COMO COLONIZADORES MUDARAM SONS E SENTIDOS DAS LÍNGUAS NATIVAS
O Brasil tem cerca de 180 Línguas nativas que ainda são usadas. Já foram mais de 1.200 no século 16. Aquilo a que chamamos Tupi era a base comum de diferentes dialetos indígenas do Maranhão ao Paraná nos primeiros séculos do Brasil. Os tupis se fixaram nas matas brasileiras vindo do sul do continente em grandes movimentos migratórios. Já as nações Jês foram empurradas para o interior e só se relacionaram com os portugueses no ciclo da mineração do século 17. Bem mais recente é o contato branco com tribos da Amazônia, com os Aruaques, os Caribes e comunidades isoladas, como os Tucanos e Guaicurus.
Os Tupis da costa brasileira formavam um grupo de hábitos culturais comuns e fala homogênea. Esse Tupi litorâneo dos primórdios de Tupi antigo, da conquista. Até o século 18, essa base Tupi seria filtrada pelos catequistas, mamelucos e bandeirantes, o chamado médio Tupi. Hoje, a Língua falada por caboclos amazonenses e tribos isoladas é considerada Neotupi ou Tupi Moderno - não é mais o que os jesuítas ouviram, nem o que os bandeirantes falavam aos quatro cantos em que passaram.
O Tupi reinava nos primeiros séculos de Brasil. Deu a primeira unidade nacional até o século 17. Numericamente inferior e tendo de relacionar-se e tocar negócios com os índios, o colonizador passou a usar Tupi, mas ao seu modo. Os invasores europeus passaram a usar um dialeto prático para a comunicação imediata, misto de Português e Tupi, o Tupinambá, Língua geral, brasílica ou nheengatu. Índias casadas com brancos não eram alfabetizadas, mas suas crianças ficavam expostas à Língua materna. No século 17, acredita-se que só dois de cada cinco moradores da cidade de São Paulo (SP) falavam Português. Segundo o professor da Universidade de São Paulo Bruno Bassetto, autor de Elementos de Filologia Românica, em meados do século 18 só um terço da população usava o Português e todos eram bilíngues. Os colonizadores do Império só se impuseram no litoral em fins do século 17 e no interior, já no 18.
Ao adotar o nheengatu como Língua, o Português operou sobre o tupi como superestrato (em que o povo dominante adota a Língua do dominado). Ao fazer isso, a invasão portuguesa usurpou parte da individualidade das Línguas nativas. Houve, por exemplo, influência semântica do Português sobre o léxico indígena, anota Luiz Caldas Tibiriçá, em seu Dicionário Tupi-Português. O Tupi era veículo da civilização, mas seu vocabulário não deu conta de conceitos e sons que os colonizadores trouxeram às aldeias.
Palavras tupis de origem portuguesa:
Pana: Os tupis tomaram do Português o termo "pano" para nomear os tecidos que cobriam a nudez lusitana, uma novidade para quem andava pelado.
Jabota: Fêmea do jaboti na Amazônia, é uma palavra tupi que surgiu após a colonização, por influência portuguesa.
Sapoti: O fruto do sapotizeiro, ou sapota, foi trazido pelos portugueses das Antilhas, cujo nome mexicano é tzapoit.
Paissandu: Neologismo guarani criado pelos jesuítas e difundido junto aos tupis. Vem de "pai-sandu" (padre santo).
O Cristianismo trouxe novas pronúncias aos idiomas nativos
Com a chegada do colonizador e da cristianização, os índios tiveram contato com sons que desconheciam, que ecoavam nas palavras portuguesas.
Na conquista de nativos para o rebanho, os jesuítas adaptaram a fonética tupi aos sons trazidos pelos portugueses. Faltavam ao tupi s, z, l, v, f, rr e os grupos com sílabas líquidas (como cl e pl)
A líquida tupi tornou-se um /r/ Português, em oposição com /l/. Os índios dos primeiros anos de colonização diziam, por exemplo, "cabaru" (em lugar de "cavalo"), "chabi" (não "chave"), "papera" (papel) e "ribru" (livro).
Muitas vogais passaram a soar Portuguesas e sumiram consoantes pré-nasais (/mb/ e /nd/ passaram a oral e nasalaram a vogal seguinte, como é o caso do termo "tamanduá", que vem do guarani ta-mondahá, ladrão de formigueiros).
Nas formas verbais, o tupi ganhou as noções de tempo futuro, de modo subjuntivo e outros. O som "on" foi afetado pelo "-ão" Português. Foi assim que "maranhon" transformou-se em "Maranhão", por exemplo.
O rio do diabo
Os pregadores da Companhia de Jesus adaptaram muitas palavras dos nativos para poderem catequizá-los. Houve imenso esforço de acomodação semântica (as adaptações de sentido) para converter o tronco linguístico Tupi-Guarani aos mistérios da fé.
Um termo usado pelos índios ganhava sentido católico e perdia raízes. Tupã ("gênio do trovão", entidade secundária) virou "Deus" e tupambaé ("coisa de Deus", as terras coletivas das missões). É o caso de anhangá. O que era considerado um "espírito com poderes" virou sinônimo de demônio.
Como escreve Sérgio Corrêa da Costa, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de Palavras Sem Fronteiras, era "imperativo" que o "deus" dos guaranis fosse um grande mágico e herói civilizador, em muito superior aos pajés e aos homens-deuses das tribos.
Desde então, quando se quer traduzir anhangabaú, o consagrado é "o rio do espírito das diabruras, do malefício", água do rosto do diabo. Na região hoje ocupada pelo Vale do Anhangabaú, em São Paulo (SP), havia de fato um rio. Não se sabe se o lugar ganhou o nome dos índios. Se o foi, um rio chamado Anhangabaú não teria conotação demoníaca. Se foi batizado após a conquista, é possível que tenha sido associado à transmissão de doenças (daí "rio do diabo").
A lânguida resistência cultural na América hispânica e portuguesa
Entender a Língua dos índios e adaptar conceitos para promover o cristianismo nos trópicos não foi suficiente para os jesuítas portugueses e espanhóis serem assimilados. Encontraram muita resistência pela frente. Eles precisavam procurar os detalhes, as nuances e as expressões que evidenciassem a superioridade católica. Nem sempre conseguiam.
Uma manhã, conta Sérgio Corrêa da Costa, os caciques dos charruas procuraram o missionário de plantão para dizer que não queriam nada com um Deus que "vê tudo e sabe tudo o que nós fazemos". E foram embora, deixando o jesuíta com cara de bobo. Com sincera surpresa e muitas risadas, os índios da fronteira do Brasil com o Paraguai se deram conta de que estavam fadados ao inferno, quando foram os brancos que mataram Jesus Cristo. O crime não era deles, afinal. E quando alguns tupis e guaranis descobriam que, após a morte, os portugueses e espanhóis também iriam para o céu, perdiam o interesse na ressurreição. Não queriam tal companhia por toda a eternidade.
Texto sem autoria identificada (possivelmente, deve ser criação coletiva) retirado do Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.