assegurar-se acerca das pessoas aptas a receber a iniciação. Mostrar-lhes a insuficiência da regra comum, atraí-los para fora da [...] Igreja, cujo ensinamento é vazio. A Igreja não passa da sinagoga do Anticristo. Os eleitos, porém, se elevam nas alturas da Verdade.

Art. 11. Ritual de recepção dos eleitos; juramento de guardar o segredo da Ordem; a menor indiscrição será punida com a morte. O preceptor beijará o neófito sucessivamente na boca, para lhe transmitir o sopro, no peito sagrado, que comanda a força criadora, no umbigo e, finalmente, no membro viril, imagem do princípio criador masculino.

Art. 12. Ato de fé em Deus criador e em seu filho que não nasceu, não morreu, não foi crucificado e não ressuscitou. [...]

Art.13. O neófito calcará a cruz aos pés e cuspirá nela, em seguida receberá a túnica branca com o cinto.

Art. 16. Os estatutos secretos [...] jamais serão colocados nas mãos de nenhum irmão."


Th. Mertzdorff, Die Geheimstatuten des Ordens der 

Tempelherren, Halle, 1877,

citado por P.A. Riffard, L'Esotérisme,

Paris, Robert Laffont, 1990.


NAS ORIGENS DA FRANCO-MAÇONARIA?

Quando no decorrer do século XVIII, a franco-maçonaria se difunde na Europa, uma lenda circula, contando que Jacques de Molay, vendo-se perdido, designou seu sobrinho, o conde Beaujeu, para sucedê-lo. Com alguns companheiros, que haviam furado o cerco dos soldados do rei, este se teria refugiado na Escócia, a fim de perpetuar as tradições templárias. A dinastia dos Stuart teria em seguida herdado esse encargo. Ora, foi provavelmente Jaime II Stuart que, na época de seu exílio na França a partir de 1688, teria introduzido a franco-maçonaria no continente. Para alguns, o elo se fecha: os franco-maçons são os Templários dos novos tempos. Essa tese, hoje refutada, foi particularmente defendida por um barão alemão, Karl von Hund, que funda em 1751 a Estrita Observância Templária, cujos rituais e graus se inspiram na Ordem de Templo. Esse rito será em seguida assumido pelo Rito Escocês Retificado e pelo Rito Antigo e Aceito, ambos ainda praticados e cujo 18º grau, o de cavaleiro Kadosh, "relembra a Ordem dos Templários e nela se inspira".


Texto retirado da Revista Sociedades Secretas - Volume II, de Jean-François Signier e Renaud Thomazo, Editora Larousse, São Paulo, 2008.

21 dezembro 2025

Trecho 55

Por mais que pertença, por alma, à linhagem dos românticos, não encontro repouso senão na leitura dos clássicos. A sua mesma estreiteza, através da qual a clareza se exprime, me conforta não sei de quê. Colho neles uma impressão alacre de vida larga, que contempla amplos espaços sem os percorrer. Os mesmos deuses pagãos repousam do mistério.

A análise sobrecuriosa das sensações - por vezes das sensações que supomos ter -, a identificação do coração com a paisagem, a revelação anatômica dos nervos todos, o uso do desejo como vontade e da aspiração como pensamento - todas estas coisas me são demasiado familiares para quem em outrem me tragam novidade, ou me deem sossego. Sempre que as sinto, desejaria exatamente porque as sinto, estar sentindo outra coisa. E, quando leio um clássico, essa outra coisa é-me dada.

Confesso-o sem rebuço nem vergonha... Não há trecho de Chateaubriand ou canto de Lamartine - trechos que tantas vezes parecem ser a  voz do que eu penso, cantos que tanta vez parecem ser-me ditos para conhecer - que me enleve e me erga como um trecho de prosa de Vieira ou uma ou outra ode daquele nossos poucos clássicos que seguiram deveras a Horácio.

Leio e estou liberto. Adquiro objetividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a  grande clareza do mundo externo, toda ela notável, o sol que vê todos, a lua que malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que acabam em mar, a solidez negra das árvores que acenam verdes em cima, a paz sólida dos tanques das quintas, os caminhos tapados pelas vinhas, nos declives breves das encostas.

Leio como quem abdica. E, como a coroa e o manto régios nunca são tão grandes como quando o Rei que parte os deixa no chão, deponho sobre os mosaicos das antecâmaras todos os meus triunfais do tédio e do sonho, e subo a escadaria com a única nobreza de ver.

Leio como quem passa. E é nos clássicos, nos calmos, no que, se sofrem, o não dizem, que me sinto sagrado transeunte, ungido peregrino contemplador sem razão do mundo sem propósitos, Príncipe do Grande Exílio, que deu, partindo-se, ao último mendigo, a esmola extrema da sua desolação.


Trecho 55 do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, Companhia das Letras/Editora Schwarcz, São Paulo, 2001, 4ª Edição.

20 dezembro 2025

A Palavra da Cruz (97)

 "Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós que somos salvos é o poder de Deus." - Paulo. (I CORÍNTIOS, 1:18.)


A mensagem da cruz é dolorosa em todos os tempos.

Do Calvário desceu para o mundo uma voz, a princípio desagradável e incompreensível.

No martirológio do Mestre situavam-se todos os argumentos de negação superficialmente absoluta.

O abandono completo dos mais amados.

A sede angustiosa.

Capitulação irremediável.

Perdão espontâneo que expressava humilhação plena.

Sarcasmo e ridículo entre ladrões.

Derrota sem defensiva.

Morte infamante.

Mas o Cristo usa o fracasso aparente para ensinar o caminho da Ressurreição Eterna, demonstrando que o "eu" nunca se dirigirá para Deus, sem o aprimoramento e sem a sublimação de si próprio.

Ainda hoje, a linguagem da cruz é loucura para os que permanecem interminavelmente no círculo de reencarnações de baixo teor espiritual; semelhantes criaturas não pretendem senão mancomunar-se com a morte, exterminando as mais belas florações do sentimento. Dominam a muitos, incapazes do próprio domínio, ajuntam tesouros que a imprudência desfaz e tecem fios escuros de paixões obcecantes em que sucumbem, vezes sem conto, à maneira da aranha encarcerada nas próprias teias.

Repitamos a mensagem da cruz ao irmão que se afoga na carne e ele nos classificará à conta de loucos, mas todos nós, que temos sido salvos de maiores quedas pelos avisos da fé renovadora, estamos informados de que, nos supremos testemunhos segue o discípulo para o Mestre, quanto o Mestre subiu para o Pai, na glória oculta da crucificação.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Trecho 45 do Livro do Desassossego

Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira de tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino...


Trecho do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, Editora Companhia das Letras/Editora Schwarcz, São Paulo, 4ª Edição,2001.

14 dezembro 2025

Além dos Outros (96)

 "Não fazem os publicanos também o mesmo?" - Jesus. (MATEUS, 5:46.)


Trabalhar no horário comum irrepreensivelmente, cuidar dos deveres domésticos, satisfazer exigências legais e exercitar a correção de proceder, fazendo o bastante na esfera das obrigações inadiáveis, são tarefas peculiares a crentes e descrentes na senda diária.

Jesus, contudo, espera algo mais do discípulo.

Correspondes aos impositivos do trabalho diuturno, criando coragem, alegria e estímulo, em derredor de ti?

Sabes improvisar o bem, onde outras pessoas se mostraram infrutíferas?

Aproveitas, com êxito, o material que outrem desprezou por imprestável?

Aguardas, com paciência, onde outros desesperaram?

Na posição de crente, conservas o espírito de serviço, onde o descrente congelou o espírito de ação?

Partilhas a alegria de teus amigos, sem inveja e sem ciúme, e participas do sofrimento de teus adversários, sem falsa superioridade e sem alarde?

Que dás de ti mesmo no ministério da caridade?

Garantir o continuísmo da espécie, revelar utilidade geral e adaptar-se aos movimentos da vida são característicos dos próprios irracionais.

O homem vulgar, de muitos milênios para cá, vem comendo e bebendo, dormindo e agindo sem diferenças fundamentais, na ordem coletiva. De vinte séculos a esta parte, todavia, abençoada luz resplandece na Terra com os ensinamentos do Cristo, convidando-nos a escalar os cimos da espiritualidade superior. Nem todos a percebem, ainda, não obstante envolver a todos. Mas, para quantos se felicitam em suas bênçãos extraordinárias, surge o desafio do Mestre, indagando sobre o que de extraordinário estamos fazendo.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

08 dezembro 2025

Victor, o "selvagem de Aveyron"

O "menino selvagem" Victor de Aveyron é um dos casos mais conhecidos de seres humanos  criados livres em ambientes selvagens. Provavelmente abandonado numa floresta aos 4 ou 5 anos, foi objeto de curiosidade e provocou discussões acaloradas principalmente na França, onde o caso ocorreu.

Sua história oficial começa em 1797, quando um menino inteiramente nu, que fugia do contato com as pessoas, foi visto pela primeira vez na floresta de Lacaune. Em 9 de janeiro de 1800 foi registrado seu aparecimento num moinho em Saint-Sernein, distrito de Aveyron. Tinha a cabeça, os braços e os pés nus; farrapos de uma velha camisa cobriam o resto do corpo. Era um menino de cerca de 12 anos de idade, media 1,36m, tinha a pele branca e fina, rosto redondo, olhos negros e fundos, cabelos castanhos e nariz comprido e aquilino. Sua fisionomia foi descrita como graciosa; sorria involuntariamente e seu corpo apresentava a particularidade de estar coberto de cicatrizes.

Victor não pronunciava nenhuma palavra e parecia não entender nada do que falavam com ele. Apesar do rigoroso inverno europeu, rejeitava roupas e também o uso de cama, dormindo no chão sem colchão. Quando procurava fugir, locomovia-se apoiado nas mãos e nos pés, correndo como os animais quadrúpedes.


Estudo sociológico do caso

Alguns médicos, como os franceses Esquirol (1772-1840) e Pinel (1745-1826), diagnosticaram o menino selvagem como idiota (nomenclatura que hoje corresponde à deficiência mental grave). Talvez por essa razão tenha sido abandonado pelos pais.

O médico psiquiatra Jean-Marie Gaspard Itard, diretor de um instituto de surdos-mudos, não compartilhava da opinião dos colegas. Propôs uma questão: quais as consequências da privação do convívio social e da ausência absoluta da educação social humana para a inteligência de um adolescente que viveu assim, separado de indivíduos de sua espécie? Ele acreditava que a situação concreta de abandono e afastamento da civilização explicava o comportamento diferente do menino Victor, contrapondo-se ao diagnóstico de deficiência mental para o caso.

Em seu livro A educação de um homem selvagem, publicado em 1801, Itard apresenta seu trabalho com o menino selvagem de Aveyron, descrevendo as etapas de sua educação: ele já é capaz de sentar-se convenientemente à mesa, tirar a água necessária para beber, levar ao seu benfeitor as coisas de que necessita; diverte-se ao empurrar um pequeno carrinho e começa também a ler. Cinco anos mais tarde já fabricava pequenos objetos e podava as plantas da casa. A partir desses resultados Itard reforçou sua tese de que os hábitos selvagens e a aparente deficiência mental iniciais eram apenas e tão-somente resultados de uma vida afastada de seus semelhantes e da civilização.

Acompanhando de perto e trabalhando vários anos com Victor para educá-lo, Itard formula a hipótese de que a maior parte das deficiências intelectuais e sociais não é inata, mas tem sua origem na ausência da socialização, na falta de comunicação com os semelhantes, principalmente pela palavra. Aproximando-se da visão sociológica dos fatos sociais, o pesquisador concluiu que o isolamento social prejudica a sociabilidade do indivíduo. E a sociabilidade é a base da vida em sociedade. Os estudos de Itard reforçam um dos fundamentos da Sociologia: os fatos sociais, embora exteriores, são introjetados pelo indivíduo e exercem sobre ele um poder coercitivo, já que determinam seu comportamento.


Texto retirado do livro Introdução à Sociologia, de Pérsio Santos de Oliveira, Editora Ática, 20ª Edição, São Paulo, 2001.