quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Afrodite e Adônis

 O mito de Adônis tem origem oriental e deriva de "Adonai", denominação bíblica do velho testamento que designa Deus. Afrodite zangou-se com uma jovem virgem chamada Mirra, filha do rei da Assíria, Téias, que não lhe rendia culto, e resolveu vingar-se. Inspirou-lhe então uma paixão irresistível pelo próprio pai, e Mirra, graças à cumplicidade de sua ama, pôde durante doze noites satisfazer seu incesto. Mas quando seu pai descobriu que involuntariamente deitou com a própria filha, desembainhou a espada para matá-la. Esta, suplicando aos deuses, pediu que a fizessem desaparecer. Ela foi então metamorfoseada em uma árvore, que tem até hoje o nome de mirra.

Passados dez meses, a árvore entreabriu-se e dela nasceu um menino. Sua fulgurante beleza cativou Afrodite que, para subtraí-lo da vista de todos, encerrou-o num baú que confiou à juíza infernal, Perséfone. Deu-lhe a recomendação de que o guardasse no mundo subterrâneo do Hades até que crescesse, quando então retornaria para buscá-lo. No entanto, à medida que o menino crescia, sua beleza mais e mais aumentava, a tal ponto que a própria Perséfone enamorou-se dele. Quando Afrodite foi buscá-lo, Perséfone não quis devolvê-lo, criando-se uma disputa entre as duas deusas pelo belo Adônis. Resolveram então chamar seu próprio pai, o grande Zeus, para resolver a contenda. Segundo Apolodoro de Atenas, o senhor do Olimpo resolveu dividir o ano em três partes e disse: "Uma parte será de Perséfone, a outra de Afrodite e a última será de livre uso de Adônis". Mas o belo jovem decidiu então presentear essa parte que lhe cabia  para a deusa Afrodite. E aqui vemos um mito cujo significado é completamente oposto do mito de Narciso, pois aqui a beleza não só é entregue, como também a parte que poderia ficar livre e sem destino é entregue à deusa do amor. Assim, Adônis não apenas obedece, mas consagra a lei de Afrodite que reza: "O belo foi feito para ser dado, como também o amor; aquele que os guarda para si, considerarei traidor". A  mensagem aplica-se tanto ontem como hoje, uma vez que podemos dizer que o narcisismo (o excessivo amor por si mesmo) é um dos males de nossa era, que se alia ao individualismo, provocando os estragos nas relações humanas que tão bem conhecemos. 

Voltando ao mito, o belo efebo apaixonou-se também pela caça e, apesar das advertências de Afrodite, não desistia de seus perigos. O deus Ares, que também amava Afrodite, sentiu-se enciumado com a atenção que o jovem recebia da bela deusa e decidiu vingar-se. Um dia, quando caçava na floresta, Adônis deparou-se com um enfurecido javali, que não era senão o próprio deus Ares disfarçado. Inadvertidamente, tentou enfrentar o animal e foi mortalmente atingido por ele. Os pássaros da floresta presenciaram o ataque fatal e correram a alertar Afrodite do que acontecera. Ela imediatamente acudiu em socorro de Adônis, mas na pressa esqueceu de calçar as sandálias e feriu os pés nos espinhos de uma roseira. Imediatamente elas se tingiram com o sangue de Afrodite, tornando-se para sempre vermelhas, e não mais brancas, como eram originalmente. A deus ainda teve tempo de colher algumas para levá-las ao belo Adônis, mas quando chegou, ele já agonizava. Dizem ainda que das lágrimas de Afrodite sobre o corpo de Adônis nasceram as anêmonas. Vemos aí a  razão por que, desde tempos imemoriais, as rosas vermelhas são o símbolo da paixão ardente, sendo que na antiguidade só era permitido ofertá-las a alguém intensamente amado.

Adônis tornou-se, na antiguidade, objeto de grande culto e em sua honra eram celebradas pelas mulheres grandes festas e jogos que ficaram conhecidos como "As Adonias". Plutarco conta que nessa ocasião "as mulheres atenienses expunham em público simulacros dos mortos que enterravam, batiam no peito e, imitando os funerais, acompanhavam essas cerimônias com canto fúnebre". A seguir, tinha lugar a festa da ressurreição de Adônis. Teócrito conta, em seu décimo quinto idílio, como a festa era organizada em honra a Adônis, em Alexandria, por Arsinoe, mulher de Ptolomeu Filadelfo, rei do Egito nessa ocasião. Eisa transcrição de pequeno trecho: "Aqui em torno de Adônis temos reunidos os mais belos frutos, os mais belos vasos adornados e os mais perfumados óleos da Síria. Tudo para a glória e ressurreição de Adônis".

O significado dessas festas e dos jogos consagrados a esse belo jovem pelas mulheres tinha a intenção de reviver o amor de Afrodite pelo belo e ensinar que todos deveríamos imitá-la. Sua ressurreição simbolizava que o amor e o belo nunca morrem, mas que é de nossa responsabilidade mantê-los vivos, mesmo que isso seja (e é) um risco.

Finalmente, vale notar que o fato de seu nome derivar da palavra "deus" em acadiano (idioma em que a Bíblia foi originalmente escrita) revela seu significado arcaico, ou seja, "paixão". É que, antes do massacre, que a tradição judaico-cristã-islâmica perpetrou com seu falso moralismo, deus, amor e paixão significavam a mesma coisa.


Retirado do livro Mitologia Viva - Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar, de Viktor D. Salis, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Trechos da Introdução ao Mito dos Heróis

A etimologia, a origem e a estrutura ontológica de herói ainda não estão muito claras. Talvez se possa falar com certa desenvoltura acerca de "suas funções" e, assim mesmo, tomando-se como ponto de partida sobretudo a Grécia. É claro que todas as culturas primitivas e modernas tiveram e têm seus heróis, mas foi particularmente na Hélade que a "estrutura", as funções e o prestígio religioso do herói ficaram bem definidos e, como acentua Mircea Eliade, "apenas na Grécia os heróis desfrutaram um prestígio religioso considerável, alimentaram a imaginação e a reflexão, suscitaram a criatividade literária e artística".

Etimologicamente, heros talvez se pudesse aproximar do indo-europeu servã, da raiz ser-, de que provém o avéstico haurvaiti, "ele guarda" e o latim seruãre, "conservar, defender, guardar, velar sobre, ser útil", donde herói seria o "guardião, o defensor, o que nasceu para servir".

(...)

Em sua obra clássica sobre os heróis, Gli Eroi Greci, já por nós citada mais de uma vez, Angelo Brelich, após observar que, numa religião tão plástica como a grega, embora exista uma diferença muito grande entre um herói e outro, o que se deve ao "princípio informador de uma religião politeísta que tende a diferenciar e a fixar em formas plásticas suas múltiplas experiências e exigências", chega à conclusão de que é possível, mutatis mutandis, traçar um retrato do herói grego. Para o pesquisador italiano assim poderia ser descrita a estrutura morfológica dos heróis: "virtualmente, todo herói é uma personagem, cuja morte apresenta um relevo particular e que tem relações estreitas com o combate, com a agonística, a arte divinatória e a medicina, com a iniciação da puberdade e os mistérios; é fundador de cidades e seu culto possui um caráter cívico; o herói é, além do mais, ancestral de grupos consanguíneos e representante prototípico de certas atividades humanas fundamentais e primordiais. Todas essas características demonstram sua natureza sobre-humana, enquanto, de outro lado, a personagem pode aparecer como um ser monstruoso, como gigante ou anão, teriomorfo ou andrógino, fálico, sexualmente anormal ou impotente, voltado para a violência sanguinária, a loucura, a astúcia, o furto, o sacrilégio e para a transgressão dos limites e medidas que os deuses não permitem sejam ultrapassadas pelos mortais. E, embora o herói possua uma descendência privilegiada e sobre-humana, se bem que marcada pelo signo da ilegalidade, sua carreira, por isso mesmo, desde o início, é ameaçada por situações críticas. Assim, após alcançar o vértice do triunfo com a superação de provas extraordinárias, após núpcias e conquistas memoráveis, em razão mesmo de suas imperfeições congênitas e descomedimentos, o herói está condenado ao fracasso e a um fim trágico.

Mircea Eliade remata o magnífico retrato do herói, traçado por Brelich, com as seguintes palavras: "Utilizando uma fórmula sumária, poderíamos dizer que os heróis gregos compartilham uma modalidade existencial sui generis (sobre-humana, mas não divina) e atuam numa época primordial, precisamente aquela que acompanha a cosmogonia e o triunfo de Zeus. A sua atividade se desenrola depois do aparecimento dos homens, mas num período dos 'começos', quando as estruturas não estavam definitivamente fixadas e as normas ainda não tinham sido suficientemente estabelecidas. O seu próprio modo de ser revela o caráter inacabado e contraditório do tempo das 'origens'..."

Como se pode observar, tanto Angelo Brelich quanto Mircea Eliade traçam apenas a "estrutura morfológica" do herói, mas evitam opinar claramente sobre a origem do mesmo. E como estávamos falando exatamente acerca de sua gênese, é necessário, para concluir, voltar a ela.

(...)

Não seria mais simples dizer que o herói, seja ele de procedência mítica ou histórica, seja ele de ontem ou de hoje, é simplesmente um arquétipo que "nasceu" para suprir muitas de nossas deficiências psíquicas? De outra maneira, como se poderia explicar a similitude estrutural de heróis de tantas culturas primitivas que, comprovadamente, nenhum contato mútuo e direto mantiveram entre si? Da Babilônia às tribos africanas; dos índios norte-americanos aos gregos; dos gauleses aos incas peruanos, todos os heróis, descontados fatores locais, sociais e culturais, têm um mesmo perfil e se encaixam num modelo exemplar.

Otto Rank tentou mesmo formular um esquema do que ele denominou a lenda-padrão do herói. Vamos imitá-lo ou até mesmo transcrevê-lo, fazendo-lhe, no entanto, algumas achegas ou podando-o naquilo que nos parece supérfluo. Consoante Rank, o herói descende de ancestrais famosos ou de pais da mais alta nobreza: habitualmente é filho de um rei. Seu nascimento é precedido por muita dificuldades, tais como a continência ou a esterilidade prolongada, o coito secreto dos pais, devido à proibição ou ameaça de um Oráculo, ou ainda por outros obstáculos, como o castigo que pesa sobre a família. Durante a gravidez ou mesmo anterior à mesma, surge uma profecia, sob forma de sonho ou de oráculo, que adverte acerca do perigo do nascimento da criança, uma vez que esta põe em perigo a vida do pai ou de seu representante. Via de regra, o menino é exposto num monte ou num "recipiente", cesto, pote, urna, barco, é abandonado nas águas, as mais das vezes, do mar. É recolhido e salvo por pessoas humildes: pastor, pescador, ou por animais e é amamentado por uma fêmea de algum animal, ursa, loba, cabra... ou ainda por uma mulher de condição modesta. Transcorrida a infância, durante a qual o adolescente, não raro, dá mostras de sua condição e natureza superiores, o "futuro herói" acaba descobrindo, e aqui as circunstâncias variam muito, sua origem nobre. Retorna à sua tribo ou a seu reino, após façanhas memoráveis, vinga-se do pai, do tio ou do avô, casa-se com uma princesa e consegue o reconhecimento de seus méritos, alcançando, finalmente, o posto e as honras a que tem direito. Mas, após tantas lutas, o fim do herói é comumente trágico. A grande glória lhe será reservada post mortem. Diga-se, de caminho, que, para Rank, o mito do herói é uma projeção da "novela familiar": a neurose infantil "estancada", a luta do menino contra o pai e suas tentativas de libertar-se de seus genitores: "Na medida em que dispomos dos elementos mencionados acima, passa a ter fundamento nossa analogia do 'eu' do menino com o herói do mito, em virtude das tendências coincidentes entre as novelas familiares e os mitos heroicos, uma vez que o mito revela, ao longo de todo o seu desenvolvimento, um esforço por libertar-se dos pais e esse mesmo desejo se depreende das fantasias individuais do menino, quando busca sua emancipação. Nesse sentido o 'eu' do menino se comporta como o herói do mito e, na realidade, o herói deve ser interpretado sempre como um 'eu' coletivo, dotado de todas as excelências". E mais adiante, remata o estudioso austríaco: "Na realidade, os mitos dos heróis equivalem, em função de muitas de suas características essenciais, às ideias delirantes de alguns psicólogos, que sofrem de delírios de perseguição e grandeza, isto é, os paranoicos. Seu sistema está construído de forma muito semelhante ao mito do herói, revelando assim os mesmos temas psicológicos que a novela familiar do neurótico.

Em todo caso, as portas da pesquisa e das conclusões continuam abertas, até mesmo para os heróis...


Texto de Junito de Souza Brandão retirado do Volume 3 da Mitologia Grega, 13ª Edição, Editora Vozes, Petrópolis, 2005.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Mitologia Grega (Prefácio do Volume 2)

Se estudarmos as religiões universais desde os primórdios dos tempos históricos, veremos que todas elas, como o hinduísmo, o judaísmo, o cristianismo, o islamismo, estiveram intimamente relacionadas com os sistemas econômicos em que se inseriram. A conclusão poderia se estender à religião dos gregos. Mas, antes de abordar o mito grego, examinemos um dos ângulos do cristianismo.

Quando, na Renascença, Lutero se volta contra Roma, isso acontece na época em que os métodos de produção estavam passando por uma profunda transformação. A divergência teológica entre Lutero e Roma, fundamentalmente, consistia em que a fé bastava, por si só, para a salvação. As obras não importavam. No inconsciente coletivo do mundo anglo-saxão, que estava na vanguarda daquelas transformações, esse mandamento aparece de forma mais explícita: "basta seres eficiente, não importa de que maneira, para te salvares", ou melhor, não importam os meios, basta a eficiência. Esta concepção permeou todo o sistema de produção de riqueza que se instalou na Europa e que veio a ser adotado pelas grandes democracias do Ocidente.

No caso do hinduísmo, vemos uma religião milenar, um sistema de castas hierarquizadas, no qual, ao homem das castas menos elevadas se acena com a recompensa de renascer em casta superior se em vida tiver meditado e cumprido os preceitos que lhe são prescritos, até chegar à união com a totalidade, o Brahman.

O caso do islamismo é assemelhado. Numa sociedade em que a poliginia é lei, o casamento consistia em um privilégio. Dispõe o Corão que um homem poderá ter tantas esposas quanto puder sustentar. Daí resulta um grande excedente de homens não poder sustentar mulher alguma; e a lei islâmica lhes promete belas huris na outra vida, se nesta se sacrificarem à Jihad, isto é, à Guerra Santa. E o islamismo se espraiou pelo mundo, num vasto e duradouro império.

Quando nos detemos sobre o mito grego, diversas analogias se tornam evidentes. O mito de início serviu aos eupátridas. A composição do mundo dos deuses é hierarquizada, favorece aos deuses em detrimento das deusas e se apóia em um sistema de valores. Zeus todo-poderoso tem o direito de vida e morte sobre tudo e sobre todos. Sua mulher Hera, reprimida, busca sempre compensar-se pela infindável série de transgressões conjugais que se permitem ao marido cosmocrata e onipotente. A distância entre o homem e os deuses, quando transposta, é punida com severidade. No mito de Prometeu iremos ver o herói condenado a ter o fígado diariamente devorado por um abutre, e diariamente renascido para perpetuação do suplício, por haver ousado favorecer os mortais com seu arrojo. Assim se mantiveram estruturadas, por longo tempo, a religião e a sociedade grega.

Em todas as épocas, porém, houve movimentos contrário aos sistemas estratificados das religiões tradicionais, e a Grécia também assistiu a tais reações. O orfismo e o dionisismo, os Mistérios de Elêusis, constituem bons exemplos. Tais correntes ofereciam a todos, igualitariamente - até aos deserdados - a comunhão com o divino. Mas não nos deteremos em seus lineamentos, tão magnificamente analisados por Junito Brandão nos capítulos que dedica a Orfeu e Dioniso, porque, como aponta o Autor, eles acabaram sendo cooptados pela religião oficial. Foi notável o que ocorreu com o culto de Dioniso, que terminou "apolinizado", pois a vivência do êxtase ameaçava a sociedade racional.

Mas os Mistérios de Elêusis distava apenas vinte quilômetros de Atenas, mas Deméter e sua filha Perséfone levaram séculos para chegar até a Pólis, onde imperavam os eupátridas e o legalismo de Apolo. Quando mais não fosse, tratava-se de um culto desestabilizador e suspeito, que exaltava a figura da mulher em contraposição ao domínio do homem. Os Mistérios abriram-se democraticamente a todos, até mesmo aos escravos, desde que falassem grego, pudessem entender e repetir as palavras sagradas e não estivessem condenados por homicídio. O Estado terminou por tolerar as práticas dos Mistérios, pois Deméter e Perséfone, afinal, eram responsáveis pelas sementes, e destas dependiam os frutos e o bem-estar da coletividade.

Não haverá exagero em afirmar-se que os Mistérios de Elêusis foram um reflexo, no campo religioso, da democracia que então ensaiava os seus primeiros passos. E esta, de par com o emergente pensamento filosófico e científico - outra contribuição dos helenos para o aprimoramento do homem - viria a constituir um dos pilares em que se fundamenta a sociedade contemporânea.


Texto de Rose Marie Muraro retirado do livro Mitologia Grega, de Junito de Souza Brandão, Volume 1, Editora Vozes, 18ª Edição, 2004.

domingo, 27 de outubro de 2024

Mitologia Grega (Prefácio do Volume 1)

Através do conceito de arquétipo, C.G. Jung abriu para a Psicologia a possibilidade de perceber nos mitos diferentes caminhos simbólicos para a formação da Consciência Coletiva. Nesse sentido, todos os símbolos existentes numa cultura e atuantes nas suas  instituições são marcos do grande caminho da humanidade das trevas para a luz, do inconsciente para o consciente. Estes símbolos são as crenças, os costumes, as leis, as obras-de-arte, o conhecimento científico, os esportes, as festas, todas as atividades, enfim, que formam a identidade cultural. Dentre estes símbolos, os mitos têm lugar de destaque devido à profundidade e abrangência com que funcionam no grande e difícil processo de formação da Consciência Coletiva.

Os pais ensinam aos filhos como é a vida, relatando-lhes as experiências pelas quais passaram. Os mitos fazem a mesma coisa num sentido muito mais amplo, pois delineiam padrões para a caminhada existencial através da dimensão imaginária. Com o recurso da imagem e da fantasia, os mitos abrem para a Consciência o acesso direto ao Inconsciente Coletivo. Até mesmo os mitos hediondos e cruéis são da maior utilidade, pois nos ensinam através da tragédia os grandes perigos do processo existencial.

Todavia, os arquétipos são ainda mais do que a matriz que forma os símbolos para estruturar a Consciência. Eles são também a fonte que os realimenta. Por isso, os mitos, além de gerarem padrões de comportamento humano, para vivermos criativamente, permanecem através da história como marcos referenciais através dos quais a Consciência pode voltar às suas raízes para se revigorar. A obra de Jung demonstrou fartamente que o Inconsciente não é somente a origem da Consciência, mas, também, a sua fonte permanente de reabastecimento. Da mesma forma que a noite permite às plantas prepararem-se para cada novo dia e o sono descansa e reabastece o corpo, assim, também, o Inconsciente renova a Consciência. Das trevas fez-se a luz, que, através delas, se mantém. De noite, por meio dos sonhos; de dia, através da fantasia, os arquétipos produzem e revigoram os símbolos. A interação do Consciente com o Inconsciente Coletivo, através dos símbolos, forma, então, um relacionamento dinâmico, extraordinariamente criativo, cujo todo podemos denominar de Self Cultural. Os mitos são, por isso, os depositários de símbolos tradicionais no funcionamento do Self Cultural, cujo principal produto é a formação e a manutenção da identidade de um povo.

A grande utilidade dos mitos, por conseguinte, está não só no ensinamento dos caminhos que percorrem a Consciência Coletiva de uma determinada cultura durante sua formação, mas também na delineação do mapa do tesouro cultural através do qual a Consciência Coletiva pode, a qualquer momento, voltar para realimentar-se e continuar se expandindo. Mas, poderíamos perguntar, qual a utilidade do conhecimento dos mitos de uma cultura, tão diferente quanto a greco-romana, para Consciência Coletiva Brasileira?

Nosso país atravessa atualmente uma fase histórica da maior importância para a busca de uma identidade a partir da sua sociedade multicultural. Valorizando nossa ecologia, tentando proteger o que resta das culturas indígenas, estudando as culturas negras representantes da negritude em nosso meio, traduzindo os rituais da cultura japonesa já pujantemente existente entre nós e voltando-nos às nossas raízes ibéricas para acompanhar o renascimento de Portugal e Espanha do interior do seu enigma histórico, nós brasileiros caminhamos para descobrir quem somos.

Nessa tarefa, o conhecimento da cultura greco-romana muito pode nos ajudar, tanto pela imitação, quanto pela diferenciação. A imitação nos permite buscar nosso símbolos e empregá-los como pontes entre nosso Consciência e nossas raízes, da mesma forma que os gregos o faziam. A diferenciação nos estimula a buscar nossa maneira especial e única de viver com os nosso próprios símbolos.

Existe ainda algo extraordinário no estudo da Mitologia Grega, para o que gostaria de motivar a atenção do leitor. Trata-se de compreender a razão pela qual a Cultura Ocidental se voltou tão interessante para a Grécia durante o Renascimento, o que muitos têm compreendido como um retrocesso ao paganismo e um consequente desvirtuamento do Cristianismo. No entretanto, lado a lado com a intolerância da Inquisição e sua obra repressiva das variáveis míticas (heresias), percebemos, no Renascimento, a Consciência da fé cristã, não só com os símbolos da religião greco-romana e egípcia, como com toda a sorte de crenças, superstições e magia. Foi nesta convivência entre religião, alquimia, astrologia e superstição que nasceu o humanismo europeu, útero e berço da ciência moderna. Não vejo nisso um retrocesso do Cristianismo e sim um avanço. A árvore mítica judaico-cristã foi buscar em outras culturas o material imaginário necessário para implantar a transição patriarcal do Self Cultural e encontrou, na Mitologia Grega, uma fonte inesgotável de símbolos de convivência com as forças da natureza. O Ocidente reencontrou na Grécia não só uma cornucópia de mitos matriarcais, como também inúmeros padrões mitológicos de convivência destes símbolos matriarcais com os patriarcais. Estes ingredientes foram indispensáveis para os gênios do Renascimento constituírem a ciência moderna, a partir da busca da espiritualidade judaico-cristã, aplicada às forças da natureza. Este fator pode nos ajudar criativamente na intenção entre, por um lado, nossas raízes judaico-cristãs e a cultura japonesa de dominância patriarcal e, por outro lado, as culturas indígenas e negras de dominância matriarcal na busca da construção da identidade brasileira, a partir de nossa Sociedade Multicultural.


Texto de Carlos Byington, Médico Psiquiatra e Analista Junguiano retirado do livro Mitologia Grega, de Junito de Souza Brandão, Volume 1, Editora Vozes, 18ª Edição, 2004.

sábado, 26 de outubro de 2024

4. A língua reflete o mundo como ele é

Perdeu-se no tempo, lembra o filósofo norte-americano Richard Rorty (1931 - 2007), o momento em que os primeiros hominídeos notaram que, ao grunhir um ruído x numa ocasião, levariam uma surra se, em seguida, não grunhissem um indispensável som y. Gostamos de pensar que substituímos esse mecanismo acidental pela visão de um sistema de descrição lógico e imemorial, a fazer as correspondências com o mundo e o eu. A gramática, sem deixar de ser estrutura interna à mente e capacidade inata, deve sua consolidação mais ao método dos hominídeos do que as ideias sistêmicas. As mudanças derivam de contínuos processos de inferências, não tanto da necessidade de maior adequação ao não linguístico (o mundo, o eu) ou de derivas sempre previsíveis. Quem sabe intuamos a língua menos como correspondência (ao mundo, ao eu) do que um "caminho" (ao outro), que precisa ser constantemente corrigido, para incorporar novas pistas (comunicativas) dos interlocutores. A comunicação fluirá sempre que coincidirmos nossos palpites sobre o que os outros farão (seus ruídos a nossos estímulos, o que farão em seguida a uma manifestação verbal nossa) às nossas expectativas sobre o que diremos.


Mitos Ideológicos, 100 Mitos, texto de Luiz Costa Pereira Júnior retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

3. O português é difícil

Nenhum idioma é complicado para o falante nativo. A "dificuldade" depende de muitas variáveis.

Primeiro, podemos dizer que uma língua é mais fácil a um dado falante se o idioma a ser aprendido é mais próximo linguisticamente de seu idioma nativo. Os holandeses entendem e chegam a falar alemão e inglês devido à semelhança.

Outro fator na "dificuldade" de um idioma é o sistema ortográfico. O russo é baseado no alfabeto cirílico, por sua vez baseado no grego, o que dificulta sua leitura. O polonês é mais "fácil porque tem um alfabeto latino com algumas modificações, o que permite a decifração. O basco, o húngaro e o finlandês são todos difíceis devido à complexidade gramatical deles. Mas há línguas indígenas (brasileiras) e africanas muito complexas, com sutilezas e riqueza de expressão. Não há línguas "primitivas".

A ideia de que o português é um dos idiomas mais difíceis não passa de mito. Tudo depende de contexto e interlocutor. Difícil para quem, cara-pálida?


Mitos Ideológicos, 100 Mitos, texto de John Robert Schmitz retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo. O autor é norte-americano radicado no Brasil. É professor do Departamento de Linguística Aplicada, no Instituto de Estudos da Linguagem na Unicamp.

2. A língua portuguesa está em decadência

A ideia de que todo idioma empobrece e degenera com o tempo ganhou apelo no século 19, quando cientistas passaram a crer que línguas antigas estavam num estágio avançado de desenvolvimento  se comparadas às modernas. O estudo da estrutura das línguas mostrou que tal ideia não tem fundamento. A mudança linguística não representa degeneração ou melhoria, mas um processo pelo qual as línguas passam de um estado de organização a outro. Altera-se o modo como o sistema se configura, mas a organização não deixa de existir. As línguas não decaem nem progridem. Mudam.


Mitos Ideológicos, 100 Mitos, texto de Luiz Costa Pereira Júnior retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

Linguagem (43)

 "Linguagem são e irrepreensível para que o adversário se envergonhe, não tendo nenhum mal que dizer de nós" - Paulo. (TITO, 2:8)


Através da linguagem, o homem ajuda-se ou se desajuda.

Ainda mesmo que o nosso íntimo permaneça nevoado de problemas, não é aconselhável que a nossa palavra se faça turva ou desequilibrada para os outros.

Cada qual tem o seu enigma, a sua necessidade e a sua dor e não é justo aumentar as aflições do vizinho com a carga de nossas inquietações.

A exteriorização da queixa desencoraja, o verbo da aspereza vergasta, a observação do maldizente confunde...

Pela nossa manifestação mal conduzida para com os erros dos outros, afastamos a verdade de nós.

Pela nossa expressão verbalista menos enobrecida, repelimos a bênção do amor que nos encheria do contentamento de viver.

Tenhamos a precisa coragem de eliminar, por nós mesmos, os raios de nosso sentimentos e desejos descontrolados.

A palavra é canal do "eu".

Pela válvula da língua, nossas paixões explodem ou nossas virtudes se estendem.

Cada vez que arrojamos para fora de nós o vocabulário que nos é próprio, emitimos forças que destroem ou edificam, que solapam ou restauram, que ferem ou balsamizam.

Linguagem, a nosso entender, se constitui de três elementos essenciais: expressão, maneira e voz.

Se não aclararmos a frase, se não apuramos o modo e se não educamos a voz, de acordo com as situações, somos suscetíveis de perder as nossas melhores oportunidades de melhoria, entendimento e elevação.

Paulo de Tarso fornece a receita adequada aos aprendizes do Evangelho.

Nem linguagem doce demais, nem amarga em excesso. Nem branda em demasia, afugentando a confiança, nem áspera ou contundente, quebrando a simpatia, mas sim "linguagem são e irrepreensível para que o adversário se envergonha, não tendo nenhum mal que dizer de nós".


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Mitos Ideológicos - 1. "Saudade" só existe em Português

A palavra "saudade" não é particularidade da Língua Portuguesa. Porque deriva do latim, existe em outras línguas românicas. O espanhol tem soledad. O catalão soledat. O sentido, no entanto, não é o do português, está mais próximo da "nostalgia de casa", a vontade de voltar ao lar.

A originalidade portuguesa foi a ampliação do termo a situações que não a solidão sentida pela falta do lar: saudade é a dor de uma ausência que temos prazer em sentir. Mesmo no campo semântico, no entanto, há correspondente, no romeno, mas em outra palavra: dor (diz-se "durere").

É um sentimento que existe em árabe, na expressão alistiyáqu 'ilal watani. O árabe pode, até, ter colaborado para a forma e o sentido do nosso "saudade", tanto quanto o latim.


Mitos Ideológicos, 100 Mitos, texto de Luiz Costa Pereira Júnior retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

100 Mitos da Linguagem

A revista Língua Portuguesa apresenta a seguir uma reunião de 100 proposições, máximas e preconcepções que esta edição retoma, à falta de melhor tutela, por "mitos da linguagem" - os fatos pouco ou nada sustentáveis que se propagam como verdades sobre os idiomas, a Língua Portuguesa e a expressão humana.

O avanço da pesquisa tem mostrado que muitas dessas verdades são de ouvir falar. Mas, como os especialistas raramente concordam entre si, mesmo sua desmistificação corre o risco de reproduzir equívocos que combate. Por isso, dissolver mitos é fotografar o estado da arte de certezas sempre relativas.

Com esse espírito, cotejamos os escritores divulgados por Língua Portuguesa em nove anos e as contribuições especialmente criadas para esta edição. Os "mitos ideológicos reúnem constatações caducas que congestionam nosso olhar sobre a Língua. "Mitos culturais lançam o domínio da linguagem sobre o comportamento, enquanto "mitos pedagógicos" reveem as visões que sustentam lições equivocadas nas escolas. "Mitos gramaticais" levantam alguns dos casos de hipercorreção e regras superadas, enquanto "mitos etimológicos" lidam com a fantasia popular sobre a origem das palavras. "Mitos da escrita", leitura e fala" dirimem preconceitos sobre a comunicação e "mitos de atribuição", as falsas autorias de frases famosas.

A linguagem é ela mesma um mito - a crença secular de que interagimos sobre uma base comum de referências. Como todo mito, mesmo ela não pode ser impermeável a contestações. Ou de crença que nos poupa o trabalho de pensar, vira apenas um estorvo que nos impede de avançar.


Retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 100, Fevereiro de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

domingo, 20 de outubro de 2024

Escolas Normais

 A Etimologia popular que explica o "normal" das antigas instituições preparatórias de professores


São instituições destinadas à formação de professores. Surgiram no Brasil em 1835, a primeira instalada em Niterói, no Rio de Janeiro. A justificativa para a sua criação era a de que os antigos mestres-escolares, os professores da época, não estavam preparados para a prática docente.

Foi na Alemanha, no início de século 19, que os ensinamentos inspirados em Pestalozzi, iniciaram movimento em favor de preparação de professores para o ensino primário, daí surgindo uma educação em bases nacionais privilegiando a formação dos mestres.

A primeira instituição com o nome de Escola Normal funcionou na França, mas foi Frederico II da Prússia (Alemanha) que, terminada a Guerra dos Sete Anos, decidiu instituir um novo sistema educacional no qual o ensino fosse obrigatório e houvesse "normas" para a formação dos professores.

Nesse campo, vastíssimo e fascinante, destaque entre nós para iniciativas pioneiras de Anísio Teixeira, Paulo Freire e Darcy Ribeiro, que plantaram preciosas sementes para as novas gerações. Elas floresceram e frutificaram, mas ainda não chegaram ao ponto ideal. Continuamos caminhando com fé e perseverança mas, quanto mais avançamos, maior o sesquipedal desafio - cujo pote de mel, aliás, está a nosso alcance. Pena que ainda distante, apesar da emanação de seu delicioso aroma...


Texto de Márcio Cotrim retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 101, Março de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

Por um Pouco (42)

"Escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado." - Paulo. (HEBREUS, 11:25.)


Nesta passagem refere-se Paulo à atitude de Moisés, abstendo-se de gozar por um pouco de tempo das suntuosidades da casa do Faraó, a fim de consagrar-se à libertação dos companheiros cativos, criando imagem sublime para definir a posição do espírito encarnado na Terra.

"Por um pouco", o administrador dirige os interesses do povo.

"Por um pouco", o servidor obedece na subalternidade.

"Por um pouco", o usuário retém o dinheiro.

"Por um pouco", o infeliz padece privações.

Ah! Se o homem reparasse a brevidade dos dias de que dispõe na Terra! Se visse a exiguidade dos recursos com que pode contar no vaso de carne em que se movimenta!...

Certamente, semelhante percepção, diante da eternidade, dar-lhe-ia novo conceito da bendita oportunidade, preciosa e rápida, que lhe foi concedida no mundo.

Tudo favorece ou aflige a criatura terrestre, simplesmente por um pouco de tempo.

Muita gente, contudo, vale-se dessa pequenina fração de horas para complicar-se por muitos anos.

É indispensável fixar o cérebro e o coração no exemplo de quantos souberem glorificar a romagem apressada no caminho comum.

Moisés não se deteve a gozar, "por um pouco", no clima faraônico, a fim de deixar-nos a legislação justiceira.

Jesus não se abalançou a disputar, nem mesmo "Por um pouco", em face da crueldade de quantos o perseguiam, de modo a ensinar-nos o segredo divino da Cruz com Ressurreição Eterna.

Paulo não se animou a descansar "por um pouco", depois de encontrar o Mestre às portas de Damasco, de maneira a legar-nos seu exemplo de trabalho e fé viva.

Meu amigo, onde estiveres, lembra-te de que aí permaneces "por um pouco" de tempo. Modera-te na alegria e conforma-te na tristeza, trabalhando sem cessar, na extensão do bem, porque é na demonstração do "pouco" que caminharás para o "muito" de felicidade ou de sofrimento.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Rosa e Machado, aproximações

Neste ano em que se comemora o centenário de nascimento de Guimarães Rosa e o centenário da morte de Machado de Assis, inúmeras aproximações têm sido feitas entre um e outro e há quem, insanamente, se ponha a discutir qual deles foi o maior.

Seja por isto ou porque numa mesma semana uma televisão chamou-me para falar sobre Rosa e num colégio pediram-me para palestrar sobre O Alienista, de Machado, comecei a pensar, por exemplo, em como ambos trataram a questão da razão e da loucura. Vocês se lembram de que Machado em O Alienista narra a história do cientista, que, residindo na pequena Itaguaí, ao examinar detidamente a questão da loucura, começou a perceber que havia mais loucos na cidade do que parecia à primeira vista. E quanto mais definia o que era loucura, mais loucos descobria. De tal modo que acabou colocando quase a cidade inteira no asilo.

Intrigado com suas próprias conclusões, partiu para nova experiência: já que a maioria era louca, então os sãos é que eram uma anomalia, portanto, estes deveriam ser recolhidos ao asilo e os loucos postos na rua. Ou seja, experimentou a verdade pelo avesso. Enfim, numa terceira etapa de sua pesquisa o médico humildemente concluiu que as suas duas teorias anteriores estavam erradas. Ele deveria deixar os loucos e os sãos viverem suas vidas e ele é que se internou no asilo convencido de que não sabia nada.

Guimarães, que em muitas de suas histórias tem loucos como personagens, em A Terceira Margem do Rio, narra que um barqueiro, certo dia, cansou-se das duas margens do rio e da vida, e resolveu se instalar com sua canoa ilhada no meio do próprio rio. A família respeitou a sandice do velho dando-lhe o direito de ir viver na real e imaginária terceira margem do rio.

Não há quem não tenha se defrontado com os limites da razão e da loucura, da verdade e da mentira, do certo e do errado. E há uma afinidade entre os grandes escritores: eles, que aparentemente sabem tudo, como diria um personagem de Rosa, sabem que não sabem coisíssima nenhuma. Sabem, isto sim, que existe a loucura da sabedoria e a sabedoria da loucura.

Se eu fosse filósofo, matemático ou estudante de lógica tentaria dar uma contribuição aos estudos literários, demonstrando como Machado e Rosa trabalham a confluência entre a razão e a loucura, e como "a terceira margem do rio" pode ser estudada não só pela matemática, mas pela lógica matemática. O pensamento clássico, com Aristóteles, dizia que A é A e B é B, ou seja, razão é razão, loucura é loucura. Exatamente como o cientista de O Alienista na primeira fase de suas pesquisas ou exatamente como qualquer pessoa normalmente diante de um rio, achando que ele só tem duas margens visíveis.

Mas a vida vai mostrando que não se pode excluir uma terceira via, aquilo que a filosofia chama de "terceiro excluído". Sobre ser autoritário, afirmar que A não é B e B não é A, empobrece a realidade. Machado tenta sempre mostrar os diversos pontos de vista das questões, fugindo de afirmações absolutas. É possível, por exemplo, mostrar que em sua obra há um modelo básico: da inicial duplicidade (A x B) e chega-se à integração (A e B).

E quem pegar os quatro prefácios que Guimarães Rosa escreveu para Tutameia, vai ter uma verdadeira aula de filosofia. Já o subtítulo do livro é revelador: Terceiras Estórias. Ele havia publicado um anterior, Primeiras Estórias. Nunca publicou um Segundas Estórias. Pois nesse livro que, em vez de um, tem quatro prefácios disseminados entre os contos, se observa que ele teoriza ironicamente sobre a relatividade do conhecimento, o absurdo e aquilo que chama de "nada residual". Ele vai brincar com coisas sérias dizendo que o "nada" é "um balão sem pele...", ou que a "rede é uma porção de buracos, amarrados por barbante". Enfim, vai indagando: "O copo com água pela metade: está meio cheio, ou meio vazio?"

Como se vê, há mais coisas entre os números 1 e 2 (A e B) do que supõe nossa analfabética aritmética. Aliás, ele diz: "Entre Abel e Caim, pulou-se um irmão começado por B". Assim, tanto Rosa quanto Machado parecem nos dizer que entre as margens do nosso saber e ignorância o que há mesmo é a "travessia".


Texto de Affonso Romano de Sant'anna retirado do Caderno C do Correio Braziliense, Brasília, domingo, 29 de junho de 2008.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

A arte de ler

 Para escrever com técnica, um autor precisa criar um método de leitura


A primeira metade do trabalho do escritor é a leitura. Ninguém é escritor sem ler. É um vestíbulo que todo escritor tem de atravessar. Digo essa obviedade gigantesca porque a toda hora estou conversando com pessoas que querem ser escritores mas dizem que "não têm tempo para ler", ou então folheio nas livrarias coisas escritas por pessoas que, na melhor das hipóteses, leem livros de receitas, guias de viagem e colunas sociais.

Ler variadamente. Escrever literatura exige que se leia muita literatura, não somente no sentido de grande quantidade mas no de grande variedade. Romances, contos, crônicas, poesias: se você lê com frequência e prazer todos estes gêneros, são maiores as chances de que consiga escrever bem cada um deles.


Dar ritmo

Muita gente escreve excelentes histórias mas tem dificuldades com frases. Falta-lhes ritmo, visualização, sonoridade. Se esse contista tivesse o hábito de ler poesia, assimilaria técnicas que poderiam melhorar sua prosa e tornar mais visíveis as qualidades do seu enredo. Do mesmo modo, um romancista precisa às vezes da capacidade de sintetizar, típica do conto. Um romance é cheio de pequenas cenas que exigem a lisura e a rapidez do conto: o romancista que só lê romances perde isso de vista e estende desnecessariamente o episódio, por lhe faltarem pontos de referência para uma escrita mais compacta.

Reler prestando atenção. Quando lemos um livro pela primeira vez nossa atenção está voltada para a assimilação da história, para o entendimento dos fatos, a visualização do ambiente. Numa segunda leitura, já sabemos como o livro acaba, não temos mais dúvidas quanto a uma série de coisas, e podemos nos concentrar no exame da escrita. Só nessa segunda leitura seremos capazes de perceber detalhes que o autor plantou no início para preparar um efeito no final. Sabendo agora como a história termina, percebemos com mais clareza a evolução dos personagens, a preparação dos efeitos dramáticos.


Anotar

Ler um livro duas vezes é como assistir a uma peça de teatro da plateia e, noutro dia, das coxias do teatro, vendo o vai e vem dos técnicos, a chegada e saída dos atores, as pequenas providências de última hora. Ver o avesso da criação.

Ler anotando. Para muita gente, o que vou dizer agora é um sacrilégio, mas cada um tem seus métodos, e tudo que posso fazer é justificar os meus. Costumo ler de caneta em punho, sublinhando trechos importantes ou esclarecedores, destacando o nome de um personagem quando aparece pela primeira vez (nos romances de fantasia de 800 páginas é fácil esquecer quem é quem), traçando um quadrado em volta de parágrafos com informações essenciais que mais adiante serão necessárias.

Muita gente costuma escrever comentários nas margens; Guimarães Rosa usava o sinal "m%" para dizer "meu, cem por cento", ou seja, algo que era a cara dele. Também é muito útil, principalmente quando lemos textos de não ficção, textos informativos, fazer conexões entre dois trechos do livro; se algo que aparece na página 95 aparece tem a ver com algo da página 208, ponho em cada uma delas uma observação remetendo à outra, ou a várias outras, caso haja.

Isto acaba nos levando a criar, naquelas últimas folhas em branco de todo livro, um índice remissivo para uso próprio. Faço isso sempre que encontro um grande número de informações importantes num livro de estudo (sobre cinema, história, ciência, etc.) e sei que um dia vou precisar delas.

A cada vez que aparece uma, anoto a página no final, e vou compondo um índice que fica mais ou menos assim: "Cinema e Surrealismo: págs. 21 - 58 - 60 - 134 - 227..." Para indicar um trecho mais longo, 125 - 130 (as páginas em que o trecho começa e termina), ou, quando o assunto se prolonga, 125ss (que significa "página 125 e seguintes").

Só sabe a importância disso quem, um dia, fazendo com urgência um artigo ou uma tese, lembra que no livro de Fulano há várias referências ao assunto que lhe interessa, mas vai ter de passar uma noite inteira folheando um volume de 400 páginas em busca de frases específicas, sem lembrar exatamente onde estão.

Falei há pouco de "sacrilégio", e explico: muitos amigos meus têm horror a riscar as páginas de um livro. Acham que isso estraga o livro, e de fato, hoje me arrependo de ter sublinhado com caneta hidrocor, com o entusiasmo da juventude, meu exemplar da 1ª edição de Corpo de Baile, de Guimarães Rosa, aquela em dois volumes. Hoje, guardo intactas as edições mais preciosas dos livros importantes, e compro no sebo uma edição baratinha onde possa meter a caneta à vontade.


Ler pensando

Sempre digo a todo mundo: quando ler alguma coisa muito boa, pare, volte atrás, leia de novo, e pense: "Por que foi que achei isto tão bom?" O escritor produziu um efeito psicológico forte em você, pelo mero uso de algumas palavras. Tente descobrir como esse efeito foi produzido. Pegue um caderno e tente fazer imitações desse efeito. Imitar não é pecado, é estudo. Imitar é tentar reproduzir um efeito, e quando você dominar esse pequeno truque nem vai precisar imitar ninguém: anos depois, no momento da escrita de verdade, ele surgirá, noutro contexto, com outro material, para ajudá-lo a resolver um problema narrativo. Aliás, é bom fazer a mesma coisa (reler e examinar) quando achar algo muito ruim. "Por que não gostei disso?" Responder essa pergunta vai ajudá-lo a ficar mais ligado e não cometer o mesmo erro.


Texto de Bráulio Tavares retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 102, Abril de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

domingo, 13 de outubro de 2024

Palavras sem contrários

 Por mais que palavras como "polícia" e "bandido" sejam opostos, é impossível defini-los como antônimos e há uma razão para isso


Antônimos são palavras que têm significados opostos - pelo menos, segundo a gramática tradicional. Mas o que é o oposto de um significado? Em primeiro lugar, nem toda palavra tem um antônimo (costuma-se dizer que o antônimo de branco é preto, mas qual o antônimo de azul?). Logo, alguns tipos de significado admitem opostos enquanto outros não. O que diferencia um tipo do outro?

Em segundo lugar, o que entendemos exatamente por "oposto"? Sem a clareza do que quer dizer esse termo, a definição de antônimo se torna vaga e subjetiva, como no caso daquele aluno que respondeu à professora que o antônimo de "estudar" é "trabalhar" (e para muitos o antônimo de "trabalhar" é "lecionar").

Existem dois tipos de oposição: por contrariedade e por contradição. Comecemos por este último: contraditórios são dois termos ou duas proposições que diferem apenas pela presença da negação em uma delas, como em "aberto" x "fechado" (isto é, "não aberto") ou "hoje é domingo" x "hoje não é domingo". O contraditório se define por ser o que o outro não é. Nesse sentido, tudo admite um contraditório, mesmo que não haja uma palavra na língua para nomeá-lo. Por exemplo, o contraditório de "azul" é "não azul" (portanto, de qualquer outra cor), o contraditório de "estudar" é "não estudar", e assim por diante. Contraditórios são como os valores 0 e 1 da álgebra booleana, usada na eletrônica digital.

Já os contrários são as duas posições extremas de uma gradação, o 0 e o 1 de uma escala que admite um sem-número de outros valores intermediário possível entre "aberto" e "fechado" (segundo a regra lógica da exclusão de terceiro, uma porta ou está aberta ou está fechada, sem qualquer outra possibilidade), o contrário é o próprio contraditório. Já entre o alto e o baixo há o mediano, assim como entre o branco e o preto há bem mais que 50 tons de cinza.


Quantificável

Em relação a atributos, só pode haver antonímia se a qualidade expressa for quantificável (por exemplo, os pares opositivos bom/mau, grande/pequeno, muito/pouco, claro/escuro, etc., podem ser convertidos numa nota zero a dez em relação aos quesitos "qualidade", "tamanho", "quantidade", "luminosidade", e assim por diante).

Já com respeito a ações, que fazem um sujeito passar de um estado a outro, o antônimo é a palavra que expressa a ação inversa. Assim, se nascer é passar do estado não vivo ao estado vivo, o inverso, ou seja, passar de vivo a não vivo, é morrer. Quando não temos ação, mas apenas um estado, o antônimo é um contraditório: sono (no sentido de "estado de quem dorme") x vigília, sono ("vontade de dormir") x insônia.

Somente de posse de uma compreensão rigorosa do que seja o "oposto" (contrário ou contraditório) de um significado é que podemos compreender por que o antônimo de "Deus" não é "Diabo" (a não ser numa interpretação teológica subjetiva, em que Deus é associado ao bem e ao amor, e o Diabo ao mal e ao ódio, interpretação esta que não está implicada na própria semântica da língua), mas "Deus", assim como "cadeira", não tem antônimo. Isso explica também por que "trabalhar" não é antônimo de "estudar" (nem de "lecionar").

Há uma diferença entre palavra e significado: em certos casos, pode existir o conceito e não a palavra: em francês, por exemplo, "barato" se diz pas cher, isto é, "não caro". Em português, sabemos que algo não caro não é necessariamente barato.

O fato é que temos certa atração pelos opostos, por isso buscamos a todo custo estabelecer dualidades, pares opositivos, como se tudo tivesse seu contrário, e muitas vezes nos esquecemos do meio-termo, do neutro, do nem um nem outro. E, ao sabor de nossa visão particular de mundo, opomos polícia e bandido, trabalhador e vagabundo (ou a burguês, se formos marxistas), cristão a judeu, humano a animal... E, com base nessas falsas oposições, praticamos nossa política de exclusão.


Texto de Aldo Bizzocchi retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 103, Maio de 2014, Editora Segmento, São Paulo. 

sábado, 12 de outubro de 2024

Na Senda Escabrosa (41)

 "Nunca te deixarei, nem te desampararei." - Paulo. (HEBREUS, 13:5.)


A palavra do Senhor não se reporta somente à sustentação da vida física, na subida pedregosa da ascensão.

Muito mais que de pão do corpo, necessitamos de pão do espírito.

Se as células do campo fisiológico sofrem fome e reclamam a sopa comum, as necessidades e desejos, impulsos e emoções da alma provocam, por vezes, aflições desmedidas, exigindo mais ampla alimentação espiritual.

Há momentos de profunda exaustão, em nossas reservas mais íntimas.

As energias parecem esgotadas e as esperanças se retraem apáticas. Instala-se a sombra, dentro de nós, como se espessa noite nos envolvesse.

E qual acontece à Natureza, sob o manto noturno, embora guardemos fontes de entendimento e flores de boa-vontade, na vasta extensão do nosso país interior, tudo permanece velado pelo nevoeiro de nossas inquietações.

O Todo-Misericordioso, contudo, ainda aí, não nos deixa completamente relegados à treva de nossas indecisões e desapontamentos. Assim como faz brilhar as estrelas fulgurantes no alto, desvelando os caminhos constelados do firmamento ao viajor perdido no mundo, acende, no céu de nosso ideais, convicções novas e aspirações mais elevadas, a fim de que nosso espírito não se perca na viagem para a vida superior.

"Nunca te deixarei, nem te desampararei" - promete a Divina Bondade.

Nem solidão, nem abandono.

A Providência Celestial prossegue velando...

Mantenhamos, pois, a confortadora certeza de que toda tempestade é seguida pela atmosfera tranquila e de que não existe noite sem alvorecer.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

O erro poético

 Os equívocos de vocabulário que são fruto de deliciosos tropeços de interpretação


O erro pode ser fonte de criação e fagulha poética. Até o erro produzido por ignorância ou desinformação. João Saldanha contou em uma crônica a discussão que viu num ônibus entre dois sujeitos. Um deles dizia com veemência:

- Você é um indivíduo sem crepúsculo!

Se eu ouvisse isso, ficaria maravilhado com a finura de percepção poética do litigante. Um indivíduo que não tem crepúsculo é decerto um que não conhece sutilezas, transições... Uma beleza, se bem que Saldanha adverte que o cara na verdade quis dizer "sem escrúpulos".

Não muito diferente do locutor de rádio de Campina Grande que escutei, após a conquista de um título pelo Treze, berrar entusiasmado ao microfone:

- A torcida do Galo está comemorando enfurecida!

Pelo contexto, acho que ele quis dizer "eufórica", mas euforia é assim, às vezes ela se sabota a si mesma.

Em outros erros desse tipo - quando estamos ouvindo, e não falando - a palavra que entendemos mal cria um ruído em nossa mente e nosso primeiro esforço é corrigir o ruído, transformando a palavra que não faz sentido em algo que nos é familiar.

Uma vez eu estava no aeroporto e umas senhoras idosas, visivelmente novatas em voos aéreos, pediam explicações sobre o embarque.

A moça da empresa disse a uma:

- Primeiro, a senhora precisa fazer o check-in - e mostrou um bilhete de embarque que tinha à mão.

A senhora voltou para junto das amigas e disse:

- Ela disse que tem de fazer o chequinho, tem de ir ao balcão e pegar aquele chequinho ali - e macacos me mordam se naquele tempo um bilhete de embarque não tinha o formato de cheque bancário.


Sede de sentido

Philip K. Dick dizia que nossa mente tem sede de sentido, sede de que as coisas tenham significado, de que o inexplicável possa ser explicado, não importa como. Em outra situação, vi duas pessoas novatas tentando acessar um site na Web. Uma delas disse:

- Eles falaram que a gente tem de clicar nesse espaçozinho ali em cima e escrever a URL.

A outra, estranhando:

- A o quê?

- AURL, foi o que disseram.

(URL é "Uniform Resource Locator", aquele endereço começando por "http" que a gente digita para chegar aonde quer chegar.)

A outra, num esforço de tradução, perguntou, intrigada:

- A arruela?... - e fez com os dedos a forma circular do objeto.

E a primeira, visivelmente aliviada, repetiu o gesto e disse:

- Sim! Arruela! É tipo um link!

É desse jeito que acabamos chegando ao destino certo por vias tortas, e mesmo virando à direita ao sair da porta podemos dar a volta ao quarteirão e chegar ao prédio vizinho à nossa esquerda. Tipo assim.


Texto de Bráulio Tavares retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, número 104, Junho de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

domingo, 6 de outubro de 2024

Caríssima Henriqueta

 "Tenho o corpo tão leve (quando queiras) que a teu primeiro sopro cederei distraída como um pensamento cortado pela visão da lua em que acaso - mais alto - refloresça."                                                                                                                                  (verso final de Vem, doce morte, de Henriqueta Lisboa, 1950)


A normalista sai do Colégio Sion, em Campanha, e, da cidade natal, a vizinha Lambari, em Minas Gerais, muda-se com a família para o Rio de Janeiro. Ali se torna inspetora de alunos, professora de Literatura Hispano-Americana, tradutora, e vira poeta. Estamos em 1925, quando Henriqueta Lisboa publica seu primeiro livro de poesias, o de corte ainda marcadamente simbolista Fogo-fátuo.

Nas décadas seguintes, ela se afirma como uma das mais delicadas vozes da poesia brasileira, publicando obras que vão pouco a pouco se filiando à chamada segunda geração de modernistas. Em O Menino Poeta, de 1943, pela primeira vez um livro infantil no país escapa dos esquemas pedagógicos e do cunho moralista vigente e se aventura no jogo de palavras, na leitura pelo prazer do texto.

O Modernismo, sua temática e o verso livre em sua poesia vão ganhando espaço em trajetória similar à de Cecília Meirelles. Na correspondência tão afetuosa entre Henriqueta e Mário de Andrade, Querida Henriqueta, encontramos algumas pistas disso: "...tem em você agora, com certa indecisão, imprecisão de divisão, duas pessoas distintas. Uma delas é o poeta, e outra é a professora católica". No decorrer de seus livros, à procura da "realidade lírica e livre da poesia", como lhe aconselhou Mário, Henriqueta, aos poucos, substitui definitivamente a primeira pela segunda, com folgas.


Texto de Marcílio Godoi retirado da revista Língua Portuguesa, Ano 9, Número 105, Julho de 2014, Editora Segmento, São Paulo.

Ante o objetivo (40)

 "Para ver se de algum modo posso chegar à ressurreição." - Paulo. (FILIPENSES, 3:11.)


Alcançaremos o alvo que mantemos em mira:

O avarento sonha com tesouros amoedados e chega ao cofre forte.

O malfeitor comumente ocupa largo tempo, planificando a ação perturbadora, e comete o delito.

O político hábil anseia por autoridade e atinge alto posto no domínio terrestre.

A mulher desprevenida, que concentra as ideias no desperdício das emoções, penetra o campo das aventuras inquietantes.

E cada meta a que nos propomos tem o preço respectivo.

O usuário, para amealhar o dinheiro, quase sempre perde a paz.

O delinquente, para efetuar a falta que delineia, avilta o nome.

O oportunista, para conseguir o lugar de mando, muitas vezes desfigura o caráter.

A mulher desajuizada, para alcançar fantasiosos prazeres, abdica habitualmente, o direito de ser feliz.

Se impostos tão pesados são exigidos na Terra aos que perseguem resultados puramente inferiores, que tributos pagará o espírito que se candidata à glória na vida eterna?

O Mestre na cruz é a resposta para todos os que procuram a sublimidade da ressurreição.

Contemplando esse alvo, soube Paulo buscá-lo através de incompreensões, açoites, aflições e pedradas, servindo constantemente, em nome do Senhor.

Se desejas, por tua vez, chegar ao mesmo destino, centraliza as aspirações no objetivo santificante e segue, com valoroso esforço, na conquista do eterno prêmio.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.