17 janeiro 2026

Cortina do Eu (101)

 "Porque todos buscam o que é seu e não o que é do Cristo Jesus." - Paulo. (FILIPENSES, 2:21)


Em verdade, estudamos com o Cristo a ciência divina de ligação com o Pai, mas ainda nos achamos muito distantes da genuína comunhão com os interesses divinos.

Por trás da cortina do "eu", conservamos lamentável cegueira diante da vida.

Examinemos imparcialmente as atitudes que nos são peculiares nos próprios serviços do bem, de que somos cooperadores iniciantes, e  observaremos que, mesmo aí, em assuntos da virtude, a nossa percentagem de capricho individual é invariavelmente enorme.

A antiga lenda de Narciso permanece viva, em nossos mínimos gestos, em maior ou menor porção.

Em tudo e em toda parte, apaixonamo-nos pela nossa própria imagem.

Nos seres mais queridos, habitualmente amamos a nós mesmos, porque se demonstram pontos de vista diferentes dos nossos, ainda mesmo quando superiores aos princípios que esposamos, instintivamente enfraquecemos a afeição que lhes consagrávamos.

Nas obras do bem a que nos devotamos, estimamos, acima de tudo, os métodos e processos que se exteriorizam do nosso modo de ser e de entender porquanto, se o serviço evolui ou se aperfeiçoa, refletindo o pensamento de outras personalidades acima da nossa, operamos, quase sem perceber, a diminuição do nosso interesse para com os trabalhos iniciados.

Aceitamos a colaboração alheia, mas sentimos dificuldade para oferecer o concurso que nos compete.

Se nos achamos em posição superior, doamos com alegria uma fortuna ao irmão necessitado que segue conosco em condição de subalternidade, a fim de contemplarmos com volúpia as nossas qualidades nobres no reconhecimento de longo curso a que se sente constrangido, mas raramente concedemos um sorriso de boa-vontade ao companheiro mais abastado ou mais forte, posto pelos Desígnios Divinos à nossa frente.

Em todos os passos da luta humana, encontramos a virtude rodeada de vícios e o conhecimento dignificante quase sufocado pelos espinhos da ignorância, porque, infelizmente, cada um de nós, de modo geral, vive à procura do "eu mesmo".

Entretanto, graças à Bondade de Deus, o sofrimento e a morte nos surpreendem, na experiência do corpo e além dela, arrebatando-nos aos vastos continentes, pouco a pouco, a buscar o que pertence a Jesus-Cristo, em favor da nossa verdadeira felicidade, dentro da glória de viver.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

16 janeiro 2026

O diminutivo que aumenta

 O USO DO ADJETIVO SUPERLATIVO PODE TER PROLIFERADO POR CAUSA DE NOSSA HERANÇA BANTA


O diminutivo virou uma espécie de divisor de águas para o brasileiro. Em Portugal, onde a ambiguidade linguística tem menor voltagem e toda conversa arrisca-se a seguir o pé da letra, as pessoas tendem a flexionar o grau do substantivo com a consciência de que pão é pão, queijo é queijo - posto evidente que um diminutivo serve é para diminuir e um aumentativo, para aumentar. Leva-se talvez mais à risca a definição usual do diminutivo, a de um grau do substantivo que deixa implícita a ideia de uma dimensão. Além-mar a ênfase é outra. Quando convém, o diminutivo funciona como aumentativo no Brasil. Porque exploramos como ninguém o uso dos adjetivos com flexão típica do diminutivo, mas função superlativa, como se vê abaixo:

"Café Quentinho" - Aquele com o máximo de calor possível

"Menino Bonzinho" - Um verdadeiro poço de bondade

"Cerveja Geladinha" - A bebida quase no ponto de congelamento


Quando deus é diminutivo

Banto é o conjunto de 400 idiomas da família nigero-congolesa, como o quimbundo de Angola, a que mais influenciou o Brasil. As Línguas Bantas estão na África ao do Saara, entre a linha que liga o Golfo da Guiné à foz do Juba (Somália) até o Cabo.

Os africanos subsaarianos usam muito os prefixos. Chega a ser considerada uma de suas maiores características gramaticais. Eles dividem os substantivos em cerca de dez classes. Toda mudança que ocorre com nome ou verbo é indicada pelo prefixo.

A primeira sílaba classifica a palavra: remete a expressão a uma categoria da realidade (diz se um termo vai batizar gente, bicho, ser sobrenatural, se é objeto pequeno, qual o tempo verbal etc). Singular e o plural são definidos pela mudança de prefixo: "mu-" é singular e "ba-", plural, como mucongo, membro da etnia conga (plural bacongo).

Seria comum numa Língua Banta o diminutivo ser usado para aumentar a propriedade de um palavra. Das designações de "Deus" (Ruhanga - o criador, Leza - o todo-poderoso, Molino - o espírito), há Kalunga ou Calunga, pela grafia oficial do Brasil. Pertence à décima classe de palavras, a dos diminutivos "ca-". Significa deus, "aquele que por excelência junta". No Brasil, virou até nome de rede de papelarias, com "K".

Deus, da ordem dos diminutivos? Faz sentido, se pensarmos a lógica dos povos que ocuparam as senzalas nos tempos da escravidão.


Calunga

É deus e é diminutivo.

Na mitologia subsaariana, o Criador não tinha o prestígio que lhe dá a tradição judaico-cristã. Nem bem criou o mundo, entregou-se aos seus filhos divinos e aposentou-se. Cada filho é ancestral fundador das linhagens Bantas. Daí ser rara a devoção coletiva ao deus único. Em geral, o culto é aos espíritos secundários.

Para os bantos (ou mesmo não-bantos, como os iorubas da Nigéria que ocuparam a Bahia), a linhagem é tudo - as ancestrais perduram nos vivos e a reencarnação ocorre no clã, o avô reencarnado no filho e nos netos - até quando ainda vivo. Entre os balubas, a palavra "morrer" é usada para todo objeto. Se pratos se quebram, rios secam ou árvores caem, se não há mais remédio ou retorno à condição de plena existência, os balubas dizem que pratos, rios e árvores "morreram".


O Povo Banto

A palavra "banto", como conhecemos, estreou com o antropólogo W. H. I. Bleek (1827-1875). Significa "povo". Não se refere a uma unidade racial. Séculos de movimentações, guerras e doenças originaram uma variedade de cruzamentos em quase 500 povos diferentes, que mantiveram as suas raízes comuns, apesar de tudo. Banto não é, pois, uma raça, mas uma comunidade com hábitos culturais e dialetos tão parecidos que sua semelhança só faz sentido se houver raiz comum. Todos usam, por exemplo, o radical "-ntu" (munto no singular e banto no plural) para denominar a pessoa, o ser humano. Por isso, essas Línguas foram batizadas de Banto. Invenção de linguistas ocidentais.


Texto sem autoria identificada (possivelmente, deve ser criação coletiva) retirado do Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

15 janeiro 2026

O idioma que invadiu o Tupi

 COMO COLONIZADORES MUDARAM SONS E SENTIDOS DAS LÍNGUAS NATIVAS


O Brasil tem cerca de 180 Línguas nativas que ainda são usadas. Já foram mais de 1.200 no século 16. Aquilo a que chamamos Tupi era a base comum de diferentes dialetos indígenas do Maranhão ao Paraná nos primeiros séculos do Brasil. Os tupis se fixaram nas matas brasileiras vindo do sul do continente em grandes movimentos migratórios. Já as nações Jês foram empurradas para o interior e só se relacionaram com os portugueses no ciclo da mineração do século 17. Bem mais recente é o contato branco com tribos da Amazônia, com os Aruaques, os Caribes e comunidades isoladas, como os Tucanos e Guaicurus.

Os Tupis da costa brasileira formavam um grupo de hábitos culturais comuns e fala homogênea. Esse Tupi litorâneo dos primórdios de Tupi antigo, da conquista. Até o século 18, essa base Tupi seria filtrada pelos catequistas, mamelucos e bandeirantes, o chamado médio Tupi. Hoje, a Língua falada por caboclos amazonenses e tribos isoladas é considerada Neotupi ou Tupi Moderno - não é mais o que os jesuítas ouviram, nem o que os bandeirantes falavam aos quatro cantos em que passaram.

O Tupi reinava nos primeiros séculos de Brasil. Deu a primeira unidade nacional até o século 17. Numericamente inferior e tendo de relacionar-se e tocar negócios com os índios, o colonizador passou a usar Tupi, mas ao seu modo. Os invasores europeus passaram a usar um dialeto prático para a comunicação imediata, misto de Português e Tupi, o Tupinambá, Língua geral, brasílica ou nheengatu. Índias casadas com brancos não eram alfabetizadas, mas suas crianças ficavam expostas à Língua materna. No século 17, acredita-se que só dois de cada cinco moradores da cidade de São Paulo (SP) falavam Português. Segundo o professor da Universidade de São Paulo Bruno Bassetto, autor de Elementos de Filologia Românica, em meados do século 18 só um terço da população usava o Português e todos eram bilíngues. Os colonizadores do Império só se impuseram no litoral em fins do século 17 e no interior, já no 18.

Ao adotar o nheengatu como Língua, o Português operou sobre o tupi como superestrato (em que o povo dominante adota a Língua do dominado). Ao fazer isso, a invasão portuguesa usurpou parte da individualidade das Línguas nativas. Houve, por exemplo, influência semântica do Português sobre o léxico indígena, anota Luiz Caldas Tibiriçá, em seu Dicionário Tupi-Português. O Tupi era veículo da civilização, mas seu vocabulário não deu conta de conceitos e sons que os colonizadores trouxeram às aldeias.


Palavras tupis de origem portuguesa: 

Pana: Os tupis tomaram do Português o termo "pano" para nomear os tecidos que cobriam a nudez lusitana, uma novidade para quem andava pelado.

Jabota: Fêmea do jaboti na Amazônia, é uma palavra tupi que surgiu após a colonização, por influência portuguesa.

Sapoti: O fruto do sapotizeiro, ou sapota, foi trazido pelos portugueses das Antilhas, cujo nome mexicano é tzapoit.

Paissandu: Neologismo guarani criado pelos jesuítas e difundido junto aos tupis. Vem de "pai-sandu" (padre santo).


O Cristianismo trouxe novas pronúncias aos idiomas nativos

Com a chegada do colonizador e da cristianização, os índios tiveram contato com sons que desconheciam, que ecoavam nas palavras portuguesas.

Na conquista de nativos para o rebanho, os jesuítas adaptaram a fonética tupi aos sons trazidos pelos portugueses. Faltavam ao tupi s, z, l, v, f, rr e os grupos com sílabas líquidas (como cl e pl)

A líquida tupi tornou-se um /r/ Português, em oposição com /l/. Os índios dos primeiros anos de colonização diziam, por exemplo, "cabaru" (em lugar de "cavalo"), "chabi" (não "chave"), "papera" (papel) e "ribru" (livro).

Muitas vogais passaram a soar Portuguesas e sumiram consoantes pré-nasais (/mb/ e /nd/ passaram a oral e nasalaram a vogal seguinte, como é o caso do termo "tamanduá", que vem do guarani ta-mondahá, ladrão de formigueiros).

Nas formas verbais, o tupi ganhou as noções de tempo futuro, de modo subjuntivo e outros. O som "on" foi afetado pelo "-ão" Português. Foi assim que "maranhon" transformou-se em "Maranhão", por exemplo.


O rio do diabo

Os pregadores da Companhia de Jesus adaptaram muitas palavras dos nativos para poderem catequizá-los. Houve imenso esforço de acomodação semântica (as adaptações de sentido) para converter o tronco linguístico Tupi-Guarani aos mistérios da fé.

Um termo usado pelos índios ganhava sentido católico e perdia raízes. Tupã ("gênio do trovão", entidade secundária) virou "Deus" e tupambaé ("coisa de Deus", as terras coletivas das missões). É o caso de anhangá. O que era considerado um "espírito com poderes" virou sinônimo de demônio.

Como escreve Sérgio Corrêa da Costa, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de Palavras Sem Fronteiras, era "imperativo" que o "deus" dos guaranis fosse um grande mágico e herói civilizador, em muito superior aos pajés e aos homens-deuses das tribos.

Desde então, quando se quer traduzir anhangabaú, o consagrado é "o rio do espírito das diabruras, do malefício", água do rosto do diabo. Na região hoje ocupada pelo Vale do Anhangabaú, em São Paulo (SP), havia de fato um rio. Não se sabe se o lugar ganhou o nome dos índios. Se o foi, um rio chamado Anhangabaú não teria conotação demoníaca. Se foi batizado após a conquista, é possível que tenha sido associado à transmissão de doenças (daí "rio do diabo").


A lânguida resistência cultural na América hispânica e portuguesa

Entender a Língua dos índios e adaptar conceitos para promover o cristianismo nos trópicos não foi suficiente para os jesuítas portugueses e espanhóis serem assimilados. Encontraram muita resistência pela frente. Eles precisavam procurar os detalhes, as nuances e as expressões que evidenciassem a superioridade católica. Nem sempre conseguiam.

Uma manhã, conta Sérgio Corrêa da Costa, os caciques dos charruas procuraram o missionário de plantão para dizer que não queriam nada com um Deus que "vê tudo e sabe tudo o que nós fazemos". E foram embora, deixando o jesuíta com cara de bobo. Com sincera surpresa e muitas risadas, os índios da fronteira do Brasil com o Paraguai se deram conta de que estavam fadados ao inferno, quando foram os brancos que mataram Jesus Cristo. O crime não era deles, afinal. E quando alguns tupis e guaranis descobriam que, após a morte, os portugueses e espanhóis também iriam para o céu, perdiam o interesse na ressurreição. Não queriam tal companhia por toda a eternidade.


Texto sem autoria identificada (possivelmente, deve ser criação coletiva) retirado do Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

14 janeiro 2026

As muitas vidas da palavra lusitana

                     IDIOMA TRADUZ VISÃO DE MUNDO QUE O POVO PORTUGUÊS          ESPALHOU AO LONGO DO TEMPO PELOS QUATRO CANTOS DO PLANETA E PELAS DIVERSAS CULTURAS QUE DOMINOU


Um idioma é depósito de um povo. Mas poucas Línguas ocidentais parecem ajustar-se tão bem quanto a Portuguesa ao papel de retrato falado das características de um cultura.

O povo português nasceu de misturas muitas. Sua tradição foi a de integrar-se à paisagem, aos climas, às crenças e aos povos que dominou. E o fez sem maiores tremeliques. Como lembra Ângela Dutra de Menezes, em O Português Que Nos Pariu (Relume Dumará), a Língua Portuguesa preserva a individualidade de um povo aventureiro, que circulou a África, chegou à China e ao Japão, avançou pela Índia e pela América. No auge da epopeia ultramarina do século 16, Portugal era um país pouco povoado - 1 milhão de habitantes na época do descobrimento do Brasil. Aderiu ao luxo da mistura muito mais que outros europeus para dominar colônias mais populosas que ele.

Assim, o descendente dos portugueses "aprendeu o amável jeito de olhar além da pele", mas "descobriu a hipocrisia, excelente aliada se a maior necessidade é tentar sobreviver", diz Ângela. É um tipo europeu que se acostumou a firmar a própria identidade a cada adversidade. Gente impetuosa diante dos chamados de além-mar, melancólica por causa de sua aventura, mas enfática, de quem não dá viagem perdida - não por acaso, foi a primeira a declarar-se nação independente na Europa. Esse mesmo português aprendeu as necessidades de ser cético, sonso e maleável diante dos contratempos, afinal, "em excesso de verdades constitui tolice acreditar numa só".


Características

O Idioma Português atua como um reservatório dessa identidade, maleável e também categórica. Põe à disposição do usuário duas formas de futuro subjuntivo ("quando eu for", "quando eu quiser ir") e uso de pronomes entre o verbo principal e o auxiliar ("hei de lhe oferecer" - isso, no Brasil).

Ao usar o pretérito, mais firme é o modo como o Português afirma sua diferença. "Enquanto outras linguagens equilibram dois verbinhos até para descrever os eventos corriqueiros, a Língua Portuguesa é incisiva: 'eu viajei' no lugar do cansativo 'eu tinha (havia) viajado'", diz a autora.

Hernani Donato, autor do insert sobre a Língua Portuguesa no livro A aventura das Línguas, de Hans Joachim Störig, deixa evidente que o professor alemão encarou como dificuldades do Idioma Português muito do que nos é característico. Störig se revela surpreso com o número de vogais e ditongos pronunciados com voz nasal, com terminação em "-ão", nasala vogais antes de outras vogais, e com a sílaba tônica acentuada de maneira tão forte que as outras sílabas parecem cochichadas dentro da palavra, o que faz as vogais não acentuadas mudarem de timbre. É o ser Português falado por sua Língua: musical e afirmativo.

Ao se reproduzir no outro lado do Atlântico, o falar Português se abrasileirou. Ganhou outras flexões, textura própria, nova música. "No Brasil fala-se Português com açúcar", diria Eça de Queiroz. Por um triz, não virou dialeto. Talvez seja questão de tempo. Para Antônio Cândido, a Língua Portuguesa não perdeu na América nada de "seu caráter grave, nem a têmpera máscula, nem o tom de funda melancolia". De quebra, ganhou suavidade e ternura.

Os portugueses deixaram entre nós sua herança, sua Língua. Com ela, tudo  o que a cultura lusa é e significa.


A maior palavra:

"Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico"

Essa vai ser difícil de exportar. Até prova em contrário, a maior palavra da Língua Portuguesa é uma expressão médica, muito rara no Brasil. Com 46 letras, descreve o estado de quem sofre uma doença causada pela aspiração de cinzas de um vulcão.

Deixou as 29 letras de "anticonstitucionalissimamente" a comer sabão.


Texto sem autoria (deve ser criação coletiva) retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

13 janeiro 2026

Concreto e Abstrato

COMPOSITORES COMO GILBERTO GIL E POETAS COMO JOÃO CABRAL DE MELO NETO MOSTRAM QUE NEM SEMPRE É FÁCIL DISTINGUIR UM SUBSTANTIVO DE OUTRO


Referindo-se a América, poema de A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto exaltava o que lhe parecia essencial no fazer poético: a concretização do abstrato e a abstratização do concreto. O mestre  pernambucano exemplificava sua afirmação com este trecho: "Só o primeiro cão, / em frente do homem /  cheirando o futuro". Para Cabral, "cheirar o futuro" era a exata dimensão da concretização do abstrato.

Um dia, numa das "inesquecíveis" aulas sobre as classificações do substantivo, aprendemos na escola que "concreto dá pra pegar; abstrato não dá pra pegar". E começa a confusão: Deus é concreto ou abstrato? E fada? E saci? E luz? E alma? E isso? E aquilo? E nada! Abismo. Mistério. Não foi à toa que Drummond terminou seu célebre poema Aula de Português com estas palavras: O Português são dois; o outro, mistérios." O outro Português é o da aula de Português, o da aula de Gramática.

Ao tratar do capítulo da classificação dos substantivos, os queridos colegas talvez não precisassem chegar ao ponto de citar o pensamento de Cabral, quiçá muito profundo para mentes, corações e espíritos jovens, mas poderiam fazê-lo (aos jovens) ouvir (e ler e entender) a memorável Rebento, de Gilberto Gil. Diz a canção: "Rebento, substantivo abstrato / O ato, a criação, o seu momento (...) / Rebento, tudo que nasce é rebento / Tudo que brota, que vinga, que medra / Rebento raro como flor na pedra / Rebento farto como trigo ao vento."

Pensando bem, parece que Gil segue os passos sugeridos por Cabral. Substantivo abstrato (já que designa "o ato de rebentar" - um dos valores dos abstratos é justamente o de indicar o "ato de"), "rebento" logo se concretiza ("raro como flor na pedra, "farto como trigo ao vento"). Como se vê, é difícil, quase impossível separar o abstrato do concreto.

Definido como "palavra com que se nomeia uma ação, qualidade, estado ou sentimento dos seres, dos quais se pode separar e sem os quais não poderia existir", o substantivo abstrato passa a concreto num piscar de olhos, como na canção de Gil. Por ser "o ato de rebentar", "rebento" se define como abstrato, mas concretiza-se quando "brota", "vinga", "medra", nas palavras de Gil. "Medra", por sinal, não significa "tem medo". Significa "cresce", "avança".

Se recorrermos à etimologia, constataremos que a palavra "abstrato" é da família de "abstrair", que vem do latim abstrabere e significa "separar", "arrancar", "desatar", "desligar", "afastar-se", "separar-se". De fato, o primeiro significado que os dicionários dão para "abstrair" é "separar", o que confirma a definição de abstrato do parágrafo anterior e torna compreensível o significado filosófico de abstrair e de abstração.

A letra da canção de Gil caminha e consolida o pensamento de Cabral: "Outras vezes Rebento simplesmente / No presente do indicativo / Como a corrente de um cão furioso / Como as mãos de um lavrador ativo (...) / Rebento, a reação imediata / A cada sensação de abatimento / Rebento, o coração dizendo 'bata' / A cada bofetão do sofrimento." O tiro certeiro de Gil se dá justamente na passagem do substantivo para a primeira pessoa do singular do presente do indicativo, o que explica quão tênue é a linha que separa o concreto do abstrato.

Alguém ainda se habilita a dizer que "concreto dá pra pegar, abstrato não dá pra pegar"?


Texto de Pasquale Cipro Neto, retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1 Editora Segmento, São Paulo, 2005.

12 janeiro 2026

Cortesia Navegante

OS CUIDADOS NECESSÁRIOS EM E-MAILS QUANDO SE QUER SER ENTENDIDO


O e-mail ressuscitou o costume da correspondência. Para muita gente, no entanto, representou exposição incômoda da própria fragilidade comunicativa. Nesta área das mensagens eletrônicas, pega mal tropeçar no Português e na etiqueta ao fazer um convite, comentar um negócio ou marcar um encontro com um cliente.

Uma tendência recente de pensamento empresarial acredita que um e-mail - e todo documento eletrônico a ser enviado, como notas, ofícios, propostas comerciais, contratos e relatórios - será bem escrito se for atencioso e civilizado. E atenção significa que tudo na mensagem será cuidado com respeito - da revisão gramatical à qualidade de entendimento.

Uma mensagem mal escrita é, por essa lógica, mal escrita por sua totalidade - um equívoco de Português é também de etiqueta. E vice-versa. José Paulo Moreira de Oliveira, consultor de comunicação na produção de textos, acredita que um e-mail pode ser malsucedido no seu propósito porque não expressou o que seu autor, no fundo, pretendia.

- Agir como um bom comunicador pressupõe trabalhar duro para aumentar a clareza, a concisão e a legibilidade, virtudes essenciais para uma comunicação eletrônica eficaz - diz Oliveira.

O bom senso é parte da boa escrita, indica o autor de Como Escrever Melhor (com Carlos Alberto Paula Motta), que já vendeu 60 mil exemplares. Para ele, há uma regra para texto bem escrito nas empresas que parece superar as demais - a demonstração de respeito que se tem ao seu destinatário.


Escrita Virtual

O QUE LEMBRAR ANTES DE ENVIAR UMA MENSAGEM


As informações foram organizadas em gradação de importância, para permitir a imediata compreensão do leitor?

A quantidade de dados foi suficiente para "indicar o caminho das pedras" e assegurar a legibilidade ao texto?

Certifique-se de que seu texto responde às três perguntas mágicas:

- O que o leitor precisa saber?

- Para que o leitor precisa dessas informações?

- Que tipo de conhecimento o leitor já tem do assunto em pauta?

A linguagem usada foi clara e acessível?

Deixou claras suas intenções comunicativas?

Reservaram-se informações complementares para os anexos?


A etiqueta faz a mensagem

OS CRITÉRIOS PARA MENSAGENS ELETRÔNICAS NO CAMPO PROFISSIONAL


Mensagens curtas e simples. Se há muita informação a ser passada, "quebre-a" com títulos e intertítulos. Reserve o que for acessório apenas para os anexos.

Seja específico na redação do campo "Assunto" (subject). Isso permite ao destinatário saber de antemão o que será tratado.

Mensagens curtas; não telegráficas. Mensagens simples, mas não escritas com desleixo.

Evite abusos no negrito e no itálico. Fuja dos textos em maiúscula - são "grito eletrônico" - e das fontes incomuns, pois podem não ser lidas na máquina do destinatário.

Se o e-mail for dirigido a vários destinatários, escolha o mais importante e use cópia oculta para os demais. Nada pior que ser forçado a ler uma imensa barra de endereços eletrônicos.

Personalize sua correspondência. Mesmo nas mensagens com cópia, tenha o cuidado de digitar algumas palavras ao novo destinatário.

Use e abuse de arquivos anexados. São ótimos para enviar listas, planilhas, gráficos, imagens e tudo que puder ser considerado informação complementar. Dê ao leitor o direito de decidir o que vale a pena ser lido.

A maioria dos e-mails deve ser respondida. Ignorá-los é como deixar de atender a um telefonema. Reserve um tempo para resposta.

Não adianta entrar em crise só porque ainda não recebeu resposta. Dê um tempo real ao leitor. Nada de mensagens de reforço do tipo: "já recebeu?"


Material retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

11 janeiro 2026

Salada Cultural

Com o gorro de cozinheiro na cabeça e o avental devidamente vestido, você está pronto para colocar as mãos na massa! Separe os ingredientes: povos com hábitos, costumes e até  Línguas diferentes. Coloque-se em contato e aguarde. Ao perceber que um povo adquiriu hábito ou costume de outro, fique atento: o prato está quase pronto. Se o mesmo povo também doar características aos demais, retire do fogo. É hora de degustar a cultura que acaba de ser enriquecida!

A cultura é constituída pelos mitos, pelas lendas, costumes, crenças religiosas, conhecimento, artes e hábitos de um povo. Mas o homem não nasce com sua cultura já determinada. Ele irá recebê-la por meio da vivência com o seu grupo. E ao ter contato com povos de hábitos, costumes ou Línguas diferentes, o homem e o grupo ao qual pertence pode adquirir alguns dos hábitos, costumes ou modos de agir do outro povo.

No Brasil, o contato entre índios, portugueses e africanos foi fundamental para a formação de uma cultura rica e diversificada. Quando chegaram ao Brasil, os colonizadores portugueses travaram contato com diversos grupos indígenas, que possuíam culturas diferentes. Os negros trazidos de diferentes grupos sociais da África para trabalhar como escravos nas lavouras de cana-de-açúcar e na mineração também contavam cada qual com uma cultura peculiar.

Se você gostar de balançar na rede, utiliza palavras como cochilar e samambaia e ainda adora feijoada no final de semana, conhece de perto o resultado do contato entre essas diferentes culturas. Cochilar e samambaia, por exemplo, são, respectivamente, contribuições africanas e indígenas à Língua Portuguesa.

Além da Língua, são influências dos portugueses a religião católica e os elementos do nosso folclore, como a festa de São João.

Quando há contato entre povos com culturas distintas, como aconteceu no Brasil, ocorre uma troca de valores culturais entre eles. Isso significa que não há apenas o povo que transmite elementos para a cultura do outro. Dois ou mais grupos em contato trocam e incorporam hábitos e costumes que, até então, eram estranhos a eles. Os índios são um exemplo desse processo, chamado transculturação. Quem nunca viu um índio vestido? A partir do contato com um novo povo, eles incorporaram elementos que não existiam na sua cultura original, como as roupas.

Mas antes de pensar que o índio é menos índio por estar vestido, lembre-se de que a cultura está sempre se modificando. Novos elementos culturais são acrescentados o tempo todo. Já imaginou se permanecêssemos com os mesmos hábitos, as mesmas crenças e os mesmos costumes? Melhor é acrescentar características de povos diferentes para enriquecer e diversificar nossa cultura. E o Brasil é um ótimo representante de uma salada cultural.


Texto de Mara Figueira (Revista Ciência Hoje/ Rio de Janeiro) e Otávio Velho (Departamento de Antropologia , Museu Nacional Rio de Janeiro) retirado do Revista Ciência Hoje para Crianças, Ano 14, Número 115, Julho de 2001.

10 janeiro 2026

Ausentes (100)

 "Ora, Tomé, um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio." - (JOÃO, 20:24.)

Tomé, descontente, reclamando provas, por não haver testemunhado a primeira visita de Jesus, depois da morte, criou um símbolo para todos os aprendizes despreocupados das suas obrigações.

Ocorreu ao discípulo ausente o que acontece a qualquer trabalhador distante do dever que lhe cabe.

A edificação espiritual, com as suas bênçãos de luz, é igualmente um curso educativo.

O aluno matriculado na escola, sem assiduidade às lições, apenas abusa do estabelecimento de ensino que o acolheu, porquanto a simples ficha de entrada não soluciona o problema do aproveitamento. Sem o domínio do alfabeto, não alcançará a silabação. Sem a posse das palavras, jamais chegará à ciência da frase.

Prevalece idêntico processo no aprimoramento do espírito.

Longe dos pequeninos deveres para com os irmãos mais próximos, como habilitar-se o homem para a recepção da graça divina? Se evita o contacto com as obrigações humildes de cada dia, como dilatar os sentimentos para ajustar-se às glórias eternas?

Tomé não estava com os amigos quando o Mestre veio. Em seguida, formulou reclamações criando o tipo do aprendiz suspeitoso e exigente.

Nos trabalhos espirituais de aperfeiçoamento, a questão é análoga.

Matricula-se o companheiro, na escola de vida superior, entretanto, ao invés de consagrar-se ao serviço das lições de cada dia, revela-se apenas mero candidato a vantagens imediatas.

Em geral, nunca se encontra ao lado dos demais servidores, quando Jesus vem; logo após, reclama e desespera.

A lógica, no entanto, jamais abandona o caminho reto.

Quem desejar a bênção divina, trabalhe por merecer.

O aprendiz ausente da aula não pode reclamar benefícios decorrente da lição.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

09 janeiro 2026

Herança Clássica

EXPRESSÕES DA LINGUAGEM ORAL QUE FREQUENTAM NOSSO COTIDIANO CARREGAM SÉCULOS DE HISTÓRIA DESCONHECIDA PELA MAIORIA DAS PESSOAS. ESSE NÃO É UM FENÔMENO DA LÍNGUA E DA CULTURA PORTUGUESA, MAS DE TODA A CIVILIZAÇÃO  OCIDENTAL.


A cultura moderna reflete, em suas manifestações, a herança clássica, presente entre eruditos e iletrados cidadãos. Vamos ensaiar, então, um passeio lítero-histórico, investigando o que herdamos da mitologia greco-romana.


Pela ordem cronológica, deveríamos começar pela Grécia, cuja mitologia e cultura "civilizaram" os "bárbaros" romanos, originando o berço da civilização ocidental. Mas, supersticiosos que somos, não cometamos o erro crasso de perder a oportunidade de nos juntarmos aos romanos para começar com o pé direito, como eles faziam nas grandes celebrações. Entrar com o pé direito ou começar com o pé direito é uma expressão que remonta à crença dos antigos romanos de que, adentrando as festas com o pé destro evitariam ali acontecimentos nefastos. Essa crença, materializada em expressão linguística, extrapolou o âmbito dessas festas e passou a ser válida em outras situações.

Por falar em erro crasso, esse dito veio também da antiga Roma, onde havia o Triunvirato - regime do governo no qual três pessoas dividiam o poder. O primeiro foi composto por Caio Júlio, Pompeu e Crasso. A esse último último incumbia atacar o pequeno povo de Partos. Confiante no êxito de sua missão, abandonou as formações técnicas e estratégicas bélicas romanas e atacou, escolhendo um caminho estreito e de pouca visibilidade, o que permitiu aos partos. em menor número, vencer os romanos. Crasso, líder das tropas, foi o primeiro a cair. Daí se dizer hoje que quando alguém reúne todas as condições para acertar, mas comete um erro estúpido, seja por falta de inteligência, de sensibilidade ou mesmo de instrução, comete um erro crasso.

É trabalho de Hércules selecionar expressões capazes de nos conduzir a um passeio lítero-histórico no curto espaço desta coluna. Afinal, debruçar-se sobre elas e suas histórias pode se tornar o calcanhar de Aquiles mesmo de redatores experientes. Dessa forma chega-se a trabalho hercúleo ou trabalho de Hércules, que querem dizer trabalho difícil e remetem às 12 façanhas de Hércules, nome latino dado ao herói da mitologia grega Héracles, que entre outros feitos, matou o leão de Nemeia e a hidra de Lerna, capturou o Minotauro, domou as éguas de Diomedes e colheu as maçãs de ouro do jardim das Hespérides.

Quanto ao calcanhar de Aquiles, consta, na mitologia grega, que Tétis, mãe de Aquiles, a fima de tornar seu filho indestrutível, mergulhou-o num rio mágico, segurando-o pelo calcanhar. Na Guerra de Tróia, Aquiles foi atingido justamente na única parte de seu corpo que não tinha recebido a proteção mágica: o calcanhar. Daí, o ponto fraco de uma pessoa ser conhecido como seu calcanhar de Aquiles.

Jogo empatado para Grécia e Roma, que contribuem igualmente com suas tradições. Poderia ficar assim, mas há o recurso ao voto de Minerva, o voto de desempate, da deusa romana Minerva, equivalente à grega Atena, deusa da sabedoria, das artes e da estratégia de guerra. O voto é seu, leitor!


Texto de Márcia Araújo Almeida retirado da Revista Nossa Língua, Maio de 2011,  Duetto Editorial, São Paulo.

08 janeiro 2026

Prateleira Invertida

                                               Tão espantosa quanto a origem de um termo                                                  é a mudança de sentido ao longo dos séculos.


A evolução de significado de uma palavra depende de trocas fonéticas e semânticas, de condicionamentos históricos e sociais. Forma, contudo, história e vida em comum.

Cada época usa, molda e recicla as palavras segundo seus fins. Muitas mudam de som e forma, mas alterações não menos drásticas ocorrem com o sentido delas. Há casos em que um significado muito antigo deixa de existir ou ser usado e só o novo sentido permanece. Em outros, a visão de mundo de um povo faz com que uma palavra herdada de outros povos ganhe ricas conotações.

Há quem chame o interesse por esse tipo de estudo de "semântica histórica". Na prática, a expressão batiza o estudo das diferenças, alterações e diversidade de significação (a chamada polissemia) de uma palavra no tempo, assim como as nuances de sentido e pluralidades de uso em outros instantes da Língua, por meio dos contextos de distanciamento de suas origens. Não interessa tanto a origem de um vocábulo, como requer a etimologia, mas a evolução de seus sentidos.

Esse tipo de interesse se deve, talvez, à intuição de que toda palavra tem uma história pra contar. Como se vivesse sua saga particular, com tramas, subtramas e reviravoltas as mais surpreendentes.

Imagine a saga vivida no boca-a-boca de séculos por um termo de acepção tão cristalina como "obeso". Sua etimologia é o exato oposto da atual significação. O latim obesu, explica Antenor Nascentes em seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1932), significava "fraco", "delgado". Magro, enfim. Nascentes atribui a inversão de 360 graus a equívoco no uso popular do termo ou a antífrase (usar vocábulo ou frase de sentido oposto ao que se quer, por ironia ou eufemismo supersticioso - os gregos antigos, por exemplo, chamavam as Fúrias de "Eumênides", "benfazejas").

O hoje não tão lembrado Mansur Guérios analisa a reviravolta sofrida pela palavra "abrigo", desde os tempos do Mediterrâneo antigo. Segundo o seu pequeno Dicionário de Etimologia da Língua Portuguesa, apricus significava "exposto ao sol para preservar a umidade" para os latinos antigos. Antenor Nascentes confirma a origem do verbo "abrigar" como o latim apricare, "expor ao sol".

- Estando exposto ao sol, preservava da sombra, do frio, da umidade.

Da acepção  primária, diz Nascentes, deduziu-se o sentido de lugar protetor. Pode ser. Mas outro autor, citado por ele, Friedrich Diez, dá, em Etymologisches Wörterbuch der Romanischen Sprachen (1876-1877), outra matriz ao termo: o gótico barigan (cobrir), o que desabonaria a ideia da inversão. Seria perfeito se o termo viesse mesmo do verbo apricare (aquecer ao sol), à semelhança do Coliseu, ao mesmo tempo abrigo e descoberto. Assim como é agradável acreditar que o uso fez a ideia contida no termo deslizar para "pôr em lugar seguro", por fim, "proteger", como garante Guérios.


Intuições Definitivas

A intuição popular, mãe da fantasia etimológica, estabelece relações inusuais entre palavras. É uma ironia que aquilo que descongestionava poros ou intestinos, o prosaico "purgante", tenha sido chamado de aperitivum. Sim, o nome dado aos petiscos e tira-gostos, estimulantes do prato principal ou do chopinho, recebe o batismo daquilo que um dia foi usado em via oposta. Guinada total, provocada pela semelhança fonética com appetitus ("apetite"), vontade de comer ou beber. "Aperitivo", que só ajudava alguma coisa a sair do corpo, passou a nomear tudo o que abre o apetite e, portanto, ajuda algo a entrar no corpo.

As mutações provocadas pelo tempo têm sua leveza poética. Ter calma, por exemplo, chegou a ser algo infernal para os gregos antigos. O grego kauma e seu derivado latino calma significavam "calor", "quente". Como no Mediterrâneo o período mais quente coincide com a falta de ventos, contagiante preguiça dos dias parados, kauma sofreu contágio, diz Silveira Bueno em Tratado de Semântica Brasileira (Saraiva, 1965). Daí o sentido de tranquilidade e ausência de movimentos contaminar o termo. A quietude está naquilo que é a própria tormenta.

O significado original de "açúcar", diz Gabriel Nascentes, é "grãos de areia", pois originário do sânscrito çarkara, do prácrito sakkar, chegando até nós pelo árabe assukar. A aventura que fez com que a palavra se firmasse no espanhol como azúcar, no italiano zucchero, no francês sucre, e no português é da alçada da etimologia e da semântica histórica.

Houve tempo em que "abandonar" era bom sinal, uma distinção até. Derivada do francês "laisser à bandon" (deixar em poder de: bann é "poder", "jurisdição"), que se tornou o verbo abandonner (português "abandonar"; inglês to ban, proibir). De ban veio "banir" português e o bandon (poder, autoridade); francês (de onde veio "abandonar").

"Celeuma" veio do grego xéleuma, canto dos remadores. Virou sinônimo de vozearia de escravos e daí, pejorativamente, migrou para o sentido de algazarra, diz Ramiz Galvão em Vocabulário da Língua Grega, de 1909 (Garnier, 1994). "Formidável" vem do latim formidabile, herança de formid (formido). Até o século 19, significava "apavorante". Hoje, é o que desperta admiração. Silveira Bueno atribui a mudança radical à interrupção na transmissão do sentido de uma geração para outra. Por sua hipótese, entre uma criança do século 19 e outra do 20, uma separação no ciclo de aprendizado da Língua fez com que houvesse uma "descontinuidade" do sentido. A saber.

A inversão de sentido, pouco importa se fenômeno raro, torna palpável a aventura das palavras ao longo de séculos. E ilumina a Língua como depositária de experiências remotas, tão banalizadas no cotidiano, que suas motivações originais nos escapam. Conhecer a história de uma palavra é, por isso, desvendar um pedaço de uma cultura. Se um termo é produto da necessidade dos falantes de expressar uma situação, um estado de espírito ou objeto, então ele é o testemunho do que pensam os falantes de uma Língua.


Texto de Luiz Costa Pereira Júnior retirado da Revista Língua Portuguesa Especial Etimologia - A Origem das Palavras, Número 2, Editora Segmento, São Paulo, Março de 2007.