03 agosto 2022

Homem invisível no mundo invisível

 Vejo o mundo inteiro

Numa espécie tosca de carrossel

Cada lugar um bicho

Corrida maluca pra pagar o aluguel


Nesse consumismo

Plastificado o rosto, amor, religião

Carregando status

Num mundo invisível angustiado cidadão


Parem esse mundo que eu quero descer

Tudo é dinheiro e o amor pra onde vai

Quero um abraço dos meus bons amigos, pois

Nenhum dinheiro compra um verdadeiro

Mestre de luz, saúde e proteção

Seus pensamentos são a sua condição

Se você não acredita no mundo invisível

Como é que explica se te toca a minha voz

Se a minha voz te toca


Quando se está cansado

Repare que tudo acontece pra te testar

Sua dignidade

Mantenha sua inteligência, caráter, persistência

Mestres de luz conduzindo cada um de nós

Dessa nossa vida levaremos apenas nossa poesia


Parem esse mundo que eu quero descer...


Música de Vanessa da Mata que faz parte do seu CD Segue o Som, lançado pela Gravadora Sony Music em parceria com o selo dela intitulado Jabuticaba no ano de 2014.

31 julho 2022

Andarilhos

Andava pela estrada, sozinho. Um sol de rachar e os dois andando, sem parar. E andando, resolvidos, iam os três desenxabidos.

Os quatro não andavam à toa: buscavam uma terra boa.

Com os pés doendo de tanto andar, os cinco pararam para descansar.

E os seis se deitaram, dormiram, sonharam...

No meio da noite, os sete acordaram e se arrepiaram.

Dezesseis olhos arregalados, brilhando, viram o rio iluminado, o chão iluminado.

Cavando a terra, dezoito mãos traziam com a respiração ofegante, dezenas de pedrinhas brilhantes.

Depois de muito cavar, contar e reunir, os dez começaram a discutir.

O centro da discussão era este: onze andarilhos podem suportar tantos brilhos?

Uma dúzia de ideias diferentes, uma ou outra interessante, mas nenhuma ideia brilhante.

Com as palavras doendo de tanto falar, os treze resolveram si-len-ci-ar.

Deitados, silenciosos, os quatorze buscavam uma nova rima, quando olharam para cima...

Boquiabertos, ao som de quinze admirações, descobriram estrelas cadentes em grandes porções e proporções.

E aquelas dezesseis imaginações tropeçaram nas mesmas conclusões...

"As pedras são farelos de estrelas", dezessete vezes pensaram e dezessete vozes exclamaram.

E declararam os dezoito andarilhos, acostumados a vagar de déu em déu: "Essa terra tem parentesco com o céu."

E dezenove caminheiros decidiram fincar pé e se estabelecer: "De agora em diante, aqui vamos morar, aqui vamos viver."

Vinte vezes festejavam. Quando uma voz  desfestejou: "Continuarei caminhando. Adeus. Já vou."

E este que se foi, ligeirinho!, posso dizer apenas que ele...

Andava pela estrada, sozinho.


Conto de Francisco Marques (Chico Bonecos) publicado na Revista Nova Escola, Fundação Victor Civita, Editora Abril, Março de 2000.


O amigo de Juliana

    A Juliana tinha um amigo chamado Fungo. Ele morava na casa de bonecas e conseguia até ajeitar-se bem nas pequenas cadeiras e na caminha azul, apesar de ser mais gordo que elas.

    Fungo era talentoso. Escrevia poemas, histórias e desejava ser um grande escritor, porém sentia falta de um mestre. Juliana, definitivamente não podia ser esse mestre, pois aprendera a escrever havia pouco tempo. Além do mais, ultimamente a amizade deles andava estremecida, porque Juliana dava mais atenção às bonecas que a ele. Fungo não entendia qual era a graça que ela via naquelas bonecas mudas, sem cultura e sem sentimentos. Fungo suspeitava que fossem mesmo burras, principalmente aquele boneco Tob, que parecia uma montanha de músculos inúteis, pois nem se trocar sozinho ele sabia. Era uma dependência total, um vexame, e Juliana é que precisava trocá-lo toda vez.

    Numa certa madrugada, em que Fungo estava sem sono, viu jogado no chão o caderno de Juliana com uma redação assim:


Minha familha

Minha familha é legal. Meu pai

chama Alfredo e minha mãe

chama Denize. Eu tenho 6 ano.


    Fungo leu e achou pobre, mal escrito, com cinco erros de português, além da falta de estilo. Num ato de ousadia arrancou a página e reescreveu a redação do jeito que ele achava que ficava melhor:


Minha Família

Minha família, com muito orgulho, é a mais linda que existe.

Meu pai, de nome Alfungo, é bonito, forte, tem orelhas pontudas, dentes enormes, belíssimos cabelos verdes e faz um lindo par com minha mãe, Fenize, que apesar do rabo curto, é tão incrivelmente peluda, que tem pelos até nos cotovelos e na ponta do nariz. Eu ainda sou jovem, tenho apenas 190 anos.


    Fungo foi dormir orgulhosíssimo de sua redação, feliz com a chance de receber comentários da professora de Português de Juliana, essa sim, uma verdadeira mestra.

    No dia seguinte, a amiga voltou furiosa da escola e proibiu Fungo de escrever uma linha que fosse em seus cadernos, pois os colegas da classe tinham achado que ela estava maluca por escrever tais bobagens. Chateado, Fungo recolheu-se à sua casinha e esperou anoitecer.

    Quando Juliana finalmente adormeceu, ele foi silenciosamente até a mochila, apanhou o caderno da menina e leu o comentário da professora:

    "Redação muito criativa, cheia de imaginação e bem escrita, precisa apenas caprichar mais na letra. Nota dez."

    Fungo adorou, achou o máximo e pensou até em entrar para a escola. Claro, só quando a Juliana se acalmasse. Talvez pudesse ficar na classe dentro da mochila, já que os adultos com certeza não iriam entender um monstro culto como ele querendo assistir aula.


Conto de Eva Furnari publicado na Revista Nova Escola, Fundação Victor Civita, Editora Abril, Maio de 2000.

A lenda de Órion

    Dizem que na Grécia Antiga, muito tempo atrás, um jovem caçador chamado Órion apaixonou-se por uma princesa de nome Mérope. Era filha do rei Enopião, com quem morava numa ilha do Mar Mediterrâneo. Dona de grande beleza, Mérope era muito amada pelo pai, que impedia os rapazes de se aproximarem da filha e namorá-la. Acontece que Órion não era um jovem qualquer, mas filho do deus grego Poseidon, conhecido na Roma Antiga como Netuno. Muito poderoso, esse deus reinava sobre os mares. Com receio de deixar Poseidon zangado, Enopião permitiu a Órion achegar-se à filha, com uma condição: devia capturar todos os animais ferozes que infestavam seu reino. Sendo um hábil caçador, nosso herói aceitou a proposta, pedindo a mão da princesa como prêmio pela façanha. Enopião nada respondeu e Órion interpretou seu silêncio como consentimento. Durante um bom tempo o caçador enfrentou as feras, que por fim conseguiu aprisionar e transportar para outra ilha, desabitada. Terminada a missão, ele imaginou que pudesse, enfim, casar-se com Mérope. Contudo, os ciúmes de Enopião com relação à filha falaram mais alto e ele escondeu-a do noivo num castelo. Inconformado, Órion começou a trazer os animais  caçados de volta à ilha de Enopião. Numa de suas viagens foi capturado pelos soldados do rei, que o cegaram e em seguida o abandonaram numa praia deserta. Felizmente, o caçador cego foi encontrada por um ciclope, gigante mitológico de um olho só, que o conduziu até Aurora, a deusa do amanhecer. Apaixonada que era por Órion, ela restituiu-lhe a visão, fazendo-o olhar para onde o sol nasce. Porém, mesmo com a vista totalmente recuperada, o caçador não conseguiu casar-se com Mérope.

    Tempos depois apaixonou-se por Ártemis, a deusa da caça, conhecida entre os romanos como Diana. Mas Ártemis tinha um irmão gêmeo, Apolo, muito ciumento dela. Numa bela tarde, os dois irmãos saíram para um torneio de arco e flecha. No caminho, Apolo desafiou Ártemis a acertar um alvo no mar, perto da linha do horizonte. Excelente arqueira, Ártemis aceitou prontamente o desafio e retesou o arco na direção indicada pelo irmão. Mal sabia ela estar apontando para Órion, que nadava à distância e foi trespassado por sua flecha certeira. No dia seguinte, andando a beira-mar, a deusa encontrou o corpo morto do amado, com uma de suas flechas cravadas no coração. Pôs-se a chorar, mas era tarde, o mal estava feito. Penalizado com sua dor, Zeus, o maior dos deuses gregos, ofereceu-se para transformar Órion numa constelação. Ártemis aceitou a oferta porque assim, pelo menos, poderia ver seu amado no céu. A mesma sorte não coube aos dois cães fiéis de Órion, que ganiam desesperados ao ver seu dono brilhando no céu noturno. Assim, também eles foram transformados por Zeus em constelações. São elas Cão maior e Cão Menor, que podem ser vistas no céu junto ao gigante caçador nas noites quentes de verão do hemisfério Sul.


Lenda grega recontada por Walmir Cardoso; retirada da Revista Nova Escola, Fundação Victor Civita, Editora Abril, Junho de 1999.

A história sai do armário

    Já em 1906, o médico carioca Pires de Almeida, autor do pioneiro estudo A libertinagem no Rio de Janeiro, assim se referia à homossexualidade: "Excluída como objeto de estudo até o presente dia, a pederastia no Brasil tem atravessado os quatro séculos de nossa história, não obstante carecer de observação e pesquisa". De fato, chamada também de sodomia e pecado nefando, isto é, que não pode ser pronunciado (e muito menos praticado!), a homossexualidade vem sendo, nos últimos três mil anos da história ocidental, vítima de cruel preconceito, motivado em grande parte pela ideologia machista do patriarcado, que se escorando em traduções equivocadas dos textos bíblicos, considera o amor entre pessoas do mesmo sexo como um pecado/crime mais grave do que matar mãe ou violentar crianças, equiparado ao regicídio e à traição nacional. Prevalece até hoje um obscurantista complô do silêncio, imposto pela cruz e pela espada, impedindo que este tema mereça a devida atenção dos estudiosos, mesmo daqueles historiadores interessados na vida privada e na história das mentalidades.

    Estudar a homossexualidade numa perspectiva histórica representa mais do que um simples olhar curioso sobre as condutas pecaminosas de nossos antepassados. Reconstituir a história gloriosa da pederastia na Grécia antiga, por exemplo, traz à baila um de nossos mais melindrosos tabus contemporâneos: as relações sexo-afetivas intergeracionais (pederastia). A inequívoca bissexualidade de Alexandre Magno mereceu grande destaque na imprensa internacional, quando do recente lançamento do filme, gerando o absurdo protesto de machistas gregos, ultrajados com a homoafetividade do maior general da antiguidade. Estudos profundos sobre a homossexualidade no Mediterrâneo, no seio do clero medieval, entre os mouros na Península Ibérica etc., obrigam-nos à revisão de um fantasma do imaginário europeu moderno: a acusação, baseada tão somente no preconceito, de que a homossexualidade teria sido a causa da queda dos principais impérios da antiguidade - ilação que não conta com qualquer base empírica de sustentação a não ser a homofobia - esta doentia intolerância aos homossexuais. Pesquisas recentes estão descontruindo outro mito bastante caro a certos militantes do movimento negro, comprovando a existência do homoerotismo também na África pré-colonial, assim como entre os ameríndios e demais populações tribais.

    Reconstruir a história secreta dos sodomitas, fanchonos e fanchonas, pederastas, gays e lésbicas luso-brasileiros, assim como dos afro-ameríndios perseguidos pela Santa Inquisição e depois pelos doutores e delegados, a partir do século XIX, obriga-nos a refletir sobre nosso presente, na medida em que os amantes do mesmo sexo continuam sendo a minoria social mais odiada no Brasil contemporâneo, com uma rejeição de até 80 por cento entre as elites formadoras de opinião. A censura ao beijo de dois rapazes em popular novela brasileira comprova a brutalidade dessa intolerância, devendo servir de estímulo aos historiadores para retirar do armário nossa história secreta do "amor que não ousava dizer o nome". Tais pesquisas hão de confirmar que, de fato, o amor não tem sexo, e que a humanidade só atingirá um grau superior de civilização quando todos nos reconhecemos como membros de uma única e mesma espécie humana.


Texto de Luiz Mott. Professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutor em Antropologia e decano do movimento homossexual brasileiro. Autor de 15 livros e diversos artigos sobre inquisição, escravidão, religião popular, homossexualidade e direitos humanos. Retirado da Revista de História da Biblioteca Nacional, Ano 1, nº 6, Dezembro de 2005.

30 julho 2022

O caso do espelho

    Era um homem que não sabia quase nada. Morava longe, numa casinha de sapé esquecida nos cafundós da mata

    Um dia, precisando ir à cidade, passou em frente a uma loja e viu um espelho pendurado do lado de fora. O homem abriu a boca. Apertou os olhos. Depois gritou, com o espelho nas mãos:

    - Mas o que é que o retrato de meu pai está fazendo aqui?

    - Isso é um espelho - explicou o dono da loja.

    - Não sei se é espelho ou se não é, só sei que é o retrato do meu pai.

    Os olhos do homem ficaram molhados.

    - O senhor... conheceu meu pai? - perguntou ele ao comerciante.

    O dono da loja sorriu. Explicou de novo. Aquilo era só um espelho comum, desses de vidro e moldura de madeira.

    - É não! - respondeu o outro. - Isso é o retrato do meu pai. É ele sim! Olha o rosto dele. Olha a testa. E o cabelo? E o nariz? E aquele sorriso meio sem jeito?

    O homem quis saber o preço. O comerciante sacudiu os ombros e vendeu o espelho, baratinho.

    Naquele dia, o homem que não sabia quase nada entrou em casa todo contente. Guardou, cuidadoso, o espelho embrulhado na gaveta da penteadeira.

    A mulher ficou só olhando.

    No outro dia, esperou o marido sair para trabalhar e correu para o quarto. Abrindo a gaveta da penteadeira, desembrulhou o espelho, olhou e deu um passo atrás. Fez o sinal da cruz tapando a boca com as mãos. Em seguida, guardou o espelho na gaveta e saiu chorando.

    - Ah, meu Deus! - gritava ela desnorteada. - É o retrato de outra mulher! Meu marido não gosta mais de mim! A outra é linda demais! Que olhos bonitos! Que cabeleira solta! Que pele macia! A diaba é mil vezes mais bonita e mais moça do que eu!

    - Quando o homem voltou, no fim do dia, achou a casa toda desarrumada. A mulher, chorando sentada no chão, não tinha feito nem a comida.

    - Que foi isso, mulher?

    - Ah, seu traidor de uma fica! Quem é aquela jararaca lá no retrato?

    - Que retrato? - perguntou o marido, surpreso.

    - Aquele mesmo que você escondeu na gaveta da penteadeira!

    O homem não estava entendendo nada.

    - Mas aquilo é o retrato do meu pai!

    Indignada, a mulher colocou as mãos no peito:

    - Cachorro sem-vergonha, miserável! Pensa que eu não sei a diferença entre um velho lazarento e uma jabiraca safada e horrorosa?

    A discussão fervia feito água na chaleira.

    - Velho lazarento coisa nenhuma! gritou o homem, ofendido.

    A mãe da moça morava perto, escutou a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. Encontrou a filha chorando feito criança que se perdeu e não consegue mais voltar pra casa.

    - Que é isso, menina?

    - Aquele cafajeste arranjou outra!

    - Ela ficou maluca - berrou o homem, de cara amarrada.

    - Ontem eu vi ele escondendo um pacote na gaveta lá do quarto, mãe! Hoje, depois que ele saiu, fui ver o que era. Tá lá! É o retrato de outra mulher!

A boa senhora resolveu, ela mesma, verificar o tal retrato.

Entrando no quarto, abriu a gaveta, desembrulhou o pacote e espiou. Arregalou os olhos. Olhou de novo. Soltou uma sonora gargalhada.

- Só se for o retrato da bisavó dele! A tal fulana é a coisa mais enrugada, feia, velha, cacarenta, murcha, arruinada, desengonçada, capenga, careca, caduca, torta e desdentada que eu já vi até hoje!

E completou, feliz, abraçando a filha:

- Fica tranquila. A bruaca do retrato já está com os dois pés na cova!


Versão de conto popular por Ricardo Azevedo retirado da Revista Nova Escola, Fundação Victor Civita, Editora Abril, Maio de 1999.

Um comediógrafo sintonizado com o seu tempo

Do carnaval de rua a crises econômicas. Vários temas da vida da capital do Império foram levados aos palcos por Vasques. A vida teatral do Rio de Janeiro do século XIX era, sem dúvida, um de seus preferidos. Inspirado nela, escreveu Um bilhete! Um bilhete! Para o benefício do Graça (1862) e Por causa da Emília das Neves (1863), nas quais dava conta da realidade vivenciada por dois atores famosos - Eduardo José da Graça e Emília das Neves - cujos espetáculos provocavam um verdadeiro frisson na cidade.

Os tipos do Rio também eram assunto frequentes. Em Aí! Cara Dura! (1883), Vasques tratava de um personagem popular da cidade, versão do atual "cara-de-pau", ou seja, o esperto que tirava vantagem de tudo. Em Os Capoeiras (1886), entrava em cena uma questão que deixava os cariocas em sobressalto: a atuação das maltas de capoeiras. A volta ao mundo em 80 dias a pé (1886), baseada no romance de Júlio Verne, serviu como crítica bem humorada ao "mundinho" do Rio de Janeiro, suas ruas, problemas, situações sérias e hilariantes. Nessa peça, inclusive, a sonoplastia contou com a ajuda de Emiliano, um habitante das ruas da cidade que tinha especial habilidade para imitar o som de locomotivas que, por isso, recebeu o apelido "Estrada-de-Ferro". A política também era - desde aquele tempo - matéria para o riso. Em A questão anglo-brasileira (1863) e O Brasil e o Paraguai (1865) foram as relações brasileiras na região do Prata o tema privilegiado. Já  em Legalidade e ditadura (1892), Vasques elaborou uma crítica à política econômica do encilhamento e aos problemas que vinha trazendo à população do Rio.


Retirado do Revista de História da Biblioteca Nacional, Ano 1, nº 6, Dezembro de 2005.

Canal de Deus

É sempre abençoada a doação.

De qualquer forma que seja feita, ela atinge o destino, enriquecendo de alegria aquele a quem se dirige.

É melhor, porém, quando se faz acompanhar pela alegria do ofertante, pois que o felicita igualmente.

Há quem doe, como se estivesse desobrigando-se de um desagradável dever, assim como outrem que o faz assinalado por injustificável mágoa.

Existem pessoas que dão, especulando, e aguardam receber de volta algo melhor, da mesma forma que outras o fazem constrangidamente.

Seja a tua, a doação livre e rica de gozo, porquanto, da mesma maneira que ofertares, assim o receberás.

Observa a tua atitude quando dás.

Examina-a cuidadosamente e descobrirás, logo depois, outras oportunidades para prosseguires fazendo a tua dádiva, que pode ser o pequeno tempo de atenção que cedas a um aflito, ou a tua energia socorrista, ou ainda a tua provisão material...

O hábito de dar ensinar-te-á a bênção da autodoação ou contribuição plenificadora.

Quando dás com alegria, a Lei de Deus, perfeita em todas as suas manifestações, cumpre-se através de ti, pois que se exterioriza, clara e ardorosa, como expressão de fé e amor.

Assim, comparte, livre e incondicionalmente, a tua dádiva com o teu próximo, regozijando-te com a recompensa de paz, que fruirás.

A elevada ação de quem doa, dele faz um canal pelo qual passa o bem de Deus na direção de todas as criaturas.

Num mundo que se caracteriza pelas necessidades e pedidos, torna-se doador do bem incessante, feliz pela oportunidade de repartir.

A tua aura de generosidade se exterioriza e atrai todos aqueles que se encontram em carência, confiantes de que, na aspereza da luta que travam, não lhes faltará o socorro para tornarem-se completos.

Nada melhor do que ser canal de Deus.

Luta e insiste a fim de prosseguires como instrumento da Divindade, atingindo o clímax, quando te tornares maleável e de fácil acesso para a finalidade do Amor.


Retirado do livro Momentos de Esperança; Divaldo Franco pelo Espírito Joanna de Ângelis; Livraria Espírita Alvorada Editora, Salvador, 3ª Edição, 2014.

29 julho 2022

O Leão de Nemeia

    Era uma vez um homem chamado Anfitrião, que vivia em Tebas, cidade da Grécia Antiga. Ele era casado com Alcmena, neta de Perseu. Tão linda era Alcmena, que Zeus, o poderoso deus dos deuses gregos, caiu de amores por ela. Alcmena, porém,  era fiel ao marido. Mas, um belo dia, Anfitrião teve de viajar por alguns dias e não avisou à mulher quando ia voltar. Aproveitando-se disso, Zeus assumiu a forma física do esposo e passou a viver com Alcmena como se fossem casados.

    Algum tempo depois, ao tomar conhecimento de que Alcmena estava grávida, Zeus, imaginando que o bebê fosse seu filho, declarou que o próximo descendente de Perseu seria o soberano da Grécia. Porém, antes que Alcmena tivesse seu nenê, uma artimanha de Hera, a ciumenta esposa de Zeus, fez nascer antes outra criança que tinha o sangue de Perseu - Euristeu - que então tornou-se rei.

    Logo em seguida Alcmena deu à luz não um, mas dois bebês: Hércules, filho de Zeus, e Íficles, filho de Anfitrião. Quando os bebês tinham oito meses de vida, a deusa Hera, morrendo de ciúmes de Alcmena e do filho que ela tinha tido com seu amado, decidiu eliminar o pequeno Hércules mandando colocar em seu berço duas imensas serpentes. Felizmente, o bebê já tinha a força de um semideus e deu cabo dos dois bichos com as próprias mãozinhas!

    Anfitrião e Alcmena deram a Hércules e Íficles a melhor educação que se podia ter na época: eles aprenderam a dirigir carruagens, a usar o arco e flecha, a usar a lança e a tocar lira. Aos 18 anos, Hércules destacava-se entre todo os outros rapazes, por ser de longe o mais alto e o mais forte. Nunca errava uma flechada ou um golpe de lança e seu olhar resplandecia. Com o tempo, tornou-se um herói que todos chamavam quando precisavam de proteção ou de alguém que lhe garantisse o sucesso numa luta. Foi depois de uma dessas lutas vitoriosas que Hércules casou-se com Megara, uma das princesas do reino vencido, e com ela teve vários filhos.

    Do Monte Olimpo, a morada dos deuses gregos, Zeus observava a vida aventurosa do filho com ternura, o que deixava Hera cega de ódio. Por fim, ela decidiu destruir a reputação de Hércules para que Zeus o desprezasse. Hera fez com que o herói tivesse um ataque de loucura e matasse a mulher e os próprios filhos. Quando voltou a si e viu o que tinha feito, Hércules ficou desesperado e correu a consultar uma sacerdotisa para saber que castigo poderia purificá-lo de seu terrível crime.

    A sacerdotisa disse-lhe que devia servir ao rei Euristeu por doze anos. A cada ano, Hércules deveria realizar um trabalho dificílimo. Quando os trabalhos estivessem completos, ele estaria livre de seu crime, se tornaria imortal como o pai e poderia viver com este no Olimpo. O primeiro trabalho que Euristeu deu a Hércules foi trazer-lhe a pele do leão de Nemeia, um monstro terrível, com fama de indestrutível, que vinha aterrorizando a região há um certo tempo.

    Hércules aceitou o encargo e partiu para Nemeia, levando um arco, uma lança e uma clava que ele mesmo havia feito. Ao avistar a fera, o herói disparou uma flecha em sua direção. Mas a flecha nem sequer arranhou a pele do animal. Hércules decidiu então atacar o monstro com a clava, atraindo-o para uma caverna que tinha duas entradas. Tapou uma delas com pedras, entrou pela outra e, depois de uma luta feroz, conseguiu estrangular a fera, passando a usar sua pele como manto. A bravura do animal, porém, foi reconhecida por Zeus, que o transformou na constelação do Leão, que hoje brilha no céu do hemisfério Sul na entrada do outono.


Lenda grega recontada por Walmir Cardoso. Retirada na Revista Nova Escola; Fundação Victor Civita, Editora Abril. Dezembro de 1998.

Trapaceiro como "tout le monde"

Renegado pela crítica ilustrada, o ator e dramaturgo Vasques fez de Rocambole, herói de folhetim francês, a tradução dos costumes e trapaças da capital do Império.


    Um homem de nome Rocambole tendendo mais para bandido que mocinho, hábil no uso de mil faces e disfarces, mestre em maquinações e tramoias que tinham sempre como objetivo a busca de vantagens - pecuniárias ou não. Eis o protagonista do romance-folhetim As proezas de Rocambole, do francês Ponson du Terrail, que passou a ser publicado  semanalmente no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro a partir de 1859, trilhando no Brasil uma trajetória de sucesso. Em muito pouco tempo, as aventuras de Rocambole passaram a ser publicadas diariamente em outros jornais da Corte, sendo sempre  ansiosamente esperadas por leitores ávidos por acompanhar as peripécias do seu herói-vilão. O final de cada série, e a quase simultânea retomada de outra, atendendo a pedidos, acabaram por transformar o personagem em fenômeno de leitura em se tratando de uma sociedade majoritariamente analfabeta, como a brasileira do século XIX.

    De fato, no Rio de Janeiro daquela época não era preciso saber ler para conhecer Rocambole. As leituras em voz alta, proferidas em grupo nas portas das boticas, botequins, residências ou esquinas da cidade uniam o mundo letrado e o da  transmissão oral. Assim, varando fronteiras sociais - e geográficas - e multiplicando-se em edições variadas, Rocambole engordou os bolsos dos livreiros e proprietários de jornal, e chegou a influenciar a própria língua portuguesa, transformando a expressão "rocambolesco" em sinônimo de delirante aventura, enrolada como um bolo.

    Diante de tamanho sucesso, não surpreende que Rocambole acabasse por saltar das páginas dos jornais para se estabelecer nos palcos teatrais da cidade, tal como ocorrera na França. No Rio de Janeiro, uma das adaptações mais aplaudidas do folhetim foi a comédia Rocambole no Rio de Janeiro, do ator e dramaturgo Francisco Correa Vasques, que estreou no teatro Lírico Fluminense em 1868.

    Carioca, mulato, filho natural de uma família de poucas posses, Vasques teve acesso restrito à educação formal. Cursou por um breve período de tempo o Colégio Marinho, dele saindo para trabalhar da Alfândega do Rio de Janeiro e, logo após, na companhia teatral de João Caetano, contratado como ator em 1857. Não tardaria, também, para que começasse a escrever suas próprias peças, e que se especializasse num gênero dramático: as cenas cômicas, uma bem-sucedida receita de textos curtos, escritos para um ou mais atores, em prosa e verso abordando diversos assuntos, a partir da costura de elementos múltiplos. O público era da mesma maneira variada, composto por caixeiros, estudantes, famílias e até mesmo, no caso do Brasil, de imperadores, frequentadores assíduos dos espetáculos protagonizados pelo ator.

    Comediógrafo autodidata, aplaudido nos palcos da Corte e das províncias em que se apresentou nos 36 anos de carreira artística, Vasques foi, contudo, rejeitado pela crítica ilustrada do seu tempo, que rotulou sua produção de "baixa" dramaturgia. Essa crítica ilustrada, exercida por indivíduos de educação formal superior, tais como Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Quintino Bocaiúva e Souza Ferreira, considerava a produção dramática de Vasques exemplo de uma dramaturgia menor porque, supostamente, não teria qualquer comprometimento com a educação das plateias, "missão" da qual, eles acreditavam, estava revestido o tablado, e sim com o riso e o divertimento ou ainda com os lucros que poderiam ter o dramaturgo ou empresários do teatro.

    Que Rocambole no Rio de Janeiro, assim como outras comédias do Vasques, era uma obra recreativa, não resta dúvida. Mas um olhar mais atento para o texto de Vasques pode mostrar que por trás do riso residia uma crítica bem construída a certas questões do seu tempo. Tal sentido crítico, vale dizer, já aparecia enunciado no programa da récita de estreia da peça, publicada no Jornal do Commercio do dia 15 de janeiro de 1868. Nele, Vasques prometia passar em revista, com sua cena cômica, todos os "ridículos da atualidade" e apontar os "charlatães da época".

    Mas, diferentemente do Rocambole de Ponson du Terrail, o Rocambole de Vasques não oferecia perigo às carteiras dos incautos ou dor de cabeça à polícia. Seu poder de periculosidade residia no fato de ter ele se transformado em moda e, como toda moda, em "salvatério da humanidade" - utilizando uma expressão do próprio Vasques -, ou seja, encarnando as mais ridículas e reprováveis situações. De acordo com nosso dramaturgo, Rocambole estava estabelecido em toda a parte e tudo isso era culpa da moda: "A moda, somente a moda, e aí vai uma prova de quanto ela é capaz":


Filho menor que é fumante,

Receoso de uma poda

Quando o encontram fumando,

Vai dizer ao pai que é moda.


Sujeito que se embebeda

Quando vai a qualquer boda,

Diz sempre, piscando os olhos.

Não façam caso que é moda!


Moça que vive à janela,

Cujo pai não se incomoda,

Foge de casa dizendo:

Adeus, papai!... isto é moda.


Literato que na bola

Quer ter a ciência toda,

Se cair de quatro pés,

Não façam caso que é moda!


Viúva rica que chora,

Pra ver se aos tolos engoda,

Se casa depois de um mês,

Deixem passar que isso é moda.


Um marido diz à esposa:

"O Juca não te faz roda?"

"Qual (diz ela) conversamos,"

Isto entre primos é moda!


    Por conta da moda, segundo Vasques, quando as saias balão foram atiradas "pelos ares", permitindo às moças "andarem com as pernas de fora" e com as botas até os joelhos, Rocambole veio em auxílio das que protestaram em razão da finura das canelas:


Nem as magras,

Nem as gordas

Podem ter pernas mal feitas.

Pernas tortas, pernas finas

A moda fá-las perfeitas.


Se eu tivesse neste instante

Algumas pernas à mão,

Veriam estes senhores

Quanto vale o algodão.


    Também quando algum deputado um dia defendia o governo com unhas e dentes, e, no outro, atacava-o com veemência, ficava claro que se tratava de um "Rocambole desmamado", que vira frustrados seus planos de beneficiar algum protegido. E era ainda Rocambole que se manifestava, travestido de negociante estrangeiro, como o francês da rua do Ouvidor que enriquecia em menos de um ano vendendo pomadas ou pó-de-arroz numa terra de facilidades e oportunidades, na qual "tout le monde pode fazer sua negoce sans prejuize; toujours pode ganhar dinheiro". Ou era ainda Rocambole que aparecia disfarçado de inglês, reclamando por não ter conseguido um privilégio do governo, e aborrecido com a desfeita "sapecava" sem "papas na língua": "Oh! Brasil está uma terra muite of de mesquinha, não vale uma pitade de tabaca; mim vai a Inglater e dau meus ideias para glória minha e satisfação".

    Vê-se, assim, que foi através de uma paródia do folhetim francês, traduzindo os temas nele abordados para a realidade de seu tempo e de seu país, que Vasques elaborou um texto original cujo resultado foi uma sátira bem-humorada de certos costumes que estavam em voga na capital do Império. A mola mestra de sua cena cômica era o embate entre o bem e o mal, como no folhetim. Mas ao fazer sua apropriação do mesmo para o palco, com intenções simultaneamente críticas e lúdicas, criou um produto suis generis fazendo emergir de seu texto uma noção de "rocambolesco" que, para além da ideia de delirante aventura, evidenciava uma espécie de "banditismo" poroso, com todo o sistema de engodos e trapaças que atingia o mais banal cotidiano. De fato, Vasques via aqueles tempos como lugar de espertezas, conchavos e frivolidades. Seu "herói" precisava, portanto, estar adequado a esse cenário. Assim, fez nascer seu Rocambole "à brasileira", que estava em todos os lugares, subornando, ludibriando e dissimulando, sendo esta a chave para alcançar a única coisa que se tinha em mente naquele momento: tirar vantagens de tudo e de todos.

    Observador atento da realidade que lhe servia de fonte de inspiração, Vasques abordou questões  candentes do seu tempo, lançando mão do riso para tratar de coisas sérias. E esta dimensão de sua obra foi reconhecida por alguns contemporâneos como arte, tanto que seu Rocambole no Rio de Janeiro foi publicado como parte da coleção de comédias, dramas e cenas cômicas intitulada Teatro moderno luso-brasileiro pela livraria Cruz Coutinho dois anos após sua estreia. Uma outra prova da popularidade da qual seu trabalho desfrutou foi o fato da première dessa comédia, como de outras tantas que escreveu, ocorrer num espetáculo em que toda a renda da bilheteria foi destinada ao ator. O público parece ter atendido o apelo de Vasques, feito no anúncio da récita nos seguintes versinhos: "Eis aí o meu programa/ Sem manha nem artifício/ Nessa noite ele promete/ A muita gente por mole/ Apenas se transformar/ No famoso Rocambole".

    A crítica ilustrada, apesar desse e de outros sucessos teatrais do Vasques, não abriu mão de seus preconceitos e tratou sempre o seu trabalho com reservas. Reservas que atravessaram décadas e acabaram por deixar o nome deste dramaturgo na coxia da história do teatro brasileiro.


Texto de Sílvia Cristina Martins de Souza. Professora de História do Brasil na Universidade Estadual de Londrina. Retirado da Revista de História da Biblioteca Nacional, Ano 1, nº 6, Dezembro de 2005.