14 janeiro 2026

As muitas vidas da palavra lusitana

                     IDIOMA TRADUZ VISÃO DE MUNDO QUE O POVO PORTUGUÊS          ESPALHOU AO LONGO DO TEMPO PELOS QUATRO CANTOS DO PLANETA E PELAS DIVERSAS CULTURAS QUE DOMINOU


Um idioma é depósito de um povo. Mas poucas Línguas ocidentais parecem ajustar-se tão bem quanto a Portuguesa ao papel de retrato falado das características de um cultura.

O povo português nasceu de misturas muitas. Sua tradição foi a de integrar-se à paisagem, aos climas, às crenças e aos povos que dominou. E o fez sem maiores tremeliques. Como lembra Ângela Dutra de Menezes, em O Português Que Nos Pariu (Relume Dumará), a Língua Portuguesa preserva a individualidade de um povo aventureiro, que circulou a África, chegou à China e ao Japão, avançou pela Índia e pela América. No auge da epopeia ultramarina do século 16, Portugal era um país pouco povoado - 1 milhão de habitantes na época do descobrimento do Brasil. Aderiu ao luxo da mistura muito mais que outros europeus para dominar colônias mais populosas que ele.

Assim, o descendente dos portugueses "aprendeu o amável jeito de olhar além da pele", mas "descobriu a hipocrisia, excelente aliada se a maior necessidade é tentar sobreviver", diz Ângela. É um tipo europeu que se acostumou a firmar a própria identidade a cada adversidade. Gente impetuosa diante dos chamados de além-mar, melancólica por causa de sua aventura, mas enfática, de quem não dá viagem perdida - não por acaso, foi a primeira a declarar-se nação independente na Europa. Esse mesmo português aprendeu as necessidades de ser cético, sonso e maleável diante dos contratempos, afinal, "em excesso de verdades constitui tolice acreditar numa só".


Características

O Idioma Português atua como um reservatório dessa identidade, maleável e também categórica. Põe à disposição do usuário duas formas de futuro subjuntivo ("quando eu for", "quando eu quiser ir") e uso de pronomes entre o verbo principal e o auxiliar ("hei de lhe oferecer" - isso, no Brasil).

Ao usar o pretérito, mais firme é o modo como o Português afirma sua diferença. "Enquanto outras linguagens equilibram dois verbinhos até para descrever os eventos corriqueiros, a Língua Portuguesa é incisiva: 'eu viajei' no lugar do cansativo 'eu tinha (havia) viajado'", diz a autora.

Hernani Donato, autor do insert sobre a Língua Portuguesa no livro A aventura das Línguas, de Hans Joachim Störig, deixa evidente que o professor alemão encarou como dificuldades do Idioma Português muito do que nos é característico. Störig se revela surpreso com o número de vogais e ditongos pronunciados com voz nasal, com terminação em "-ão", nasala vogais antes de outras vogais, e com a sílaba tônica acentuada de maneira tão forte que as outras sílabas parecem cochichadas dentro da palavra, o que faz as vogais não acentuadas mudarem de timbre. É o ser Português falado por sua Língua: musical e afirmativo.

Ao se reproduzir no outro lado do Atlântico, o falar Português se abrasileirou. Ganhou outras flexões, textura própria, nova música. "No Brasil fala-se Português com açúcar", diria Eça de Queiroz. Por um triz, não virou dialeto. Talvez seja questão de tempo. Para Antônio Cândido, a Língua Portuguesa não perdeu na América nada de "seu caráter grave, nem a têmpera máscula, nem o tom de funda melancolia". De quebra, ganhou suavidade e ternura.

Os portugueses deixaram entre nós sua herança, sua Língua. Com ela, tudo  o que a cultura lusa é e significa.


A maior palavra:

"Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico"

Essa vai ser difícil de exportar. Até prova em contrário, a maior palavra da Língua Portuguesa é uma expressão médica, muito rara no Brasil. Com 46 letras, descreve o estado de quem sofre uma doença causada pela aspiração de cinzas de um vulcão.

Deixou as 29 letras de "anticonstitucionalissimamente" a comer sabão.


Texto sem autoria (deve ser criação coletiva) retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

13 janeiro 2026

Concreto e Abstrato

COMPOSITORES COMO GILBERTO GIL E POETAS COMO JOÃO CABRAL DE MELO NETO MOSTRAM QUE NEM SEMPRE É FÁCIL DISTINGUIR UM SUBSTANTIVO DE OUTRO


Referindo-se a América, poema de A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto exaltava o que lhe parecia essencial no fazer poético: a concretização do abstrato e a abstratização do concreto. O mestre  pernambucano exemplificava sua afirmação com este trecho: "Só o primeiro cão, / em frente do homem /  cheirando o futuro". Para Cabral, "cheirar o futuro" era a exata dimensão da concretização do abstrato.

Um dia, numa das "inesquecíveis" aulas sobre as classificações do substantivo, aprendemos na escola que "concreto dá pra pegar; abstrato não dá pra pegar". E começa a confusão: Deus é concreto ou abstrato? E fada? E saci? E luz? E alma? E isso? E aquilo? E nada! Abismo. Mistério. Não foi à toa que Drummond terminou seu célebre poema Aula de Português com estas palavras: O Português são dois; o outro, mistérios." O outro Português é o da aula de Português, o da aula de Gramática.

Ao tratar do capítulo da classificação dos substantivos, os queridos colegas talvez não precisassem chegar ao ponto de citar o pensamento de Cabral, quiçá muito profundo para mentes, corações e espíritos jovens, mas poderiam fazê-lo (aos jovens) ouvir (e ler e entender) a memorável Rebento, de Gilberto Gil. Diz a canção: "Rebento, substantivo abstrato / O ato, a criação, o seu momento (...) / Rebento, tudo que nasce é rebento / Tudo que brota, que vinga, que medra / Rebento raro como flor na pedra / Rebento farto como trigo ao vento."

Pensando bem, parece que Gil segue os passos sugeridos por Cabral. Substantivo abstrato (já que designa "o ato de rebentar" - um dos valores dos abstratos é justamente o de indicar o "ato de"), "rebento" logo se concretiza ("raro como flor na pedra, "farto como trigo ao vento"). Como se vê, é difícil, quase impossível separar o abstrato do concreto.

Definido como "palavra com que se nomeia uma ação, qualidade, estado ou sentimento dos seres, dos quais se pode separar e sem os quais não poderia existir", o substantivo abstrato passa a concreto num piscar de olhos, como na canção de Gil. Por ser "o ato de rebentar", "rebento" se define como abstrato, mas concretiza-se quando "brota", "vinga", "medra", nas palavras de Gil. "Medra", por sinal, não significa "tem medo". Significa "cresce", "avança".

Se recorrermos à etimologia, constataremos que a palavra "abstrato" é da família de "abstrair", que vem do latim abstrabere e significa "separar", "arrancar", "desatar", "desligar", "afastar-se", "separar-se". De fato, o primeiro significado que os dicionários dão para "abstrair" é "separar", o que confirma a definição de abstrato do parágrafo anterior e torna compreensível o significado filosófico de abstrair e de abstração.

A letra da canção de Gil caminha e consolida o pensamento de Cabral: "Outras vezes Rebento simplesmente / No presente do indicativo / Como a corrente de um cão furioso / Como as mãos de um lavrador ativo (...) / Rebento, a reação imediata / A cada sensação de abatimento / Rebento, o coração dizendo 'bata' / A cada bofetão do sofrimento." O tiro certeiro de Gil se dá justamente na passagem do substantivo para a primeira pessoa do singular do presente do indicativo, o que explica quão tênue é a linha que separa o concreto do abstrato.

Alguém ainda se habilita a dizer que "concreto dá pra pegar, abstrato não dá pra pegar"?


Texto de Pasquale Cipro Neto, retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1 Editora Segmento, São Paulo, 2005.

12 janeiro 2026

Cortesia Navegante

OS CUIDADOS NECESSÁRIOS EM E-MAILS QUANDO SE QUER SER ENTENDIDO


O e-mail ressuscitou o costume da correspondência. Para muita gente, no entanto, representou exposição incômoda da própria fragilidade comunicativa. Nesta área das mensagens eletrônicas, pega mal tropeçar no Português e na etiqueta ao fazer um convite, comentar um negócio ou marcar um encontro com um cliente.

Uma tendência recente de pensamento empresarial acredita que um e-mail - e todo documento eletrônico a ser enviado, como notas, ofícios, propostas comerciais, contratos e relatórios - será bem escrito se for atencioso e civilizado. E atenção significa que tudo na mensagem será cuidado com respeito - da revisão gramatical à qualidade de entendimento.

Uma mensagem mal escrita é, por essa lógica, mal escrita por sua totalidade - um equívoco de Português é também de etiqueta. E vice-versa. José Paulo Moreira de Oliveira, consultor de comunicação na produção de textos, acredita que um e-mail pode ser malsucedido no seu propósito porque não expressou o que seu autor, no fundo, pretendia.

- Agir como um bom comunicador pressupõe trabalhar duro para aumentar a clareza, a concisão e a legibilidade, virtudes essenciais para uma comunicação eletrônica eficaz - diz Oliveira.

O bom senso é parte da boa escrita, indica o autor de Como Escrever Melhor (com Carlos Alberto Paula Motta), que já vendeu 60 mil exemplares. Para ele, há uma regra para texto bem escrito nas empresas que parece superar as demais - a demonstração de respeito que se tem ao seu destinatário.


Escrita Virtual

O QUE LEMBRAR ANTES DE ENVIAR UMA MENSAGEM


As informações foram organizadas em gradação de importância, para permitir a imediata compreensão do leitor?

A quantidade de dados foi suficiente para "indicar o caminho das pedras" e assegurar a legibilidade ao texto?

Certifique-se de que seu texto responde às três perguntas mágicas:

- O que o leitor precisa saber?

- Para que o leitor precisa dessas informações?

- Que tipo de conhecimento o leitor já tem do assunto em pauta?

A linguagem usada foi clara e acessível?

Deixou claras suas intenções comunicativas?

Reservaram-se informações complementares para os anexos?


A etiqueta faz a mensagem

OS CRITÉRIOS PARA MENSAGENS ELETRÔNICAS NO CAMPO PROFISSIONAL


Mensagens curtas e simples. Se há muita informação a ser passada, "quebre-a" com títulos e intertítulos. Reserve o que for acessório apenas para os anexos.

Seja específico na redação do campo "Assunto" (subject). Isso permite ao destinatário saber de antemão o que será tratado.

Mensagens curtas; não telegráficas. Mensagens simples, mas não escritas com desleixo.

Evite abusos no negrito e no itálico. Fuja dos textos em maiúscula - são "grito eletrônico" - e das fontes incomuns, pois podem não ser lidas na máquina do destinatário.

Se o e-mail for dirigido a vários destinatários, escolha o mais importante e use cópia oculta para os demais. Nada pior que ser forçado a ler uma imensa barra de endereços eletrônicos.

Personalize sua correspondência. Mesmo nas mensagens com cópia, tenha o cuidado de digitar algumas palavras ao novo destinatário.

Use e abuse de arquivos anexados. São ótimos para enviar listas, planilhas, gráficos, imagens e tudo que puder ser considerado informação complementar. Dê ao leitor o direito de decidir o que vale a pena ser lido.

A maioria dos e-mails deve ser respondida. Ignorá-los é como deixar de atender a um telefonema. Reserve um tempo para resposta.

Não adianta entrar em crise só porque ainda não recebeu resposta. Dê um tempo real ao leitor. Nada de mensagens de reforço do tipo: "já recebeu?"


Material retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

11 janeiro 2026

Salada Cultural

Com o gorro de cozinheiro na cabeça e o avental devidamente vestido, você está pronto para colocar as mãos na massa! Separe os ingredientes: povos com hábitos, costumes e até  Línguas diferentes. Coloque-se em contato e aguarde. Ao perceber que um povo adquiriu hábito ou costume de outro, fique atento: o prato está quase pronto. Se o mesmo povo também doar características aos demais, retire do fogo. É hora de degustar a cultura que acaba de ser enriquecida!

A cultura é constituída pelos mitos, pelas lendas, costumes, crenças religiosas, conhecimento, artes e hábitos de um povo. Mas o homem não nasce com sua cultura já determinada. Ele irá recebê-la por meio da vivência com o seu grupo. E ao ter contato com povos de hábitos, costumes ou Línguas diferentes, o homem e o grupo ao qual pertence pode adquirir alguns dos hábitos, costumes ou modos de agir do outro povo.

No Brasil, o contato entre índios, portugueses e africanos foi fundamental para a formação de uma cultura rica e diversificada. Quando chegaram ao Brasil, os colonizadores portugueses travaram contato com diversos grupos indígenas, que possuíam culturas diferentes. Os negros trazidos de diferentes grupos sociais da África para trabalhar como escravos nas lavouras de cana-de-açúcar e na mineração também contavam cada qual com uma cultura peculiar.

Se você gostar de balançar na rede, utiliza palavras como cochilar e samambaia e ainda adora feijoada no final de semana, conhece de perto o resultado do contato entre essas diferentes culturas. Cochilar e samambaia, por exemplo, são, respectivamente, contribuições africanas e indígenas à Língua Portuguesa.

Além da Língua, são influências dos portugueses a religião católica e os elementos do nosso folclore, como a festa de São João.

Quando há contato entre povos com culturas distintas, como aconteceu no Brasil, ocorre uma troca de valores culturais entre eles. Isso significa que não há apenas o povo que transmite elementos para a cultura do outro. Dois ou mais grupos em contato trocam e incorporam hábitos e costumes que, até então, eram estranhos a eles. Os índios são um exemplo desse processo, chamado transculturação. Quem nunca viu um índio vestido? A partir do contato com um novo povo, eles incorporaram elementos que não existiam na sua cultura original, como as roupas.

Mas antes de pensar que o índio é menos índio por estar vestido, lembre-se de que a cultura está sempre se modificando. Novos elementos culturais são acrescentados o tempo todo. Já imaginou se permanecêssemos com os mesmos hábitos, as mesmas crenças e os mesmos costumes? Melhor é acrescentar características de povos diferentes para enriquecer e diversificar nossa cultura. E o Brasil é um ótimo representante de uma salada cultural.


Texto de Mara Figueira (Revista Ciência Hoje/ Rio de Janeiro) e Otávio Velho (Departamento de Antropologia , Museu Nacional Rio de Janeiro) retirado do Revista Ciência Hoje para Crianças, Ano 14, Número 115, Julho de 2001.

10 janeiro 2026

Ausentes (100)

 "Ora, Tomé, um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio." - (JOÃO, 20:24.)

Tomé, descontente, reclamando provas, por não haver testemunhado a primeira visita de Jesus, depois da morte, criou um símbolo para todos os aprendizes despreocupados das suas obrigações.

Ocorreu ao discípulo ausente o que acontece a qualquer trabalhador distante do dever que lhe cabe.

A edificação espiritual, com as suas bênçãos de luz, é igualmente um curso educativo.

O aluno matriculado na escola, sem assiduidade às lições, apenas abusa do estabelecimento de ensino que o acolheu, porquanto a simples ficha de entrada não soluciona o problema do aproveitamento. Sem o domínio do alfabeto, não alcançará a silabação. Sem a posse das palavras, jamais chegará à ciência da frase.

Prevalece idêntico processo no aprimoramento do espírito.

Longe dos pequeninos deveres para com os irmãos mais próximos, como habilitar-se o homem para a recepção da graça divina? Se evita o contacto com as obrigações humildes de cada dia, como dilatar os sentimentos para ajustar-se às glórias eternas?

Tomé não estava com os amigos quando o Mestre veio. Em seguida, formulou reclamações criando o tipo do aprendiz suspeitoso e exigente.

Nos trabalhos espirituais de aperfeiçoamento, a questão é análoga.

Matricula-se o companheiro, na escola de vida superior, entretanto, ao invés de consagrar-se ao serviço das lições de cada dia, revela-se apenas mero candidato a vantagens imediatas.

Em geral, nunca se encontra ao lado dos demais servidores, quando Jesus vem; logo após, reclama e desespera.

A lógica, no entanto, jamais abandona o caminho reto.

Quem desejar a bênção divina, trabalhe por merecer.

O aprendiz ausente da aula não pode reclamar benefícios decorrente da lição.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

09 janeiro 2026

Herança Clássica

EXPRESSÕES DA LINGUAGEM ORAL QUE FREQUENTAM NOSSO COTIDIANO CARREGAM SÉCULOS DE HISTÓRIA DESCONHECIDA PELA MAIORIA DAS PESSOAS. ESSE NÃO É UM FENÔMENO DA LÍNGUA E DA CULTURA PORTUGUESA, MAS DE TODA A CIVILIZAÇÃO  OCIDENTAL.


A cultura moderna reflete, em suas manifestações, a herança clássica, presente entre eruditos e iletrados cidadãos. Vamos ensaiar, então, um passeio lítero-histórico, investigando o que herdamos da mitologia greco-romana.


Pela ordem cronológica, deveríamos começar pela Grécia, cuja mitologia e cultura "civilizaram" os "bárbaros" romanos, originando o berço da civilização ocidental. Mas, supersticiosos que somos, não cometamos o erro crasso de perder a oportunidade de nos juntarmos aos romanos para começar com o pé direito, como eles faziam nas grandes celebrações. Entrar com o pé direito ou começar com o pé direito é uma expressão que remonta à crença dos antigos romanos de que, adentrando as festas com o pé destro evitariam ali acontecimentos nefastos. Essa crença, materializada em expressão linguística, extrapolou o âmbito dessas festas e passou a ser válida em outras situações.

Por falar em erro crasso, esse dito veio também da antiga Roma, onde havia o Triunvirato - regime do governo no qual três pessoas dividiam o poder. O primeiro foi composto por Caio Júlio, Pompeu e Crasso. A esse último último incumbia atacar o pequeno povo de Partos. Confiante no êxito de sua missão, abandonou as formações técnicas e estratégicas bélicas romanas e atacou, escolhendo um caminho estreito e de pouca visibilidade, o que permitiu aos partos. em menor número, vencer os romanos. Crasso, líder das tropas, foi o primeiro a cair. Daí se dizer hoje que quando alguém reúne todas as condições para acertar, mas comete um erro estúpido, seja por falta de inteligência, de sensibilidade ou mesmo de instrução, comete um erro crasso.

É trabalho de Hércules selecionar expressões capazes de nos conduzir a um passeio lítero-histórico no curto espaço desta coluna. Afinal, debruçar-se sobre elas e suas histórias pode se tornar o calcanhar de Aquiles mesmo de redatores experientes. Dessa forma chega-se a trabalho hercúleo ou trabalho de Hércules, que querem dizer trabalho difícil e remetem às 12 façanhas de Hércules, nome latino dado ao herói da mitologia grega Héracles, que entre outros feitos, matou o leão de Nemeia e a hidra de Lerna, capturou o Minotauro, domou as éguas de Diomedes e colheu as maçãs de ouro do jardim das Hespérides.

Quanto ao calcanhar de Aquiles, consta, na mitologia grega, que Tétis, mãe de Aquiles, a fima de tornar seu filho indestrutível, mergulhou-o num rio mágico, segurando-o pelo calcanhar. Na Guerra de Tróia, Aquiles foi atingido justamente na única parte de seu corpo que não tinha recebido a proteção mágica: o calcanhar. Daí, o ponto fraco de uma pessoa ser conhecido como seu calcanhar de Aquiles.

Jogo empatado para Grécia e Roma, que contribuem igualmente com suas tradições. Poderia ficar assim, mas há o recurso ao voto de Minerva, o voto de desempate, da deusa romana Minerva, equivalente à grega Atena, deusa da sabedoria, das artes e da estratégia de guerra. O voto é seu, leitor!


Texto de Márcia Araújo Almeida retirado da Revista Nossa Língua, Maio de 2011,  Duetto Editorial, São Paulo.

08 janeiro 2026

Prateleira Invertida

                                               Tão espantosa quanto a origem de um termo                                                  é a mudança de sentido ao longo dos séculos.


A evolução de significado de uma palavra depende de trocas fonéticas e semânticas, de condicionamentos históricos e sociais. Forma, contudo, história e vida em comum.

Cada época usa, molda e recicla as palavras segundo seus fins. Muitas mudam de som e forma, mas alterações não menos drásticas ocorrem com o sentido delas. Há casos em que um significado muito antigo deixa de existir ou ser usado e só o novo sentido permanece. Em outros, a visão de mundo de um povo faz com que uma palavra herdada de outros povos ganhe ricas conotações.

Há quem chame o interesse por esse tipo de estudo de "semântica histórica". Na prática, a expressão batiza o estudo das diferenças, alterações e diversidade de significação (a chamada polissemia) de uma palavra no tempo, assim como as nuances de sentido e pluralidades de uso em outros instantes da Língua, por meio dos contextos de distanciamento de suas origens. Não interessa tanto a origem de um vocábulo, como requer a etimologia, mas a evolução de seus sentidos.

Esse tipo de interesse se deve, talvez, à intuição de que toda palavra tem uma história pra contar. Como se vivesse sua saga particular, com tramas, subtramas e reviravoltas as mais surpreendentes.

Imagine a saga vivida no boca-a-boca de séculos por um termo de acepção tão cristalina como "obeso". Sua etimologia é o exato oposto da atual significação. O latim obesu, explica Antenor Nascentes em seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1932), significava "fraco", "delgado". Magro, enfim. Nascentes atribui a inversão de 360 graus a equívoco no uso popular do termo ou a antífrase (usar vocábulo ou frase de sentido oposto ao que se quer, por ironia ou eufemismo supersticioso - os gregos antigos, por exemplo, chamavam as Fúrias de "Eumênides", "benfazejas").

O hoje não tão lembrado Mansur Guérios analisa a reviravolta sofrida pela palavra "abrigo", desde os tempos do Mediterrâneo antigo. Segundo o seu pequeno Dicionário de Etimologia da Língua Portuguesa, apricus significava "exposto ao sol para preservar a umidade" para os latinos antigos. Antenor Nascentes confirma a origem do verbo "abrigar" como o latim apricare, "expor ao sol".

- Estando exposto ao sol, preservava da sombra, do frio, da umidade.

Da acepção  primária, diz Nascentes, deduziu-se o sentido de lugar protetor. Pode ser. Mas outro autor, citado por ele, Friedrich Diez, dá, em Etymologisches Wörterbuch der Romanischen Sprachen (1876-1877), outra matriz ao termo: o gótico barigan (cobrir), o que desabonaria a ideia da inversão. Seria perfeito se o termo viesse mesmo do verbo apricare (aquecer ao sol), à semelhança do Coliseu, ao mesmo tempo abrigo e descoberto. Assim como é agradável acreditar que o uso fez a ideia contida no termo deslizar para "pôr em lugar seguro", por fim, "proteger", como garante Guérios.


Intuições Definitivas

A intuição popular, mãe da fantasia etimológica, estabelece relações inusuais entre palavras. É uma ironia que aquilo que descongestionava poros ou intestinos, o prosaico "purgante", tenha sido chamado de aperitivum. Sim, o nome dado aos petiscos e tira-gostos, estimulantes do prato principal ou do chopinho, recebe o batismo daquilo que um dia foi usado em via oposta. Guinada total, provocada pela semelhança fonética com appetitus ("apetite"), vontade de comer ou beber. "Aperitivo", que só ajudava alguma coisa a sair do corpo, passou a nomear tudo o que abre o apetite e, portanto, ajuda algo a entrar no corpo.

As mutações provocadas pelo tempo têm sua leveza poética. Ter calma, por exemplo, chegou a ser algo infernal para os gregos antigos. O grego kauma e seu derivado latino calma significavam "calor", "quente". Como no Mediterrâneo o período mais quente coincide com a falta de ventos, contagiante preguiça dos dias parados, kauma sofreu contágio, diz Silveira Bueno em Tratado de Semântica Brasileira (Saraiva, 1965). Daí o sentido de tranquilidade e ausência de movimentos contaminar o termo. A quietude está naquilo que é a própria tormenta.

O significado original de "açúcar", diz Gabriel Nascentes, é "grãos de areia", pois originário do sânscrito çarkara, do prácrito sakkar, chegando até nós pelo árabe assukar. A aventura que fez com que a palavra se firmasse no espanhol como azúcar, no italiano zucchero, no francês sucre, e no português é da alçada da etimologia e da semântica histórica.

Houve tempo em que "abandonar" era bom sinal, uma distinção até. Derivada do francês "laisser à bandon" (deixar em poder de: bann é "poder", "jurisdição"), que se tornou o verbo abandonner (português "abandonar"; inglês to ban, proibir). De ban veio "banir" português e o bandon (poder, autoridade); francês (de onde veio "abandonar").

"Celeuma" veio do grego xéleuma, canto dos remadores. Virou sinônimo de vozearia de escravos e daí, pejorativamente, migrou para o sentido de algazarra, diz Ramiz Galvão em Vocabulário da Língua Grega, de 1909 (Garnier, 1994). "Formidável" vem do latim formidabile, herança de formid (formido). Até o século 19, significava "apavorante". Hoje, é o que desperta admiração. Silveira Bueno atribui a mudança radical à interrupção na transmissão do sentido de uma geração para outra. Por sua hipótese, entre uma criança do século 19 e outra do 20, uma separação no ciclo de aprendizado da Língua fez com que houvesse uma "descontinuidade" do sentido. A saber.

A inversão de sentido, pouco importa se fenômeno raro, torna palpável a aventura das palavras ao longo de séculos. E ilumina a Língua como depositária de experiências remotas, tão banalizadas no cotidiano, que suas motivações originais nos escapam. Conhecer a história de uma palavra é, por isso, desvendar um pedaço de uma cultura. Se um termo é produto da necessidade dos falantes de expressar uma situação, um estado de espírito ou objeto, então ele é o testemunho do que pensam os falantes de uma Língua.


Texto de Luiz Costa Pereira Júnior retirado da Revista Língua Portuguesa Especial Etimologia - A Origem das Palavras, Número 2, Editora Segmento, São Paulo, Março de 2007.

07 janeiro 2026

Multifacetado

                                    O ambicioso projeto de Fernando Pessoa incluía recriar                                    a literatura e a própria personalidade de poeta


Fernando Pessoa foi um criador de poemas e de poetas. Ele não assinou, simplesmente, seus poemas com "pseudônimos", mas foi além: inventou "heterônimos", outras pessoas com personalidade distintas, dotadas de vida, pensamentos e estilo próprio, diferentes em tudo do próprio Pessoa.

"Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não. Para criar, destruí-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças" (Livro do Desassossego).

Desse ambicioso projeto de criação e recriação da poesia, da Literatura e da própria identidade concebido por Pessoa, nasceu uma grande obra dramática, encenada pelos heterônimos, em que esses personagens dialogam entre si num processo metalinguístico que ultrapassa as fronteiras da Literatura, daí o título dado pelo poeta a grande parte de sua obra heteronímica: Ficção de Interlúdio.

Na linguagem teatral, "interlúdio" é uma cena menor que ocorre entre os atos de uma peça, e, por analogia, teríamos na heteronímia de Fernando Pessoa peças poéticas que, por sua vez, estão dentro de uma enorme peça poética que é a Literatura. Nesse jogo de cenas e de atores múltiplos constrói-se uma das obras mais singulares e intrigantes de toda Literatura: um grande baile poético de máscaras.

Para entendermos melhor esse grandioso projeto, é preciso compreender o mundo de Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro - os heterônimos mais bem acabados de Pessoa - com suas personalidades tão díspares quanto os estilos que o poeta desdobrou.


As Personas do Poeta

Ricardo Reis: representa a tendência clássica da poética de Pessoa. Sua linguagem é contida e seus versos são em geral curtos e formais. No tocante à filosofia, busca no estoicismo e no epicurismo (saúde do corpo e da mente) o equilíbrio para aproveitar a vida sem exageros.

"Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és.

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive".


Álvaro de Campos: é um poeta moderno e conflituoso, dividido entre o entusiasmo com a civilização e com o progresso tecnológico, e a angústia metafísica da vida. Essa modernidade contraditória se deixa entrever em sua poesia racional e sentimental.

"Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica

Fora disso sou doido, com todo direito de sê-lo"


"Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? (...)

Vão para o diabo sem mim,

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!"


Alberto Caeiro: é o mais simples e objetivo de todos os heterônimos de Pessoa. Busca na ordem natural das coisas e compreensão do mundo, eliminando a subjetividade e traduzindo nas sensações a sua objetividade absoluta. É o poeta que se opõe-se ao intelectualismo, à abstração, à metafísica e ao misticismo, contrariando, inclusive, o ortonômio Fernando Pessoa "ele-mesmo". A importância de Caeiro para os demais heterônimos e o jogo de cena dialógico criado por Pessoa ficam evidentes nos versos de Álvaro de Campos:

"Meu mestre e meu guia

A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,

Seguro como um dia mostrando tudo

Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade"


Fernando Antônio Nogueira Pessoa: ficou órfão de pai aos 5 anos, mudando-se para Durban (África do Sul), onde passou a estudar até concluir o colégio. Em 1905, já em Portugal, matriculou-se num curso de Letras em Lisboa, abandonando-o em seguida. Torna-se crítico literário em 1912 e, três anos depois, passa a liderar o grupo da revista Orpheu. Morre em 1935.


Retirado do Guia Vestibular Enem 2013, Revista Língua Portuguesa Especial, vários autores, Editora Segmento, São Paulo.

06 janeiro 2026

A bolha de sabão em números

Como a arte inspirou a matemática (e vice-versa) no estudo de figuras geométricas


No século 19, o alemão Karl Weierstrass (1815-1897) conseguiu seu título de doutor honoris causa por desenvolver uma série de ferramentas matemáticas e dar maior rigor às provas de teoremas. Ele já tinha passado dos 40 anos, idade considerada tardia para descobertas matemáticas, e lecionava havia 14 anos no ensino secundário quando publicou seus trabalhos e foi reconhecido como um grande talento matemático. Logo em seguida, recebeu vários convites e escolheu lecionar na Universidade de Berlim. Sua fama de excelente professor atraía estudantes de todas as partes do mundo.

Os trabalhos de Weierstrass foram aplicados muito tempo depois pelo matemático brasileiro Celso Costa, da Universidade Federal Fluminense, que tentava descobrir em seu doutorado uma nova figura geométrica. Para chegar a ela, usou estudos, particularmente funções, desenvolvidas pelo matemático alemão. O que Costa buscava era algo que vinha movimentando pesquisadores de todo o mundo por 200 anos: descrever matematicamente a forma de novas superfícies mínimas.

A ideia surgiu no começo dos anos 80, quando o brasileiro estava no cinema. "Eu assistia a um filme sobre Escola de Samba e um sambista desfilava com um bizarro chapéu de três abas. Naquele momento tive a inspiração crucial e final do modo como a figura geométrica da superfície que eu buscava se apresentava no espaço." No século 18, quando tiveram início as pesquisas sobre esse tema, foram descritas três superfícies mínimas: o plano, o catenóide e o helicóide. Depois disso, ninguém descobriu mais nenhuma.

O material utilizado nos primeiros trabalhos era a película de sabão, que acabou sendo útil para a construção da teoria matemática sobre essas superfícies.

E aquela mistura de água com sabão e a argola que se usa para soltar bolhas no ar ainda pode ser usada para explicar o que são superfícies mínimas. A película que se forma na argola antes que ela seja movimentada no ar é a primeira das superfícies mínimas: o plano. A segunda (catenóide) é obtida quando assopramos a argola e a película forma um bojo, antes de chegar a se fechar em bola. Devemos imaginar que a borda inicial formada pela argola seja mantida, ou seja, a superfície é limitada pelas duas bordas e vazada. A terceira (helicóide) é obtida se deformarmos a argola em forma de hélice. As formas que a película vai adquirir no espaço são as superfícies mínimas, ou as superfícies de menor área que cobre um determinado bordo (nesse caso, a argola).

A nova superfície descoberta em 1982 por Costa, que levou seu nome, teve grande repercussão no mundo da matemática por resolver um problema antigo. Muitos matemáticos tentavam provar a existência (ou não) de superfícies como a do brasileiro. Além disso, a partir dela, foi possível desenvolver técnicas que permitem hoje a solução de muitos outros problemas na área de superfícies mínimas. O trabalho acabou  dando origem a uma série de pesquisas que resultaram na descoberta de novas superfícies, teoremas e novos problemas matemáticos.

Para cada superfície mínima existem equações que geram o objeto em três dimensões. Para as três primeiras figuras descobertas no século 18, as equações eram relativamente simples e facilmente relacionáveis com o objeto em 3D. Mas as equações da superfície já apresentam muitas complicações para a visualização da figura em três dimensões. Então, a partir da descoberta do brasileiro, Hoffman e Meeks, dois americanos da Universidade de Massachusetts, fizeram a imagem computacional exata da superfície. Posteriormente, a descoberta do brasileiro acabou influenciando também o desenvolvimento da computação gráfica.

A superfície Costa tem a forma de um toro - como as boias do tipo pneu que os banhistas usam para flutuar nas piscinas - com três buracos. Depois de visualizada por computador, foi a vez dessa curiosa superfície geométrica inspirar vários artistas pelo mundo, que acabaram ganhando prêmios com esculturas da superfície Costa, seja em material permanente - metal ou concreto - ou em blocos de gelo nos festivais de inverno dos países frios.


Texto de Carmen Kawano retirado da Revista Galileu, número 150, Janeiro de 2004, Editora Globo, Rio de Janeiro.


05 janeiro 2026

O Mistério da Causação Mental

Grande parte dos psiquiatras e neurocientistas considera que mente e cérebro são a mesma coisa. Para eles, esse é um pressuposto indiscutível. As mentes seriam, a esta altura do desenvolvimento científico, criação de psicólogos ou especulação de filósofos. Mas parece que o conceito de mente, e com ele o problema mente-cérebro, teima em não desaparecer.

É muito comum ocorrerem tentativas frustradas de diagnóstico de dores e quando elas são definitivamente malsucedidas, remete-se o doente ao psicólogo para buscar o "fundo emocional" de sua doença. Isso ocorre quando nenhuma anomalia física é encontrada e é a partir daí que o mental começa a ganhar uma existência - mesmo que apenas fantasmagórica. O mental reaparece como dotado de poderes causais, pois subitamente é preciso inferir a eficácia causal de algo inobservável, sem peso, e que não ocupa lugar no espaço.

Os médicos parecem não se lembrar - alguns talvez nem saber - que esse era o quadro típico das histéricas de Freud: sem nenhuma lesão física que pudesse ocasioná-los, apresentavam uma série de sintomas em seu corpo. Esse era o quadro típico da histeria de conversão que deu início à Psicanálise.

Mas não é apenas na qualidade de um ser fantasmagórico que pode puxar alavancas que o conceito de mente ainda existe. Não é apenas para os médicos justificarem suas buscas detetivescas de causas primeiras - por vezes sem sucesso - que o mental adquire cidadania ontológica.

Há também um outro tipo de causação que nos faz ter de admitir uma ontologia para o mental. Nesse outro tipo, o que está em jogo não é a causação do mental em direção ao físico, mas seu oposto. Por exemplo: pessoas com depressão apresentam queda do nível de certos neurotransmissores em seu cérebro. Medicação antidepressiva pode repor os níveis normais dessas substâncias, mas, assim mesmo, haverá pessoas que não sairão da depressão. Elas precisarão de psicoterapia, além de medicação antidepressiva. Por outro lado, há casos de depressão que podem ser curados apenas pela psicoterapia.

Isso tem levado à conclusão de que há um componente mental associado à depressão. Constatou-se então um dado clínico importante: nas depressões ocorre não somente a queda de níveis de neurotransmissores, como também algum evento traumático na vida da pessoa. Um evento que poderá ser traumático para alguns e não para outros. Dependerá do significado que ele assumir na história de vida de uma pessoa. Nesse caso, temos algo ainda mais complicado do que uma mente alavancando movimentos musculares ou lesões somáticas. Trata-se de algo mais nebuloso, pois, afinal de contas, o que é um significado? Como pode um significado atuar como "causa mental"?

As palavras e seus significados agem sobre o cérebro. Essa é a ideia que temos hoje acerca das psicoterapias, da psicanálise e de todas as curas pela fala. Vários estudos, utilizando-se inclusive de neuroimagem parecem apontar nessa direção. Mas como será que o significado das palavras pode alterar o cérebro de uma pessoa? Demos uma volta para reencontrar o problema da causação mental.

Essa é uma questão que tem ganhado grande dimensão na Filosofia da mente. Um de seus maiores estudiosos é o filósofo Jaegwon Kim. Ele observa que os materialistas tentam tomar um atalho curto demais para resolvê-la. Como para eles, estados mentais são estados cerebrais, não há nenhum problema em um estado cerebral causar outro. Mas o problema da causação mental não é tão simples assim, pois, pelo visto, ainda não conseguimos nos livrar da mente: ela ainda é necessária para explicar várias coisas.

Há, ainda, várias outras facetas do problema da causação mental. Podemos pensar que problemática é a causação do mental para o físico ou cerebral e que o mesmo não ocorreria para o mental. Mas será que um estado mental pode causar outro? Certamente o que liga um estudo mental a outro não é uma relação causal, como ocorre com as coisas que observamos no mundo. Nesse sentido não poderíamos falar de uma causação do mental, embora isso deixe em aberto saber que tipo de relação estados mentais mantêm entre si.

Um outro aspecto do problema da causação mental é saber se a consciência interfere na causação do mental para o físico. Os filósofos vivem procurando uma função para a consciência, sem conseguir atribuir-lhe nenhuma.. Os psicoterapeutas, contudo, veem nela um papel cognitivo importante na modificação do comportamento. É uma expansão da consciência - e não somente de informação - que leva uma pessoa a descobrir quais são os condicionantes de seu comportamento para então começar a poder modificá-lo. Isso basta para podermos atribuir à consciência um papel causal importante.

Ao contrário do que supõem psiquiatras e neurocientistas, o problema mente-cérebro está longe de ser resolvido. É isso o que nos mostra o problema da causação mental. Esses são problemas que dificilmente desaparecerão, pois fazem parte do nosso 'imaginário filosófico'. Os índios não correlacionavam dores de estômago com a ingestão de alimentos. A eles faltava o aprendizado da ideia de causalidade. De modo inverso, não conseguimos dissociar pensamento intencional de movimentos musculares a eles correspondentes. Talvez este seja um resquício de pensamento mágico, tão mágico quanto os dois índios que achavam que eram demônios que causavam suas dores de estômago. Não será essa crença apenas um mito? Um item de pensamento mágico reforçado pela percepção habitual do mundo e pela psicologia popular?

Uma observação importante é o fato de quase nunca associarmos causação mental com nossas ações que seriam causadas por nossas intenções, mas a associarmos com fatos anômalos como, por exemplo, a psicocinese, ou seja, fenômenos esporádicos nos quais movemos objetos pela ação do pensamento. Causação mental estaria muito mais associada ao mágico do que ao habitual. Ora, será a causação mental um tema para o antropólogo cognitivo e não para o filósofo?


Texto de João de Fernandes Teixeira (Bacharel em Filosofia pela USP; mestre em Filosofia da Ciência pela UNICAMP; PhD pela University of Essex na Inglaterra; pós-doutorado sob orientação de Daniel Dennet nos Estados Unidos). Material retirado da Revista Filosofia - Ciência & Vida, número 22, Editora Dibra/Nova Escala, São Paulo, 2008.